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terça-feira, 20 de outubro de 2015

SILÊNCIO, GESTO E PALAVRA

O encontro do homem com Deus, no silêncio, pode se dar em qualquer tempo e em qualquer lugar; contudo, há na vida do cristão um momento particularmente propício para esse encontro, um momento único, em que a eternidade se condensa na duração sensível: a MISSA!
A Missa resume Cristo, e é por isso que todo cristão deve participar dela.
O adulto, como ser racional que é, normalmente participa na missa pelo pensamento e pela palavra e, sendo a sua fé uma adesão voluntária da razão, exprime-se por meio de fórmulas. Porém, a criança, essencialmente intuitiva, é completamente diferente do adulto, e como a graça se apóia sempre na natureza, na criança, apóia-se no pensamento intuitivo que se traduz pela ação.
"A Ação!" Era assim que os cristãos dos primeiros séculos designavam a missa. Com efeito, a missa, longe de ser uma formulação do mistério, é o próprio mistério em ação.
Sendo assim, parece-me que não é arbitrário reclamar para as crianças o direito de participarem na missa pelo movimento e pelo gesto, acompanhando os deslocamentos do sacerdote no altar, sem palavras, comentários e oração vocal. As missas silenciosas exigem longa preparação e uma certa encenação, mas, revestem-se de grande solenidade.
Numa sala ou numa capela desprovida de cadeiras, as crianças, de frente para o altar, mantêm-se em pé, de mãos postas e deslocam-se com o celebrante; de olhos fixos nele. são arrastadas pelo ritmo espacial da Liturgia e observam, movem-se e escutam.
Familiarizadas com algumas palavras do rito, assim como com o simbolismo dos gestos, afirmam compreender tudo. E falam a verdade, pois, para elas, compreender não é analisar, mas, orientar a atenção. As sílabas sonoras das exortações eucarísticas, pronunciadas na tonalidade litúrgica, do mesmo modo que o som dos sinos, produzem um efeito calmante. Os gestos fixam a atenção e, caladas, cativadas, fascinadas e empolgadas, as crianças acompanham o celebrante, participam realmente na ação sagrada e penetram no mistério pela porta do silêncio. "Não se pensa em mais nada!", dizem elas.
Em algumas paróquias adotou-se esta minha maneira de agir, fazendo com que as crianças sigam a missa deslocando-se com o sacerdote. Porém, juntaram as respostas da missa dialogada, e, assim, a atenção dividida, o recolhimento é praticamente nulo.
- Você percebeu o que o padre está dizendo? - Perguntou uma mãe ao seu filho, que se contorcia durante uma missa comentada para crianças.
- Como é que eu posso perceber se el fala o tempo todo?

Este é o testemunho dos fatos; que aqueles que educam as crianças na fé, dele tirem proveito. A linguagem sonora da palavra articulada é menos favorável ao silêncio interior do que a linguagem do olhar e do gesto"

* Helena Lubienska de Lenval  In Silêncio, Gesto e Palavra (1952), Editora Aster, Lisboa, tradução Jaime Cunha. 

*Hélène Lubienska de Lenval (1895 a 1972) nasceu na Polônia e faleceu em Bruxelas, pedagoga da Escola Montessoriana, desenvolveu suas idéias, especialmente no campo da educação religiosa, ensinando a preparação de um ambiente em que a criança pudesse aprender com liberdade, sendo esta inclusiva e significativa. Isso não significava negligência ou indiferença ao conteúdo, mas buscava o respeito ao desenvolvimento do ser. Sua meta era construir homens conscientes, de vocabulário constante, silencio interno, disponibilidade, gesto, palavra, atenção, contemplação, docilidade e fé. Em suma sua pedagogia se baseia em um tripé entre CORPO, ALMA e ESPÍRITO, na qual pretendia formar uma educação para a liberdade e independência.


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A MISSA: Conhecendo e celebrando

A missa é um tema que permeia os conteúdos catequéticos que preocupa muito os catequistas que se veem, quase "desesperados", para fazer com que seus catequizandos participem dela. Mas, como "ensinar" a missa? Como fazer com que nossos catequizandos "se encontrem" na liturgia?


Falar sobre a missa nos encontros de catequese é necessário. Mas, precisamos tomar cuidado para não passar a Liturgia da missa como uma "lição" ou um "ponto" a ser aprendido. Antes de ser um assunto a ser "dissecado" em partes, a missa precisa ser "Celebrada", "Vivida" em toda a sua plenitude como um momento de contemplação e oração. A missa então, precisa ser mais "compreendida" na sua vivência, do que "ensinada". A Missa é muito mais uma Oração Contemplativa, do que de conteúdo a ser aprendido.

