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sábado, 11 de abril de 2020

A DESCIDA DO SENHOR À MANSÃO DOS MORTOS


Iconografia: Dom Ruberval Monteiro, OSB.
  
Uma antiga meditação sobre a frase do Creio: "Desceu à mansão dos mortos".  É o mistério que celebramos hoje no Sábado Santo. O narrador nos apresenta o significado salvífico da morte de Jesus e de sua descida à mansão dos mortos por meio de um diálogo de Jesus Cristo com Adão

A descida do Senhor à mansão dos mortos

Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.

Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos. O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração:

- “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão:
- “E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse:

- “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: Saí!; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’.

Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. 

Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa. Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado. Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida. Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso. Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti. 

Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus. Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”

 *Antiga homilia para Sábado Santo: Pg. 43. 440.452.461 (Sábado Santo, 2ª Leitura do Ofício de Leituras: Liturgia das Horas, s. 2). Gráfica de Coimbra: 1983. p. 454-4551.



FONTE:



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

CATEQUESE DO PAPA: SANTA MISSA


“Homilias breves e bem preparadas”, pede o Papa.

Cidade do Vaticano – Dando continuidade a sua série de catequeses sobre a Santa Missa, o Papa Francisco falou na Audiência Geral desta quarta-feira sobre “o Evangelho e a homilia”, ressaltando que a homilia não deve ter mais de dez minutos. O diálogo entre Deus e o seu povo, que tem lugar na Liturgia da Palavra, alcança a sua plenitude na proclamação do Evangelho, que é precedida pelo canto do Aleluia ou, na Quaresma, por outra aclamação, na qual “a assembleia dos fiéis acolhe e saúda o Senhor que está para falar no Evangelho”.

O Evangelho, de fato, é a luz que ajuda a entender o sentido dos demais textos bíblicos proclamados na Missa, explicou o Papa; por isso é objeto de uma veneração particular: somente um ministro ordenado pode proclamá-lo, que ao final beija o livro. “Os fiéis ficam de pé para escutá-lo e fazem o sinal da cruz na testa, na boca e no peito. As velas e o incenso honram Cristo que, mediante a leitura evangélica, faz ressoar a sua eficaz palavra”.

Precisamente deste sinais “a assembleia reconhece a presença de Cristo que dirige a “boa nova” que converte e transforma”. “É um discurso direto aquele que acontece” como comprovam as aclamações com que se responde à proclamação: “Graças a Deus” e “Glória a vós Senhor”.

“Nós nos levantamos para ouvir o Evangelho, mas é Cristo que nos fala ali. E por isto nós estamos atentos, porque é uma conversa direta. É o Senhor que nos fala”: “Portanto, na Missa não lemos o Evangelho – estejam atentos a isto – para saber como foram as coisas, mas ouvimos o Evangelho para tomar consciência que aquilo que Jesus fez e disse uma vez, e aquela Palavra é viva, a Palavra de Jesus que está nos Evangelhos é viva e chega ao meu coração. Por isto escutar o Evangelho é tão importante, com o coração aberto, porque é Palavra viva”.

Como dizia Santo Agostinho, “a boca de Cristo é o Evangelho – “bonita imagem!” – Ele reina no céu, mas não deixa de falar na terra”. “Se é verdade que na Liturgia “Cristo anuncia ainda o Evangelho, então, participando da Missa, devemos dar uma resposta. Nós ouvimos o Evangelho e devemos dar uma resposta na nossa vida”.

A homilia

E, para fazer chegar a sua mensagem ao seu povo, Cristo também se serve da palavra do sacerdote durante a homilia: “Vivamente recomendada desde o Concílio Vaticano II como parte da própria Liturgia, a homilia está longe de ser um discurso de circunstância, tampouco uma catequese como esta que estou fazendo agora, nem uma conferência, nem mesmo uma aula. A homilia é outra coisa. O que é a homilia?”:

É “retomar aquele diálogo que já está aberto entre o Senhor e seu povo, para que encontre cumprimento na vida. A exegese autêntica do Evangelho é a nossa vida santa!”. Neste sentido o Papa recordou o que havia dito na última catequese, de que “a Palavra do Senhor entra pelos ouvidos, chega ao coração e vai até as mãos, às boas obras. E também a homilia segue a Palavra do Senhor e também faz este percurso para nos ajudar para que a Palavra do Senhor chegue às mãos, passando pelo coração”.

“Eu já tratei do tema da homilia na Exortação Evangelii Gaudium, onde recordava que o contexto litúrgico “exige que a pregação oriente a assembleia, e também o pregador, para uma comunhão com Cristo na Eucaristia que transforme a vida”: “Quem profere a homilia deve realizar bem o seu ministério. Aquele que prega, o sacerdote, o diácono, o bispo, oferecendo um real serviço a quem participa da Missa, mas também aqueles que ouvem devem fazer a sua parte. Antes de tudo prestando a devida atenção, assumindo, isto é, as justas disposições interiores, sem pretensões subjetivas, sabendo que cada pregador tem méritos e limites”. “Se às vezes existem motivos para chatear-se pela homilia longa ou não focada ou incompreensível, outras vezes é, pelo contrário, o preconceito a ser o obstáculo”.

O Papa observou que quem faz a homilia, “deve estar consciente de que não está fazendo uma coisa própria, está pregando, dando voz a Jesus. Está pregando a Palavra de Jesus”: “E a homilia deve ser bem preparada, deve ser breve, breve! Um sacerdote me dizia que uma vez havia ido a outra cidade onde viviam os pais. E seu pai lhe disse: Sabes, estou contente, porque com os meus amigos encontramos uma igreja onde tem Missa sem homilia!”.

“E quantas vezes – observou Francisco – nós vemos que na homilia alguns dormem, outros conversam ou saem para fumar um cigarro. Por isto, por favor, que seja breve a homilia, mas que seja bem preparada”.

“E como se prepara uma homilia, queridos sacerdotes, diáconos, bispos? Como se prepara?”, pergunta o Papa.

“Com a oração, com o estudo da Palavra de Deus e fazendo uma síntese clara e breve, não deve ir além de 10 minutos, por favor”.

Ao concluir, o Papa recordou que na Liturgia da Palavra, por meio do Evangelho e da homilia, Deus dialoga com o seu povo, que o escuta com atenção e veneração e, ao mesmo tempo, o reconhece presente e operante. Assim, se nos colocamos na escuta da “boa notícia”, por ela seremos convertidos e transformados, portanto, capazes de mudar nós mesmos e o mundo. Por que? Porque a Boa Nova, a Palavra de Deus entra pelos ouvidos, vai ao coração e chega ás mãos para fazer as boas obras”.

FONTE: www.franciscanos.org

sábado, 20 de janeiro de 2018

HOMILIA DO DOMINGO: O TEMPO SE CUMPRIU


3º Domingo do Tempo Comum - Ano B
"O tempo se cumpriu, o reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam no Evangelho." Mc 1,15
Segundo o Evangelho de São Marcos, que não traz nenhuma informação da infância de Jesus, mas começa a narrar desde o batismo, essas são as primeiras palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo. E por isso são carregadas de significado e capazes de fazer uma verdadeira revolução na nossa vida, se a deixamos.
O texto começa dizendo: "o tempo se cumpriu". Do que está falando? Certamente é da presença de Jesus. Depois de tantos séculos de trevas, chegou a Plenitude dos tempos: o verbo de Deus se fez carne. Deus veio habitar entre nós. Desde quando Jesus se encarnou, já podemos nos encontrar com Deus quando nos queremos. Deus é sempre próximo e disponível. De fato, o tempo de que se fala aqui não é aquele histórico, é do tempo da graça, do tempo existencial.
Em seguida nos diz que "o reino de Deus está próximo". Este reino o sabemos, é o império do amor, da fraternidade, da justiça, da paz…mas que significa dizer que "está próximo"? Significa dizer está a porta, está onde todos podemos encontrar, numa palavra, está a disposição de quem o quiser aceitar. Alguém poderia dizer: se é verdade que o reino de Deus está tão próximo, por que nossa realidade é ainda triste? Ou então, se já faz dois mil anos que estão dizendo "o tempo se cumpriu" porque acontecem tantas barbaridades?
Bem, dissemos acima que o tempo de que nos fala não é o tempo histórico, mas sim o tempo existencial, e aqui está um lindo modo de entender esse texto. Isto significa dizer que HOJE pode ser a plenitude do tempo em minha vida se eu decido ser cristão de verdade, sem brincadeiras, e integralmente. Minha vida poderá transformar-se por completo. Imaginem, se agora decides mudar teus critérios pelos critérios de Jesus. Se começa a olhar as pessoas com os olhos de Jesus ( a partir dos teus familiares até os mais pobres, diferentes, pecadores…), a escutar com os ouvidos de Jesus, a amar-lhes com o coração de Jesus. Se desde agora já não te importa de sofrer pelos demais, se te dispõe a carregar com suas cruzes, a dar a outra face, a perdoar até aquele que te cravou, a não entrar em disputa com ninguém, a não te preocupar com as calunias, a viver aqui sabendo-se parte de um outro mundo, onde as pessoas valem muito mais, não somente pelo que fazem ou tem, e sim pelo que são ( Filhos amados de Deus). Sem dúvidas isso significaria que na tua vida "o tempo se cumpriu" e " o reino que estava próximo" se transformou em uma realidade. Se olhamos a história encontramos muitos ( muitíssimos) exemplos de gente que fez isso na sua vida. Por exemplo São Paulo, São Francisco, São João Bosco, Madre Teresa de Calcutá… e tantos outros seguramente que também você conhece pessoalmente, pois muitos deles vivem entre nós . São pessoas que um dia decidiram e disseram: "HOJE se cumpriu o tempo em minha vida", e se transformaram em símbolos da presença de Deus nesse mundo, e neles o reino de Deus se fez presente na história. São pessoas com coragem de viver a plenitude da vida, que resistem aos critérios do mundo, que se alimentam da sua palavra e da Eucaristia e mesmo contra a corrente, seguem testemunhando que o tempo se faz pleno quando nós o abraçamos.
A segunda parte dizia: "Convertam-se e creiam no Evangelho". Essa palavra "converter-se” se olhamos no grego ( como foi escrita por Marcos) descobrimos que quer dizer "mudar de mentalidade", não só chorar pelo que se fez de mal no passado, mas muito mais decidir-se a praticar o bem de agora em diante. Deus não está tão interessado no passado. Tenha acontecido seja lá o que for, Deus pode curar, esquecer e perdoar. Ele está muito interessado no futuro, no que nos dispomos a ser e fazer. É conversão do coração. É mudança radical e profunda . Não é somente uma maquiagem.
A autentica conversão sem duvidas é "acreditar no Evangelho"; é aderir a boa nova, é assumir o seu conteúdo como um projeto de vida possível a todos. É bom dizer que esse desafio não é somente para os que são sacerdotes, os freis e as irmãs. É para todos. Para os casados, os trabalhadores, os jovens, os anciãos, os letrados, os simples, os empresários, os mendigos,… todos somos convidados a realizar concretamente na historia o reino de Deus. Nas frases seguintes do Evangelho deste domingo aparece duas vezes a palavra "imediatamente o seguiram". Que lindo se nós fizéssemos o mesmo : imediatamente.

O Senhor te abençoe e te guarde,
O Senhor faça brilhar sobre ti o seu rosto e tenha misericórdia de ti.
O Senhor mostre o seu olhar carinhoso e te dê a PAZ.

Frei Mariosvaldo Florentino, capuchinho.

FONTE: Gotas de Paz - 734 - Freis Capuchinhos.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CATEQUESE DO PAPA - DESAFIADOS A CAMINHAR NAS BEM AVENTURANÇAS



Homilia do Papa em Missa no Parque O'Higgins, em Santiago, Chile

TERÇA-FEIRA, 16 DE JANEIRO DE 2018.
Viagem do Papa Francisco ao Chile e Peru – 15 a 22 de janeiro de 2018
Santa Missa no Parque O’Higgins – Santiago – Chile
Terça-feira, 16 de janeiro de 2018. Santa Sé.


“Ao ver a multidão…” (Mt 5, 1): nestas primeiras palavras do Evangelho de hoje, encontramos a atitude com que Jesus quer vir ao nosso encontro, a mesma atitude com que Deus sempre surpreendeu o seu povo (cf. Ex 3, 7). A primeira atitude de Jesus é ver, fixar o rosto dos seus. Aqueles rostos põem em movimento o entranhado amor de Deus. Não foram ideias nem conceitos que moveram Jesus; foram os rostos, as pessoas. É a vida que clama pela Vida, que o Pai nos quer transmitir.

