sexta-feira, 28 de setembro de 2018

POR QUE O LIVRO DE ESTER E DANIEL TEM DIFERENTE NÚMERO DE CAPÍTULOS EM ALGUMAS BÍBLIAS?


Uma curiosidade a respeito dos livros bíblicos: Por que a diferença, não só entre a Bíblia protestante e a católica, mas, também, entre as católicas.

Primeiro vamos lembrar que que as bíblias protestantes, não tem livros e trechos que foram escritos originalmente em grego. Isso porque a versão protestante só aceita os originais escritos em hebraico. Assim sendo, nestas bíblias, o livro de Ester não tem no capítulo 10, os versículos 4 a 16 e o livro de Daniel não tem no capítulo 3, os versículos 24 a 90 e os capítulos 13 e14.

O livro de Ester

Observamos que em algumas bíblias, mesmo as católicas, o livro de Ester tem um número diferente de capítulos. O problema da numeração dos capítulos do livro de Ester é oriundo da tradução bíblica de São Jerônimo (+420), a “Vulgata” latina.

No séc. IV d.C. existiam diversas versões latinas da Bíblia, cujos textos discordavam entre si em vários pontos. Considerando esse problema, o papa São Dâmaso atribuiu a São Jerônimo a tarefa de produzir uma nova tradução bíblica para a Igreja ocidental, de língua latina. A Igreja como um todo adotava, desde o princípio, o cânon alexandrino para o Antigo Testamento (Septuaginta ou LXX), oriundo dos judeus da Dispersão, o que resultava em 46 livros (contra 39 do cânon palestinense, definido por volta do ano 90 d.C.) e mais alguns textos adicionais nos livros de Ester e Daniel.

Com efeito, existiam duas versões para o livro de Ester: o texto curto da Palestina (em hebraico) e o texto longo de Alexandria (em grego). Até então, os textos bíblicos não eram divididos em capítulos e versículos (a divisão em capítulos só ocorreu no séc. XIII d.C.).

Como São Jerônimo foi a Belém, na Palestina, realizar sua tarefa de tradução, passou a usar o cânon restrito dos judeus palestinenses – pois queria traduzir os textos diretamente do hebraico – de modo que traduziu o texto curto de Ester, que na prática, fez com que se removesse alguns textos, encontrados no livro de Ester da Septuaginta.

Mas, sabendo que a Igreja cristã adotava o cânon longo, São Jerônimo acabou por acrescentar ao final da sua tradução de Ester, como que em um “apêndice” ou anexo, os demais textos que não encontrou no hebraico. Em outras palavras: ele disponibilizou primeiro o texto hebraico e, a seguir, o texto complementar grego.

Tendo a Vulgata sido adotada como texto bíblico oficial para a Igreja latina, todas as versões em língua vernácula baseadas na Vulgata de São Jerônimo acabaram por disponibilizar também, em Ester, a tradução do texto hebraico seguido da tradução dos complementos gregos.

Assim, quando o arcebispo de Cantuária, Estêvão Langton, em 1214, dividiu a Bíblia em capítulos, dividiu a parte hebraica inicial em 10 capítulos e a parte complementar grega em outros 6 capítulos. Daí encontrarmos algumas Bíblias hoje com 16 capítulos para o livro de Ester, como é o caso da Bíblia Ave-Maria (Ave Maria), da Bíblia de Matos Soares (Paulinas) e da Bíblia de Pereira de Figueiredo (Mirador), pois todas elas seguem diretamente a divisão feita para a Vulgata.

Por outro lado, o preferível e ideal é não deslocar tais textos complementares para o final, mas, deixá-los em seus respectivos contextos, possibilitando uma melhor compreensão da narrativa. Assim considerando, outras Bíblias mantêm apenas 10 capítulos (correspondentes ao texto hebraico), e inserem os complementos gregos nos pontos devidos, renumerando os versículos ou atribuindo a cada “capítulo grego” uma letra do alfabeto; este é o caso da Bíblia de Jerusalém (Paulus), da Bíblia Mensagem de Deus (Loyola), da Bíblia Sagrada Vozes (Vozes) e da Bíblia da CNBB.

Logo, todas as Bíblias católicas ou ortodoxas – seja qual for a forma de numeração adotada para os capítulos – reproduzem o texto completo do livro de Ester, de forma que não é preciso se preocupar quanto a esse detalhe de numeração. Já as Bíblias protestantes, por adotarem o cânon palestinense – definido pelos judeus cerca de 50 anos após a morte de Cristo – reproduzem apenas o texto hebraico e, por essa razão, encontram-se incompletas. Algumas Bíblias ecumênicas (como a TEB da Loyola), visando atender simultaneamente católicos, ortodoxos, protestantes e judeus, reproduzem duas traduções de Ester: o texto curto (hebraico – para judeus palestinenses e protestantes) e o texto longo (grego – para católicos, ortodoxos e judeus etíopes), ambos com 10 capítulos! 

O livro de Daniel

O livro de Daniel na Bíblia cristã é inserido na sessão dos profetas e na Bíblia hebraica se encontra entre os “escritos”. O livro é muito particular, pois o texto original é em 3 línguas diferentes: os capítulos 1 e 8 a 12 são escritos em hebraico; os capítulos 2,4 a 7 e 28 são em aramaico e os capítulos 2, 24-90 e 13 a 14 chegaram até nós em grego.

Os textos em grego são considerados canônicos somente pelos católicos e não existem nas bíblias dos protestantes. Em 2, 24-90 temos o cântico de Azarias, excluído das bíblias protestantes. Nos dois últimos capítulos, também esses não presentes nas bíblias protestantes, temos a história de Susana, acusada injustamente e salva pelo Senhor por meio de Daniel. E ainda Daniel desmascara os sacerdotes de Bel e mata o dragão adorado pelos babiloneses. Por isso é jogado na cova dos leões, de onde é finalmente salvo. Esses dois capítulos do livro chegaram até nós, somente em grego e por isso não foram incluídos nas bíblias dos judeus e, por consequência, na igreja reformada, dos protestantes. Por isso, podemos concluir que os capítulos de Daniel são 12 nas bíblias protestantes, mas 14 nas católicas.


FONTES:
Bíblia de Jerusalém – Paulus 2008.
Luiz da Rosa - http://www.abiblia.org

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