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sábado, 23 de outubro de 2021

REFLEXÃO DO EVANGELHO DO DOMINGO: BARTIMEU, O CEGO DE JERICÓ, DISCÍPULO MODELO PARA NÓS

 


30º DOMINGO DO TEMPO COMUM: Marcos 10, 46-52

COMENTANDO

Finalmente, após longa travessia, chegam a Jericó, última parada antes da subida para Jerusalém. O cego Bartimeu está sentado à beira da estrada. Não pode participar da peregrinação que acompanha Jesus. Mas ele grita, invocando a ajuda de Jesus: “Filho de Davi! Tem compaixão de mim!” O grito do pobre incomoda. Os que acompanham Jesus tentam abafá-lo. Mas “ele gritava mais ainda!” E Jesus, o que faz? Ele escuta o grito, para e manda chamá-lo! Os que queriam abafar o grito incômodo do pobre, agora, a pedido de Jesus, são obrigados a ajudar o pobre a chegar até ele.

Bartimeu larga tudo e vai até Jesus. Não tem muito. Apenas um manto. Mas era o que tinha para cobrir o seu corpo (cf. Ex 22,25-26). Era a sua segurança, o seu chão! Jesus pergunta: “O que você quer que eu faça?” Não basta gritar. Tem que saber por que grita! “Mestre, que eu possa ver novamente!” Bartimeu tinha invocado Jesus com ideias não inteiramente corretas, pois o título “Filho de Davi” não era muito bom. O próprio Jesus o tinha criticado (Mc 12,35-37). Mas Bartimeu teve mais fé em Jesus do que nas suas ideias sobre Jesus. Assinou em branco. Não fez exigências como Pedro. Soube entregar sua vida aceitando Jesus sem impor condições. Jesus lhe disse: “Tua fé te curou!” No mesmo instante, o cego recuperou a vista. Largou tudo e seguiu Jesus no caminho para o Calvário (10,52).

Sua cura é fruto da sua fé em Jesus (Mc 10,46-52). Curado, Bartimeu segue Jesus e sobe com ele para Jerusalém. Tornou-se discípulo modelo para Pedro e para todos os que queremos “seguir Jesus no caminho” em direção a Jerusalém: acreditar mais em Jesus do que nas nossas ideias sobre Jesus! Nesta decisão de caminhar com Jesus estão a fonte da coragem e a semente da vitória sobre a cruz. Pois a cruz não é uma fatalidade, nem uma exigência de Deus. Ela é a consequência do compromisso assumido com Deus de servir às irmãs e aos irmãos e de recusar o privilégio.

ALARGANDO

A fé é uma força que transforma as pessoas

A Boa Nova do Reino anunciada por Jesus era como um fertilizante. Fazia crescer a semente da vida que estava escondida no povo, escondida como fogo em brasa debaixo das cinzas das observâncias sem vida. Jesus soprou nas cinzas e o fogo acendeu, o Reino desabrochou e o povo se alegrou. A condição era sempre a mesma: crer em Jesus.

A cura de Bartimeu (Mc 10,46-52) explicita um aspecto muito importante da longa instrução de Jesus aos discípulos. Bartimeu tinha invocado Jesus com o título messiânico “Filho de Davi” (Mc 10,47). Jesus não gostava deste título (Mc 12,35-37). Porém, mesmo invocando Jesus com ideias não inteiramente corretas, Bartimeu teve fé e foi curado.

Diferentemente de Pedro (Mc 8,32-33), Bartimeu acreditou mais em Jesus do que nas ideias que tinha sobre Jesus. Converteu-se, largou tudo e seguiu Jesus no caminho para o Calvário (Mc 10,52). A compreensão plena do seguimento de Jesus não se obtém pela instrução teórica, mas sim pelo compromisso prático, caminhando com ele no caminho do serviço, desde a Galileia até Jerusalém.