Contemplação? "Ah! As crianças não são capazes disso!"... Podem dizer alguns. Sim, a criança de hoje infelizmente não é educada para o silêncio e a contemplação. Mas, não significa que ela não é capaz disso! 

Entre os traços mais admiráveis da criança educada num ambiente favorável, está a atenção contemplativa. Que não é outra senão a atenção espontânea e natural da criança. Toda criança é capaz de "contemplar". É observando que elas aprendem, "vendo acontecer", no entanto elas precisam ser incentivadas nesta atenção, preparadas para se abrir ao novo e ao diferente, àquilo que lhes desperta "sentimentos" e emoções.

A pedagogia, neste caso, deveria antes de tudo ser a arte de favorecer os esforços do espírito na sua grande aventura de se associar com a matéria, aquilo é físico e visível; aventura que comporta alternância de êxitos e fracassos comparáveis às do dia e da noite, da saúde e da doença, da alegria e do sofrimento. Estas alternâncias, são muito reais, não só na vida das pessoas mais "espirituais", quanto na vida das pessoas mais afastadas da fé e, por que não? Na vida das Crianças! A liturgia não despreza ninguém, ela se dirige a todos, a grandes e pequenos, a fervorosos e fracos, a sábios e insensatos.

É esta talvez, a lição suprema da Liturgia, enquanto ciência da educação espiritual. Muitas vezes, almas perturbadas ficam sem apoio algum, porque a psicologia moderna, cada vez mais influenciada pelo materialismo, procura explicar tudo pelo estado físico ou pelo turbilhão dos instintos. Então, a ciência recomenda  repouso, receita remédios, favorece o recolhimento e o egocentrismo, sendo que estas almas atormentadas precisam é de uma mão firme que as tome e as eleve acima das tempestades físicas e psíquicas, para as colocar na presença de Deus: presença inacessível aos sentidos, mas perceptível à fé.

E nisso a liturgia também se preocupa. Busca nos "sentidos" trazer a pessoa ao estado de contemplação, fazendo-a "sentir", o que vê, o que escuta, o que aspira, o que toca sua pele: A luz do sol atravessando os vitrais, o perfume do incenso e das flores, o calor e a luz de uma vela, o toque de um respingo de água benta...

É o que faz a liturgia, ela não ignora as preocupações das pessoas, admite suas misérias e transforma-a em motivo de confiança. Não despreza os sentimentos, antes os eleva a um estado de contemplação, de resposta aos seus anseios.

Quare tristis es anima mea et quare conturbas me? *

Sem nenhuma explicação, nenhum psicologismo, mas, como um voo direto para o essencial:
Spera in Deo.**


As imagens a seguir são das partes que compõem a Liturgia da Missa. Elas também estão disponíveis em Slides para que se trabalhe num encontro. A sugestão é que o assunto seja repassado uma vez fora do espaço sagrado, depois que seja vivenciado a cada domingo junto com a comunidade. Assim, a cada encontro subsequente às missas, o catequista pode explorar, os sentimentos percebidos pelos seus catequizandos a cada uma das partes. O que ele viu e sentiu, suas dúvidas, suas curiosidades. Vejamos então que teremos assunto para, no mínimo, mais 17 encontros.





















Por que você está triste, minha alma e por que me conturbas?
** Confie em Deus.

Link da apresentação em Powerpoint: 

https://drive.google.com/file/d/0Bw5YBpDnWbIzaXBJaE1HTExLYmc/view?usp=sharing



FONTES DE CONSULTA:

A educação do homem consciente de Helena Lubienska de Lenval. Flamboyant, 1962.
Celebrar a Eucaristia com crianças de Jose Aldazabal. Paulinas, 2008.
IGMR - Instrução Geral do Missal Romano. CNBB, 2008.


Ângela Rocha
Catequistas em Formação

domingo, 11 de outubro de 2015

CATEQUESE E TEMPO LITÚRGICO


CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO
Formação Básica para Catequistas
  
CATEQUESE E TEMPO LITÚRGICO
Como adequar a catequese ao tempo litúrgico

Uma das primeiras formas de se adentrar à Iniciação à Vida Cristã é a catequese, que não deve ser confundida como mera transmissão de dogmas e preceitos. E é isso que a IVC – Catequese pelo Processo Catecumenal, pretende: Iniciação além de recepção de sacramentos. Que a catequese não seja um “cursinho”, que dá diploma ao final (sacramento), mas, um processo de iniciação à fé e à vida em comunidade.

