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sábado, 27 de julho de 2019

HISTÓRIA DA MISSA COMO “DESPEDIDA”


Você sabia que, nos primeiros séculos da Igreja, os catecúmenos (não batizados) não podiam participar da missa?

Recentemente uma catequista relatou que na paróquia onde frequenta, as crianças pequenas, que ainda não fazem catequese ou estão na pré-catequese (menores de 8,9 anos), são convidadas a sair do espaço da missa logo depois da acolhida e só voltam ao final, para a bênção. Para muitos isso causa um pouco de espanto e pareceu errado. Ou ainda que o pároco está sendo "cruel" ao dispensar as crianças da missa, já que estas, normalmente não se acomodam, dão um certo trabalho às catequistas e não permanecem em silêncio. Então... vamos levá-las para outro lugar onde não incomodem! E para a missa, sai a criançada e ficam vários bancos vazios na Igreja.

Por mais ilógico que isso pareça, não é absurdo, exagero ou crueldade. Não conheço a paróquia em questão e nem os itinerários utilizados, mas, a prática parece de acordo com o Processo Catecumenal de evangelização. E pode não ser coisa do Espírito Santo, mas, foi de São Justino, Santo Hipólito, Santo Ambrósio, Santo Agostinho e vários outros Santos Padres da nossa Igreja. Esta era uma prática da Missa nos primeiros séculos da nossa Igreja, que deixou de ser feita no século IV, quando o batismo de crianças se tornou uma prática normal.

O que temos visto em alguns lugares, é que se tem procurado adaptar o processo catecumenal aos dias de hoje, utilizando-se práticas um pouco diferentes da que estamos acostumados. E precisamos conhecer todos os lados.

Muito se tem absorvido da IVC utilizando-se ritos e celebrações do RICA – Ritual de Iniciação Cristã de Adultos, livro Litúrgico da Sagrada Congregação para o Clero (Santa Sé) que disciplina a iniciação de adulto à vida cristã. No entanto, os ritos e celebrações do RICA, para as crianças, não pode ser absorvido como um todo, ele precisa ser adaptado à Igreja do século XXI com todos os problemas que ela vive hoje.

Vamos lembrar um pouco da nossa história para entender!

A missa é uma prática relatada desde o primeiro século da nossa Igreja, claro que não da forma como a conhecemos. Quem conhece o Didaquê? Então, Didaquê é o nome das primeiras catequeses dos discípulos de Jesus (Temos o documento na íntegra em nosso blog se alguém quer conhecer).  Pois bem, o Didaquê recita a missa em seu catecismo nº XIV e também podemos ver uma "missa" em Atos 2, na doutrina dos apóstolos, em Atos 20 e também na 1ª Carta aos Coríntios 10 e 11.

Mas, onde quero chegar?

Que a "missa" existe praticamente desde a morte de Jesus, não da forma como a conhecemos, é lógico. Ela foi mudando ao longo do tempo. Encontramos nos escritos de São Justino no século II e Santo Hipólito (aliás, é dele a primeira Oração Eucarística) as descrições da missa, sua ordem, a ordem dos ritos, etc.

Agora vamos a ORIGEM da própria palavra MISSA.

A palavra missa vem de "missio", que significa missão, envio, ou seja, uma despedida.

E onde ocorria a primeira "despedida" nas celebrações antigas? Justamente na "despedida dos catecúmenos", na saída daqueles que ainda não tinham recebido os sacramentos. Isso era feito logo após a homilia ou sermão.

Naquela época não era permitido aos catecúmenos participar da oração eucarística porque eles ainda não estavam "prontos", preparados para receber a Eucaristia. Aliás, não eram só eles que eram "despedidos" no meio da missa, os "penitentes" também eram. Saiam e as portas eram, inclusive, fechadas para que eles não soubessem o que acontecia no rito dali para frente.

E vocês pensam que comungar era tão fácil como é hoje? Não era não!

Se você fosse um pecador (penitente) em arrependimento passava por longo processo até receber a reconciliação. E, se a recebia, e pecava novamente, nunca mais era admitido na Eucaristia! Algumas pessoas chegavam a viver um catecumenato permanente, não podendo comungar, de medo de voltar ao pecado e então não poder passar pelo processo novamente.

Então o nome "missa" vem da despedida dos catecúmenos, que designava tal momento da missa. Lá pelo século IV que o termo passou e a ser aplicado a todo rito eucarístico, de modo que este passou a ser chamado de MISSA integralmente.

Vejam só que ironia: foi a "despedida" no meio da missa, daqueles que não podiam comungar, que deu o nome a ela!

Mas, como dissemos, a missa foi mudando ao longo do tempo. Só para vocês terem uma ideia, a missa já chegou a ter SEIS leituras. E antes da reforma atual, terminava a Eucaristia, seguia-se a bênção, se rezava o último Evangelho (prólogo de S. João), rezava-se três Ave Marias, duas orações e a invocação ao Coração de Jesus, para, só então o padre dar a bênção final e a despedida.

Vocês conseguem imaginar uma criança com seis ou sete anos numa missa assim, de três ou quatro horas?

Portanto, a "despedida dos catecúmenos" subsistiu durante quase quatro séculos na Igreja. Pelos escritos de São Justino e São Clemente vemos a descrição desta despedida após o Credo ou após a Oração dos Fiéis, que só aparece mesmo no século V, antes era apenas uma oração pela Igreja e pelos fiéis que só o bispo fazia.

Por falar em Credo, naquela época só podia recitar o Credo quem já estivesse admitido para receber os sacramentos e tivesse recebido a oração no ritual. Quem ainda não tinha passado pelo rito, só podia escutar de boquinha fechada.

A prática da despedida foi cessando à medida que se passou a batizar crianças pequenas. Isso depois que vários doutores da Igreja começaram a defender a tese do pecado original na concepção. Quase a totalidade das pessoas no final do século IV e V já eram cristãs, logo não havia mais o catecumenato como iniciação cristã, e as práticas dele foram morrendo. A fé cristã era passada pelas famílias às crianças e não se via mais a necessidade de uma catequese com adultos. A ideia era a de que TODOS já eram cristãos desde a barriga da mãe, faltava então, batizar com a "água do Espirito" para livrá-los do pecado original.

Mas, o mundo mudou novamente. E nem é preciso dizer para vocês como e onde. Vivemos esta realidade hoje na catequese. Que família é catequizada e catequiza os filhos? Poucas na verdade. Então a Igreja sente a necessidade de se voltar a atenção aos adultos novamente, já muitos foram “catequizados”, receberam os sacramentos da iniciação, no entanto, não estão evangelizados.

No século XX a Igreja percebeu que precisava mudar, renovar-se. E aconteceu o Concílio Vaticano II, onde, entre outras coisas, pediu-se a volta do processo CATECUMENAL, que, em sua essência, catequiza adultos e não crianças.

Mas, a nossa cultura, não pensa catequese como INICIÁTICA (de iniciação) e sim, como SACRAMENTAL, ou seja, se eu falar para vocês que precisamos fazer catequese com os adultos, qual a primeira dúvida que vem na cabeça? “Mas, e os sacramentos? E se ele já é batizado? Se já comunga? Por que catequese? Ah! ele não vai querer!”.

Infelizmente fizemos, nestes séculos todos que se passaram, que os sacramentos passassem de uma "parte do processo", a OBJETIVO da catequese. Então se a pessoa já recebeu sacramento, para que catequese? Esse é nosso primeiro pensamento.  E não importa se a pessoa sabe ou conhece o rito, vive o rito, sente o rito; importa que ele pode entrar na fila para receber a comunhão. Não é assim que queremos "doutrinar" nossos pequenos desde cedo? Para que eles "aprendam" como entrar na fila e não fazer feio? Que eles saibam o que está acontecendo e ENTREM VERDADEIRAMENTE na MISTAGOGIA da fé, é coisa secundária.

Agora vamos a este caso específico de se estar retirando os pequenos no meio da missa e, de repente, ficar um vácuo de bancos no meio da Igreja, parar o rito e tudo mais.

Primeiro: existe um RITUAL de despedida, com bênção e tudo mais, inclusive descrito pelo RICA itens 96, 160 e outros. Não é, simplesmente, as catequistas arrancarem as crianças dos bancos e levarem para outra sala.