Quem insiste em manter a ideia de Pedro, isto é, do Messias glorioso sem a cruz, nada vai entender de Jesus e nunca chegará a tomar a atitude do verdadeiro discípulo. Quem souber crer em Jesus e fazer a “entrega de si” (Mc 8,35), aceitar “ser o último” (Mc 9,35), “beber o cálice e carregar sua cruz” (Mc 10,38), este, como Bartimeu, mesmo tendo ideias não inteiramente corretas, conseguirá enxergar e “seguirá Jesus no caminho” (Mc 10,52). Nesta certeza de caminhar com Jesus estão a fonte da coragem e a semente da vitória sobre a cruz.

Texto do Mesters e Lopes

Fonte: cebi.org.br

 

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Não podemos deixar de anunciar o que vimos e ouvimos!

Imagem: doutoresecommerce

Leia a reflexão sobre Marcos 10,46-52, texto de Itacir Brassiani

Estamos entrando na última semana do mês que dedicamos à oração e à animação missionária. Neste domingo, celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Missões. O Papa Francisco nos convida, citando os Apóstolos da primeira hora, a não calar aquilo que vimos e ouvimos (cf. At 4,20). Trata-se daquilo que vimos e ouvimos nestes quase dois anos de pandemia, de genocídio, de faturamento em cima da tragédia, de negociatas obscenas sem o mínimo de empatia e compaixão, mas também de gestos de doação sem medida, de avanço rápido na busca de soluções, de uma capacidade inaudita de resiliência.

É o desejo insaciável de plenitude, de bem viver e conviver que faz com que a pessoa humana se coloque a caminho. Apagar este desejo, ou substituí-lo pela rasteira satisfação de uma segurança feita sob medida para os fortes, equivale a começar a morrer. O ser humano só fica sentado à beira da estrada e condena quem é diferente quando ainda não alcançou sua própria maturidade, ou quando teve roubada a sua dignidade. Só quem ousa caminhar para além do presente é capaz de recusar uma vida sustentada por algumas migalhas.

O desejo mobilizador, criativo e emancipador é também o lugar do encontro com Deus. Quem busca Deus fora da insaciável sede de plenitude e de convivência inclusiva e solidária acaba fabricando ídolos que só fazem amedrontar os viventes e devorar vidas. É Deus quem nos fez sonhadores, misturando ao pó da terra o sopro divino. E é nessa abertura radical que nada pode preencher que ele costuma vir ao nosso encontro, acolhendo-a não como sinal de nossos limites, mas como expressão do infinito que nos habita. É também do adorável fundo desta condição de criaturas desejantes que brota a verdadeira oração.

É na oração que revelamos nossos verdadeiros e mais profundos desejos. Então, o que é que andamos pedindo a Deus? Dirigimo-nos a Deus como se ele fosse um capitão pronto a eliminar, em nosso nome, as pessoas e grupos que não nos agradam ou sentimos como ameaça? Confiamos a ele a frágil economia e a duvidosa moral da nossa família e imploramos que dê segurança às nossas poupanças e propriedades? Talvez cheguemos até a pedir paz, segurança e sucesso à nossa Igreja na concorrência com as demais denominações, que tratamos como concorrentes…

Como são pobres e medíocres estes desejos! Não passam de necessidades geradas no ventre do medo. Por isso, quando se trata de oração, não é suficiente pedir com insistência: é preciso desejar e pedir com ousadia e corretamente grandes coisas. Venha a nós o vosso Reino! Seja feita a vossa vontade! Democracia radical e respeito aos pobres… Bartimeu, que pede esmolas à margem do caminho, começa pedindo compaixão àquele que carrega nas próprias entranhas as esperanças dos pequenos. Antes de manifestar propriamente um desejo, o filho de Timeu expressa sua própria condição de dor e alienação.

