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sexta-feira, 3 de junho de 2022

CEM DIAS DE GUERRA PARA DIZER "NÃO" A TODAS AS GUERRAS

 

Imagem: Criança refugiada da Ucrânia - Vatican News

Por Sergio Centofanti

Já se passaram 100 dias desde o início desta guerra absurda: e não se vê o fim. Pelo contrário, aumentam as preocupações de um alargamento do conflito e uma guerra nuclear não pode ser excluída. Fala-se disso cada vez mais. Na TV, afirma-se que levaria apenas alguns segundos para destruir grandes cidades e estamos nos acostumando com essa linguagem. Seria o suicídio da humanidade.

A história ensina que quando se começa uma pequena guerra não se imagina o quão grande ela possa se tornar. Vê-se isso depois. Quando um líder decide começar uma guerra, contempla suas possíveis vitórias: mas a história nos mostra o fim não glorioso de muitos desses líderes. A história nos ensina que muitas vezes não se aprende com a história e erros se repetem, erros que são letais para quem os comete e, infelizmente, dramáticos para os milhões de pessoas que os sofrem.

Enquanto isso, a invasão russa desejada por Putin está causando morte e destruição na Ucrânia: o Ocidente tem suas responsabilidades na escalada da tensão na área, mas o ataque russo não tem nenhuma justificativa. Morrem crianças, morrem civis, são destruídos edifícios residenciais, hospitais, casas, escolas e igrejas. As famílias são divididas, os refugiados e os deslocados são milhões. Tantas vidas são abaladas e destruídas na Ucrânia. Um país destruído é um crime contra a humanidade. Na Rússia, também se chora pelos muitos jovens enviados para morrer não se sabe por quê. No mundo, foi atingida uma economia que estava apenas começando a se recuperar dos golpes da pandemia. Agora há também a guerra do gás, a guerra do petróleo, a guerra do trigo, e para os pobres há mais pobreza e mais fome. Sem mencionar o ódio que aumenta, os sentimentos de raiva, violência e vingança que aumentam e preparam mais violência, mais rancores e mais lutos.

A guerra é uma loucura, disse o Papa Francisco várias vezes. É uma aventura sem volta, disse João Paulo II. É preciso uma palavra de paz, uma profecia que saiba dizer com força um "basta" a esta guerra e a todas as guerras esquecidas no mundo: Síria, Iêmen, Etiópia, Somália, Mianmar... muita devastação. Precisamos encontrar coragem para nos rebelarmos contra as guerras comandadas por alguns poderosos que mandam outros para morrer. Quantas outras mortes serão necessárias para poder dizer "basta"? Quando os povos acordarão para dizer que querem viver em paz?

FONTE: Vatican News

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

INQUIETAÇÕES DE UMA CATEQUISTA...

 

Estava aqui pensando no que dizer à inquietação de uma catequista, lá de Barra Bonita – SP, que me chamou no whatsapp um dia destes. Sim, porque o que ela “perguntou”, na verdade é uma inquietação de todos nós. Mas, é bom que sejamos inquietos. O evangelizador precisa se inquietar e não aceitar as coisas exatamente como elas são. Agora, o que não podemos deixar acontecer é que essa inquietação mate nosso espírito de luta e nos deixe prostrados simplesmente recebendo - ou não recebendo, dependendo do caso - as coisas como vêm, prontas e acabadas.

Mas, vamos a “inquietação”:

Por que temos tantas reclamações das catequistas sobre o quase abandono de algumas paróquias, com relação às necessidades dos catequistas e da catequese?

Para começar, quero dizer que não se coloca nada numa taça já cheia – falando do pretenso conhecimento que muitos acham que tem e por isso não querem aprender mais nada – ou seja, ninguém aprende se acha que já sabe e tem tudo que precisa. E esta é a frase que me inspirou:

“Não é possível derramar mais água numa taça já cheia; assim também Deus não pode verter as suas graças numa alma cheia de distrações e frivolidades.” (São Maximiliano Maria Kolbe)

Quem sabe nossos padres e lideranças não estejam, então, com a alma cheia de distrações e frivolidades?

E aqui quero lembrar a vocês que um padre é, antes de tudo (não deveria, mas é), o administrador da paróquia. Tanto no quesito pastoral quanto administrativo/financeiro. Afinal uma paróquia é uma “empresa”, com CNPJ e tudo. Evidentemente ele poderia contratar um profissional para isso, mas, é uma questão administrativa que cabe à Igreja, como instituição resolver.

Voltemos àquela questão da “taça cheia”: Muitos acham que o mandato vocacional proporciona sabedoria infinita e recorrem ao Espírito Santo (que não fez graduação nenhuma em finanças), para prover o que lhe falta em especialização e conhecimentos necessários. Com raras exceções, os padres não sabem administrar as finanças de uma paróquia e esta, acaba sendo mantida pelo coração caridoso dos seus fiéis. Ouso dizer que muitos trabalham apenas em prol de manter suas suntuosas Igrejas. Aliás, esta também é uma das reclamações de muitos dos nossos catequistas, que usam seus próprios recursos para conseguir fazer uma catequese mais elaborada.

Enfim, aqui alguns diriam que só nos resta rezar. Rezar para que nossos líderes, por algum milagre dos céus, tomem consciência de que, sem os leigos, principalmente os catequistas, não haverá mais paróquia para administrar.

E aqui eu recorro a mais uma frase de São Maximiliano: “O fruto do nosso apostolado depende da oração. Se falamos de oração, não se deve entender que seja preciso ocupar muitas horas em estar de joelhos e em oração, mas que sejam feitos atos internos...”.

“Atos internos”. O que este venerável santo quis dizer com isso? Acho que se lembrarmos que o ato mais nobre da vida dele foi se oferecer para morrer no lugar de um pai de família num campo de concentração nazista, não precisamos pensar muito na resposta. A oração deve nos mudar por dentro e fazer com que façamos “lá fora”, os atos e as mudanças que precisamos.

Mas, aí está uma coisa que a gente não se põe muito a pensar. No quanto as orações têm o poder de nos mudar “internamente”. Aos nos confessarmos fracos e impotentes e pedirmos ajuda a Deus, estamos, inconscientemente, ajudando a nós mesmos. A despertar o “Espírito Santo” que existe dentro de nós. De nada adianta nos pormos a rezar sem dar uma “ajudinha” a esse Espírito Santo. Não recebemos dele sete dons? Onde estão quando precisamos?

E essa “ajudinha” é justamente pensar no que afinal se pode fazer para que nossa catequese fique melhor. Claro que é difícil mudar alguma coisa quando coordenações e párocos estão apáticos e desmotivados ou sequer acreditam na catequese. Mas, mudanças podem ser “operadas” nas pequenas coisas que “nós” fazemos!

E que “pequenas coisas” são essas que podemos fazer, meus queridos catequistas?

Primeiro, independente de saber se o padre ou o coordenador conhece o Diretório e os documentos da catequese, preciso “EU” mesma conhecê-los.

Ah, mas não posso por em prática tudo o que diz lá!”.

Quem disse que não? Se eu sei qual é a metodologia de Jesus, o que é interação fé e vida, o que pretende o método ver-julgar-agir; por que não posso colocá-los em prática? O “como” se catequiza é uma das formas mais eficientes de se conseguir realmente, catequizar! Posso não estar influenciando as gerações que me precedem e meus pares já estarem "perdidos", mas, com certeza, influencio aquelas que virão. Ninguém é mais o mesmo depois que “experimenta” Jesus de verdade, depois que se encontra com ele. E esse encontro, é mediado pela catequese.

E quando não temos as “armas do poder” é preciso um pouco de paciência. Se não sou “nada” na paróquia - pelos menos em termos de influência com o pároco ou coordenação - o negócio é mudar NO espaço em que me é permitido. E este espaço se chama “grupo de catequizandos”, onde provoco mudanças verdadeiras quando consigo fazer ecoar a Palavra de Deus no coração de cada um.

É claro que preciso seguir as “normas” e as “regras” da pastoral. As “orientações” da coordenação. Não posso fugir delas. Tenho que trabalhar com elas a meu favor, por mais que não concorde com elas.

Para mim, por exemplo, é uma rematada tolice e um atestado de incompetência, usar qualquer coisa como “controle” de frequência de missa ou dos próprios encontros de catequese. Se as pessoas não comparecem a um evento que você convida é porque este evento não as atraia. Obrigá-las a ir, e fazer que isto se transforme num “costume” ou “hábito”, é o que faz muitas pessoas fracas na fé. E como temos fracos na fé ajoelhados todos os dias na Igreja!

Eu não obrigo catequizando nenhum a ir à missa e nem faço “chamada” em encontro. Só que eu sei perfeitamente quem foi ou não foi e porque faltou. Isso porque “converso” com eles, converso com os pais. As crianças vão à missa quando os pais vão à missa. Adianta eu fazer terrorismo com eles? Deveria é fazer com os pais. Mas, estes se eu fizer, vou afastar ainda mais da Igreja.

Não se deve ir à missa por costume ou hábito. É preciso ir porque nos faz bem celebrar com a comunidade, faz bem cantar e rezar junto com a comunidade, faz bem receber o “pão” junto com a comunidade.

Fico extremamente feliz quando encontro minhas crianças e seus pais na missa. Faço questão de cumprimentá-los com um abraço. Porque sei que estão lá porque querem, não porque os obriguei. Esta é apenas uma das “coisinhas” que a gente pode tentar fazer. E continuar se inquietando sempre. Inquietar-se é bom. Mas, é melhor ainda quando nos anima a mudar, a fazer pequenas coisas que podem ser tornar grandes na vida das pessoas que estão ali sob a nossa responsabilidade.

E para finalizar, um velho provérbio: “As palavras ensinam, mas os exemplos arrastam”

Ângela Rocha



 

 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

ESPIRITUALIDADE DA CRIANÇA COM AS PESSOAS DE SUA CONVIVÊNCIA

 Imagem: Pixabay

PARTE I - PRIMEIRA INFÂNCIA

 Texto bíblico: Jr 1, 4-8

Veio a mim a palavra do SENHOR: Antes que te formasse no seio de tua mãe, eu te conheci, antes de saíres do ventre, eu te consagrei e te fiz profeta para as nações.” Respondi: “Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, sou apenas um menino”. O SENHOR me respondeu: “Não diga: ‘Sou apenas um menino’, pois irás a todos a quem eu te enviar e dirás tudo o que eu mandar dizer. Não tenhas medo deles, pois estou contigo para te livrar . Oráculo do SENHOR.”

(Bíblia CNBB, 3ª edição,2019)

 

Inspirado pelo texto do Livro do Profeta Jeremias, em que Deus o chamou para anunciar os seus oráculos, no contexto de um povo sempre em guerra; e também em muitos outros textos que traz a Sagrada Escritura, falando a respeito de como Deus prepara todos; bem como em Jesus Cristo, que cumpre as promessas de Deus para a salvação; pode-se entender que o despertar da Espiritualidade humana, vem desde o seio materno, ou ainda, bem antes disso, na gravidez, planejada ou não, quando Deus une o homem e a mulher para serem portadores e geradores de vida.  

Quando se inicia uma gestação, a mãe cuidadosa faz todo acompanhamento do pré-natal se preparando para o grande dia do nascimento do filho ou da filha. A partir disso, toda mãe começa a transmitir seus sentimentos e anseios. Mãe e filho(a) estão interligados (as). Tudo que acontece em torno da mãe, afeta o sentimento do filho ou da filha dentro do ventre. A mãe dotada de uma experiência de fé, começa a transmitir a sua religiosidade por meio de orações e dos desejos de que tudo corra bem durante a gestação.

Depois que a criança nasce, ela vai percebendo o mundo ao seu redor, a começar pela sua mãe, depois pelas pessoas entorno. E, à medida que vai crescendo, percebe o ambiente e se deslumbra com tudo: com as árvores, com as flores, com a grama, com a água, com os animais, com os objetos que lhe despertem atenção, enfim, a criança contempla tudo à sua volta.

Também enquanto se desenvolve, a família lhe mostra a comunidade de fé que frequenta. Assim, ela começa a explorar o espaço da celebração, engatinhando, subindo, descendo, batendo palma, olhando fixamente ao altar, pois, tudo lhe chama a atenção. Se os adultos estão olhando fixos ao altar,  a criança também repete o gesto.

A partir do Concílio Vaticano II, começam as orientações catequéticas para as famílias por meio de diversos documentos da Igreja. Elaborou-se em 1992,  um novo Catecismo da Igreja Católica, que é uma exposição da fé católica e da doutrina da Igreja. Trata-se de um documento de referência para o ensino da doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana, com o qual pode-se conhecer o que a igreja professa e celebra, vive e reza em seu cotidiano. E assim sucessivamente, outros documentos voltados para a Iniciação à Vida Cristã foram surgindo. Sem adentrar especificamente, na trajetória histórica, mas, trazendo à nossa situação e tempos atuais, a Igreja vem orientando o ensino da fé pela Catequese com Inspiração Catecumenal, que é a Catequese que era realizada no início da Igreja Primitiva, voltado para os adultos.

A partir disso, percebeu-se a necessidade também de se aplicar essa inspiração às crianças e adolescentes. As celebrações de Inspiração Catecumenal despertam nas pessoas experiencias de fé inusitadas, possibilitando que se mergulhe profundamente no mistério de Cristo.

Mas, assim como somos filhos e filhas de Deus de forma integral, o que vivenciamos no seio da família, reflete nos demais ambientes de nossas vidas.  Somos influenciados pelo meio. 