Segundo: estas crianças nem deviam estar lá! Por que fazemos catequese com crianças que deviam estar sendo catequizadas pelos pais? Estas crianças podem, evidentemente, estar na missa sim! Sentadinhos com sua família, aprendendo COM ELA, o silêncio, a contemplação, a oração.

Pelo que foi dito, percebe-se que, equivocadamente, está se usando um RITO antigo, “Despedida dos catecúmenos”, com quem nem é catecúmeno! Usando razões psicopedagógicas, ou seja, a criança de hoje em dia não se concentra na missa, não consegue prestar atenção em nada, utiliza-se esta prática. Bom, se esta é a explicação, ela é bem "furada". Por que se faz pré-catequese com crianças pequenas, então?  Que pré-catequese é essa? Ela não precisa se concentrar? Prestar atenção?

Agora um alerta final: Fazer iniciação a vida cristã com crianças, sem ter feito antes com as catequistas delas, com os pais delas? No final das contas, não está entendendo nada, nem quem manda e nem quem obedece. Primeiramente, os catequistas deveriam entender o que está acontecendo, depois os pais e as crianças. A comunidade então, deve estar completamente “vendida” nesse processo todo! Estamos andando na contramão faz tempo. Estamos tentando evangelizar crianças para ver se elas evangelizam os pais. Pode acontecer é claro, mas, qual é realmente a probabilidade de que isso aconteça?  

Muitas paróquias estão tentando estabelecer o processo catecumenal, mas estão com a "clientela" errada. Fosse eu, repensava a pré-catequese, incluía a família e ensinava todos a participar da missa.

Ângela Rocha
Catequista
ADM Catequistas em Formação



segunda-feira, 24 de abril de 2017

A CATEQUESE DEVE ENSINAR PARA O RITO


O ser humano é, por natureza, ritual e simbólico. Refeições em família, nascimentos e mortes, festas populares, comícios, perdas e vitórias humanas são cheias de ritos. Pelo rito, expressamos o sentido da vida, oferecido e experimentado por um ser cultural.

Aderir ao rito significa abrir-­se ao sentido proposto por aquele grupo e, portanto, assumir sua identidade, fazer parte dele.

A observância do mandamento de Jesus: “fazei isto em memória de mim” possibilita a adesão, sempre renovada e reforçada em cada celebração, à identidade com Ele e à comunidade cristã. A identidade, nesse caso, tem a ver com o sentido da vida, a proposta do reino (amor, comunhão, partilha...) que Jesus ensinou, viveu e nos deixou como mandamento.

A expressão ritual trabalha com ações simbólicas e estas atingem o ser humano como um todo, em suas diversas dimensões: sensorial, afetiva, mental, espiritual, individual, comunitária e social. A ligação estreita que existe entre experiência, valores e celebração nos permite formular uma espécie de lei estrutural da comunicação religiosa: aquilo que não é celebrado não pode ser apreendido em sua profundidade e em seu significado para a vida. A catequese leva em conta essa expressão de fé pelo rito para desenvolver também uma verdadeira educação para a ritualidade e o simbolismo.

(DNC 116)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

AINDA SOBRE O “PERSIGNAR-SE”


  (SINAL DA CRUZ NA TESTA, BOCA E CORAÇÃO)

A respeito do sinal da cruz na testa, boca e coração, que fazemos antes da leitura do Evangelho na missa, surgem algumas dúvidas e muitos confundem este sinal com o que a Igreja chama “Persignar-se”, que é benzer-se fazendo três sinais de cruz com o polegar (ou três dedos): um sobre a testa, outro sobre a boca e outro sobre o peito.

Muitos fazem o sinal da cruz desta forma e repetem consigo esta frase: "Pelo sinal da santa cruz, livrai-nos do mal...", ou alguma semelhante. Isto é o que se chama PERSIGNAR-SE, um gesto que se faz em momentos de medo, angústia, ansiedade, aflição, etc.