Apesar da contrariedade dos que o circundam e seguem, Jesus para e se dirige ao cego e mendigo que implora: “O que você quer que eu faça por você?” Encorajado pelos discípulos, Bartimeu balbucia um pedido que vem do fundo da condição humana, que espanta todos os medos e exorciza todas as limitações: “Mestre, eu quero ver de novo!” Neste pedido, aquele homem cego e mendigo resume todas as suas necessidades e desejos: ver claramente as coisas, avaliar com retidão os acontecimentos, vislumbrar o Reino de Deus chegando como graça, tomar decisões políticas responsáveis à luz da razão ética e não dos medos e ódios…

No mesmo conjunto narrativo, um jovem rico havia voltado atrás, entristecido, porque era refém dos próprios bens (cf. Mc 10,17-22), e João e Tiago haviam expressado seus sonhos de poder. Mas o cego se livra do único meio de sobrevivência que possui e se aproxima de Jesus. E é essa fé ativa e dinâmica que abre seus olhos. “Pode ir, a sua fé curou você!” E ele não volta para casa ou para a caserna, mas põe-se a seguir Jesus. Mostra-se mais livre que o jovem rico, que voltou atrás desiludido, e mais lúcido que João e Tiago, que desejam os primeiros lugares. E ele jamais calou aquilo que experimentou, viu e ouviu.

Jesus de Nazaré, peregrino no santuário das dores e sonhos humanos! Escuta o grito que brota das entranhas da terra e abre os nossos olhos para reconhecer-te passando por nossos caminhos. Converte os cristãos do Brasil, para que não ignorem os desejos e sonhos que movem a humanidade. Desperte em nós e em nossas comunidades a corajosa alegria de não calar aquilo que vimos e ouvimos, que estamos vendo e ouvindo. E que ninguém cale em nós o grito do desejo de bem viver, mais forte que todas as razões. Assim seja! Amém!

 

FONTE: https://cebi.org.br/reflexao-do-evangelho/nao-podemos-deixar-de-anunciar-o-que-vimos-e-ouvimos/

sábado, 16 de outubro de 2021

REFLEXÃO DO EVANGELHO DO DOMINGO: EU VIM PARA SERVIR

 

29º DOMINGO DO TEMPO COMUM: Marcos  10, 35-45

Vamos refletir sobre a conversa entre Jesus e seus discípulos (Marcos 10,36-45), ocorrida após o terceiro anúncio da paixão (Marcos 10,32-35). Este anúncio da paixão está situado no caminho para Jerusalém, o caminho do seguimento (v. 32). É o caminho da diaconia, isto é, do serviço. É o caminho em que Jesus vai abrindo, aos poucos, os olhos dos discípulos ainda cegos. Até que ponto, continuamos cegos em nossos dias, quando sabemos que o pior cego é aquele que não quer enxergar?

A comunidade que é de Jesus não reproduzir as relações deste mundo, que são de luta por poder, riquezas, consumismo e prestígio a qualquer custo. E, para garantir esses privilégios, espalham preconceitos e mentiras, calúnias e intolerâncias, ódio e violência. E isso tudo focado no indivíduo e não em pessoas, satisfazendo interesses individualistas sem se preocupar com a realidade das pessoas mais necessitadas.

A comunidade cristã será expressão das relações do reinado de Deus e semente de uma nova sociedade, somente estabelecendo relações alternativas às do mundo, fundamentadas na acolhida e na verdade, no amor e na paz. Ao lembrar o modo opressivo de os romanos exercerem o poder, Jesus sentencia: “Entre vós não deverá ser assim” (Mc 10,43).

Luta por poder

Depois do segundo anúncio da paixão (Marcos 9,30-32), Jesus já tentara abrir os olhos dos discípulos quanto à forma de exercer o poder, uma vez que a discussão pelo caminho era sobre “qual dentre eles seria o maior”. “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último e aquele que serve a todos” (cf. Marcos 9,33-35). No entanto, parece que o ensino de Jesus não teve o efeito esperado. É que a questão do poder privilégio volta novamente à tona.

Agora, Tiago e João disputam os melhores cargos no reinado de Jesus (Marcos 10,35-37). E são eles mesmos que vão pleitear as melhores posições junto ao líder. Diferente é em Mateus, onde a mãe dos filhos de Zebedeu, acompanhada pelos dois jovens, vem fazer lobby junto a Jesus, a fim de que conceda os cargos mais importantes a eles. Ela imagina que sua pressão em favor dos filhos sensibilize o coração de Jesus.