A criança quando entra na catequese, mesmo que seja na Catequese Infantil, normalmente a partir de 5 anos, já vem com uma história de vida e experiências familiares só dela, e conforme vai participando do grupo e das atividades lúdicas, demonstra interesse por figuras, símbolos, gestos, permite-lhe despertar a sua espiritualidade natural, que ela já possui, herdada dos pais e do ambiente ao seu redor, basta incentivá-la.

Como proporcionar à criança pequena, momentos de espiritualidade? Neste período de pandemia, como trabalhar esse tema, trazendo à criança a superação do distanciamento do grupo de convivência?

Sugestões do que pode ser realizado:

·         Em um tapete, sentado ao chão com seus familiares, pode se ler uma história bíblica (não todo o texto bíblico), mas trechos – exemplo: da Criação; do Nascimento do Menino Jesus (de preferência mostrando figuras); realizar uma Narrativa do texto e propor a Ela que feche os olhos e faça um pedido, ou uma oração do jeito da criança;

·         Na possibilidade de espaço externo da casa, brincar ao ar Livre e falar sobre os animais, plantas, flores, nuvens, pássaros, vento... tudo sendo obra do Criador. A criança percebe e compreende segundo a sua maturidade;

·         Rezando o Santo Anjo todas as noites com a criança ou qualquer oração de cunho pessoal. Ensinar à criança que orar é “falar” com Deus;

·         Se for apropriado, e costume da família, educar para o Terço  rezando uma dezena com a criança (O terço todo ela vai aprendendo com o tempo;

·         Conversar sobre Maria, ensinar alguns cantos como:  “Mãezinha do Céu” e outros que a família conhece;

·         Manusear com ela alguns livros de história bíblica, contos, mensagens.

 

 

E mesmo depois que a criança voltar ao contato social da catequese, continuar com as mesmas propostas.

Neste artigo, abordamos os aspectos gerais da criança pequena, nos próximos, serão vistas as demais idades. Para isso, usa-se como referência os livros de Psicopedagogia de Calandro e Ledo (2019), referenciados ao final. A proposta é auxiliar o catequista em sua pedagogia catequética, seja para a catequese familiar, seja para catequese nas comunidades quando a pandemia nos permitir retornar.

 

Catequista: Alessandra Rodrigues França da Silva

Paróquia Nossa Senhora da Boa Esperança-Pinhais/PR

Arquidiocese de Curitiba

 

FONTES DE PESQUISA:

ARQUIDIOCESE DE CURITIBA - COMISSÃO BÍBLICO CATEQUÉTICA. Formação Básica de Catequistas-subsídio com os principais temas para formação de catequistas. Curitiba: Editora Arquidiocesana, 2008

CALANDRO, Eduardo; LEDO, Jordélio Siles.  Psicopedagogia Catequética: reflexões e vivências para a catequese conforme as idades. Vol.1 – Criança. 1 ed. São Paulo: Paulus, 2019.

______.  Psicopedagogia Catequética- reflexões e vivências para a catequese conforme as idades. Vol.2 – Adolescentes e jovens, 1ª ed.. São Paulo: Paulus, 2019.

CNBB. Diretório Nacional de Catequese – DOC 84. 5ª ed. São Paulo: Paulinas, 2007.

PAPA FRANCISCO. Amoris Laetitia: sobre o amor na família. Exortação Apostólica pós-sinodal..  São Paulo: Paulus,2016.

 


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

EU ACREDITO EM PAPAI NOEL...

Imagem: estilizada

Sim, eu acredito em Papai Noel! Assim como acredito em Nosso Senhor Jesus Cristo. Estranho que uma pessoa religiosa acredite e ame a tradição do Papai Noel? Talvez. Ou talvez não, se ela conheceu de verdade, o Papai Noel.

E foi numa época e numa circunstância, em que não era fácil ser Papai Noel. Não quando se tinha dez filhos, não num tempo de crise. E houve natais em que era um presente só, para duas crianças. Mas, ele vinha. Não de roupa e gorro vermelho. Mas, de roupa comum do trabalho. Chegava na noite de Natal com seu saco às costas, para alegria da criançada. E havia natais que tinha festa. Porque era também o aniversário do Papai Noel. E tinha todas aquelas coisas gostosas, que só no Natal é que via: farofa, cabrito, leitão, bolacha...

Lembro-me de um Natal quando tinha cinco ou sei anos. Morávamos no interior, não me lembro exatamente o que meu pai fazia nessa época, só sei que morávamos numa casa nos fundos da casa de uma outra família. Para variar, nossa situação financeira não era lá muito boa. As coisas eram difíceis para as oito crianças a espera da nona. Meu irmão mais novo nasceu nessa casa.

Meu Pai chegou bem tarde naquela véspera. Trazia às costas, um saco cheio de coisas para nós. Éramos então nove filhos nessa época. Para as meninas menores, eu e minha irmã, ele trouxe uma bonequinha de plástico para cada uma, daquelas com cabelo que parece de milho. Para os dois meninos mais novos ele trouxe um carrinho. UM só. Um dos meus irmãos, o mais velho, recusou e disse que queria um presente que fosse só dele. Ah! Aquele Papai Noel risonho, sabia ficar zangado: e o cinto fez meu irmão chorar e minha mãe ficar triste. São tristes lembranças de Natal. Nessa casa, não havia água encanada nem poço, e precisávamos pedir licença para nossos vizinhos da frente para pegar água num cano que passava no meio do terreiro entre as duas casas. Isso fazia com que a água para a casa da frente fosse interrompida e isso nos custava muitos xingos. Anos mais tarde minha mãe me contou que essa família chegou a nos sustentar por uns tempos. Acabaram sendo padrinhos de meu irmão que nasceu lá. Eram épocas de vacas muito magras.

E, por falar em vaca, eu estava brincando no “potreiro”, tinha ganho um lindo casaquinho de flanela estampada de amarelo. Minha mãe costurava nossas roupas. E, no corre corre da brincadeira, comecei a sentir calor e coloquei meu “paletózinho” novo na cerca. E uma vaca veio e mastigou! Que coisa! Chorei muito... mas, não tinha como fazer outro naquele ano.

Mas nem tudo era tristeza. Brinquei muito naquele lugar. O sítio proporciona isso pra gente: espaços abertos, natureza, árvores, riachos, crianças. As crianças não veem a vida com olhos de tristeza. Elas têm olhos de aventura, enxergam aquilo que os adultos já esqueceram.

Voltei àquele lugar quando adulta. Qual não foi a minha surpresa ao observar que, aquele mundão de aventuras, aquelas coisas que para mim eram tão grandes, pareciam agora, tão “pequenas”. Meus olhos já não tinham tanta perspectiva: O filete de água do riacho já não parecia com um grande rio a ser atravessado, o grande pasto não passava de meio alqueire. Como diria Rubens Alves: já não há jabuticabas a serem comidas no galho mais alto. E nem eram jabuticabas, só gabiroba mesmo...

Mas, independente de algumas tristezas nas minhas lembranças, o Natal sempre foi para mim uma época mágica. E essa magia vem do “dia”. Que para mim, lá na infância, não era de Jesus e sim do Papai Noel. Quando eu era criança não havia presépios elaborados, grandes árvores de Natal ou ceias fartas. Mas, havia natal! Era um dia “natalino”, porque Natalino era meu pai. O dia 25 de dezembro era aniversário do meu Pai. Não era o menino Jesus que eu esperava com ansiedade, era o dia do aniversário do Papai Noel.

Minhas lembranças não são tão claras, e não posso dizer que todos os natais foram assim. Mas, quando nossas condições permitiam, havia sempre festa. Um cabrito era assado lá no quintal numa fogueira no chão, muita gente (muitos desconhecidos), minha mãe fazia maionese, farofa, macarrão e bolacha de sal-amoníaco. E o almoço do dia 25 de dezembro era sempre muito especial. Minha mãe costurava roupas novas pra gente. Eram coisas muito simples.

Na nossa realidade do resto do ano, havia frango só no domingo mas, no Natal, havia um monte de coisa. Era “a” festa! E como Papai Noel era alegre, brincalhão, sorridente. Posso ainda escutar sua risada ecoando em meus ouvidos. Posso ver seu rosto nitidamente como se fosse hoje. Ele tinha cheiro de madeira da serraria: canela, imbuia, pinheiro.

Eu tinha um “Papai Noel” só para mim. Um homem muito especial, de coração enorme, que sabia ajudar qualquer pessoa que precisasse. Muitas e muitas vezes eu o vi trazer pessoas carentes pra casa (como se ele mesmo não fosse um de vez em quando!), para dar de comer, ajudar a arrumar trabalho. Na festa dele, eram convidados todos que passassem na rua...

E lembrar disso tudo, ainda faz o Natal ser especial. Mesmo neste Natal, em que não podemos reunir a enorme família do Seu Natalino (Meu papai Noel), eu sorrio e penso como esta época é especial. Ele já não está vindo mais há 42 anos, mas, continua aqui, no meu coração. Seu sorriso, sua alegria, sua bondade de coração... Não há como esquecer! Meu papai Noel nem sempre tinha presentes a oferecer, exceto sua alegria, mas, isso bastava para  mim.


*Minha música de Natal preferida, escute, é linda!

 https://www.youtube.com/watch?v=0u5UvnKlCTA

♫ O primeiro Noel, os anjos disseram, surgiu como certo
Para os pobres pastores nos campos onde guardavam suas ovelhas
Em uma noite fria de inverno, mas era tudo tão maravilhoso...
Noel, Noel, Noel, Noel, Nasceu o Rei de Israel!

Eles olharam para cima e viram uma estrela brilhando para além deles ao longe e para a Terra lançava uma grande luz...
E assim continuou... Dia e noite...
Noel, Noel, Noel, Noel, Nasceu o Rei de Israel!

Aqueles trio de sábios completamente reverentes
de joelhos ofereceram na presença Dele: seu ouro, mirra e incenso.
Noel, Noel, Noel, Noel, nasceu o Rei de Israel!
Noel, Noel, Noel, Noel, Nasceu o Rei de Israel!

 (The first Noel – Música natalina do século XIX).  


Ângela Rocha - Catequistas em Formação



quinta-feira, 12 de novembro de 2020

PRIMEIRA COMUNHÃO NA PANDEMIA

 G1 - Foto: Jorge Figueiredo.


Muito se tem falado sobre se há ou não necessidade de “catequese online” com as crianças nas paróquias do Brasil. 

Há muitas e controvertidas opiniões. Alguns acreditam que o “ensino da fé” não pode parar – foco mais no ensino do que na fé – outros acreditam que a iniciação à vida cristã se faz presencialmente, numa comunidade “física” e não “digital”. 

Segundo o Cardeal Josip Bozanic, arcebispo de Zagreb, a internet é “antes de mais nada, um mundo, que alguém chegou a chamar de ‘sétimo continente. Na internet os jovens criam seus laços sociais e aprendem a viver!” . Mas, ainda assim, os meios digitais são “ferramentas” para a evangelização neste novo "continente". Não temos que nos mudar pra lá, temos que trazer as pessoas pra cá, para a comunidade de “contato”. A evangelização de fato, se dá na Comunidade. Ou será que, com esta pandemia, vamos nos tornar pessoas totalmente isoladas uns dos outro? Aí, então, viveremos para sempre num outro mundo. Então, se Jesus chegar agora, sem perfil no Instagram ou Whatsapp, nada feito! 

E estamos (devemos!) usando a internet para manter contato com nossos catequizandos e suas famílias. Para não "perdê-los" neste tempo de tanto medo e isolamento. 

Mas, estou vendo por aí, uma coisa assustadora. Chegou novembro e - como sempre - estou vendo acontecer muitas "PRIMEIRAS COMUNHÕES" (aconteceu catequese "online"?), com crianças em nossas paróquias. 

"Ah, mas, estamos seguindo os protocolos de segurança!" 

"Pouca gente, com máscara, só a família..." 

“Os pais estão pedindo...” 

Desnecessário isso, em minha opinião. Porque esta pressa? As crianças vão fazer a próxima comunhão, quando? Onde? Nem em tempos normais elas voltam à Igreja tão cedo... 

Isso podia esperar! Ah, que oportunidade maravilhosa estamos perdendo em estreitar os laços, conhecer as famílias, evangelizar os pais, dar às crianças um pouco mais de maturidade! É um tempo que nunca tivemos! O de poder falar com os pais pelo whatsapp, facebook, ter liberdade de fazer grupos nas redes sociais, de fazer chamadas de vídeo. Dificilmente os pais vão à paroquia para receber catequese presencial. Não têm tempo, não tem vontade, estão cansados... Porque não apostar na catequese familiar? Esta sim, é muito válida por meios digitais. 

No caso dos sacramentos dados aos adultos ao final do catecumenato, eu até concordo (ainda com certas restrições). Eles são adultos e responsáveis pelas suas escolhas e ações, as crianças não. 

Isto de se fazer o sacramento; sem uma participação na comunidade, na liturgia e nas ações da paróquia; leva as nossas tentativas de conscientização às famílias, de que a catequese não é só para receber sacramento, e sim, é iniciação à vida cristã; vai ladeira abaixo!

Mais do que receber o sacramento ao final de um período de aprofundamento da fé (como se isso fosse possível com crianças!), perde-se a inserção "comunitária" destes pequenos católicos. Perde-se uma das coisas mais importantes para o anúncio: a liturgia e a mistagogia da fé. 

A "Primeira comunhão”, além de uma data para receber o sacramento da eucaristia, é também a "festa" de entrada na vida comunitária, no "banquete" de Cristo, que tem tudo a ver com a comunidade. Senão, a celebração não teria nada de especial, não seria na missa, com toda a comunidade presente. Seria individual. O catequista fazia a catequese e quando via que esta ou aquela criança estava "preparada", dava o ok para o padre e pronto: a criança já pode comungar junto com todos os outros fiéis. 

