quinta-feira, 14 de julho de 2016

MAS, QUEM É ESTE HOMEM? (1)

 Transcendência não é distância nem lonjura… é interioridade, intimidade… não é ultrapassar uma distância, mas ultrapassar a superficialidade…
O melhor da nossa Vida está sempre marcado por pessoas que conhecemos. Antes do melhor que vivemos, no início de cada etapa de “Vida cheia e em cheio”, podemos sempre dizer com certeza absoluta: “Hummm… apareceu alguém! ”
A verdade é que precisamos conhecer gente boa para sermos felizes. Não é?
Era uma vez um homem encantador chamado Jesus. Lá na aldeia dele, e depois por onde andou, todos o chamavam “Yeshu”, o diminutivo de “Yeshuah”. E chega de falar dele no passado… Porque, a verdade é que Jesus é um homem fascinante! Exerce um extraordinário poder de atração e à medida que o vamos conhecendo, damo-nos conta que ele se transcende a si mesmo. Não tem em si o fim de si mesmo, é porta aberta a um Mistério de Vida Maior ao qual ele pertence inteiro…
Esse Mistério percebemos que não é “daqui”, mas também não é “de longe”… é Íntimo! Talvez seja esse o verdadeiro significado da transcendência… a absoluta intimidade ou interioridade… Percebemos isso nele. Transcendência não é distância nem lonjura… é interioridade, intimidade… não é ultrapassar uma distância, mas ultrapassar a superficialidade…
Ele é assim, encantador, e abre-nos a mundos sempre novos, e sempre próximos…
Todos o sentem, ao mesmo tempo, como alguém admiravelmente próximo e inquietantemente “outro”, único… numa maneira de o sentirmos único que nos faz perguntar “Quem é ele? ” E “O que o habita? ”… Desde o princípio que é assim, que estas perguntas surgem no convívio com ele.
É alguém com uma capacidade extraordinária de “sintonizar”, de fazer-nos experimentar a comunhão. Nesta capacidade de sintonizar conosco, convida-nos a entrar em intimidade consigo. Se deixamos, percebemo-nos mergulhados no seu próprio ambiente interior de intimidade, ou seja, na sua maneira de falar com Deus, de olhar para as pessoas, de interpretar os acontecimentos e de lidar com as situações…
Quando nos convida a entrarmos em intimidade com ele, está nos convidando a entrarmos na intimidade dele!
Não é um amigo fácil de se ter… Porque não coincide conosco! Um homem encantador dificilmente é daqueles “porreiraços” que nunca nos dizem mais do que “É isso sim senhor! ” Espanta-nos a sua maneira de fazer algumas coisas, desconcertam-nos coisas que diz, provocam-nos convites que nos faz, doem-nos até feridas em que nos toca às vezes…
Mas parece que não conseguimos abdicar dele, quando o conhecemos a ponto de o amarmos… Nem quereríamos nunca que ele fosse diferente, apesar de às vezes nos queixarmos.
É espantoso como nele coabitam de maneira tão harmoniosa a tolerância e a exigência… Que mistério de grandeza humana o Espírito Santo faz acontecer no seu íntimo! Que fidelidade a sua aos apelos deste Espírito para se ter constituído um Ser Humano deste “tamanho”! Como dizia um teólogo há umas décadas, Leonardo Boff: “Humano tão humano?! Só pode ser Deus mesmo! ” Porque o Divino não é o contrário do Humano… antes, a sua Plenitude!
Aqueles que se sentiam mais interpelados por ele, já nos relatos evangélicos, e o seguiam, acabavam sempre por andar atrás dele a tentar descobrir o que tinham realmente feito! Segui-lo era uma experiência paradoxal, ambígua, às vezes… e, sobretudo, “custosa” de encaixar dentro dos esquemas pré-concebidos que levavam com eles quando se tinham decidido a segui-lo…
Iam percebendo que era preciso nascer de novo para ser discípulo de um Mestre assim…
Era um homem com uma capacidade de acolhimento e tolerância como nunca tinham visto, mas que ao mesmo tempo fazia acontecer dentro deles um apelo de exigência tão profundo, um convite à mudança tão intenso que às vezes lhes pareceria o Mestre quase uma “ameaça”, como quem se preparava para lhes tirar tudo…
Por isso até o tentavam converter aos seus próprios esquemas e lógicas… Pedro, Tiago e João, de maneira particular, bem podiam dar testemunho disso, e como lhes correram mal as tentativas…
Nos evangelhos encontramos pedaços destas dificuldades dos discípulos com Jesus e de Jesus com os discípulos e com os “candidatos a”… Se puder, leia na bíblia: Lucas 9, 43-62. Se é possível leia agora mesmo, online, clica aqui e leia a partir do versículo 43.
É claro que ser discípulo de Jesus não é para todos… mas também não é para os melhores! É para os que têm “aquilo”… que eu não sei te explicar o que é, mas que tem a ver com a capacidade de deixar Jesus mandar, entregar-lhe o domínio, ser capaz de fechar os olhos e admitir que ele não falhará, mesmo se nós falharmos… tem a ver com confiança… tem a ver com ser maior do que as regras da sensatez que nos faz querer ser meninos bem-comportados a vida toda…
Ser discípulo de Jesus não é para todos… mas também não é para os melhores! É para os que têm “aquilo”… que eu não sei dizer o que é ao certo mas parece-me que tem a ver com deixar-se arrebanhar pela causa e ser capaz de mudanças… “aquilo” acho que tem a ver com ser capaz de depositar Fé em alguém…
O seguimento de Jesus é uma experiência de Fé. Para nós, hoje, é fácil confundirmos Fé em Jesus com a crença nos dogmas e títulos cristológicos: chamamos-lhe Filho de Deus e dizemos que acreditamos; dizemos que ressuscitou e acreditamos… Mas ter Fé em alguém é coisa diferente, não é? [Depois, continuo...]
SHALOM

Rui Santiago, cssr

SEGUIDORES DO CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO