Do encontro de uma
pequena imagem nas águas do Paraíba do Sul à devoção de milhões de brasileiros:
uma história de fé, identidade, esperança e compromisso com o Evangelho.
No dia 12 de outubro, o Brasil
volta seu olhar para Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do
Brasil. Milhões de pessoas participam de celebrações, fazem peregrinações,
rezam o terço, agradecem por graças recebidas e apresentam à Mãe de Jesus suas
dores, suas esperanças e suas necessidades.
Para muitos brasileiros, Nossa
Senhora Aparecida faz parte da própria história familiar. Sua imagem está nas
casas, nas igrejas, nos pequenos oratórios, nos objetos de devoção e na memória
afetiva de gerações. Há quem caminhe quilômetros para chegar ao Santuário
Nacional, quem acompanhe as celebrações pela televisão e quem, mesmo distante
da prática religiosa, reconheça a importância dessa devoção na cultura
brasileira.
Mas como uma pequena imagem,
encontrada há mais de três séculos por pescadores, tornou-se um dos maiores
símbolos da religiosidade brasileira? E o que essa devoção nos ensina hoje,
especialmente quando símbolos religiosos são utilizados em discursos que podem
aproximar ou dividir as pessoas?
Conhecer essa história é também
uma oportunidade de refletir sobre a nossa fé, a missão de Maria e a
responsabilidade dos cristãos diante da sociedade.
1. Nossa Senhora Aparecida: uma história que atravessa
séculos
O encontro da imagem em 1717
A história de Nossa Senhora
Aparecida remonta a outubro de 1717, na região de Guaratinguetá, então
pertencente à Capitania de São Paulo. Segundo os relatos históricos preservados
pela tradição da Igreja, três pescadores: João Alves, Felipe Pedroso e Domingos
Garcia, foram encarregados de conseguir peixes para uma refeição oferecida ao
governador da capitania, o conde de Assumar.
Depois de tentativas frustradas
de pesca, os homens encontraram nas redes o corpo de uma pequena imagem de
Nossa Senhora da Conceição. Em seguida, recolheram a cabeça da imagem, que
estava separada do corpo. Depois desse encontro, a pesca teria se tornado
abundante.
A imagem foi levada para a casa
da família, onde começou a ser venerada. Aos poucos, outras pessoas passaram a
se reunir para rezar diante dela. A devoção cresceu, surgiram oratórios e
capelas, e o lugar passou a receber um número cada vez maior de peregrinos.
A história dos pescadores e o
desenvolvimento inicial da devoção são apresentados na documentação histórica
reunida pelo Santuário Nacional de Aparecida, que também registra a existência
dos personagens envolvidos por meio de documentos conservados nos arquivos
eclesiásticos.
Uma distinção importante: o
encontro da imagem e o crescimento da devoção pertencem à história documentada
da tradição de Aparecida. Já a interpretação da pesca abundante como milagre é
uma afirmação de fé, transmitida pelos relatos religiosos. A pesquisa histórica
pode estudar os testemunhos, os documentos e a formação da devoção; a
interpretação sobrenatural pertence ao campo da fé.
Essa distinção não diminui a
importância religiosa da história. Pelo contrário, permite que ela seja
apresentada com seriedade, respeitando tanto os registros históricos quanto a
experiência espiritual dos devotos.
Fonte histórica: Santuário
Nacional de Aparecida — História de Nossa Senhora Aparecida.
Da pequena capela às grandes
peregrinações
A devoção não nasceu de uma
grande instituição ou de uma campanha oficial. Seu início está ligado a pessoas
simples, a uma família e a pequenos encontros de oração.
Em 1740, foi construída uma
capela para acolher os devotos. Em 1743, o pároco de Guaratinguetá encaminhou
um relatório sobre a devoção e os relatos de graças atribuídas à intercessão de
Nossa Senhora Aparecida, solicitando a autorização eclesiástica para a
construção de uma igreja. A aprovação foi concedida naquele mesmo ano, e o novo
templo foi inaugurado em 1745.

Ao longo dos séculos, a devoção
ultrapassou os limites da região e passou a atrair peregrinos de diferentes
partes do Brasil. Os espaços de acolhida foram ampliados conforme crescia o
número de fiéis, até a construção do atual Santuário Nacional.
Hoje, a peregrinação a Aparecida
é uma das expressões mais conhecidas da religiosidade popular brasileira. Para
muitos, a viagem é uma forma de agradecer, pedir ajuda, cumprir uma promessa ou
simplesmente permanecer alguns momentos em oração.
Uma romaria não é apenas um
deslocamento geográfico. É também uma experiência de caminhada, perseverança e
encontro. Quem peregrina leva consigo histórias de sofrimento, gratidão, luto,
cura, esperança e recomeço.
Essa dimensão merece ser acolhida
e acompanhada pastoralmente. A devoção popular pode constituir uma verdadeira
oportunidade de evangelização quando ajuda as pessoas a aprofundar a fé, a
participar da vida comunitária e a se aproximar de Jesus Cristo.
2. Devoção e identidade do povo brasileiro
A pequena imagem de terracota,
escurecida pelo tempo de permanência nas águas e pelos materiais que a
envolveram, tornou-se especialmente significativa para muitos devotos. A imagem
frágil, encontrada em pedaços por pescadores, passou a representar, na experiência
de fé de tantas pessoas, a proximidade materna de Maria.
Também é possível compreender
essa devoção em seu contexto social. A sociedade colonial brasileira era
marcada por profundas desigualdades, pela escravidão e pela exclusão de grande
parte da população. A devoção mariana cresceu nesse ambiente e foi apropriada,
vivida e transmitida por pessoas que encontravam na religião uma fonte de
esperança, proteção e sentido para a vida.
É importante, porém, evitar
simplificações: não podemos atribuir a todos os devotos do passado uma única
motivação, nem reduzir a história da devoção a uma interpretação social. A fé,
a cultura, as condições de vida e os acontecimentos históricos se entrelaçaram
de maneiras diversas. O que podemos afirmar é que Nossa Senhora Aparecida
ultrapassou os limites de uma devoção regional e passou a ocupar um lugar
importante na memória religiosa e cultural do Brasil.
Essa presença não significa que
todos os brasileiros compartilhem a mesma fé. O país é plural, e a liberdade
religiosa deve ser respeitada. Reconhecer a importância histórica de Aparecida
não exige que se imponha a devoção a quem não é católico. A verdadeira
valorização de uma tradição religiosa não precisa excluir outras tradições.
Pelo contrário, pode favorecer o diálogo, o respeito e o reconhecimento da
dignidade de cada pessoa.
3. Nossa Senhora Aparecida e a Padroeira do Brasil
A proclamação solene aconteceu em
31 de maio de 1931, no Rio de Janeiro, então capital federal, diante de uma
grande multidão de fiéis e de autoridades civis e religiosas.
É importante distinguir as duas
datas: 1930 corresponde à assinatura do decreto pontifício; 1931, à cerimônia
pública de proclamação.
O reconhecimento da Padroeira
expressa a importância que a devoção mariana havia adquirido na vida da Igreja
no Brasil. Não foi o decreto que criou a devoção: ele reconheceu oficialmente
uma realidade religiosa que já estava profundamente enraizada na experiência de
muitos fiéis.
O dia 12 de outubro tornou-se
feriado nacional por meio da Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, que
instituiu a data para o culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida.
O que significa ser Padroeira?
Na tradição católica, um
padroeiro ou uma padroeira é alguém cuja intercessão é invocada de modo
especial por uma comunidade, uma instituição ou um povo. No caso de Nossa
Senhora Aparecida, os católicos reconhecem em Maria a Mãe de Jesus e recorrem à
sua intercessão, confiando que ela conduz seus filhos ao encontro com Cristo.
Esse título não transforma Maria
em uma divindade independente de Deus, nem significa que ela substitua Jesus. A
fé católica reconhece que a oração e a intercessão de Maria estão inteiramente
relacionadas à obra salvadora de seu Filho.
A Constituição dogmática Lumen
Gentium, do Concílio Vaticano II, especialmente nos números 60 a 62, ensina
que a missão materna de Maria não diminui nem obscurece a mediação única de
Cristo; antes, depende inteiramente dela e dela recebe sua eficácia. Essa
compreensão é essencial para uma devoção mariana autenticamente cristã.
Fontes: CNBB —
Aparecida: Padroeira do Brasil e Concílio
Vaticano II — Lumen Gentium.
4. Quando a fé entra no jogo político
A relação entre religião e política não é uma questão nova na história brasileira. Símbolos religiosos, celebrações, imagens e discursos de fé já foram utilizados em diferentes períodos e contextos para expressar identidades, fortalecer projetos coletivos e legitimar posições públicas.
A presença de autoridades civis
na proclamação de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira, em 1931, é um
fato histórico. A interpretação do significado político daquele acontecimento,
porém, exige considerar o contexto da época, a relação entre Igreja e Estado e
as transformações da sociedade brasileira.
Por isso, é necessário distinguir
a presença histórica da religião na vida pública do uso partidário de uma
devoção.
A participação dos cristãos na
política é legítima e importante. A Doutrina Social da Igreja reconhece que a
fé tem consequências para a vida social e que os leigos são chamados a
contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, solidária e comprometida
com o bem comum.
O problema não está em um cristão
expressar suas convicções religiosas ao participar da vida pública. O problema
surge quando a fé é instrumentalizada, isto é, quando uma imagem sagrada passa
a ser usada principalmente para conquistar apoio eleitoral, atacar adversários
ou apresentar determinado grupo político como o único representante legítimo
dos valores cristãos.
Também é problemático transformar
a devoção mariana em um teste de fidelidade política, como se a escolha de um
candidato pudesse determinar quem é ou não é um verdadeiro devoto de Nossa
Senhora. Nenhum partido político é dono de Maria. Nenhuma corrente ideológica
pode reivindicar para si o monopólio da fé católica.
Isso não significa que todas as
propostas políticas sejam moralmente equivalentes ou que os cristãos devam
permanecer indiferentes às questões públicas. A Igreja oferece critérios para o
discernimento: a dignidade humana, a defesa da vida, a justiça, a solidariedade,
a atenção aos pobres, a liberdade religiosa e a busca do bem comum.
Esses critérios devem ser
aplicados com seriedade, conhecimento dos fatos e coerência. Não basta utilizar
símbolos religiosos ou pronunciar palavras cristãs; é necessário avaliar
atitudes, propostas e consequências concretas para a vida das pessoas.
A Constituição pastoral Gaudium
et Spes, especialmente no número 76, recorda a distinção e a autonomia
entre a comunidade política e a Igreja, cada qual em seu campo, e afirma que
ambas estão a serviço da vocação pessoal e social das mesmas pessoas.
A Igreja não deve ser reduzida a
instrumento de um projeto partidário. Sua missão evangelizadora exige liberdade
para anunciar o Evangelho, defender a dignidade humana e questionar injustiças,
independentemente de quem esteja no poder.
Nossa Senhora Aparecida não
precisa ser colocada no palanque para que sua importância seja reconhecida. A
força de sua devoção está na fé que inspira, na esperança que alimenta e na
capacidade de conduzir as pessoas a uma vida mais próxima do Evangelho.
Fontes: Concílio
Vaticano II — Gaudium et Spes, nº 76 e CNBB
— A Doutrina Social da Igreja e a Política.
5. Maria nos conduz a Jesus
No Evangelho de João, durante as
bodas de Caná, Maria percebe que o vinho está acabando e apresenta a situação a
Jesus. Em seguida, dirige aos serventes uma orientação que permanece
fundamental para a espiritualidade mariana: “Fazei tudo o que ele vos
disser.” (Jo 2,5), Essa frase revela a direção para a qual a devoção a
Maria deve conduzir cada cristão: Jesus Cristo.
Maria não chama a atenção para si
mesma como destino final da fé. Sua presença aponta para o Filho. Sua atitude é
de confiança, serviço e disponibilidade diante da ação de Deus. Por isso,
celebrar Nossa Senhora Aparecida não pode se resumir a carregar uma imagem,
participar de uma procissão, acender uma vela ou repetir uma oração, embora
esses gestos possam expressar uma fé sincera e significativa.
A pergunta que precisamos fazer
é: a nossa devoção nos ajuda a viver como Jesus viveu?
Se rezamos a Maria, mas
alimentamos o ódio contra quem pensa diferente, precisamos rever nossa maneira
de viver a fé. Se pedimos sua proteção para nossas famílias, mas desprezamos
famílias que enfrentam dificuldades, precisamos rever nossa maneira de viver a
fé.
Se celebramos a Padroeira do
Brasil, mas permanecemos indiferentes à fome, à violência, à pobreza, à
discriminação e ao sofrimento dos mais vulneráveis, precisamos perguntar se
estamos escutando de fato o Evangelho. A devoção mariana não substitui o
compromisso cristão. Ela pode fortalecê-lo quando nos ajuda a contemplar Maria
como discípula, mulher de fé, servidora e Mãe de Jesus.
Na visita a Isabel, Maria canta a
ação de Deus que olha para a humildade de sua serva e realiza grandes coisas em
favor dos pequenos (Lc 1,46-55). No Magnificat, a espiritualidade
mariana se relaciona com a justiça de Deus, que derruba os poderosos de seus
tronos e eleva os humildes, sacia os famintos e recorda sua misericórdia. Essa
passagem não deve ser reduzida a um programa partidário. É, antes, um convite a
reconhecer que o Reino de Deus questiona a arrogância, a exploração, a
indiferença e toda forma de desumanização.
A Doutrina Social da Igreja
também nos recorda que a dignidade da pessoa humana, a solidariedade e o bem
comum são princípios fundamentais da vida social. A fé cristã, portanto, não
pode ficar restrita ao espaço privado: ela nos chama a agir com responsabilidade,
a defender os vulneráveis e a construir relações mais justas.
Maria nos conduz a Jesus. E Jesus
nos envia ao encontro dos irmãos.
6. Uma fé que une, não que divide
A história de Nossa Senhora
Aparecida atravessou mais de três séculos porque foi acolhida, transmitida e
vivida por gerações de pessoas que encontraram nessa devoção uma fonte de
consolo e esperança. Essa história merece ser contada com respeito,
fundamentação histórica e sensibilidade pastoral. Merece também ser protegida
de interpretações simplistas e de usos que reduzam uma experiência de fé tão
profunda a uma disputa entre grupos.
O amor a Nossa Senhora não exige
que transformemos quem pensa diferente em inimigo. A convicção religiosa não
precisa ser acompanhada de agressividade. A defesa dos valores cristãos não
autoriza a mentira, a humilhação ou o desprezo pela dignidade de outra pessoa.
O papa Francisco, na exortação
apostólica Evangelii Gaudium, recorda a importância do diálogo, do
encontro e da construção de uma sociedade capaz de viver com justiça, sem
exclusões. Esse ensinamento é especialmente necessário quando as diferenças
políticas se tornam motivo de hostilidade entre familiares, amigos e membros de
uma mesma comunidade.
Podemos ter opiniões diferentes
sobre os caminhos políticos do país. Podemos discordar de candidatos, partidos
e propostas. Podemos e devemos examinar criticamente as decisões de quem
governa. Mas precisamos fazê-lo com responsabilidade, buscando informações
confiáveis e respeitando a dignidade das pessoas. A unidade cristã não
significa pensar todos da mesma maneira. Significa reconhecer que a
fraternidade, a verdade, a justiça e a caridade não podem ser abandonadas
quando surgem divergências.
Neste 12 de outubro, ao
celebrarmos Nossa Senhora Aparecida, talvez seja oportuno perguntar não apenas
o que pedimos à Padroeira do Brasil, mas também o que estamos dispostos a fazer
para que o Brasil seja um lugar mais justo, fraterno e acolhedor.
Que nossas orações se transformem
em gestos concretos de solidariedade. Que nossas palavras promovam o diálogo,
em vez de espalhar ódio. Que nossas escolhas sejam iluminadas pela busca do bem
comum. E que nossa devoção nos ajude a reconhecer, em cada pessoa, alguém que
merece respeito e dignidade.
Nossa Senhora Aparecida faz parte
da história de fé de milhões de brasileiros. Que essa história continue sendo
uma fonte de esperança e compromisso com o Evangelho, e não uma fronteira que
nos separe.
Maria, Mãe de
Jesus e Padroeira do Brasil, ensina-nos a fazer tudo o que teu Filho nos
disser. Que saibamos construir um país em que a fé se traduza em amor, a
esperança se transforme em compromisso e a diferença não seja motivo de
divisão, mas oportunidade de diálogo e fraternidade.
Nossa Senhora
Aparecida, rogai por nós!
Referências:
- SANTUÁRIO NACIONAL DE APARECIDA. História de
Nossa Senhora Aparecida. Disponível em: https://www.a12.com/santuario/historia-de-nossa-senhora-aparecida-1717.
- CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
(CNBB). Aparecida: Padroeira do Brasil. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/aparecida-padroeira-do-brasil/.
- CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática
Lumen Gentium, especialmente nn. 60–62. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html.
- CONCÍLIO VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium
et Spes, especialmente n. 76. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html.
- FRANCISCO, PAPA. Exortação apostólica Evangelii
Gaudium, especialmente nn. 238–241, sobre diálogo social e construção
da paz. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html.
- BÍBLIA SAGRADA. Jo 2,1-11; Lc 1,46-55.
