Hoje a opção religiosa é uma escolha e não simplesmente tradição e imersão cultural; daí a exigência de formar cristãos firmes e conscientes de sua fé. Ao assumir seriamente a iniciação cristã estaremos entre os primeiros beneficiados: fará crescer tanto evangelizados como evangelizadores em toda comunidade. Se tivermos pessoas verdadeiramente evangelizadas, teremos discípulos missionários e teremos catequistas.

É preciso que a catequese ajude na vivência do mistério de Cristo, do qual os catecúmenos ou catequizandos, desejam participar plenamente pela iniciação. Para isso, a catequese deve ser distribuída por etapas, integralmente transmitida e relacionada com o Ano Litúrgico, apoiada em celebrações da palavra.

 As celebrações da palavra, inseridas nos tempos litúrgicos e com um elenco próprio de leituras bíblicas, ajudam a assimilar os conteúdos da catequese (por exemplo o perdão, a solidariedade e todos os valores cristãos). As celebrações ensinam de forma prazerosa “as formas e os caminhos da oração”, aproximam dos “símbolos, ações e tempos do mistério litúrgico” e introduzem “gradativamente no culto de toda a comunidade”.

Hoje, numa tentativa de “abeirar-se” do Catecumenato como processo de iniciação à vida cristã, muitas comunidades estão adotando o Ano Litúrgico como Calendário para orientar a catequese. Inicia-se a catequese logo após a Páscoa e, num processo gradual e contínuo - dependendo da preparação dos catecúmenos e catequizandos - os sacramentos da iniciação são feitos ou no Sábado ou no Domingo de Páscoa. Por que?

Ora, acontece que a catequese está estreitamente ligada ao tempo litúrgico pela Quaresma, que são os 40 dias de preparação que a Igreja nos traz para a conversão, jejum, penitência e caridade. E encontramos esta orientação no RICA (pg. 115, item 139): “...os sacramentos da iniciação devem ser celebrados nas solenidades pascais e sua preparação imediata é própria da Quaresma”.

Na Quaresma que precede os sacramentos da iniciação, realizam-se os Escrutínios e as Entregas, ritos que complementam a preparação espiritual e catequética dos “eleitos” e se prolongam por todo tempo quaresmal.

* Escrutínios são rituais que se realizam por meio de exorcismos (orações e bênçãos), e são de caráter espiritual. O que se procura por meio deles é purificar os espíritos e os corações, fortalecer contra as tentações, orientar os propósitos e estimular as vontades, para que os catecúmenos ou catequizandos se unam a Cristo e reavivem seu desejo de amar a Deus (RICA 154 a 159).

Uma coisa que nos passa despercebida é que toda a Liturgia Quaresmal foi feita para a catequese! Nada mais correto então, que, aqueles que estão sendo preparados para adentrar ao Mistério da Morte e ressurreição de Cristo, pela EUCARISTIA, o façam após este período de preparação. Observemos que todas as leituras dos cinco domingos da Quaresma são uma preparação para que os novos cristãos recebam os sacramentos da Iniciação.


A CATEQUESE NO TEMPO DA PURIFICAÇÃO E ILUMINAÇÃO (QUARESMA):

Todos os anos o Primeiro Domingo da Quaresma é dedicado à reflexão das tentações de Jesus (Lc 4,1-13). Apresenta o modo como o Mestre as enfrentou e tem como finalidade indicar aos catecúmenos e aos batizados qual é a tática usada pelo inimigo e como lhe resistir. Neste primeiro domingo o RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos), prevê o Rito da Eleição ou inscrição do nome dos candidatos a receberem os sacramentos.

O Segundo Domingo de Quaresma, apresenta a transfiguração. Os cristãos devem estar conscientes de que seguir a Jesus significa dar a própria vida. O grão de trigo morre, mas ressuscita sempre numa forma nova e centuplicada. O destino último do homem não é a morte, mas a ressurreição, como mostra o sinal da transfiguração.

Do Terceiro Domingo em diante os temas variam conforme o ciclo litúrgico

* Neste 3º domingo, conforme o RICA realiza-se o 1º escrutínio, no 4º Domingo o 2º e no 5º domingo o 3º. As “Entregas” devem ser feitas depois dos escrutínios e podem ser feitas durante a semana: O Símbolo (Credo) deve ser entregue depois do 1º Escrutínio; a Oração do Senhor (Pai Nosso), depois do 3º. Estas entregas podem também ser feitas durante o catecumenato para enriquecer o mesmo, a maneira de “ritos de transição. (Rica, 53). O RICA recomenda que a Celebração do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia sejam feitos na Vigília Pascal.


ANO A

As leituras do ano A atualizam a celebração da Morte-Ressurreição de Cristo. Esta celebração é como o tecido de fundo de todas as leituras. Como todos os sacramentos cristãos estão ligadas de uma maneira ou de outra a esse Mistério Pascal, essas leituras vão constituir a melhor preparação aos “Sacramentos da iniciação cristã".

Temos então neste ano A, no 3º Domingo, a Samaritana no poço (João 4, 5-42), numa estreita correlação que é Cristo quem nos dá a água da vida. Pelo batismo nos é dado o amor de Deus derramado em nossos corações. No 4º Domingo, Jesus cura o cego de nascença (João 9,1-41). O dom da vida transmitido no batismo desenvolve-se em dom de luz. Por meio dos sacramentos nossos olhos abriram-se como os de o cego de nascença pois podemos ver as coisas segundo a visão de Deus. No 5º Domingo, Jesus ressuscitou Lázaro (João 11,1-45), ele é a Vida e dá a vida aos que acreditam n’Ele. Nos sacramentos da iniciação cristã recebemos a vida nova e somos transformados em criaturas novas.

ANO B

As leituras do Ano B, põem em evidencia o mistério da Aliança e a conversão necessária para entrar na amizade da Aliança.

Aqui vemos a Aliança selada com Noé (1º Domingo), com Abraão o antepassado do Povo escolhido (2º Domingo) e com o povo de Israel pela intermediação de Moisés (3º Domingo) são anuncio e prefiguração da Aliança nova e eterna selada por Deus com toda a humanidade em Cristo Jesus, selada no sacrifício da Cruz. Como a serpente elevada por Moisés no deserto é sinal de cura, igualmente a cruz de Cristo é sinal e realização da salvação: para ter acesso a essa salvação em Cristo é necessário converter-se, acreditar na luz e seguir a Cristo crucificado (4º Domingo). Deus, pelo profeta Jeremias, anuncia uma nova Aliança inscrita nos corações. Esta nova Aliança realiza-se em Cristo que vem reconstruir a humanidade e juntar tudo na unidade (João 12). Para fazer parte desta humanidade nova é necessário aceitar converter-se para viver da nova lei, o amor que inclui mesmo o inimigo (5º Domingo).

ANO C

Nas leituras do Ano C, o tema central é da paciência de Deus e da conversão. Deus chama o pecador à conversão e lhe oferece seu perdão quando volta a Ele.

Como para os anos A e B os dois primeiros domingos do ano C falam da tentação de Jesus (Lucas 4) e da transfiguração (Lucas 9). A tentação significa a escolha do homem diante o mistério de Deus e da fé. E uma opção a seguir Cristo para cumprir assim fielmente a vontade do Pai. Seguindo a Cristo, o Filho bem-amado, seremos transfigurados e teremos parte na sua glória.

Os três outros domingos da quaresma do ano C nos falam da teologia da paciência e do perdão de Deus. Jesus nos fala da conversão necessária: "Se não mudais de vida, morrereis todos" (Lc 13,1-9). Deus é paciente (a parábola da figueira que não dá frutos), se rejeitamos até o fim a graça que nos é oferecida não escaparemos ao juízo (3º Domingo).
Jesus propõe-nos a parábola do pai misericordioso (Lucas 15,11-31 ). Deus é paciente, Ele espera o homem pecador que se afastou dele como o pai da parábola espera o filho que abandonou a casa paterna. As leituras deste 4º Domingo são um hino à bondade de Deus e à reconciliação com Ele. Nas leituras do 5º Domingo diz-nos: “Não vos lembreis dos acontecimentos de outrora, nem penseis mais no passado, pois vou realizar algo novo” (Is 43,18-19). A mensagem que Deus nos dá é esta: Ele perdoa sempre, de forma incondicional, nunca condena, como prova a atitude de Jesus no Evangelho. Jesus acolhe e levanta a mulher adultera, ele diz-lhe: "eu não te condeno, vai e não peques mais" (João 8,1-11).