NA HORA O EVANGELHO, o sentido do sinal, no entanto, foge desse sentido e é feito para RECEBER A PALAVRA que será proclamada: com a inteligência (sinal na fronte), para anunciá-la (sinal na boca); e no coração (sinal no peito), para que ela esteja sempre conosco em nossa vida; e aqui não importa que frases se digam.

Há muita confusão, no entanto, entre o sinal da cruz normal, na testa, no coração, do lado esquerdo e direito. Que é tradição na Igreja, com outro sentido: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O Pai é o “cabeça”, está na nossa mente e inteligência, o Filho é amor, está no nosso coração, e o Espírito Santo nos envolve feito um manto, de ambos os lados do nosso ombro. Há quem diga, no entanto, que o sinal do meio, desce além do meio do peito até o início do estômago, pois Cristo está em nosso âmago.

Podemos "persignar-nos" no momento e quando acharmos necessário, mas, lá, na hora da missa, quando falamos "Evangelho de Jesus Cristo segundo...”, o sinal na fronte, boca e coração, é para acolher a PALAVRA, com a mente , com a boca e o coração. E é isso que se deve ensinar aos catequizandos. “Que a Palavra do Senhor entre em minha mente, saia pela minha boca e permaneça no meu coração.” Esse seria o correto a se pensar ou dizer no momento, mas, o que falar ou recitar na hora é o de menos, importa que eles saibam o sentido do gesto.

Sobre isso, encontramos nos escritos de São Gaudêncio de Bréscia (Bispo do Século IV, um dos patriarcas da Igreja), o seguinte: "Esteja a Palavra de Deus e o sinal da cruz no coração, na boca e na fronte. Em meio à comida, em meio à bebida, em meio às conversas, nas abluções, nos leitos, nas entradas, nas saídas, na alegria, na tristeza". Apesar de ser na ordem inversa da que é utilizada hoje, esse texto ilustra a inegável relação entre a Palavra de Deus e o sinal da cruz. E também dá margem a se fazer o gesto a qualquer momento, com diferentes significados.

Nossa Igreja é muito rica em história e tradições, muitas coisas herdamos dos Santos Padres da Igreja: Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Tomás e muitos outros. O que acontece ao longo do tempo, é que o povo vai "adaptando" e modificando conforme suas “necessidades” pessoais e da comunidade. São as chamadas "crendices populares". Ao catequista cabe estudo e formação para não cair na tentação de perpetuar essas crendices e saber separá-las da tradição da Igreja.

Mas, não é preciso muito estudo para deduzir que, ANTES DA PROCLAMAÇÃO DO EVANGELHO, não é preciso usar o sentido de persignar-se utilizado pelo povo (pedir proteção ou perdão, livrar do mal), afinal já pedimos perdão no ato penitencial e fizemos, nas preces, nossos pedidos de proteção e ajuda; neste momento em particular, o sinal na fronte, na boca e no coração, é de ACOLHIDA da Palavra.

Angela Rocha
Catequista


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

RITOS DE ENTREGA NA CATEQUESE

Outro dia, em nosso grupo de catequistas no Facebook, um catequista fez um questionamento a respeito de um comentário meu numa postagem sobre as os RITOS DE ENTREGA NA MISSA: "Colocando "ritos" demais na liturgia, corremos o risco de banalizá-la...". Me perdoe, não compreendi seu ponto de vista, poderia esclarecer? Obg. Sou catequista do crisma na comunidade São Francisco de Assis e novo nessa caminhada."

Eu até demorei um pouquinho a responder, porque queria dar uma resposta mais “elaborada” a ele. E esta, com certeza é uma questão interessante.

A catequese de INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ, que costumamos chamar de IVC simplesmente, pede que se faça um "retorno" aos primeiros tempos da nossa Igreja, à Igreja construída pelos apóstolos de Cristo nos primeiros séculos. 

Obviamente que este "retorno", carece de atualização aos tempos atuais. Então, temos orientação da Igreja e de vários padres estudiosos do tema, para que se faça uma catequese de "inspiração catecumenal", lembrando alguns preceitos do CATECUMENATO, como era chamada a catequese naquele tempo. Estas orientações estão no DNC – Diretório Nacional de Catequese, no Documento da Conferencia de Aparecida e pode ser estudado nas publicações da CNBB, principalmente no Estudo 97 e na 3ª Semana Brasileira de catequese. Vários autores também se dedicam ao tema: Pe. Antonio Lelo, Pe. Luiz Lima, Pe. Lucio Zorzi, Ir. Israel Nery,  Pe. Leomar Brustolin, Pe. Almeida e vários outros.

O que eu considero (pessoalmente), o grande "entrave", para nós catequistas, a respeito da IVC, é que ela é destinada principalmente a catequese de adultos e ao "resgate" dos adultos que foram catequizados, receberam os sacramentos e, no entanto, a gente percebe que não foram devidamente evangelizados. Estão afastados da Igreja e da comunidade, e só retornam mesmo para receber algum sacramento. Não existe mais pertença alguma à comunidade.

E nós, tão acostumados a catequese com crianças (e no máximo, adolescentes e jovens até os 15, 16 anos), nos vimos, de repente, no "olho do furacão". A máxima de que: "criança se acolhe e se evangeliza adultos", tem dado um nó na nossa cabeça. Preocupadas com esta nova evangelização, as pastorais catequéticas assumiram, sozinhas praticamente, a tal IVC... que é para adultos mas a gente quer adaptar à catequese das crianças... 

E aí vem o: Como? Onde? De que forma?

Isso tem sido uma confusão só e temos vários casos acontecendo:

1 - Algumas dioceses e algumas paróquias, isoladas até, tem tomado "pé da coisa" e entendido que, para se voltar à Catequese Catecumenal ou para se implantar uma IVC de verdade, é preciso uma "reviravolta" inteira da Igreja: CPP, presbíteros, todas as pastorais, grupos e movimentos; precisam se envolver para que isso funcione, não só a catequese como uma pastoral "isolada". E devagar estão fazendo a IVC acontecer.

2 - Encontramos também algumas "implantações" da IVC aos moldes das próprias dioceses. Adaptações desta ou daquela orientação às características locais, com nomes os mais diversificados possíveis.

3 - Outras, no entanto, tem se voltado exclusivamente para a "implantação dos ritos" descritos no RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos), livro litúrgico da Santa Sé que disciplina a liturgia da Iniciação Cristã Catecumenal. 

4 - E a grande maioria nem sequer sabe do que estou falando.

Bom, por aí se vê, o quanto é difícil falar de uma realidade tão equidistante uma da outra. Mas, a minha fala de que "excesso de rito banaliza a liturgia" se deve principalmente ao 2º e 3º casos que citei. 

Tem se cometido alguns equívocos misturando um pouco a utilização do RICA e a implantação de uma catequese mais "mistagógica". Vamos "separar" um pouco os dois:

O RICA, Ritual de Iniciação Cristã de Adultos, disciplina os ritos da Iniciação cristã e os sacramentos que fazem parte dela: batismo, crisma e eucaristia. E tem também, para se adequar a realidade de hoje na Igreja, um capítulo destinado à iniciação de crianças em idade de catequese. Estes ritos fazem parte da catequese mistagógica. Mas, não é só isso que faz uma catequese mistagógica.

A "catequese mistagógica" pede que se volte a "conduzir" os catequizandos ao mistério da fé. Mistério este que prescinde de simbologia, ritos e uma volta ao sentido do "sagrado". Para isso encontramos várias orientações de celebrações catequéticas. Celebrações, ritos e momentos orantes, que podem ser feitos nos encontros de catequese e não só na celebração da missa com a comunidade.

Precisamos pensar que a Liturgia da nossa Igreja - e aqui vou simplificar para "missa" - tem suas orientações e sentidos. Ela é sagrada, milenar e regida por orientações específicas. Nem todos os "ritos" e "entregas" da catequese, "cabem" nela. O que cabe, está descrito no RICA. Mas, o que vemos em alguns casos é entrega de tudo que se possa imaginar, feitos na missa: mandamentos, sacramentos, dons do Espírito Santo, Bem Aventuranças, mandamento do amor... etc., etc.

E aqui cabe um pequena explicação: a IVC prevê o catecumenato em quatro tempos: Pré-Catecumenato ou primeiro anúncio; Catecumenato (catequese e tempo mais longo); Purificação ou Iluminação (Quaresma) e; Mistagogia (tempo pascal onde se inicia o serviço pastoral/missionário). Entre estes "tempos", temos as três grandes passagens de etapa. 

