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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

HOMILIA: 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A


                                           PERDOAR SEM LIMITES...
«Precisamos de perdoar 70x7,  porque o nosso irmão nos ofendeu 490 vezes. Precisamos de perdoar 70x7 por cada uma das ofensas.»


Falamos muitas vezes em amor, em união e comunhão, mas caímos sempre na tentação de não conseguirmos perdoar.

Se não perdoamos, não conseguimos amar plenamente.
Caímos facilmente na desculpa de "eu perdoo, mas não esqueço". 

É claro que este Deus não nos oferece um perdão em versão de alzheimer. Se assim fosse, não teríamos presente o quão difícil é perdoar. Não é para esquecermos. É para relembrarmos o quão difícil é darmos uma oportunidade àquele que, como eu, leva consigo a fragilidade humana. 

Não há forma de sermos perdoados se antes não sentirmos em nós o poder do perdão. E não o sentimos quando somos perdoados, mas sim quando perdoamos. A lógica é sempre a mesma. Primeiro doar, para posteriormente saber acolher e respeitar.

É verdade que o mundo passa-nos outra imagem. Querem fazer chegar até nós a ideia de que quem perdoa é fraco, de que quem perdoa é palerma.

Não é isso que acontece. Ao perdoarmos estamos a dizer ao mundo que o amor "tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta.".
Repito: não é fácil. Nem é coisa que se faça de ânimo leve, mas esse é o grande mistério do amor de Deus revelado no Seu Filho.

É certo que o Reino de Deus é já aqui, mas tenho ainda mais a certeza que através do perdão o Reino de Deus encontra-se já ao virar da esquina.

Ao perdoarmos estamos a rezar a vida. 
Ao perdoarmos estamos a ir ao encontro.
Ao perdoarmos estamos a situar-nos bem no centro do amor de Deus.

Pe. Rui Santiago CSSR


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

HOMILIA: 21º DOMINGO DO TEMPO COMUM

                     “QUEM DIZEM OS HOMENS SER O FILHO DO HOMEM?” 

Jesus perguntou aos discípulos e pergunta a cada um de nós. Pedro disse: “Tu é o messias!” E nós, que respostas daremos? “Você é meu amigo, Você é aquele que me ajuda no momento de dor, Você é o meu alento, Você é aquele que me perdoa, aquele que está presente na Eucaristia”. 

São muitas respostas, porque Jesus é diferente em cada situação de nossa vida. O importante é que nossa resposta não saia pronta porque memorizamos uma fórmula do catecismo, mas a partir de nossa experiência. 

É no dia a dia, que descobrimos qual o significado da pessoa de Jesus. Pedro respondeu corretamente, a catequista daria parabéns a ele. Mas qual era a experiência que ele tinha de Messias? Um homem que veio para governar com poder e força, ou seja, Pedro não entendia o que estava dizendo. Isso porque Jesus não se enquadrava nesta imagem de Messias. Por isso, veremos na sequência do Evangelho, que Pedro teve que aprender quem era Jesus, verdadeiramente.

Também nós podemos ter um Jesus ao nosso gosto, longe do Jesus que se apresenta no Evangelho. É preciso que acolhamos este homem verdadeiro que amou e ama a ponto de dar a vida… 

Quem é Jesus para nós? Neste fim de semana, em todas as comunidades do Santuário São José, teremos a entrega do Credo. Os catequizandos da terceira etapa professarão a sua fé e receberão o pergaminho com a fórmula antiga que remonta a Igreja dos primeiros séculos. Para que tal gesto signifique é preciso que nossas comunidades sejam fervorosas em sua fé. A fé se transmite por “contagio”. Não como um vírus, mas como uma coisa boa que edifica a vida. Não queremos que nossos catequizandos saibam dizer quem é Jesus porque decoraram uma frase da Bíblia ou de um livro. 

Queremos que eles tenham no coração o amor de Jesus e creiam que só Ele é a razão da vida. 

Pe. Roberto Nentwig



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

HOMILIA: 20º DOMINGO DO TEMPO COMUM

                           SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

O que podemos afirmar nesta Solenidade da Igreja é que, como Jesus, Maria é glorificada, ressuscitada. Ela é a Rainha do Céu e da Terra, a mulher vestida de sol. Eis o significado principal do dogma da Assunção, proclamado pelo Papa Pio XII, depois de consultar a Igreja de Deus.

