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sexta-feira, 16 de abril de 2021

E VOCÊS SÃO TESTEMUNHAS DISSO

  Leia a reflexão sobre Lucas 24,35-48

 Texto de Tomaz Hughes.

O evangelho de hoje é a segunda parte do capítulo 24 de Lucas, que relata primeiro a história das mulheres diante do túmulo de Jesus, e agora o incidente do encontro de Jesus Ressuscitado com os dois discípulos na estrada de Emaús. Devemos recordar que Lucas estava escrevendo a sua obra em vista dos problemas da sua comunidade pelo ano 85 d.C. Já não estamos mais com a primeira geração de discípulos – já se passou mais de meio século desde os eventos pascais. A comunidade já está vacilando na sua fé – as perseguições estão no horizonte, ou até acontecendo; o primeiro entusiasmo diminuiu, os membros estão cansados da caminhada e perdendo de vista a mensagem vitoriosa da Páscoa. Parece que é mais forte a morte do que a vida, a opressão do que a libertação, o pecado do que a graça.

 

Neste cenário, Lucas escreve esta narrativa. Traz uma mensagem de ânimo e coragem aos desanimados e vacilantes da sua época – e da nossa! Para as mulheres, os dois anjos perguntam “por que estão procurando entre os mortos aquele que está vivo?” Afirmam: “Ele não está aqui! Ressuscitou!” Mensagem atual para os nossos tempos – diante da péssima situação de tantas pessoas que enfrentam a dura luta pela sobrevivência, com desemprego, baixo salário, falta de terra e moradia, uma herança de décadas de descaso dos governantes com a saúde pública e a educação, é muito fácil perder a esperança e a coragem. Como a Campanha da Fraternidade deste ano quer animar os cristãos na luta para que todos tenham uma vida digna, através de uma sociedade voltada para o bem comum, vencendo a apatia e a passividade, o nosso texto quer nos lembrar que Jesus venceu o mal, não foi derrotado pela morte e está no meio de nós!

 

Os dois discípulos no caminho de Emaús são imagem viva da comunidade lucana – e de muitas hoje! Já sabem do túmulo vazio, mas estão desanimados, desiludidos, sem forças – pois ainda não fizeram a experiência da presença de Jesus Ressuscitado. Pois, a nossa fé não se baseia no túmulo vazio, mas pelo contrário, a nossa experiência do Ressuscitado explica porque ele ficou vazio. Os dois só fazem esta experiência quando partilham o pão! A Escritura fez com que os seus corações “ardessem pelo caminho” (v. 32), mas não lhes abriu os olhos – para isso era necessário formar uma comunidade celebrativa de fé e partilha: “contaram… como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão” (v. 35)



Finalmente, o grupo dos discípulos reunidos em Jerusalém é símbolo das comunidades confusas e vacilantes. Tinham dificuldade em acreditar – pois a mensagem da Ressurreição é realmente espantosa! Mas, uma vez feita essa experiência, eles se transformam e se tornam testemunhas vivas do que sentiram, experimentaram e vivenciaram: “E vocês são testemunhas disso” (v. 48). Um grupo de derrotados, desesperançados e desunidos (vv. 20-21) se transformam num grupo de missionários corajosos e convictos, assumindo a tarefa de anunciar “no seu nome a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”  (v. 47)

 

Nos dias de hoje, quando muitos cristãos se desanimam, ou restringem a sua fé à esfera particular, sem que tenha qualquer influência sobre a sua vivência social, a mensagem de Lucas nos convida a redescobrirmos a realidade da presença do Ressuscitado entre nós. Essa experiência não serve somente para o nosso consolo pessoal – somos enviados a imitar os dois de Emaús, que, feita a experiência do Ressuscitado, “levantaram na mesma hora e voltaram para Jerusalém” (v. 33). Pois, a nossa experiência religiosa não é algo intimista e individualista, mas algo que nos deve propulsionar para a missão, para a construção de um mundo conforme a vontade de Deus, um mundo de justiça, paz e integridade da criação, sem excluídos e marginalizados, sob qualquer pretexto que seja!

 fonte: CEBI.ORG.BR


 


sexta-feira, 9 de abril de 2021

REFLEXÃO DO EVANGELHO: João 20, 19-31

 



QUEM CRÊ, VÊ PARA ALÊM DAS MÁSCARAS, DAS PEDRAS E DAS TUMBAS!


Leia a reflexão sobre João 20,19-31

Texto de Itacir Brassiani.