E cada um destes tempos, prevê etapas a serem cumpridas. Depois do pré-catecumenato (conversão), o candidato é acolhido na comunidade e se faz o Rito da Admissão (acolhida) - 1ª ETAPA; ao se passar do Catecumenato (catequese) para a Purificação, é feita outra "eleição" aos sacramentos - 2ª ETAPA; e na purificação é feita uma preparação especial nos domingos da quaresma para que no sábado santo se receba os sacramentos da iniciação. Vejam só, os SACRAMENTOS recebidos aqui é o marco da passagem ao último tempo - 3ª ETAPA, chamado de mistagogia, onde se aprofunda e se mergulha no mistério cristão, no mistério pascal, na vida nova e onde se faz uma vivência na comunidade cristã para, então, adaptar-se a ela e ser um verdadeiro discípulo missionário de Cristo.

Durante o tempo do catecumenato (Catequese) o RICA prevê algumas entregas de símbolos: 
- NA ADESÃO (passagem do pré-catecumenato ao catecumenato): entrega da Palavra (Bíblia), aqui, no rito da acolhida (descrito também do RICA), pode ser entregue uma cruz ao candidatos;
- NO CATECUMENATO: entrega do SÍMBOLO (Credo), entrega da ORAÇÃO DO SENHOR (Pai Nosso), precedidos de uma catequese adequada sobre isso.

Pronto. Não existem mais "entregas" de símbolos previstos no RICA.

Existem sim, vários RITOS que podem ser feitos: Rito do Éfeta, Rito da Unção, Exorcismos (orações), Bênçãos, rito penitencial, Escrutínios (são feitos três a partir do 3º domingo da Quaresma).

Vale uma orientação para que todos procurem o RICA para conhecer a beleza dos ritos de iniciação cristã de nossa Igreja. Lembrando sempre que o RICA é um LIVRO LITÚRGICO de apoio à catequese de Iniciação a Vida Cristã, com orientações preciosas de catequese, mas, não disciplina o que é a catequese. E não se pode seguir um "ritual" sem que se faça catequese antes. E nem se pode "inventar" entregas de símbolos nas celebrações litúrgicas (missa).

É claro que podemos enriquecer muito nossa catequese valorizando as grandes colunas da nossa fé: Mandamentos, Sacramentos, Bem Aventuranças; fazendo celebrações CATEQUÉTICAS, ou seja, celebrações nos encontros de catequese: com o grupo, com a presença de um diácono ou até do padre, com a presença da família, padrinhos; sem que estas envolvam necessariamente toda a comunidade e mude a liturgia da Missa. O catecumenato há muito foi abandonado pela nossa Igreja, nem mesmo nossos pais e avós conhecem os ritos usados pela Igreja da antiguidade. Sempre que possível, fazer uma catequese com a família sobre a simbologia e os ritos que pretendemos resgatar. 

Enfim, é isso que eu quis dizer com "excessos de ritos e entregas banalizam a missa e a liturgia". As entregas dos símbolos e os ritos da iniciação, são especiais demais para que se faça "por fazer", somente porque é "bonito". A comunidade precisa sentir o quão especial são os ritos e entregas e não achar que é um ritualismo desnecessário e "demorado" que algum catequista "inventou". Infelizmente muita gente vai á missa com o tempo "cronometrado" no relógio. A nós, cabe fazer com que eles se "apaixonem" pela nossa Igreja e queiram voltar sempre e não, se aborrecer com a demora em acabar a celebração.

Outra coisa: os ritos do catecumenato foram pensados, em princípio, PARA ADULTOS, maduros, conscientes do que querem para si. Nós fazemos catequese com crianças que, muitas vezes, ainda não tem capacidade e maturidade para entender o mistério da fé e não sabem exatamente, que "escolha" estão fazendo agora. Cabe aqui, nossas orações para que estes ritos e entregas sejam momentos "marcantes" o bastante em suas vidas para que eles busquem sempre conhecer e aprofundar a sua fé.


Catequista