Deus parece querer nos mostrar com mais clareza sobre o fim último de nossas vidas. Sim, pois não somente o seu Filho Jesus ressuscitou e está a sua direita. Poderíamos pensar que isto não seria privilégio da criatura humana. Talvez na glorificação de Maria de Nazaré as coisas se tornem mais claras, pois agora vemos que uma pessoa do povo, uma mulher tão simples como muitas das que conhecemos, foi ressuscitada.

São Paulo nos diz (na segunda leitura) sobre a nossa ressurreição, afirmando que nós também ressuscitaremos como Cristo. No Apocalipse (primeira leitura) vemos Maria como sinal glorioso, vitoriosa contra os poderes do mal. Unindo os dois textos, afirmamos que Maria é o ícone escatológico da Igreja, ou seja ela é antecipadamente o que desejamos ser. Portanto, Maria é a revelação de
Nosso último destino – a glória do Céu.


“O que é imperecível é precisamente aquilo que viemos a ser no nosso corpo, o que cresceu e amadureceu na vida nas realidades deste mundo. O Cristianismo anuncia a eternidade daquilo que se passou neste mundo (...) É o amor de Deus que nos torna eternos e a este amor que concede a vida eterna é que chamamos de ‘céu’” (Papa Bento XVI). Existe, portanto, uma conexão entre a vida terrena e a vida celeste. No Céu teremos uma continuidade desta existência: reconheceremos nossos amigos, lembraremos de nosso passado. Não se trata de uma vida sem nenhuma ligação com o passado. Olhar para o Céu deve nos fazer ter um olhar novo para a nossa história. O que queremos levar para a eternidade? Certamente, alguns aspectos de nossa vida serão purificados e eternizados, outros apenas atrapalharão a nossa união com o
Senhor e a nossa glorificação.


Maria tem um corpo glorificado. Precisamos superar a ideia de que a matéria e o corpo serão destruídos. Deus deseja glorificar toda a criação, tudo o que faz parte de nossa existência. Ressurreição e assunção são temas que nos remetem às realidades humanas: nossa história, nossos sonhos, nossas lembranças... Deus toma tudo em suas mãos e eleva a um nível espiritual. No Céu seremos o que já somos, mas numa dimensão superior – elevada pela graça do Espírito.

 Ao elevar uma mulher a glória, Deus glorifica o feminino. Se Jesus é o masculino na glória do Pai, Maria é o ícone feminino no Céu! Se nos enriquece olhar para a firmeza masculina de Jesus que venceu o pecado e a morte de cruz, também nos completa ver a firmeza delicada de Maria que entre lágrimas femininas venceu com Jesus a Cruz e chegou a vitória sobre a morte.

No Evangelho, Maria se proclama humilde e serva. Em seguida, declara uma realidade: todos me considerarão bem-aventurada, ou seja, no grego, makária, que significa Santa do Reino de Deus (Lc 1,48). E quem lhe deu esta graça?


Foi o Senhor que fez grande coisas em seus favor, como ela mesmo diz no versículo seguinte. Assim, quem proclamou Maria como Santa não foi a Igreja Católica, mas o próprio Deus, segundo evangelista Lucas. Existe, pois, um caminho seguro para se chegar a bem aventurança de Maria – a humildade. Ela não quis ser grande, ela se tornou grande por ser a menor de todas: Maria
É a  humilde serva.

Aquela mulher que muito jovem foi chamada a ser a mãe de Jesus, não estava diante dos holofotes. Não era ela uma nobre que residia em Roma, nem era da corte de Herodes, não tinha dinheiro ou fama. Morando num lugar desconhecido e sem significância, no fundo da Galileia, lá estava a humilde serva que se tornaria a Rainha do Céu. A pequenez insignificante tem o primeiro lugar no Céu - esta é a lógica paradoxal do Evangelho. Só Deus pra
fazer coisas assim...

Pe. Roberto Nentwig


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

HOMILIA: 19º DOMINGO DO TEMPO COMUM

ENCONTRAR DEUS...

Elias talvez esperasse encontrar a Deus no terremoto, na ventania ou no fogo. Acabou o encontrando na suavidade da brisa mansa. É uma experiência interessante: Deus está onde agente menos espera que Ele esteja.

Onde vamos encontrá-lo hoje? Nos milagres, nas grandes pregações, nas fervorosas novenas? Acredito que sim, mas pode estar onde menos esperamos: “numa tarde bela, diante da beleza da natureza, aquele que não é a mata, aquele que não é a luz, se revela…” (Juan A. Ruiz de Gopegui). Deus sempre se revela por uma mediação, cabe a nós encontrarmos estes lugares de epifania divina: por vezes seremos surpreendidos, pois Ele pode estar tão perto que não o percebemos, como experimentou Santo Agostinho, ao entender que Ele estava no seu interior. Assim, Deus pode estar muito perto no dia a dia da vida: no Sol que nasce, na flor que desabrocha, no sorriso da criança, na conversa simples de uma velhinha enferma que deseja um pouco de atenção, na nossa casa, no nosso trabalho, na rua… Ali Deus está como a brisa mansa de Elias.

A brisa é o lugar do encontro. O barulho, por sua vez, significa, na primeira leitura, a idolatria do povo que se rendeu ao deus Baal – o deus do barulho. Hoje, na busca desenfreada por experiências religiosas, pode-se cair facilmente na idolatria de uma falsa experiência de Deus. Há também barulhos fora da religião, barulhos que não elevam, que servem apenas para anestesiar consciências. A verdadeira experiência é o amor que se revela no silêncio. Onde reina o amor, Deus ali está. Onde está a brisa mansa, Deus ali aparece. Também vemos no Evangelho que Jesus se retirava para o silêncio o passava um bom tempo alimentando sua intimidade com o Pai. Desta intimidade brotava seu amor e confiança.

A presença de Deus também se manifesta no meio das contrariedades da vida. Elias havia caminhado muito, fugindo de Jezabel que queria matá-lo. Caiu desfalecido pelo caminho e foi encorajado por Deus para ir até o Horeb. Na profunda angústia, tem o consolo do Senhor. Do mesmo modo, no Evangelho, Pedro encontra o Senhor no meio da tempestade. No meio do agito das ondas, Deus permite ser tentado. Permite que o discípulo o questione na condicional: “Se tu és,…”, como que quisesse uma prova, uma confirmação. Os papéis às vezes se invertem: é Deus que nos prova: Ele deixa que a barca balance, deixa Pedro afundar, para provar a fé no momento de aflição. Quando Deus nos prova, quando o barco balança e tudo parece estar indo por água abaixo, temos a chance de clamar Àquele que acalma as águas turbulentas.


Pe. Roberto Nentwig

domingo, 6 de agosto de 2017

HOMILIA: 18º DOMINGO TEMPO COMUM



                                         A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

No Evangelho de hoje nos é apresentado Jesus transfigurado tendo ao seu lado Elias e Moisés, e aos seus pés os discípulos Pedro, Tiago e João.

Dentro do contexto em que o evangelho foi escrito e salientando que o mesmo em certo sentido de leitura quer responder a pergunta “Quem é Jesus” fica obvia a resposta nessa perícope proposta para hoje: Jesus é aquele que  continua as intuições da linha profética (Elias) e da lei (Moisés); sendo ele o maior dos profetas e mais que a lei, levando-a a plenitude; sendo amado pelo Pai que põe no Filho e sente por ele grande orgulho/alegria.

Assim, olhando para a contemporaneidade de Jesus podemos entender que os lideres religiosos de sua época com toda a sua vivencia religiosa e ética da lei não eram ou não estavam de acordo e do agrado do Pai. Mas Jesus, sim!

Quanto aos discípulos, como testemunhas e sendo eles as colunas da igreja mãe de Jerusalém, reconhecendo e testemunhando essa fato, tem plena consciência de que Jesus é o Senhor aprovado por Deus e pode inclusive serem proclamadores junto ao povo. Entretanto, essa proclamação só poderá ser feita quando do projeto de Deus for cumprido em Jesus pela sua paixão e ressurreição.

A mensagem é clara: Jesus é mais e maior que a Lei (Moisés) e a Profecia (Elias) e nesse 
caso, somos todos chamados a fazer a experiência de Deus através de Jesus. Para tanto, fica a pergunta e esse texto para nos ajudar:  

Quem é Jesus para mim/você/nós, hoje? Contemplemos. Um caminho a luz desse texto? Os pobres! Façamos a experiência, e descubramos o rosto do Senhor. 

Certamente uma luz luminosa e uma voz forte dentro de nós ecoará palavras de galardão:
 “…esse é (tu és) meu filho amado, nele ( em ti) está minha alegria e esperança!”

sexta-feira, 28 de julho de 2017

HOMILIA: 17º DOMINGO DO TEMPO COMUM


SENHOR, QUERO SABEDORIA!

