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domingo, 20 de abril de 2025

A PAIXÃO SEGUNDO SÃO LUCAS

                                Ticiano, "Cristo a caminho do Calvário" - Museu do Prado

Esta artigo, publicado na revista Civiltà Cattolica, é uma verdadeira catequese sobre a Paixão de Cristo. Não deixe de ler até o final!

A PAIXÃO SEGUNDO SÃO LUCAS

Cada Evangelho apresenta a Paixão e a Ressurreição de Jesus de uma maneira específica. Estamos falando do mesmo mistério, mas cada um tem seus próprios acentos literários e teológicos. Nas últimas décadas, tornamo-nos mais sensíveis a esta originalidade característica de cada um dos Evangelhos. Isto significa que, em vez de considerar os evangelistas como meros coletores de tradições, simples executores, os vemos como verdadeiros autores, autênticos teólogos. É claro que os evangelistas estão inseridos em uma comunidade e respeitam as tradições sobre Jesus, conforme lhes vêm da tradição, mas, ao mesmo tempo, são capazes de verdadeira criatividade teológica: uma criatividade que acreditamos ter sido inspirada pelo Espírito Santo, porque o Espírito Santo presente nas comunidades cristãs reconheceu que esses quatro Evangelhos nos falam corretamente sobre a morte e ressurreição de Jesus.

Entre os quatro evangelistas temos São Lucas. O que podemos dizer sobre seu relato da Paixão? Quais são os aspectos originais de Luca? O que o Espírito Santo nos diz sobre Jesus e sua Paixão em particular através de Lucas?

O trabalho de Lucas

Antes de tudo, vale destacar duas coisas: a primeira é que Lucas afirma logo no início do seu Evangelho que o compôs a partir do que outros haviam escrito ou transmitido. Ele diz explicitamente que fez escolhas, reorganizou materiais e, portanto, tentou fazer algo diferente de seus antecessores. Se, como a maioria dos estudiosos bíblicos, acreditamos que Lucas teve acesso ao Evangelho segundo Marcos e que ele tirou cerca de 80% dos dados de lá, será interessante ver como ele os modificou.

Em segundo lugar, Lucas é o único que escreveu uma obra dupla, que inclui tanto o Evangelho quanto os Atos dos Apóstolos. Ele queria, portanto, criar ressonâncias e paralelos entre a trajetória de Jesus e a dos apóstolos; ele queria que suas vidas estivessem explicitamente no mesmo nível.

Há muitas correspondências entre o Evangelho e os Atos: muitas vezes os apóstolos reproduzem os gestos e os ensinamentos de Jesus. Por exemplo, Jesus curou um paralítico: Pedro e Paulo fazem o mesmo. Jesus ressuscitou os mortos: Pedro e Paulo também o fizeram. Jesus ensinou as multidões no templo: Pedro e Paulo fazem o mesmo. Jesus foi impelido pelo Espírito a ir em direção a Jerusalém, mesmo sabendo que o aguardavam provações e até a morte: do mesmo modo, o final dos Atos é marcado pelos anúncios da paixão que Paulo terá que sofrer em Jerusalém. Paulo sobe a Jerusalém avisado pelo Espírito Santo que provações o aguardam. E os exemplos poderiam ser multiplicados.

Tudo isso nos leva a nos perguntar, quando lemos a Paixão segundo Lucas, quais elementos remetem aos Atos e por quê. E o que isso nos diz sobre a Paixão de Jesus em relação a nós, porque os apóstolos não podem ser separados de nós: o que lhes diz respeito, nos diz respeito também.

Compaixão por Jerusalém

Após a longa subida em direção a Jerusalém, iniciada em Lucas 9,51, Jesus finalmente avista a cidade. E então ele chora por isso. É um Jesus humano e emotivo que abre os capítulos da Paixão. Lucas não se resigna à rejeição de Israel, e veremos agora vários sinais disso.

Quando Jesus estava ensinando no templo (veja Lucas 19,47), embora as autoridades de Jerusalém estivessem conspirando para matá-lo, Lucas imediatamente nos diz que "todo o povo ouvia tudo o que ele dizia" (19,48). Um pouco mais adiante, nos ensinamentos dados por Jesus em Jerusalém, Lucas introduz uma observação sobre os escribas: “Enquanto todo o povo escutava, disse Jesus aos seus discípulos...” ( Lc 20,45). E ele conclui o capítulo 21, em que Jesus fala do fim dos tempos, com esta frase: “E todo o povo, de madrugada, ia ter com ele no templo para o ouvir” ( Lc 21,38). Da mesma forma, durante o caminho até a cruz, Lucas nos dirá que “uma grande multidão de povo o seguia, e também de mulheres que batiam no peito e o lamentavam” ( Lc 23,27).

Por que esse fato é importante? Porque muitas vezes na história do cristianismo pareceu que a oferta cristã de perdão excluía os judeus, que foram julgados como um todo como culpados da Paixão. Lucas, por outro lado, não cai nessa armadilha. Esses versículos da Paixão têm um paralelo em Atos, onde a oferta do Evangelho continua a ser feita aos judeus nas sinagogas e até mesmo no Templo. E é ainda mais interessante notar que, na época em que Lucas escreve, o templo não existe mais.

Paulo continua a se dirigir aos judeus: uma mão amiga é estendida aos fariseus e aos líderes dos judeus. Os Atos nos apresentam o grande Gamaliel como um personagem inteligente e espiritual. E também em Roma, Paulo continua seu diálogo com os líderes da sinagoga. Embora esse diálogo seja difícil, e embora muitos não aceitem essa palavra, o fato é que Jesus é o Messias de Israel, o Messias do seu povo, aquele que chorou sobre Jerusalém e que continua sendo, segundo as palavras de Simeão, “luz para revelação aos gentios e para glória do teu povo Israel” ( Lc 2,32).

O serviço no centro da Última Ceia

Depois de retomar elementos de Marcos sobre os preparativos para a refeição da Páscoa, Lucas nos apresenta um discurso de despedida de Jesus. É neste contexto que Jesus nos deixa os gestos e as palavras que conhecemos sobre o pão e o vinho. Este discurso de despedida é mais longo e mais estruturado que o de Marcos. Lucas retoma um gênero literário que se tornou muito popular naquela época e que era chamado de "discurso de despedida". Este é o momento em que o profeta ou herói, antes de morrer, entrega suas últimas instruções, distribui as tarefas, ou seja, comunica seus últimos desejos.

Em Lucas, é impressionante que ele tenha escolhido colocar estes versículos no centro da cena: "Mas não façam isso; antes, o maior entre vocês seja como o mais novo, e o que lidera como aquele que serve. Aliás, quem é maior? Quem está à mesa ou quem serve? Não é aquele que está à mesa? Contudo, eu estou entre vocês como aquele que serve" ( Lc 22,26-27). É claro que a questão do serviço é central.

De fato, São João se colocará em uma perspectiva semelhante quando colocar o lava-pés no centro da Última Ceia. A lição subjacente é clara e ainda nos alcança hoje: para aqueles que tendem a se concentrar na dimensão estritamente ritual ou litúrgica do rito da Eucaristia, Lucas e João dizem que o que conta é o serviço, este é o significado daquele gesto. Se vocês se contentam em vir à Eucaristia sem servir os seus irmãos, vocês estão se enganando e não entendem o que esse gesto realmente significa. Como Lucas e João foram escritos no final do primeiro século, entende-se que a tentação do ritual separado da existência não é um problema novo.

