CONHEÇA!

Mostrando postagens com marcador Angela Rocha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Angela Rocha. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de junho de 2019

A PEDAGOGIA DO GESTO



Por que a Igreja Católica não "conquista" como algumas igrejas evangélicas?

Esta é uma pergunta que a gente sempre se faz. Aí eu me lembrei lá das minhas velhas "lições" de "pedagogia", que aprendi ao longo da minha vida de catequista. No quanto precisamos IMITAR e aprender com Jesus em sua pedagogia.

Entre tantas outras coisas, Jesus era uma pessoa COMPROMETIDA. Partia da vida concreta das pessoas; entrava pela porta das preocupações, sabia aquilo que estava tocando o coração das pessoas (Lc 24,18-24). Jesus partia das experiências, das necessidades, temores, lutas e aspirações das pessoas. Ele falava do Reino de Deus depois de ter escutado as pessoas. Seus ensinamentos partiam de imagens simples e populares, como a luz, o sal, o grão de mostarda, as ovelhas, as aves e os lírios do campo. Hoje podemos dizer que estas imagens foram substituídas por coisas como aluguel vencido, contas para pagar, luta diária pelo emprego, etc e tal.

E, na catequese - que é onde agimos em nome de Jesus - os anseios, as dificuldades, as alegrias e tristezas, as angústias e esperanças, os sonhos e os fracassos dos nossos catequizandos são pontos de partida. O catequista verdadeiro, sabe respeitar o ritmo de cada um para chegar à fé. Não se arrisca a começar a falar da fé antes de conhecer o que toma conta do coração deles. Conhece suas famílias, suas vivências, suas expectativas. Não é escravo do tempo (ou da falta dele), não se deixa guiar pelas limitações de espaço ou de organização - ou falta dela. Vive e prega numa COMUNIDADE. E só a partir dessa conscientização que faremos verdadeiramente nosso papel como catequistas.

O que quero dizer com tudo isso?

Que precisamos deixar de focar nossos esforços na simples "sacramentalização", no ato findo de receber o sacramento. E quando e onde, se deve, se não deve, com que roupa, com que vela. Questões tão pequenas perto do tamanho da FÉ que temos a missão de aprofundar.

Muitos catequistas ainda "pensam" a catequese como meio de “chegar lá” no sacramento. Então, o objetivo da catequese deixa de ser INICIAÇÃO para ser um simples curso de formação em doutrina.

Sim, o sacramento é importante. E como é! É graça, é sinal sagrado da presença de Deus em nossas vidas. Mas, quando começamos a pensar se este ou aquele "merece" ou não, estamos indo na contramão da Iniciação cristã, dando mais importância a um gesto que muitas vezes acontece só naquele momento, prescindindo de uma coisa muito maior: o SEGUIMENTO a Ele. O sacramento é a "água" que se bebe ao longo do caminho, não é o fim dele. O sacramento é "parte" e não ponto de chegada.

Compreender o "gesto" é muito maior do que ele simplesmente. Que o digam as pessoas impedidas de fazê-lo (por algum impedimento da Igreja), que comungam apenas espiritualmente e que em todas as confissões sentem o peso de seus erros.

Não vamos nos iludir achando que todas as crianças que recebem a comunhão conseguem compreender o tamanho e a importância deste gesto. Muitas estão ali para "pertencer" somente, e não à Igreja, como Corpo de Cristo e sim a uma comunidade no sentido social. E falamos tanto na ação do Espírito Santo... Por que então não damos mais "crédito" a Ele? Ele age, age onde as pessoas deixam que ele o faça.

A preocupação se o catequizando está ou não preparado para "beber a água do caminho", começa no ato da inscrição dele na catequese, na conversa com os pais neste momento, na visita que se faz à família; nas conversas com ele desde o primeiro encontro, no convite sempre "novo" de se participar das celebrações, das festas, dos encontros de pais.

O que lembra outra característica pedagógica de Jesus: Ele era uma pessoa ATENCIOSA e RESPEITOSA aos outros e suas carências, valorizava o melhor de cada pessoa, em seus encontros e diálogos, mostrando-se atento a quem estava com ele. Lembram dos discípulos de Emaús? (Lc 24,17). Jesus não intimida, faz uma pergunta natural, familiar, coloca-se ao lado e inspira confiança. Não exerce nenhum tipo de imposição. A pergunta de Jesus deixa os discípulos surpresos e os motiva a falar do que estão experimentando naquele momento. E a partir dali ele fala, fala a ponto de deixar nossos corações ardentes de vontade de ouvir e ouvir, ouvir sempre. E quando parece que já não cabe mais em nós tanta coisa, aí sim! Saciamos a nossa fome do pão vivo e saímos a espalhar a boa nova.

Não será isso que está faltando em nossa catequese? Um pouco da pedagogia desse gesto?

Especialista em Catequética
Graduanda em teologia
Administradora do Catequistas em Formação
Junho de 2017.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

NÓS SABEMOS "QUEM" SÃO OS NOSSOS CATEQUIZANDOS?



Por que as meninas se maquiam, pintam as unhas de vermelho? Por que os meninos usam brincos? Por que algumas crianças têm tatuagens? Por que se vestem assim ou assado? Nós sabemos como são suas famílias, a vida que levam e o que os leva a se auto afirmar tão precocemente? Não estamos esquecendo que cada pessoa é um ser único e filho do Pai, como a gente? Que cada pessoa assume a identidade que melhor a representa? 

Estas perguntas nos fazemos hoje quando, em nossas paróquias, se exige comportamentos de crianças e adolescentes que estão aquém do mundo de hoje. Às nossas crianças no dia da primeira eucaristia, exige-se uma “aparência” totalmente fora do contexto deste novo milênio: cabelo bem penteado, simplicidade, nada de brincos, unhas pintadas, calças rasgadas.... Mas, não se exige que saiba da grandiosidade do gesto que está prestes a fazer ou da magnitude que é participar da comunhão eucarística com Jesus, que é ação de graça, reconhecimento pelo dom que recebemos de partilhar nossa vida com o outro.

