quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

AINDA SOBRE O “PERSIGNAR-SE”


  (SINAL DA CRUZ NA TESTA, BOCA E CORAÇÃO)

A respeito do sinal da cruz na testa, boca e coração, que fazemos antes da leitura do Evangelho na missa, surgem algumas dúvidas e muitos confundem este sinal com o que a Igreja chama “Persignar-se”, que é benzer-se fazendo três sinais de cruz com o polegar (ou três dedos): um sobre a testa, outro sobre a boca e outro sobre o peito.

Muitos fazem o sinal da cruz desta forma e repetem consigo esta frase: "Pelo sinal da santa cruz, livrai-nos do mal...", ou alguma semelhante. Isto é o que se chama PERSIGNAR-SE, um gesto que se faz em momentos de medo, angústia, ansiedade, aflição, etc.

NA HORA O EVANGELHO, o sentido do sinal, no entanto, foge desse sentido e é feito para RECEBER A PALAVRA que será proclamada: com a inteligência (sinal na fronte), para anunciá-la (sinal na boca); e no coração (sinal no peito), para que ela esteja sempre conosco em nossa vida; e aqui não importa que frases se digam.

Há muita confusão, no entanto, entre o sinal da cruz normal, na testa, no coração, do lado esquerdo e direito. Que é tradição na Igreja, com outro sentido: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O Pai é o “cabeça”, está na nossa mente e inteligência, o Filho é amor, está no nosso coração, e o Espírito Santo nos envolve feito um manto, de ambos os lados do nosso ombro. Há quem diga, no entanto, que o sinal do meio, desce além do meio do peito até o início do estômago, pois Cristo está em nosso âmago.

Podemos "persignar-nos" no momento e quando acharmos necessário, mas, lá, na hora da missa, quando falamos "Evangelho de Jesus Cristo segundo...”, o sinal na fronte, boca e coração, é para acolher a PALAVRA, com a mente , com a boca e o coração. E é isso que se deve ensinar aos catequizandos. “Que a Palavra do Senhor entre em minha mente, saia pela minha boca e permaneça no meu coração.” Esse seria o correto a se pensar ou dizer no momento, mas, o que falar ou recitar na hora é o de menos, importa que eles saibam o sentido do gesto.

Sobre isso, encontramos nos escritos de São Gaudêncio de Bréscia (Bispo do Século IV, um dos patriarcas da Igreja), o seguinte: "Esteja a Palavra de Deus e o sinal da cruz no coração, na boca e na fronte. Em meio à comida, em meio à bebida, em meio às conversas, nas abluções, nos leitos, nas entradas, nas saídas, na alegria, na tristeza". Apesar de ser na ordem inversa da que é utilizada hoje, esse texto ilustra a inegável relação entre a Palavra de Deus e o sinal da cruz. E também dá margem a se fazer o gesto a qualquer momento, com diferentes significados.

Nossa Igreja é muito rica em história e tradições, muitas coisas herdamos dos Santos Padres da Igreja: Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Tomás e muitos outros. O que acontece ao longo do tempo, é que o povo vai "adaptando" e modificando conforme suas “necessidades” pessoais e da comunidade. São as chamadas "crendices populares". Ao catequista cabe estudo e formação para não cair na tentação de perpetuar essas crendices e saber separá-las da tradição da Igreja.

Mas, não é preciso muito estudo para deduzir que, ANTES DA PROCLAMAÇÃO DO EVANGELHO, não é preciso usar o sentido de persignar-se utilizado pelo povo (pedir proteção ou perdão, livrar do mal), afinal já pedimos perdão no ato penitencial e fizemos, nas preces, nossos pedidos de proteção e ajuda; neste momento em particular, o sinal na fronte, na boca e no coração, é de ACOLHIDA da Palavra.

Angela Rocha
Catequista


SEGUIDORES DO CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO