sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

QUARESMA - TUDO COMEÇA DE NOVO



O deserto é o lugar onde ficamos totalmente desprotegidos. Lá estamos sozinhos frente a frente com nós mesmos, com nosso vazio interior, nosso desamparo, nossa solidão, com o imenso nada ao redor e dentro do coração” (Grün-Reepen).

Não faz muito tempo despedíamo-nos do tempo do Natal. Em começos de janeiro guardamos as imagens do presépio, desmontamos a árvore de natal com suas bolas multicoloridas e aquelas luzinhas chinesas que piscam, piscam sempre. Lá no sótão, ou naquela prateleira da área de serviço, descansam Maria e José, o Menino e pastores e também os magos, os carneiros dos pastores, a manjedoura do menino. E agora tiramos outra caixa, a caixa da quaresma. Talvez não. Talvez simplesmente nesta 4ª-feira das cinzas chegam até nós palavras que perdemos um pouco a prática de pronunciar: esmola, jejum e oração. Elas estão na caixa de papelão da memória. Na verdade, tiramos não de caixas de papelão, mas do baú de nossa própria vida.

A Palavra do Senhor vem nos acordar. Primeiro, cinzas em nossas frontes e essa proposta da esmola, do jejum e da oração. Mas afinal de contas nós, cristãos do século XXI, não corremos o risco de parecer antiquados, repetindo essas histórias de comer menos, de ficar pensando nos outros que precisam de dinheiro e de “perder” tempo com a oração? Essas práticas que tiramos do baú têm sentido? Temos pressa. Temos que aproveitar a vida…. Essa proposta quaresmal parece nos impedir de seguir os tempos…

Mas atenção! Não podemos perder e desperdiçar o tempo da quaresma. Entramos no templo. Mudaram-se os paramentos do verde para o roxo, deixou-se o Glória nas alturas. Antífonas, leituras, hinos e cânticos nos falam da mudança do coração, de um tempo favorável. Tudo começa com essas cinzas na fronte. Sacramental, símbolo. Somos fragilidade. Nada de nariz arrebitado. Importante ceder o lugar para o outro. Somos fragilidade, pó, poeira, cinza. Não dá para entrar correndo no templo para receber as cinzas se nosso coração não der tempo ao tempo para o recolhimento e para tomarmos consciência do quanto somos odiosos com nossas posturas cheias, bem cheias, de egoísmo e de autossuficiência. Nada de praticar a justiça diante dos homens, para que vejam e digam que somos os tais… os melhores… nada de ritualismo vazio. As aparências enganam. Desnudar o coração…

Lutamos, trabalhamos, vivemos dignamente. Precisamos pensar em nós…. Para o cristão, no entanto, não tem cabimento pensar apenas em si. Quaresma é tempo de partilha, de aprendizado do dom de si, de desejo dar ao outro aquilo que existe dentro de nós: um louco desejo de amor. Vestir os nus, colocar leite na mamadeira das crianças, fazer uma campanha para esses desempregados. Esmola? Sim e não. Solidariedade. Fazer-se dom. Se dermos o nome de esmola a este gesto do dom dos bens e de nós mesmos, discretamente, sem que a mão direita saiba o que faz a esquerda, teremos vivido uma gigantesca quaresma. Os outros, os outros, sempre os outros. Cristo costuma marcar encontro conosco nos outros. Preciso pensar nisso.

Essa gente toda que somos nós, adolescentes e jovens, adultos e pessoas maduras nesse tempo da quaresma precisamos reencontrar o gosto pela intimidade com o Senhor na oração. Fazer silêncio, escutar os gritos do coração, ler a Escritura com os olhos do interior. Nada de oração alarido, gritaria. Palavras sim, mas palavras que brotem de nosso nó interior. Oração dos salmos, oração da Eucaristia, sempre uma oração que parta de nossa verdade mais íntima. Oração feita no quarto, com porta fechada. A quantas anda nossa intimidade com o Senhor?

Quaresma tempo de jejum. De privação de alimentos, certamente. Uma dieta espiritual sóbria nesse mundo de consumismo. Quaresma tempo de protesto contra essa sociedade de consumo, de cerveja o tempo todo, de requintes, de todas as gorduras que nos fazem seres obesos, lentos, cansados, pesados. Jejum de nós mesmos.

Sim, vamos entrar no tempo da quaresma, no deserto da quaresma… Mateus nos ajuda com sua insistência na transparência: esmola, oração e jejum, mas feitos a partir de nossa verdade e sem alarido, tudo discretamente.

Quaresma, tempo de conversão: “Converter-se não é em primeiro lugar passar do vício para a virtude, mas viver uma mudança radical: aceitar de não fazer sua vida sozinho, como numa queda de braço, mas acolher em Jesus a iniciativa de Deus, a gratuidade de seu Amor, de seu chamamento e de seus dons. No começo de tudo, não há mais o eu, o homem, mas o Amor de Deus” (Michel Hubaut).

“No deserto topamos com nossos limites, descobrimos que não podemos nos auto ajudar, que precisamos da ajuda de Deus. No deserto nos expomos sem proteção, temos sede de tanta coisa e fome do que nos falta” (Grün-Reepen).

Frei Almir Guimarães
Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil.


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