No Domingo de Ramos (ou sexto Domingo da Quaresma), todos os anos, é lido o relato da paixão: No Ano A, do Evangelho de Mateus; no Ano B, do Evangelho de Marcos; e Ano C é lido o Evangelho de Lucas.

Percebe-se então que, Catequese e Liturgia, tem uma estreita ligação. Uma não há de existir sem a outra, já que a catequese “educa” para a Liturgia e esta, por sua vez, não existirá se não houver catequese e orientação para ela. Adequar, portanto, os ritos e celebrações dos sacramentos ao Tempo Litúrgico é condição primeira para que esta possa ser chamada de Iniciação à Vida Cristã. No entanto, todo o processo se Iniciação ficará comprometido caso se faça ritos e celebrações apenas para cumprir “calendário” e obrigações, desta forma, toda a Liturgia que se pretende ser profunda e mistagógica, não passará então, de mero ritualismo de nossa parte.

Ângela Rocha
Catequista

CONSULTAS:

Domingos Ormonde. Iniciação cristã e catecumenato. Revista de Liturgia. Novembro/dezembro 2001, pág. 28 e 29.

Congregação para o Clero. Diretório Geral da Catequese (DGC), 1997. n. 90 e 91.

Sagrada Congregação par o Culto Divino. RICA – Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (1973). São Paulo: Paulinas, 2003.


Guias Litúrgicos: Anos A, B, C. (2013, 2014, 2015). Petrópolis: Vozes.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Missa com Crianças

Sim ou não? De que modo?

Muitas comunidades cristãs celebram Missa com crianças. Umas fazem-no no contexto da Missa Paroquial; outras o fazem só e especificamente no âmbito da Catequese, para as crianças, catequistas e seus familiares. Qual a melhor solução? Terá sentido celebrar só com crianças? Num caso e/ou noutro, quais são os critérios para se levar em conta para este tipo de celebrações? A partir da leitura atenta do Diretório para a Missa com Crianças ficam aqui algumas reflexões que podem nos ajudar a definir ou clarificar alguns critérios para estas celebrações.


O Diretório para a Missa Com Crianças

Com mais de trinta anos, o Diretório para a Missa com crianças, continua a ser desconhecido e, sobretudo, não suficientemente valorizado. Os seus princípios e perspectivas continuam válidos e atuais.

As grandes novidades do Diretório são: o apresentar de novas e específicas orações Eucarísticas com uma linguagem mais adequada às crianças; a possibilidade de que a homilia seja feita por um leigo (DMC 24); a possibilidade de introdução de música gravada (DMC 32); o convite a uma expressão (mais) corporal e visual (DMC 35-36); a possibilidade concedida às Conferencias Episcopais de elaborarem Novos Lecionários (DMC 43); a faculdade de modificar as orações do Missal de modo a torná-las mais acessíveis e compreensíveis às crianças.


O título escolhido para o Diretório é também significativo: Diretório para a Missa COM crianças; não PARA crianças (como se elas fossem meros espectadores, sem participação ativa); não DE crianças (porque a Missa é sempre a missa, não é de crianças nem de adultos). Missa COM crianças expressa uma concepção fundamental: a Missa celebra-se com as crianças e as crianças também celebram (DMC 28), também são Povo de Deus convocado para celebrar.


O dever da Igreja

Cuidar das crianças batizadas (as que ainda não fizeram a Primeira Comunhão e as que já a celebraram) é um dever da comunidade cristã. Esta tarefa cabe em primeiro lugar aos pais (DMC 10). Todavia, como reconhece o Diretório Geral da Catequese, no n.º 5, “as condições da vida atual em que crescem as crianças são pouco favoráveis ao seu progresso espiritual”. Por isso, a comunidade cristã aparece como protagonista da responsabilidade de educar na fé. Assim, o Diretório para a Missa com Crianças reconhece que o culto cristão, e designadamente a Eucaristia como seu centro, é o melhor ambiente para fazer experimentar à criança a salvação de Deus que chegou em Cristo e que celebramos em comunidade.


A dificuldade reside no fato de que as celebrações cristãs estão pensadas para adultos: a
sua estrutura, os seus sinais, a linguagem dos textos, etc., não são fáceis de serem compreendidos pelas crianças e, por conseguinte não exercem sobre elas a força pedagógica que lhes são próprias. No entanto, isto não pode servir de desculpa, porque
como se refere no DMC 2, a psicologia moderna sustenta que não é a inteligência a chave primordial da aproximação às coisas e aos valores. A experiência religiosa é marcante na infância. A teologia é para os adultos, mas a fé é para todos e também para as crianças (Cf. DGC, n.º 78).


