segunda-feira, 13 de agosto de 2018

CONSIDERAÇÕES SOBRE “FAMÍLIA”

Um artigo muito interessante sobre a Família e suas diferentes formações nucleares...


Está sendo celebrada em todo o Brasil, entre os dias 12 e 18 de agosto, a Semana Nacional da Família. Promovido pela Pastoral Familiar e Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família (CEPFV) da CNBB, o evento traz como tema “O Evangelho da Família, alegria para o mundo”, mesmo tema do IX Encontro Mundial das Famílias com o Papa Francisco, que acontecerá na Irlanda entre os dias 26 a 28 de agosto.

A Semana Nacional da Vida e da Família nos faz lembrar que somos Igreja, comunidade de santos e pecadores. Neste momento delicado da história, toda a Igreja do Brasil se une através de oração em prol das famílias em um ato de valorização da dignidade da vida, desde a sua concepção até o declínio natural, assim como Deus o concebeu.

A exortação apostólica Pós-Sinodal do Santo Padre Francisco “Amoris Laetitia”, sobre o amor na família manifesta que a alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja. Apesar dos numerosos sinais de crise no matrimônio - como foi observado pelos Padres sinodais -, "o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens, e isso incentiva a Igreja". Como resposta a esse anseio, "o anúncio cristão sobre a família é verdadeiramente uma boa notícia". Reconhecer as famílias como únicas é o caminho e, é de fato, a resposta.

Mas, é preciso compreender a famílias como um núcleo de pessoas que convivem em determinado lugar, durante um lapso de tempo mais ou menos longo e que se acham unidas (ou não) por laços consanguíneos. Ela tem como tarefa primordial o cuidado e a proteção de seus membros, e se encontra dialeticamente articulado com a estrutura social na qual está inserida.


A família como instituição socializadora de seus membros é o espaço de proteção e cuidado onde as pessoas se unem pelo afeto ou por laços de parentesco, independente do arranjo familiar em que se organize. Entende-se enquanto um processo de articulação de diferentes trajetórias de vida, que possuem um caminhar conjunto e a vivência de relações íntimas, um processo que se constrói a partir de várias relações, como classe, gênero, etnia e idade.

Família é um refúgio seguro, lugar de maior confiabilidade e se constitui também não somente como um núcleo, mas como rede de solidariedade, e em algumas ocasiões como estratégias de sobrevivência. Famílias podem ser: nuclear (tradicional); substituta; monoparental; homoafetivas, etc. 

Como a família é a primeira instituição socializadora da criança, é ela que desempenha o papel de organizadora primária da sociabilidade e da sexualidade, bem como dos laços de dependência emocional entre seus membros. É uma instituição social que não pode ser vista como algo estático, definitivo e fechado. É uma construção a partir de critérios e contextos históricos, sociais, econômicos e culturais específicos.

É uma estrutura singular e complexa – cada família é única, ao mesmo tempo que possui as mais variadas formas de organização. Se transformam e se alteram no tempo. Existe nas famílias experiências de não-estabilidade: recomposição, re-casamento e rearranjos internos formando extensas redes sociais. Portanto, é preciso não idealizar/romantizar a família – ela é lócus de proteção, mas também de desigualdade e violência.

Existe também uma sobrecarga das funções parentais na mulher: elemento estabilizador do grupo – é o membro que tem arcado com grande parte das responsabilidades de provedora e socializadora.

No conceito de família temos: família pensada e a família vivida.

No que se refere a “Família Pensada”, temos o modelo que direciona as escolhas e as decisões das pessoas quanto ao que fazer na vida, quanto às expectativas em relação aos membros da família, quanto aos sentimentos em relação aos outros e quanto à imagem de si mesmo. Não conseguir viver o "sonho" (modelo), gera frustração por ser visto como incompetência. Se não estou vivendo o modelo, o errado sou eu.

A sociedade nos oferece um modelo pensado, mas o pensado é também formado no decorrer da vida em família. Há expectativas, crenças, regras, valores, que vão sendo, gradativamente, construídos dentro da cultura familiar. E há também o componente individual na construção da família pensada, pois cada pessoa tem expectativas, crenças e valores próprios; tem a sua história de vida, que a leva a pensar de forma pessoal. Assim, há três vertentes na formação do pensado: o cultural e o social mais amplo, o cultural e o social mais restrito e o individual.

Já o conceito de “Família Vivida”, refere-se aos modos de agir habituais dos membros de uma família. É a família que aparece no agir concreto do cotidiano, que poderá ou não estar de acordo com a família pensada. As soluções que têm que ser tomadas no dia-a-dia nem sempre estão de acordo com o caminho idealizado. Pode aparecer como o caminho indesejado, transitório, provisório. Os modos de relacionar-se com os outros são apreendidos e vivenciados em família e refletem os significados que foram sendo atribuídos, ao longo das gerações, ao outro, ao mundo e à vida.  Os modos de ser habituais, apreendidos nos anos de convívio com a família, fixam-se e são transferidos para outras relações fora dela. O agir cotidiano é irrefletido e nem sempre corresponde ao pensar idealizado.

É importante refletir sobre o vivido, sobre os hábitos que estão cristalizados para que se possa descobrir novas possibilidades de ação e novas formas de ver o mundo, as pessoas e as relações. O vivido e o pensado não ocorrem num vazio, acontecem na interação com os outros, envolvendo emoções, sentimentos. O que pensamos e o que vivemos estão sempre interligados.

Podemos observar que não há uma definição única de família, não há um "modelo ideal". O ideal para uns pode não o ser para outros. Cada família tem sua especificidade e estabelece um código próprio (constituído de normas e regras). Cada indivíduo se apropria deste código e o usa. Cada um tem sua identidade, mas há uma organização interna à família.

Ao se discutir família não se deve pensar apenas no modelo nuclear patriarcal, já que esta vem se modificando e construindo novas relações a partir de transformações vivenciadas pela sociedade. Para Szymanski (2002), as mudanças que acontecem no mundo acabam por influir e afetar a família de uma forma geral e de uma forma particular, a partir da formação, do pertencimento social e da história de cada um destes segmentos.

Atualmente, a família é compreendida não apenas baseada nos laços consanguíneos e de parentesco, mas nas relações de afeto e cuidado. Szymanski (2002) entende família como sendo “uma associação de pessoas que escolhe conviver por razões afetivas e assume um compromisso de cuidado mútuo e, se houver, com crianças e adolescentes”, não levando em conta para isto, a existência de laços consanguíneos ou de parentesco.

Já Kaloustian (2005) retrata que a família é o espaço da garantia da proteção integral e da sobrevivência, independente do arranjo familiar em que se baseie, mas, apesar de entender a importância do cuidado dentro da família, este autor não expõe que esta instituição também pode ser violadora de direitos e protagonista dos conflitos e violências para com os seus.

Em contrapartida, Mioto (2000) discute que, na atual conjuntura, existem diversas formas de organização familiar que se modificam continuamente com o objetivo de satisfazer as necessidades impostas pela sociedade. Segundo esta autora, “o terreno sobre o qual a família se movimenta não é o da estabilidade, mas o do conflito, o da contradição” (2000, p. 219). Ou seja, para ela a família pode ser o espaço do cuidado, mas não se pode esquecer ou deixar de lado que nas relações familiares também existem o conflito e a instabilidade, sejam eles influenciados pela sociedade ou não.

Além de oportunidade de convivência cotidiana e de locus de acolhimento de seus membros, a família também representa o dinamismo das relações sociais, pois, não é apenas uma unidade biológica; é uma construção social que apresenta formas e finalidades diversas em cada tempo histórico, se construindo de diferentes formas e arranjos, de tal maneira que tendemos como mais correto falar categoricamente de famílias, e não de um modelo monolítico contido no termo singular família.

Diante de tantas mudanças no mundo, na sociedade, afetando principalmente a família, começa-se a discutir o conceito de gênero, ou seja, a relação entre homens e mulheres, como estes se relacionam na sociedade. Ao enfocar os novos arranjos familiares, é de suma importância ressaltar que não nos cabe analisar o que é "bom ou ruim" em relação à família nuclear e os novos arranjos familiares, mas sim ressaltar o atual, o real na vida familiar, onde indiferente da maneira que se organizar, os indivíduos são pertencentes a um grupo familiar e este lhe oferece laços afetivos, valores e funções.



Uilson José Gonçalves Araújo

Consultor e Assessor em Políticas Públicas
Assistente Social - CRESS/PR 6862
Consultor e Assessor em Políticas Públicas
Especialista em Gestão das Políticas Sociais
Especialista em Dependência Química
Telefone (41) 9 9977-1576

Referências Bibliográficas

ARIÈS, P. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. 2.ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1981.

CEVERNY, C. M. O. Família e o ciclo vital: nossa realidade em pesquisa. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.

COLLANGE, C. Defina uma família. Trad. Mário Fondelli. Rio de Janeiro: Racco. 1994.

COSTA, Suely Gomes. Proteção social, maternidade transferida e lutas pela saúde reprodutiva. Revista Estudos feministas. V.10, n.2. Florianópolis, 2002.

ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. 10ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985.

KALOUSTIAN, Sílvio Manoug. Família brasileira, a base de tudo. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNICEF, 2005.

LOSACCO, Sílvia. O jovem e o contexto familiar. In: ACOSTA, Ana Rojas; VITALE, Maria Amália Faller (Orgs.). Família: redes, laços e políticas públicas. 3º Ed. São Paulo: Cortez, 2007.

MIOTO, Célia Regina Tamaso. Cuidados sociais dirigidos à família e segmentos sociais vulneráveis. In: Capacitação em serviço social e política social; módulo 4: O trabalho do assistente social e as políticas sociais -Brasília: UNB, Centro de educação Aberta, Continuada a distância, 2000.

PRADO, Danda. O que é família. 2º edição. São Paulo. Editora Brasiliense, 1982.

ROMANELLI, Geraldo. Autoridade e poder na família. In: CARVALHO, Maria do Carmo Brant de (org.). A família contemporânea em debate - São Paulo: EDUC / Cortez, 2003.

SARTI, Cynthia A. Famílias Enredadas. In: ACOSTA, Ana Rojas; VITALE, Maria Amália Faller (Orgs.). Família: redes, laços e políticas públicas. 3º Ed. São Paulo: Cortez, 2007.

SZYMANSKI, Heloísa. Viver em família como experiência de cuidado mútuo: desafios de um mundo de mudança. In: Serviço Social e sociedade. Ano XXIII, nº 71; Cortez, 2002.

ZAMBERLAM, Cristina de Oliveira. Os novos paradigmas da família contemporânea: uma perspectiva interdisciplinar. Rio de Janeiro: Renovar, 2001.


sábado, 11 de agosto de 2018

HOMILIA DO DOMINGO: JESUS - O PÃO DA VIDA


                         HOMILIA DO 19°  DOMINGO DO TEMPO COMUM

A primeira leitura do livro dos Reis nos traz uma parte da história de Elias. Avida deste profeta é muito interessante e cheia de lições. Sua ida para o monte Horebe tem dois significados. Primeiramente é uma fuga, pois a rainha Jesabel queria matá-lo depois do episódio com os profetas de Baal; mas o êxodo para o Herobe também representa uma busca espiritual: Elias procura o seu encontro com o Senhor no mesmo local em que Moisés havia tido sua experiência transcendente.


Lembremos que Elias estava no fundo do poço. Em nome da verdade, enfrentou o rei Acab e sua esposa, condenou a idolatria e os pecados do reino. Em troca ganhou a perseguição e a ausência de sua terra. No texto deste domingo, o profeta encontra-se em fuga, perdido, sozinho e sem saber o que fazer. No meio do seu caminho de desterro no deserto, Elias quase sucumbiu. Pediu que Deus lhe tirasse a vida. É interessante perceber que um dos grandes profetas da Bíblia e, portanto, um homem santo, chegou a um momento de dor, de desespero e reclamou para Deus, pedindo o fim da sua vida.  A vida dos santos não pode ser idealizada, pois não é uma ausência de sentimentos. O mais importante, porém, é que no meio do caminho, Deus não o abandonou. O Senhor veio até o profeta por um anjo que ofereceu o pão e disse: “Levanta-te e come, tens ainda um longo caminho a percorrer” (1Rs 19, 7).