E eu nem vou falar do sacramento da Reconciliação... Ele acontece “online”? 

Estas "1ª comunhões", em tempo de isolamento social, estão "sacramentando" a sacramentalidade de uma catequese já muito sacramental, ou seja, faz-se catequese com crianças exclusivamente para receber o sacramento. Porque os pais têm esta mentalidade, porque padres e catequistas corroboram ao dizer sim, porque a data estava marcada, etc. 

Sei que há muita coisa envolvida nisso, mas, o fato de muita gente não entender que é preciso FICAR EM CASA, sair só se for extremamente necessário, que não é preciso expor os filhos ao contágio, nem que seja numa celebração com 20 pessoas só... Não entra na minha cabeça! E que os catequistas aceitem isso, façam isso acontecer, aí é que não dá pra entender mesmo! Somos o “rosto” da Igreja e falamos em nome da Igreja. Não vem com papo de que “o padre que quer ... ele manda”. Será que não dá pra esperar pela vacina? 

Muitas pessoas acham que isso é bobagem e pânico desnecessário. Parece uma frase que estamos ouvindo desde o começo da pandemia no Brasil: "Todo mundo vai morrer mesmo... " 

E já são 5.749.007 de casos no Brasil com 163.406 mortes... 



sexta-feira, 14 de agosto de 2020

AS SEMENTES QUE CULTIVAS

Aprendi algo edificante sobre as sementes neste último mês, visto que a liturgia foi em sua maioria relacionada a semear, sementes, semeador, plantio e terrenos. Ouvi muitas explicações sobre tais passagens. No entanto, O Espírito Santo conduziu-me ao entendimento que eu precisava.

Sempre compreendi que sementes boas são oriundas dos ensinamentos de Jesus, por meio de seus exemplos vivenciados e descritos na Bíblia pelos apóstolos. Que devemos semear essas sementes na vida de todos a nossa volta. E devemos cuidar do terreno de nosso coração, pois é ali que a semente será plantada. Mas, compreender que más sementes podem ser geradas em nós também, e  as distribuímos com gratuidade por aí, foi algo novo que Jesus iluminou-me. "Você colhe o que planta". Eis o ditado mais sábio de toda sociedade.

Existem sementes de todos os tamanhos, formatos e cores, mas isso é o que menos importa. Importa de fato que ela germina. Sementes garantem vida de qualidade. Garantem a continuidade de um reino.

Deveríamos cada um olhar os variados tipos de sementes que produzimos ou acolhemos em nosso coração. Há muita gente por aí plantando joio no meio de boas plantações. Nem sempre por má intenção, as vezes é por não observar seu próprio terreno e perceber que há mais joio que trigo. Então entrega-se um feche de trigo e não nota que entre ele há joio. Exemplificamos aqui a má semente. Um joio no meio do trigo, pode comprometer a colheita. Ele assemelha-se muito com o trigo, mas não é. É falso. Só se nota a diferença entre joio e trigo, na fase adulta, ou seja, após o seu crescimento. Existe ainda risco de intoxicação para quem consome o joio. Entretanto, quando exposta às altas temperaturas, ele perde suas toxinas. Assim, se um grão de joio se misturar ao trigo, ele não fará mal. Quantas vezes nos sentimos intoxicados pelas vãs palavras do próximo? Ou ainda, quantas vezes fomos toxina?

Sementes são semeadas por palavras e gestos. A semente do amor por exemplo, frutificará em dobro se vier regada por gestos de gentileza, abraços e carinhos. E a semente da justiça, necessita de palavras motivadoras inundadas por atos de coragem. 

Sementes precisam morrer para gerar frutos. São lançadas e depois morrem para então germinar. De uma única semente pode nascer uma grande quantidade de frutos. A semente dá a vida para que o fruto cresça e multiplique. Há maior coragem que esta? No entanto, uma semente só germinará se o solo estiver bem cuidado e adubado. Que solo seria esse? Pois bem, compreende-se que esse solo é também chamado de coração. Mas, antes de chegar ao coração, palavras e gestos passam pela nossa mente, e ali é que selecionamos o certo do errado, a semente boa da má. Nossa mente, faz a seleção para que seja enviada ao coração que tudo sente e germina. Ali as sementes frutificaram ou não. O coração é, portanto, o canteiro, e a mente a estufa.

Um exemplo prático: eis que "minha amiga" tem dentro de si uma semente chamada inveja. Essa semente já passou pelo processo de ser lançado, acolhido na estufa e plantado no coração desta amiga. Outra pessoa lançou a semente, e ela acolheu. Ela poderá agora dar continuidade a esse processo, lançando as sementes a mim, por meio de difamações, mentiras, palavras grosseiras entre outras formas de distribuir semente de joio. Cabe a mim, selecionar essas sementes.

 Para saber distinguir essa semente, tenho que observar os ensinamentos do mestre do plantio: Jesus. Ele deixou tudo descrito por meio de um manuscrito dessa arte, chamada Palavra de Deus. Ela indicará como esse processo ocorre. E o mestre ensinou a dar importância as sementes que acrescentam ao Reino de Deus. Um reino que se faz presente aqui e agora, e está dentro de cada um de nós. O segredo é, portanto, dar ou não importância a essa semente. Só cresce a semente que recebe cuidados.  

Se me jogaram olhares maldosos, vou ignorá-lo e retribui-lo com sementes de gentilezas. Se as sementes forem de julgamentos e grosserias, devo fazer como o mestre fez no episódio que um grupo de pessoas se dignaram em apedrejar a mulher adúltera: Primeiro silenciar. Depois aguardar a raiva passar e dar tempo para o próprio inimigo refletir. Em seguida, proteger o solo da própria mente do ataque dos inimigos e retribuir de forma inteligente e piedosa com sementes de perdão e afeto, impulsionando assim o inimigo a tirar o cisco do próprio olho. Acolher o pecador e não o pecado. Ninguém retribui com más sementes, tendo em si boas sementes.  Humildade e mansidão.

Parece fácil, porém na pratica é uma habilidade a ser conquistada. E a prática inicia-se no reconhecimento de que somos capazes de conseguir as mesmas façanhas que o Jesus humano conquistou,  orando e vigiando por nosso terreno sagrado.  Tudo nos pode ser tirado materialmente falando. Mas, no solo de nosso coração e mente só eu e Jesus podemos tocar e dar permissões. Ali só germinará o que eu cultivar, e com a graça de Jesus ele poderá render a mais bela colheita.

Cultivar pode ser compreendido como vigiar pensamentos e condutas que temos. Ressalto que vigiar a pessoa que "EU" sou e não as pessoas a nossa volta. No canteiro do vizinho o máximo que podemos é indicar o caminho instigando-o a curiosidade dos segredos do sucesso do meu canteiro, mas não poderemos tocar sem a permissão dele, caso contrário levaremos a culpa por uma colheita que não nos pertence. 

