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domingo, 25 de julho de 2021

ROTEIRO DE ENCONTRO: JESUS APRESENTA O REINO EM PARÁBOLAS

 COMPARTILHO com vocês o Encontro de Catequese que fiz ontem com os catequizandos adultos, via Google Meet. O ROTEIRO foi criado pela Andréa Bonatto (minha querida coordenadora), do Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Curitiba PR. Eis o roteiro:

Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

12º ENCONTRO – CATECUMENATO DE ADULTOS

JESUS APRESENTA O REINO EM PARÁBOLAS

PREPARAR O ENCONTRO:

- Altar (Toalha, Vela, Cruz, Flores e Bíblia)

- Elementos que ilustrem a parábola trabalhada nesse dia.

PALAVRA DE DEUS:

- O Trigo e o Joio - Mt 13.24-30, 36-43

- A semente de mostarda — Lc 13,18-19

- Parábola do semeador – Lc 8, 4-15

(Pode-se trabalhar estas  e outras parábolas listadas na atividade anexa).

APRESENTANDO O TEMA:

Entregar aos catequizandos uma listagem com diversas parábolas de Jesus, com questões a serem respondidas por eles.

Nesse encontro fazer um debate sobre quais ensinamentos tiveram com o estudo feito. Pode juntar os que escolheram a mesma parábola para falarem juntos ou se forem poucos, cada um escolhe uma parábola diferente.

Mostrar aos catequizandos que Jesus nos fala do Reino de Deus através de Parábolas. No seu tempo, até hoje, Ele sempre contava uma história fazendo comparações conforme as situações do momento.

Entender o que é esse Reino de Deus apresentado por Jesus.

Uma dinâmica a ser feita no encontro, é ler junto com os catequizandos uma parábola, e responder as questões propostas:

Para quem grupo de pessoas a parábola foi contada?

Por que a parábola foi contada?

Qual é a moral apresentada pela parábola?

Quais os elementos da parábola?

O que eu aprendi ao ler essa parábola?

(SUGESTÃO DE ATIVIDADE AO FINAL DO TEXTO)

APROFUNDANDO O TEMA:

Quando Jesus queria explicar realidades muito profundas como o Reino de Deus, utilizava de parábolas, que são pequenas histórias que levam o ouvinte a refletir e decidir sobre o que é contado. É uma interatividade. Jesus usa muito a participação do público em sua pregação.

As parábolas são proferidas para todos, mas somente quem tem fé, isto é, quem confia, consegue compreender sua mensagem. Jesus escolhe esse modo de transmitir os ensinamentos para os tesouros do Reino sejam dados somente aos que abrem o coração para Deus entrar em sua vida.

Toda Parábola consta de dois elementos: o símbolo material e o simbolizado espiritual. O símbolo material é tirado da natureza humana. É compreensível a todos, mas a compreensão do simbolizado espiritual depende do grau de fé em que a pessoa está.

O importante é que as Parábolas devem ser refletidas para levar à ação transformadora da sociedade, conforme o coração de Deus, Jesus chama para entrar no Reino, por meio das Parábolas, traço característico do seu ensino. Por meio delas, convida para o banquete do Reino, mas exige também uma opção radical: para merecer o Reino é preciso dar tudo, As palavras não bastam, exigem atos.

“Só poderemos entender a mensagem de Jesus sobre o Reino, por meio de sua parábolas e Bem-aventuranças, se entendermos o próprio Jesus como uma parábola. Jesus é a face amorosa de um Deus que se doa totalmente por graça e, com isso, quer resgatar o seu povo imerso na sua realidade. A parábola de Jesus se insere no cotidiano do povo para transformá-los já em suas vidas, o que implicaria, posteriormente, numa atitude pessoal de aceitação do Reino. A liberdade em aceitar o que é gratuito se torna realidade para seguir a práxis (prática) cristã”.

(Cesar Augusto Kusma – Catequese catecumenal da Comissão Biblico-catequética da Arquidiocese de Curitiba).

COMO JESUS TRATAVA DAS PARÁBOLAS COM SEUS DISCÍPULOS?

Ele chamou Seus discípulos para longe da multidão. Os discípulos aproximaram-se dele e perguntaram: ‘Por que falas ao povo por parábolas?” Ele respondeu:

A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles não. A quem tem será dado, e este terá em grande quantidade. De quem não tem, até o que tem lhe será tirado. Por essa razão eu lhes falo por parábolas: ‘Porque vendo, eles não veem e, ouvindo, não ouvem nem entendem’. Neles se cumpre a profecia de Isaías: ‘Ainda que estejam sempre ouvindo, vocês nunca entenderão; ainda que estejam sempre vendo, jamais perceberão. Pois o coração deste povo se tornou insensível; de má vontade ouviram com os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos. Se assim não fosse, poderiam ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, entender com o coração e converter-se, e eu os curaria’. Mas, felizes são os olhos de vocês, porque veem; e os ouvidos de vocês, porque ouvem” (Mateus 13,10-17). (cf. Is 6,9)

Jesus, deste ponto em diante no seu ministério, sempre ensinava o sentido das parábolas apenas aos Seus discípulos. Entretanto, aqueles que continuamente rejeitavam a Sua mensagem foram deixados em sua cegueira espiritual se perguntando a respeito do que Jesus queria dizer. Ele fez uma distinção clara entre aqueles que tinham sido dados "ouvidos para ouvir" e aqueles que persistiam em descrença – sempre ouvindo mas nunca realmente entendendo e "sempre aprendendo, mas não conseguem nunca de chegar ao conhecimento da verdade" (2 Timóteo 3,7). Os discípulos tinham recebido o dom do discernimento espiritual pelo qual as coisas do Espírito ficavam-lhes claras. Porque aceitavam a verdade de Jesus, eles receberam mais verdade.

As escolhas de Jesus:

As escolhas de Jesus passam pela esperança do povo hebreu, elas se sustem nas promessas contidas nas escrituras (Torah). A fé e a religiosidade encontravam-se no centro da vida do povo. Em suas atitudes, Jesus fez suas escolhas em sintonia com a ação de Deus para com o povo, Jesus aparece como o libertador, é o Messias esperado. Dentre as escolhas de Jesus podemos colocar: Os pobres; as crianças, as mulheres, os doentes. E por estas escolhas ele fundamentou sua prática.

Com as Parábolas, Jesus ensinou:

SOBRE DEUS: Ensinou que Deus é nosso Pai e o Criador do mundo, “Naquele tempo, Jesus disse: Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos.” (Mt 11,25).

SOBRE O PECADO: Todos pecamos e estamos longe de Deus, “..quem de vocês não tiver pecado, atire a primeira pedra!” (Jo 8,7). O pecado leva à morte.

SOBRE QUEM ELE É: Ele disse que é o Filho de Deus, ou seja, Ele é Deus. Ele veio para salvar o mundo, morrendo na cruz e ressuscitando. “Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3,16).

SOBRE A SALVAÇÃO: Para sermos salvos precisamos nos arrepender dos nossos pecados e aceitar Jesus como nosso senhor e salvador “Convertam-se, porque o Reino de Deus está próximo!” (Mt 4,17). Quem acreditar n'Ele será salvo e terá a vida eterna. A salvação é de graça e nos une de novo a Deus.

SOBRE O ESPÍRITO SANTO: Jesus disse que enviaria o Espírito Santo para nos ensinar e consolar. É o Espírito Santo que nos convence do pecado e nos capacita a viver livres do pecado. “Mas o Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão força para serem as minhas testemunhas em Jerusalém, e em toda a Judéia e a Samaria, e até os extremos da Terra.” (At 1,8).

SOBRE O CÉU E O INFERNO: Quem crê em Jesus, quando morrer irá morar no Céu com Deus para sempre. Lá não haverá mais tristeza. Mas os ímpios irão para o Inferno, longe da presença de Deus, onde só há sofrimento. “Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.(Mt 25,46).

SOBRE O FIM DOS TEMPOS: O fim virá mas ninguém sabe quando. Nessa altura Jesus voltará, os mortos ressuscitarão e os santos irão com Ele para o Céu. A terra será destruída, haverá um grande julgamento e o diabo e os ímpios serão lançados no fogo eterno. Antes do fim haverá sinais para avisar que está próximo (Marcos 13,28-29).

A temática principal das parábolas de Jesus é o Reino de Deus! 

Texto bíblico: Mt 13, 44-46:

“Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo. Outrossim o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas; E, encontrando uma pérola de grande valor,  vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a.”

AS PARÁBOLAS DO REINO

Mateus 13 trata de um dia em que Jesus passou ensinando sobre o seu reino por meio de parábolas. Parábola é uma história do cotidiano com uma aplicação espiritual. As parábolas de Jesus tratavam de agricultura, culinária, comércio, pesca, etc. Tudo que dizia respeito ao contexto em que viviam seus ouvintes.

Examine três lições extraídas das parábolas:

Em primeiro lugar, a importância da palavra de Deus. Em três das parábolas a palavra de Deus é apresentada como uma semente que precisa ser plantada em bons corações para ter uma colheita frutífera. Tentar fazer uma colheita sem plantar a semente é completamente ridículo. O mesmo é tentarmos agradar Deus sem estudar, ler e meditar sobre sua palavra. Não haverá fruto produzido para Deus se a palavra não habitar ricamente em nossos corações.

Em segundo lugar, o valor de servir a Deus. Outra história fala de um vendedor de pérolas que passou a vida comprando e vendendo pérolas de alto valor. Um dia, ele achou a pérola das pérolas; então foi e vendeu tudo para comprar a pérola de valor inigualável. Conseguir uma pérola dessa é muito custoso, mas ainda assim vale a pena. Para alcançarmos o reino de Deus, é preciso muito esforço e sacrifício; mas supera em muito o valor de todo o mundo junto.

Em terceiro lugar, haverá separação no fim. Em duas parábolas, Jesus falou do julgamento. Em uma, ele o mostrou com o ato de separar o joio do trigo; em outra, pelo ato de separar os peixes maus dos bons. Ele diz: "Assim será na consumação do século: Sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos". A nossa era faz ouvidos de mercador para o ensinamento de Jesus acerca do juízo final, e assim traz sua própria destruição.

O QUE É O REINO DE DEUS?

O Reino de Deus ainda não foi completamente estabelecido, mas, já começou. Esse Reino existe em todo o homem, está dentro do homem, como uma semente. Mas, muitos estão insensíveis a esse dom.

A Parábola ajuda o homem a despertar, a desenvolver este Reino.

A todo aquele que se faz ouvinte da Palavra de Deus é dado conhecer os mistérios do Reino. A busca desse Reino começa na iniciativa de quem, não contente com as coisas do mundo, procura algo mais, aquele tesouro, aquela pérola que realmente dê sentido à sua vida; e ao encontrá-lo, dedica-se a ele, ao tesouro que se tornará seu único bem definitivo.

Ser Igreja é fazer a experiência do Reino, que exige conversão ao evangelho dos simples e pequenos, tornando-se pobre e arrancando do coração toda a ganância e busca de privilégios.

Reino de Deus”, então, quer dizer Deus reinando em nossos corações, dirigindo nossa vontade, iluminando com seu Espírito nossos pensamento, purificando nossos olhos e nossas palavras, principalmente no relacionamento com as pessoas: em especial com os pobres, sofridos e pequenos.

O Documento de Aparecida ensina-nos que todo discípulos de Jesus é enviado a anunciar o Evangelho do Reino da vida, pois “Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, com palavras e ações e com sua morte e ressurreição, inaugura no meio de nós o Reino de vida do Pai, que alcançará sua plenitude lá onde não haverá mais ‘nem morte, nem luto, nem pranto, nem dor, porque tudo que é antigo terá desaparecido’ “ (Ap 21,4; DAp, 143).

“Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem entrou no coração do homem, o que Deus preparou para aqueles que O amam”  (I Cor 2, 9

Catequista: Andrea Bonatto.

Para finalizar o encontro:

- Motivar preces espontâneas para que o reino seja sempre presente, que superemos os julgamentos e que tenhamos as opções de Jesus.

Rezar o Pai Nosso, prestando atenção á petição “Venha a nós o vosso reino!"

- Finalizar com o gesto de imposição das mãos, orando pelos participantes.

 

ATIVIDADE



Ângela Rocha - Catequista
Catequistas em Formação

 

sábado, 24 de julho de 2021

DIA DOS AVÓS: 26 DE JULHO

Imagem: A Voz da Igreja - Arquidiocese de Curitiba
 São Joaquim e Santa Ana, inspirações para os avós

Na próxima segunda-feira, dia 26 de julho, comemoramos o DIA DOS AVÓS. A data é celebrada no Brasil, em Portugal e na Espanha, em referência ao Dia de São Joaquim e Santa Ana, os pais de Maria e avós de Jesus. Muitas paróquias dedicadas a Sant’Ana e São Joaquim, fazem a festa dos padroeiros.

O ditado popular diz que a vovó é mãe com açúcar - e o vovô é pai adoçado!

Aos vovôs e vovós que tiveram que se manter longe dos netos nesta pandemia...

Àqueles que exercem papel importante na educação dos netos, sendo companhia diária para que os pais possam trabalhar...

Àqueles que moram longe e que matam as saudades com a ajuda da tecnologia...

Àqueles que nem querem saber de internet porque sabem que o olho-no-olho é insubstituível...

Àqueles que estão sempre prontos com aquele colo macio que só eles têm...

Às vovós que fazem tricô e crochê e às que capricham no batom e no salto alto...

Aos vovôs que usam óculos na pontinha do nariz e aos que movimentam as academias de ginástica...

As nossas avós Catequistas pela sua dedicação...

A todos aqueles e aquelas que, na correria do dia-a-dia, alimentam o amor e nos fazem crer na humanidade:

Nosso profundo agradecimento, nosso maior amor.

 

FELIZ DIA DOS AVÓS!

 

Boletim “A voz da Igreja” da Arquidiocese de Curitiba - PR

(Adpatado).

REFLEXÃO DO EVANGELHO DO DOMINGO – O PROTAGONISMO DA CRIANÇA PRESENTE

 

17ª DOMINGO DO TEMPO COMUM: João 6,1-15

Convido a olhar o texto de João 6,1-15 na perspectiva do protagonismo da criança presente. Tomo como ponto de partida a interação entre tempo, lugar e personagens.

a) As referências ao tempo

O v.1 inicia mencionando o tempo no qual o fato descrito se passa. É um tempo “depois” que vem marcado e definido por aquilo que aconteceu anteriormente, ou seja, pelos sinais que Jesus realizava com os doentes: Jo 4.46-54 – a cura do filho de um funcionário real, um menino (v.49) cujo pai intercede por ele; e Jo 5.1-15 – a cura de um homem que estivera doente por trinta e oito anos e está sozinho, sem ninguém que o ajude (v.7).

O v. 4 traz outra referência ao tempo de Festa da Páscoa. Uma informação solta, que precisa ser analisada no contexto maior do Evangelho de João. A Páscoa é a festa comemorada para lembrar o Êxodo, a saída da terra da escravidão, o acontecimento mais importante da história do povo que narra suas experiências nos textos bíblicos. Também a observação do v.10: “pois havia naquele lugar muita grama”, é um indicativo para a estação do ano, a primavera, quando a grama é  perceptível. Porém, além do aspecto temporal, consideramos esta informação importante do ponto de vista do cenário, do lugar onde os acontecimentos são vivenciados. Também o v.12 inicia com uma conjunção temporal: “quando ficaram satisfeitos” dando destaque para o tempo transcorrido entre a partilha e a saciedade das pessoas participantes. Não foi preciso comer com pressa e ninguém saiu com fome.

b) O lugar

Jesus atravessou o mar da Galileia, que é o de Tiberíades (v.1b). Jesus passara por Jerusalém (capítulo 5) e agora está de volta ao lugar onde a realidade de doença e carência mobiliza a multidão, pois esta o segue.  Jesus retira-se para o monte e senta-se com seus discípulos (v.3). O monte aponta sempre para a busca de um distanciamento, mas aqui não se torna possível porque a multidão segue Jesus e não recua diante do monte. Naquele lugar havia muita grama (v.10) que é indicada como possibilidade para que o povo pudesse “tomar lugar”.  Na linguagem dos Evangelhos, o verbo “tomar lugar” ocorre em Mt 15.35; Mc 6.40; Mc 8.6; (narrativas paralelas a João 6.1-5) e em Lc 11.37; 17.7; 22.14; Jo 6.10; 13.12. Refere-se sempre ao ocupar lugar em uma mesa, reclinar-se à mesa; em Lc 14.10 se refere ao lugar ocupado por alguém em uma festa e em Jo 13.25 e 21.20 ao reclinar-se sobre o peito de Jesus. Predominam os usos deste verbo para indicar mais do que um simples sentar, pois indica explicitamente o ato de tomar um lugar para participar de uma refeição.

c) As pessoas que interagem na narrativa

Jesus é claramente aquele em torno do qual tudo gravita. Há uma multidão que o seguia. No v.5 fica claro que Jesus está acompanhado por seus discípulos a quem ele se dirige. Nominalmente são mencionados, Felipe e André, irmãos de Simão Pedro. No v.9 uma criança é mencionada e logo depois no v.10 é dito que os homens eram cinco mil. No caso, não é dito que mulheres e crianças não são contadas, como se diz explicitamente no Evangelho de Mateus em 14.21 e 15.38, porém, fica claro que elas deixam de ser contabilizadas por usar o termo andrés (varões) ao falar dos cinco mil que tomaram lugar. Anteriormente foi falado sobre a criança, portanto ela estava lá e interage com os discípulos e certamente também com Jesus.

O termo utilizado em João 6.9 para referir-se ao menino é paidarion. Há alguns comentários exegéticos que traduzem este termo como rapaz ou escravo. Porém, predominantemente é preferida a utilização da palavra “menino”. O dicionário do Novo Testamento de Walter Bauer traz como primeiro significado: “menininho, o menino, a criança, também do sexo feminino”. Considerando os diversos estudos sobre os termos usados para falar de crianças na Bíblia, pode-se apenas afirmar, pelo menos como uma possibilidade bastante provável, que o termo paidarion de João 6.9 se refere a uma criança, escrava ou livre, menino ou menina, legalmente ainda sob a tutela de um adulto. Considerando que paidarion é um diminutivo, a tradução mais próxima é: menino ou menina e por isto optamos em falar sempre em criança.

Esta criança é apresentada como paradigma e como quem tem os meios para fazer acontecer a partilha. Ela não fala, não faz perguntas, não contesta, apenas disponibiliza os recursos e os meios de partilha. A memória de sua ação chega ate nós apenas pela sua presença física, seu corpo que não pode ser invisibilizado, ignorado. No contexto do Evangelho de João é uma presença incômoda porque este é um Evangelho diferente dos sinóticos, que trazem muito mais narrativas sobre crianças. Esta menção basta para nos perguntar sobre a maneira como percebemos as crianças em nosso meio.

A busca de uma hermenêutica na perspectiva das crianças nos incomoda porque exige que nós mesmos nos deixemos perguntar como nós nos percebemos em relação a elas. Não podemos dizer como as vemos e percebemos sem revelar nossos próprios conceitos e percepções. A criança tem em suas mãos pães e peixes. Jesus recebe esses alimentos e são mencionados cinco mil homens para comê-los. Mulheres e crianças não contam, mas esse menino denuncia a presença de crianças em meio à multidão. Na construção desta narrativa, também Jesus não é descrito como alguém que dá atenção ou valoriza a criança. Ele apenas faz uso do que a criança tem para fazer os sinais e fazer a multidão reconhecer nele o profeta que viria ao mundo. Porém, ao não ignorar aquilo que a criança tem, como a observação do discípulo insinua, Jesus valoriza a sua presença. E isto acontece explicitamente em outras narrativas no próprio Evangelho de João: “Quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus. Precisa tornar a ver como criança” (3.3-7).

Em situação de carência, com a presença de Jesus é anunciada a vida em abundância. A presença da criança é percebida pelo que ela oferece para partilhar, mas o protagonista da oferta é André, um dos discípulos de Jesus. A partilha em João 6 acontece a partir daquilo que a comunidade tem a disposição e não daquilo que é uma concessão por alguém de fora. E, nesse caso, são cinco pães de cevada e dois peixes secos, que estão em posse de uma criança. A relação que se estabelece é de uma economia solidária.

É Rubem Alves quem chama a nossa atenção para este aspecto específico no Evangelho de João, de ver o Reino de Deus. Conforme este autor, “são as crianças que veem as coisas – porque elas as veem sempre pela primeira vez com espanto, com assombro de que elas sejam do jeito que são. Os adultos, de tanto vê-las, já não as veem mais. As coisas – as mais maravilhosas – ficam banais.” Os adultos pensam que o maior e o mais caro são o melhor. Pensam que a alegria e os deuses vêm empacotados em embrulhos grandes. Por exemplo: quando falam em Deus, pensam logo numa coisa grande, muito grande, terrível, do tamanho do universo, e ficam falando em coisa que o pensamento não entende, como tempo de bilhões e anos e distâncias de anos luz. Não sabem que a alegria, o maravilhoso, o divino estão ali pertinho, ao alcance da mão.

Divina é uma gota de orvalho, uma amora roxa, uma cambalhota de tiziu, um raio de sol numa teia de aranha, a cor de uma joaninha, um bombom, uma bolinha de gude, um amigo, uma acertada de bilboquê: coisas pequenas, sem preço. Como você. Você é pequenininha e, ao preço de mercado, não deve valer muito. Mas você é mais maravilhosa que o universo inteiro. Porque você tem o poder de dar alegria e de sentir alegria. O universo não tem. Deus é alegria. Uma criança é alegria. Deus e uma criança têm isso em comum: ambos sabem que o universo é uma caixa de brinquedos.

Deus vê o mundo com olhos de criança. Está sempre à procura de companheiros para brincar. Esta é uma perspectiva diferenciada em relação às crianças. Interpela para perceber as crianças como aquelas que têm algo a nos ensinar, a mostrar possibilidades também lá onde, como adultos, já não as vemos. Convida para olhar com curiosidade, admiração, vontade de descobrir novidades, buscar a superação daquilo que causa tristeza, dor, angústia e morte. Convida para questionar a lógica que vê a solução no dinheiro e na compra que predomina no sistema do mundo das pessoas adultas Esta perspectiva da importância do ver como uma capacidade ímpar das crianças nos levou a perceber a importância do verbo ver em João 6.1-15. Em João 6.5 Jesus vê a multidão que vem até ele, e este ver o faz perguntar. O povo quer ver sinais e Jesus vê a multidão. André, o discípulo, vê a criança com os pães e os peixes, mas não percebe nele a solução. Somente o olhar e a ação de Jesus trazem a solução. E a multidão vê o sinal, mas ainda não percebe a projeto maior vinculado a ele: quer proclamá-lo rei, assim ele precisa retirar-se sozinho para o monte (6.15).

Podemos ignorar a presença da criança e o fato de ser ela quem tem os alimentos e os dispõe para a partilha. Mas, podemos também nos deixar seduzir e brincar com a possibilidade de ela trazer a proposta da disponibilização daquilo que cada qual traz e tem. Como criança estava entre a multidão que seguiu Jesus, o ouviu e tinha algo a partilhar. Para chegar até o mestre, sua oferta vem intermediada por um adulto. Mas, na redação do texto a sua presença não foi ignorada, mesmo não sendo contabilizada, conforme os outros relatos enfatizam. No seu silencio fala e deixa um sinal. Na construção das narrativas dos outros Evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) esta presença silenciosa foi ignorada, não é mencionada, mesmo que não totalmente, porque as crianças estão com as mulheres entre os que não contam. Ao dizer que não contam, faz-se lembrar da sua presença e possibilita a pergunta pelas relações estabelecidas entre elas e os adultos presentes.

Na narrativa do Evangelho de João a preocupação com a fome da multidão reunida é de Jesus (v.5). A lógica na qual os discípulos se movem é a da compra. “Onde compraremos pães para que comam?” A resposta dada por Filipe, não é resposta para a pergunta feita. Ela reflete a necessidade de uma grande quantia de dinheiro para comprar o pão necessário. E, mesmo assim, nesta lógica este não seria o suficiente. Só a aceitação de uma oferta gratuita e a partilha fazem sobrar e possibilitam guardar, para que nada se perca.

Texto de Rejene Lamb.

Fonte: cebi.org.br