O dom no centro do Evangelho

Mas há ainda outro aspecto a ser destacado na maneira como Lucas relata o último gesto de Jesus: ele insiste fortemente na dimensão do “dom”. Enquanto Marcos usa esse termo apenas uma vez, Lucas diz: "[Jesus] tomou o pão, deu graças, partiu-o e deu -lho, dizendo: 'Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim'" ( Lc 22,19). Não achamos que isso seja uma redundância desnecessária. E gostaríamos de confirmar esta nossa crença referindo-nos a uma pequena passagem dos Atos.

Este é o discurso de despedida de Paulo aos cristãos de Éfeso, a cidade onde ele viveu e onde fundou uma comunidade: os anciãos de Éfeso são para Paulo um pouco como os Doze são para Jesus. O discurso de Paulo é muito tocante e cheio de pathos , e termina de uma forma estranha; Ele diz: “Em tudo vos mostrei que, mediante esta obra, devemos ajudar os fracos, recordando as palavras do Senhor Jesus, que disse: 'Há maior felicidade em dar do que em receber!'” ( Atos 20,35). Nós, cristãos, leitores da obra de Lucas, ficamos surpresos: por que essas palavras de Jesus não estão no Evangelho? Nem no Lucas? Como é que tanta felicidade só pode ser encontrada aqui?

Acreditamos que aqui Lucas está falando diretamente conosco e nos dizendo: "Quer entender o significado de toda a vida de Jesus e, em particular, o significado de sua Paixão? Pois bem, é no dom que você o encontrará." Toda a vida de Jesus está sob o signo da doação. Um presente que talvez vá além da nossa capacidade de compreensão, mas ainda assim é um presente. Jesus não esperou que os discípulos entendessem tudo, mas se entregou sem reservas a eles, a nós e a todos: “por nós e pela multidão”.

Do ponto de vista teológico, não importa se Jesus pronunciou ou não esta bem-aventurança, porque a única coisa certa é que o Espírito Santo quis que estas palavras estivessem na boca de Paulo que faz Jesus falar. É natural que o estudioso do Jesus histórico queira investigar para saber se é provável, ou não, que Jesus as tenha pronunciado durante sua vida pública, mas isso é secundário. Do ponto de vista teológico, porém, é interessante notar que Lucas exerceu sua criatividade teológica ao forjar essa expressão, mesmo que não a tenha herdado da tradição. Neste caso, fica claro que sua comunidade e os primeiros cristãos acreditavam que quem expressava essa bem-aventurança era justamente Jesus ressuscitado. A vida cristã está – assim como a Paixão – sob o signo do dom.

Simão Pedro no centro da oração de Jesus

Depois de ter insistido no dom e depois de ter insistido no serviço, colocando o foco no serviço no centro do discurso (que em Marcos foi colocado em primeiro lugar: ver Mc 10,42-45), Lucas tem uma passagem surpreendente sobre Simão Pedro. Todos sabemos que Jesus previu a negação de Pedro e que também anunciou que esta não seria a última palavra. Mas Lucas abre este tema tão conhecido com um começo surpreendente: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” ( Lc 22,31-32). Jesus continua chamando Simão pelo seu nome de nascimento, e não pelo novo nome que lhe deu. Este é um fato que também se encontra nos outros Evangelhos. Por que?

É difícil responder a um fato tão estranho: a hipótese menos improvável nos parece ser a de que o nome Cefas (Pedra), que corresponde à sua missão — a de ser uma rocha —, por definição é válido apenas em referência aos discípulos. Como poderia Pedro ser uma rocha para Jesus, que é a pedra angular, a rocha por excelência? Mas há mais. No momento da confissão em Cesareia, quando Simão Pedro testemunhou pela primeira vez a identidade messiânica de Jesus, Mateus colocou o tema da primazia de Pedro naquele local, na Galileia, ou seja, o fato de Jesus ter confiado a Pedro uma missão única e específica em relação aos outros apóstolos. Uma missão que continua hoje na missão do Papa, sucessor de Pedro.

Lucas, contudo, não diz nada sobre essa missão na confissão relatada em 9,20. Ele escolheu basear a primazia de Pedro na oração de Jesus por ele durante a Paixão. É uma escolha teologicamente muito forte. Satanás tentará todos os apóstolos, mas Jesus diz que orará somente por Pedro! É uma escolha imprudente. Por que? Porque Pedro é a pedra angular. O fato de ele resistir fará com que outros também resistam. E assim, nesta oração especial de Jesus por Simão, Lucas estabelece a futura missão de Pedro: a de confirmar seus irmãos.

“Confirmar” é o grande verbo dos apóstolos nos Atos. Um verbo que já nos orienta para os Atos e para a futura missão de Simão Pedro. A primazia de Pedro não se funda principalmente numa palavra gloriosa proferida num momento de entusiasmo na Galileia, mas na oração de Cristo nos seus últimos dias, quando enfrenta a tentação pensando nos seus discípulos e, em primeiro lugar, em Pedro.

As Quatro Testemunhas

Durante a sua Paixão, Jesus entra gradualmente na solidão: a solidão do justo perseguido, do profeta desprezado, do Filho do Homem humilhado. Mas Lucas não queria que essa solidão fosse total. Surgem figuras que parecem próximas de Jesus e garantem que nossa humanidade esteja presente na humanidade de Jesus enquanto ele caminha em direção à morte.

Em primeiro lugar, Simão de Cirene ( Lc 23,26). É ele quem ajuda Jesus a carregar a sua cruz, cumprindo assim as palavras do Senhor: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me” ( Lc 9,23). Claro que Simão não queria segui-lo, mas ele o fez. Ele não se esquivou disso. Ele fez isso no dia em que deveria ser feito, e a experiência mudou sua vida. De fato, ele é um homem cujo nome nos é dado, enquanto Marcos relatará os nomes de seus filhos (ver Mc 15,21), para melhor nos indicar que ele certamente se tornou um cristão.

No final da narrativa da Paixão, temos a bela figura de José de Arimateia, “homem bom e justo” ( Lc 23,50), que é membro do Sinédrio. E isso também nos faz entender que nem todos os membros do Sinédrio eram a favor da morte de Jesus. José também, sem dúvida, se tornou um cristão.

Entre estas duas figuras identificadas, há outras duas que são anônimas: um judeu e um pagão, o bom ladrão ( Lc 23,39-48) e o centurião ( Lc 23,47). Podemos dizer que esta última figura é retomada por Marcos, mas Lucas é o único que nos fala do bom ladrão. Esse diálogo é importante para ele. O teólogo assuncionista Bruno Chenu descreve bem isso, e queremos citá-lo: “O último dos bandidos torna-se o primeiro dos salvos. É das profundezas da miséria humana que brota a fé pura em Jesus, o Salvador. Reconhecimento da culpa, proclamação da inocência do homem de Nazaré, invocação do poder misericordioso de Jesus que pode transcender a morte: estas três palavras são outras tantas invocações que ressoam no coração do homem. Nem sempre é fácil reconhecer e confessar a própria cumplicidade com o mal. E se muitos denunciam com o ladrão a injustiça do julgamento de Jesus, quantos ousam descobrir no Crucifixo os traços de Deus na história? Reunindo toda a pesquisa religiosa da história, a oração do ladrão deve ser inscrita na memória de Deus. A resposta de Jesus responde à pergunta além de todas as expectativas. A salvação não é para amanhã, mas para hoje, e é alcançada no “estar com” Jesus. A fé confiante do ladrão permite que ele acesse imediatamente o paraíso. Segundo as palavras dos Padres da Igreja, ele não se contentou em roubar a terra, mas também roubou o céu. Canonização expressa. Mas o malfeitor mostra a cada um o benefício do verdadeiro arrependimento e da fé esperançosa. A porta da Vida está aberta para sempre" [1] .

As mulheres no túmulo

Mas, há algumas testemunhas que esquecemos: as mulheres. E o testemunho delas é fundamental, porque os encontraremos novamente na manhã de Páscoa. Claro que Lucas não é o único a falar de mulheres, porque Marcos já as havia mencionado ("Estavam ali também algumas mulheres, observando de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé. Quando ele estava na Galileia, estas o seguiram e o serviram...", Mc 15:40-41). Lucas nos diz sobriamente: “Todos os seus conhecidos, inclusive as mulheres que o tinham seguido desde a Galileia, estavam de longe, observando essas coisas” ( Lc 23,49).

Todos sabemos que Lucas é o evangelista que mais lida com mulheres. Ele frequentemente segue um episódio envolvendo uma mulher com outro envolvendo um homem: por exemplo, o episódio da mulher procurando a moeda perdida segue imediatamente o do homem procurando a ovelha perdida. Mas por que neste caso Lucas não relata seus nomes? É para guardá-los para mais tarde? Para a manhã de Páscoa? Quando Lucas escreve: “Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. “E as outras mulheres que estavam com elas contaram também estas coisas aos apóstolos” ( Lc 24,10). Mas, acima de tudo, há o fato de que Lucas é o único que já nos falou sobre elas desde a Galileia. Pois ele dissera: "Estavam com ele os Doze e algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras que os serviam com os seus bens" ( Lc 8,1-3).

As mulheres estão no início e no fim da vida pública de Jesus. Elas se tornam discípulas e, por esse mesmo fato, testemunhas oculares. Assim, Lucas é o único evangelista que apresenta mulheres como testemunhas oculares credíveis de toda a vida de Jesus, da Galileia a Jerusalém. Ele enfatiza o número delas e destaca o fato de que elas seguiram Jesus.

Os olhos da fé

Para Lucas, assim como para Jesus, nada é mais importante que a fé. O evangelista quis destacar, por um lado, a fé de Jesus até o fim e, por outro, a fé das testemunhas. A fé de Jesus se manifesta justamente quando ele está dominado por sentimentos de angústia e abandono. Ele obedece a uma necessidade interna marcada pelo famoso "deve". Mas essa necessidade, essa força imperiosa da vontade do Pai, não nos é apresentada como algo que atinge um homem que abandonou toda vontade e toda liberdade. Pelo contrário, Lucas descreve um Jesus que vive esses eventos de forma muito íntima e que está continuamente envolvido no que está em jogo. Em contraste com as três fórmulas em Marcos que afirmam "o Filho do Homem deve..." (cf. Mc 8,31; 9,31; 10,33), Lucas faz Jesus dizer: "É necessário que se cumpra em mim esta palavra da Escritura " ( Lc 22,37). Percebemos o "eu" de Jesus. É também um Jesus cuja condição pessoal não o impede de se interessar pelos outros e de se compadecer de suas vidas. É assim que ele fala com as mulheres de Jerusalém e concorda em falar com o bom ladrão.

Finalmente — e esta é uma escolha de longo alcance — Lucas coloca estas últimas palavras na boca de Jesus: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" ( Lc 23,46). Esta expressão retoma uma frase que vem de um salmo ( Sl 31,6), acrescentando-lhe a palavra mais importante de toda a vida de Jesus, aquele “Abba-Pai” que resume toda a sua relação com o Pai. Esta palavra expressa o amor do Filho pelo Pai. Jesus foi testado, mas perseverou.

No que se refere às testemunhas, Jean-Noël Aletti [2] põe em evidência um paradoxo que se encontra no cerne da narração lucana da crucifixão: é no momento em que as trevas descem sobre a terra, “porque o sol foi eclipsado” ( Lc 23, 45), que aparece o verbo “ver”. É neste momento que a testemunha privilegiada que é o centurião proclama a justiça e a inocência de Cristo: “Quando o centurião viu o que tinha acontecido, deu glória a Deus, dizendo: ‘Verdadeiramente este homem era justo’” (Lc 23,47). É diante de um condenado na cruz que o centurião "vê" um homem justo. E Lucas continua: “Da mesma forma, toda a multidão que tinha saído para ver este espetáculo, quando viu o que tinha acontecido, saiu batendo no peito. Todos os seus conhecidos, inclusive as mulheres que o tinham seguido desde a Galileia, estavam de longe, observando essas coisas" ( Lc 23,48-49).

Assim, um centurião romano e um pagão, a multidão de pessoas e os próprios amigos de Jesus veem. Apesar da noite, os olhos podem ver. Mas ao mesmo tempo Jesus morreu… Esses olhos que veem além do visível prenunciam os olhos dos discípulos de Emaús e das testemunhas da Páscoa, que verão em plena luz do dia o que deveria ser invisível.

Jesus de Lucas

Ainda haveria muito a dizer sobre outros elementos desta narrativa da Paixão em Lucas. Mas queremos terminar retornando à pessoa de Jesus. Que imagem de Jesus Lucas nos oferece? Ou seja, que imagem de Jesus o Espírito Santo, o Espírito de Jesus ressuscitado, quis nos transmitir através deste Evangelho?

Parece-nos que a principal contribuição de Lucas é fazer-nos tocar com as mãos – por assim dizer – a humanidade de Cristo, o fato de que a sua carne é semelhante à nossa, de que o seu coração é semelhante ao nosso. Como? Jesus é um homem de desejo. Ele diz: “Desejei ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes que eu sofra” ( Lc 22,15). E há também aquela passagem tão forte e enigmática em que Jesus luta como se fosse um lutador na arena: “Então lhe apareceu um anjo do céu, que o fortalecia. E, tendo-se tornado cada vez mais difícil, orava mais intensamente, e o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue, caindo até ao chão" ( Lc 22,43-44). No momento em que Jesus mais se assemelha a nós, coberto de grandes gotas de suor, o Senhor o consola. Mas chama a atenção a ordem dos versículos, que todos gostariam de inverter: que Jesus primeiro experimenta a sua angústia para depois ser consolado. E, em vez disso, temos o oposto: ele é consolado, mas isso não o impede de cair em agonia. Não há incompatibilidade entre a graça de Deus e a angústia, entre o apoio de Deus e o sentimento de fraqueza.

Esta passagem é de grande conforto para todos os discípulos em sua provação: Cristo não está longe deles em sua luta, e nem está longe o Pai, que envia seu anjo. Em certo sentido, Jesus está sozinho, e em seu julgamento não há ninguém para defendê-lo. Por outro lado, ele não está sozinho, pois alguns "amigos" e "mulheres" continuam próximos dele. Como em São João: quando Jesus é preso, um discípulo anônimo corta a orelha de um servo do sumo sacerdote (cf. Jo 18, 10); mas, ao contrário de João, aqui Lucas nos diz: “Mas Jesus interveio, dizendo: Deixa disso! Já chega!”. E, tocando-lhe a orelha, o curou" (Lc 22,51). Jesus continua sendo essa pessoa apaixonada por curar e cuidar do homem. Mesmo quando todos os esforços deveriam ser direcionados a si mesmo.