Alguns momentos de nossa vida se assemelham a esta experiência de Elias. Nossa vida carrega momentos de dor, de vazio, de angustia. Existem momentos em que não vemos mais sentido em continuar, então fugimos ou buscamos o encontro desesperado com Deus. Também o nosso grito de desabafo exagerado nem sempre é inadequado, pois Deus está disposto a escutar o nosso lamento. Tempos de êxodo e vazio são oportunidades para ouvir a voz do Senhor que nos alimenta. Ele não nos dá uma comida mágica que resolve a dor, mas um alimento que procura nos saciar verdadeiramente, um alimento que nos fortalece para continuarmos caminhando – o pão da sua Palavra e da Eucaristia. Deus não nos quer prostrados na estrada, sem reação; Por isso, Ele nos diz: “Coragem levanta-te, come, pois tens um longo caminho a percorrer” (Rs 19,17). Deus nos quer caminhando, como peregrinos; sustenta-nos parta seguir adiante.


Para percorrer a estrada devemos reconhecer Jesus como o Messias, deixando de lado nossas resistências. No Evangelho, o os judeus que ouviram o discurso do Pão da Vida, murmuraram e não aceitaram que um pobre filho de carpinteiro pudesse descer do céu. Negaram, portanto, a humanidade de Deus em Cristo Jesus. Os interlocutores se consideravam sábios na procura de Deus, mas não puderam contemplar o modo simples e concreto de Deus se rebaixar a vir até nós com seus gestos e palavras simples e tão humanas: sua ternura, seu perdão, sua pobreza, sua acolhida, sua vida. Hoje podemos tomar muitas atitudes diante do Senhor: a indiferença, a recua, a murmuração, a adesão hipócrita, a aceitação de ideias superficiais sobre a religião, ou decisão firme de seguir o seu caminho. Também nós, como judeus, somos livres em nossas escolhas.


Jesus também nos ensina que não podemos confiar apenas em nossas forças: “Ninguém pode vir a mim se o Pai não atrair” (Jo 6,44). Não significa uma escolha de vida arbitrária, pois Deus não exclui ninguém. O que está em jogo é a necessidade de nossa abertura para o Pai, o abandono da autossuficiência. Sem a graça, sem reconhecer o primado do Senhor em nossas vidas, o caminho não será apenas difícil, como também sem sentido. O caminho não está pronto, mas se faz caminhando: “Caminhante não existe caminho, faz-se o caminho ao andar” (Anibal Machado). Estamos dispostos a partir quais peregrinos?


Pe. Roberto Nentwig
Arquidiocese de Curitiba-PR

FONTE: 
NENTWIG, Roberto. O Vosso Reino que também é nosso. Reflexões Homiléticas - Ano B. Curitiba; Editora Arquidiocesana, 2015. pg. 79.


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sábado, 4 de agosto de 2018

TU ÉS SACERDOTE PARA SEMPRE!

"Tu és sacerdote para sempre..."
(Hebreus 7,17)

Na carta aos Hebreus tem a famosa frase: “Tu és sacerdote para sempre na ordem de Melquisedec”. Cristo, sumo sacerdote, possui um sacerdócio que, como o de Melquisedec, não se transmite; sacerdócio que ele exercerá em sua Igreja até o fim dos tempos. Os sacerdotes atuais, a começar pelos bispos, não são seus sucessores porém aqueles que atualizam e tornam visível e eficaz hoje o único sacerdócio de Cristo

Estas palavras nos levam a fazer uma reflexão a respeito da figura do presbítero, do sacerdote ministerial.


O padre, o sacerdote ministerial, é escolhido do povo para agir, na comunidade dos fiéis, na pessoa de Cristo. Com o seu corpo, sua voz, seus gestos, o padre atualiza a ação do Cristo no meio do mundo. Age na pessoa de Cristo. É colaborador da missão do bispo.

Antes de mais nada o padre tem uma vinculação pessoal a Cristo Jesus. Tem com ele uma amizade que vai sendo cultivada e alimentada ao longo do tempo da vida. Em nossos tempos, foi se compreendendo que é altamente conveniente que o padre viva com outros padres, que constitua uma fraternidade sacerdotal. Isso significa a oração em comum e o planejamento das atividades feito de forma colegial. Essa vinculação vem de uma vocação especial de seguimento do Senhor e da ordenação presbiteral.

Entre os sacerdotes e o bispo se criam relacionamentos marcados pelo cultivo de profunda unidade, que não seja uniformidade. Os bispos sabem descobrir os dons pessoais de cada um dos presbíteros e fazer com que transpareçam para o bem do Povo de Deus.

O padre é um animador de comunidades. Não admite que a fé seja vivida intimisticamente longe do mistério da comunidade. Preside de alguma forma a caridade na Igreja mais local que é a paróquia com suas comunidades vivas. Assim, ele é artífice da unidade.

É o homem da palavra, da palavra que se fez carne, da palavra que precisa ser ouvida com o coração como uma semente desejosa de morrer para dar vida, da palavra que precisa quebrar a rocha de corações mais ou menos endurecidos. Palavra dita com a voz humana do sacerdote, mas fecundada pelo Espírito.

Ele é o homem dos sacramentos, mas não é sacramentalista. Vive no universo dos sinais: há o sinal da bacia e da toalha, sacramento do serviço, há o sacramento do pobre onde Cristo se esconde. Por isso, o padre incita os seus a viverem esses sinais. Ele preside também a celebração do sacramentos do septenário oficial. Cuidará de que os candidatos aos sacramentos sejam pessoas que começaram um sério processo de conversão. Vigiará que a formação em vista da recepção dos mesmos sacramentos seja na linha de uma verdadeira iniciação cristã.

De modo muito especial sua espiritualidade será eucarística. Ali, no altar, com os membros do Povo de Deus, ele celebra a vida do ressuscitado. Envolve-se e envolve o povo na trama da paixão, morte e ressurreição do Senhor. Ali, no altar, ele se sabe, de alguma forma parecido com Cristo: vai dando a vida pelos seus.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, ofm.

A CONCEPÇÃO COMO DIREITO À VIDA


Começaram as audiências públicas do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a descriminalização do aborto. O debate em torno do assunto marca um novo momento sobre a discussão da interrupção da gravidez, uma realidade que afeta as mulheres na intimidade, mas, que se discute assunto público.

Impossível para qualquer mulher, religiosa ou não, não pensar a respeito do assunto. O tema é cercado de muitas opiniões e controvérsias. Há quem diga que é um assunto para a mulher decidir, já que ela tem o controle sobre o seu corpo. As discussões em nível público e legal tem embasamento na mortalidade das mulheres que buscam a interrupção da gravidez. Segundo as pesquisas mais de meio milhão de mulheres realizam aborto inseguro todos os anos, quase uma por minuto. Entre 2006 e 2015, dado mais recente, o Brasil registrou 770 óbitos por aborto no SUS (Sistema Único de Saúde).

E a discussão fica longa...

Penso eu que opiniões todo mundo tem. A gente pode vê-las expostas e distribuídas “a rodo” pelas redes sociais. Mas, para mim, o aborto é algo que mexe mais com as nossas “convicções” do que um assunto em que se pode ter uma opinião. No caso da nossa sociedade, ainda muito machista e patriarcal, considera-se um “problema da mulher”. Se ela não é casada ou não tem um parceiro, nem se cogita em perguntar ao homem, “dono” da metade da criança, o que ele pensa e quer. E a bandeira feminista leva o assunto ao nível do “eu mulher”, sem pensar naquela possível "outra mulher" que pode estar sendo gestada em seu corpo.

Eu sou cristã, católica e catequista na Igreja Católica. No “meu” caso, eu tenho as minhas convicções religiosas e pessoais que norteiam o “eu penso”. Confesso que tenho uma visão um pouco mais aberta da sociedade, que algumas vezes, contraria posições da minha religião, por exemplo, a utilização de métodos contraceptivos. Mas, ainda, não consigo ter a visão de que fazer um aborto, não afeta a vida de mais ninguém a não ser a da própria mulher, dona do próprio corpo.

Estou convicta de que a concepção e gestação de um feto, faz acontecer o milagre da VIDA! A nós mulheres foi dada, na criação, a função de carregar dentro de si, essa nova VIDA. A partir do momento que ela foi concebida, ela não é mais o “meu corpo” ou o “meu direito”. Ela é uma VIDA NOVA sendo gestada em mim. Eu não tenho o direito de “escolher” se ela merece nascer ou não. Para mim, abortar é MATAR uma vida nascente e indefesa. E matar é um pecado mortal, não só na minha religião como no meu coração. E na sociedade é um crime passível de cumprimento de pena. O aborto diz respeito à VIDA do outro, que ninguém tem o direito de tirar.

E faço até uma analogia com um trecho da carta de São Paulo aos Gálatas, referindo-se a sua fé em Jesus Cristo:

“Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).