Celebração e Vida

Um dos maiores defeitos da atenção à liturgia é separá-la do resto dos aspectos da vida cristã. O Diretório (N.º 8) fala de educação litúrgica das crianças em conexão com a “vida plenamente cristã”; com o Batismo (raiz de toda a vida de fé e de todos os dons de graça que um cristão recebe); com o amor de comunhão com Cristo e com os irmãos (de que a Eucaristia é sinal e dádiva); com a educação geral, humana e cristã.


São inúmeros os valores humanos subjacentes à celebração eucarística e que importa valorizar, antropológica, pedagógica e liturgicamente: o saber fazer (celebrar) em comum com outros; o fato da saudação; a capacidade de escutar; a atitude de dar e receber o perdão; a atitude de expressar o agradecimento; a linguagem dos símbolos; o comer fraternalmente com os outros; a experiência duma celebração festiva; (Cf. DGC, nº 25). Obviamente que a Eucaristia é mais do que isto, é a Celebração do Mistério de Cristo. Mas a linguagem com que as crianças a hão de celebrar plenamente está sugerida nos valores humanos indicados.


Catequese sobre a Eucaristia

Parece óbvia a necessidade de catequese especial sobre a Eucaristia, apesar do reconhecimento de que a própria celebração tem uma força didática (celebrando bem, vamos entrando pouco a pouco na sua dinâmica).

Em suma, esta catequese:
a) não pode ser isolada ou ocasional (por exemplo: só para preparar a primeira comunhão);
b) deve iniciar (não só e simplesmente explicar) à Eucaristia pela descoberta do significado da Missa através dos principais ritos e orações;
c) não pode ser separada da iniciação eclesial (há que iniciar à descoberta do significado... da participação na vida da Igreja);
d) deve incidir particularmente na Oração Eucarística;
e) deve preparar para a participação na Comunhão Eucarística e subsequente celebração do Sacramento da Reconciliação.

O Diretório fala ainda de Celebrações monográficas, que serão celebrações mais informais prevalentemente pedadógico-formativas sobre as atitudes básicas a desenvolver na Eucaristia (o sentido da saudação, o silêncio, o louvor comum, a escuta da Palavra de Deus).


Missas Paroquiais com crianças

O Diretório aborda as duas situações mais comuns em que participam as crianças na Missa. A primeira são as missas com adultos em que participam também as crianças. Esta categoria inscreve-se dentro daquilo que podemos designar de Missas Paroquiais. Nestas há, segundo o Diretório, uma dupla influência benéfica: os adultos, que com a
sua participação ativa são um exemplo vivo para as crianças; as crianças, que com a sua presença ativa, são um motivo de alegria e estimulo para os adultos. A situação ideal é a de uma Eucaristia em que participa a família toda.


Para que estas Missas paroquiais sejam de verdade educativas para a fé das crianças, o Diretório sugere dois aportes:

1) que se lhes preste especial atenção nas monições e homilia e até em alguns serviços;

2) que a primeira parte da celebração — a Mesa da Palavra — possa ser em lugar à parte, com incorporação na segunda parte, a partir do ofertório (sem obscurecer a unidade de todas as partes da Missa). Este aporte requer evidentemente mais trabalho e cuidado e a presença de catequistas responsáveis. Não são momentos para “entreter”, mas, para “celebrar”. Pode haver Missas Paroquiais mais adaptadas a crianças. São aquelas em que toda a comunidade sabe que é particularmente preparada e dirigida às crianças.


Missas com crianças

A segunda é a Missa com Crianças em que participam somente alguns adultos. É especialmente sobre estas celebrações que se debruça o Diretório. E a primeira afirmação fundamental é a de que a Missa com crianças não é a situação ideal (é útil, necessária, mas por pedagogia e provisoriamente). O objetivo é a iniciação à Eucaristia sem mais, a Eucaristia da comunidade cristã, em que são também acolhidas e atendidas as crianças. É bom que desde o princípio as crianças saibam e sintam que a Eucaristia é “coisa de adultos”, que não se identifica com a sua idade infantil ou com o período escolar e catequético, mas que é a celebração central de todos os cristãos. Daqui nasce o critério fundamental: a Missa com crianças não deve ser muito distinta da Missa comunitária. A Missa com crianças é caminho para a Missa da Comunidade.


