terça-feira, 2 de junho de 2015

LIDERANÇA X INVEJA - PARTE IV


Precisamos compreender que há em todos os seres humanos um desejo imenso de se superar, mostrar que é útil e que seu desempenho agrada a todos com quem ele convive. É aquilo de “preciso ser amado”.

Nesta visão nos envolvemos no mais alto grau de estresse por ocasião, por exemplo, de “trocas” de lideranças ou coordenadores num grupo. Quem substitui certamente vai procurar um desempenho melhor que do líder anterior, gerando um julgamento de comparação. E esta comparação de “melhor” ou “pior” provoca abalo considerável no grupo: inveja, fofoca, insatisfação. Não raras vezes, na busca pelo “melhor” abandona-se planejamentos feitos e projetos em andamentos. Em situações como essa é que se percebe quem tem dom de liderança, quem planeja e sabe as consequências de seus atos. Nada causa mais insatisfação do que mudanças bruscas de direção. O verdadeiro líder é aquele se sabe o seu potencial e valoriza o trabalho deixado pelo outro, complementa o certo e corrige o errado, sem ferir a ninguém. O líder não muda: reinventa. Inveja, nem pensar!

A inveja é um olhar amargurado sobre o brilho dos outros, que nasce da “comparação” daquilo que eu tenho e sou, em contraste com aquilo que outro tem e é! E como isso gera insatisfação quando a gente se vê “menos” e “menor”!

A inveja é um sentimento causado pela nossa incapacidade de conviver com aquilo de bom que os nossos olhos veem nos outros, mas que, no fundo, achamos que deveria ser e acontecer conosco.

Mas, certamente que, para uma doença tão destrutiva como a inveja, deve ter uma “cura”. Ou não? Claro que tem!
  
E o que pode ser o contrário disso? Que sentimento nos fará satisfeitos com a gente mesmo, sem inveja e comparação?  É o...

CONTENTAMENTO!!!


O CONTENTAMENTO é uma virtude que nasce da “saciedade”, da satisfação com aquilo que somos e fazemos, é estar contente com a vida em suas múltiplas dimensões. O contentamento não nos leva a comparação competitiva, mas sim, nos ajuda a ver no sucesso do outro, uma inspiração para sairmos do lugar, para sermos melhores! Este é um aspecto importante, uma vez que não se pode confundir contentamento com uma acomodação, o ficar na “mesmice” sem fim. Eu não preciso da inveja para crescer, pois, se sou feliz com o que já alcancei, posso me inspirar no brilho do outro para ir além. O contentamento me ajuda a lançar um olhar feliz sobre o outro e me livra de desejar a felicidade do outro, pois esta felicidade já está em mim mesma!


Mas, uma coisa bem difícil de acontecer é “assumir” a inveja, principalmente como pecado, no contexto da liderança. Um escritor brasileiro definiu a inveja como “o mal secreto”. De todos os sete pecados capitais, é o menos admitido publicamente. Não é a toa que a palavra vem do latim envidare, que originalmente significa o “olhar de lado, de soslaio, escondido”. 

Se isso é possível até no contexto da família, é especialmente verdadeiro no contexto da liderança, onde a competição e comparação são ingredientes férteis para fazer nascer a inveja no coração do líder.  Admitir esta inveja publicamente é ter que revelar também os níveis internos de insatisfação e os externos de ambição. Isto é muito ruim para a nossa máscara social, especialmente a dos líderes que, não raro, se escondem por trás de sua “persona publica”, que nem sempre correspondente à pessoa que se é em particular.

Um caso clássico de inveja na Bíblia é o de Saul, que tentou destruir Davi porque tinha inveja deste e porque julgava que Davi queria lhe tirar o poder. Ainda que bíblico, este é um assunto que se explora pouco nos nossos círculos, não é mesmo? E por que isso acontece? 

