CATEQUESE DO PAPA


 
CATEQUESE DO PAPA FRANCISCO
SOBRE A ORAÇÃO DO PAI NOSSO

O Papa Francisco dedicou 16 catequeses à oração do Pai Nosso: tiveram início em 5 de dezembro de 2018 e foram concluídas dia 22 de maio de 2019.

Catequese sobre o Pai Nosso: 1
05/12/2018

Hoje iniciamos um ciclo de catequeses sobre o “Pai-Nosso”.

Os Evangelhos transmitiram-nos alguns retratos muito vivos de Jesus como homem de oração: Jesus rezava. Não obstante a urgência da missão e a premência de tantas pessoas que o reivindicavam, Jesus sentia a necessidade de se afastar na solidão e de orar. O Evangelho de Marcos narra este pormenor desde a primeira página do ministério público de Jesus (cf. 1, 35). O dia inaugural de Jesus em Cafarnaum concluiu-se de modo triunfal. Ao anoitecer, uma multidão de doentes chegou à porta onde Jesus estava: o Messias prega e cura. Realizam-se as antigas profecias e as expetativas de muitos sofredores: Jesus é o Deus próximo, o Deus que nos liberta. Mas aquela multidão ainda é pequena se for comparada a muitas outras multidões que se reunirão em volta do profeta de Nazaré; em certos momentos trata-se de assembleias oceânicas, e Jesus permanece no centro de tudo, o esperado pelo povo, o êxito da esperança de Israel.

E, no entanto, ele afastava-se; não permanecia refém das expetativas de quem o elegeu líder. Este é um perigo para os líderes: apegar-se demasiado às pessoas, não manter as distâncias. Jesus dá-se conta disto e não permanece refém do povo. Desde a primeira noite de Cafarnaum demonstra que é um Messias original. Na última parte da madrugada, quando já se anunciava a aurora, os discípulos procuravam-no, mas não conseguiam encontrá-lo. Onde está? Até que Pedro finalmente o encontra num lugar isolado, completamente absorto em oração. E diz-lhe: “Todos te procuram! ” (Mc 1, 37). A exclamação parece ser a cláusula ligada a um sucesso plebiscitário, a prova do bom êxito de uma missão.

Mas Jesus diz aos seus discípulos que deve ir para outro lugar; que não é o povo que o procura, mas, antes de tudo, é Ele que procura os outros. Por isso não pode ganhar raízes, mas permanece continuamente peregrino pelas estradas da Galileia (vv. 38-39). E peregrino também rumo ao Pai, isto é: rezando. A caminho em oração. Jesus reza. E tudo acontece numa noite de oração.

Nalgumas páginas da Escritura parece que principalmente é a oração de Jesus, a sua intimidade com o Pai, que governa tudo. Por exemplo, será assim sobretudo na noite do Getsêmani. O último trecho do caminho de Jesus (absolutamente o mais difícil entre os que tinha percorrido) parece encontrar o seu sentido na escuta contínua que Jesus oferece ao Pai. Uma oração certamente não fácil, aliás, uma verdadeira “agonia”, no sentido agonístico dos atletas, e, no entanto, uma prece capaz de apoiar o caminho da cruz.

Eis o ponto essencial: ali Jesus rezava.

Jesus orava com intensidade nos momentos públicos, partilhando a liturgia do seu povo, mas procurava também lugares afastados, separados do turbilhão do mundo, lugares que permitissem entrar no segredo da sua alma: é o profeta que conhece as pedras do deserto e sobe aos cimos dos montes. As últimas palavras de Jesus, antes de expirar na cruz, foram palavras dos salmos, isto é, da oração, da prece dos judeus: rezava com as orações que a mãe lhe ensinara.

Jesus orava como todos os homens do mundo. E, no entanto, no seu modo de rezar, havia também um mistério, algo que certamente não escapava aos olhos dos seus discípulos, se nos Evangelhos encontramos aquela súplica tão simples e imediata: “Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11, 1). Eles viam Jesus rezar e tinham vontade de aprender a orar: “Senhor, ensina-nos a rezar”. E Jesus não se recusou, não era ciumento da sua intimidade com o Pai, pois veio precisamente para nos introduzir nesta relação com o Pai. E assim torna-se mestre de oração dos seus discípulos, como certamente quer sê-lo para todos nós. Também nós devemos dizer: “Senhor, ensina-me a rezar. Ensina-me”.

Mesmo se rezamos há muitos anos, devemos aprender sempre! A oração do homem, este anseio que nasce de maneira tão natural da nossa alma, talvez seja um dos mistérios mais impenetráveis do universo. E não sabemos sequer se as preces que dirigimos a Deus são efetivamente aquelas que Ele quer que lhe dirijamos. A Bíblia dá-nos inclusive testemunho de orações inoportunas, que no fim são recusadas por Deus: é suficiente recordar a parábola do fariseu e do publicano. Somente este último, o publicano, volta justificado do templo para casa, porque o fariseu era orgulhoso e gostava que as pessoas o vissem rezar e fingia que orava: o coração era frio. E Jesus disse: este não é justificado «porque quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» (Lc18, 14). O primeiro passo para rezar é ser humilde, ir ter com o Pai e dizer: “Olha para mim, sou pecador, débil, malvado”, cada um sabe o que dizer. Mas começa-se sempre com a humildade, e o Senhor ouve. A prece humilde é ouvida pelo Senhor.

Portanto, ao iniciar este ciclo de catequeses sobre a oração de Jesus, o melhor e mais correto que todos deveríamos fazer seria repetir a invocação dos discípulos: “Mestre, ensina-nos a rezar! ”. Será bom, neste tempo de Advento, repetir: “Senhor, ensina-me a rezar”. Todos podemos ir além e rezar melhor; mas pedindo-o ao Senhor: “Senhor, ensina-me a rezar”. Façamos isto neste tempo de Advento e Ele certamente não deixará cair no vazio a nossa invocação.

Catequese sobre o Pai Nosso: 2
12/12/2018

Prossigamos o caminho de catequeses sobre o “Pai-Nosso”, iniciado na semana passada. Jesus põe nos lábios dos seus discípulos uma prece breve, audaz, formada por sete pedidos — um número que na Bíblia não é casual, indica plenitude. Digo audaz, porque se Cristo não a tivesse sugerido, provavelmente nenhum de nós — aliás, nenhum dos teólogos mais famosos! — ousaria rezar a Deus desta maneira.

Com efeito, Jesus convida os seus discípulos a aproximar-se de Deus e a fazer-lhe com confidência alguns pedidos: antes de tudo em relação a Ele e depois em relação a nós. Não há prefácios no “Pai-Nosso”. Jesus não ensina fórmulas para “adular” o Senhor, aliás, convida a pedir-lhe abatendo as barreiras da reverência e do medo. Não diz para se dirigir a Deus chamando-lhe “Omnipotente”, “Altíssimo”, “Tu, que estás tão distante de nós, eu sou miserável”: não, não diz assim, mas simplesmente “Pai”, com toda a simplicidade, como as crianças se dirigem ao pai. E esta palavra “Pai", expressa a confidência e a confiança filial.

A oração do “Pai-Nosso” afunda as suas raízes na realidade concreta do homem. Por exemplo, faz-nos pedir o pão de cada dia: pedido simples, mas essencial, o qual diz que a fé não é uma questão “decorativa”, separada da vida, que intervém quando todas as outras necessidades foram satisfeitas. No máximo, a oração começa com a própria vida. A prece — ensina-nos Jesus — não começa na existência humana quando o estômago está cheio: ao contrário, existe onde quer que haja um homem, um homem qualquer que tem fome, que chora, que luta, que sofre e se pergunta “porquê”. A nossa primeira prece, num certo sentido, foi o gemido que acompanhou o primeiro respiro. Naquele choro de recém-nascido anunciava-se o destino de toda a nossa vida: a nossa fome contínua, a nossa sede perene, a nossa busca de felicidade.

Jesus, na oração, não quer apagar o humano, não o quer anestesiar. Não quer que moderemos as perguntas nem os pedidos aprendendo a suportar tudo. Ao contrário, quer que cada sofrimento, qualquer preocupação, se projete rumo ao céu e se torne diálogo.
Ter fé, dizia uma pessoa, significa acostumar-se ao brado.

Todos deveríamos ser como o Bartimeu do Evangelho (cf. Mc 10, 46-52) — recordemos aquele excerto do Evangelho, Bartimeu, o filho de Timeu — aquele homem cego que mendigava às portas de Jericó. Tinha à sua volta tantas pessoas bondosas que lhe impunham o silêncio: “Cala-te! O Senhor passa. Cala-te. Não incomodes. O Mestre tem muitas coisas a fazer; não o aborreças. Tu importunas com os teus gritos. Não perturbes”. Mas ele não ouvia aqueles conselhos: com santa insistência, pretendia que a sua mísera condição pudesse finalmente encontrar Jesus. E bradava mais alto! E as pessoas educadas: “Não, é o Mestre, por favor! Ficas mal visto! ”. E ele bradava porque queria ver, queria ser curado: “Jesus, tem piedade de mim! ” (v. 47). Jesus restitui-lhe à vista e diz-lhe: “A tua fé te salvou” (v. 52), como que para explicar que o mais decisivo para a sua cura foi aquela prece, aquela invocação bradada com fé, mais forte que o “bom senso” de muitas pessoas que queriam que ele se calasse. A oração não só precede a salvação, mas de certa forma já a contém, pois liberta do desespero de quem não acredita numa saída para tantas situações insuportáveis.

Depois, certamente, os crentes sentem também a necessidade de louvar a Deus. Os evangelhos contêm a exclamação de júbilo que promana do Coração de Jesus, cheio de grata admiração pelo Pai (cf. Mt 11, 25-27). Os primeiros cristãos sentiram até a exigência de acrescentar ao texto do “Pai-Nosso” uma doxologia: “Porque teu é o poder e a glória nos séculos” (Didaqué, 8, 2).

Mas nenhum de nós é obrigado a aceitar a teoria que no passado alguém propôs, isto é, que a oração de pedido seja uma forma tíbia da fé, enquanto que a oração mais autêntica seria o louvor puro, aquele que procura Deus sem o peso de pedido algum. Não, isto não é verdade. A prece de pedido é autêntica, espontânea, é um ato de fé em Deus que é Pai, que é bom, omnipotente. Trata-se de um ato de fé em mim, que sou pequenino, pecador, necessitado. E por isso a oração para pedir algo é muito nobre. Deus é o Pai que tem imensa compaixão por nós, e deseja que os seus filhos lhe falem sem medo, chamando-lhe diretamente “Pai”; ou nas dificuldades dizendo: “Mas Senhor, o que me fizeste? ”. Por isso podemos contar-lhe tudo, até aquilo que na nossa vida permanece distorcido e incompreensível. E prometeu-nos que teria ficado conosco para sempre, até ao último dia que vivermos nesta terra. Rezemos o Pai-Nosso, começando assim, simplesmente: “Pai” ou “Papá”. E Ele compreende-nos e ama-nos muito.

Catequese sobre o Pai Nosso: 3
02/01/2019

Prosseguimos as nossas catequeses sobre o “Pai Nosso”, iluminados pelo mistério do Natal que celebramos há pouco.

O Evangelho de Mateus coloca o texto do “Pai Nosso” em um ponto estratégico, no centro do sermão da montanha (cf 6, 9-13). Entretanto, observamos a cena: Jesus sobe a colina perto do lago, senta-se; em volta dele os seus discípulos mais íntimos e depois uma grande multidão de rostos anônimos. É esta assembleia heterogênea que recebe primeiro a entrega do “Pai nosso”.

A colocação, como dito, é muito significativa; porque neste longo ensinamento que vai sob o nome de “sermão da montanha” (cf Mt 5, 1-7, 27), Jesus condensa os aspectos fundamentais da sua mensagem. O exórdio é como um arco decorado para festa: as bem-aventuranças. Jesus coroa de felicidade uma série de categorias de pessoas que no seu tempo – mas também no nosso! – não eram muito consideradas. Bem-aventurados os pobres, os mansos, os misericordiosos, as pessoas humildes de coração…. Esta é a revolução do Evangelho. Onde há o Evangelho, há revolução. O Evangelho não deixa quieto, nos impele: é revolucionário. Todas as pessoas capazes de amor, os operadores de paz até então tinham acabado às margens da história são, em vez disso, os construtores do Reino de Deus. É como se Jesus dissesse: avante vocês que levam no coração o mistério de um Deus que revelou a sua onipotência no amor e no perdão!

Deste portão de entrada, que vira os valores da história, floresce a novidade do Evangelho. A lei não deve ser abolida, mas precisa de uma nova interpretação, que a reconduza ao seu sentido originário. Se uma pessoa tem o coração bom, predisposto ao amor, então compreende que cada palavra de Deus deve ser encarnada até suas últimas consequências. O amor não tem confins: pode-se amar o próprio cônjuge, o próprio amigo e até mesmo o próprio inimigo com uma perspectiva toda nova. Diz Jesus: “Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos” (Mt 5, 44-45).

Eis o grande segredo que está na base de todo o discurso da montanha: sejam filhos do Pai vosso que está nos céus. Aparentemente estes capítulos do Evangelho de Mateus parecem ser um discurso moral, parecem evocar uma ética tão exigente que pode parecer impraticável, e em vez disso descobrimos que são sobretudo um discurso teológico. O cristão não é uma pessoa que se empenha em ser melhor que os outros: sabe ser pecador como todos. O cristão simplesmente é o homem que diante da nova Sarça Ardente, à revelação de um Deus que não leva o enigma de um nome impronunciável, mas que pede aos seus filhos de invocá-lo com o nome de “Pai”, de deixar-se renovar pela sua potência e refletir um raio da sua bondade por este mundo tão sedento de bem, tão à espera de belas notícias.

Eis, portanto, como Jesus introduz o ensinamento da oração do “Pai nosso”. Ele o faz tomando distância dos grupos do seu tempo. Antes de tudo, os hipócritas: “quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelos homens” (Mt 6, 5). Tem gente que é capaz de fazer orações ateias, sem Deus: e o fazem para serem admirados pelos homens. E quantas vezes nós vemos o escândalo daquelas pessoas que vão à igreja e ficam ali todo o dia ou vão todos os dias e depois vivem odiando os outros ou falando mal do povo. Isso é um escândalo! Melhor não ir à igreja: vive assim, como se fosse ateu. Mas se você vai à igreja, viva como filho, como irmão e dê verdadeiro testemunho, não um contratestemunho. A oração cristã, em vez disso, não tem outro testemunho credível que a própria consciência, onde se entrelaça intensamente um contínuo diálogo com o Pai: “Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo” (Mt 6, 6).

Depois Jesus toma distância da oração dos pagãos: “Não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras” (Mt 6, 7). Aqui, talvez, Jesus alude àquele “captatio benevolentiae” que era a necessária premissa de tantas antigas orações: a divindade tinha que ser um pouco anestesiada por uma longa série de louvores, também de orações. Pensemos naquela cena do Monte Carmelo, quando o profeta Elias desafiou os sacerdotes de Baal. Eles gritavam, dançavam, pediam tantas coisas para que o seu deus o escutasse. E em vez disso Elias estava quieto e o Senhor se revelou a Elias. Os pagãos pensam que falando, falando, falando, falando se reza. E também eu penso em tantos cristãos que acreditam que rezar é – desculpe – “falar a Deus como um papagaio”. Não! Rezar se faz do coração, de dentro. Você em vez disso – diz Jesus – quando rezar, dirija-se a Deus como um filho ao seu pai, que sabe de que coisas precisa antes que lhe peça (cf Mt 6, 8). Poderia ser também uma oração silenciosa, o “Pai nosso”: basta no fundo colocar-se sob o olhar de Deus, recordar-se do seu amor de Pai e isso é suficiente para sermos atendidos.

É belo pensar que o nosso Deus não precisa de sacrifícios para conquistar o seu favor! Não precisa de nada, o nosso Deus: na oração pede somente que nós tenhamos aberto um canal de comunicação com Ele para nos descobrirmos sempre seus filhos amadíssimos. Ele nos ama tanto.

Catequese sobre o Pai Nosso: 4
09/01/2019

A catequese de hoje refere-se ao Evangelho de Lucas. Com efeito, é sobretudo este Evangelho, desde as narrações da infância, que descreve a figura de Cristo numa atmosfera densa de oração. Ele contém os três hinos que cadenciam todos os dias a oração da Igreja: o Benedictus, Magnificat e o Nunc dimittis.

E nesta catequese sobre o Pai-Nosso vamos em frente, e vemos Jesus como orante. Jesus reza! Por exemplo, na narração de Lucas o episódio da Transfiguração deriva de um momento de oração. Diz assim: “Enquanto orava, o seu rosto transformou-se e as suas vestes tornaram-se resplandecentes” (9, 29). Mas cada passo na vida de Jesus é como que impelido pelo sopro do Espírito que o guia em todas as ações. Jesus reza no batismo no Jordão, dialoga com o Pai antes de tomar as decisões mais importantes, retira-se muitas vezes na solidão para orar, intercede por Pedro que em breve o renegará. Diz assim: «Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos joeirar como o trigo; mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça» (Lc 22, 31-32). Isto consola: saber que Jesus reza por nós, ora por mim, por cada um de nós, a fim de que a nossa fé não desfaleça. E isto é verdade! “Mas padre, ainda o faz? ”. Ainda o faz perante o Pai. Jesus reza por mim. Cada um de nós pode dizê-lo. E também podemos dizer a Jesus: “Tu oras por mim, continua a rezar porque preciso disto”. Assim: com coragem!

Até a morte do Messias está imersa num clima de oração, a ponto que as horas da Paixão parecem marcadas por uma calma surpreendente: Jesus consola as mulheres, reza pelos seus crucificadores, promete o paraíso ao bom ladrão e expira dizendo: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23, 46). A prece de Jesus parece atenuar as emoções mais violentas, os desejos de vingança e de desforra, reconcilia o homem com a sua acérrima inimiga, reconcilia o homem com esta inimiga, que é a morte.

É ainda no Evangelho de Lucas que encontramos o pedido, expresso por um dos discípulos, de poderem ser instruídos na oração pelo próprio Jesus. E diz assim: “Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11, 1). Viam que Ele orava. “Ensina-nos — também nós o podemos dizer ao Senhor — Senhor. Bem sei que Tu rezas por mim, mas ensina-me a rezar, para que também eu possa orar”.

Deste pedido — “Senhor, ensina-nos a rezar” — nasce um ensinamento bastante amplo, através do qual Jesus explica aos seus com que palavras e com que sentimentos se devem dirigir a Deus.

A primeira parte deste ensinamento é precisamente o Pai-NossoRezai assim: “Pai, que estais no céu”. “Pai”: esta palavra tão agradável de pronunciar. Nós podemos passar todo o tempo da oração unicamente com esta palavra: “Pai”! E sentir que temos um Pai: não um patrão, nem um padrasto. Não: um Pai! O cristão dirige-se a Deus, chamando-o antes de tudo “Pai”!

Neste ensinamento que Jesus oferece aos seus discípulos é interessante meditar sobre algumas instruções que coroam o texto da oração. Para nos dar confiança, Jesus explica algumas coisas. Elas insistem sobre as atitudes do crente que reza. Por exemplo, há a parábola do amigo importuno, o qual vai perturbar uma família inteira que dorme, porque uma pessoa chegou inesperadamente de uma viagem e ele não tem pão para lhe oferecer. O que diz Jesus àquele que bate à porta e acorda o amigo? “Digo-vos — explica Jesus — que embora não se levante para lhes dar por ser seu amigo, ao menos, levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á tudo quanto precisar” (Lc 11, 8). Com isto quer ensinar-nos a rezar e a insistir na oração. E imediatamente depois cita o exemplo de um pai que tem um filho faminto. Todos vós, pais e avós, que estais aqui, quando o filho ou o neto pede algo, quando tem fome e pede com insistência, depois chora, grita, tem fome: “Qual pai entre vós, se o filho lhe pedir um peixe, porventura lhe dará uma serpente? ” (v. 11). E todos vós tendes a experiência, quando o filho pede algo, vós dais de comer aquilo que ele pede, para o seu bem.

Com estas palavras Jesus dá a entender que Deus responde sempre, que nenhuma oração deixará de ser ouvida, porquê? Porque Ele é Pai e não se esquece dos seus filhos que sofrem.

Sem dúvida, estas afirmações põem-nos em crise, porque parece que muitas das nossas preces não obtêm resultado algum. Quantas vezes pedimos e não fomos atendidos — todos nós fizemos esta experiência — quantas vezes batemos e encontramos uma porta fechada? Nestes momentos, Jesus recomenda-nos para insistir e não desistir. A oração transforma sempre a realidade, sempre. Se não mudam as coisas ao nosso redor, pelo menos nós mudamos, o nosso coração muda. Jesus prometeu o dom do Espírito Santo a cada homem e a cada mulher que reza.

Podemos estar certos de que Deus responderá. A única incerteza é em relação ao tempo, mas não temos dúvida que Ele responderá. Talvez tenhamos que insistir durante a vida inteira, mas Ele responderá! Ele prometeu: Ele não é como um pai que dá uma serpente em vez de um peixe. Não há nada de mais certo: um dia realizar-se-á o desejo de felicidade que todos temos no coração. Jesus diz: “Porventura não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que clamam por Ele dia e noite? ” (Lc 18, 7). Sim, fará justiça, ouvir-nos-á! Aquele dia será de glória e de ressurreição! Rezar é desde já a vitória sobre a solidão e o desespero. Rezar! A oração muda a realidade, não o esqueçamos. Ou muda as coisas ou transforma o nosso coração, mas muda sempre. Rezar é desde já a vitória sobre a solidão e o desespero. É como ver cada fragmento da criação que fervilha no torpor de uma história da qual por vezes não entendemos o porquê. Mas está em movimento, está a caminho, e no final de cada estrada, o que há no fim do nosso caminho? No fim da oração, no final de um tempo em que estamos a rezar, no fim da vida: o que há? Há um Pai que espera tudo e todos de braços abertos. Olhemos para este Pai!