Já não sou só eu que vivo, mas, uma outra vida vive em mim. A vida que agora vive em meu corpo, também é um filho de Deus (ou da natureza para quem não crê). Vivo-a pela fé e pela crença de que todo ser tem o direito de nascer, crescer, amar a ponto de se entregar pelo outro.

A partir do momento em que se deu a união das células oriundas de um homem e de uma mulher, temos uma PESSOA, uma semente crescendo em nós. Que vai ficar ali nos primeiros nove meses da vida, se formando, preparando-se para VIVER. Não somos “donos” dela para nos dispormos dela como quisermos.

Mas, nem sempre a gravidez é pensada, consciente e planejada. E coisas do tipo, imaturidade, pobreza, falta de recursos, futuro para esta nova vida, parecem ser colocadas na balança como motivo para a interrupção da gravidez de forma muito leviana. Não conhecemos o futuro. Não sabemos o "destino" de ninguém. Como podemos saber se aquela pessoinha ali, não anseia para respirar o mesmo ar que respiro e conhecer o mundo que eu conheço?

Antes de se pensar no aborto, é bom lembrar que gravidez pode ser evitada e nem é preciso entrar no mérito dos métodos contraceptivos.  Eu vivi, este dilema aos 19 anos. Eu fiquei grávida: jovem, solteira, pobre e sem planejar. Eu não estava nada preparada para ser mãe! Simplesmente fomos imaturos e irresponsáveis. E me foi dada a opção do aborto.

E posso dizer convictamente que eu fiquei horrorizada com esta opção. Não planejei a gravidez, mas, se eu a interrompesse, estaria MATANDO uma CRIANÇA! Apesar de todas as dificuldades que sabia que teria, nem cogitei isso. Penso que se trata de assumir a responsabilidade pelos nossos atos e arcar com as consequências deles. O sonho da faculdade que eu queria ficou para trás, os cursos, especializações, a carreira e muitos outros planos. Mas, EU criei uma VIDA, ela tinha o direito de vir ao mundo e também fazer suas escolhas, certas ou erradas.

Devo admitir que foi difícil, mas, eu consegui. Muita esperança e amor, e porque eu tive apoio: da família, das minhas crenças religiosas e do meu namorado, hoje marido. E eu já trabalhava. Claro que a discussão é bem mais profunda se formos analisar as mulheres que se encontram desamparadas, em situação de risco, de extrema pobreza, gravidez por estupro, etc.

Por isso a questão da descriminalização me balança muito. Nossa sociedade está preparada para uma discussão tão ampla e profunda? Somos capazes de pensar como cidadãos e pessoas, isentas de religião, gênero, partido político? A liberação do aborto por uma questão de saúde, pelo viés médico, vai resolver nossos problemas sociais? Se continuar sendo crime, o que faremos com as situações de pobreza e morte, que estão acontecendo por aí? Sabemos que o aborto vai continuar sendo feito por quem tem dinheiro para pagar e até por quem não tem. Que ele ainda é um risco de morte para as mulheres, ainda mais para as que são pobres e excluídas. O que faremos?

Outro dia, eu conheci uma menina de 15 anos, com um filho de dois. A avó é mãe solteira e não consegue cuidar dos três. São três vidas preservadas pelo “não aborto” que moram da rua e pedem comida nos portões. Eticamente falando, sou contra o aborto. Socialmente falando, não posso deixar de pensar em tantas vidas por aí, que, na verdade, estão “mortas” para todo o resto da sociedade e não pediram pelo que tem. E mesmo assim, sou contrária à legalização do aborto. Mas, a moral e a dignidade da vida não se constrói só com leis. 

Aí é que está o que mais pesa nesta questão toda: Fazer um aborto é atentar contra uma vida indefesa, é um crime. E não olhar para tantas vidas famintas nas nossas ruas e praças, não é? Que racionalidade “torta” é essa que pensa que é melhor “matar” antes do que ter que olhar por elas depois? Talvez a posição adequada nisso tudo, de cada um dos cidadãos, independente da religiosidade que professam, fosse não levar a “vida” nascente como uma simples discussão política e legal, e sim, SOCIAL, humana.