Ao ver a multidão, Jesus encontra o rosto das pessoas que O seguiam; e o mais interessante é que elas, por sua vez, encontram, no olhar de Jesus, o eco das suas buscas e aspirações. De tal encontro, nasce este elenco de Bem-aventuranças, o horizonte para o qual somos convidados e desafiados a caminhar. As Bem-aventuranças não nascem duma atitude passiva perante a realidade, nem podem nascer de um espectador que se limite a ser um triste autor de estatísticas do que acontece. Não nascem dos profetas de desgraças, que se contentam em semear decepções; nem de miragens que nos prometem a felicidade com um “clique”, num abrir e fechar de olhos. Pelo contrário, as Bem-aventuranças nascem do coração compassivo de Jesus, que se encontra com o coração de homens e mulheres que desejam e anseiam por uma vida feliz; de homens e mulheres que conhecem o sofrimento, que conhecem a frustração e a angústia geradas quando “o chão lhes treme debaixo dos pés” ou “os sonhos acabam submersos” e se arruína o trabalho duma vida inteira; mas conhecem ainda mais a tenacidade e a luta para continuar para diante; conhecem ainda mais o reconstruir e o recomeçar.

Como é perito o coração chileno em reconstruções e novos inícios! Como vós sois peritos em levantar-vos depois de tantas derrocadas! A este coração, faz apelo Jesus; para este coração são as Bem-aventuranças!

As Bem-aventuranças não nascem de atitudes de crítica fácil nem do “palavreado barato” daqueles que julgam saber tudo, mas não se querem comprometer com nada nem com ninguém, acabando assim por bloquear toda a possibilidade de gerar processos de transformação e reconstrução nas nossas comunidades, na nossa vida. As Bem-aventuranças nascem do coração misericordioso, que não se cansa de esperar; antes, experimenta que a esperança “é o novo dia, a extirpação da imobilidade, a sacudidela duma prostração negativa” (Pablo Neruda, El habitante y su esperanza, 5).

Jesus, quando diz bem-aventurado o pobre, o que chorou, o aflito, o que sofre, o que perdoou…, vem extirpar a imobilidade paralisadora de quem pensa que as coisas não podem mudar, de quem deixou de crer no poder transformador de Deus Pai e nos seus irmãos, especialmente nos seus irmãos mais frágeis, nos seus irmãos descartados. Jesus, quando proclama as Bem-aventuranças, vem sacudir aquela prostração negativa chamada resignação que nos faz crer que se pode viver melhor, se evitarmos os problemas, se fugirmos dos outros, se nos escondermos ou nos fecharmos nas nossas comodidades, se nos adormentarmos num consumismo tranquilizador (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 2). Aquela resignação que nos leva a isolar-nos de todos, a dividir-nos, a separar-nos, a fazer-nos cegos perante a vida e o sofrimento dos outros.

As Bem-aventuranças são aquele novo dia para quantos continuam a apostar no futuro, continuam a sonhar, continuam a deixar-se tocar e impelir pelo Espírito de Deus.

Como nos faz bem pensar que Jesus, desde Cerro Renca ou de Puntilla, nos vem dizer: “Bem-aventurados…” Sim, bem-aventurado tu… e tu…, bem-aventurados vós que vos deixais contagiar pelo Espírito de Deus, lutando e trabalhando por este novo dia, por este novo Chile, porque vosso será o reino do Céu. “Bem-aventurados os obreiros de paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9).

Perante a resignação que, como uma rude zoada, mina os nossos laços vitais e nos divide, Jesus diz-nos: bem-aventurados aqueles que se comprometem em prol da reconciliação. Felizes aqueles que são capazes de sujar as mãos e trabalhar para que outros vivam em paz. Felizes aqueles que se esforçam por não semear divisão. Desta forma, a bem-aventurança faz-nos artífices de paz; convida a empenhar-nos para que o espírito da reconciliação ganhe espaço entre nós. Queres ser ditoso? Queres felicidade? Felizes aqueles que trabalham para que outros possam ter uma vida ditosa. Queres paz? Trabalha pela paz.

Não posso deixar de evocar aquele grande Pastor que teve Santiago e que disse num Te Deum: “Se queres a paz, trabalha pela justiça” (…). E se alguém nos perguntar: “Que é a justiça?” ou se porventura consiste apenas em “não roubar”, dir-lhe-emos que existe outra justiça: a que exige que todo o homem seja tratado como homem” (Cardeal Raúl Silva Henríquez, Homilia no Te Deum ecuménico, 18/IX/1977).

Semear a paz à força de proximidade, de vizinhança; à força de sair de casa e observar os rostos, de ir ao encontro de quem se encontra em dificuldade, de quem não foi tratado como pessoa, como um digno filho desta terra. Esta é a única maneira que temos para tecer um futuro de paz, para tecer de novo uma realidade sempre passível de se desfiar. O obreiro de paz sabe que muitas vezes é necessário superar mesquinhezes e ambições, grandes ou subtis, que nascem da pretensão de crescer e “tornar-se famoso”, de ganhar prestígio à custa dos outros. O obreiro de paz sabe que não basta dizer “não faço mal a ninguém”, pois, como dizia Santo Alberto Hurtado: “Está muito bem não fazer o mal, mas está muito mal não fazer o bem” (Meditación radial, abril de 1944).

Construir a paz é um processo que nos congrega, estimulando a nossa criatividade para criar relações capazes de ver no meu vizinho, não um estranho ou um desconhecido, mas um filho desta terra.