No texto de hoje, em resposta a Tiago e João, Jesus diz que até podem beber do mesmo cálice que ele beber e receber o mesmo batismo que ele receber, isto é, sofrer morte violenta por fidelidade ao projeto do Pai. No entanto, na proposta de Jesus não há espaço para privilégios, para a desigualdade (Marcos 10,38-40). Sua política é igualitária.

E nós, como exercemos a autoridade em nossas comunidades? Como estabelecemos relações de poder quanto às questões étnicas e de gênero? Também fazemos como os filhos de Zebedeu?

Autoridade que serve

A partir dali, Jesus novamente ensina qual é seu projeto de poder. Primeiro, refere-se à forma como não devemos exercer a autoridade. E o faz, lembrando como os romanos, “aqueles que vemos governar as nações”, exerciam o poder. Eles “oprimem e tiranizam” os povos que subjugam. Os poderosos daquele mundo alcançavam a paz através da vitória, impondo a derrota com violência a quem resistisse contra a sua tirania. E eles chamavam a isso de pax romana. A paz de Jesus não é a da vitória pela violência, mas é a paz fruto da justiça. É por isso que ele diz: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o mundo a dá” (João 14,27). Em consequência, a comunidade que quer ser semente de uma nova sociedade não pode reproduzir as relações deste mundo: “Entre vós não deverá ser assim” (Marcos 10,43).

Em segundo lugar, Jesus faz a sua proposta: “aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor; e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos” (Marcos 10,43-44). Para Jesus, o poder é diaconia, é serviço. E ele deu o exemplo, pois não veio para ser servido, mas para servir. Veio para dar a sua vida em resgate de muitos (Marcos 10,45). Ele é o messias diácono, servidor. No evangelho segundo João, é na narrativa do lava-pés que Jesus ensina a respeito de como viver relações igualitárias na comunidade (João 13,1-17), de modo que ela seja luz para mundo e sal para a terra (Mateus 5,13-16).

Que, tal como Jesus aprendeu de sua mãe, também nós aprendamos a dizer com Maria de Nazaré: “Eis aqui a serva do Senhor” (Lucas 1,38).

Concluindo e ampliando

O problema não é o poder em si, mas a forma como o exercemos. Assim também é com a riqueza criada por Deus. A questão é o que fazemos com ela, se a acumulamos ou partilhamos. Jesus chamava a riqueza acumulada de “tesouro da terra”, ao passo que chamava a riqueza repartida de “tesouro do céu” (cf. Mateus 6,19-20).

O “poder sobre”, o poder vertical ou de cima para baixo é um poder que oprime, faz sofrer e serve a poucos. É autoritário. O que Jesus condena é justamente essa forma de exercício da autoridade. Ao passo que o “poder com”, o poder horizontal ou de braços dados em comunhão é uma autoridade exercida em parceria e serve à maioria. É uma autoridade participativa e democrática. E somente pode viver essa autoridade quem experimenta o “poder de dentro”, do interior, que empodera a autonomia, a liberdade de quem o exerce.

Mais que dar a vida por Jesus, ser discípulo e discípula dele é, como ele, doar-se para que todas as pessoas tenham vida, e vida em abundância. Ser discípulo é ser como o cego Bartimeu. De um lado, é buscar ardentemente a superação da cegueira da mente e do coração na luta por poder. De outro, enxergando como Bartimeu, é buscar clareza a respeito do projeto de Jesus, segui-lo pelo caminho e servir, isto é, de cego a discípulo (Marcos 10,46-52).

A partir da prática de Jesus em relação ao exercício do poder, podemos ampliar sua dimensão de serviço. As nossas comunidades continuam a ser chamadas a viver a diaconia, não somente quanto às relações de poder, mas também no serviço a quem mais precisa e sofre discriminação em nosso meio. É o serviço às pessoas que não têm direito à liberdade nem à saúde, ou que não têm o que comer nem beber, com que se vestir ou onde morar e trabalhar com dignidade (cf. Mateus 25,35-36). Vivendo relações de serviço, já antecipamos, em nossas comunidades, o resgate da democracia, o outro mundo possível e urgentemente necessário, a fim de evitar o autoritarismo que leva à barbárie.

texto do Ildo Bohn Gass

Fonte: cebi.org.br