Tive um catequizando que fez a primeira eucaristia aos 14 anos, diferente das outras crianças que tinham 11, 12. Usava boné, usava brinco e claramente estava "em outra". Faltava bastante. Quando perguntei a ele o porquê, ele me disse que estudava de manhã e na sexta dormia tarde e não conseguia acordar cedo no sábado. O que ele fazia na sexta à noite? Jogava os jogos tão amados pelos adolescentes. Hum... perguntei quais jogos ele gostava e fiz de conta que entendia do negócio falando um "Que legal!" bem animado. E perguntei se podia ligar para ele no sábado de manhã para acordá-lo. E combinamos assim... Às 8hs eu ligava e avisava da catequese, ele chegava atrasado, mas, vinha. Os pais saiam para trabalhar e penso que tanto fazia se ele fosse ou não ao encontro.

Foi uma conquista lenta, com descobertas gradativas. Ele usava boné porque o cabelo era "desajeitado"... e se ressentia quando alguém pedia e ele para tirar. Eu não pedia, mas, quando as turmas se reuniam, sempre tinha uma catequista “incomodada” com ele que acabava pedindo. E eu via o quanto aquilo o "machucava": Mostrar cabelo "ruim" pra todo mundo? Que "mico".

No dia da primeira eucaristia, lá estavam elas, as "beatas de plantão", "fiscais de porta de Igreja" como diz o Papa Francisco, a se incomodar com o brinco do meu menino. Vieram falar comigo e eu respondi: "Vai lá e fala você". E não é que foram mesmo!

Ele educado, olhou para mim a se perguntar se tirava ou não o brinco. Senti no olhar dele o quão "violentado" em sua identidade ele se sentiu. Que "banquete da comunhão" era aquele que não permite a uma pessoa ser o que ela é? Mostrar-se a Deus do jeito que se sente bem. Senti tudo isso quando ele me perguntou com o olhar o que fazer.

Fui até ele e cochichei no seu ouvido: "Tire o brinco aqui agora na entrada, mas, quando estiver sentado no seu lugar, coloque de novo. Senão Jesus vai se perguntar onde anda você." Ele sorriu, tirou o brinco, pôs no bolso e foi...

Tenho certeza que ele, hoje no grupo de jovens, nunca se sentiu mal na presença de Jesus. A gente aqui pode não aceitar as crianças como elas são e gostam de ser, mas, Jesus está sempre dizendo: "Venham a mim os pequeninos, do jeito que eles são". Que diferença faz para Deus, a cor da unha? O corte de cabelo? O brinco? São perguntas que me faço sempre.

Li uma coisa bem interessante num dos meus livros de teologia (1): "A mensagem de Jesus precisa ser uma boa nova para homens e mulheres DE HOJE e não simplesmente uma repetição do passado". Houve um tempo em que as coisas eram diferentes, mas, agora, nos dias de hoje, não tem mais como evangelizar com um "caderninho" de regras. “As práticas tradicionalistas que se fixam no passado sufocam a novidade do Espírito, precisamos "purificar" as expressões históricas da nossa fé”, é preciso trazer o novo às novas pessoas e não reeditar o antigo, o ultrapassado e aquilo que sufoca e diminui. Sim, vamos aceitar as coisas boas que herdamos do passado, mas, atentos às novas perguntas da sociedade atual que grita por atenção, mesmo estando tão rodeada de coisas. Muito daquilo que a nossa catequese praticava no passado, já não se aplica mais, não traduz adequadamente a mensagem de Jesus, que não dava um modelo para que as pessoas se “encaixassem”, entrassem e, sim, abria um “modelo” de mundo onde todos cabiam.

Ângela Rocha

(1): A casa da teologia. MURAD, Afonso et al. São Paulo: paulinas, 2010.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

FELIZES AQUELES QUE ACREDITAM...

Imagem: Deusa Queiroz - Catanduvas SP

Hoje foi meu quarto encontro com as crianças da catequese. Tenho onze crianças agora para evangelizar, fazer ecoar a palavra de Deus. E levo isso muito a sério!

Semana que vem, não teremos encontro na quarta. Nesse horário vou participar da Celebração das Sete Dores de Nossa Senhora, mas sobre isso falo depois. Então fizemos nossa páscoa hoje. Levei para cada um, um saquinho de doces e um cartão: “Mais doce que o chocolate é o enorme amor de Jesus, que morreu na cruz por nós! ”

Percebi que, apesar de ensinar metodologia nos encontros de formação, minha metodologia as vezes "vai por água abaixo" e acaba sendo um tanto diversa daquela que ensino.

Procuro sempre copiar Jesus: acolho, escuto, ensino com a palavra, e deixo que eles se iluminem com aquilo que entenderam. Mas não sigo uma regra de: Acolhida, oração inicial, motivação, leitura, atividades de fixação, compromisso. O método ver-julgar-agir-rever é ótimo, mas com crianças é preciso saber adaptar o "método" aos momentos “deles”.

Para começar, se formos seguir um cronograma de encontro de fio a pavio, corremos o risco de fazer orações mecânicas, leituras mecânicas, atividades chatas e falar de compromissos que ninguém vai seguir. Então em alguns encontros não fazemos orações.
Algumas vezes as crianças estão tão dispersas que nem sabem o que estão falando... (Mas sou rígida: quem chega atrasado, vai lá no cantinho fazer uma oração junto a nossa imagem do Santo Anjo pedindo desculpas). E deixo que eles se iluminem com a Palavra sem forçá-los a acreditar no que EU acredito. Meu entendimento das Escrituras Sagradas jamais vai ser o de uma criança de dez ou onze anos, então, deixo que uma mente de dez anos veja Jesus com uma mente de dez anos, não com uma de quarenta e três.

E isso por vezes não é fácil! Hoje lemos a passagem em João 20, 19-29, que fala de Tomé, que não acreditava na ressurreição se não pudesse ver com os próprios olhos, a Jesus e suas chagas. A atividade consistia em pedir a eles que me dissessem o que tinha entendido quando Jesus disse: “Felizes daqueles que creem sem ter visto”.

Bom, para um adulto é fácil. Imediatamente nos vem à mente que a Fé é a crença no mistério da ressurreição do Senhor. Mesmo sem termos estado lá para ver.

Mas, para uma criança, o que é isso? Lemos a passagem mais de uma vez e mesmo assim as crianças tiveram dificuldades em me dizer, afinal, o que Jesus queria dizer com aquilo.
É por isso que algumas vezes odeio manual! (E nem era manual, era um roteiro para se falar da Semana Santa). Tive vontade de pegar aquele roteiro, rasgar, mastigar e cuspir pela janela...
Então partimos para o mais factível.
- Vocês já viram Deus? Como ele é? - Não, ninguém viu. Só imaginam Deus.
- Vocês já viram Jesus em carne e osso? - Ao vivo não. Jesus eles já viram nas imagens, na cruz na Igreja, na imagem do Sagrado Coração no altar.
- E vocês acreditam em Deus? Acreditam em Jesus? Acreditam que ele morreu crucificado e dali três dias acordou de novo? E a resposta foi um unânime e sonoro:
- Sim!!!

Então chegamos à seguinte conclusão: SOMOS TODOS FELIZES! Acreditamos sem ver!

Sendo assim, fomos para a Praça do Santuário sentar aos pés da cruz comendo nossos chocolates de páscoa enquanto eu contava das antigas tradições. Sentados embaixo da velha árvore fomos conversando...
Eles amaram a história de que antigamente as pessoas apagavam as luzes das velas e lampiões e até do fogão, na Sexta-Feira Santa e só iam acender no sábado, com o fogo novo, que era feito no pátio da Igreja e aceso com pedras. 
- Nossa, Tia! Você sabe acender fogo com pedra?
E falei do Rito Medieval do Ofício das Trevas. E falei do Lava-pés, que o padre lava e beija os pés dos fiéis...
- Ui que nojo! Beijar pé... - Não, não é nojo, é uma das coisas mais lindas que Jesus já fez, eu beijo os pés de vocês se precisar...
Da denudação do altar, da benção da água do Batismo, da Vigília, que antigamente a Primeira Eucaristia era no Sábado, que havia toda uma preparação especial para esse momento. Da missa da Ressurreição, do som maravilhoso de todos os sinos tocando e da beleza do Glória a Deus cantado por centenas de vozes...

Resumindo: Deixei-os doidinhos para ver tudo isso acontecendo! Pobres pais que vão ter que ir à Igreja nessa Semana Santa, mesmo não querendo... E nós fizemos a oração do Pai-Nosso. Lá no meio da praça com todo mundo passando e olhando...
- Catequista doida essa!

Ângela Rocha
Catequista Amadora (aprendendo, aprendendo sempre...)

(Publicado originalmente no blog Catequista Amadora em 25/03/2010)

quarta-feira, 27 de março de 2019

IVC E SEU RITOS: NÃO ME LEVEM A MAL, MAS...


 
Uma preocupação sempre presente na catequese: a conscientização dos pais sobre a importância e responsabilidade deles na caminhada da catequese. E, infelizmente, não temos tomados decisões lá muito coerentes. Além dos tradicionais comprovantes de presença nas missas e outras “chantagens”, uma nova “solução” tem se apresentado: a “Eleição” ou Rito do Eleitos.

Essa solução, sonhada por nós no processo catecumenal, tem sido utilizada na catequese infantil como uma "seleção" das crianças que podem fazer a Primeira Eucaristia, ou seja, fazer a "Eleição" (como no processo catecumenal) de forma a escolher dentre os pequenos, aqueles que merecem receber o sacramento da Eucaristia no tempo correto. Ou seja, pais que não caminharam na linha: filho fora da Primeira Eucaristia! Com isso aumentaria a "responsabilidade" dos pais em não deixar as crianças faltarem à catequese e levá-los à Igreja, participar de reuniões, etc.

Não estou criticando o processo em si. Na verdade, este é um sonho nosso: que haja a "Eleição" daqueles que foram catequizados, para que, purificados e iluminados na Quaresma, recebam os sacramentos no Tempo Pascal. Mas, será que todas as famílias que ficarem “de fora”, vão compreender o processo, sem ter passado por ele? Como uma criança sabe que está "preparada" para receber os sinais da graça?

E também fico pensando: O que sabem da vida, nossos catequizandos - ainda na infância - para entender a dimensão dessa eleição? Nossas crianças querem ser acolhidas e amadas, querem a aceitação dos pais, da sociedade. Fico pensando o que uma rejeição ou exclusão como esta - porque é isso que os pais acabam transmitindo a eles - fará com seu mundo em construção. Sendo que cabe aos pais leva-los à Igreja, o correto não seria envolver OS PAIS numa catequese formal, já que se trata de crianças? Como vamos mensurar o efeito disso? Os pais compreendem isso? Não está sendo mais uma “coação” do que evangelização?

Para que se perceba que alguém "permanece" na Igreja, no seguimento, são necessários muitos anos. Este é o meu medo: que esta seleção esteja só "amedrontando" os pais que tem uma fé infantil e rasa. Que "ai se seu filho não fizer a eucaristia, vai pro inferno" ou "se não tem sacramento, depois não casa", sejam os verdadeiros motivos de tal adesão.

De minha parte, como formadora e orientadora de catequistas, mesmo compreendendo as razões para esta "seleção", eu não concordo com ela. Estamos aqui, de certa forma, atendendo os "sãos" e esquecendo os "doentes". Estamos fazendo uma Igreja de exclusão, não estamos INDO às "periferias", onde está quem mais precisa. A Igreja precisa ser antes de tudo "acolhedora" e receber de braços abertos a TODOS, mesmo aqueles que vão à missa uma vez por ano. E, se pensarmos racionalmente, crianças não tem maturidade nenhuma para receber o Corpo de Cristo. Os ritos e a IVC catecumenal é para adultos, não tem como jogar para cima das crianças esta responsabilidade, baseado no seu “comprometimento” com a catequese.

São mais de 15 anos lendo e estudando os documentos sobre a IVC e o RICA, num esforço enorme para compreender todo o processo. TUDO o que se tem escrito a respeito, experimentado, ritualizado, a própria postura do nosso Papa, enfim... leio, leio tudo. E o que posso perceber, e o que nossos mestres estão dizendo, é que este processo não foi feito para CRIANÇAS.

A INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ, da qual falamos, é PARA ADULTOS. Para quem tem a maturidade para o encontro com o Cristo Ressuscitado, entendimento para se CONVERTER de verdade e liberdade de um SEGUIMENTO maduro. É preciso ser "dono" do seu nariz para isso.

Claro que ainda fazemos e faremos catequese com crianças! Mas, precisamos "inspirar" a catequese das crianças usando o modelo catecumenal e NÃO FAZER CATECUMENATO COM CRIANÇAS! Com crianças a gente inicia a amizade com Jesus, proporciona o encontro com a comunidade, faz catequese mistagógica e iniciática. ANUNCIANDO! Se é possível fazer a IVC com as crianças, que seja só o anúncio, o querigma, a pré-catequese.

Enquanto a Igreja estiver sendo procurada por famílias com suas crianças, vamos ACOLHER e fazer o melhor de nós para um ensino da fé coerente com a idade e experiências desta criança. E vamos correr atrás dos pais ausentes para evangelizar, tirá-los dessa compreensão equivocada que sacramento é para poder "casar na Igreja". Que 1º Eucaristia é para tirar foto para a avó ver, que ir à Igreja é "separado" da vida cotidiana.

Estes PAIS, estas FAMÍLIAS - tenham elas o formato que tiverem - PRECISAM ser EVANGELIZADAS. Senão, estamos sim, sendo EXCLUDENTES. Ao dizer a uma criança: "não, você não pode! ” Isso é para o bem de quem? Dela? Da família? Da Igreja? Da fé é que não é...

Nada contra, fazer rito com as crianças, desde que jamais se exija delas uma maturidade que elas não têm e uma escolha de caminho que elas, sozinhas, não conseguem fazer. É preciso "adaptar" os ritos. Mudar o passo, o caminho. Não amassar o mesmo barro com sapatos novos. A própria comunhão só vai ser entendida por muitas pessoas, lá na vida adulta, depois dos 30, 40 anos.

O Rito da Eleição, Exorcismos, Escrutínios, não têm o menor sentido na catequese de crianças. Com os jovens talvez. Acima de 14 anos não há pai que obrigue um adolescente a ir à Igreja se ele não quiser. Ele já pode “escolher” e de algum modo começar a caminhada da fé. Pensemos nisso! Mas, iniciação dos jovens tem que ser feita na linguagem do jovem, não na linguagem das catacumbas da idade média!

Fico triste, muito mesmo, quando se está apenas começando a começar um processo e já estamos "cantando vitória": Nossa que lindo: estamos fazendo rito da eleição na catequese infantil! E nem sabemos o que nossas crianças da "geração IVC" vão achar disso lá na frente. Vamos devagar com o andor. Estamos criando uma Igreja excludente, que elege os "sãos" para ficar, e manda embora os "doentes". Que "periferia" é essa onde estamos evangelizando? Estamos abrindo ou fechando portas?

Sou contra o "rito por rito" ou "porque é bonito". Adaptações podem ser boas, como as entregas de símbolos, que são revestidas de mistério, onde as crianças podem até associar às suas "conquistas". Mas, ainda prefiro “rito para bonito” do que implantar "eleição" para crianças, excluindo aquelas que não tiveram apoio da família na caminhada. Isso é mais cruel ainda. Que será que uma criança pensa quando sua catequista diz que ela não fará o sacramento com os outros amigos porque "não está preparada"?

Queremos fazer? Vamos fazer. Com as crianças que forem inscritas na catequese hoje, AGORA. E avisar a elas que se, em X anos, ela não vier a missa todos os domingos, aos encontros toda semana e não se comportar como católica, ela não vai receber o sacramento com os outros, vai esperar mais um pouco, até ser selecionada ou “eleita”. Aí, depois de 2, 3 anos, exclua ela se deu a ela todas as oportunidades e chances (Aha! E como é que se julga isso?). Aí, se ao longo destes X anos, que VOCÊ teve para evangelizar esta criança e os pais, você não conseguiu. Sinto muito, mas, VOCÊ não será ELEITO!

Bom, este texto não é CRÍTICA a ninguém! Não é ofensa. É uma reflexão. Que eu gostaria que todos os catequistas adultos fizessem a respeito da IVC, suas etapas, seus ritos e o que cabe na catequese infantil. Pensem e se questionem. É só o que quero de todos. Argumentem sim, sem criticar nem ofender ninguém. É isso que um catequista adulto faz.

Ângela Rocha
Catequista ainda amadora...

"De quem lê, espera-se que saiba pensar. Quem não sabe pensar, acredita no que pensa. Quem sabe pensar, questiona o que pensa."

(Pedro Demo - professor e sociólogo).

terça-feira, 12 de junho de 2018

A GENTE SE ACOSTUMA, MAS NÃO DEVIA...



Dia destes, recebi um pequeno vídeo com o texto “Eu sei, mas não devia”, de Marina Colasanti. E escutando eu pensei, meio sem perceber, no quanto a gente “não devia”, mas, “se acostuma” a algumas coisas, também na catequese.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a não esperar muita coisa das nossas famílias. E entende a tantas e muitas desculpas para que elas não participem da Igreja. E, porque a gente já se acostumou, nem liga mais se é verdade ou apenas desculpa. E, porque já se acostumou a gente esquece o que é evangelização e vai na onda, fazendo só o “social” dos sacramentos.

A gente se acostuma a lembrar do encontro só no dia em que ele acontece e vai pra lá apressado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o conteúdo no ônibus ou no carro porque não teve tempo de ver antes. Pra que caprichar se ninguém presta atenção? E vamos pedindo ao Espírito Santo que faça por nós o que não temos tempo de fazer. E a virar as semanas sempre do mesmo jeito, sem ter pensado de fato, no que é a missão e no porquê do nosso chamado.

A gente se acostuma a ler as estatísticas da religião e a aceitar que cada vez mais as pessoas se afastam dela. Porque simplesmente não tem tempo. E, aceitando que a fé está morrendo, aceita as ausências e que haja cada vez menos crianças e famílias nas missas. E, aceitando os números, deixa de acreditar na evangelização.

A gente se acostuma a esperar o dia do encontro e receber inúmeros recados no whatsapp dizendo: “Hoje meu filho não pode ir”. E aceita que essa impossibilidade nem sequer tenha motivo para acontecer. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. E esquece que o produto mais importante das nossas vidas é o “acreditar”, ter esperança e amarmos uns aos outros.

A gente se acostuma à falta de comprometimento. Às salinhas fechadas, à luz artificial, a falta de espaço, à falta de material.  Se acostuma a não ouvir uma palavra de incentivo, a temer a autoridade das lideranças. E acha tão normal que seja assim!

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.  E no fim de semana não há muito o que fazer, aceita que ir à missa com as crianças, é só mais um transtorno e um incomodo para os pais. E a gente acaba satisfeito, e diz pra si mesmo "fiz a minha parte".

E assim a gente se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

E a gente se acostuma, não devia, mas acaba se acostumando...

Ângela Rocha

Abaixo o texto original:
Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)

Marina Colasanti
 nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com “Eu sei, mas não devia” e também por “Rota de Colisão”. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zoológico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

PARA MELHOR ESCREVER E SE FAZER ENTENDER!


Uma das atividades que mais fiz na vida, foi corrigir inúmeros trabalhos de alunos. Isso, claro, não me tornou expert em redação, mas, me trouxe um conhecimento considerável e muito válido na "arte de escrever". Porque, quando escrevemos, precisamos nos fazer entender, obedecer às regras de ortografia e gramática de nossa língua e colocar o texto dentro de algumas normas ditas de "metodologia científica".

Uma coisa que vocês devem perceber ao ler este texto é que a cada parágrafo eu “pulo” uma linha. Correto também, seria fazer um pequeno recuo da margem esquerda na primeira linha do parágrafo. E também que procuro não colocar mais que quatro frases num parágrafo ou estendê-lo além de cinco ou seis linhas. Claro que estou falando de “seis” linhas numa página A4 justificada, não no mural do Facebook que é bem mais “estreito”.
Vocês percebem que a leitura fica mais fácil assim? Pois é, são algumas regras da boa redação.

Além de ser indispensável colocar vírgulas e pontos nas frases, para que o leitor identifique a entonação e o final das sentenças, é preciso também não "cansar" o pensamento de nosso leitor escrevendo parágrafos muito longos. Porque se entende que o parágrafo é uma mudança de "pensamento". Ou então uma outra colocação com um novo enfoque.
Já percebeu que quando você se depara com um texto de parágrafo único e com um número superior a 6 linhas, seu cérebro reluta em fazer a leitura? Pois é, isso é porque a leitura já parece cansativa e é previamente descartada por ele. Por isso as mensagens de poucas linhas fazem tanto sucesso nas redes sociais. E se for uma imagem, então? Muitas curtidas e compartilhamentos virão. Nossa mente é um tanto “preguiçosa” e, é claro, prefere trabalhar menos.

Sempre que vocês forem redigir um texto observem essa regra simples: separe seus pensamentos em parágrafos e que esses parágrafos tenham no máximo cinco linhas. Coloque vírgulas e pontos para dar "fôlego" ao leitor. E sempre que forem publicar alguma coisa em suas páginas ou murais do Facebook, corrija o layout do texto. Normalmente o Facebook não assume os parágrafos do texto ou então deixa-o com frases quebradas e espaçamento muito longo entre linhas. Corrija-o antes de publicar.

O Facebook tem uma característica interessante: por ser uma REDE SOCIAL, dinâmica e interativa, ela privilegia “diálogos”, ou seja, sentenças curtas. Os leitores, via de regra, não buscam ler "artigos" ou "reflexões longas" na rede social. Isso porque pretende-se mais “diálogos” do que “monólogos”. Assim corremos sempre o risco de que ninguém nos leia se quisermos dizer algo além do "Ver mais"... E se o leitor der uma olhada e seu texto é uma sequência ininterrupta de 20 frases, sem pontos e parágrafos para descanso, aí é que ele não vai ler mesmo!

Então se você, como eu, não sabe ser econômico com as palavras, e quer que te "leiam", procure "paragrafar" seus textos. E corrija-os. Use a ferramenta “revisão” do Word ou de outro editor de textos. Além de deixar o seu texto mais “limpo” e correto, é uma ótima maneira de também aprender um pouco da nossa língua. Mas, certifique-se que o corretor está em português do Brasil.

Ângela Rocha
CATEQUISTA

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

VIEMOS OU NÃO DO "BARRO"?


COMO EXPLICAR AOS CATEQUIZANDOS QUE O HOMEM NÃO FOI FEITO DE BARRO E QUE O TEXTO DA BÍBLIA É 'LITERÁRIO'?

Uma catequista em nosso grupo fez a seguinte pergunta:

"Gostaria de saber como falar para criança de 7 anos que o homem não foi feito do barro , que o texto da Bíblia e literário?"

Aí, antes de tentar responder, eu tenho outra: 

Será que o homem não foi feito do barro mesmo?

Na Bíblia temos duas histórias da criação. Trata-se de duas fontes literárias diversas, ou seja, sem entrar em detalhes, de dois autores. O primeiro, em Gênesis 1,1 a 2,4, que conta a criação em 7 dias, e é chamado Sacerdotal.

A sua dúvida, tem a ver com a segunda história, numa versão chamada Jahvista. Essa história se encontra em Gênesis 2,7. O texto diz: “Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente.” E vamos mais fundo, o primeiro homem, cujo nome é Adão, vem de “adam”, que significa “vem do solo”.

A frase hebraica que a Bíblia de Jerusalém (tradução acima) traduz como “argila do solo” é “apar min-hadamah”. APAR pode ser traduzido como “poeira” e MIN-HADAMAH como “do solo”. APAR é o mesmo vocábulo usado para a frase muito conhecida por nós, presente em Gênesis 3,19: “Pois tu és pó e ao pó tornarás”. A expressão hebraica quer significar a terra solta que encontramos no chão. Por isso creio que a tradução correta poderia ser “pó da terra” ao invés de “barro”.

Hoje todos sabem que Adão e Eva não foram criados de um momento ao outro, num piscar de olhos, por Deus. Ou seja, o relato bíblico não é história, como entendemos os conceitos históricos. Não aconteceu de um dia Deus acordar e resolver: “Hoje vou criar o mundo!”. Isso não significa a Bíblia mente: A CRIAÇÃO É OBRA DE DEUS! Essa é a grande verdade bíblica que precisamos reforçar. Mas, como isso aconteceu, nós não sabemos exatamente e nem o autor do Gênesis sabia. A Bíblia ensina verdades que ultrapassam, muitas vezes, nossa visão racional. A maneira como o evento da criação está descrito na Bíblia é uma leitura feita por alguém (ou várias pessoas) da origem do mundo. É uma interpretação da origem do mundo inspirada pela fé em Deus, influenciada por elementos mitológicos, mas, trouxe novidade ao colocar Deus como criador e o homem ao centro desta obra.

Lembremos que a Bíblia é uma coletânea de livros sobre a FÉ, não um tratado histórico e científico. Cabe à ciência decifrar a origem do mundo, cabe à Fé guiar o homem. Fé e ciência não são dois polos opostos, mas se integram e se complementam.

Talvez a resposta esteja na Teoria da Evolução. Às vezes, porém, acontece que tal teoria se torna uma ideologia, negando aspectos igualmente importantes da criação. De fato quando os cientistas dizem que a criação de tudo depende do caso e da necessidade não estão sendo cientistas, mas guiados por uma ideologia. Do mesmo modo, erram os cristãos quando leem o texto do Gênesis como a verdade absoluta sobre a criação. O texto bíblico sobre a criação não pretende ser um texto de ciência natural ou de física, que pretende transmitir ao leitor dados informativos de ordem científica. De fato, a Bíblia tem por objetivo transmitir um outro tipo de informação, ou seja, que a vida, nas suas diferentes formas e expressões, não é um produto do acaso, mas de uma vontade transcendente.

Agora, voltando à pergunta que eu te fiz no início... 

Leia este artigo e depois veja se não temos razão em fazê-la. Será que não viemos mesmo de partículas de pó?


“A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio.”

(Carta Encíclica Fides et Ratio do Sumo Pontífice João Paulo II – set 1998)

Um abraço
Ângela Rocha

segunda-feira, 29 de maio de 2017

ADOTAR LIVRO PARA O CATEQUIZANDO OU NÃO?

Muitas comunidades paroquiais, usam um livro ou manual como subsídio para a catequese. E as coleções mais conhecidas tem o “Livro do catequista” e o “Livro do Catequizando”. Mais recentemente algumas coleções apresentam o “Livro da Família, ainda não tão conhecido e utilizado. Há quem adote os livros “Do Catequista” e “Do Catequizando”, há quem só adote o do catequista, há quem não adote nenhum, há quem use os livros somente como subsídio pessoal, enfim...

Vamos falar um pouco sobre o Manual de Catequese!

Quem dera a resposta fosse tão simples quanto a pergunta! "Adotar livro para o catequizando ou não?" é uma coisa difícil de responder sem examinar o contexto e a realidade catequética paroquial.

Adotar um manual como subsídio para os encontros, depende de inúmeros fatores: A começar pela realidade da paróquia/comunidade e pela formação do catequista; depois vem as fases ou etapas em que os catequizandos estão, suas idades, sua capacidade cognitiva. Depois vem o "Qual livro usar?"; em seguida: “A paróquia tem um Itinerário? ” e ainda "O catequista consegue trabalhar sem o livro?"... E por aí vai.

Só não concordo com uma colocação que já li em várias posições que defendem o não uso de um manual: "Que no processo de catequese catecumenal o livro não tem razão de ser". GENTE! Cuidado. Será que vocês sabem mesmo como é o processo de catequese catecumenal? Será que IVC está sendo implantada em sua comunidade? Vocês já ouviram falar no “Didaqué”? É um LIVRO de CATEQUESE dos primeiros séculos da Igreja onde se vivia a catequese catecumenal em sua plenitude. Não é porque a catequese é vivencial, experiencial e bíblica que ela deixa de ter conteúdo doutrinal e conteúdo da Tradição de fé da nossa Igreja.