Catequeses sobre o Pai Nosso: 5
16/01/2019

Prosseguindo as catequeses sobre o “Pai-Nosso”, hoje comecemos pela observação de que, no Novo Testamento, parece que a oração deseja chegar ao essencial, até se concentrar numa única palavra: Aba, Pai!

Ouvimos o que São Paulo escreve na Carta aos Romanos: “Porquanto não recebestes um espírito de escravidão, para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: ‘Aba! Pai!’ ” (8, 15). E aos Gálatas, o Apóstolo diz: “A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Aba, Pai! ’’” (Gl 4, 6). Repete-se duas vezes a mesma invocação, na qual está condensada toda a novidade do Evangelho. Depois de ter conhecido Jesus e ouvido a sua pregação, o cristão já não considera Deus como um tirano que se deve temer, já não tem medo mas sente florescer no seu coração a confiança n’Ele: pode falar com o Criador chamando-o “Pai”! A expressão é tão importante para os cristãos, que muitas vezes se conservou intacta na sua forma originária: “Aba”!

É raro que no Novo Testamento as expressões aramaicas não sejam traduzidas em grego. Devemos imaginar que nestas palavras aramaicas tenha permanecido como que “gravada” a voz do próprio Jesus: respeitaram o idioma de Jesus! Na primeira palavra do “Pai-Nosso” encontramos imediatamente a novidade radical da oração cristã.

Não se trata apenas de usar um símbolo — neste caso, a figura do pai — relacionado com o mistério de Deus; ao contrário, trata-se de ter, por assim dizer, todo o mundo de Jesus derramado no próprio coração. Se realizarmos esta operação, poderemos recitar verdadeiramente o “Pai-Nosso”. Dizer “Aba” é algo muito mais íntimo e mais comovedor do que simplesmente chamar a Deus “Pai”. Eis por que motivo alguém propôs traduzir esta palavra aramaica original, “Aba” com “Papá” ou “Paizinho”. Em vez de dizer “Pai nosso”, dizer “Papá, Paizinho”. Nós continuamos a dizer “Pai nosso”, mas com o coração somos convidados a dizer “Papá”, a ter com Deus um relacionamento como o de uma criança com o seu pai, que diz “papá”, diz “paizinho”. Com efeito, estas expressões evocam afeto e calor, algo que nos projeta no contexto da infância: a imagem de uma criança completamente envolvida pelo abraço de um pai que sente ternura infinita por ela. E por isso, caros irmãos e irmãs, para rezar bem é necessário chegar a ter um coração de criança! Não um coração suficiente: assim não se pode rezar bem. Como uma criança no colo do seu pai, do seu papá, do seu paizinho.

Mas certamente são os Evangelhos que nos introduzem melhor no sentido desta palavra. O que significa para Jesus esta palavra? O “Pai-Nosso” adquire sentido e cor, se aprendermos a recitá-lo depois de ter lido, por exemplo, a parábola do pai misericordioso, no capítulo 15 de Lucas (cf. 15, 11-32). Imaginemos esta prece pronunciada pelo filho pródigo, depois de ter experimentado o abraço do seu pai, que tinha esperado por muito tempo, um pai que não se recorda das palavras ofensivas que ele lhe dirigira, um pai que agora lhe faz entender simplesmente a falta que tinha sentido dele. Assim descobrimos como aquelas palavras adquirem vida e força! E interrogamo-nos: como é possível que Tu, ó Deus, conheças unicamente o amor? Tu não conheces o ódio? Não — Deus responderia — Eu só conheço o amor. Onde se encontram em ti a vingança, a pretensão de justiça, a raiva pela tua honra ferida? E Deus responderia: Eu só conheço o amor!

O pai daquela parábola tem modos de agir que recordam muito o espírito de uma mãe. São sobretudo as mães que perdoam os filhos, que os defendem, que não interrompem a empatia em relação a eles, que continuam a amar, mesmo quando eles já não mereceriam mais nada.

É suficiente evocar esta expressão — Aba — para que se desenvolva uma prece cristã. E nas suas Cartas, São Paulo segue este mesmo caminho, e não poderia ser de outra forma, porque é a vereda ensinada por Jesus: esta invocação contém uma força que atrai o resto da oração.

Deus procura-te, mesmo que tu não o procures. Deus ama-te, ainda que tu o tenhas esquecido. Deus vislumbra em ti uma beleza, não obstante tu penses que desperdiçaste inutilmente todos os teus talentos. Deus é não só um pai, mas é como uma mãe que nunca deixa de amar a sua criatura. Por outro lado, há uma “gestação” que dura para sempre, muito além dos nove meses da gestação física; trata-se de uma gestação que gera um circuito infinito de amor.

Para o cristão, rezar significa dizer simplesmente “Aba”, dizer “Papá”, “Paizinho”, “Pai” mas com a confiança de uma criança.

Pode ser que também a nós aconteça percorrer sendas distantes de Deus, como aconteceu com o filho pródigo; ou então, precipitar numa solidão que nos faz sentir abandonados no mundo; ou ainda, errar e ficar paralisados por um sentido de culpa. Nestes momentos difíceis, ainda podemos encontrar a força para rezar, recomeçando pela palavra “Pai”, mas dita com o sentido terno de uma criança: “Aba”, “Papá”. Ele não nos esconderá o seu rosto. Recordai bem: talvez alguém tenha dentro de si coisas desagradáveis, que não sabe como resolver, tanta amargura por ter feito isto e aquilo... Ele não esconderá a sua face. Ele não se fechará no silêncio. Tu dize-lhe “Pai” e Ele responder-te-á. Tu tens um Pai. “Sim, mas eu sou um delinquente...”. Mas tens um Pai que te ama! Diz-lhe “Pai”, começa a rezar assim e, no silêncio, Ele dir-nos-á que nunca nos perdeu de vista. “Mas Pai, eu fiz isto...” — “Nunca te perdi de vista, vi tudo. Mas permaneci sempre ali, perto de ti, fiel ao meu amor por ti”. Esta será a resposta! Nunca vos esqueçais de dizer: “Pai”. Obrigado!

Catequeses sobre o Pai Nosso: 6
13/02/2019

Continuamos o nosso percurso para aprender sempre melhor a rezar como Jesus nos ensinou. Devemos rezar como Ele nos ensinou a fazê-lo.

Ele disse: quando rezar, entra no silêncio do teu quarto, retire-se do mundo, e te dirige a Deus chamando-O “Pai! ”. Jesus quer que os seus discípulos não sejam como hipócritas que rezam em pé nas praças para serem admirados pelo povo (cf Mt 6, 5). Jesus não quer hipocrisia. A verdadeira oração é aquela realizada no segredo da consciência, do coração: inescrutável, visível somente a Deus. Eu e Deus. Essa evita falsidade: com Deus é impossível fingir. É impossível, diante de Deus não há disfarce que tenha poder, Deus conhece assim, nus na consciência, e não se pode fingir. Na raiz do diálogo com Deus há um diálogo silencioso, como o cruzamento de olhares entre duas pessoas que se amam: o homem e Deus trocam olhares, e esta é a oração. Olhar a Deus e deixar-se olhar por Deus: isso é rezar. “Mas, padre, eu não digo palavras…”. Olha para Deus e se deixe olhar por Ele: é uma oração, uma bela oração!

No entanto, apesar da oração do discípulo ser toda confidencial, nunca cai no intimismo. No segredo da consciência, o cristão não deixa o mundo fora das portas do seu quarto, mas leva no coração as pessoas e as situações, os problemas, tantas coisas, tudo leva na oração.

Há uma ausência impressionante no texto do “Pai nosso”. Se eu perguntasse a vocês qual é a ausência impressionante no texto do “Pai nosso”? Não será fácil responder. Falta uma palavra. Pensem todos: o que falta no “Pai nosso”? Pensem, o que falta? Uma palavra que nos nossos tempos – mas talvez sempre – todos têm grande consideração. Qual é a palavra que falta no “Pai nosso” que rezamos todos os dias? Para economizar tempo eu direi: falta a palavra “eu”. Nunca se diz “eu”. Jesus ensina a rezar tendo nos lábios antes de tudo o “Tu” porque a oração cristã é diálogo: “seja santificado o teu nome, venha o teu reino, seja feita a vossa vontade”. Não o meu nome, o meu reino, a minha vontade. Eu não, não vai. E depois passa ao “nós”. Toda a segunda parte do “Pai nosso” é declinada à primeira pessoa do plural: “o pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, não nos deixeis cair em tentação, livrai-nos do mal”. Até mesmo as perguntas mais elementares do homem – como aquela de ter comida para acabar com a fome – são todas no plural. Na oração cristã, ninguém pede o pão para si: dai-me o pão de hoje, não, dai-nos, pede-o para todos, para todos os pobres do mundo. Não esquecer isso, falta a palavra “eu”. Reza-se com o tu e com o nós. É um bom ensinamento de Jesus, não o esqueçam.

Por que? Porque não há espaço para o individualismo no diálogo com Deus. Não há ostentação dos próprios problemas como se nós fôssemos os únicos no mundo a sofrer. Não há oração elevada a Deus que não seja a oração de uma comunidade de irmãos e irmãs, o nós: estamos em comunidade, somos irmãos e irmãs, somos um povo que reza, “nós”. Uma vez o capelão de um presídio me fez uma pergunta: “Diga-me, padre, qual é a palavra contrária ao ‘eu’?. E eu, ingênuo, disse: “Tu”. “Este é o início da guerra. A palavra oposta ao ‘eu’ é ‘nós’, onde há a paz, todos juntos”. É um belo ensinamento que eu recebi daquele padre.

Na oração, um cristão leva todas as dificuldades das pessoas que lhe vivem próximo: quando cai a noite, conta a Deus as dores que encontrou naquele dia; coloca diante Dele tantos rostos, amigos e também hostis; não os afasta com distrações perigosas. Se a pessoa não percebe que à sua volta há tanta gente que sofre, se não se padece pelas lágrimas dos pobres, se é habituado a tudo, então significa que o seu coração…como é? Murcho? Não, pior: é de pedra. Neste caso é bom suplicar ao Senhor que nos toque com o seu Espírito e amoleça o nosso coração: “Amolece, Senhor, o meu coração”. É uma bela oração: “Senhor, amolece o meu coração, para que possa entender e cuidar de todos os problemas, todas as dores dos outros”. O Cristo não passou ileso pelas misérias do mundo: toda vez que percebia uma solidão, uma dor do corpo ou do espírito, provava um sentido forte de compaixão, como o ventre de uma mãe. Esse “sentir compaixão” – não esqueçamos esta palavra tão cristã: sentir compaixão – é um dos verbos-chave do Evangelho: é o que leva o bom samaritano a aproximar-se do homem ferido à beira da estrada, ao contrário dos outros que têm o coração duro.

Podemos nos perguntar: quando rezo, abro-me ao grito de tantas pessoas próximas e distantes? Ou penso na oração como em uma espécie de anestesia, para poder estar mais tranquilo? Jogo ali a pergunta, cada um se responda. Neste caso, serei vítima de um terrível equívoco. Certo, a minha não seria mais uma bela oração cristã. Porque aquele “nós”, que Jesus nos ensinou, me impede de estar em paz sozinho, e me faz sentir responsável pelos meus irmãos e irmãs.

Há homens que aparentemente não procuram Deus, mas Jesus nos faz rezar também por eles, porque Deus procura essas pessoas mais que todos. Jesus não veio para os sãos, mas para os doentes, para os pecadores (cf Lc 5, 31) – isso é, para todos, porque quem pensa ser são, na realidade não o são. Se trabalhamos pela justiça, não nos sintamos melhores que os outros: o pai faz surgir o seu sol sobre os bons e sobre os maus (cf Mt 5, 45). Ama todos o Pai! Aprendemos de Deus que é sempre bom com todos, ao contrário de nós que conseguimos ser bons somente com alguns, com algum que me agrada.

Irmãos e irmãs, santos e pecadores, somos todos irmãos amados do mesmo Pai. E, na noite da vida, seremos julgados sobre o amor, sobre como amamos. Não um amor somente sentimental, mas compassivo e concreto, segundo a regra evangélica – não a esqueçam! –: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 40). Assim diz o Senhor.

Catequeses sobre o Pai Nosso: 7
20/02/2019

Prosseguimos com as catequeses sobre o “Pai nosso”. O primeiro passo de toda oração cristã é o ingresso em um mistério, aquele da paternidade de Deus. Não se pode rezar como papagaios. Ou você entra no mistério, na consciência de que Deus é teu Pai, ou não reza. Se eu quero rezar a Deus meu Pai começo o mistério. Para entender em que medida Deus nos é pai, nós pensamos nas figuras dos nossos pais, mas devemos sempre, em alguma medida, “refiná-las”, purificá-las. Diz isso também o Catecismo da Igreja Católica, que diz assim: “A purificação do coração diz respeito às imagens paternas ou maternas oriundas de nossa história pessoal e cultural, e que influenciam nossa relação com Deus” (n. 2779).

Ninguém de nós teve pais perfeitos, ninguém; como nós, por nossa vez, nunca seremos pais, ou pastores, perfeitos. Todos temos defeitos, todos. As nossas relações de amor as vivemos sempre sob o sinal dos nossos limites e também do nosso egoísmo, por isso são muitas vezes poluídas por desejos de posse ou de manipulação do outro. Por isso às vezes as declarações de amor se transformam em sentimentos de raiva e de hostilidade. Mas, olha, esses dois se amavam tanto na semana passada, hoje se odeiam a morte: vemos isso todos os dias! É por isso, porque todos temos raízes amargas por dentro, que não são boas e às vezes saem e fazem mal.

Eis porque, quando falamos de Deus como “pai”, enquanto pensamos na imagem dos nossos pais, especialmente se nos quiseram bem, ao mesmo tempo devemos ir além. Porque o amor de Deus é aquele do Pai ‘que está nos céus’, segundo a expressão que Jesus nos convida a usar: é o amor total que nós, nesta vida, experimentamos apenas de forma imperfeita. Os homens e as mulheres são eternamente mendigos de amor, somos mendigos de amor, temos necessidade de amor, procuram um lugar onde serem finalmente amados, mas não o encontram. Quantas amizades e quantos amores desiludidos existem no nosso mundo, quantos!

O deus grego do amor, na mitologia, é aquele mais trágico em absoluto: não se entende se é um ser angélico ou um demônio. A mitologia diz que é filho de Poros e de Penía, isso é da astúcia e da pobreza, destinado a levar em si mesmo um pouco da fisionomia desses pais. Daqui podemos pensar na natureza ambivalente do amor humano: capaz de florescer e de viver prepotente em uma hora do dia, e logo depois murchar e morrer; aquele que pega, sempre escapa dele (cf Platão, Simpósio, 203). Há uma expressão do profeta Oseias que enquadra de maneira impiedosa a congênita fraqueza do nosso amor: “O vosso amor é como uma nuvem da manhã, como o orvalho que logo se dissipa” (6, 4). Eis que assim é muitas vezes o nosso amor: uma promessa que se cansa de manter, uma tentativa que logo seca e evapora, um pouco como quando de manhã sai o sol e acaba com o orvalho da noite.

Quantas vezes nós homens amamos deste modo tão frágil e intermitente. Todos temos esta experiência: amamos, mas depois aquele amor acabou ou se tornou fraco. Desejosos de querer bem, nos deparamos com nossos limites, com a pobreza de nossas forças: incapazes de manter uma promessa que nos dias de graça parecia fácil de cumprir. No fundo, até mesmo o apóstolo Pedro teve medo e teve que fugir. O apóstolo Pedro não foi fiel ao amor de Jesus. Tem sempre esta fraqueza que nos faz cair. Somos mendicantes que no caminho correm o risco de nunca encontrar completamente o tesouro que buscam desde o primeiro dia de vida: o amor.

Porém, existe um outro amor, aquele do Pai “que está nos céus”. Ninguém deve duvidar de ser destinatário desse amor. Ama-nos. “Me ama”, podemos dizer. Mesmo se o nosso pai e a nossa mãe não tivessem nos amado – uma hipótese histórica –, há um Deus nos céus que nos ama como ninguém nesta terra jamais fez e nunca poderá fazer. O amor de Deus é constante. Diz o profeta Isaías: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não esqueceria nunca. Eis que estás gravada na palma de minhas mãos” (49, 15-16). Hoje está na moda a tatuagem: “Nas palmas de minhas mãos te desenhei”. Fiz uma tatuagem de você sobre minhas mãos. Eu estou nas mãos de Deus, assim, e não posso tirá-lo. O amor de Deus é como o amor de uma mãe, que nunca se pode esquecer. E se uma mão se esquece? “Eu não me esquecerei”, diz o Senhor. Esse é o amor perfeito de Deus, assim somos amados por Ele. Mesmo se todos os nossos amores terrenos desmoronassem e não restasse na mão nada além de pó, há sempre para todos nós, ardente, o amor único e fiel de Deus.

Na fome de amor que todos sentimos, não buscamos algo que não existe: essa é, em vez disso, o convite a conhecer Deus que é pai. A conversão de Santo Agostinho, por exemplo, passou por este caminho: o jovem e brilhante reitor procurava simplesmente entre as criaturas algo que nenhuma criatura lhe podia dar, até que um dia teve a coragem de levantar o olhar. E naquele dia conheceu Deus. Deus que ama.

A expressão “nos céus” não quer exprimir uma distância, mas uma diversidade radical de amor, uma outra dimensão de amor, um amor incansável, um amor que sempre permanecerá, antes, que sempre está à mão. Basta dizer “Pai nosso que estais nos Céus”, e aquele amor vem.

Portanto, não temer! Nenhum de nós está sozinho. Se por desventura o teu pai terreno tivesse se esquecido de ti e você guardasse rancor dele, não te é negada a experiência fundamental da fé cristã: aquela de saber que és filho muito amado de Deus e que não há nada na vida que possa apagar o seu amor apaixonado por ti.

Catequeses sobre o Pai Nosso: 8
27/02/2019

No nosso percurso de redescoberta da oração do “Pai Nosso”, hoje aprofundaremos a primeira das suas sete invocações, isso é “santificado seja o vosso nome”.

As perguntas do “Pai nosso” são sete, facilmente divididas em dois subgrupos. As três primeiras têm o centro no “Tu” de Deus Pai; as outras quatro têm no centro o “nós” e as nossas necessidades humanas. Na primeira parte, Jesus nos faz entrar nos seus desejos, todos dirigidos ao Pai: “seja santificado o vosso nome, venha o vosso reino, seja feita a vossa vontade”; na segunda é Ele que entra em nós e se faz intérprete das nossas necessidades: o pão cotidiano, o perdão dos pecados, a ajuda na tentação e a libertação do mal.

Aqui está a matriz de toda oração cristã – diria de toda oração humana – que é sempre feita, de um lado, de contemplação de Deus, do seu mistério, da sua beleza e bondade, e, por outro, de sincero e corajoso pedido daquilo que precisamos para viver, e viver bem. Assim, na sua simplicidade e na sua essência, o “Pai nosso” educa quem o reza a não multiplicar palavras vazias – como o próprio Jesus disse – “o vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós o peçais” (Mt 6,8).

Quando falamos com Deus, não o fazemos para revelar a Ele o que temos no coração: Ele o conhece muito melhor que nós mesmos! Se Deus é um mistério para nós, nós, em vez disso, não somos um enigma aos seus olhos (cf Sal 139, 1-4). Deus é como aquelas mães a quem basta um olhar para entender tudo dos filhos: se estão contentes ou tristes, se são sinceros ou se escondem algo.

O primeiro passo da oração cristã é, portanto, a entrega de nós mesmos a Deus, à sua providência. É como dizer: “Senhor, Tu sabes tudo, não é nem preciso que eu te conte a minha dor, peço-te somente que estejas aqui comigo: Tu és a minha esperança”. É interessante notar que Jesus, no discurso da montanha, logo depois de ter transmitido o texto do “Pai Nosso”, exorta-nos a não nos preocuparmos com as coisas. Parece uma contradição: antes nos ensina a pedir o pão cotidiano e depois nos diz “Não se preocupem, portanto, dizendo: o que comeremos? O que beberemos? O que vestiremos? ” (Mt 6, 31). Mas a contradição é apenas aparente: as perguntas do cristão exprimem a confiança no Pai; e é justamente essa confiança que nos faz pedir aquilo de que precisamos sem ânsia e agitação.

É por isso que rezamos dizendo: “Santificado seja o vosso nome! ”. Nesta pergunta – a primeira! “Santificado seja o vosso nome! ” – sente-se toda a admiração de Jesus pela beleza e a grandeza do Pai, e o desejo de que todos o reconheçam e o amem por aquilo que realmente é. E ao mesmo tempo há a súplica que o seu nome seja santificado em nós, na nossa família, na nossa comunidade, no mundo todo. É Deus que santifica, que nos transforma com o seu amor, mas ao mesmo tempo somos também nós que, com o nosso testemunho, manifestamos a santidade de Deus no mundo, tornando presente o seu nome. Deus é santo, mas se nós, se a nossa vida não é santa, há uma grande incoerência! A santidade de Deus deve refletir nas nossas ações, na nossa vida. “Eu sou cristão, Deus é santo, mas eu faço tantas coisas ruins”, não, isso não serve. Isso faz mal, escandaliza e não ajuda.

A santidade de Deus é uma força em expansão, e nós o suplicamos para que quebre rapidamente as barreiras do nosso mundo. Quando Jesus começa a rezar, o primeiro a pagar as consequências é o próprio mal que aflige o mundo. Os espíritos malignos maldizem: ‘O que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para arruinar-nos? Sei quem tu és: o santo de Deus! ’ (Mc 1,24). Nunca se viu uma santidade assim: não preocupada consigo mesma, mas orientada para fora. Uma santidade – aquela de Jesus – que se alarga em círculos concêntricos, como quando se joga uma pedra no lago. O mal tem seus dias contados – o mal não é eterno – o mal não pode mais nos prejudicar: chegou o homem forte que toma posse de sua casa (cf Mc 3,23-27). E esse homem forte é Jesus, que dá também a nós a força para tomar posse de nossa casa interior.

A oração afasta todo medo. O Pai nos ama, o Filho eleva os braços lado a lado com os nossos, o Espírito trabalha em segredo para a redenção do mundo. E nós? Nós não vacilamos na incerteza. Mas temos uma grande certeza: Deus me ama; Jesus deu a vida por mim! O Espírito está dentro de mim. É esta a grande coisa certa. E o mal? Tem medo. E isso é belo.

Catequeses sobre o Pai Nosso: 9
06/03/2019

Quando rezamos o “Pai Nosso”, a segunda invocação com que nos dirigimos a Deus é “venha a nós o vosso Reino” (Mt 6, 10). Depois de ter rezado para que seu nome seja santificado, o fiel exprime o desejo de que se apresse a vinda do seu Reino. Este desejo brota, por assim dizer, do próprio coração de Cristo, que começou a sua pregação na Galileia proclamando: “O tempo completou-se e o reino de Deus está próximo; convertei-vos e credes no Evangelho” (Mc 1, 15). Estas palavras não são uma ameaça, pelo contrário, são um alegre anúncio, uma mensagem de alegria. Jesus não quer levar as pessoas a se converterem semeando o medo do julgamento de Deus ou o sentido de culpa pelo mal cometido. Jesus não faz proselitismo: anuncia, simplesmente. Ao contrário, aquela que Ele traz é à Boa Notícia da salvação, e a partir dessa chama a converter-se. Cada um é convidado a acreditar no “Evangelho”: o senhorio de Deus se fez próximo aos seus filhos. Este é o Evangelho: o senhorio de Deus se fez próximo aos seus filhos. E Jesus anuncia essa coisa maravilhosa, esta graça: Deus, o Pai, nos ama, nos é próximo e nos ensina a caminhar no caminho da santidade.

Os sinais da vinda deste Reino são muitos e todos positivos. Jesus inicia o seu ministério cuidando dos doentes, seja no corpo ou no espírito, daqueles que vivem uma exclusão social – por exemplo os leprosos – os pecadores olhados com desprezo por todos, também por aqueles que eram mais pecadores que eles, mas fingiam ser justos. E como Jesus os chama? “Hipócritas”. O próprio Jesus indica esses sinais, os sinais do Reino de Deus: ‘os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres’ (Mt 11, 5) ”.

“Venha o teu Reino! ”, repete com insistência o cristão quando reza o “Pai Nosso”. Jesus veio; porém o mundo ainda é marcado pelo pecado, povoado por tanta gente que sofre, por pessoas que não se reconciliam e não perdoam, por guerras e por tantas formas de exploração, pensemos no tráfico de crianças, por exemplo. Todos esses fatos são a prova de que a vitória de Cristo ainda não se realizou completamente: tantos homens e mulheres ainda vivem com o coração fechado. É sobretudo nestas situações que emerge dos lábios do cristão a segunda invocação do “Pai Nosso”: “Venha o teu Reino! ”. Que é como dizer: “Pai, precisamos de Ti! Jesus, precisamos de ti, precisamos que em todo lugar e para sempre Tu sejas Senhor em meio a nós! ”. “Venha o teu reino, esteja tu em meio a nós”.

Às vezes nos perguntamos: como este Reino se realiza tão lentamente? Jesus ama falar da sua vitória com a linguagem das parábolas. Por exemplo, diz que o Reino de Deus é similar a um campo onde crescem juntos a boa semente e o joio: o pior erro seria querer intervir logo tirando do mundo aqueles que nos parecem ervas daninhas. Deus não é como nós, Deus tem paciência. Não é com violência que se instaura o Reino no mundo: o seu estilo de propagação é a mansidão (cf Mt 13, 24-30).

O Reino de Deus é certamente uma grande força, a maior que existe, mas não segundo os critérios do mundo; por isso parece nunca ter a maioria absoluta. É como o fermento que se mistura na farinha: aparentemente desaparece, mas é justamente esse que faz fermentar a massa (cf Mt 13,33). Ou é como o grão de mostarda, assim pequeno, quase invisível, que, porém, leva em si a grande força da natureza, e uma vez crescido se torna a maior de todas as árvores da horta (cf Mt 13, 31-32).

Neste “destino” do Reino de Deus pode-se intuir a trama vida de Jesus: também Ele foi para os seus contemporâneos um sinal sutil, um evento quase desconhecido aos históricos oficiais do tempo. Um “grão de trigo” definiu-se Ele mesmo, que morre na terra, mas somente assim pode dar “muito fruto” (cf Jo 12, 24). O símbolo da semente é eloquente: um dia o agricultor o afunda na terra (um gesto que parece uma sepultura) e depois, “durma ou vigie, de noite ou de dia, a semente brota e cresce. Como, ele mesmo não sabe” (Mc 4, 27). Uma semente que germina é mais obra de Deus que do homem que a semeou (cf Mc 4, 27). Deus nos precede sempre, Deus nos surpreende sempre. Graças a Ele depois da noite de Sexta-Feira Santa há um alvorecer de Ressurreição capaz de iluminar de esperança o mundo todo.

“Venha o teu Reino! ”. Semeemos esta palavra em meio aos nossos pecados e aos nossos fracassos. Vamos doá-las às pessoas vencidas e abatidas pela vida, que experimentou mais ódio que amor, a quem vive dias inúteis sem nunca entender o porquê. Vamos doá-las àqueles que lutaram pela justiça, a todos os mártires da história, a quem concluiu ter combatido por nada e que neste mundo domina sempre o mal. Escutaremos, então, a oração do ‘Pai Nosso’ responder. Repetirá pela enésima vez aquelas palavras de esperança, as mesmas que o Espírito colocou como sigilo de todas as Sagradas Escrituras: “Sim, venho logo! ”: esta é a resposta do Senhor. “Venho logo”. Amém. E a Igreja do Senhor responde: “Vem, Senhor Jesus” (cf Ap 2, 20). “Venha o teu reino” é como dizer “Venha, Senhor Jesus”. E Jesus diz: “Venho logo”. E Jesus vem, ao seu modo, mas todos os dias. Temos confiança nisso. E quando rezamos o “Pai Nosso”, dizemos sempre: “Venha o teu reino”, para ouvir no coração: “Sim, sim, venho e venho logo”.

Catequeses sobre o Pai Nosso: 10
20/03/2019

Prosseguindo as nossas catequeses sobre “Pai Nosso”, hoje nos concentramos na terceira invocação: “Seja feita a vossa vontade”. Essa é lida em unidade com as duas primeiras – “santificado seja o vosso nome” e “venha a nós o vosso reino” – de forma que o todo forme um tríptico: “santificado seja o vosso nome”, “venha a nós o vosso reino”, “seja feita a vossa vontade”. Hoje falaremos da terceira.

Antes do cuidado do mundo da parte do homem, há o cuidado incansável que Deus usa com o homem e com o mundo. Todo o Evangelho reflete esta inversão de perspectiva. O pecador Zaqueu sobe sobre uma árvore porque quer ver Jesus, mas não sabe que, muito antes, Deus havia se colocado próximo a ele. Jesus, quando chega, lhe diz: “Zaqueu, desce logo, porque hoje vou à tua casa”. E no fim declara: “O Filho do homem de fato veio buscar e salvar quem estava perdido” (Lc 19, 5.10). Eis a vontade de Deus, aquela que nós rezamos para que seja feita. Qual é a vontade de Deus encarnada em Jesus? Procurar e salvar o que estava perdido.

E nós, na oração, pedimos que a busca de Deus vá a bom fim, que o seu desejo universal de salvação se realiza, primeiro, em cada um de nós e depois em todo o mundo. Vocês pensaram o que significa que Deus esteja em busca de mim? Cada um de nós pode dizer: “Mas, Deus me procura? ” – “Sim! Procura-te! Procura-me”: procura cada um, pessoalmente. Mas é grande Deus! Quanto amor há por trás de tudo isso.

Deus não é ambíguo, não se esconde atrás de enigmas, não planejou a vinda do mundo de maneira indecifrável. Não, Ele é claro. Se não compreendemos isso, arriscamos não entender o sentido da terceira expressão do “Pai Nosso”. De fato, a Bíblia está cheia de expressões que nos contam a vontade positiva de Deus com relação ao mundo.

E no Catecismo da Igreja Católica encontramos uma coleção de citações que testemunham essa fiel e paciente vontade divina (cf nn. 2821-2827). E São Paulo, na Primeira Carta a Timóteo, escreve: “Deus quer que todos os homens sejam salvos e alcancem a consciência da verdade” (2, 4). Esta, sem sombra de dúvida, é a vontade de Deus: a salvação do homem, dos homens, de cada um de nós. Deus, com o seu amor, bate à porta do nosso coração. Por que? Para nos atrair; para nos atrair a Ele e levar-nos adiante no caminho da salvação. Deus está próximo de cada um de nós com o seu amor, para nos levar pela mão à salvação. Quando amor está por trás disso!

Portanto, rezando “seja feita a vossa vontade”, não somos convidados a dobrar a cabeça servilmente, como se fôssemos escravos. Não! Deus nos quer livres; é o amor Dele que nos liberta. O “Pai Nosso”, de fato, é a oração dos filhos, não dos escravos; mas dos filhos que conhecem o coração do seu pai e estão certos do seu desígnio de amor. Ai de nós se, pronunciando essas palavras, levantássemos os ombros em sinal de rendição diante de um destino que não podemos mudar. Ao contrário, é uma oração cheia de confiança ardente em Deus, que quer para nós o bem, a vida, a salvação. Uma oração corajosa, também combativa, porque no mundo há tantas realidades que não são segundo o plano de Deus. Todos as conhecemos. Parafraseando o profeta Isaías, poderemos dizer:

Aqui, Pai, há a guerra, a prevaricação, a exploração; mas sabemos que Tu queres o nosso bem, por isso te suplicamos: seja feita a vossa vontade! Senhor, derrube os planos do mundo, transforme as espadas em arado e as lanças em foice; que ninguém se exercite mais na arte da guerra! ” (Cf 2, 4). Deus quer a paz.

O “Pai Nosso” é uma oração que acende em nós o mesmo amor de Jesus pela vontade do Pai, uma chama que leva a transformar o mundo com o amor. O cristão não acredita em um “fato” inelutável. Não há nada de aleatório na fé dos cristãos: há, em vez disso, uma salvação que espera manifestar-se na vida de cada homem e mulher e de realizar-se na eternidade. Se rezamos é porque acreditamos que Deus pode e quer transformar a realidade vencendo o mal com o bem. A este Deus tem sentido obedecer e abandonar-se também na hora da prova mais difícil.

Assim foi para Jesus no jardim do Getsêmani, quando experimentou a angústia e rezou: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Todavia, não seja feita a minha, mas a tua vontade” (Lc 22, 42). Jesus é esmagado pelo mal do mundo, mas se abandona confiante ao oceano do amor da vontade do Pai. Também os mártires, em sua provação, não procuravam a morte, procuravam o pós- morte, a ressurreição. Deus, por amor, pode levar-nos a caminhar sobre caminhos difíceis, a experimentar feridas e espinhos dolorosos, mas nunca nos abandonará. Sempre estará conosco, próximo a nós, dentro de nós. Para quem crê, essa, mais que uma esperança, é uma certeza. Deus está comigo. A mesma que encontramos naquela parábola do Evangelho de Lucas dedicada à necessidade de rezar sempre. Diz Jesus: “Por acaso não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que estão clamando por ele dia e noite? Porventura tardará em socorrê-los? Digo-vos que em breve lhes fará justiça” (18,7-8). Assim é o Senhor, assim nos ama, assim nos quer bem. Mas, quero convidá-los agora, todos juntos, a rezar o Pai Nosso. E aqueles de vocês que não sabem o italiano, rezem na própria língua. Rezemos juntos.

Catequeses sobre o Pai Nosso: 11
27/03/2019

Passamos hoje a analisar a segunda parte do “Pai Nosso”, aquela em que apresentamos a Deus as nossas necessidades. Esta segunda parte começa com uma palavra que perfuma o cotidiano: o pão.

A oração de Jesus parte de uma pergunta impelente, que muito assemelha à imploração de um mendigo: “Dai-nos o pão cotidiano! ”. Esta oração provém de uma evidência que muitas vezes esquecemos, quer dizer que não somos criaturas autossuficientes, e que todos os dias precisamos nos nutrir.

As escrituras nos mostram que para tanta gente o encontro com Jesus se realizou a partir de uma pergunta. Jesus não pede invocações refinadas, antes, toda a existência humana, com os seus problemas mais concretos e cotidianos, pode se tornar oração. Nos Evangelhos, encontramos uma multidão de mendigos que suplicam libertação e salvação. Quem pede o pão, a cura; alguns a purificação, outros a visão; ou que uma pessoa querida possa reviver…Jesus nunca passa indiferente a esses pedidos e a essas dores.

Portanto, Jesus nos ensina a pedir ao Pai o pão cotidiano. E nos ensina a fazê-lo unidos a tantos homens e mulheres para os quais esta oração é um grito – muitas vezes mantido dentro – que acompanha a ansiedade do dia. Quantas mães e pais, ainda hoje, vão dormir com o tormento de não ter no dia seguinte pão suficiente para os próprios filhos! Imaginemos esta oração rezada não na segurança de um cômodo apartamento, mas na precariedade de um quarto onde as pessoas se adaptam, onde falta o necessário para viver. As palavras de Jesus assumem uma força nova. A oração cristã começa deste nível. Não é um exercício para ascetas; parte da realidade, do coração, da carne de pessoas que vivem na necessidade, ou que partilham a condição de quem não tem o necessário para viver. Nem mesmo os mais altos místicos cristãos podem prescindir da simplicidade desta pergunta. “Pai, faz com que para nós e para todos, hoje, haja o pão necessário”. E “pão” está também para água, remédios, casa, trabalho…Pedir o necessário para viver.

O pão que o cristão pede na oração não é o “meu”, mas é o “nosso” pão. Assim quer Jesus. Ensina-nos a pedi-lo não somente para si mesmo, mas para toda a fraternidade do mundo. Se não se reza deste modo, o “Pai nosso” deixa de ser uma oração cristã. Se Deus é nosso Pai, como podemos nos apresentar a Ele sem que nos pegue pelas mãos? Todos nós. E se o pão que Ele nos dá o roubamos entre nós, como podemos nos dizer seus filhos? Esta oração contém uma atitude de empatia, uma atitude de solidariedade. Na minha fome sinto a fome das multidões e então rezarei a Deus a fim de que seus pedidos sejam respondidos. Assim Jesus educa a sua comunidade, a sua Igreja, a levar a Deus as necessidades de todos: “Somos todos teus filhos, ó Pai, tenha piedade de nós! ”. E agora nos fará bem parar um pouco e pensar nas crianças que passam fome. Pensemos nas crianças que estão em países em guerra: as crianças que passam fome no Iêmen, as crianças que passam fome na Síria, em tantos países onde não há o pão, no Sudão do Sul. Pensemos nestas crianças e pensando nelas digamos juntas, em voz alta, a oração: “Pai, dai-nos hoje o pão cotidiano”. Todos juntos.

O pão que pedimos ao Senhor na oração é aquele mesmo que um dia nos acusará. Nos chamará a atenção pelo pouco hábito de partilhá-lo com quem está próximo, o pouco hábito de partilhá-lo. Era um pão entregue a toda a humanidade e, ao invés, foi consumido somente por alguns: o amor não pode tolerar isto. O nosso amor não pode suportá-lo; e nem mesmo o amor de Deus pode tolerar este egoísmo de não partilhar o pão.

Uma vez havia uma grande multidão diante de Jesus; era gente que tinha fome. Jesus perguntou se alguém tinha algo e encontrou apenas um menino disposto a partilhar o seu mantimento: cinco pães e dois peixes. Jesus multiplicou aquele gesto generoso (cf Jo 6, 9). Aquele menino tinha entendido a lição do “Pai nosso”: que o alimento não é propriedade privada – coloquemos isso na cabeça: o alimento não é propriedade privada – mas providência a partilhar, com a graça de Deus.

O verdadeiro milagre realizado por Jesus naquele dia não foi tanto a multiplicação – que é verdade – mas a partilha: dai aquilo que tens e eu farei o milagre. Ele mesmo, multiplicando aquele pão oferecido, antecipou a oferta de Si no pão eucarístico. De fato, somente a Eucaristia é capaz de saciar a fome de infinito e o desejo de Deus que anima cada homem, também na busca do pão cotidiano.

Catequeses sobre o Pai Nosso: 12
10/04/2019

Depois de ter pedido a Deus o pão de cada dia, a oração do “Pai Nosso” entra no campo das nossas relações com os outros. E Jesus nos ensina a pedir ao Pai: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6, 12). Com precisamos do pão, assim precisamos do perdão. E isso, todos os dias.

O cristão que reza pede antes de tudo a Deus que sejam perdoadas as suas ofensas, isso é, os seus pecados, as coisas ruins que fez. Esta é a primeira verdade de toda oração: ainda que fôssemos pessoas perfeitas, fôssemos santos cristalinos que nunca se desviam de uma vida de bem, permanecemos sempre filhos que ao Pai devem tudo. A atitude mais perigosa de toda vida cristã qual é? É o orgulho. É a atitude de quem se coloca diante de Deus pensando ter sempre em ordem as contas com Ele: o orgulhoso acredita que tem tudo no seu lugar. Como aquele fariseu da parábola, que no templo pensa rezar, mas na realidade louva a si mesmo diante de Deus: “Agradeço-te, Senhor, porque não sou como os outros”. E as pessoas que se sentem perfeitas, as pessoas que criticam os outros, são pessoas orgulhosas. Nenhum de nós é perfeito, ninguém. Ao contrário, o publicano, que estava atrás, no templo, um pecador desprezado por todos, para no limiar do templo e não se sente digno de entrar, confia-se à misericórdia de Deus. E Jesus comenta: “Este voltou para casa justificado, e não o outro” (Lc 18, 14), isso é, perdoado, salvo. Por que? Porque não era orgulhoso, porque reconhecia os seus limites e pecados.

Há pecados que são vistos e pecados que não são vistos. Há pecados evidentes que fazem rumor, mas há também pecados ocultos, que se escondem no coração sem que percebamos. O pior desses é a soberba que pode contagiar também as pessoas que vivem uma vida religiosa intensa. Havia uma vez um convento de religiosas, nos anos 1600-1700, famoso, no tempo do jansenismo: eram perfeitas e se dizia delas que eram puríssimas como os anjos, mas soberbas como os demônios. É algo feio. O pecado divide a fraternidade, o pecado nos faz presumir sermos melhores que os outros, o pecado nos faz acreditar que somos semelhantes a Deus.

E em vez disso, diante de Deus somos todos pecadores e temos motivo para bater no peito – todos! – como aquele publicano no templo. São João, na sua primeira Carta, escreve: “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1 Jo 1, 8). Se você quer enganar a si mesmo, diga que não tem pecado: assim está se enganando.

Somos todos devedores antes de tudo porque nessa vida recebemos tanto: a existência, um pai e uma mãe, a amizade, as maravilhas da criação… Mesmo que todos passem por dias difíceis, devemos sempre nos lembrar que a vida é uma graça, é o milagre que Deus extraiu do nada.

Em segundo lugar, somos devedores porque, mesmo se conseguimos amar, ninguém de nós é capaz de fazê-lo só com as suas forças. O amor verdadeiro é quando podemos amar, mas com a graça de Deus. Ninguém de nós brilha com luz própria. Há aquilo que os teólogos antigos chamavam um “mysterium lunae” não somente na identidade da Igreja, mas também na história de cada um de nós. O que significa este “mysterium lunae”? Que é como a lua, que não tem luz própria: reflete a luz do sol. Também nós, não temos luz própria: a luz que temos é um reflexo da graça de Deus, da luz de Deus. Se amas é porque alguém, fora de você, sorriu para você quando era uma criança, ensinando-te a responder com um sorriso. Se amas é porque alguém próximo a você te despertou para o amor, fazendo-te compreender como nisso reside o sentido da existência.

Vamos tentar ouvir a história de qualquer pessoa que errou: um preso, um condenado, um drogado…conhecemos tanta gente que erra na vida. Salvo a responsabilidade, que é sempre pessoal, pergunte-se alguma vez quem deve ser culpado pelos seus erros, se somente a sua consciência, ou a história de ódio e de abandono que alguém carrega consigo.

E este é o mistério da lua: amamos antes de tudo porque fomos amados, perdoamos porque fomos perdoados. E se alguém não foi iluminado pela luz do sol, torna-se frio como o terreno de inverno.
Como não reconhecer, na cadeia de amor que nos precede, também a presença providente do amor de Deus? Ninguém de nós ama Deus quanto Ele nos amou. Basta colocar-se diante de um crucifixo para entender a desproporção: Ele nos amou e sempre nos ama primeiro.

Rezemos, então: Senhor, mesmo o mais santo em meio a nós não cessa de ser teu devedor. Ó Pai, tende piedade de todos nós!

24/04/2019
Catequese sobre o "Pai Nosso": 13

Hoje completamos a catequese sobre o quinto pedido do “Pai-Nosso”, analisando a expressão “assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6, 12). Vimos que é próprio do homem ser devedor diante de Deus: d’Ele recebemos tudo, em termos de natureza e de graça. A nossa vida não só foi querida, mas foi amada por Deus. Deveras não há espaço para a presunção quando juntamos as mãos para rezar. Não existem na Igreja “self made man”, homens que se fizeram sozinhos. Todos somos devedores para com Deus e para com tantas pessoas que nos proporcionaram condições de vida favoráveis. A nossa identidade constrói-se a partir do bem recebido. O primeiro é a vida.
Quem reza aprende a dizer “obrigado”. E nós muitas vezes esquecemo-nos de dizer “obrigado”, somos egoístas. Quem reza aprende a dizer “obrigado” e pede a Deus para ser benévolo com o próximo. Por muito que nos esforcemos, permanece sempre uma dívida impagável diante de Deus, que nunca poderemos restituir: Ele ama-nos infinitamente mais de quanto nós o amamos. E depois, por muito que nos empenhemos para viver segundo os ensinamentos cristãos, na nossa vida haverá sempre alguma coisa da qual pedir perdão: pensemos nos dias passados na preguiça, nos momentos em que o rancor invadiu o nosso coração e assim por diante... São estas experiências, infelizmente não raras, que nos fazem implorar: “Senhor, Pai, perdoai-nos os nossos pecados”. Deste modo pedimos perdão a Deus.

Pensando bem, a invocação podia até limitar-se a esta primeira parte; teria sido bela. Ao contrário Jesus liquida-a com uma segunda expressão que é um todo com a primeira. A relação de benevolência vertical por parte de Deus desvia-se e é chamada a traduzir-se numa relação nova que vivemos com os nossos irmãos: uma relação horizontal. O Deus bom convida-nos a sermos todos bondosos. As duas partes da invocação ligam-se com uma conjunção impiedosa: pedimos ao Senhor que perdoe os nossos pecados, as nossas faltas, “como” nós perdoamos aos nossos amigos, às pessoas que vivem conosco, aos nossos vizinhos, a quem nos fez alguma coisa desagradável.

Cada cristão sabe que existe para ele o perdão dos pecados, isto todos o sabemos: Deus perdoa tudo e perdoa sempre. Quando Jesus conta aos seus discípulos o rosto de Deus, esboça-o com expressões de terna misericórdia. Diz que há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por uma multidão de justos que não precisam de conversão (cf. Lc 15, 7-10). Nos Evangelhos nada deixa suspeitar que Deus não perdoa os pecados de quem está bem-disposto e pede para ser reabraçado.

Mas a graça de Deus, tão abundante, é sempre exigente. Quem recebeu muito deve aprender a dar muito e a não reter só para si aquilo que recebeu. Quem recebeu muito deve aprender a dar muito. Não é ocasional que o Evangelho de Mateus, logo depois de ter oferecido o texto do “Pai-Nosso”, entre as sete expressões usadas frise precisamente a do perdão fraterno: «Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai Celeste vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai não vos perdoará as vossas» (Mt 6, 14-15). Mas isto é forte! Eu penso: algumas vezes ouvi quem disse: “Nunca perdoarei aquela pessoa! Nunca perdoarei o que me fez! ”. Mas se tu não perdoares, Deus nunca te perdoará. Fechas a porta. Pensemos se nós somos capazes de perdoar ou se não perdoamos. Um sacerdote, quando eu estava na outra diocese, contou-me angustiado que tinha ido conferir os últimos sacramentos a uma idosa que estava em ponto de morte. A pobre senhora não conseguia falar. E o sacerdote disse: “Senhora, arrepende-se dos pecados? ”. A senhora acenou que sim; não os podia confessar mas acenou que sim. É suficiente. E depois ainda: “A senhora perdoa os demais? ”. E a senhora, em ponto de morte acenou que não. O sacerdote ficou angustiado. Se tu não perdoares, Deus não te perdoará. Pensemos se nós cristãos, aqui, perdoamos, se somos capazes de perdoar. “Padre, eu não consigo, porque aquela gente fez-me tantas”. “Mas se tu não conseguires, pede ao Senhor que te conceda a força para conseguires: Senhor, ajuda-me a perdoar. Encontramos aqui a ligação entre o amor a Deus e o amor ao próximo. Amor chama amor, perdão chama perdão. Ainda em Mateus encontramos outra parábola muito intensa dedicada ao perdão fraterno (cf. 18, 21-35). Ouçamo-la.

Havia um servo que tinha contraído uma dívida enorme com o seu rei: dez mil talentos! Uma quantia impossível de restituir; não sei quanto seria hoje, mas centenas de milhões. Mas aconteceu o milagre, e aquele servo não obtém um prazo mais longo para pagar, mas o perdão total. Uma graça inesperada! Mas eis que precisamente aquele servo, logo a seguir, se volta contra um seu irmão que lhe deve cem denários — pouca coisa — e, mesmo sendo esta uma quantia acessível, não aceita desculpas nem súplicas. Por isso, no final, o dono chama-o e condena-o. Pois se não te esforças por perdoar, não serás perdoado; se não te esforças por amar, também não serás amado.

Jesus insere nas relações humanas a força do perdão. Na vida nem tudo se resolve com a justiça. Não. Sobretudo onde se deve pôr um limite ao mal, alguém tem que amar além do devido, para recomeçar uma história de graça. O mal conhece as suas vinganças, e se ele não for interrompido corre o risco de se alastrar sufocando o mundo inteiro.

Jesus substitui a lei de talião — o que me fizeste, eu restituo-te — com a lei do amor: aquilo que Deus fez a mim, eu restituo-o a ti! Pensemos hoje, nesta semana de Páscoa tão bonita, se eu sou capaz de perdoar. E se não me sentir capaz, devo pedir ao Senhor que me conceda a graça de perdoar, pois saber perdoar é uma graça.

Deus concede a cada cristão a graça de escrever uma história de bem na vida dos seus irmãos, especialmente daqueles que fizeram algo desagradável e errado. Com uma palavra, um abraço, um sorriso, podemos transmitir aos outros aquilo que recebemos de mais precioso. Qual é a coisa preciosa que recebemos? O perdão, que devemos ser capazes de dar também aos demais.

Catequese sobre o "Pai Nosso": 14
01/05/2019

Continuamos na catequese sobre o “Pai Nosso”, chegando agora à penúltima invocação:
“Não nos abandone à tentação” (Mt 6, 13). Outra versão diz: “Não nos deixe cair em tentação”. O “Pai Nosso” começa de maneira serena: nos faz querer que o grande projeto de Deus possa ser realizado entre nós. Depois ele lança um olhar sobre a vida, e nos faz pedir aquilo que temos necessidade todos os dias: o “pão de cada dia”. Depois a oração trata de nossos relacionamentos interpessoais, muitas vezes poluído pelo egoísmo: pedimos perdão e nos comprometemos a dá-lo. Mas é com esta penúltima invocação que o nosso diálogo com o Pai celestial entra, por assim dizer, nos nossos dramas, ou seja, no terreno do confronto entre nossa liberdade e as armadilhas do maligno.

Como sabemos, a expressão grega original contida nos Evangelhos é difícil de ser traduzida exatamente, e todas as traduções modernas são um pouco defeituosas. Mas sobre um elemento podemos compreender de forma unânime: de qualquer forma se traduza o texto, devemos excluir que é Deus o protagonista das tentações que pairam sobre o caminho do homem. Como se Deus estivesse à espreita para fazer armadilhas para seus filhos. Uma interpretação deste tipo contrasta primeiro, antes de tudo, com o próprio texto, e está longe da imagem de Deus que Jesus nos revelou. Não nos esqueçamos: o “Pai Nosso” começa com “Pai”. E um pai não faz armadilhas para seus filhos. Os Cristãos não têm um Deus invejoso, em competição com o homem, ou que gosta de colocá-lo à prova. Estas são as imagens de muitas divindades pagãs. Nós lemos na Carta de Tiago, o Apóstolo: “Ninguém, quando tentado, diz: “Eu sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado ao mal e Ele não tenta ninguém” (1,13). Mas é justamente o contrário: o Pai não é o autor do mal, a nenhum filho que pede o peixe dá uma cobra (Lc 11,11) – como Jesus ensina – e quando o mal se apresenta na vida do homem, luta ao seu lado, para que ele possa ser libertado dele. Um Deus que sempre luta por nós, não contra nós. Ele é o pai! É nesse sentido que rezamos ao “Pai Nosso”.

Estes dois momentos – a provação e a tentação – estiveram misteriosamente presentes na vida do próprio Jesus. Nesta experiência o Filho de Deus tornou-se completamente nosso irmão, em uma maneira que quase beirava o escândalo. E são precisamente essas passagens do Evangelho que nos mostram que as invocações mais difíceis do “Pai Nosso”, aquelas que fecham o texto, já foram respondidas: Deus não nos deixou sozinhos, mas em Jesus Ele se manifesta como o “Deus conosco” até as últimas consequências. Ele está conosco quando nos dá a vida, está conosco durante a vida, está conosco na alegria, está conosco nas provações, Ele está conosco na tristeza, está conosco nas derrotas, quando pecamos, mas sempre está conosco, porque Ele é Pai e não pode nos abandonar.

Se somos tentados a fazer o mal, negando a fraternidade com os outros e desejando poder absoluto sobre tudo e todos, Jesus já lutou contra essa tentação para nós: as primeiras páginas do Evangelho comprovam isso. Imediatamente depois de receber o batismo de João, no meio da multidão de pecadores, Jesus se retira para o deserto e é tentado por Satanás. Assim começa a vida pública de Jesus, com a tentação que vem de Satanás. Satanás estava presente. Muitas pessoas dizem: “Mas por quê falar sobre o diabo, que é uma coisa antiga? O diabo não existe”. Mas olhe o que o Evangelho te ensina: Jesus foi confrontado pelo diabo, ele foi tentado por Satanás. Mas Jesus rejeita toda tentação e sai vitorioso. O Evangelho de Mateus tem uma nota interessante que encerra o duelo entre Jesus e o Inimigo: “Então o diabo o deixou, e eis que os anjos vieram a Ele e o serviram” (4:11).

Mas mesmo no tempo da provação suprema, Deus não nos deixa sozinhos. Quando Jesus vai rezar no Getsêmani, seu coração é invadido por uma angústia indescritível – assim diz ele a seus discípulos – e Ele experimenta a solidão e abandono. Sozinho, com a responsabilidade de todos os pecados do mundo nos ombros; sozinho, com uma angústia indescritível. A prova é tão lacerante que algo inesperado acontece. Jesus nunca implora amor por si mesmo, mas naquela noite ele sente sua alma triste até a morte, e então pede a proximidade de seus amigos: “Fiquem aqui e vigiem comigo” (Mt 26, 38). Como nós sabemos, os discípulos, sobrecarregados por um entorpecimento causado pelo medo, adormeceram. Com o passar do tempo de agonia, Deus pede ao homem para não o abandonar e o homem dorme. Quando Deus passa pela agonia, Ele pede ao homem que não o abandone, mas o homem dorme. Já quando o homem passa pela provação, Deus permanece acordado, o faz companhia. Nos momentos mais difíceis da nossa vida, nos momentos mais sofridos, nos momentos de agonia profunda, Deus vigia conosco, Deus luta conosco, está ao nosso lado. Por que? Porque é Pai. Assim começamos a oração: “Pai Nosso”. E um pai não abandona seus filhos. Aquela noite de dor de Jesus, de luta é a última marca da encarnação: Deus desce, vem nos encontrar nos nossos abismos e nas dificuldades que marcam nossa história. E o nosso conforto na hora da prova é saber que aquele vale, desde quando Jesus o atravessou, não é mais desolado, mas é abençoado pela presença do Filho de Deus. Ele jamais nos abandonará.

Afasta então de nós, Oh Deus, o tempo da prova e da tentação. Mas quando chegar para nós esse tempo, Pai Nosso, nos mostre que não estamos sozinhos. Você é o nosso Pai. Mostra-nos que o Cristo já carregou sobre si o peso da Cruz. Mostra-nos que Jesus nos chama a carregá-la com Ele, abandonando-nos confiantes ao seu Amor de Pai. Obrigado!

Catequese sobre o "Pai Nosso": 15
15/05/2019

Eis que chegamos no último pedido do “Pai Nosso”: “Mas livrai-nos do mal” (Mt 6.13b). Com esta expressão, quem reza pede não somente de não ser abandonado no tempo da tentação, mas suplica também de ser livre do mal. O verbo grego original é muito forte: fala da presença do maligno que tende a nos aferrar e a morder (1 Pd, 5,8) e do qual se pede a Deus a libertação.

O apóstolo Pedro diz que o maligno, o diabo, está ao redor de nós como um leão furioso para nos devorar e nós pedimos a Deus para nos livrar.

Com esta dupla súplica: “Não nos deixeis” e “livra-nos”, se ergue uma característica essencial da oração cristã. Jesus ensina aos seus amigos a colocar a invocação do Pai diante de tudo, também e especialmente nos momentos no qual o maligno faz sentir a sua presença aterrorizante.

De fato, a oração cristã não fecha os olhos sobre a vida. É uma oração filial e não uma prece infantil. Não é de nenhuma forma apaixonada pela paternidade de Deus, a ponto de esquecer que o caminho do homem é repleto de dificuldades. Se não existisse os últimos versos do “Pai Nosso” como poderiam rezar os pecadores, os perseguidos, os desesperados, os moribundos? O último pedido é de fato um pedido no momento que estaremos no limite, sempre.

Existe um mal na nossa vida que é uma presença incontestável. Os livros de história são um catálogo sombrio de como nossa existência neste mundo tem sido muitas vezes uma aventura oscilante. Há um mal misterioso que certamente não é obra de Deus, mas penetra silenciosamente nos vincos da história. Silencioso como a serpente que carrega o veneno, silenciosamente.

Às vezes, ele parece assumir o controle: em alguns dias, sua presença parece ainda mais prepotente do que a da misericórdia de Deus, no momento de desespero é ainda mais claro.

Aquele que reza não é cego, e vê nitidamente diante dos seus olhos este mal tão incômodo e, portanto, em contradição com o próprio mistério de Deus, ele o vê na natureza, na história, mesmo em seu próprio coração. Porque não há ninguém entre nós que possa dizer que está isento do mal, ou pelo menos de ser tentado.

“Todos nós sabemos o que é mal, todos nós sabemos o que é a tentação. Todos nós temos experimentado na própria carne a tentação, de qualquer pecado. Mas é o tentador que nos move e nos impulsiona ao mal, nos dizendo: “faça isso, pense isso, vá por esse caminho”.
O último grito do “Pai Nosso” é lançado contra este mal “de amplas abas”, que encerra sob a sua sombra as mais diversas experiências: o luto do homem, a dor inocente, a escravidão, a exploração do outro, o choro de crianças inocentes. Todos esses eventos protestam no coração do homem e se tornam vozes na última palavra da oração de Jesus.

É precisamente nos relatos da Paixão que algumas expressões do “Pai Nosso” encontram o seu mais marcante eco: diz Jesus “Abbá! Pai! Tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que eu quero, senão o que tu queres” (Mc 14,36). Jesus experimenta plenamente a penetração do mal. Não apenas a morte, mas a morte na cruz. Não só solidão, mas também desprezo, humilhação. Não só malícia, mas também crueldade. A violência contra ele. Eis o que o homem é: ser devotado à vida, que sonha com amor e bem, mas que continuamente expõe a si mesmo e seus semelhantes ao mal, a ponto de sermos tentados a desistir do homem.

Queridos irmãos e irmãs, assim o “Pai Nosso” se assemelha a uma sinfonia que pede para ser cumprida em cada um de nós. O cristão sabe quão esmagador é o poder do mal, mas ao mesmo tempo faz a experiência de quanto Jesus, que jamais cedeu às suas maquinações, está do nosso lado e vem em nosso auxílio.

Assim, a oração de Jesus nos deixa as mais preciosas heranças: a presença do Filho de Deus que nos libertou do mal, lutando para convertê-lo. Na hora da sua luta final, pede a Pedro para colocar a espada de volta em sua bainha, para o ladrão arrependido assegura o céu, para todos os homens ao seu redor, inconsciente da tragédia que estava ocorrendo, oferece uma palavra de paz: “Pai, perdoa porque não sabem o que fazem “ (Lc 23,34).

Do perdão de Jesus na cruz vem a paz, o verdadeiro dom da paz vem do Ressuscitado, dom que Jesus nos dá. A primeira saudação do Jesus ressuscitado é: “A paz esteja convosco”. Paz para as suas almas, para os seus corações, para a sua vida. O Senhor nos dá paz, nos dá perdão. Mas, nós pedimos a libertação do mal para não cair no mal. Essa é nossa esperança! A força que nos dá Jesus ressuscitado, no meio de nós. Essa força que nos dá para seguir em frente e promete nos libertar do mal. Obrigado!

22/05/2019
Catequese sobre o "Pai Nosso": 16

Hoje concluímos o ciclo de catequese sobre o “Pai Nosso”. Podemos dizer que a oração cristã nasce da audácia de chamar Deus com o nome de “Pai”. Esta é a raiz da oração cristã: chamar a Deus de Pai. É preciso coragem! Não é uma questão de fórmula, mas de uma intimidade filial na qual somos introduzidos por graça: Jesus nos revela o Pai e nos dá familiaridade com Ele. Ele não nos deixa uma fórmula para ser mecanicamente repetida. Tal como acontece com qualquer oração vocal, é através da Palavra de Deus que o Espírito Santo ensina os filhos de Deus a rezar ao seu Pai “ (Catecismo da Igreja Católica, 2766). O próprio Jesus usou expressões diferentes para orar ao Pai. Se lermos cuidadosamente os Evangelhos, descobriremos que essas expressões de oração que emergem nos lábios de Jesus relembram o texto do “Pai Nosso”.

Por exemplo, na noite do Getsêmani, Jesus rezava assim: “Abbà! Pai! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice! Mas não o que eu quero, mas o que tu queres” (Mc 14,36). Nós já recordamos este texto do Evangelho de Marcos. Como podemos deixar de reconhecer nesta oração, ainda que breve, um traço do “Pai Nosso”? No meio das trevas, Jesus invoca a Deus com o nome de “Abbà”, com confiança filial e, sentindo medo e angústia, pede que sua vontade seja cumprida.

Em outras passagens do Evangelho, Jesus insiste com seus discípulos, para que possam cultivar um espírito de oração. A oração deve ser insistente e, acima de tudo, deve trazer a memória dos irmãos, especialmente quando vivemos relações difíceis com eles. Jesus diz:
“Quando você começa a rezar, se você tem algo contra alguém, perdoe, porque até mesmo o vosso Pai que está no céu perdoa suas faltas” (Mc 11,25). Como podemos deixar de reconhecer a semelhança com o “Pai Nosso” nessas expressões? E os exemplos podem ser numerosos, inclusive para nós.

Nos escritos de São Paulo não encontramos o texto do “Pai Nosso”, mas sua presença emerge nessa estupenda síntese onde a invocação do cristão é condensada em uma única palavra: “Abba! ” (“Papai”) (cf. Rm 8,15; Gl 4,6).

No Evangelho de Lucas, Jesus satisfaz plenamente o pedido dos discípulos que, vendo-o muitas vezes recluso e mergulhado em oração, um dia decidem perguntar-lhe: “Senhor, ensina-nos a orar, como também João Batista ensinou aos seus discípulos” (11.1). E então o Mestre ensinou-lhes a oração ao Pai.

Considerando o Novo Testamento como um todo, se vê claramente que o primeiro protagonista de toda oração cristã é o Espírito Santo. Não nos esqueçamos disso! O protagonista de toda oração cristã é o Espírito Santo. Nós nunca seremos capazes de rezar sem a força do Espírito Santo. É ele quem reza em nós e nos motiva a rezar bem; podemos pedir ao Espírito que nos ensine a rezar, porque ele é o protagonista. Aquele que reza em nós. Ele sopra no coração de cada um de nós, discípulos de Jesus, e nos permite rezar como verdadeiros filhos de Deus, o que realmente somos desde o batismo. O Espírito nos faz rezar no “poço” que Jesus cavou para nós. Este é o mistério da oração cristã: pela graça somos atraídos para esse diálogo de amor da Santíssima Trindade.

Jesus rezava assim. Às vezes ele usou expressões que certamente estão muito longe do texto do “Pai Nosso”. Pensem nas palavras de abertura do Salmo 22, que Jesus pronuncia sobre a cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? ” (Mt 27,46). Pode o Pai celestial abandonar seu filho? Não, certamente. E ainda assim o amor por nós, pecadores, trouxe Jesus a este ponto: a ponto de experimentar o abandono de Deus, seu afastamento, porque ele levou sobre si os nossos pecados. Mas mesmo no grito angustiado, o “meu Deus, meu Deus” permanece. Naquele “meu” se encontra o núcleo do relacionamento com o Pai, está o núcleo da fé e da oração.

É por isso que, a partir deste núcleo, um cristão pode orar em todas as situações. Ele pode assumir todas as orações da Bíblia, especialmente dos Salmos; mas ele também pode rezar com tantas expressões que em milênios de história jorraram do coração dos homens. E ao Pai nunca deixamos de falar de nossos irmãos e irmãs na humanidade, para que nenhum deles, especialmente os pobres, permaneçam sem consolação e amor.

No final desta catequese, podemos dizer aquela oração de Jesus: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas dos sábios e dos eruditos, e revelastes aos pequeninos” (Lc 10,21). Para orar, devemos nos tornar pequenos, para que o Espírito Santo desça sobre nós e nos guie em oração. Obrigado.



Papa Francisco

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