Sugestões para a Celebração da missa com crianças

O objetivo da Missa com crianças é o de conduzi-las a uma participação ativa, consciente, comunitária, piedosa, interna e externa na celebração. No sentido de atingir este objetivo, o Diretório apresenta algumas sugestões muito concretas, que convém aqui elencar e sujeitar à reflexão.


Os Ministérios: Se na Missa com adultos já se recomenda o desempenho de alguns ministérios pelas crianças, aqui mais claramente aparece como evidente esta participação ministerial. Notem-se alguns destes ministérios:
- preparar o altar;
- cantar;
- tocar instrumentos musicais;
- proclamar as leituras;
- dialogar na homilia (se convocados);
- oferecer os dons no ofertório;
- etc.


O presbítero que preside à Missa com crianças (não para as crianças): dever ter qualidades especiais e dominar alguns princípios de psicologia pastoral:
- o seu modo de atuar e de falar deve ser digno, claro e simples,
- criando um clima de festa, fraternidade e meditação,
- tornando inteligível a sua linguagem,
- e adaptando as orações e monições (sem infantilismos).


Canto e Música: O Diretório dedica um largo espaço e grande importância ao canto, exatamente por se tratar de celebrações com crianças (DMC 19). De entre os diversos cantos dê-se prioridade às aclamações, sobretudo as da Oração Eucarística. Os cânticos de outros momentos da celebração sejam igualmente breves, com qualidade (em letra e música). Os cantos do Glória, Credo, Santo e Cordeiro podem ter uma letra adaptada e adequada. Entre nós, o repertório para a Missa com Crianças não é abundante, mas já é significativo.


Pode ainda utilizar-se a música instrumental e o uso de instrumentos, sobretudo se tocados pelas próprias crianças (em ordem à participação ativa e interna). O Diretório não especifica quais os instrumentos a utilizar; fala apenas de “os instrumentos musicais” (DMC 32).

Gestos, movimentos e imagens: O Diretório afirma que devem fomentar-se os gestos, o movimento e a criatividade visual nas Missas com crianças, a partir de duas razões fundamentais: 1) a natureza própria da liturgia, que é “ação do homem todo” e não só da inteligência e da vontade: a liturgia usa por natureza que lhe é própria os sinais e os gestos simbólicos; 2) a psicologia das crianças que, mais que os adultos, sabem e necessitam de expressar-se com gestos, movimentos e imagens.


Haverá que fazer uma Catequese sobre os gestos e sinais clássicos da celebração eucarística, como a fração do pão, a utilização do pão e do vinho, os gestos das mãos, etc. No que toca ao movimento, o Diretório assinala a importância da participação das crianças na procissão de entrada, na procissão do evangelho, na procissão do ofertório e na procissão para a comunhão (DMC 34).


A liturgia não deverá nunca aparecer como algo árido e puramente conceptual. Assim, e porque a liturgia afeta todos os sentidos e ainda que prevaleça a Palavra ouvida e proclamada, o Diretório escancara a porta da criatividade visual. Ao longo do Ano Litúrgico, podem e devem valorizar-se os símbolos, sinais, ornamentos e cores próprias de cada tempo (DMC 35).


O Diretório reconhece ainda a utilidade do uso de imagens preparadas para ilustrar a homilia, a mensagem central das leituras, ou as intenções da Oração dos Fiéis. Neste âmbito parecem legitimar-se também o uso de diapositivos e imagens de vídeo, desde que devidamente contextualizadas e integradoras na celebração e não substituam ou diminuam a importância da Palavra (DMC 36).


A Palavra de Deus: O Diretório dedica 9 números à Palavra de Deus. Na verdade, a Palavra de Deus não se proclama para entreter, ou como relato piedoso ou como catequese sistemática. É “celebrada”, com atitude de fé, com canto, com meditação, com a consciência de que Deus nos fala hoje e aqui. Não se trata de nos colocarmos diante da Palavra como diante duma lição ou tema de estudo, mas diante duma Pessoa que nos fala, que tem tempo para nós, que nos interpela e nos anuncia o seu amor e o seu plano de salvação.