A experiência e a fé na ressurreição de Jesus Cristo dão-se em ritmo de missão. Por isso, as portas da Igreja não podem permanecer fechadas, especialmente por medo ou por comodismo. A paz oferecida pelo Senhor ressuscitado que se faz presente no meio de nós, reunidos em oração ou distanciados por responsabilidade, nos envia como cordeiros que carregam o pecado do mundo. Reforcemos, então, nossos vínculos com a comunidade, reconheçamo-lo presente nos irmãs e irmãos nossos e partamos em missão.

O evangelista sublinha que era noite e que as portas estavam muito bem fechadas. Os discípulos estavam desanimados, amedrontados, sem perspectivas. É o mesmo escuro pavoroso que eles haviam experimentado quando atravessaram sozinhos o mar agitado, depois que Jesus saciara a fome de uma multidão e recusara o poder político (cf. Jo 6,16-21). Esse escuro tenebroso lembra também a escuridão que se fez às três horas da tarde, quando Jesus fora crucificado. Ao medo da possível perseguição pelas autoridades judaicas se juntava a frustração pela imagem de um Messias crucificado, sem poder, abandonado por todos/as.


O que dói na consciência dos discípulos é a traição, a negação e a deserção. Por isso eles não formam exatamente uma comunidade, mas um grupo rachado, frustrado, envergonhado. Porém, os muros do remorso e do medo não impedem a manifestação de Jesus, e ele se faz presente inesperadamente no meio daquele grupo desarticulado. E a sua primeira palavra não é de advertência ou acusação, mas de acolhida e pacificação: “A paz esteja com vocês!” E lhes mostra as feridas nas mãos e no lado esquerdo, assegurando que sua história concreta é importante, que sua presença não é mera f
antasia e que seu amor fiel e solidário continua.

 

A alegria, tão característica da Páscoa, não brota apenas da certeza de que ressuscitaremos um dia, mas também da experiência atual e cotidiana de não sermos condenados/as, de sermos aceitos/as como amigos e amigas de Jesus de Nazaré, apesar dos nossos insuperáveis limites, traições e deserções. Mas a alegria e a paz radiantes da Páscoa podem também esconder um risco: podemos ficar de tal modo extasiados com as imagens de anjos e com as palavras de paz, pela visão de um Cristo exaltado e sentado à direita do Pai, que esquecemos que nossa missão de discípulos/as está apenas começando.



Por isso, depois de afirmar que vem trazer a paz, Jesus confere claramente uma missão aos discípulos: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês”. Trata-se de continuar seu próprio trabalho de carregar nas costas a dor e o peso provocados pelo pecado estruturado e institucionalizado no mundo. É como se ele nos confiasse a tarefa de lixeiros, de passar pelas ruas, estradas e campos recolhendo as imundícies produzidas pela cultura egoísta e violenta. É a missão de sermos os cordeiros de Deus que tiram o pecado do mundo. E esta missão urge, não pode ser postergada para um hipotético amanhã, para quando tivermos tempo.


Esta missão também não pode ser terceirizada ou deixada à responsabilidade dos outros. Jesus Cristo diz claramente que o pecado que não eliminarmos permanecerá aqui, diminuindo e ferindo a vida de muita gente e garantindo o privilégio de poucos. Pois o pecado é a cumplicidade com a injustiça que fere as criaturas, e perdoar significa dissolver os laços que vinculam as pessoas a essa cumplicidade, torná-las livres frente à necessidade de cada um cuidar apenas de si e deixar a Deus o cuidado dos mais fracos. Jesus pede que as comunidades cristãs sejam espaços de acolhida, diálogo, amor mútuo e de luta pela justiça.

 

Tendo recebido o Espírito Santo, os discípulos, antes desanimados e medrosos, tiveram a coragem para inovar e a força para perseverar no ensinamento de Jesus de Nazaré; na união fraterna, para além de todas as fronteiras; na partilha do pão e de todos os bens; na oração e na liturgia. É assim que eles dão testemunho da ressurreição de Jesus Cristo. Abraçar a fé em Jesus Cristo ressuscitado vincula os discípulos e discípulas aos irmãos e irmãs, à partilha dos bens “conforme a necessidade de cada um”, à alegria radiante frente a cada acontecimento, à simplicidade profunda e cordial. Faz de nós uma Igreja solidária e em saída às periferias.


