quarta-feira, 23 de abril de 2014

A RETÓRICA E A CATEQUESE


“Interiorizar a palavra é mais do que explicar o sentido das coisas. Use a retórica (a arte de comunicar) na catequese. Falar bem, ajuda a mensagem a fazer  eco junto ao interlocutor.”

Mas afinal, o que é retórica?

Sabe aquele professor ou professora que você adorava ouvir falar? Ou aquele palestrante que prende a platéia com suas palavras? Ou então aquele político que discursa como ninguém? Ou ainda aquele padre cuja homilia é simplesmente maravilhosa? Ou aquele escritor que você sente que diz tudo que você gostaria de dizer?

Todas essas pessoas podem ter aquilo que chamamos de “o dom da palavra”. Ou então, dominar aquilo que chamamos de “retórica”. Que nada mais é do que a arte ou técnica de usar a linguagem para comunicar de forma eficaz e persuasiva a mensagem que quer transmitir.

E para entender um pouco o que é retórica, precisamos voltar no tempo e na história e discutir um pouco de filosofia.

A Retórica nasceu no século V aC, tendo se desenvolvido nos círculos políticos e judiciais da Grécia Antiga. A palavra origina-se do latim rhetórica, que por sua vez vem do grego rhêtorikê e dela também se deriva rhêtôr, que significa orador.

Originalmente a retórica visava persuadir uma audiência dos mais diversos assuntos, mas acabou virando sinônimo da arte de bem falar. Aristóteles, na obra  “Retórica”, lançou as bases para sistematizar o estudo desta arte, tornando-a um dos elementos chave da filosofia junto com a lógica e a dialética.

A retórica foi uma das três chamadas “artes liberais” ensinadas nas universidades da idade média, junto com a lógica e a gramática. Até o século XIX foi parte central da educação ocidental, cujo objetivo era a necessidade de treinar oradores e escritores para convencer audiências mediante argumentos bem constituídos.

A retórica apela à audiência em três frentes: ethos, logos e pathos. Respectivamente: a pessoa do orador, o assunto a ser falado e quem vai receber a mensagem. Se analisarmos cada uma destas frentes, veremos que ela tem muito a ver com nosso trabalho como disseminadores da Palavra.

Comecemos pelo Ethos, que diz respeito ao caráter do orador, que se for íntegro, honesto e responsável conquistará mais facilmente o público. O orador deve possuir certas competências para ter sucesso como a capacidade de dialogar (tanto de comunicar como de ouvir), de optar, de pensar e de se comprometer, por isso, se o orador for uma pessoa cuja opinião se atribui algum valor, idônea, é já é metade do sucesso. 

O Logos é a consideração pelo conteúdo do discurso por parte do orador, se este quer que a mensagem convença. Para isso tem que apresentar claramente o conteúdo e as idéias (tese) que vai defender, selecionar bem os argumentos que fundamentam a tese (argumentos que diminuam as hipóteses de rejeição ou réplica), apresentando os mais fortes no início e repetindo-os no fim, antecipar objeções à tese (para desvalorizar os contra-argumentos) e procurar recursos estilísticos (retórica/arte).

Já o Pathos  define-se pela sensibilidade do público, que é variável em função das características do mesmo. É preciso perceber, por mera intuição, o que o move, a que é sensível, numa expressão: como quebrar o gelo. O orador tem que selecionar as estratégias adequadas para provocar nele (público) as emoções e as paixões necessárias para suscitar a adesão (conversão) e levá-lo a mudar de atitude e de comportamento. O orador mesmo servindo-se ideias racionais, não pode deixar de usar seu carisma e a sua habilidade na oratória.


A elaboração do discurso e sua exposição exigem atenção a cinco dimensões que se complementam, os cinco cânones ou momentos da retórica:  inventio ou invenção, a escolha dos conteúdos do discurso; dispositio ou disposição, organização dos conteúdos num todo estruturado; elocutio ou elocução, a expressão adequada dos conteúdos; memoria, a memorização do discurso e pronuntiatio ou ação, sobre a declamação do discurso, onde a modulação da voz e gestos devem estar de acordo com o conteúdo.

No início, a retórica ocupava-se mais dos discursos políticos falados, ou seja,  a oratória. Mais tarde se alargou e passou a se  ocupar também de textos escritos e, em especial, aos literários, disciplina hoje chamada “estilística”. A retórica enfim,  é uma ciência, no sentido de um estudo estruturado, e uma arte no sentido de uma prática que vem de uma experiência que utiliza uma técnica. 


A oratória, na verdade, é um dos meios pelos quais se manifesta a retórica, mas não o único. Podemos observar que também há retórica na música. Por exemplo: "Para não dizer que não falei das Flores", de Geraldo Vandré, que possuía claramente uma retórica musical contra a ditadura; ou então, na pintura com  o quadro “Guernica” de Picasso, onde se vê uma retórica contra o fascismo e a guerra e, mais obviamente ainda, vê-se muito de retórica na publicidade com todos os apelos consumistas que são utilizados. Logo, a retórica, enquanto método de persuasão, pode se manifestar por todo e qualquer meio de comunicação.


E aí? Deu para entender a importância da retórica na catequese? Um bom orador, com certeza, saberá converter e fazer discípulos missionários de Jesus.

Para finalizar nossa exposição, um pensamento:

“Quem deseja ter razão decerto a terá com o mero fato de possuir língua.” (Goethe).


Ângela Rocha
angprr@gmail.com.br
Catequistas em Formação

SEGUIDORES DO CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO