sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

HOMILIA DO DOMINGO: A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

                      HOMILIA DO 2º DOMINGO DA QUARESMA - ANO B

A Quaresma e a Páscoa manifestam dois momentos da nossa existência. Por um lado, enfrentamos a cruz, a dor, o drama, a renúncia, as lágrimas. Por outro lado, temos a vida, a alegria, o gozo, a paz, a ressurreição. O Mistério Pascal é composto das realidades de morte e ressurreição, cruz e vida.


Abraão enfrentou a dor da renúncia, quando o Senhor pediu o sacrifício de seu filho amado e único. O Primogênito deveria ser consagrado a Deus e Abraão levou isso a sério, não se opondo ao desejo divino. No momento crucial, Deus poupou a vida de Isaac e se alegrou pela fidelidade de seu servo.  A dor de Abraão não é sem sentido, mas é sinal de fidelidade. Desta dor, nasce a vida. Também somos convidados a renunciar, em algumas ocasiões, aquilo que nos é precioso. Precisamos identificar o que é o nosso Isaac. O Senhor o convida a oferecer alguma coisa a Ele. O que podemos oferecer? Deus fará a renúncia se transformar em alegria.


O sacrifício de Abraão prefigura o sacrifício divino. Deus ofereceu seu próprio filho e ofereceu-se a si mesmo. Nas palavras de Paulo, se Deus é capaz de oferecer seu próprio filho, como não nos daria tudo junto a Ele (cf. Rm 8, 32). Deus deseja nos dar a vida.


No Tabor, Deus antecipa a sua ressurreição, concede gostinho prévio do que espera os discípulos.  Mas não deixem que fiquem sem o monte, pois a cruz os espera. Por vezes, discursos romantizados falam da alegria desse fabricar tendas para que se usufrua das consolações divinas. No entanto, Jesus deixa claro que não quer tendas, pois estas simbolizam o imobilismo, o comodismo diante da vida e da missão. É preciso descer do Monte Tabor.


Na lógica do Evangelho não existe ressurreição sem cruz e não existe cruz sem a exposição gratificante da Transfiguração do Senhor. Poderíamos esperar o Deus das gratificações, do milagre, da prosperidade, da religião, utilitarista que afeita ao tempo de Pós-Modernidade. Mas Deus nos quer seguidores capazes de enfrentar a cruz.


Porém, a cruz não deve ser uma busca do sofrimento em si mesmo. Deve ser a doação de nosso tempo, de nossos sentimentos, de nossos esforços, da nossa energia em função do bem, dos irmão. A cruz torna-se possível pela graça. A transfiguração é o sinal do combustível que Deu nos concede para que a cruz não se torne um fardo pesado, mas um caminho para a vida verdadeira. A Quaresma é uma oportunidade para que Deus conceda esta força que nos faz oferecer a vida. Mesmo diante das propagandas do valor da preservação de si como caminho para a felicidade, a Palavra de Deus é um apelo forte que nos conduz a fazer da vida um dom. Não construamos tendas que escondem a realidade, mas tenhamos a coragem de descer do monte para que o Mistério da Páscoa aconteça em nossa vida.

Pe. Roberto Nentwig
Arquidiocese de Curitiba- PR   


FONTE: 
NENTWIG, Roberto. O Vosso Reino que também é nosso. Reflexões Homiléticas - Ano B. Curitiba; Editora Arquidiocesana, 2015. pg. 79.



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