Aqui viemos, Jesus de Nazaré, Cordeiro de Deus que nos imuniza contra o vírus do egoísmo, para encontrar as pessoas que acreditam em ti, para tocar tuas chagas e acolher de novo teu mandato missionário. Dá-nos tua paz, e envia sobre nós teu Espírito, a fim de que não nos cansemos de dialogar e construir pontes, e experimentemos a felicidade de crer para ver, de acreditar apoiados no testemunho de vida dos outros, de fazer da nossa vida um serviço os irmãos e irmãs. Vem em nosso auxílio para não virarmos as costas à comunidade dos homens e mulheres de boa vontade, pois sem ela não conseguiremos te reconhecer. Amém! Assim seja!

 
Itacir Brassiani msf

Fonte: CEBI.ORG.BR

domingo, 14 de março de 2021

REFLEXÃO DO EVANGELHO DE DOMINGO: JOÃO 3, 14-21

Imagem: CEBI

João 3,14-21 traz uma bonita e, ao mesmo tempo, controversa frase: "Deus amou o mundo de tal maneira que entregou seu Filho único para que todo aquele que crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3,16). Tamanho foi o amor de Deus que nos deu seu único filho! Mas, por que o mesmo Deus que proibiu o sacrifício de Isaac (Gênesis 22) entregaria seu próprio filho? Queria o Pai que seu Filho fosse morto por nós? Se não queria, por que permitiu isso? Era necessário que o Filho do Homem fosse levantado no madeiro (João 3,14)?

Sabemos que o quarto evangelho teve sua redação já no final do primeiro século, momento em que muita gente vinha entregando a vida pela causa do Evangelho, no serviço aos pobres, na partilha dos bens e até mesmo no enfrentamento com o Império Romano, por meio do martírio. Por outro lado, não era pequeno o grupo dos gnósticos que contestava essa postura: para seguir Jesus bastava buscar a “iluminação”, abrir-se ao conhecimento, à gnose. Para quem assim pensava, o logos era luz a ser atingida pelo esforço do intelecto, não pela prática concreta. Corrigindo esta distorção, o quarto evangelho afirma já em seu prólogo: o verbo, a luz verdadeira, fez-se carne, gente de fato, viveu acampado no nosso meio! (João 1, 9-14).

Procurando Jesus às escondidas

De acordo com as narrativas joaninas, havia um grupo de pessoas simpáticas ao projeto de Jesus, mas com dificuldades de assumir publicamente essa postura. Tais pessoas sempre procuravam Jesus às escondidas (João 3,2) e por isso a tradição os apelidou de cripto-cristãos, isto é, cristãos secretos, escondidos.

Nicodemos fazia parte desse grupo. Foi modelo para muitos que, à época da redação do evangelho, não podiam ou não queriam assumir publicamente sua fé em Jesus. Pessoa influente entre os judeus, Nicodemos era fariseu e membro do Sinédrio (João 3,1). Mais tarde, até tentou evitar a condenação de Jesus no Sinédrio (João 7,50). Na versão do quarto evangelho, também foi ele quem trouxe os perfumes para a preparação do corpo do Mestre (João 19,39). Mas teve dificuldades de assumir publicamente seu compromisso com o Reino. Parece ser uma boa pessoa, mas tem medo de assumir publicamente o projeto de Jesus. Sua postura é o contrário da atitude da Samaritana, que se encontra com Jesus à luz do dia (João 4,6). Ironicamente, o nome Nicodemos significa vitória (nikos) do povo (demo).

Jesus há havia dito a Nicodemos que era preciso “nascer do alto” (João 3,3). Num jogo de palavras, era como “nascer de novo”. Nicodemos não entendeu que Jesus esperava um renascer da água e do Espírito (João 3,5).

A conversa entre os dois segue em forma de poema, no qual se misturam as palavras de Jesus com as de quem escreveu o evangelho. E se Nicodemos tem dificuldade de procurar Jesus durante o dia, de ser testemunho aberto da luz (João 1,7), Jesus será elevado, para que seja visto por todo o mundo, para que o mundo seja salvo por ele.

Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto… (3,14-15)

De acordo com a narrativa joanina, Jesus recorre ao livro dos Números para falar de sua morte na cruz. Lá no deserto, quando o povo começa a ser picado por cobras venenosas, Moisés faz uma serpente de bronze e a coloca numa haste, numa madeira. Quando alguém fosse picado, se contemplasse a serpente, ficaria curado (Números 21,4-9). É muito possível que por trás da narrativa de Números 21 esteja o culto a uma antiga divindade, Neuestã ou Noestã, a serpente de bronze. O povo deve ter cultuado essa divindade até mesmo no templo de Jerusalém, oferecendo incenso a ela (cf. 2 Reis 18,4). A forma com que o texto nos é apresentado, entretanto, numa narrativa mais tardia, quer deixar claro que Moisés fez isso “por ordem de Javé”, o único e verdadeiro Deus.

De qualquer forma, o mais importante é a comparação apresentada: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado”. Aqui o texto explica melhor o que significa a expressão “nascer do alto”. Ao ser levantado, colocado no alto da cruz, o Filho do homem torna-se visível a quem o queira contemplar. Na cruz, ele nasce do alto. Mas contemplar Jesus no alto significa duas coisas: por um lado, reconhecer que sua missão requer fidelidade ao projeto do Pai, em favor da humanidade; por outro, admitir que essa forma de ser elevado, “subir ao trono”, foi o que nos trouxe a libertação definitiva. Acreditando nisso, temos vida eterna.

Deus amou tanto o mundo… (3,16)

O termo mundo (kósmos) é utilizado pelo quarto evangelho para designar tudo o que se opõe ao Reino, ao projeto de Jesus. Por isso, diante de Pilatos, Jesus afirma categoricamente: O meu reino não é deste mundo (João 19,26). Uma tradução possível e até melhor para esta frase seria: Meu reino não é conforme – de acordo com – este mundo! O mundo de Pilatos era o mundo do império romano: ocupação militar, corrupção, exploração dos pobres, violência contra as mulheres e as crianças. Jesus denuncia publicamente essa farsa, por isso é levantado no madeiro (João 3,14). O império o condena. É elevado ao trono, mas sua glória é a cruz.

Entretanto, mesmo denunciando esse mundo e por ele condenado, Jesus não quer a condenação do mundo. Deus enviou Jesus não para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele (João 3,17). E da mesma forma que foi enviado, Jesus faz questão de afirmar que ao mundo também enviou seus discípulos (João 17,18).

A condenação e o assassinato de Jesus são atitudes e escolha do “mundo” e não o desejo de Deus. Temos que assumir que é nossa a culpa pela morte de tanta gente inocente. Não nos serve a atitude de Pilatos que, mesmo reconhecendo a inocência de Jesus, é conivente e autoriza a sua morte (João 19,6.16). Entretanto, a comunidade joanina, ao refazer a releitura de Gênesis 22 (a preservação da vida, o não-sacrifício de Isaac), quer ressaltar o quanto Deus ama esse mundo e como deseja a conversão e a mudança de comportamento.

Quem não crer, já está condenado… (3,17-21)

O Evangelho segundo João parece cair em contradição. No conjunto, insiste na salvação do mundo. Aqui, porém, explicita a condenação: a luz veio ao mundo, mas muitos dos seres humanos preferiram as trevas (João 3,19); o mundo não o reconheceu (João 1,10). Quem não crer, de antemão já está condenado (João 3,18). Uma tradução melhor seria “julgado” (em grego, kríno). O acréscimo de Marcos modificou o texto e o verbo: além de crer, é preciso ser batizado (Mc 16,16). Quem não crer será condenado (Marcos usa outro verbo – katakríno, mais ligado a “dar a sentença”).

Há quem prefira interpretar que a fé em Jesus é condição para a salvação. Estariam condenadas as pessoas que não acreditam e não aceitam a luz. É até possível que seja essa a intenção dos redatores, tamanha era perseguição do mundo sobre as comunidades à época da redação do texto. Entretanto, duas perguntas são muito importantes: Quem condena? E condena a quê?

Com certeza, quem nos condena não é Deus. Tamanho é o seu amor por nós que nos enviou seu próprio Filho! Nós mesmos/as fazemos a escolha, a opção é nossa. Estamos “no mundo”, mas podemos deixar de viver “conforme o mundo” (cf. Romanos 12,2).

Mas a que nós podemos nos condenar? Condena-se a si mesmo quem decide pelo projeto do “mundo”. Neste sentido, “crer” é aderir, aceitar, entregar-se, integrar-se no outro projeto, o do Reino.

Não é bom que corramos o risco de nos condenar à tristeza e à frustração de quem não consegue crer que Deus nos ama e que “outro mundo é possível”. Não podemos nos condenar ao individualismo e ao isolamento apregoados pela sociedade moderna. O caminho é a solidariedade, a partilha e o compromisso com quem sofre injustiças. Não fazer essa escolha é ficar na indecisão de Nicodemos. E então nos sobraria a “opção” de nos consolar comprando flores e perfume para o túmulo, como fez esse líder dos judeus (João 19,38-42).

Texto de Edmilson Schinelo.

Fonte: CEBI.ORG