Não sabemos pedir o que convém” (Rm 8,26). Escutamos isso no domingo passado. De fato, somos facilmente ofuscados em nossas escolhas. Às vezes parece que o prestígio, o prazer, o poder, a vida mais cômoda são as melhores opções. Imagine você diante de Deus. Ele aparece e lhe concede um pedido, como o fez a Salomão. Você precisa decidir na hora e pedir algo que seja realmente útil para a sua vida. O que você pediria? A bolada da Mega Sena? A cura de alguma doença? Longevidade? Algum dom que o leve a viver melhor o evangelho? Salomão pediu o discernimento para bem governar. Deus lhe concedeu um dos mais importantes dons – a sabedoria.

Salomão preferiu a sabedoria, que se traduz em fazer e dizer a coisa certa, na hora certa. Aqui está um dos segredos da felicidade. Isso é o que São Paulo quer dizer, quando afirma que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus”. Não significa que haja uma predestinação de benesses para quem serve a Deus, mas que Deus conduz o fiel no seu amor, mesmo diante das dificuldades naturais da vida. Na miséria ou na abundância, podemos ter a oportunidade de ter a vida nas mãos pelas decisões que tomamos. Tendo o dom da sabedoria, escolhemos a felicidade, escolhemos a vida. Caso contrário, mesmo o mais rico e poderoso poderá destruir a própria existência e a vida dos seus.

Jesus fala de um tesouro. O tesouro é esta sabedoria, o dom do Reino, a felicidade, a nossa salvação. Encontramos este tesouro como uma pérola que é produzida no profundo dos oceanos, no interior das ostras. Também nós não encontremos fora de nós. É no mais profundo de nosso ser que encontraremos a verdade de nós mesmos e o que nos torna inteiros e felizes. É no profundo que encontramos a Deus e o amor. É preciso mergulhar, o que será exigente. Trata-se de uma tarefa que pode desanimar a muitos, mas é um trabalho necessário.


Pe. Roberto Nentwig

sábado, 22 de julho de 2017

HOMILIA: 16º DOMINGO DO TEMPO COMUM


O JOIO E O TRIGO

A parábola do joio e do trigo revela uma profundidade antropológica: o bem o mal coexistem em nosso coração. Não podemos negar isso, nem seria diabólico admitir tal realidade. E mais: não podemos arrancar o mal. Fazemos, portanto, coisas boas e coisas não tão boas, ainda que desejemos dividir a realidade em dois grupos: de um lado os bons (onde nós estamos), de outro lado os maus.

Jesus nos ensina que o trigo cresce com o joio. Ele não deseja arrancar o joio antes do tempo. Nós carregamos o bem e o mal, pois ainda não somos santos, plenos. A plenitude virá por graça, para além desta história. Precisamos aprender a conviver com o mal, sem se conformar com ele. Não podemos ficar frustrados por ainda não sermos perfeitos, pois não chegamos à plenitude do Reino. Precisamos integrar o mal, ou seja, aprender com ele, não dar tanta força para nosso lado sombrio, aceitando o fato de que somos pecadores. A psicologia analítica corrobora com esta linha de pensamento. Este modo de conduzirmos a vida é muito mais humano. Desumano é ficar se culpando por qualquer falha, é tentar, com as próprias forças e com propósitos inúteis, alcançar uma perfeição inatingível.

Outro equívoco seria não compreender que as pessoas carregam o seu joio. Assim, não é justo julgar os que não agem ou pensam como nós ou fazer justiça, condenar todo o mal deste mundo. Apenas Deus pode fazer a justiça, só ele vai separar o joio do trigo no fim dos tempos, isso não cabe a nós.

As parábolas de Jesus nos ensinam a termos uma paciência histórica diante da realidade do já e ainda não. Poderíamos perder a esperança diante dos males do mundo, poderíamos nos revoltar contra Deus diante das injustiças da história. A parábola nos ensina a esperar, pois o Reino de Deus cresce gradativamente. Às vezes não tão gradativamente assim, pois há retrocessos históricos no âmbito global, social e pessoal. O importante é que sejamos fermento na massa, sinais do Reino, cultivadores de boas sementes, ainda que tenhamos sementes estragadas…

São Paulo afirma que o Espírito Santo ora em nós com gemidos inefáveis. Já vimos, no domingo anterior, que o gemido do Espírito é uma ânsia positiva, pois geme a expectativa da plena liberdade dos filhos de Deus e da libertação integral de todo o Universo. É isso que desejamos – um mundo sem males, sem dor, sem lágrimas, sem morte. É isso que o Espírito anseia, mas também nos ensina, ao trabalhar em nosso interior, que isso não vem de uma hora para outra, que ainda não chegou o tempo, que não podemos saciar no agora todos os nossos desejos.

Por isso, São Paulo nos orienta que não sabemos pedir o que convém. Presos em nosso egoísmo, pediríamos milagres e a cura definitiva de todo mal. Mas com o auxílio do Espírito, ansiamos tudo isso na paciência da história, na certeza de que Deus vai nos guiando em cada vitória e em casa derrota da jornada. A oração do Espírito geme para que o Reino venha: Venha a nós o Vosso Reino, enquanto caminhamos neste mundo de ambiguidades, nós que somos povo santo e pecador, nós que em nossa miséria somos dignos, pela misericórdia, de trabalhar para que o Reino seja já, ainda que por antecipação. Amém!


Pe. Roberto Nentwig

sexta-feira, 14 de julho de 2017

HOMILIA: 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A


O SEMEADOR SAIU A SEMEAR

Um semeador saiu a semear… A semeadura da Palavra segue ao longo da história caindo em diversos lugares. Seguindo as ideias do Pe. João Batista Libânio, as terras onde são lançadas a semente são carregadas de experiências:

Há a terra onde habitam os pássaros. Estes são, na antiguidade, símbolo do demônio. São enganadores, pois escondem a verdade. Hoje há muitas ideologias, mentiras inventadas pelos donos do poder. Quantas vezes a verdade verdadeira fica à beira do caminho… Vivem-se ilusões que impedem a verdade de ter o seu espaço. Ilusão da riqueza fácil, ilusões dos bens de consumo…

Há a terra cheia de pedras e pouco profunda. Quantos corações não têm profundidade. Vive-se facilmente na superficialidade, ou seja, fica-se na periferia, fica-se diante da face, sem perceber a interioridade. É atitude de quem vive apenas das aparências, do que é bonito aos olhos, sem se perceber a beleza interior.

Há a terra cheia de espinhos. Os espinhos sufocam a semente. Os espinhos representam o que sufoca. Quando se deixa de lado o amor, a ternura, a virtude, a beleza, não há espaço para a Palavra.

São Paulo, na segunda leitura, fala-nos da paciência diante das tribulações. O mundo está sofrendo dores de parto, aguardando o dia da vida verdadeira, da alegria verdadeira. Quando uma mulher está grávida, espera com dores; mas a alegria posterior, quando ganha um filho, é muito maior. Assim, acontece com a história. Esquecemos facilmente de que o mal, seja moral ou natural, faz parte de nossa realidade existencial, pois este mundo ainda não participa da plenitude do Reino de Deus, sendo a sua imperfeição ainda latente. Nosso mundo caminha para a consumação: então não haverá mais morte, mais choro ou dor.

Precisamos, assim, enfrentar cada situação da vida na consciência da efemeridade, da transitoriedade da existência. Também nossos problemas podem estar esperando um fruto. O semeador não desiste diante da imperfeição da colheita, mesmo quando encontra maus semeadores ou estruturas que não favorecem o plantio. O importante é saber que a semente é boa e o dono da colheita é fiel. Este fará abundante colheita no fim dos tempos.



Pe. Roberto Nentwig

sexta-feira, 7 de julho de 2017

HOMILIA: 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM


                          VINDE A MIM, TODOS OS CANSADOS E OPRIMIDOS...
Todos, alguns mais outros menos, experimentamos o cansaço nas nossas vidas, com as suas diversas formas.
Onde está a fonte do nosso descanso e da nossa paz? Deus nos responde hoje com as leituras. Caminho para o descanso interior da alma é recorrer a Cristo com humildade (primeira leitura e evangelho). Caminho que nos destrói a paz é a desordem egoísta (segunda leitura).
Em primeiro lugar, vejamos os diferentes cansaços que sofremos todos. Está o cansaço físico, que é próprio do nosso desgaste por causa do trabalho manual, profissional e ministerial: o operário se cansa, a dona de casa se cansa fazendo a faxina doméstica, o professor se cansa dando as suas aulas, o médico e o enfermeiro no hospital se cansam, o empresário e o sacerdote, o comunicador e o esportista a mesma coisa. Existe também o cansaço psicológico e afetivo, provocado pelas pessoas que vivem ao nosso redor, talvez na nossa própria casa, e que não estão de acordo conosco, que não compartilham a mesma fé e amor, que são hostis e indiferentes conosco; este cansaço nos enfraquece e gasta as nossas energias. Está também o cansaço espiritual, permitido por Deus para provar a nossa fé, esperança e caridade; quantas vezes sentimos o cansaço na fé e na esperança. Existe, finalmente, o cansaço moral de quem leva nas costas a sua consciência pesada e não consegue esquecer as suas culpas e pecados.
Em segundo lugar, o que fazemos com os nossos cansaços? Deus nos dirá que recorramos ao seu Filho Jesus que hoje lhe disse: “Vinde a mim todos os que estais cansados e fatigados pela carga e eu lhes darei descanso”. Espera-o na Eucaristia para fortalecer as suas forças espirituais. Espera na confissão para repor as suas forças quebradas. Espera na leitura dos santos evangelhos para animá-lo e consolá-lo. São Paulo lhe dirá hoje na segunda leitura: “Não vivais conforme a desordem egoísta, porém conforme o Espirito”, isto é, vivamos uma vida honesta e honrada seguindo os dez mandamentos. O profeta Zacarias também tem um conselho para a nossa paz e descanso interior: “Vive na humildade”, pois não existe vício que possa destruir mais a paz que a soberba. Se fôssemos um pouco mais simples, não amantes de grandezas, se tivéssemos “olhos de criança” e um coração mais humilde, então teríamos maior harmonia interior, uma paz mais serena nas nossas relações com os demais, uma sabedoria mais profunda e uma fé mais estimulante e ativa. Seriamos mais felizes e encontraríamos paz e descanso em Jesus Cristo.
Finalmente, Deus hoje também nos compromete a ajudar os nossos irmãos, a ser cireneus, porque muitos deles sofrem cansaços mais duros do que os nossos. Dê tempo e diálogo a esses que estão esquecidos e desamparados no cansaço da alma e do coração. Aproxime-se deles para ajudá-los a levar esse fardo pesado, como faz Cristo conosco. E, sobretudo, não ponhas nas costas dos outros os seus sacos de desgostos e reclamações, as suas rebeldias e raivas. Pelo contrario, coloque as suas costas para que os outros coloquem sobre elas as suas penas e as suas dores.
Para refletir: Quais são os meus cansaços? O que faço diante dos meus cansaços? Ajudo os meus irmãos a aliviar aos seus cansaços ou os afundo mais ainda? Medite esta frase de são Gregório Magno sobre o evangelho de hoje: “É um jugo áspero e uma dura escravidão estar submetido às coisas temporais, ambicionar as coisas terrenais, reter as que morrem; querer estar sempre naquilo que é instável, desejar o que é passageiro, e não querer passar com o que passa. Porque uma vez que elas desaparecem, apesar dos nossos desejos todas estas coisas que pela ansiedade de possui-las afligiam a nossa alma, atormentam-nos depois pelo medo de perdê-las”.

ZENIT.ORG

sexta-feira, 23 de junho de 2017

HOMILIA DO DOMINGO: O MEDO É QUE NOS "LIXA" A VIDA



"PORTANTO, NÃO TENHAIS MEDO!"

12º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A


Estamos num território cheio de nomes. É o capítulo 10 do evangelho de Mateus, um capítulo todo discipular. A abertura é uma lista de discípulos nomeados pessoalmente, alguns com direito a alcunha, outros com alusão ao nome do pai, outros ainda com a referência ao lugar de origem. É assim que o capítulo 10 deste evangelho começa, delimitando a familiaridade em que os nomes todos são conhecidos e aparecem na boca de Jesus. Mais as alcunhas e as origens, repito, que nisto de sublinhar a tensão verdadeiramente relacional do evangelho, acho que nunca seremos exagerados.
Depois de lhes dizer os nomes como quem sabe de cor as linhas da mão de cada um, começa Jesus a falar-lhes da missão em termos de “cordeiros no meio de lobos”. O Reinado de Deus vai sofrer violência, avisa o Mestre, vai ser rejeitado até às últimas consequências. Então, percebemos que a nomeação dos Doze é uma cena de “inscrição”: inscritos na luta do Reinado de Deus, é suposto saberem de que lado estão e que uma das originalidades mais específicas do Reinado de Deus, segundo Jesus, é a não-violência radical.
Então, é preciso meter-lhes espírito no corpo, salgar-lhes as carnes. É aqui que chegamos, e a mensagem não podia ser mais clara: não tenhais medo! Três vezes repetido. Temos que levar a sério aquilo que Jesus se dá ao trabalho de repetir três vezes em tão poucas linhas…
É claro que esta valentia não pode vir deles mesmos. O segredo é uma confiança desmedida no Pai. Jesus era assim. As coisas são tão assombrosamente claras e críticas como isto!
Peço desculpa por meter aqui o grego, mas há uma palavrinha no original que não está traduzida no texto em português. Onde lemos simplesmente “Não tenhais medo” ou “Não temais”, o que está lá em grego é “Mê oun fobêtete”.
"Mê" é a partícula negativa, o nosso “não”. “Fobêtete” soa ao ouvido, por causa da palavra “fobia” que daí derivou para o português: medo.
Daqui se forma o “Não temais” ou “Não tenhais medo”. Mas está lá também aquele “oun”, que é uma palavra chave. Significa “Por isso” ou “Portanto” ou “Então”. É um artigo que implica sequência, consequência, resposta a algo prévio. Quer dizer: o motivo da valentia é outro, é doutro, iniciativa recebida.
POR ISSO, não tenhais medo.
PORTANTO, não temais.
ENTÃO, não entreis em "paniqueis".      