Confiemo-nos à Virgem Imaculada que, do Cerro San Cristóbal, guarda e acompanha esta cidade. Que Ela nos ajude a viver e a desejar o espírito das Bem-aventuranças, para que, em todos os cantos desta cidade, se ouça como um sussurro: “Bem-aventurados os obreiros de paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9).



sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

REFLEXÃO PARA O 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM- ANO B


TODO DIA É DIA, TODA HORA É HORA…

Frei Gustavo Medella

O Senhor vive chamando…  Esta é a constatação que perpassa os textos bíblicos da Liturgia deste 2º Domingo do Tempo Comum. Na leitura do Livro de Samuel (1Sm 3,3b-10.19), o chamado é de viva voz, atinge a audição e vem na madrugada, quando o menino Samuel se encontra no estado entre vigília e sono. Meio entorpecido, por duas vezes atribui o chamamento a Eli. Este, mais experiente na caminhada de fé, orienta Samuel a abrir ainda mais os ouvidos para perceber que quem o chama é o próprio Deus. O texto também nos reforça a convicção de que o Senhor é insistente em seu chamado e nos dá a consciência de que, entorpecidos pelas preocupações do dia a dia, pela falta de fé e também condicionados pelo medo ou pelo egoísmo, nem sempre conseguimos discernir com clareza como e para que somos chamados. O episódio ilustra que, para bem ouvirmos o apelo do Senhor em sua essência, podemos –  e devemos – contar com a ajuda e o discernimento uns dos outros.

A bela oração do Salmo (Sl 39(40)) apresenta a boa disposição de quem aprende na vida a atender o convite de Deus: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor”. O prazer, força que mobiliza, e às vezes escraviza o ser humano, quando direcionado à fidelidade ao projeto divino, é fonte de alegria e realização.

No Evangelho (Jo 1,35-42), o apelo de Jesus é ao olhar: “Vinde e vede”. O convite do “Cordeiro”, lançado aos dois discípulos de João, mobilizou-os decisivamente. No entardecer da vida, diferentemente de Samuel (chamado de madrugada, quando ainda menino), estes dois homens que aderem ao projeto de Cristo vêm nos mostrar que, qualquer que seja o horário do dia (no caso deles, às quatro da tarde), ou a fase da vida (eles já eram adultos), o Senhor nos chama a permanecer com Ele e pacientemente espera de nós uma resposta de adesão.


FONTE: www.franciscanos.org

domingo, 7 de janeiro de 2018

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO PARA A EPIFANIA DO SENHOR


O nosso percurso ao encontro do Senhor, que hoje se manifesta como luz e salvação para todos os povos, é elucidado por três gestos dos Magos. Estes veem a estrela, põem-se a caminho e oferecem presentes.

Ver a estrela: É o ponto de partida. Mas, podemos nos perguntar: Por que foi que só os Magos viram a estrela? Porque talvez poucos levantaram o olhar para o céu. De fato, na vida, muitas vezes, nos contentamos com olhar para a terra: basta a saúde, algum dinheiro e um pouco de divertimento. E eu me pergunto: Sabemos nós ainda levantar os olhos para o céu? Sabemos sonhar, ansiar por Deus, esperar a sua novidade, ou nos deixamos levar pela vida como um ramo seco pelo vento? Os Magos não se contentaram com deixar correr, flutuando. Intuíram que, para viver de verdade, é preciso uma meta alta e, por isso, é preciso manter alto o olhar.

E podemos nos perguntar ainda: Porque é que muitos outros, dentre aqueles que levantavam o olhar para o céu, não seguiram aquela estrela, “a sua estrela” (Mt 2, 2)? Talvez porque não era uma estrela deslumbrante, que brilhasse mais do que as outras. Era uma estrela que os Magos viram – diz o Evangelho – “despontar” (cf. Mt 2, 2.9). A estrela de Jesus não encandeia, não atordoa, mas gentilmente convida. Podemos nos perguntar pela estrela que escolhemos na vida. Há estrelas deslumbrantes, que suscitam fortes emoções, mas, não indicam o caminho. Tal é o sucesso, o dinheiro, a carreira, as honras, os prazeres procurados como objetivo da existência. Não passam de meteoritos: brilham por um pouco, mas depressa caem e o seu esplendor desaparece. São estrelas cadentes, que, em vez de orientar, despistam. Ao contrário, a estrela do Senhor nem sempre é fulgurante, mas, está sempre presente: é meiga, guia você pela mão na vida, o acompanha. Não promete recompensas materiais, mas garante a paz e dá, como aos Magos, uma “imensa alegria” (Mt 2, 10). Pede, porém, para caminhar.

Caminhar: a segunda ação dos Magos, é essencial para encontrar Jesus. De fato, a sua estrela solicita a decisão de se pôr a caminho, a fadiga diária da caminhada; pede à pessoa para se libertar de pesos inúteis e suntuosidades embaraçantes, que estorvam, e aceitar os imprevistos que não aparecem assinalados no mapa da vida tranquila. Jesus deixa-Se encontrar por quem O busca, mas, para O buscar, é preciso mover-se, sair. Não ficar à espera; arriscar. Não ficar parados; avançar. Jesus é exigente: a quem O busca, propõe-lhe deixar as poltronas das comodidades mundanas e os torpores sonolentos das suas lareiras. Seguir a Jesus não é um polido protocolo a respeitar, mas um êxodo a viver. Deus, que libertou o seu povo mediante o trajeto do êxodo e chamou novos povos para seguir a sua estrela, dá a liberdade e distribui a alegria, sempre e só, em caminho. Por outras palavras, para encontrar Jesus, é preciso perder o medo de entrar no jogo, a satisfação do caminho andado, a preguiça de não pedir mais nada à vida. Simplesmente para encontrar um Menino, já é preciso arriscar; mas vale muito a pena, porque, ao encontrar aquele Menino, ao descobrir a sua ternura e o seu amor, encontramos a nós mesmos.

Pôr-se a caminho não é fácil. Assim nos mostra o Evangelho por meio dos vários personagens. Temos Herodes, perturbado pelo temor de que o nascimento dum rei ameace o seu poder. Por isso, organiza reuniões e envia outros a recolher informações; mas ele não se move, está fechado no seu palácio. E, com ele, “toda a Jerusalém” (Mt 2, 3) tem medo: medo das coisas novas de Deus. Prefere que tudo permaneça como antes – “fez-se sempre assim” -, e ninguém tem a coragem de se pôr a caminho. Mais sutil é a tentação dos sacerdotes e escribas: conhecem o lugar exato e indicam-no a Herodes, citando inclusive a profecia antiga; sabem, mas, não dão um passo rumo a Belém. Pode ser a tentação de quem é crente há muito tempo: fala de fé, como de algo que já é conhecido, mas, que não se compromete pessoalmente com o Senhor. Fala-se, mas não se reza; lastima-se, mas não se faz o bem. Pelo contrário, os Magos falam pouco e caminham muito. Embora ignorando as verdades da fé, estão ansiosos e põem-se a caminho, como evidenciam os verbos do Evangelho: “viemos adorá-lo” (Mt 2, 2), “puseram-se a caminho; entraram na casa; prostraram-se; regressaram” (cf. Mt 2, 9.11.12): sempre em movimento.


