terça-feira, 27 de março de 2018

TRANSPARÊNCIA TOTAL COM OS RECURSOS DA IGREJA



A prisão de um bispo e de vários padres, na Diocese de Formosa em Goiás, por suspeita de desvio de dinheiro, mostra o quão frágil é a administração e a gestão de muitas comunidades.

A suspeita que recai sobre eles é do desvio do dinheiro do dízimo e das contribuições dos fiéis. Algo em torno de R$ 1,5 milhões. Um escândalo. Imagine ao ver uma notícia dessas em programas de grande audiência como o Fantástico, ou Jornal Nacional, como é que as pessoas se "empolgam" para fazer uma doação no dia nacional da coleta, como foi o pedido da Igreja em todo o Brasil no último domingo, em pleno dia de Ramos? Um constrangimento dos maiores. 

No caso específico da Diocese de Formosa em Goiás, a denúncia foi feita por 30 leigos da comunidade. Pelo que fiquei sabendo, primeiro eles fizeram a denúncia para a própria Igreja, que não fez nada. Depois, cansados de ver as falcatruas e ninguém fazer nada, foram até o Ministério Público onde fizeram denuncia oficial. E o resultado final, foi esse: o Bispo e cinco padres tiveram prisão preventiva decretada e ainda estão presos.

Há quem ainda se incomode quando alguém sugere a criação de conselhos financeiros dentro de paróquias, ou até mesmo conselhos fiscais, daqueles que fiscalizam mesmo as contas e toda e qualquer movimentação financeira. É bom lembrar, que os padres não são formados para gestão de negócios, mas sim, para a gestão de pessoas. A Igreja não é um negócio. E nem um padre ou um bispo, ninguém é o dono de uma comunidade. Mas acontece que ser gestor de uma comunidade, é também saber gerir recursos, orçamentos e prestação de contas. Lidar com o dinheiro de todos, é algo muito sério e isso não vale apenas para o setor público. Quando a gente fala da gestão do dinheiro, mesmo dentro da Igreja, é preciso transparência total, em qualquer lugar. Por isso, desde que eu me conheço como liderança pastoral, volta e meia o assunto é esse: "Onde foi parar o dinheiro da festa?" "Onde foi parar o dinheiro do dízimo?".

Não podem existir dúvidas, precisamos falar às claras sobre o dinheiro do dízimo, das festas, das rifas, das ações que a comunidade faz em busca de recursos para fazer frente as suas despesas. Isso é gestão. Uma paróquia é formada por várias pessoas, que trabalham de forma anônima, gratuita, para fazer com que as coisas andem. E a gente precisa deste "bendito" dinheiro para sobreviver. Por causa de dúvidas, de falta de esclarecimento e transparência, muitas pessoas desistem da caminhada de evangelização, se incompatilizam com a própria comunidade. A Igreja mesmo, vendo que precisa melhorar este aspecto, tem publicado documentos onde se fala muito de gestão e da responsabilidade com os recursos da comunidade.

Assim como nos inúmeros conselhos, pastorais, encontros, retiros, reuniões falamos de tantas coisas, de tantos caminhos que podemos ou não seguir, acredito que precisamos falar às claras sobre questões financeiras da comunidade. Qual é o caixa? Que total de recursos temos? Quais as nossas necessidades materiais? Onde é investido o dinheiro da comunidade? Onde está a prestação de contas? Quem fiscaliza? Quem presta contas disso? Como podemos ter acesso a estas informações? Quais são as responsabilidades de cada um? E acontece de não se abrir as contas para ninguém... Não pode ser assim. O caixa de uma comunidade, não pode ficar apenas nas mãos de alguns "donos", que chamam para si todas as responsabilidades e decisões.

Hoje eu sou presidente da Câmara de vereadores de Caxias do Sul. O orçamento por aqui é de quase R$ 40 milhões por ano. Tudo precisa ser feito de forma clara. Eu não assino um documento ou cheque sem saber exatamente o que é, qual a necessidade daquele gasto. Somos auditados pelo tribunal de contas, pela controladoria interna, enfim, precisamos fazer as coisas certas. Mas isso só não basta: precisamos deixa transparente nossas ações para que todos possam ter acesso, afinal de contas, lidamos com dinheiro público. Por isso, continuo defendendo que existam conselhos econômicos em cada comunidade, que sejam idôneos, neutros, que fiscalizem com olhar caridoso tudo aquilo que é da comunidade.

Uma comunidade não pode ser apenas de um padre, de um bispo, de um ecônomo. Precisamos de uma vez por todas, falar sobre estas questões com tranquilidade. Transparência no trato de recursos de uma comunidade, deve ser um assunto rotineiro e não um bicho de sete cabeças. Cuidar disso, é cuidar das pessoas. Fiscalizar, zelar pelo que é da comunidade, é também um ato cristão, evangelizador.

Alberto Meneguzzi
Catequista e Jornalista
Vereador em Caxias do Sul – RS.

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