Acima de tudo, entre as três palavras na cruz, Lucas faz Jesus dizer: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” ( Lc 23,34). Notemos também esta humildade de Cristo: de fato, não é Ele quem perdoa, Ele não diz “eu”. Jesus permanece voltado para o Pai: intercede sem tomar o lugar do Pai; ele não fez isso e nunca fará. Assim, as três palavras pronunciadas na cruz são todas dirigidas a Deus, seu Pai: duas o nomeiam expressamente, a terceira fala do paraíso, que nada mais é do que o seio do Pai.

Assim, o relato da Paixão escrito por Lucas é extremamente fiel aos dados da tradição, especialmente aqueles herdados do Evangelho segundo Marcos. Mas, ao mesmo tempo, Lucas usa todos os recursos à sua disposição para refinar seu retrato de Jesus, um retrato consistente com o que foi manifestado no momento original na sinagoga de Nazaré. Jesus continua sendo aquele homem de quem Pedro falará em breve para resumir mais uma vez toda a sua vida em uma fórmula: "Jesus de Nazaré, que andou por toda parte fazendo o bem [...], porque Deus estava com ele" ( Atos 10,38).

Cada Evangelho é um tesouro, e cada um nos apresenta uma maneira de olhar para Jesus que enriquece nossa fé. A Paixão segundo Lucas revela um Jesus extremamente humano, compassivo e bom, um Jesus que não está distante e inacessível para nós, mas que está próximo de nós. Um Jesus que é ao mesmo tempo mestre e modelo, irmão e intercessor.

Marc Rastom*

*Correspondente da França para La Civiltà Cattolica . Professor de Exegese Bíblica nas Facultés Loyola de Paris e no Pontifício Instituto Bíblico.

[1] . B. Chenu, « Le malfaiteur exemplaire », em La Croix , 6 de abril de 1996.

[2] . Cfr. J.-N. Aletti, A arte de contar a história de Jesus Cristo , Brescia, Queriniana, 1991.

Copyright © La Civiltà Cattolica 2016.



terça-feira, 5 de novembro de 2024

O TEMPO DE DEUS

Por esses dias andei me questionando se, realmente, o céu poderia existir. E briguei um pouquinho com Deus por ter levado alguém que amo, sem que eu tivesse manifestado o suficiente esse amor. E questionei a justiça de uma morte ainda tão prematura, quando havia tanto ainda a se viver. E fiquei também me perguntando por que, tantos de nós, estão perdendo as pessoas que amam.

É preciso ser realista: nosso tempo na terra é finito! E estamos - mesmo que a gente não goste de admitir - um pouco mais "velhos". Já não somos crianças e é normal que as pessoas que convivem conosco também envelheçam, vão terminando seu ciclo de vida e acabam partindo.. Duro aceitar isso. Duro aceitar que o "Kronos" é inevitável.

Mas pensando em quem perdi, percebi que a mim foi dado o tempo que podia me ser dado. E antes de ficar chorando por ter sido pouco, eu deveria agradecer por TER TIDO ESSE TEMPO. E saber que esse é o kairós, o tempo de Deus, muito mais verdadeiro e marcante que o Kronos do relógio.

Existe uma frase que diz que nada é por acaso, que não existem coincidências. Mas também acredito que nem tudo está escrito. Temos sempre uma escolha. E podemos escolher como viver o nosso tempo.

E talvez o céu também seja uma dessas escolhas. Podemos escolher viver o céu ou o inferno por aqui mesmo.

E que saibamos reconhecer este céu! Às vezes, estamos tão ocupados com nossas dores, que nem nos apercebemos do tempo precioso que nos é dado aqui, daquele tempo inestimável de dividir sorrisos, lágrimas, presença, amor... enquanto ainda é possível.

Penso que temos tido, aqui entre nós, muitas perdas. Perdemos nossas mães, nossos pais, nossos irmãos. E a cada perda que um dos meus amigos relata, é como se eu tivesse perdido alguém também. Tenho aprendido nesses dias o enorme valor de um simples abraço, do silêncio de quem não sabe o que dizer ou como consolar.

Gostaria que todos que perderam alguém, pensassem no CÉU que viveram junto a essa pessoa, nos momentos de alegria e até mesmo de tristeza partilhada. Mesmo que sejamos todos cheios de religiosidade, que acreditemos plenamente na vida eterna e num futuro reencontro, sempre fica na gente aquela "ausência", aquele sentimento dolorido de quem não vai mais ter o abraço físico da pessoa amada.

E não é nada fácil. É difícil aceitar que eles estão "num lugar melhor", quando a gente acha que o lugar melhor é junto com a gente. É egoísmo nosso, eu sei. Mas a gente precisa viver um pouco desse egoísmo. É o reflexo do grande amor que sentimos pelas pessoas que fazem parte da nossa existência.

Então é preciso buscar a serenidade, a aceitação. Talvez não seja possível ainda sufocar a dor e as lágrimas. Precisamos de tempo. Precisamos do tempo que só Deus pode nos dar. Tempo que preciso deixar passar.

Ângela Rocha
Catequista
31/03/2011

* Não, não perdi ninguém por esses dias. Só lembrei de não esquecer os que se foram.


domingo, 5 de novembro de 2023

ABRIR MÃO... VOLTAR ATRÁS

Texto tão lindo, feito um buquê de flores...

Custa muito abrir mão… voltar atrás… Custa muito! MUITO mesmo! Lágrimas. Noites de insónia. Enjoos. Psiquiatra. Tribunal… ou, decidir percorrer um Caminho de MUDANÇA!!!

É que são tantas as coisas a que “tenho direito e tantos os “trastes” que não cansamos de chamar MEU! MEU! MEU!

E as pessoas? De quantas pessoas eu já me senti dona, com direito a guardá-las na minha mão fechada sem perceber que, quanto mais as agarro. mais elas vão escorregar da minha mão? Acaba sempre vindo um belo dia em que vão perceber que eu estou lhes roubando a possibilidade de SER e, lá vão elasas “mal-agradecidas”! E “eu que lhes dei tanto”, e “eu que tanto as ajudei” (S[o falta falar como quem compra! Quantas? Nem os dedos das mãos dão conta. E a você? Amigos… Irmãos… Filhos … Amados?

Mas, algumas vezes já, também me senti apanhada, presa em nome do "amor", da "amizade", da "comunhão", da "paz" (nós temos o vício de abusar das palavras!). Quando dei por mim, quando descobri que estava a ser sugada, zarpei para outras águas.

Penso que uma das grandes (A)venturas da nossa Vida é nos educarmos para deixar que as pessoas pousem nas nossas mãos bem abertas. E todos os dias olhar para elas para ver se a tentação de fechá-las foi mais forte que a consciência dela.

AMAR BEM é amar com leveza. AMAR BEM é deixar que o outro possa pousar e repousar,  já que é esse o jeito do Espírito do Amor, do Espírito Santo do nosso Deus.

Só esse jeito de Amar nos pode vestir e assentar como uma luva, para que aqueles que amamos se FAÇAM BEM, se FAÇAM segundo a Liberdade! Que é uma fonte inesgotável de delicadeza, de criatividade, um horizonte imenso de possibilidades e descobertas, um Mistério no qual se nos vai desvelando o Amor Todo-poderoso do nosso Deus, que tudo faz para que cada um de nós SEJA o que É, aquilo que está chamado a SER: Inteiro! SALVO!

É em Liberdade que vamos nos fazendo, uns aos outros, artesãos de Comunhão. Construtores do Novo. Naturalmente. De tal modo que o Silêncio, as Palavras e os Gestos acabam por falar sempre de Humanidade, aconteçam eles no meio das nossas fragilidades, das mais dolorosas experiências de impotência ou das maiores alegrias. Também na doença. Também na Morte.

Porque, sempre que tocamos o mais fundo e o mais definitivo da Vida é TEMPO de SER. Porque é lá, onde a Vida grita, geme ou ri, lá onde estamos nus, que percebemos o quê e quem guardámos na nossa mão fechada. E, também é lá que percebemos que guardar coisas empobrece-nos e, guardar pessoas deixa-nos sozinhos.

Sinto que hoje pode ser um primeiro dia, dia de empurrar para bem longe de nós todos os amores que prendem, porque fazem de nós anões porque se tornam empecilho ao Crescimento. Amor que prende, pede ou espera retribuição, cria culpas sem sentido e está condenado a azedar. Não tem futuro. A Gratidão chega quando não se espera nem se procura. Vem SEMPRE por acréscimo, a regurgitar de Graça.

Sinto que ainda vou aprender a AMAR largando, voltando atrás… a tempo de poder ser participante na FELICIDADE de um Deus que Cria mas diferencia para unir, na pluralidade e na riqueza dos Dons que o Seu Espírito suscita em nós.

O Amor que diferencia, aprende a dar um passo atrás para VER MELHOR o outro e poder dizer, encantado: Tão ELE! Tão ELA! Tão BOM! Tão BELO!


Glória Marques - CER - Braga, Portugal



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quarta-feira, 28 de junho de 2023

deus com letra minúscula

“Quando me sinto fraco, então é que me faço forte...”

Às vezes não basta a gente “se fazer" de forte. Porque quando nos "fazemos" forte, essa fortaleza é construída de areia. E, a areia desmorona na primeira onda. É preciso SER forte, desde as entranhas até o último fio de cabelo. A gente engana a todo mundo menos a Deus e a nós mesmos. E nem sempre essa fortaleza vem da nossa fé exterior...

Mas, desde quando a fé é "exterior"? Fé vem de dentro da alma, ela se faz do Espírito Santo de Deus que cada um de nós traz dentro de si desde que nasce. O ser humano antropológico necessita do transcendente. Precisa de fé, exterior ou interior.

Pode parecer uma heresia, mas não recebemos o Espírito Santo só no batismo. O sacramento do batismo como rito simbólico e mistagogia tem o seu propósito, mas Deus daria Seu Espírito só a quem comparece a uma Igreja? A pia batismal e a água benta têm que fazer parte disso realmente? E aqueles a quem é negado esse gesto? Não serão eles filhos de Deus também e objeto do Espírito?  Todo ser humano possui em si o Espírito Santo, tendo sido marcados pela cruz de Cristo ou não. Mas alguns não o percebem ou conhecem.

Então essa é, em minha opinião, a fé "exterior". Que precisa de símbolos, de presença física, de instituição, religião e outras tantas coisas "tocáveis". E muitas vezes nos deixamos levar só pelo Deus de nossa fé exterior. Um  deus que precisa a todo o momento ser provado, medido e aceito. Que precisa ser “visto”. É o deus com letra minúscula. E o deus de muita gente é assim: minúsculo e ausente no interior. É o deus de quem esfola os joelhos a rezar mas não levanta uma palha em prol do crescimento próprio e do outro. É o deus de quem não acredita no Filho Amado de Deus, que pode ser sempre visto, olhando-se no espelho.

E existem aqueles que se comprazem em se dizerem “sem fé”. Ah, mas não se enganem, mesmo a quem o nega e renega, Ele se faz presente. A única diferença é que pra estes, o Deus de letra maiúscula é um Deus de encontro sofrido e demorado.

E o encontro só acontece quando exercemos a FÉ INTERIOR! A fé em nós mesmos, que nos faz fortes Naquele que nos fortalece... E em nós mesmo, que somos a maior fortaleza já criada por Ele!


Ângela Rocha
Catequista, graduada em Teologia pela PUCPR.



sábado, 13 de maio de 2023

OS CINCO MANDAMENTOS DE JESUS

Lembrando o mandamento maior de Jesus de "amarmos a Deus e amarmos uns aos outros, como Ele nos ama", não podemos deixar de lembrar dos "outros" mandamentos de Jesus, que Pe. Rui nos faz refletir neste pequeno texto.

A leitura era pequena, daquela vez. Mas cresceu imensa, como se fosse a primeira vez que a escutasse, pôs-se a "crescer para mim", e eu rendi-me. De repente, vi-me diante de cinco mandamentos obrigatórios, como uma lista irrenunciável descida do céu, uma tábua da aliança escrita pelo dedo de Deus no cimo do monte. Não me largou a força disso, como uma novidade que não nos sai do corpo, um óleo que unge, o nardo que impregna. Ou como receber um órgão novo, não sei, um transplante vital. Vamos ao texto. Era só este: 

"Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante será lançada no vosso regaço. A medida que usardes com os outros será usada convosco."

É do Evangelho de Lucas, capítulo 6, versos 36 a 38. É o resumo que o próprio Jesus faz do "Sermão da Planície", o correspondente em Lucas do "Sermão da Montanha" contado por Mateus. Ao terminar todas as palavras sobre a maneira de entrar no Reinado de Deus em marcha, Jesus faz um resumo com força de lei. 

E, de repente, como é costume, as palavras começaram todas a mexer como bichos que despertam, e olharam-me nos olhos de maneira nova. E vi um mandamento que é eixo à volta do qual tudo gira, mais dois mandamentos em "não", mais dois mandamentos em "sim". Já não aquele Decálogo antigo, claro, que em Cristo foi superado, mas um "Pentálogo", as Cinco Palavras da Lei Nova, os Mandamentos da Nova Aliança.

 1.   Sede misericordiosos como o vosso Pai é Misericordioso

 2.   Não condeneis

3.   Não julgueis

 4. Perdoai

 5. Dai

Está aqui tudo. Estaria tudo no primeiro mandamento, tivéssemos nós outro juízo! "Sede como o vosso Pai..." Estaria tudo dito nesse primeiro, que seria Único - e é mesmo, explicará depois o evangelista João - se não nos dessem tantas falhas de entendimento. Mas, os outros quatro, dois pares em linguagem que a gente não pode dizer que não entende, estão aí como legenda e tradução. Tudo presidido por um "sede como o vosso Pai". Ou seja: isto ainda diz mais do que Deus é do que daquilo que nós devemos ser.

Espero que em alguém desse lado, estes Cinco Mandamentos, os Mandamentos da Nova Aliança para ajesusarmos a vida toda, tenham tanto impacto e provoquem tão feliz inquietação como anda a acontecer comigo há três dias.

PARTILHO: porque A Palavra é um Ser Vivo e in-quieto...

 Pe. Rui Santiago, cssr

terça-feira, 5 de julho de 2022

SE EU PUDESSE...

Se eu pudesse, eu acabaria com os encontros semanais de catequese com crianças e jovens. Faria uns quatro grandes encontros durante o ano e os chamaria de "Kerigma".

O primeiro deles, um final de semana com os catequistas. Um encontro profundo, forte, cheio de espiritualidade, momentos de oração, de diálogo, troca de experiências, brincadeiras, compartilhamento de ideias. Um momento daqueles para não deixar dúvida para nenhum catequista sobre a importância da missão. Obrigatório. Sem desculpas para não ir. Quem não participasse, não poderia ser catequista. Aliás, faria uns três encontros desses durante o ano para os catequistas. Eles teriam a possibilidade de se aproximar um pouco mais uns dos outros, e por consequência, fortalecer a missão que lhes foi confiada e aprofundar a fé em Jesus Cristo. Muitos catequistas, por incrível que pareça, estão precisando urgentemente de um “primeiro anúncio”.

Um segundo encontro seria com os pais, durante um domingo ou um sábado, um dia inteiro. Um verdadeiro "Kerigma", recheado de testemunhos, de palestras rápidas, de espaço para conversa, de celebração, um momento para tocar os corações deles e de animá-los e não culpá-los de nada. De colocar a comunidade à disposição deles e de fazê-los refletir sobre o mundo que vivemos, o que acontece no mundo em que os filhos deles estão e como podemos, juntos, mudar esta realidade. Os pais estão necessitados de um primeiro anúncio, embora já tenham sido batizados e evangelizados. Mas eles precisam, e isso é urgente.

E depois, outros dois encontros "Querigmático" com os jovens e as crianças, da mesma forma, com o mesmo objetivo, fora do ambiente da comunidade, um encontro de primeiro anúncio, de conversão, de testemunho, de música e diversão, com o apoio de toda a comunidade e com um desfecho na principal missa da comunidade, com os pais esperando os seus filhos e a comunidade os acolhendo.

Eu faria assim se tivesse poder. Talvez, dessa forma, não gastássemos tanta energia para acender uma lâmpada e ficássemos mais atentos e centrados no que realmente importa, ou seja, tanto nós, catequistas, quanto os pais, crianças e jovens, estamos precisando de momentos profundos, de encontros que façam a diferença, de oração e partilha, de instantes que toquem o coração, que nos façam mudar, transformar, agir como verdadeiros cristãos.

Do jeito que as coisas andam e da maneira que os encontros semanais acontecem em muitas comunidades, não transformamos, não tocamos os corações, não produzimos mudanças profundas. Cumprimos tabela.

E vocês não imaginam como é difícil para mim, um cara inquieto, cumprir tabela quando o assunto é catequese. De fato, eu não nasci para a mesmice, eu vim, para incomodar. Bem como pede Jesus.


Alberto Meneguzzi - Catequista
#catequistagraçasadeus
#acreditacaxias

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

FELIZ DIA DO SIM ( DIA DO CATEQUISTA)

Alberto Meneguzzi
Caxias do Sul - RS

Nos últimos tempos, os sinais enviados pelo Espírito Santo tem sido: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo. Não tenhamos medo”. Os catequistas tem sido chamados para uma missão, um discipulado, e não para uma tarefa corriqueira. Estamos num fogo cruzado, onde as mudanças de ordem social e tecnológica, tem sido assustadoras e incrivelmente rápidas. Escolas, empresas, instituições, estão tendo que se adequar a um novo mundo e a novas possibilidades.

A Igreja também precisa mudar, não os seus preceitos básicos, mas a forma de fazer com que as coisas aconteçam. Um catequista precisa estar atento a estas mudanças, que também interferem na vida da nossa família, na caminhada profissional, afetiva, cristã e de participação na comunidade.

E você já deve ter ouvido seguidamente, alguém dizer "No meu tempo, a catequese era assim". Mas não dá mais para comparar o que acontece agora, com o que acontecia há 30, 40, 50 anos. O contexto mudou, a história mudou. A catequese, aquela por obrigação, deu lugar a uma catequese por adesão. Neste contexto, nós catequistas precisamos adequar o nosso SIM. Se é um chamado que recebemos, como nós gostamos de dizer, então é missão, é discipulado, trabalho dos mais importantes dentro da Igreja. Não é tarefa, nem voluntariado. É um CHAMADO DIVINO, um "SIM, EU ACEITO”.

A Igreja tem se esforçado e insistido para que avancemos em águas mais profundas. Não é mais apenas uma "turminha" de crianças que está na mão do catequista, mas sim, almas sedentas por um discurso diferente, sedentas de Deus. A catequese não pode ser apenas doutrina ou magia, e não deve acontecer apenas por tradição ou por medo.

Agora, a catequese por adesão exige muito mais dos catequistas, das suas habilidades de comunicação, engajamento comunitário, formação pessoal e humana e principalmente, da sua fé. É o que eu chamo de reevangelização: precisamos fortalecer laços entre nós catequistas, nos apoiarmos nas dificuldades, sermos amigos e partilhar vida, conhecimentos, experiências, testemunhos, bem como faziam os primeiros discípulos.. Não é hora de achar “desculpinhas furadas” para não fazer o que precisa ser feito.

O projeto de Deus precisa muito mais de nós, da nossa ousadia, criatividade, humanidade e ação concreta. Nossos problemas pessoais, as dores emocionais, os dramas de cada um, tudo isso vai continuar acontecendo um dia ou outro. Mas, haverá dias em que, mesmo despedaçados, depressivos, tristes, cheios de problemas que precisaremos resolver, mesmo assim, haveremos de estar animando nossos jovens e crianças nos encontros semanais, na liturgia, nos retiros... Porque a força que nos move é o Espírito Santo.

Pode até ser que o nosso coração humano, em algum momento, pense "Ah, estou aqui há tantos anos, e ninguém me valoriza". Sim, o nosso lado humano, às vezes, quer uma valorização, um abraço, um muito obrigado. Sei que em muitos lugares, isso não acontece. Mas tenho absoluta certeza, que lá no céu, Deus se regozija com o nosso trabalho, nos carrega no colo nos momentos de dor, nos fortalece quando queremos desistir, pois ele sabe, que cada um de nós, do nosso jeito, é fundamental para que o projeto Dele continue vivo.

E não há outro jeito de seguir nesta missão: precisamos rezar para estarmos fortes. Então reze, e nada temas. Não tenhas receio dos infortúnios, não temas os fracassos. A oração te protegerá. Reza, de uma forma ou outra, mas reza sempre e não te desvies dela por nada do Mundo. Sê alegre e tranquilo. Aa oração tudo conseguirá e te instruirá. Orai sem cessar.

“Feliz dia do SIM, EU ESCUTEI E ACEITO O CHAMADO DE DEUS”. Feliz dia do catequista!

Alberto Meneguzzi
Caxias do Sul - RS



domingo, 14 de março de 2021

O CATEQUISTA CONSTRÓI ITINERÁRIOS DE VIDA E FÉ


Imagem: Secretariado BH

Ser catequista é uma experiência tão antiga quanto a igreja. É alguém chamado a conhecer Jesus Cristo, amá-lo e levar sua mensagem a todos por meio do testemunho de vida.

A alegria de ser catequista brota quando a pessoa se sente verdadeiramente inserida na vida da igreja, sempre em busca de conhecimento e experiências que possam contribuir para o amadurecimento da fé de todos os irmãos. O catequista desenvolve um bonito trabalho, apaixonante, mas exigente porque precisa testemunhar aquilo que fala. Na sua missão de atrair pessoas para o seguimento de Jesus e fazer experiência do amor de Deus, ele se torna uma pessoa encarregada para ser sinal-instrumento eficaz, para transmitir, com a própria vida e pela Palavra, a Boa Nova do Reino de Deus que se revelou plenamente em Jesus Cristo.

O catequista é chamado a ser testemunha do mistério

É importante observar que o Novo Testamento nos transmite mais ações de testemunho do que atividade missionária, sobretudo o Evangelho segundo São João. O testemunho consiste principalmente no anúncio querigmático, na proclamação direta e pública do desígnio de Deus de salvar tudo em Jesus. Segundo o livro dos Atos dos Apóstolos, além da pregação, há outra forma de evangelização, a saber, o testemunho de vida. Tanto a pregação quanto o anúncio são mediações para a caminhada de conversão.

Podemos experimentar essas mediações partindo dos relatos que provém da origem da prática batismal dos primeiros cristãos que procede do batismo de João. Ele proclamou e praticou um batismo em sinal de conversão, para o perdão dos pecados (Mt 1,4; Lc 3,3). Batizar-se, segundo o rito de João Batista, equivale a “ser submerso” ou morrer; o batismo ou a imersão já era usado no judaísmo como símbolo de uma mudança decisiva na vida, tanto religiosa como civil. Jesus, ao ser batizado por João, com uma particularidade: não confessou seus pecados (Mc 1,9), nem teve que converter-se (Jo 1,5), ele tomou consciência de sua missão na sociedade injusta de seu tempo e trouxe um significado novo, a saber, libertar os homens e mulheres de toda opressão.

Assim, o batismo cristão significa o compromisso de acabar com a injustiça e construir uma sociedade justa, para o que Deus concede o Espírito Santo, pois de acordo com a prática cristã mais primitiva, herdada por João Batista e reinterpretada por Jesus, o batismo é obra do Espírito de Cristo, em cujo nome é celebrado. Batizar-se significa identificar-se com a causa de Jesus, optar pelo sentido da vida dada por Cristo. Implica em compromisso de vida.

A experiência que leva ao mergulho do Mistério Jesus é o primeiro iniciador da fé e o Catequista um continuador de Jesus nesse processo. A evangelização pretende comunicar a fé aos que não possuem ou a possuem insuficientemente, isto é, os que não creem ou não creem plenamente. A fé é da ordem do transcendente, não se comunica apenas com palavras. Torna- se necessário que a vida da testemunha seja o que diz. A pessoa é cristã a partir da experiência, da expressão de sua espiritualidade, ou seja, o cristão é visto, não pelo seu discurso, mas pela vida humana que emana do seu ser de um modo peculiar, à luz e exigências do evangelho.

Ao falar em experiência, utilizamos de um bom conceito expresso por Leonaldo Boff, no seu livro “Jesus Cristo libertador”. Ele diz que a experiência é a ciência ou o conhecimento (ciência) que o ser humano adquire quando sai de si (ex) e procura compreender um objeto por todos os lados (peri). Movimento de saída de si para perceber a realidade a partir de outro ponto de vista, de vários lados, e, sobretudo, aprender com o novo que está sendo contemplado. A experiência vai além do vivenciar, pois além de viver o ato em si, a experiência indica uma reflexão no ato do viver gerando nova consciência sobre o fenômeno vivido, isto é, provoca novas compreensões, novo jeito de viver.

Nesse sentido, pode-se dizer que há experiência humana quando há relação conosco mesmos, com os outros e com o mundo, participação real do sujeito num acontecimento. A experiência humana aprofundada pode ser caminho de evangelização. Assim, falar de experiência religiosa no processo evangelizador, é uma forma de o ser humano mergulhar na infinitude transcendental. Trata-se de uma experiência do sagrado, ou seja, a percepção da presença do sagrado no universo humano. É uma experiência de medo ou de atração diante do mistério. Pode-se dizer que as pessoas, diante do medo ou diante dos momentos felizes, momentos de realizações, elas se aproximam do sagrado.

Mas, para além da experiência religiosa está a experiência do mistério transcendente (Deus). Uma bela definição dessa experiência está nas palavras do professor Henrique C. de Lima Vaz, em seus escritos de filosofia 1, que a classifica como sendo a experiência do sentido radical. Trata-se de uma experiência única, particular, e ao mesmo tempo, revigora a vida de quem a realiza. Ela possibilita que o ato do viver seja construído, permanentemente e com sentido no cotidiano do dia a dia do existir. Assim, a pessoa que consegue contemplar os acontecimentos da vida e retirar deles um sentido ao existir realiza a experiência de Deus.

Falar das formas de fazer experiências nos chama a atenção para perceber como se realiza nossas próprias experiências na caminhada com Cristo. Perceber como vai se formando a mentalidade cristã e traduzindo-a em comportamento evangélico: desprendimento de si mesmo, entrega aos outros, compromisso social, expressão das crenças profundas e na participação em certos gestos sacramentais que se relacionam com o sentido da vida. A vida cristã é impossível sem o “sair de si” de estar em comunidade. Esta tem seu fundamento na palavra de Deus, vive um processo de conversão, está encarnada na realidade do mundo, celebra a salvação de Deus, testemunha sua própria fé e se reconhece como autêntica comunhão.

Diante da missão de evangelizar, de fazer ecoar a Palavra de Deus, o Catequista é chamado para ser encantador de pessoas por Jesus, o catequista precisa ser aquela pessoa que vive, ama e reflete seu ato de viver transformando-o em experiência que dá sentido à vida; uma pessoa de maturidade humana e de equilíbrio psicológico; pessoa de espiritualidade, que deseja crescer na santidade; que alimenta sua vida na força do Espírito Santo, para transmitir a mensagem com coragem, entusiasmo e ardor a Palavra de Deus. Que toda catequista possa renovar sua vocação e permanecer fiel na transmissão da mensagem dos ensinamentos de Jesus Cristo.

Texto de Neuza Silveira de Souza- Coordenadora do secretariado
Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte.

Fonte: Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético.


 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

ESPIRITUALIDADE DA CRIANÇA E ADOLESCENTE COM AS PESSOAS DE SUA CONVIVÊNCIA – PARTE II

 

Imagem: SINOP

PARTE II - SEGUNDA INFÂNCIA

Texto bíblico Lc 2, 41-52

Todos os anos, os pais de Jesus iam a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume. Terminados os dias da festa, no momento de voltarem, Jesus permaneceu em Jerusalém, sem que seus pais percebessem. Pensando que se encontrasse na caravana, fizeram o caminho de um dia e procuravam-no entre os parentes e conhecidos,  mas, como não o encontrassem, voltaram a Jerusalém, à procura dele. Depois de três dias o encontraram no templo, sentado entre os mestres ouvindo-os e fazendo-lhes perguntas. Todos os que ouviam o menino ficavam extasiados com sua inteligência e suas respostas. Quando o viram, seus pais ficaram admirados, e sua mãe lhe disse: “Filho, por que agiste assim conosco? Olha, teu pai e eu andávamos, angustiados, à tua procura!” Ele respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?” Eles, porém, não entenderam o que ele lhes havia dito .Jesus desceu, então, com seus pais para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todos os esses acontecimentos em seu coração. E Jesus ia crescendo em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens,

(Tradução -Bíblia CNBB- 3ª edição-2019)

 

Dando continuidade ao tema Espiritualidade da criança e do adolescente, iniciado no artigo anterior, inspirado pelo texto bíblico apresentado, podemos verificar que os pais de Jesus, Maria e José, educaram Jesus na fé, com todo o zelo e cuidado com o Filho de Deus. E Jesus se desenvolve em um ambiente familiar de oração e fidelidade a Deus.