O aborto é uma preocupação de saúde pública, sim! E deveria ser, não só pelos que ainda não nasceram e pelas mães que morrem, mas, por quem também já nasceu e está por aí mendigando pão, na criminalidade, na dependência de drogas. Promover uma “matança” por meio do aborto é a solução? Olhar o aborto como crime, sem ações concretas para mudar a situação, é a solução? Fico pensando aqui em quando estivermos discutindo a legalização das drogas...

O que podemos pedir é discernimento a todos que discutem  a questão da VIDA em nosso país. E que Deus continue tentando lembrar, ao homem e a mulher, que o seu papel no mundo é VIVER, não só por si mesmo, mas, pelo outro. E como recorda Jesus Cristo: olhando e cuidando dos indefesos e excluídos, os “pequeninos” do Senhor.

Ângela Rocha – 03/08/2018.


"Se aceitarmos que uma mãe, possa matar seu próprio filho, como poderemos dizer às pessoas que não se matem uns aos outros?"


Madre Teresa de Calcutá

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

HOMILIA DO DOMINGO: JESUS, O PÃO DESCIDO DO CÉU


                    HOMILIA DO 18° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B

O povo que havia presenciado a multiplicação dos pães foi atrás de Jesus. O que buscavam? Jesus interpreta o desejo que estava em seus corações: “Em verdade, em verdade, eu vos digo: estais me procurando não porque vistes os sinais, mas porque comestes o pão e ficastes satisfeitos” (Jo 6, 26). A busca religiosa pode não ser autêntica. A autenticidade depende de um critério: buscamos o prodígio ou o sinal? Ir em direção do prodígio é o interesse pelo vislumbre da religião e pela saciês imediata operada de modo mágico, provedora de comida, saúde e bem-estar. Não devemos buscar os milagres de Deus, mas o Deus dos milagres.


Para que Jesus nos dê o verdadeiro pão, precisamos passar do desejo do pão terreno, para o desejo do Pão do Céu, o Pão da Vida. A fé nasce do reconhecimento como sinal – este indica algo mais profundo, que vai além, da fome material. Aponta para uma vida nova, que nasce da fé no doador dos dons que é o Senhor. Jesus procura nos mostrar que existe uma realidade mais sublime que pode ficar escondida, justificando o famoso dito: “Enquanto o sábio indica as estrelas, o tolo olha o dedo”. Porém, cuidemos para que uma interpretação superficial não tome conta da nossa mente. Desejar o Pão do Céu não significa a busca de doutrinas sublimes, do brilho glorioso, da divagação sobre as coisas da vida após a morte. Ou seja, buscar o Pão do Céu não é um alienação em detrimento do pão que sacia a fome material. Pelo contrário, alimentar-se com o Pão do Céu e crer que Jesus transforma a nossa vida aqui e agora.


Corre-se um risco de um apego ao passado. Não é fácil mudar a mentalidade, mudar de residência, rumar novos horizontes. O povo de Israel reclamou porque perderam as seguranças do Egito e não tinham o que comer. O povo do Evangelho pediu um sinal e preferiu o Jesus da Multiplicação, àquele que fazia um discurso um tanto mais exigente.


É preciso realizar um êxodo, uma saída, um deslocamento. O povo de Israel saiu do Egito e foi para o lago. São Paulo no fala na segunda leitura de outro tipo de deslocamento: deixar a antiga humanidade, renovando o espírito e a mentalidade. Esta humanidade recriada leva à procura à verdadeira imagem de Deus. Lembremos que Deus mesmo nos moldou e nos deu o seu espírito. Esta argila continua sendo modelada, mostrando ser verdadeira imagem de quem a esculpiu? O que precisa ser feito desta argila, animada agora com o espírito novo do Senhor? Que nova mentalidade devemos ter diante da vida?


“Senhor, dai-nos sempre deste pão” (Jo 6,34). O povo não entendia o que estava pedindo; pedia comida material, como a samaritana pediu a água do poço. O Senhor, porém, oferece o verdadeiro pão: “Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim não terá mais sede” (Jo 6,35). Hoje, na mesa da Eucaristia nós podemos comer do Pão da Vida: Pão que não nos deixa sentir fome, que preenche a fome de Deus, a fome de sentido, a fome do coração.


Pe Roberto Nentwig
Arquidiocese de Curitiba - PR


FONTE: 
NENTWIG, Roberto. O Vosso Reino que também é nosso. Reflexões Homiléticas - Ano B. Curitiba; Editora Arquidiocesana, 2015. pg. 79.


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