sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

SACUDA O PÓ DAS SANDÁLIAS!

Muitos catequistas, ao procurar o melhor e o mais correto em termos de Evangelização, não são bem aceitos em suas comunidades. É o medo de mudança, insegurança e até inveja; que causam este tipo de reação nas pessoas.
Jesus, ao enviar seus discípulos para anunciar o Reino de Deus, fez questão de ensiná-los a tomar uma atitude diante das possíveis rejeições: “Mas se forem mal recebidos, saiam logo daquela cidade. E, na saída, sacudam o pó das suas sandálias, como sinal de protesto contra aquela gente” (Lucas 9, 5).
Ser mal recebido causa frustração profunda, não ser aceito é a pior das situações. Principalmente quando temos a melhor das intenções. Isto acontece na relação entre família, amigos, cônjuges, pais e filhos e, na Igreja, por incrível que pareça, entre irmãos na mesma fé.
Machuca muito constatar que nosso melhor em termos de ajuda não foi recebido e, ainda por cima, foi mal interpretado. Dói e nos deixa desesperançados. Muitos de nós ficamos até irritados com aqueles que, mesmo vendo nosso testemunho cristão, não somente não nos aceitam, mas até nos desprezam.
Então eu sempre lembro deste "protesto" que Jesus orientou os discípulos a fazerem. E o que significa sacudir “o pó das sandálias”?
Jesus é tolerante nas nossas limitações. É insistente, no sentido de dar novas chances. É desconcertante, quando nos perdoa setenta vezes sete... conservar o pó de nossas sandálias é o mesmo que trazer sempre à mente as injustiças que sofremos e as rejeições quando decidimos ir no caminho de Jesus. Porque nossa missão de testemunhas precisa ser constante, nosso cuidado de limpar o pó das sandálias precisa ser regular. Pó que não é jogado fora só serve para cultivar nossos ressentimentos. Só serve para nos debilitar espiritualmente. Então, sacuda o pó das sandálias!
E, quem sabe, neste pó não ficarão algumas sementinhas daquilo que você tentou semear...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2015


Fortalecei os vossos corações” (Tg 5,8)

Amados irmãos e irmãs!

Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo, um “tempo favorável” de graça (cf. 2 Cor 6,2). Deus nada nos pede, que antes não nos tenha dado: “Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro” (1 Jo 4,19). Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem no peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece.

Coisa diversa se passa conosco! Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar.

Quando o povo de Deus se converte ao seu amor, encontra resposta para as questões que a história continuamente nos coloca. E um dos desafios mais urgentes, sobre o qual  quero me deter nesta Mensagem, é o da globalização da indiferença. Dado que a indiferença para com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos, temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar. A Deus não Lhe é indiferente o mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o homem. Na encarnação, na vida terrena, na morte e ressurreição do Filho de Deus, abre-se definitivamente a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra. E a Igreja é como a mão que mantém aberta esta porta, por meio da proclamação da Palavra, da celebração dos Sacramentos, do testemunho da fé que se torna eficaz pelo amor (cf. Gl 5,6). O mundo, porém, tende a fechar-se em si mesmo e a fechar a referida porta através da qual Deus entra no mundo e o mundo n’Ele. Sendo assim, a mão, que é a Igreja, não deve jamais surpreender-se, se se vir rejeitada, esmagada e ferida. Por isso, o povo de Deus tem necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo. Tendo em vista esta renovação, gostaria de vos propor três textos para a vossa meditação.

1. “Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros”. (1 Cor 12,26) – A Igreja.

Com o seu ensinamento e, sobretudo, com o seu testemunho, a Igreja oferece-nos o amor de Deus, que rompe esta reclusão mortal em nós mesmos que é a indiferença. Mas, só se pode testemunhar algo que antes experimentamos. O cristão é aquele que permite a Deus revesti-lo da sua bondade e misericórdia, revesti-lo de Cristo para se tornar, como Ele, servo de Deus e dos homens. Bem nos recorda a liturgia de Quinta-feira Santa com o rito do lava-pés. Pedro não queria que Jesus lhe lavasse os pés, mas depois compreendeu que Jesus não pretendia apenas exemplificar como devemos lavar os pés uns aos outros; este serviço, só o pode fazer quem, primeiro, se deixou lavar os pés por Cristo. Só essa pessoa “tem parte com Ele” (cf. Jo 13,8), podendo assim servir o homem.

A Quaresma é um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele. Verifica-se isto quando ouvimos a Palavra de Deus e recebemos os sacramentos, nomeadamente a Eucaristia. Nesta, tornamo-nos aquilo que recebemos: o corpo de Cristo. Neste corpo, não encontra lugar a tal indiferença que, com tanta frequência, parece apoderar-se dos nossos corações; porque, quem é de Cristo, pertence a um único corpo e, n’Ele, um não olha com indiferença o outro. “Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria”  (1 Cor 12,26). A Igreja é communio sanctorum, não só porque, nela, tomam parte os Santos, mas, também porque é comunhão de coisas santas: o amor de Deus, que nos foi revelado em Cristo, e todos os seus dons; e, entre estes, há que incluir também a resposta de quantos se deixam alcançar por tal amor. Nesta comunhão dos Santos e nesta participação nas coisas santas, aquilo que cada um possui, não o reserva só para si, mas tudo é para todos. E, dado que estamos interligados em Deus, podemos fazer algo mesmo pelos que estão longe, por aqueles que não poderíamos jamais, com as nossas simples forças, alcançar: rezamos com eles e por eles a Deus, para que todos nos abramos à sua obra de salvação.

2. “Onde está o teu irmão?”, (Gn 4,9) – As paróquias e as comunidades.

Tudo o que se disse a propósito da Igreja universal é necessário agora traduzi-lo na vida das paróquias e comunidades. Nestas realidades eclesiais, consegue-se porventura experimentar que fazemos parte de um único corpo? Um corpo que, simultaneamente, recebe e partilha aquilo que Deus nos quer dar? Um corpo que conhece e cuida dos seus membros mais frágeis, pobres e pequeninos? Ou refugiamo-nos num amor universal pronto a comprometer-se lá longe no mundo, mas que esquece o Lázaro sentado à sua porta fechada (cf. Lc 16,19-31)? Para receber e fazer frutificar plenamente aquilo que Deus nos dá, deve-se ultrapassar as fronteiras da Igreja visível em duas direções. Em primeiro lugar, unindo-nos à Igreja do Céu na oração. Quando a Igreja terrena reza, instaura-se reciprocamente uma comunhão de serviços e bens que chega até à presença de Deus. Juntamente com os Santos, que encontraram a sua plenitude em Deus, fazemos parte daquela comunhão onde a indiferença é vencida pelo amor. A Igreja do Céu não é triunfante, porque deixou para trás as tribulações do mundo e usufrui sozinha do gozo eterno; antes pelo contrário, pois aos Santos é concedido já contemplar e rejubilar com o fato de terem vencido definitivamente a indiferença, a dureza de coração e o ódio, graças à morte e ressurreição de Jesus. E, enquanto esta vitória do amor não impregnar todo o mundo, os Santos caminham conosco, que ainda somos peregrinos. Convicta de que a alegria no Céu pela vitória do amor crucificado não é plena enquanto houver, na terra, um só homem que sofre e geme, escrevia Santa Teresa de Lisieux, doutora da Igreja: “Muito espero não ficar inativa no Céu; o meu desejo é continuar a trabalhar pela Igreja e pelas almas” (Carta 254, de 14 de Julho de 1897). Também nós participamos dos méritos e da alegria dos Santos e eles tomam parte na nossa luta e no nosso desejo de paz e reconciliação. Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.

Em segundo lugar, cada comunidade cristã é chamada a atravessar o limiar que a põe em relação com a sociedade circundante, com os pobres e com os incrédulos. A Igreja é, por sua natureza, missionária, não fechada em si mesma, mas enviada a todos os homens. Esta missão é o paciente testemunho d’Aquele que quer conduzir ao Pai toda a realidade e todo o homem. A missão é aquilo que o amor não pode calar. A Igreja segue Jesus Cristo pela estrada que a conduz a cada homem, até aos confins da terra (cf. At 1,8). Assim podemos ver, no nosso próximo, o irmão e a irmã pelos quais Cristo morreu e ressuscitou. Tudo aquilo que recebemos, recebemo-lo também para eles. E, vice-versa, tudo o que estes irmãos possuem é um dom para a Igreja e para a humanidade inteira.

Amados irmãos e irmãs, como desejo que os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!

3. “Fortalecei os vossos corações”. (Tg 5,8) – Cada um dos fiéis.

Também como indivíduos temos a tentação da indiferença. Estamos saturados de notícias e imagens impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo toda a nossa incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos absorver por esta espiral de terror e impotência? Em primeiro lugar, podemos rezar na comunhão da Igreja terrena e celeste. Não subestimemos a força da oração de muitos! A iniciativa “24 horas para o Senhor”, que espero se celebre em toda a Igreja – mesmo a nível diocesano – nos dias 13 e 14 de Março, pretende dar expressão a esta necessidade da oração. Em segundo lugar, podemos levar ajuda, com gestos de caridade, tanto a quem vive próximo de nós como a quem está longe, graças aos inúmeros organismos caritativos da Igreja. A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade que temos em comum. E, em terceiro lugar, o sofrimento do próximo constitui um apelo à conversão, porque a necessidade do irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha dependência de Deus e dos irmãos.

Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação diabólica que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos. Para superar a indiferença e as nossas pretensões de onipotência, gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração, a que nos convidava Bento XVI (Carta enc. Deus caritas est, 31). Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador, mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro.

Por isso, amados irmãos e irmãs, nesta Quaresma desejo rezar convosco a Cristo: “Fac cor nostrum secundum cor tuumFazei o nosso coração semelhante ao vosso” (Súplica das Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus). Teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença.

Com estes votos, asseguro a minha oração por cada crente e comunidade eclesial para que percorram, frutuosamente, o itinerário quaresmal, enquanto, por minha vez, vos peço que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, Festa de São Francisco de Assis, 4 de Outubro de 2014.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

CATEQUESE: MUDANÇA DE PARADIGMA NECESSÁRIO


Mais que um caminho metodológico, a dinâmica catecumenal é um espírito que deve permear todas as ações da ‘nova evangelização’”. Esta é uma frase dita pelo Padre Luiz Alves de Lima, um dos maiores, senão o maior, defensor e articulador da IVC pelo processo catecumenal na nossa Igreja. E ele lembra também que a Igreja pede, desde o Concílio Vaticano II, há 50 anos, o retorno dos processos catecumenais de evangelização. Estranho é que, força mesmo, somente de uns 10 anos pra cá a Igreja tem dado para que se faça este resgate.

Mas, o que nos intriga mesmo é: COMO FAZER ACONTECER? Que metodologias, que itinerários, que roteiros seguir?  O RICA, sendo um livro litúrgico, traça o caminho das celebrações, ritos, entregas, exorcismos e outras práticas litúrgico-rituais do processo catecumenal. No entanto, além das dificuldades normais de se integrar tais práticas desconhecidas da tradição catequética com a catequese de instrução e aprendizado, temos que o RICA é em linguagem pouco entendida pelos agentes de pastoral e praticamente desconhecido até dos presbíteros. Sem contar ainda que vemos paróquias que, equivocadamente, estão usando o RICA como “itinerário” para a catequese. O livro não é uma “metodologia” ou um itinerário de iniciação, é apenas um complemento litúrgico a ela!
Tratando-se de textos, a catequese é o resultado de três livros: A BÍBLIA, o CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA e RICA. Sabemos até trabalhar com a Bíblia e o CIC, mas, como fazê-los interagir com o RICA? Quais seriam os itinerários ou roteiros para colocar em prática esses processos catecumenais?

Pensando nisso, uma Comissão Nacional da CNBB, reuniu-se para criar um Itinerário de iniciação cristã para 4 idades distintas: adultos não batizados, jovens-adolescentes e crianças. Esses itinerários baseiam-se nos 4 tempos do chamado processo catecumenal: Pré-Catecumenato, Catecumenato, Purificação/iluminação e Mistagogia. Cada um com seus objetivos, eixos temáticos e celebrações. Quanto à catequese propriamente dita (2º tempo ou catecumenato), seria o mais longo (dois anos ou mais), é subdividido em fases, igualmente com seus objetivos e eixos temáticos.

O Itinerário Catequético, lançado no mercado pelas Edições CNBB, no final de 2014, é, segundo as palavras de D. Jacinto Bergmann: “um instrumento que vai servir muito às Igrejas uma vez que apresentará grandes orientações sobre como fazer a iniciação à vida cristã. Essas orientações gerais criarão unidade e ajudarão as igrejas locais a elaborarem os seus roteiros e manuais.” As várias igrejas particulares ou regionais deverão, então, traduzir tais linhas de ação em prática concreta e inculturada. Que se pese aqui que muitas dioceses do Brasil, já se adiantaram e criaram seus itinerários sem estas orientações. Infelizmente, em alguns textos a Iniciação Cristã permanece somente no título.
E aqui fica a grande pergunta: Como trabalhar o primeiro tempo do catecumenato? O chamado “pré-catecumenato”, ou seja, o querigma, primeiro anúncio, a evangelização propriamente dita; como fazer isso no ambiente fortemente secularizado de hoje? Tem como dar indicações práticas às paróquias e dioceses de como fazer o anúncio querigmático para a multidão de pessoas afastadas da Igreja?  Mesmo o Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização (2012) apontando algumas sugestões, não se pensa em grandes mudanças na estrutura da Igreja para promover uma nova evangelização de fato. Ainda há uma grande carência de vocações sacerdotais e os padres que estão trabalhando não dão conta de atender plenamente os anseios da comunidade.

No Brasil, em todos os 18 regionais há tentativas isoladas de se promover a implantação do catecumenato, algumas com resultados positivos. Mas sempre quando esta implantação é fruto de um esforço coletivo de toda paróquia. Não se muda somente a catequese, muda-se toda a paróquia. Com renovado ardor missionário vai-se em busca daqueles que estão afastados, cria-se novos ministérios, renovam-se as estruturas paroquiais.

Quase todos os catequistas com quem conversamos ao longo dos últimos dez anos (depois do DNC, DAp, Estudo 97...), estão convencidos de que uma mudança radical se faz necessária nos processos catequéticos. A ânsia é saber o “Como?”. Como colocar em prática o esquema catecumenal proposto pelo RICA, como envolver toda a comunidade nesse processo, sobretudo o clero, os religiosos? Nós catequistas leigos nos mostramos, muita vezes, extremamente entusiasmados com isso tudo, mas, levamos um “banho de água fria” de nossos párocos, que parecem não sentir necessidade de mudanças ou não tem tempo para isso. E também há sempre o perigo do “nominalismo”, ou seja, dar-se o nome de Iniciação a Vida Cristã a processos que, no fundo, permanecem os mesmos, só ligeiramente modificados. "Dar uma nova capa ao mesmo conteúdo".  Pior ainda é a tentação do Ritualismo, incluindo no processo catequético alguns ritos a mais sem a preocupação de que os mesmos sejam compreendidos e realizados corretamente. Quantas celebrações de entregas e ritos temos visto sem a presença dos padres e da comunidade...

Mais que convencer os catequistas, é preciso que a Igreja, em suas estruturas arcaicas, se abra a este "nem tão novo" processo, com uma vontade sincera de promover, de fato, uma nova evangelização, tão necessária a sobrevivência da nossa fé em Jesus Cristo e da nossa Igreja.

Ângela Rocha
Catequista

FONTES DE CONSULTA:
- Revista de Catequese 143/144. UNISAL, 2014.
- Itinerário Catequético. Brasília: Edições CNBB, 2014.


domingo, 25 de janeiro de 2015

UM DOS MELHORES EXEMPLOS SOBRE A “PEDAGOGIA DE JESUS”...


“Jesus cresceu no meio da natureza com os olhos muito abertos para o mundo que o rodeia. Basta ouvi-lo falar. A abundância de imagens e observações tomadas da natureza nos mostra um homem que sabe perceber a criação e desfrutá-la. Jesus observou muitas vezes os pássaros que revoam em torno da sua aldeia; não semeiam nem armazenam em celeiros, mas voam cheios de vida, alimentados por Deus, seu pai. Entusiasmaram-no as anêmonas vermelhas que em abril cobrem as colinas de Nazaré; nem Salomão em toda a sua glória vestiu-se como uma delas. Observa com atenção os ramos das figueiras: dia após dia vão brotando neles folhas tenras anunciando que o verão se aproxima. Vê-se Jesus desfrutando o sol e a chuva e dando graças a Deus, que “faz nascer seu sol sobre bons e maus e manda a chuva sobre justos e injustos”. Observa as nuvens densas e escuras que anunciam a tempestade e sente em seu corpo o vento úmido do sul, que indica a chegada dos calores. ¹

(...) Mais tarde convidará as pessoas a ir além do que se vê nela. Seu olhar é um olhar de fé. Admira as flores do campo e os pássaros do céu, mas intui por trás deles o cuidado amoroso de Deus por suas criaturas. Alegra-se pelo sol e pela chuva, mas muito mais pela bondade de Deus para com todos os seus filhos, sejam bons ou maus. Sabe que o vento “sopra onde quer”, sem que se possa precisar “donde vem e para onde vai”, mas ele percebe através do vento uma realidade mais profunda e misteriosa: o Espírito Santo de Deus.² Jesus não sabe falar senão a partir da vida. Para sintonizar com ele e captar sua experiência de Deus é necessário amar a vida e mergulhar nela, abrir-se ao mundo e escutar a criação.”