É com este objetivo final que o Diretório permite e sugere algumas adaptações:
- a redução do número de leituras: podem suprimir-se uma ou duas leituras, mas nunca o Evangelho (e nunca suprimir as duas primeiras por hábito ou sistema);
- a substituição das leituras do “dia” respectivo por outras que pareçam mais convenientes num momento determinado;
- a recusa da tentação de adaptar sempre leituras breves (um texto breve nem sempre é o mais inteligível). O princípio seria: “todo depende do proveito espiritual que a leitura possa proporcionar-lhes" (DMC 44);
- a recusa da tentação de paralela e simultaneamente ir explicando o texto bíblico (há o perigo da confusão entre o que diz a Palavra e o que dizemos nós; para superar esta dificuldade usem-se traduções pedagogicamente preparadas e adaptadas). (DMC 45).


No canto entre as leituras, permitem-se também algumas adaptações:
- no caso do salmo, escolha-se salmo e melodia simples, mas que seja de verdade um salmo e não um canto qualquer; que se cante pelo menos o refrão e que seja ressonância do tema central da primeira leitura escolhida; no caso de ser deveras impossível encontrar nenhum salmo ou refrão, pode cantar-se outro canto a modo de salmo, mas com intenção (melódica e textual) de aprofundar o tema da leitura anterior;
- sugere-se o canto do “Aleluia com versículo” (embora nos pareça legítimo suprimir o versículo já que o Aleluia é canto de aclamação e não de meditação);
- sugere-se que, uma vez por outra, depois da primeira leitura se siga somente um momento;
- sugere-se ainda que se prepare um canto adequado para depois da homilia. (DMC 46).


A Palavra de Deus não atua sempre automaticamente. É preciso “ajudar” a Palavra (como se pode inferir da parábola do semeador). O Missal oferece alguns recursos (pedagógicos) para a Missa com crianças:
- a monição antes da proclamação da leitura (a modo de apresentação e ambientação);
- a leitura “dialogada”.


Outras ajudas pedagógicas podem ser:
- o cuidar do lugar da proclamação (o ambão e o livro);
- a procissão para o Evangelho;
- uma boa proclamação: preparada, serena, expressiva;
- uma encenação: sóbria, que não necessite demasiada preparação nem aparato;
- a meditação (e/ou homilia) com imagens que ajudem à compreensão da leitura; (DMC
47).

A Homilia não deve faltar nunca na Missa com crianças. Duas notas apenas: a homilia, na Missa com crianças, pode ser feita por um leigo (devidamente preparado e autorizado pelo presidente da celebração); pode ser dialogada. (DMC 48).


As grandes atitudes da eucaristia

A iniciação eucarística supõe a introdução às grandes atitudes que constituem o conteúdo da Eucaristia (e que se enumeram no Diretório, nº 9 e 13) e que são:

a) REUNIMO-NOS com outros para celebrar;
b) ESCUTAMOS A PALAVRA que Deus nos dirige;
c) DAMOS GRAÇAS e bendizemos a Deus (a atitude básica da Oração eucarística);
d) RECORDAMOS E OFERECEMOS o sacrifício de Cristo na cruz (a atitude básica da Oração eucarística);
d) RECORDAMOS E OFERECEMOS o sacrifício de Cristo na cruz (a Eucaristia é memorial da Morte Pascal de Cristo. As crianças sabem o que é oferecer, e podem passar, com a oportuna orientação, do terreno familiar e social ao eucarístico);
e) COMEMOS E BEBEMOS juntos a Eucaristia;
f) DESPEDIMO-NOS mais comprometidos com Cristo e com os outros.

Em síntese, a meta da educação eucarística não é para a sua Missa, mas para a Missa da
Comunidade e a pertença à Igreja. Esta educação será progressiva e abarcará o ambiente
(mais amável, mais acolhedor, próximo, festivo), a pessoa do presidente, a linguagem as
orações, a valorização do audiovisual. Esta adaptação psicológica suporá uma simplificação de alguns elementos (reduzir leituras, omitir algum rito de entrada, etc.); e sobretudo buscará uma participação mais ativa (na homilia, nas aclamações, no canto e nos ministérios...).


Adaptado do Texto do Secretariado da Educação Cristã da Infância e Adolescência, Porto – Portugal, por Ângela Rocha.

Para saber mais:

LLIGADAS, Josep. La Eucaristia com los niños. CPL, Barcelona 1993.
LOZANO, Isidro e ANDIÓN, Juan. Celebraciones com niños. Editorial CCS, Madrid,
1996.
ALDAZÁBAL, José. Celebrar la Eucaristía con niños. Dossier CPL 20, Barcelona,
1997.

Adaptado do Texto do Secretariado da Educação Cristã da Infância e Adolescência, Porto – Portugal.

Ângela Rocha