Este artigo “oun” mostra-nos que a coragem que Jesus pede aos seus nasce de um “Por isso”, de um “Portanto”, de um “Então”.
É Jesus quem nos diz coisas no segredo da noite em que ninguém nos vê…
POR ISSO, anunciemos em plena luz, ou até ser luz.
É Jesus quem nos conta ao ouvido os detalhes do Reino…
PORTANTO, apregoemos no cimo dos telhados.
A sua vida está homologada por Deus, a sua Palavra está homologada pelo Pai…
ENTÃO, entremos nessa homologação, digamos com ele e vivamos como ele.
Já podes desfranzir o sobrolho. Não foi por acaso que usei esta palavra, tão pouco costumeira nos assuntos da Fé: homologação. Mas é isto mesmo que está lá no texto grego: o verbo “homologeô”. Homologar, em português. “Então, cada um que me homologar diante dos homens, também eu o homologarei diante do Pai dos Céus”. Literalmente, é isto. Homologar é dizer a mesma palavra (logos), ter uma palavra comum. Palavra não é som, mas comunicação! Por isso é da palavra “logos” que se faz “lógica” também… Homologar é sintonizar na mesma palavra (logos), pactuar na mesma lógica (logikê).
Relembro, para quem já tenha esquecido: isto começa tudo com nomes, e alcunhas trocadas entre amigos íntimos, e nomes de pais e lugares de origem e tudo! Quer dizer: estamos no território da relação, da amizade, do pacto. E o que Jesus pede é seriedade absoluta nesta relação. Não há neutralidade possível! Só há duas possibilidades: homologá-lo ou rejeitá-lo; confirmá-lo ou desmenti-lo; aceitá-lo ou recusá-lo; sim ou não. Não há “via do meio”. E as consequências são relacionais. É verdade que uma relação só pode construir-se com a colaboração dos dois lados, mas basta um deles para se quebrar. O lado pelo qual o nosso pacto com Jesus pode quebrar é sempre. e só, o nosso. Mas, é bastante. É essa crueldade real que está colocada na boca de Jesus em forma de consequência 2+2=4. Quem confirmar o meu testemunho, será confirmado pelo meu testemunho. Quem desdisser o meu testemunho, será desdito pelo meu testemunho. Jesus é sempre um Sim. O seu Sim confirmará os nossos sins; o seu Sim desmascarará os nossos nãos. Recuso-me a falar dos nins (aqueles que não são nem sim e nem não), desgraça ainda maior.
Uma última palavrinha sobre a consolação que nos vem desta Palavra assegurada por Jesus: “Então, não tenhais medo!” Porque, pelos visto, é o medo que nos “lixa”! O medo lixa-nos a vida. Foi Jesus que disse, não fui eu! A Geena como sabemos, é o vale a sudoeste de Jerusalém onde, no tempo de Jesus, estava a lixeira da cidade. É disso que Jesus fala quando diz que a vida pode acabar na lixeira… Lixada (jogada fora), portanto. O aviso é forte e claro, a metáfora dispensa explicações. É o único medo permitido por Jesus, aquele que nos põe vigilantes em relação ao que nos pode lixar a vida, o que nos pode arrastar para a lixeira, umas vezes puxando-nos pelos cabelos e outras vezes (a maior parte) seduzindo-nos com encantos e promessas feitas ao ouvido do “Homem Velho” que ainda existe em nós…
Olha: a Fé de Jesus no carinho de Deus era tal que a maneira que arranjou para dizer que O Pai está conosco foi afirmar que nem um cabelo da nossa cabeça cai sem que Ele consinta (a ser verdade, pressinto que Deus tem uma obsessão por mim nos últimos anos…).
Jesus, que até nos disse que não se consegue entrar no Reinado de Deus sem apreciar os lírios dos campos e a atividade dos pássaros, voltou a falar dos passarinhos para nos contar estas coisas importantes do carinho paternal de Deus: somos mais importantes que os passarinhos! Aliás, para citar mesmo o evangelho: “Vós excedeis todos os passarinhos!” Na boca de Jesus, que gostava de passarinhos, isto é enorme.
POR ISSO, POR TANTO, ENTÃO... não tenhais medo!
Porque, por mais exigente que seja a confiança, é o medo que nos "lixa".

Pe. Rui Santiago, cssr

Redentorista - Porto Portugal

segunda-feira, 5 de junho de 2017

E FORAM 90 DIAS...

Isso, dentro do ritmo Cristão, ao qual chamamos "Ano Litúrgico", e tem sempre um significado muito especial chegar a este dia, depois de 90 dias vividos em processo de “mudança”. Como uma peregrinação. Dos 365 dias do ano, 90 são para fazermos uma peregrinação.


Isto quer dizer que, se interiorizamos este ritmo e apanhamos esta sabedoria de viver, um terço do nosso ano está tocado por uma Graça toda especial. É a gente pôr-se no caminho.

Os 40 dias de Quarentena pré-Baptismal, mais os 50 dias em Páscoa, formam um itinerário coeso para dar vigor à Esperança.
No centro, o Tríduo Pascal, eixo e nexo de tudo quanto existe.

Começamos com Cinzas e culminamos com Pentecostes. Fogo, fogo, fogo!!! Começamos como gente apagada, mortiça, naquela Quarta-Feira de Cinzas em que vamos como brasa que se deixou extinguir. Daí vamos marcados, assinalados, com a cinza a que nos deixamos chegar... Mas é aí, nesse "dia um" dos 90 que virão, que o cinzel da Palavra começa a funcionar nas mãos laboriosas e criativas do Espírito da Vida! E, dessa celebração das cinzas, saímos para sermos cinzelados, ajeitados, entalhados...

A peregrinação avança - irrompe por dentro de nós até - e vamos dar na celebração de Pentecostes, toda diferente, em que até as cinzas voltaram a ser fagulhas, de tal modo o Sopro do Espírito levantou aquele Fogo, ateou de novo o que estava extinto, e aqueles que tinham saído marcados com as cinzas, saem desta vez com a vida em brasa, rastilhos no mundo, gente acesa e inflamada.

São 90 dias para acontecer este Batismo, em cada ano, Batismo de FOGO!

Acabados, nunca estamos. A sermos perfeitos, não chegamos. Vamos aprontando, claro, que é o que nos compete. "A nós e ao Espírito Santo", como diz o livro das Suas Aventuras, os "Atos dos Apóstolos". Vamos aprontando, dizia eu, que gosto tanto das portas que se abrem nas palavras...

Aprontamos para outro e apontamos para outro. É a lição de João, o Profeta Batista, com quem estive ainda esta manhã. Um homem que aprontou e apontou para outro. "Mas quem és tu?!" perguntavam-lhe, três vezes quase desesperadas. E ele, sempre em paz com não ser quem não era (sabedoria rara!), insistia num desconcertante: "Eu não sou, eu não sou".

Sempre a aprontar. Para outro.

A nossa vida ainda se inscreve nesta necessidade de aprontarmos os caminhos do Senhor e, por isso, vamos repetindo os processos, ensaiando sempre de novo os passos simples que complicamos: aquele um-dois-três-quatro do Mandamento do Amor, mais o cinco-seis-sete-oito das Bem-Aventuranças.

Por isso, gosto de saborear estes 90 dias intensos que terminaram ontem. Hoje, recomeça o que chamamos "Tempo Comum". Que delícia termos um Tempo Comum, o tempo mais à minha medida.  Mais, a nossa medida.

(Texto de Pe. Rui Santiago... meio “abrasileirado” por Ângela Rocha)


E é num tempo, não tão "comum" assim, que vivemos a nossa fé...