¹ Mateus 6,26; 6,28; 24,32; 5, 45; Lucas 12,55
² Mateus 6, 25-30; Mateus 5,45; João 3,8.


(PAGOLA, José Antonio. Jesus: Aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2014.)

QUEM SÃO OS DESTINATÁRIOS OU INTERLOCUTORES DA CATEQUESE?

Por mais que a realidade que vivemos nas nossas paróquias com relação à catequese ainda não seja a ideal, é preciso pensar que muita coisa aconteceu nos últimos 50 anos, na prática catequética. Claro que saberíamos melhor disso se por acaso um de nós tivesse sido catequista há cinquenta anos, tempo em que a catequese ainda estava, na maioria das vezes, nas escolas e colégios católicos e era responsabilidade de padres e religiosas e religiosos. 

Hoje vemos uma integração da dimensão bíblico-litúrgica na educação da fé que praticamente não existia; a catequese hoje é mais experiencial e menos doutrinal (infelizmente não tanto quando deveria ser); o catequista hoje é, em sua grande maioria, leigo; na medida do possível a Igreja tem dado mais atenção à pessoa do catequista, sua formação e testemunho de vida; foram renovados textos e manuais de catequese e se busca uma catequese mais adulta para os adultos. No entanto, a grande maioria da catequese brasileira ainda gira ao redor de práticas sacramentalistas, sobretudo a Primeira Comunhão e a Crisma, e para crianças e adolescentes. Os jovens tem tido mais atenção em grupos de jovens e na Pastoral Juvenil, que não deixa de ser uma catequese também. E falta ainda muita formação catequética ao presbiterado, o que tem sido um dos maiores entraves a qualquer tipo de renovação profunda, como pede as práticas catecumenais de evangelização.

Um dos grandes desafios para esta renovação também vem da estrutura com que se organizam os sacramentos na Igreja. A maioria das dioceses ainda tem como desafio a catequese de adultos, que ainda é excessivamente voltada para aqueles que apenas procuram a Igreja para regularizar situações matrimoniais. Por mais que muita coisa esteja sendo feita neste sentido, ainda não se pode dizer que a paróquia dê prioridade ao adulto. Outro problema são os “cursos de batismo” e os “cursos de noivos”, de pouca ou quase nula eficácia evangelizadora: eles não convertem, não integram as pessoas à comunidade e não se preocupam com a missão apostólica; e com isso, continua-se a gerar pessoas sacramentalizadas, mas não evangelizadas. Com relação à “catequese” mesmo, esta que tanto se discute, temos um largo sistema de educação na fé que vai desde a pré-catequese para crianças menores de sete anos até a adolescência. Em geral a Primeira Comunhão se faz por volta dos 11, 12 anos e a crisma por volta dos 13, 14 anos. Aí a maioria esmagadora sai da Igreja e volta, para casar e batizar os filhos. Quando voltam.

E assim, perde-se o vínculo que se deveria ter entre Batismo, Confirmação e Eucaristia. O próprio Papa Bento XVI levantou esta questão na Exortação Sacramentum Caritatis dizendo que é preciso não esquecer que somos batizados e crismados para a Eucaristia, e isso implica favorecer uma compreensão mais unitária do percurso da iniciação cristã: “(...) é necessário prestar atenção ao tema da ordem dos sacramentos da iniciação. (...) é necessário verificar qual seja a prática que melhor pode, efetivamente, ajudar os fiéis a colocarem no centro o sacramento da Eucaristia, como realidade para a qual tende toda a iniciação.” (SC, 17, 18). Assim, não seria melhor colocar a recepção da Eucaristia numa idade maior, como ápice da iniciação cristã? O Sínodo dos Bispos de 2012 chegou a levantar esta proposição, mas, o medo da Igreja é causar uma grande ruptura nas práticas que se vem fazendo e criar “vácuos” pastorais muito grandes no processo de evangelização. Realmente, fazer um transatlântico, como é a Igreja católica, mudar de rumo de repente é desafio enorme.

Ângela Rocha
Catequista

Fontes de Consulta: Revista de Catequese, 143 – Jan/Jul 2014. Pg. 14.  “A situação da catequese hoje no Brasil” (Pe. Luiz Alves de Lima).