Oferecer: Quando chegaram ao pé de Jesus, depois da longa viagem, os Magos fazem como Ele: dão. Jesus está ali para oferecer a vida; eles oferecem as suas preciosidades: ouro, incenso e mirra. O Evangelho está cumprido, quando o caminho da vida chega à doação. Dar gratuitamente, por amor do Senhor, sem esperar nada em troca: isto é sinal certo de ter encontrado Jesus, que diz “recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10, 8). Praticar o bem sem cálculos, mesmo se ninguém pede, mesmo se não nos faz ganhar nada, mesmo se não nos apetece. Isto é o que Deus deseja. Ele, que Se fez pequenino por nós, pede-nos para oferecermos algo pelos seus irmãos mais pequeninos. E quem são? São precisamente aqueles que não têm com que retribuir, como o necessitado, o faminto, o forasteiro, o preso, o pobre (cf. Mt 25, 31-46). Oferecer um presente agradável a Jesus é cuidar dum doente, dedicar tempo a uma pessoa difícil, ajudar alguém que não nos inspira, oferecer o perdão a quem nos ofendeu. São presentes gratuitos, não podem faltar na vida cristã; caso contrário, como nos recorda Jesus, amando apenas aqueles que nos amam, fazemos como os pagãos (Mt 5, 46-47). Olhemos as nossas mãos muitas vezes vazias de amor, e procuremos hoje pensar num presente gratuito, sem retribuição, que possamos oferecer. Será agradável ao Senhor. E peçamos-Lhe: “Senhor, fazei-me redescobrir a alegria de dar”.

Amados irmãos e irmãs, façamos como os Magos: olhar para o Alto, caminhar e oferecer presentes gratuitamente.

SANTA MISSA NA SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR
HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

Basílica Vaticana

Sábado, 6 de janeiro de 2018

quarta-feira, 24 de maio de 2017

ASCENSÃO DO SENHOR: CRISTO E A EVANGELIZAÇÃO


INTRODUÇÃO GERAL

Quarenta dias depois da Páscoa, a Igreja celebra a Ascensão do Senhor. Na realidade, o que se celebra hoje é bem mais do que uma aparição na qual Jesus é elevado ao céu. É toda a realidade de sua glorificação que celebramos, aquilo que os primeiros cristãos chamaram de “estar sentado à direita do Pai”. Assim, a última aparição de Jesus aos apóstolos aponta para uma realidade que ultrapassa o quadro da narração. Por isso, não precisamos preocupar-nos em “harmonizar” a ascensão segundo At 1,1-11, em Jerusalém (Primeira leitura), com a de Mt 28,16-20, na Galileia (Evangelho). Pode tratar-se de duas aparições, dois acontecimentos diferentes, que têm o mesmo sentido: Jesus, depois de sua ressurreição, não veio retomar sua atividade de antes na terra (cf. sua advertência a Maria Madalena em Jo 20,17) nem implantar um reino político de Deus no mundo, como muitos achavam que ele deveria ter feito (cf. At 1,6). Não. Jesus realiza-se agora em outra dimensão, a dimensão de sua glória, de seu senhorio transcendente. A atividade aqui na terra, ele a deixa para nós (“Sede as minhas testemunhas… até os confins da terra” [At 1,8]), e nós é que devemos reinventá-la a cada momento. Na ressurreição, Jesus volta a nós, não mais “carnal”, mas em condição gloriosa, para nos animar com seu Espírito (At 1,8; Mt 16,20; cf. Jo 14,15-20, evangelho do domingo passado).

COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Primeira leitura (At 1,1-11)

A primeira leitura narra a ascensão de Jesus e a missão dos apóstolos segundo o livro dos Atos dos Apóstolos. Os dias entre a Páscoa e a ascensão formam “o retiro de preparação para o desabrochar da Igreja”: 40 dias, como os 40 dias de Moisés e de Elias no Horeb, como os 40 anos de Israel no deserto. Nesses dias, Jesus deu as últimas instruções aos seus: a promessa do Espírito e a missão de evangelizar. Os discípulos não devem ficar olhando o céu, mas deverão levar a mensagem de Jesus ao mundo inteiro, “até os confins da terra” (At 1,8), e para isso receberão a força do Espírito. Até o Senhor voltar, sua Igreja será missionária.

2. Segunda leitura (Ef 1,17-23)

Na exaltação do Cristo, revela-se a força de Deus. A carta aos Efésios se inicia com um hino de louvor (vv. 2-10), seguido por um enunciado sobre o plano da salvação (vv. 11-14) e uma súplica pelos fiéis (vv. 15-19), que se expande numa proclamação dos grandes feitos de Deus em Cristo (vv. 20-23). Essa súplica e contemplação constituem a leitura de hoje. Deus ressuscitou Jesus e o fez cabeça da Igreja e do universo. A Igreja é seu “corpo”, ela o torna presente no mundo, ela é a presença atuante de Cristo no mundo. Celebrando a glorificação do Cristo, tomamos consciência de nossa própria vocação à glória. Também a oração do dia e os prefácios próprios falam nesse sentido.

Nestes tempos de “diminuição” da Igreja, podemos encontrar nessa leitura uma perspectiva maior e um ânimo mais firme. Cristo se completa em sua Igreja, e esta encontra no Senhor ressuscitado e glorioso a sua firmeza. Não há por que ficarmos medrosos e desanimados.

3. Evangelho (Mt 28,16-20)

O evangelho é o final do Evangelho de Mateus. Traz as últimas palavras do Senhor ressuscitado: a despedida de Jesus e a missão dos apóstolos. Tudo isso à luz da compreensão que Mateus tem do evangelho. No início do evangelho, Jesus é entendido como aquele que realiza o sentido pleno da profecia do “Emanuel”, Deus-conosco (Mt 1,23). Depois, Mt 4,15-16 ressaltou que a atuação desse “Emanuel” se iniciou na “Galileia dos gentios”, primeiro destinatário da mensagem da salvação, realizando assim o sentido pleno de Is 8,23-9,1. Mas, durante sua missão terrestre, Jesus se restringiu a ovelhas perdidas de Israel (Mt 10,5-6). Agora, na cena final (28,16-20), o Senhor glorioso transcende os limites de Israel. Suas palavras finais significam o universalismo da missão dos apóstolos e da expansão da Igreja. Todos os povos serão discípulos de Cristo (assinalados pelo batismo). O fim do Evangelho de Mateus revela o sentido universal de todo o ensinamento nele consignado (cf. sobretudo o Sermão da Montanha, Mt 5-7).

Assim, ao celebrarmos a entrada de Jesus na glória, não celebramos uma despedida, mas um novo modo de presença; celebramos que ele é, realmente, o Emanuel, o Deus-conosco, para sempre e para todos (Mt 28,20). Esse novo modo de presença é um aperitivo da realidade final: assim como ele entra na sua glória, isto é, como Senhor glorioso, assim ele voltará, para concluir o curso da história (cf. At 1,11). Pouco importa como a gente imagina isso, o sentido é que, desde já, Jesus é o Senhor do universo e da história (cf. o salmo responsorial, Sl 47[46]) e nós, obedientes a sua palavra, colaboramos com o sentido definitivo que ele estabelece e há de julgar.

DICAS PARA REFLEXÃO: O senhorio de Jesus e a evangelização

Temos o costume de considerar a ascensão de Jesus (como também a ressurreição) principalmente como um milagre. Mas o sentido principal desse fato é o que exprimem os termos “exaltação” ou “enaltecimento”, a entronização de Jesus na glória de Deus. Esses termos, evidentemente figurativos, significam o seguinte. Os donos deste mundo haviam jogado Jesus lá embaixo (se não fosse José de Arimateia a sepultá-lo, seu corpo teria terminado na vala comum…). Mas Deus o colocou lá em cima, “à sua direita”. Deu-lhe o “poder” sobre o universo não só como “Filho do homem”, no fim dos tempos (cf. Mc 14,62), mas, desde já, por meio da missão universal daqueles que na fé aderem a ele. E nós participamos desse poder, pois Cristo não é completo sem o seu “corpo”, que é a Igreja, como nos ensina a segunda leitura.

Com a ascensão de Jesus, começa o tempo para anunciá-lo como Senhor de todos os povos. Mas não um senhor ditador! Seu “poder” não é o dos que se apresentam como donos do mundo. Jesus é o Senhor que se tornou servo e deseja que todos, como discípulos, o imitem nisso. Mandou que os apóstolos fizessem de todos os povos discípulos seus (evangelho). Nessa missão, ele está sempre conosco, até o fim dos tempos.

O testemunho cristão, que Jesus nos encomenda, não é triunfalista. É fruto da serena convicção de que, apesar de sua rejeição e morte infame, “Jesus estava certo”. Essa convicção se reflete em nossas atitudes e ações, especialmente na caridade. Assim, na serenidade de nossa fé e na vivência radical da caridade, damos um testemunho implícito. Mas é indispensável o testemunho explícito, para orientar o mundo àquele que é a fonte de nossa prática, o “Senhor” Jesus.

A ideia do testemunho levou a Igreja a fazer da festa da Ascensão, o Dia dos Meios de Comunicação Social – a “mídia”: imprensa, rádio, televisão, internet. Para uma espiritualidade “ativa”, a comunidade eclesial deve se tornar presente na mídia. Como é possível que num país tão “católico” como o nosso haja tão pouco espírito cristão na mídia e tanto sensacionalismo, consumismo e até militância maliciosa em favor da opressão e da injustiça?

Ao mesmo tempo, para a espiritualidade mais “contemplativa”, o dia de hoje enseja um aprofundamento da consciência do “senhorio” de Cristo. Deus elevou Jesus acima de todas as criaturas, mostrando que ele venceu o mal mediante sua morte por amor e dando-lhe o poder universal sobre a humanidade e a história. Por isso, a Igreja recebe a missão de fazer de todas as pessoas discípulos de Jesus.

Uma ideia que permeia a liturgia deste dia (como de todo o tempo pascal) e se exprime na oração sobre as oferendas e na oração depois da comunhão é que o cristão deve viver com a mente no céu, comungando na realidade da glorificação do Cristo. Essa participação é novo modo de presença junto ao mundo; não uma alienação, mas, antes, o exercício do senhorio escatológico sobre este mundo. Viver com a mente junto ao Senhor glorioso não nos dispensa de estar com os dois pés no chão; significa encarnar, neste chão, aquele sentido da história e da existência que em Cristo foi coroado de glória.

Pe. Johan Konings, sj


FONTE: Vida Pastoral – Roteiros Homiléticos www.vidapastoral.com.br

sábado, 15 de abril de 2017

TRÍDUO PASCAL - REFLEXÕES EM ÁUDIO


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Homilia em áudio: Pe. Roberto Nentwig

sexta-feira, 31 de março de 2017

HOMILIA DO 5º DOMINGO DA QUARESMA - ANO A


LÁZARO, VEM PARA FORA!

Jesus era muito amigo de Maria, Marta e Lázaro. Tratava-se de uma relação profunda. Em Betânia, Jesus era da família, era de casa, podia descansar e recobrar as forças. É muito interessante este aspecto da vida história de Jesus, o que revela um dos seus traços mais humanos. Jesus, como todos nós, precisava de relações profundas, de amigos, de aconchego, de acolhida… Desse modo, não é de se estranhar a reação de Jesus diante da morte de Lázaro. Jesus vai até o túmulo de seu amigo, e certamente sentiu a sua morte de um modo profundo. Somente nesta página do Evangelho, conta-se de um modo explícito que Jesus chorou. Sim, o Filho de Deus chorou de tristeza, de dor… Mostra-nos que a dor diante do fracasso em nossa luta contra o limite humano, as nossas lágrimas de tristeza e saudade não são vãs, não se trata de uma fraqueza que deva ser vencida por uma aparente coragem. Isso pelo simples fato de que Deus chorou, humanamente. Ao chorar diante do túmulo de Lázaro, todos perceberam quão grande era o seu amor. Sim, o seu coração humano amava. O seu coração humano continua nos amando. E nos ama com a solidariedade de quem compreende o profundo de nossa dor humana.
É preciso entender a ressurreição de Lázaro como um sinal, ou seja, mais importante que a historicidade do fato é o seu significado catequético. Inclusive os estudiosos duvidam de uma reanimação de Lázaro. E mesmo que tivesse voltado à vida, teria morrido novamente. A ressurreição não é uma simples reanimação de um corpo, mas uma transformação da realidade visível, uma glorificação. Tendo isso bem claro, poderemos entender o sentido deste texto do Evangelho: a proclamação da vida sobre a morte, uma catequese sobre a ressurreição.
Neste domingo vemos que o Batismo é vida nova. A morte não tem poder sobre os filhos da luz: “Quem crê em mim não morre” (Jo 11,26). O Senhor quer nos mostrar que nós, os batizados, não morremos, mas passamos para uma nova vida. Esta nova vida já começa aqui. Morreremos um dia, mas na verdade será a passagem para a nova vida, como nos indica segunda leitura.
Há uma morte batismal, uma morte de conversão, uma morte para o pecado. Há uma morte para a vida terrena. Quem souber morrer nesta vida, fará de sua morte um batismo: passagem para a vida verdadeira, então haverá Páscoa. Tais mortes são, na verdade vida: morremos para uma vida velha, para uma vida de pecado e automaticamente nascemos e vivemos para Deus. Morremos para uma existência efêmera e ressuscitamos para uma nova vida.
Lázaro vem para fora!” O convite de autoridade de Jesus quer nos arrancar das sombras da morte. Por vezes, estamos atados pelas faixas que nos imobilizam: é preciso retirar tudo aquilo que nos deixa estáticos, sem vitalidade, sem entusiasmo, sem capacidade para lutar e viver. É preciso sair para fora, retirando a pedra que nos deixa na escuridão. É preciso ter a coragem de deixar para trás tudo o que nos leva para a morte e caminhar ao encontro do Cristo. Então faremos a nossa Páscoa espiritual, uma passagem da morte para a vida que acontece, em primeiro lugar, no interior de nosso coração.
Jesus quer nos ressuscitar para uma vida nova. Embora o pecado esteja em nós, o Espírito nos ressuscita. Que esta Quaresma nos prepare para que ressuscitemos o Cristo. Na mesa da Eucaristia nós temos vida nova: “Quem come da minha carne e bebe do meu sangue permanece em mim e eu nele”.
Pe. Roberto Nentwig

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

HOMILIA: 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM


"Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” (Jo, 1, 29).

A expressão usada por João Batista é muito familiar. Repete-se em todas as missas quando apresentamos o pão e o vinho consagrados antes da comunhão. De fato, o Cristo, ungido pelo Espírito, veio ao mundo para ser o Cordeiro que tira o pecado do mundo.

O cordeiro era um animal sacrifical no Antigo Testamento. Na Páscoa o Cordeiro era imolado e o sangue espalhado nas casas. No Novo Testamento, não são mais necessários sacrifícios de cordeiros e de nenhum outro animal, pois o próprio Deus ofereceu a sua vida, o Cristo Senhor tornou-se o cordeiro imolado (cf. Hb 9, 11-14).

O sangue dos sacrifícios santificava as pessoas e os objetos aspergidos. O sangue de Jesus tem um poder muito maior. Mas não se trata de um poder mágico. Se muito ainda gritam com tons fundamentalistas que o “sangue de Jesus tem poder”, não é porque o mesmo traz uma força mágica, nem porque as feridas de Jesus verteram tanto sangue que agradaram ao Pai que assistia tudo de camarote. De modo nenhum, a intensidade da dor foi responsável pela redenção do mundo.

Onde está o verdadeiro sentido da dor do Filho de Deus? Cristo veio ao mundo para oferecer a sua vida em prol a vida de todos nós. Sua existência é doada é sinal do amor eterno de Deus que deseja destruir todo o mal e amenizar toda a dor.

No Cordeiro de Deus entendemos o sentido da dor humana, sobretudo aquela que é causada conscientemente pela entrega de si mesmo: “Sofrer com o outro, pelos outros; sofrer por amor da verdade e da justiça; sofrer por causa do amor e para se tornar uma pessoa que ama verdadeiramente: estes são elementos fundamentais de humanidade, o seu abandono destruiria o mesmo homem” (Spe Salvi 39). Ainda que pareça inútil doar algo de si em um mundo que parece caminhar perdido ao vento, ainda que grande parte das pessoas se preocupe apenas consigo mesmos, ainda que aparentemente seja melhor cuidar de si mesmo e procurar apenas o máximo prazer possível. Jesus nos ensina que vale a pena doar algo de si mesmo para que o mundo tenha menos dor, para que o ser humano seja mais humano, para que a lágrima seja enxugada, para que o Reino esperado seja visto e nos anime a continuar... Cada um de nós é convidado a ser também cordeiro...

O Cordeiro de Deus é sinal vivo da compaixão divina. A partir da Paixão de Cristo, “entrou em todo o sofrimento humano alguém que o sofrimento e a sua suportação; a partir de lá se propaga em todo o sofrimento a con-solatio, a consolação solidária do amor de Deus, surgindo assim a estrela da esperança” (Spe Salvi 39). No rebaixamento de Deus se encontra a nossa redenção. Nas dores do Cordeiro temos a cura da dor do mundo. Nós que fomos chamados a ser santos, o seremos pela compaixão e pela solidariedade. Para tanto, precisamos reconhecer que o pecado alheio está em meu próprio coração, que as alegrias e tristezas do outro são as mesmas que tocam meu coração, que a fraqueza do próximo é a minha fraqueza.  Enfim, devemos ter consciência que participamos da mesma condição de dor e de pecado. Se soubermos olhar o mundo deste ponto de vista, seremos mais compreensíveis com o outro, mais pacientes, mais humanos. Afinal, o Céu não é tomado de assalto, mas dado como um dom. Somos apenas colaboradores de Deus na missão de participarmos das dores dos irmãos e lutarmos contra o pecado que é a condição de cada ser humano.

Neste domingo, a exclamação de João Batista é um convite à imitação de Cristo. Quando o Cordeiro de Deus for elevado, vamos olhar fixamente e repetir. “Senhor eu não sou digno que entreis em minha morada...” Não sou digno, porque minha vida não é todo dom; não sou digno porque ainda o egoísmo me destrói; não sou digno, porque ainda esqueço que sou tão pecador como tantos outros; não sou digno... Mas quero me alimentar-me daquele que me anima a oferecer a própria vida: “Mas, dizei uma palavra e serei salvo! ”

Pe. Roberto Nentwig
Arquidiocese de Curitiba – PR

domingo, 8 de janeiro de 2017

FESTA DO BATISMO DO SENHOR

Tal qual festejamos hoje, a festa de BATISMO dos nossos filhos, Deus festeja o batismo de seu Filho Amado!

“E do céu veio uma voz: Este é o meu filho amado, em quem me comprazo.”  
(Mt 3, 17)

Concluindo as celebrações natalinas, festejamos o Batismo de Jesus. Embora não precisasse ser batizado, o Senhor quis se solidarizar com todo o povo que buscava o batismo de João. Esta liturgia é momento favorável para relembrarmos e renovarmos nossos compromissos batismais.

As leituras nos revelam o servo de Deus, fortalecido pelo Espírito e enviado para proclamar a boa-nova da paz. Pelo batismo também nós recebemos o Espírito que nos anima na missão e nos dá força para perseverar no bem.

Somos servos do Senhor a serviço da comunidade e responsáveis por construir uma sociedade justa. Jesus busca, em João, o batismo. Aí é proclamado “Filho amado de Deus”. A prática da caridade e da justiça deve ser nosso diferencial diante de Deus.

Em cada batizado que celebro, costumo fazer três perguntas aos pais e padrinhos: Sabem o dia em que foram batizados? Quem (o padre) os batizou? São de Igreja, participando de alguma Comunidade de Fé? Geralmente a reposta é “NÃO”. Quem não sabe o dia do batizado, também não o celebra, pelo menos, consciente e livremente. Talvez por tradição, ou porque é hábito da família. Sem uma Comunidade, que sustente os compromissos batismais, a fé recebida no dia de nosso batismo esclerosa, resseca, mofa. O Batismo do Senhor é um insistente convite, de que arejemos nossa fé, cultivando-a e por meio dela, anunciemos as maravilhas que os dons do Espírito Santo realizam naqueles que se abrem a Ele. Esconder tais dons significa insensibilidade, indiferença e até omissão. Eis a hora de assumirmos nossa fé, como dom precioso que nos é dado desde o “Útero da Igreja”, a Pia ou Bacia Batismal!

A festa do Batismo de Jesus revela para nós mais uma dimensão de sua encarnação. É a manifestação pública da sua missão. Solidário com o povo, Jesus também entra nas águas do Jordão para receber o batismo. O seu mergulho na água se liga com seu mergulho na nossa humanidade. Jesus se faz solidário, e mais ainda, Servo e Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele assume nossa condição humana, num ato solidário, que o leva até a Cruz. É uma caminhada que vai em direção à Páscoa.

Podemos nos perguntar se, a partir do Batismo de Jesus, procuramos entender e concretizar o nosso batismo. Se estamos dispostos a “mergulhar” no projeto de Jesus para construir relações humanas construtivas, a começar pela família, no aconchego do lar, na escola, no trabalho, na Igreja, no mundo, com atitudes solidárias, ecumênicas.
A liturgia deste evento, que encerra o Tempo do Natal, recorda o batismo de Jesus, por João Batista, nas águas do rio Jordão onde ele é manifestado como Filho amado do Pai. Solidário com os que buscavam a conversão e a vida nova, ele se deixou batizar, enquanto permaneceu em oração. Em sintonia com o povo e com Deus, Cristo ouviu a voz do Pai que o consagrou para cumprir o seu plano de salvação.

Jesus havia acolhido o movimento de João Batista, a voz profética que ressoa, após anos de silêncio. Sobre ele desce a plenitude do Espírito Santo, a força do amor do Pai, para realizar a sua vontade. Assim o Reino, que se manifesta através de seu ministério, expressa o desígnio salvífico de vida plena para toda a humanidade. Quem o segue no caminho do discipulado é impelido a trilhar o seu caminho de justiça e de solidariedade.

Deus se revelou em Jesus, confiando-lhe a missão de Servo e Filho amado. Pelo batismo, mergulhamos no mistério da morte e da ressurreição de Jesus para vivermos a vida nova. Em Cristo, recebemos o Espírito para a missão e fomos adotados/as como filhos e filhas de Deus. Somos gerados a cada dia, pelo amor misericordioso e bondade infinita do Pai, para renovarmos a nossa adesão e o nosso compromisso com o seu Reino.

Iluminados e “banhados em Cristo, somos uma nova criatura As coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo”. Unidos a Cristo, o Ungido do Pai, nos tornamos continuadores de sua missão profética, sacerdotal e régia. Ele nos confirma no anúncio e testemunho da Boa Nova do Reino, pois “passou a vida fazendo o bem e curando a todos os que estavam sob o poder do mal”.

Vamos abrir o ouvido do coração para acolher a voz do Pai, que ressoa dentro de nós, e que declara nossa missão: Tu és minha filha muito amada, tu és meu filho muito amado.
O Batismo é nosso segundo parto. Primeiro partimos do útero de nossa mãe. Quando batizados, partimos do útero da Igreja, preparando-nos à luz da fé que nele recebemos, para o parto definitivo, que se debruça sobre a esperança de que morrendo, partindo do útero da terra, veremos Deus como Deus é, e isso nos basta. Renovemos nossos compromissos batismais, buscando viver nosso Batismo na relação com Deus, que nos adota como seus de verdade, e com os outros, que se tornam nossos irmãos, para santificar-nos. Todo batizado torna-se um ser divinizado, isto é, candidato à santidade. Por isso não é nenhuma pretensão descabida, queremos ser santos. Devemos, isso sim, esforçar-nos todos os dias, para sermos santos.

            Pe. Gilberto Kasper

(Ler Is 42,1-4.6-7; Sl 28(29); At 10,34-38 e Mt 3,13-17).

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Janeiro de 2017, pp. 36-38 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo do Natal (Janeiro de 2017), pp. 64-68.


(Colaboração: Catequista Abigail Martins Oliveira – Ribeirão Preto, SP).