Na Encíclica do Papa Francisco, Amoris Laettia, encontramos:  

A educação dos filhos deve estar marcada por um percurso de transmissão da fé, que se vê dificultado pelo estilo de vida atual, pelos horários de trabalho, pela complexidade do mundo atual, onde muitos têm um ritmo frenético para poder sobreviver. Apesar disso, a família deve continuar a ser lugar onde se ensina a perceber as razões e a beleza da fé, a rezar e a servir o próximo. Isto começa no batismo, no qual- como dizia Santo Agostinho- as mães que levam seus filhos “cooperam no parto santo”. Depois, tem início o percurso de crescimento desta vida nova. A fé é um dom de Deus, recebido no batismo, e não o resultado de uma ação humana; mas os pais são instrumentos de Deus para a sua maturação e desenvolvimento. (AL, 287)

Na caminhada catequética os catequizandos precisam de um ambiente acolhedor, tanto na família, quanto na comunidade. Durante o seu desenvolvimento a criança vai absorvendo o comportamento de seus familiares e dos grupos de convivência.

Na primeira infância, conforme Calandro e Ledo (2010), denominam a idade de 0 a 6 anos, a criança contempla tudo a seu redor, tudo é novidade para ela, um mundo a descobrir. Repete os gestos, brinca, dança, toca (tato) e é dotada de espontaneidade e cheia de energia.

De 0 a 2 anos a criança percebe o mundo pelo olhar de seus pais, a fé ainda é indiferente, porém, “as pré-imagens de Deus estão inseridas neste primeiro contato que a criança estabelece com o meio familiar” (CALANDRO e LEDO, 85). A confiança que ela tem no adulto é que estabelece o sentido de cuidado e amor. A afetividade é fator primordial em todo os períodos do desenvolvimento da criança, principalmente na primeira infância.  De 3 a 7 anos, a fé já é projetada, a criança assimila a cultura de seus pais, e a comunidade aos quais os pais frequentam.

A segunda infância, de 7 a 9 anos, conforme Calandro e Ledo (2010), é o período da sistematização da criança, ela já vai se reconhecendo em um grupo maior, mas, com a sua identidade sendo formada. Com a experiência escolar também presente neste período, ela vai formando seu repertório tanto de fé, quanto de bases da educação científica. É a idade que entram na catequese.

Os catequistas, atentos à essas mudanças e realidades, precisam estar atento à maturidade gradativa de fé, que as crianças vão tendo ao longo da vivência na catequese. O Diretório Nacional de Catequese nos seus números 199 e 200 orienta:

199. A infância constitui o tempo da primeira socialização, da educação humana e cristã na família, na escola e na comunidade. É preciso considera-la como uma etapa decisiva para o futuro da fé, pois nela, através do Batismo e da educação familiar, a criança inicia a sua iniciação cristã. No final da segunda infância (pré-adolescência), uma fase curta, mas efervescente do desenvolvimento humano, ou até mais cedo (primeira infância, começa-se em geral o processo de iniciação eucarística). É nessa idade que se atinge o maior número de catequizandos e há o maior envolvimento de catequistas por causa da Primeira Comunhão Eucarística, que não deve ter caráter conclusivo do processo catequético, mas a continuidade com uma catequese de perseverança que favoreça o engajamento na comunidade eclesial.

200. A educação para a oração (pessoal, comunitária, litúrgica), a iniciação ao correto uso da Sagrada Escritura, o acolhimento dentro da comunidade e o despertar da consciência missionária são aspectos centrais da formação cristã dos pequenos. É preciso cuidar da apresentação dos conteúdos, de forma adequada à sensibilidade infantil. Embora a criança necessite de adaptação de linguagem e simplificação de conceitos, é importante não semear hoje o problema de amanhã. Simplificar com fidelidade e qualidade teológica exige boa formação e criatividade. É necessário ter cuidado para que, em nome da mentalidade infantil, não se apresentem ideias teologicamente incorretas que depois serão motivo de crise de fé. (DNC, 2006) 

                                     

Sendo assim, o que a Catequese pode oferecer para a formação na fé destas crianças e desses adolescentes diante de tanta dificuldade e adversidade? As famílias estão cada vez mais distantes de uma vivência de fé autêntica; os pais têm dado pouca atenção a seus filhos e filhas e tentam preencher o espaço que é devido aos eles com coisas materiais: celulares, tablets, videogames, brinquedos, etc. E, muitas das vezes, o que as crianças e adolescentes precisam, é simplesmente um abraço, um colo, um ombro, um ouvido atento às suas indagações. 

Muitos relatos de catequistas nos contam das frustrações de seus catequizandos, com inúmeras dificuldades familiares: presença de alcoolismo, depressão, separação, conflitos, sobrecarga de funções para a mãe, que sempre tem que dar conta de tudo ou do pai, com dificuldade de ouvir seus filhos e filhas, por estar por demais focado no trabalho.

A catequese a serviço da evangelização acaba abarcando todas essas realidades dos catequizandos. A comunidade de fé, também precisa acolher todas as situações e colaborar com a formação na fé daqueles que estão sobre seus cuidados.

Assim, durante os encontros catequéticos - sejam presenciais na paróquia, ou ainda, para aqueles que optam por catequese em casa (com os pais e acompanhamento do catequista) - pode-se propor momentos celebrativos, apresentação dos símbolos, do espaço litúrgico, momentos de partilha de alguma situação concreta, histórias inspiradoras de diversos santos e santas presentes na Tradição da Igreja, etc. Alguns subsídios catequéticos, como o “Crescer em Comunhão”, da Editora Vozes, trazem em seu itinerário de temas, celebrações catequéticas a cada bloco de temas. Estas celebrações proporcionam encontros mistagógicos, orantes, com reflexões e cantos, e pode ser convidada a família do catequizando.

Pode-se também, visitar as famílias para conhecer a realidade de cada catequizando, para que a comunidade conheça as alegrias, dificuldades e esperanças de cada um, pois, a partir do olhar do catequista e da comunidade,  pode-se proporcionar à família que vem para a catequese, um espaço de partilha e de superação das eventuais dificuldades em família.

 

Catequista: Alessandra Rodrigues França da Silva 
Paróquia Nossa Senhora da Boa Esperança -Pinhais/PR 
Arquidiocese de Curitiba

Referências:

CALANDRO, Eduardo; LEDO, Jordélio Siles.  Psicopedagogia Catequética - Reflexões e vivências para a catequese conforme as idades. Vol.1 – Criança. São Paulo: Paulus. 2019.

_______  Psicopedagogia Catequética - Reflexões e vivências para a catequese conforme as idades. Vol. 2 – Adolescentes e jovens. São Paulo: Paulus, 2019.

COMISSÃO BÍBLICO CATEQUÉTICA - ARQUIDIOCESE DE CURITIBA. Formação Básica de Catequistas - subsídio com os principais temas para formação de catequistas. Curitiba: Editora Arquidiocesana, 2008

CNBB. Diretório Nacional de Catequese - DOC 84. 5ª ed. São Paulo: Paulinas, 2007.

PAPA FRANCISCO.  Amoris Laetitia: sobre o amor na família.  Exortação Apostólica Pós-sinodal. São Paulo: Paulus, 2016.