Cultivar ainda pode ser interpretado como incentivar nossas próprias vontades e paixões. Treinar bons pensamentos, manter-se humilde, orar ao Pai sempre que perceber uma armadilha que se dispoe contra os ensinamentos de Deus ou ainda sacrificar-se duramente nesse cuidado. Silenciar quando se tem vontade de gritar, surpreender alguém. Ser manso diante de grosserias, conceder palavras de ânimo e vida ao invés de julgar. Lutar por causas nobres saindo do comodismo.  Vencer o orgulho que impede de dar ou pedir perdão. Amar sem pedir nada em troca e por aí segue...

Vigiai e orai meu terreno Senhor! Envia tua graça sobre mim para que esteja atenta aos ataques e ciladas ao meu reino.

Tenha pressa em me guiar, porque outros precisam de mim para aprender essa habilidade que se renova a cada segundo. Demorei compreender, mas agora anseio em passar adiante a fórmula para as "plantinhas" que me presenteou como filhas. Para que elas tenham mais tempo de aperfeiçoar a técnica do plantar e colher. Como mãe e catequista, tenho essa missão.

O que se planta, colhe. Confio na sua graça querido e bom amigo Jesus.


Catequista Sandra Fretta Gomes Malagi.
Paróquia Sant’Ana- Laranjeiras do Sul-PR


sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A FAMÍLIA... SEMPRE A FAMÍLIA


Acho errado nos conformamos com a ausência dos pais e da família na catequese, porque nosso “foco” são as crianças. 

Meu foco como catequista NÃO é SÓ a criança! Aliás, está totalmente equivocado pensar esta missão com "foco" em alguma faixa etária. Devo me preocupar com a idade do catequizando somente para escolher o melhor método de abordagem e aprendizagem. Jamais trabalhar pensando exclusivamente na criança. Ela não é um ser sem vínculo, vem de um lar, de uma família e de uma formação, seja ela boa ou ruim. Eu passo com ela de 30 a 40 horas num ano. A FAMÍLIA as outras 8.720 horas...

Evangelizar é muito mais que se encontrar com um grupo de crianças uma vez por semana e esperar que alguma coisa que você diga, entre no coração delas e que lá, num futuro incerto e distante, elas lembrem de alguma coisa. Se você não envolve a família na comunidade, não faz destas crianças verdadeiros participantes dela, seu trabalho será em vão.

Se existe algum foco em nossa missão, este deve ser A FAMÍLIA como um todo. Vou me angustiar sempre que encontrar dificuldades com a família, vou sofrer e vou chorar, pois sei que se não MUDAR verdadeiramente a família - essa convenção social tão importante na vida do ser humano - de nada vai adiantar eu me dedicar tanto à catequese.

Faz parte dos meus anseios, faz parte da minha missão. Não é pessimismo falar. É beber a realidade em dose máxima.

E lembrando nosso mestre: os sãos não precisam de médico, são os doentes. Nosso problema é que queremos curar a tosse de um dando remédio pro outro. No caso, as crianças que, invariavelmente, estão ali meramente por não ter escolha.

Ângela Rocha
CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO

terça-feira, 8 de outubro de 2019

VOCÊ É IGREJA OU "NÓS" SOMOS IGREJA?


De fato, somos templo do Espírito Santo. Ele habita em nós, nos direciona, inspira cura e muito mais. A palavra templo se define em ser local sagrado, local em honra a um ser divino. Para ser templo de Deus há a necessidade de treinar a santidade todos os dias. Exercitar o amor, que consequentemente exige muito perdão e sacrifícios.

Tem aumentado o número de pessoas que preferem ser templo particular de Deus dentro do seu quarto em íntima união espiritual com o Pai. E esse fato está corretíssimo, pois Ele mesmo orienta em Mateus 6,6 “Quando orares entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á”.  No entanto, não é justo tornar-se cristão isolado, achando que só o exercício desta oração é cabível a Deus.

Faz-se necessário observar o caminho, a verdade e a vida: Jesus. Há muitos relatos bíblicos em que Ele se retirava do meio da multidão para ter o seu momento íntimo com Deus. Mas, posteriormente ele sempre retornava para estar com seus irmãos repartindo do mesmo pão e partilhando dos mesmos gestos de fé.

No evangelho de Mateus 18,20, temos: “Pois onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Evidente que orar intimamente com Deus é uma oração preciosa e de extrema necessidade. Faz-se necessário entender que essa oração a “sós” com Deus é para alimentar nossa alma com mansidão, paciência, sabedoria, clareza e recuperar a alegria e a fé. Na oração íntima com Deus Ele nos instiga e nos capacita ao amor. Por quê? Para em seguida “descermos da montanha” em direção ao povo que espera nossas palavras de Luz que foram inspiradas por Deus em nosso momento íntimo de oração. Há um povo sedento por palavras de paz. Um povo sem pastor vagando desorientado mundo afora sem conhecer Jesus. Se essa oração íntima se tornar nossa única opção de oração, o rebanho de ovelhas desorientadas continuará a crescer.

Torna-se necessário entender que a missão de “ir pelo mundo e pregar o evangelho a toda criatura” não se faz dentro de um quarto fechado. Aqui fica clara nossa convocação da Igreja em saída. Nosso corpo não sai do lugar se não pela agilidade de nossas pernas. As palavras não saem se não for o poder da nossa língua. O irmão que passa fome de alimento ou de companhia, não saciará se não for outro irmão o ajudando. Isso é amor!

Em 1Coríntios 12,12-14 há um profundo ensinamento:  Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito. O corpo não é feito de um só membro, mas de muitos”.  De muitos queridos irmãos! Muitos!

Todo cristão está incluso nesse corpo. O sacramento da Eucaristia não chega à casa do acamado, se não for pela mão de um sacerdote ou leigo que se dispôs ao serviço. Uma cesta básica não se faz se não for o pedido de ajuda de alguém e a disponibilidade em doar. Muitos milagres aconteceram diante de orações comunitárias unidas na mesma intenção. Sacramentos, ritos, simbologias, doutrina, costumes, histórias, milagres, caridades que ocorrem movidas pela fé que mantém unido um grupo de cristãos.

 A Igreja faz o papel de oportunizar muito mais que receber os santos sacramentos, ela nos dá oportunidade de sermos irmãos. De colocar nossa fé em obras. É ali que muitas histórias são compartilhadas. Muitos pedidos de ajuda ocorrem. Muitos famintos por abraços, palavras e alimentos se achegam em momentos de profundo abandono, angústia e desesperança.  O fato de ter uma igreja construída em algum local é sinônimo de esperança para muita gente que vive realidades diferentes das nossas.

Uma Igreja é formada por pessoas que vivem e acreditam na mesma fé, cada um destinando a Deus os seus dons para que Deus possa fazer obras.

De fato, em toda Igreja haverá pessoas interesseiras, maus pastores, hipocrisia ou más condutas. Afinal, somos pecadores (aqui me incluo). Mas, vale nos perguntar se o amor não deveria ser o mandamento principal do coração cristão. Isso inclui ser manso e humilde. Dar perdão e escutar. Parar de julgar e condenar. Acolher! Ser paciente e caridoso. Há muitos valores que a doutrina de uma Igreja ensina. Basta colocar nossa fé em obras.

A Palavra relata Jesus dando-nos um exemplo quando ele foi à igreja. Em Lucas 4,16 “Chegando a Nazaré, onde fora criado; entrou na sinagoga no dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler”. Jesus fez uma liturgia com seus demais irmãos de fé. Ele participava dos costumes e ritos de sua época e alimentava-se da Palavra de Deus para depois ser Ele próprio o alimento espiritual de muitos nos caminhos que percorreu.

Antes de sofrer os horrores da crucificação, Jesus subiu à montanha para orar como de costume, no entanto, naquela noite a angustia era tanto que ele chamou dois de seus amigos mais íntimos com Ele para orar e vigiar. Que tenhamos a graça de ter irmãos unidos na mesma fé em nossos momentos de angustia, velando por nós e nos apresentando ao nosso Deus.

Posso concluir, que assim como é necessário ter um hospital disponível para que os doentes em momentos de emergência saibam a quem recorrer, assim se faz necessário se ter uma Igreja.

Querido irmão, se você ora na intimidade de seu quarto, peço que continue assim e ainda com maior intensidade. Porém, se você decidiu que a oração comunitária não se faz necessário, tenho que lhe despertar e lhe comunicar: você está privando seus irmãos de serem amados por você. Independente se você foi profundamente machucado por alguém de dentro da Igreja, ou se você presenciou gestos hipócritas, é necessário que você volte e faça a diferença. Deus precisa de você amando e perdoando. Deus precisa de você dentro da Igreja para defendê-la de ser corrompida. Deus precisa de você para fazer como Jesus fez quando viu o templo se transformando em comércio. Jesus foi ousado nesse dia, ficou irritado, brigou, foi áspero nas palavras, mas continuou frequentando o templo, porque ele fora construído em honra à Deus e era lá que ele conseguia partilhar do mesmo pão. Lá há a possibilidade de treinar o amor em honra a Deus.

Você não é Igreja, NÓS somos Igreja, assim como o PAI é NOSSO e não meu.

Catequista Sandra Fretta Gomes Malagi.
Paróquia Sant’Ana- Laranjeiras do Sul-PR

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O CATEQUISTA E A RESILIÊNCIA


Tenha dinamismo no processo de educação da fé: seja um catequista resiliente no processo de educação da fé
O tema da resiliência é novo em nosso meio, como conceito, embora bastante pertinente no meio catequético, mas familiar enquanto prática. Neste artigo vamos olhar o/a catequista como ser resiliente e, que por sua vez ajudará seus catequizandos no processo de empoderamento diante da missão de discípulos missionários de Jesus Cristo. 

A especificidade da catequese, distinta do primeiro anúncio do Evangelho que suscita conversão, visa o duplo objetivo de fazer amadurecer a fé inicial e de educar o verdadeiro discípulo de Cristo, mediante um conhecimento mais aprofundado e sistemático da Pessoa e da mensagem de Nosso Senhor Jesus Cristo (CT 19). 

A resiliência é um recurso que o ser humano possui, em parte inato e, em parte adquirido ao longo do tempo. É uma realidade dinâmica que o faz superar seus limites, dando-lhe “empoderamento” (revestindo-o de uma força dinâmica para caminhar). Ou seja, pode-se dizer que “resiliência é a capacidade humana de extrair do íntimo do seu ser uma reserva extra de forças para superar dificuldades”. 

Diante disso, a pergunta que nos inquieta é: como o catequista pode ser uma pessoa resiliente, que por meio da ação catequética ajude seus catequizandos no processo da experiência com Deus? O (a) catequista é uma pessoa que fez e faz a experiência com o Deus vivo. Ouve o seu chamado e se coloca à disposição do anúncio do Evangelho. “A formação, de fato, deve ajudar o catequista a amadurecer, antes de mais nada, como pessoa, como crente e como apóstolo” (DGC 238). 

MISSÃO DE CATEQUISTA 

Milhares de catequistas espalhados por todo esse nosso Brasil. Muitos (as) sem o mínimo de recursos pedagógicos que o auxiliem no processo de fazer ressoar a Palavra de Deus, outros cheios de recursos, mas talvez não tão conscientes de sua responsabilidade como pai e mãe na fé, diante da sublime missão que a Igreja lhe confia, como educador (a) para formar discípulos missionários de Jesus Cristo.

Mas por outro lado, uma multidão de homens e mulheres incansáveis que tem consciência plena de sua missão e que dão a vida por este trabalho e, com poucos recursos, mas muita boa vontade e capacitação conseguem fazer a diferença. Vencem desafios, constroem seu tempo alternativo, marcam e são presenças. São verdadeiros heróis e heroínas da fé. Resiliência por natureza. 

Tendo como ponto de partida os conceitos acima apresentados, retomemos a ideia do caminho de Emaús. O Mestre vai, passo a passo trazendo à memória dos caminhantes os conhecimentos que os mesmos já tinham a respeito do Messias. E, estes, após a experiência do partir o pão, fazem o passo a passo do processo resiliente do caminho. Então um disse ao outro: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? ” (Lc 24,32). 

Tal qual o Mestre Ressuscitado, semelhante caminho o (a) catequista é chamado a fazer com seus catequizandos, quando lhes explica as escrituras, trazendo a compreensão dessa Palavra para dentro do horizonte da vida em família e comunidade por meio da resiliência. Fazemos catequese para formar discípulos/as de Cristo que se comprometem com a construção de um mundo novo. 

5 VIRTUDES DO CATEQUISTA: 

1. O (a) catequista é uma pessoa que investe tempo na leitura da Palavra de Deus, nos encontros de formação, nas reuniões do grupo de catequese, na participação nos sacramentos e, por consequência, na vida de sua comunidade; 

2. O (a) catequista vai ganhando empoderamento, ou seja, autoridade para anunciar, porque vai fazendo uma experiência. Não vai falar por ouvir dizer ou por ter aprendido nos livros, mas porque vive, está no dia a dia da vida de seu povo e é uma pessoa de fé; 

3. O (a) catequista resiliente fez um longo caminho de fé e, vai se convertendo dia-a-dia; 

4. Tem maestria no manuseio da Palavra de Deus e, acima de tudo é uma pessoa que interage no processo de fé e vida. Quando abre a boca é como um favo de mel que se abre deixando cair gotas que nutrem a sede da alma. 

5. Sabe que não é dono da verdade, mas que traz em si uma centelha do Espírito de Deus e, que pela força deste mesmo Espírito artilha de sua amizade profunda e fecunda com Deus. 

O CATEQUISTA RESILIENTE 

Assim, o (a) catequista, como pessoa resiliente, que fez e faz o caminho com Cristo, pela força do Espírito Santo recebida em seu batismo e confirmado no sacramento da crisma, entende e consegue despertar em seus catequizandos o comprometimento com o evangelho, tendo como base a vida comunitária. 

Neste mundo de tanta violência e desafios à fé cristã, consegue despertar no coração de seus catequizados a centelha da cultura da paz, do amor a Deus e aos irmãos e irmãs que já está aí, semeada pela força do Espírito, como dizia São Justino (século II), “as sementes do Verbo”. 

* Pe. José Valdecy Romão é Mestrando em Teologia Pastoral pela EST, São Leopoldo/RS (linha de pesquisa: aconselhamento pastoral), Especialização em Teologia Pastoral pelo IEC, pela PUC-Minas.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

SEMEAR, PLANTAR: CATEQUIZAR!



Mateus 13,1-9.

Um dia um jovem conquistou uma cidade por sua mansidão, coragem e caráter forte. Ele não veio ao mundo para agradar pessoas. Ele foi enviado e mostrou-se diferente de qualquer ser humano antes visto. Suas atitudes e palavras eram coerentes a todo tempo. Sendo amável e incentivador no olhar, palavras e aconselhamentos. Esse jovem tinha preferência em falar de seus propósitos em meio à natureza que o cercava e, nunca precisou de microfone, transmissões online ou qualquer tipo de mídia. Ele era naturalmente um bom pregador em meio a poucos recursos da técnica da oratória.

E desta forma, estava ele andando tranquilamente à beira de um lago. Horas olhava para a terra, horas para a água. Via a imensidão. Via o céu azul e o sol forte escaldante.  Analisava o solo e os mistérios que a criação daquele lugar disponha. Pensava calado, observava tudo, e quando percebeu uma multidão de pessoas o seguia, e surgiam mais e mais pessoas conforme ele caminhava. Dentre a multidão, estavam também alguns amigos queridos por ele. Estes anunciavam que o jovem pregador logo ia ensinar. Os que ali estavam, tinham sede de agua doce e de ouvir as palavras saírem da boca daquele jovem sábio.

Percebendo que já estava quase cercado, parou e adentrou em uma barca que ali encontrou, e sentou-se. Silenciou-se, olhando para o lago instigando as pessoas presentes a fazerem o mesmo.

"O que será que ele tanto olha para as águas?" Alguns se perguntavam. Outros invejavam sua forma de agir. E havia aqueles que sentiam paz em estar ali e tinham "sede" de ouvi-lo. Viram nele, florir a esperança. O jovem tocava a terra, pegava um punhado e deixava-a escoar entre os dedos. Cavou um pequeno buraco com o dedo, tirou do bolso uma semente e ali enterrou.

Então, depois de um longo tempo em silencio, ele começou a observar o rosto de cada um que ali estava. Sorria discretamente e transmitindo amor com os olhos. Pedia que os pequeninos se aproximassem mais. Acariciava a cabeça ou o ombro de um ou outro. E, em voz alta e forte iniciou a sua história:

Um Semeador que se preze, tem que sair. Não há como plantar estando no conforto de sua casa. Não dá para semear no mesmo lugar, é necessário um passo de cada vez. A plantação inicia dentro de casa, com o planejamento e estudo da semente. Mas, a ação se concretiza no "SAIR". Sair e lançar. Essa é a função do semeador! O semeador deve preocupar-se com a qualidade da semente, sair e lançar. Há diversos terrenos por aí.

Hoje, por exemplo, estamos diante desse lago. Neste momento estou lançando sementes aqui.  Imagino que muitos de vocês estejam pensando que, semear aqui seja tolice, pois determinadas sementes aqui não terão vida. No entanto, é possível ver ao longe, flores e determinados tipos de vegetações florindo nesta imensidão. A sabedoria de Deus fecundou sementes para que aqui tivessem vida, e vida em abundância. Aqui essas sementes têm sua função e fazem parte do ecossistema. Algumas inclusive, no fundo deste lago. Outras ainda no fundo do mar, na imensidão da água salgada, que aos nossos olhos humanos, seria impossível.

O semeador é contratado para semear. Outra pessoa virá para colher o que o semeador plantar. Assim sendo, aconselho o semeador a amar sua tarefa e faze-la bem-feita. Sair e ir lançando sementes de amor, de paz, de perdão, de compaixão, de misericórdia, de amizade, de abraço, de afetos, de sorrisos, FÉ e tantas outras sementes boas, em todos os terrenos que avistar.

Não importa se o terreno é composto de areia, pedra, espinhos ou de terra boa. A semente deve ser jogada aqui e agora. O semeador não se preocupa com a colheita, confiando que seu contratante saberá fazer isso com maestria. Aquele que semeia é apenas um servo, que não pode cansar de lançar as sementes.

Então, hoje eu vos digo: sejam semeadores da semente fecunda! Joguem sementes por meio da palavra, de gestos caridosos, de bondade, de afetos, do amor! Essas sementes foram altamente preparadas, cuidadas, para serem fecundas em qualquer tipo de solo. Só não crescerá, se o dono do solo não permitir. E mesmo que não permita, quando o supremo maior desejar, ele age! Ide pelo mundo, semeie o evangelho a toda criatura.

O jovem encontra no meio da multidão duas mulheres que estavam paralisadas, pensando em tudo o que acabaram de ouvir.  Ele virou-se para elas, olhou-as amavelmente e decifrou seus pensamentos, completando:

Queridas amigas semeiem na sua comunidade com todo o amor que existir dentro de vocês. Tenham coragem para enfrentar as dificuldades e superar seus medos. A semente é a Palavra de Deus. Lancem-nas sem medo para todos os solos envidados a você. Algumas pedras no caminho vão surgir, então recomendo que se abaixem, tirem-nas do caminho e prossigam. Seus ouvidores, nem sempre lhe escutarão. Mas, a semente que vocês plantarão será fecunda e um dia dará frutos para aquele que colhe no tempo certo.

Alguns saíram sem entender a mensagem do jovem pregador, diziam que ele falava por códigos e não era compreensivo. Outros saíram encantados, foram para casa, mas, acharam que não teriam tempo para "semear". Outros ainda, no caminho mesmo, já entraram em discussão e decidirão que a história era uma loucura. No entanto, aquelas duas mulheres que foram instigadas pelo jovem com amor sem igual, foram tocadas profundamente. Foram para casa, tomaram posse da Palavra e saíram a semear como nunca antes tinham semeado...

Queridas e queridos catequistas, vamos semear?

Você dispõe neste momento de muitos recursos tecnológicos, e mesmo que não disponha, Jesus ensinou que é possível, pois o que muda tudo é a quantidade de amor que você deposita na missão. Leia a Palavra, dedique-se a conhecê-la e medita-la e SAIA do lugar! Um passo de cada vez, devagar, jogando pequenas as sementes, que foram preparadas com o mais puro ingrediente: o AMOR. Você planta e Deus colhe!


Catequista: Sandra Fretta Gomes Malagi
Paróquia Sant’Ana- Laranjeiras do Sul-PR