Assim como a Bíblia e a mensagem Cristã, o conteúdo doutrinal também é base da nossa catequese, os dois juntos formam a base do Cristão. Um bom itinerário também envolve:  liturgia, orações, atividades educativas, comunitárias e missionárias. O que não pode acontecer é o catequista se fixar exclusivamente no conteúdo de um livrinho, sem expandir a catequese para seu aspecto vivencial, sem dar “vida” aos ensinamentos bíblicos.

E também é bom lembrar que as crianças que estão na faixa etária dos 7 aos 11 anos, têm um aprendizado mais visual. Esta crianças precisam de imagens para aprender (figuras, pintura, colagem), exercícios de repetição (orações); o ensino é mais didático, mais lúdico. É bom ter material de apoio. Nas primeiras etapas da catequese é complicado não utilizar algum material didático/pedagógico devido às características cognitivas da idade.

Alguns catequistas podem entender que o livro sugere uma "catequese escolar”. Não concordo com este posicionamento. De forma alguma o livro sugere uma catequese escolar ... a não ser que o catequista faça uma "catequese escolar"! Os livros proporcionam atividades complementares ao encontro, além de gerarem uma "economia" tanto ao catequista, que muitas vezes acaba reproduzindo material impresso com seus próprios recursos; quanto para a paróquia, que não terá que fotocopiar material para os catequistas. A questão é SABER USAR o livro. Ele não engessa se o catequista não se “imobilizar”, buscar complementos para enriquecer os temas, criar novas possibilidades de “ensinar” o conteúdo de fé.

É muito mais preocupante quando me dizem que estão "fazendo" material por si mesmos do que quando usam algum subsídio. Os subsídios, por mais que às vezes não contemplem a realidade da comunidade, são feitos por profissionais com conhecimento de catequética, pedagogia, psicologia, didática, etc.; que utilizam o apoio das ciências para elaborar os livros. O livro não é uma "amarra", muito pelo contrário, traz os conteúdos a serem trabalhados de forma esquematizada, contínua, e é uma grande ajuda ao catequista. Além de trazer os temas, ele dá pistas do que trabalhar e sugere formas de abordagem. Quase todos os catequistas que usam os manuais, procuram enriquecer seus encontros com atividades lúdicas, além daquelas descritas, assim como podem ter o discernimento de usar ou não determinada atividade.

E me preocupa também, quando leio que o método usado é o da "IVC" ou o da "Leitura Orante". A IVC é um "processo" muito mais amplo do que um método.

Da mesma forma, a “Leitura Orante” é um método de LEITURA DA BÍBLIA, considerando-a nos seus aspectos de oração e meditação, e não um método “catequético”. Mesmo porque, há que se considerar o fato de que a leitura orante com as crianças precisa ser trabalhada de forma diversa da qual se trabalha com adultos. Você pode e deve usar a leitura orante, mas, dentro da compreensão dos seus interlocutores, dentro dos “momentos orantes” do seu encontro. Não se pode extinguir a doutrina da catequese. O CIC é o "depósito da nossa fé", a interpretação e a compreensão da doutrina católica. Que não deve ser considerada foco principal, mas, necessária. Então, além da Bíblia, da leitura orante, a catequese precisa estar integrada com a doutrina e a tradição da Igreja Católica.

Só lembrando uma passagem do DNC:

"A catequese não é uma supérflua introdução na fé, um verniz ou um cursinho de admissão à Igreja. É um processo exigente, um itinerário prolongado de preparação e compreensão vital, de acolhimento dos grandes segredos da fé (mistérios), da vida nova revelada em Cristo Jesus e celebrada na liturgia (...); implica um longo processo vital de introdução dos cristãos ainda não plenamente iniciados, seja qual for a sua idade, nos diversos aspectos essenciais da fé cristã. Trata, de forma sistemática, de um todo elementar e coerente, que forneça base sólida para a caminhada ‘rumo à maturidade em Cristo’. (CNBB, Diretório Nacional de Catequese, nº. 37 e 38).

Será que um "livro" de catequese não é necessário para que possamos dar esta dimensão à catequese? O manual ou livro pode trazer esta dimensão, sem comprometimento do conhecimento necessário ao catequista e do tempo do encontro.

Mas, tem o livro do catequista! Não precisa do Livro do Catequizando. Só que estão abolindo este e substituindo-o por cadernos, anotações, diários, portfólios, ou seja lá qual for o nome. Qual a diferença? Aliás, que tempo precioso do nosso encontro semanal se perde se as crianças precisam "copiar" alguma coisa!

Mesmo o portfólio, que é um recurso didático para o catequizando registrar suas experiências fora da catequese, fazendo a interação fé e vida, lembra as "aulas" da escola. Trabalho há mais de 10 anos com as 3 primeiras fases da catequese (8 a 12 anos), e acredito que a prática do portfólio pode ser usada, dependendo das características da turma. Tive mais resultados indiferentes do que positivos. A maioria das crianças não "replica" o encontro com a família e não faz as atividades. Isso porque, na maioria dos casos, a prática religiosa não faz parte de suas vidas cotidianas. Uma prática mais eficaz para estabelecer a conexão fé e vida é a "contação de histórias". Tanto da parte do catequista, que trará seu exemplo de vida, quanto da parte dos catequizandos. Eles sempre vêm ao encontro com a "bagagem" do que viveram ao longo da semana. As crianças amam "contar" suas histórias de vida: o que fizeram, o que aconteceu de diferente. Isso nos dá "gancho" para muita interação com a fé.

Sobre a IVC e sua interação com o manual

A catequese de Iniciação à Vida Cristã, vital hoje para a Igreja, visa uma formação integral do cristão. É um processo onde está presente a dimensão celebrativa e litúrgica da fé; a conversão para atitudes e comportamentos cristãos; e o ensino da doutrina. 

A inspiração catecumenal remonta ao início da Igreja e leva a uma catequese em quatro tempos: o pré-catecumenato (anúncio e adesão), o catecumenato (catequese - ensino sistematizado dos conteúdos), o tempo da purificação e iluminação (preparação aos sacramentos), a celebração dos sacramentos da iniciação (Batismo, Confirmação e Eucaristia), o tempo da mistagogia (inserção na comunidade). São tempos pré-definidos que, se não acontecem nas comunidades, não está se fazendo ainda a IVC catecumenal. Inserir ritos e celebrações de entrega de símbolos na catequese, NÃO É PRATICAR A IVC. A comunidade e todo processo catequético precisa estar permeado pelas práticas de iniciação catecumenal. Precisamos ir mais a fundo neste assunto numa outra hora.

Como adaptar o manual à realidade da sua comunidade

Pessoalmente, por ter experiência e formação catequética, sou capaz de trabalhar a catequese sem um livro, mas, da 1ª a 3ª Etapa, utilizo os subsídios sugeridos pela Arquidiocese, tanto do catequista quanto do catequizando. Nem sempre utilizo as atividades do livrinho na quando na 3ª Etapa. Nesta, construo o roteiro baseado no tema do livro, enriqueço o encontro com outras atividades e outras abordagens, mas, os catequizandos o tem para saber "por onde andamos". O fato de haver um livro economiza bastante meu tempo e o tempo do encontro, pois preciso de atividades pedagógicas com as crianças. 

Já na catequese crismal, considero dispensável o livro do catequizando, utilizo somente do catequista. Isso porque o adolescente pode chegar ao encontro só com o celular da mão e deve ser sempre bem-vindo. Nesta fase, na catequese de crisma, a psicopedagogia é outra e os conteúdos são "reforço" da catequese de eucaristia. O livro é opcional e muitas vezes os crismandos nem o querem.

Uma coisa que se faz URGENTE, é a CRIAÇÃO DE ITINERÁRIOS para a catequese da comunidade/paróquia. E ITINERÁRIO não é só PLANEJAMENTO com datas e temas de encontros a serem trabalhados durante o ano. É muito mais complexo que isso. LEMBRANDO: Um itinerário PAROQUIAL, precisa de orientações DIOCESANA para ser construído. Os temas a serem trabalhados na catequese não são assuntos a ser "inventados" pelos catequistas, precisam obedecer às instruções do Bispo e sua equipe.

Assim, quando a equipe de catequese senta para fazer um itinerário, o apoio de um subsídio/ manual é fundamental. No livrinho estão os encontros com os temas sugeridos e atividades pedagógicas. A equipe pode analisar quais são os encontros necessários, adaptar ao tempo litúrgico, inserir as celebrações, a dimensão orante, comunitária e missionária.

Com o itinerário, o catequista terá um "mapa" do caminho a percorrer. E o livrinho/manual, será somente uma "garrafinha de água" que ele vai beber quando tiver sede, e não o "carro que ele vai subir" quando não quer caminhar. Só entregar os livros do Catequista e do Catequizando nas mãos do catequista não resolve. Vamos sempre continuar discutindo aqui se a gente "usa ou não usa", se o catequista consegue ou não fazer o encontro sem ele. Então, pelo lado "formativo" que o catequista costuma ter na nossa Igreja antes de assumir uma turma (quase nenhum!); pela carência de recursos materiais disponibilizados pela paróquia (o catequista paga muita coisa do próprio bolso); pela falta de planejamento e discussão de um itinerário; pelo "disfarce" de IVC que se está dando à catequese... Eu sou a favor de se usar livro para o catequista e para o catequizando.

Este meu “sou favorável” ao uso de livro/manual de catequese, se prende, sobretudo, à realidade da comunidade/paróquia onde o catequista está inserido. Hoje há uma confusão miserável em tudo: leitura orante na catequese, IVC, itinerário, planejamento, uso de dinâmicas, tempo litúrgico... E o catequista se pergunta aí no meio: como usar tudo isso, quando, onde? O que faço? O que coloco no encontro? Qual método é adequado?

Aí vem outra questão fundamental da nossa catequese:

Qual a formação de nossos catequistas? Como se organizam as dioceses e paróquias a nível de formação?

O grupo de catequistas de uma paróquia/comunidade é continuamente renovado. Além da rotatividade de pessoas, há um percentual muito grande de jovens, o que é muito bom, mas falta um pouco de “experiência” e prática. De outro lado, há catequistas de longa caminhada, alguns aceitam se renovar constantemente, já outros permanecem na catequese do passado e rejeitam as formações. A carência de formação é sempre constante, repete-se os princípios básicos e os temas de formação quase sempre voltam. Avança-se muito pouco numa formação continuada.

Uma amiga formadora me disse que é uma tarefa árdua formar o grande contingente de catequistas, arejar cabeças, ler documentos, estimular aprendizado novo... E eu concordo com ela. Não é nada fácil, começar sempre da base: voltar sempre ao “Ser, saber, saber fazer”, e ter olhos renovados para cada coisa. A maioria dos nossos catequistas sequer chega ao conhecimento básico para criar um roteiro de encontro sozinhos. Como então, nos vemos nesta questão de não usar um manual?

Para não usar um livro ou manual, o próprio catequista precisa "ser" um livro. Precisa de uma bagagem e de conhecimentos que muitas vezes não possui. Então,  a pergunta que fica é: Estamos proporcionando formação para isso?

Ângela Rocha

Equipe Catequistas em Formação


Obs.: Que fique claro que as opiniões deste artigo são pessoais, da autora. Não tenho o objetivo de privilegiar ou criticar este ou aquele livro/manual. Cabe às comissões paroquiais e aos catequistas analisar se o uso deste ou daquele material, está de acordo com o contexto em que sua comunidade está inserida, sempre seguindo as orientações de sua diocese. Por mais que se tenha "adotado" um manual específico, o uso e a consulta a vários manuais, longe de prejudicar à catequese, ajuda muito a prática do catequista.