Além das razões já expostas, a inveja está ausente das nossas discussões e pregações porque, infelizmente, temos pouca orientação a respeito da nossa “vida interior”.  Na maioria das vezes nos são oferecidas direções e formações para lidarmos com a vida “fora de nós”: nosso comportamento moral, nossa vida social, financeira, etc. Vamos então deixando de abordar as realidades próprias do nosso mundo interior e, como inveja é um sentimento próprio da nossa interioridade, não gostamos muito de discuti-la em público.
Agora nos voltemos para a liderança na Igreja. O que causa a inveja numa pastoral? Quais os sinais que indicam que um líder já está sendo acometido deste sentimento? Na verdade as causas também são os sintomas: 
- Competição e comparação desenfreada com os outros;
- Profunda e constante insatisfação com sua realidade, ainda que mudanças e conquistas aconteçam;
- Idealização constante da condição de liderança do outro;
- Construção desenfreada de um império pessoal ao invés do Reino de Deus;
- Vaidade e centralização no EU, que acaba insaciável no seu apetite de glória pessoal;
- Pequena raiva ou forte ira quando ouve alguma coisa boa a respeito de outro líder;
- Incapacidade de conviver com o fato de que existem outros líderes mais capazes e com resultados visíveis maiores...

Agora vamos analisar como fazer a “prevenção” deste mal. Muito mais que um antídoto, o contentamento previne que a inveja aflore. Podemos ver na própria Bíblia que o Contentamento veio antes da inveja. Contemplando a Criação, Deus disse: "Está bom", e assim  "inaugurou" a virtude do contentamento. Portanto, contente consigo e sua criação, Deus descansa. E o descanso é a consequência natural do contentamento, pois ele traz uma forte serenidade interior que nos levar a entrar no descanso divino. A inveja veio depois, é fruto do pecado humano. Portanto, mas do que um antídoto contra a inveja, o contentamento vem, na ordem divina, em primeiro lugar e, sendo assim, a inveja não terá lugar!

E na liderança o contentamento, a inovação e a superação exigidas de um líder, precisam conviver. O contentamento jamais pode se confundir com uma medíocre acomodação. Inovar e superar são necessidades imperiosas para os líderes que desejam crescer.  O que vai importar aqui é qual a motivação orientadora desta inovação e superação. Se estas atitudes estiverem atreladas ao sentimento de inveja, de competição e de superação do brilho do outro, então, o contentamento se foi. Porém, se forem fruto de uma autêntica busca de crescimento sem comparações invejosas, então podem conviver harmonicamente com o contentamento! Vou buscar ser melhor para fazer melhor. Essa é a premissa.

Nas nossas conversas anteriores, falamos sobre a fofoca e como ela pode ser “detonada”. O s sentimentos de inveja, quando percebidos numa equipe também podem ser tratados da mesma forma. Problemas somente se resolvem quando resolvemos enfrentá-los. Eles não passam automaticamente ou somem no ar. Assim, no primeiro sinal de inveja numa equipe, o passo mais elementar é uma saudável tentativa de trazer a tona a inveja escondida. Isto pode ser feito em conversas particulares com os envolvidos, mostrando-lhes que o caminho do contentamento é sempre melhor.

E, porque em Deus estou tranquilo... 

"Senhor, meu coração não se eleva e nem meus olhos se alteiam;
não ando atrás de grandezas, nem de maravilhas que me ultrapassem.
Antes me acalmo e tranquilizo, como criança desmamada no colo da mãe,
como criança desmamada estão em mim os meus desejos.
Israel, põe em Deus tua esperança
Desde agora e para sempre!"

(Salmo do contentamento:131)

(Texto foi baseado no livro “Inveja e Contentamento”, de Eduardo Rosa Pedreira, Doutor em Teologia pela PUC-RJ, professor da FGV).


Apostila de Liderança Cristã.
Ângela Rocha
Ilustrações: Dinha Pinheiro
Grupo Catequistas em Formação


SEGUIDORES DO CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO