segunda-feira, 28 de setembro de 2020

O CATEQUISTA É UM "VOLUNTÁRIO"?

Eu acredito que ser catequista é muito mais que ir à Igreja em encontros semanais, ir à missa toda semana, participar de reuniões, formações e retiros. A gente pode ser catequista em todos os lugares e não só na Igreja. É preciso estar comprometido com tudo que acarreta ser um discípulo missionário! 

Numa das minhas viagens por aí, eu conheci o marido de uma catequista. Que era, sem saber, um grande "catequista"! Isso porque ele se diz ateu e não frequenta a Igreja, mas não se importa que sua esposa o faça e a apoia. Ele não o faz e tem ideias bem arraigadas sobre isso, deixa a esposa na porta da Igreja e volta buscar depois.

Mas, ele é uma das pessoas mais revestidas da "couraça" de Cristo que já conheci. Trabalha pela comunidade como nenhuma outra pessoa faz, e sem rezar um Pai Nosso! Ele se preocupa com o outro, ele trabalha pelo outro e FAZ pelo outro. Está sempre envolvido em projetos em prol do bem-estar da sua comunidade, trabalha pelo social, ajuda os necessitados, trabalha pela capacitação profissional daqueles que não tem condições. E gratuitamente! Sem retorno financeiro. Ele ama o outro sem precisar “ouvir” de Jesus que é isso mesmo que a gente tem que fazer.

Acredito mesmo que a Catequese é mesmo um "chamado"! Mas, mesmo aos chamados, respondemos se assim o queremos. E a caminhada, depende exclusivamente de nós. Ir ou ficar é da nossa vontade.

Ninguém nasce catequista. Aqueles que são chamados a esse serviço tornam-se bons catequistas por meio da prática, da reflexão, da formação adequada, da conscientização de sua importância como educadores da fé. E tudo isso não é voluntariado! 


Deus te chama, Jesus te ensina o caminho, o Espírito Santo te dá forças, mexer as pernas é com você! E, evidente, ninguém enfrenta uma árdua caminhada sem estar preparado: sem levar água, alimento ou ter sapatos confortáveis. E é bom estudar o mapa da jornada (itinerário) também. Somente os desavisados e imprevidentes o fazem sem preparo. E, normalmente, desistem na primeira subida...

E digo mais, o que acaba comprometendo nossa missão na Igreja, é justamente o "voluntariado". Catequista não é só um mero voluntário. Catequista é um vocacionado!


O problema mesmo é quando o catequista age como um simples voluntário e se acha “voluntário”: não se acredita "chamado" para uma missão e sim executor de uma tarefa que pode deixar quando quiser; quando se aborrece com alguma coisa, quando não concorda com a coordenadora; não gosta da fulana, não vai com a cara da beltrana; não vai fazer cursos de formação... Aí é complicado!

Por isso eu prefiro ser "amadora"! rsrsrsrs...

O amador o é, enquanto está aprendendo e se aprimorando. Para um dia ser um “profissional” de verdade, comprometido verdadeiramente com a sua "profissão". Pois profissão, lembra especialização e comprometimento. A profissão também precisa gerar benefícios para a sociedade. Bom, aí vocês podem pensar que o profissional precisa ter como contraprestação dos seus serviços, o salário. E qual é o salário do Catequista? A realização!

OPA! Perái! Estou dizendo que catequista é profissão? Isso pode deixar os padres de cabelos em pé...

Não, não é uma profissão, mas, fica dentro daquilo que um profissional precisa fazer: formar-se, preparar-se para executar uma tarefa, fazê-la com competência e alegria. Quanto ao salário... vamos pensar que, com certeza, o salário dos justos é a vida eterna.

E o que me anima nesta vida é a expectativa de que no fim da minha jornada “de trabalho", me espera lá no final, naquela derradeira sexta-feira, um "happy hour" eterno, sentada com Aquele que me acompanhou pela vida afora: Jesus! E ali vamos conversar sobre os prós e os contras dessa missão tão importante... 

Ângela Rocha - Catequista Amadora (ainda e sempre). 
"Comunicar-se com os outros é dizer as palavras que o amor escolhe."

terça-feira, 22 de setembro de 2020

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA: PARA QUÊ FOI FEITO?

Conheça mais sobre o CIC - Catecismo da Igreja Católica!

Mirticeli Medeiros*

 

Muitos católicos, ao menos uma vez na vida, tiveram contato com aquele livro amarelinho que "sempre salva" a vida de alguém quando surgem dúvidas relacionadas à doutrina católica. O Catecismo da Igreja Católica (CIC), cuja última edição foi organizada pelo então cardeal Joseph Ratzinger, e publicada em 1997, é um fruto do Concílio Vaticano II por excelência.

Um fato curioso é que tanto a edição do século 16, quanto a atual, foram feitas para corresponder às orientações pastorais dos concílios ecumênicos que as antecederam. Pode-se dizer, portanto, que são "documentos pós-conciliares", utilizados para a assimilação dos conteúdos essenciais da fé católica.

Não por acaso, a proposta para a criação do catecismo atual surgiu justamente durante o Sínodo dos Bispos de 1985, convocado por João Paulo II para comemorar os 20 anos de conclusão do Vaticano II. E foi o próprio papa polonês a explicar, no documento que autorizava a criação do Catecismo (a constituição apostólica Fidei Depositum), que "o Vaticano II deveria ser, na atualidade, a fonte de inspiração para toda e qualquer ação pastoral na Igreja", e que o CIC se propunha a promover, nesse contexto, "uma catequese renovada".

O Catecismo no decorrer dos séculos

Os padres da Igreja - os mestres do cristianismo primitivo - escreveram várias instruções a respeito da prática da doutrina cristã. Um exemplo disto é a Didaché (ou Didaqué), texto do século II no qual o autor (desconhecido) explica os fundamentos da religião nascente, bem como algumas particularidades de seu culto.

Na idade média, São Tomás de Aquino criou uma espécie de "compêndio" para aqueles que se preparavam para o batismo, dotado de pouco rigor teológico justamente para facilitar a compreensão. Sua estrutura serviu de base para a criação dos catecismos. O conteúdo era dividido em 5 folhetos: Símbolo; o Pai-Nosso; Saudação Angélica; Decálogo e Sacramentos.

No entanto, o uso amplo do termo "catecismo" para designar um "manual de instruções doutrinárias" de caráter mais "universal" começa a ser adotado somente no século 16. Alguns atribuem a Martin Lutero a difusão maior da palavra, uma vez que foi ele quem publicou, por primeiro, em 1529, dois volumes de textos sobre a fé cristã utilizando este nome: o Catecismo Maior - com orientações para os ministros - e o Catecismo Menor - para o ensinamento das crianças. Todavia, vale salientar que, apesar de não utilizar o nome, o catolicismo já dispunha de manuais com instruções doutrinárias difundidos em alguns territórios. O mais conhecido era o "Catecismo Vaurense", produzido pelo sínodo local de Lavaur (França), em 1386.

Em âmbito católico, foi o Concílio de Trento (1545-1563) a aprovar a primeira edição do Catecismo da Igreja Católica, chamado Catechismus ad parochos - do latim, Catecismo aos párocos -, que como o próprio nome diz, serviria de subsídio para que os padres pudessem instruir os fiéis e assim "desviá-los das heresias". O texto foi publicado 3 anos após a conclusão do concílio, em 1566.

E é por isso que a Associação Italiana de Professores de História da Igreja (AIPHS) fala que uma "literatura catequética" se estruturou no decorrer dos séculos, e cujo apogeu se observou no século 16, período no qual se inaugurou a "era do catecismo". Anos depois, o jesuíta italiano Roberto Belarmino, para facilitar ainda mais o entendimento sobre os fundamentos da fé católica, escreveu a "Doutrina da fé cristã" e a "Declaração mais copiosa da fé cristã". Os livros esclarecem algumas dúvidas doutrinais a partir de uma sequência de perguntas e respostas feitas "pelo mestre ao discípulo" e vice-versa. As obras se tornaram, pelos 3 séculos posteriores à publicação, o manual de referência para todo católico.

Visando facilitar a compreensão dos assuntos referentes ao catolicismo, Pio X também publicou seu Catecismo em 1905, adotando o método dialógico de perguntas e respostas de Berlamino. Bastante elogiada por Bento XVI - que inclusive incentiva, ainda hoje, o seu uso - a obra é considerada por ele de grande valor para a história do catolicismo. Porém, de acordo com o papa emérito, o catecismo atual "responde melhor às exigências do presente".

As apropriações do Catecismo

Não é raro ver, hoje em dia, determinados grupos desviarem o Catecismo da sua função original. Aos poucos, o "livro amarelo", criado para promover a catequese, foi instrumentalizado para respaldar interpretações isoladas. Curiosamente, as pautas populistas, propagadas amplamente no cenário político, passaram a receber um "aval católico" e histérico de religiosos que, na verdade, não passam de falsificadores da doutrina.

É nessas horas que vemos o quanto as paixões partidárias podem levar algumas pessoas a "vender" a própria fé. Muitas delas, "cheias de autoridade" auto atribuída, desmembram alguns artigos de seu contexto, alegando, por exemplo, que a Igreja defenda o porte de armas, a partir de uma interpretação viciada do parágrafo que trata da legítima defesa. Para não citar outros absurdos propagados nas redes sociais, dentre os quais a ideia de contrapor o Catecismo – fruto do Vaticano II, diga-se – ao próprio Vaticano II e criticar Papa Francisco por considerar a pena de morte inadmissível.

Mergulhar na história do Catecismo é importante porque, com o passar do tempo, algumas pessoas passaram a utilizar o livro "na ofensiva", esquecendo-se que, a lista de explicações sobre os pilares da fé católica, serve para mostrar ao mundo a identidade do catolicismo. O que vemos, ao contrário, é a desfiguração dessa identidade por parte de quem deveria, por primeiro, promovê-la.

 

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.


FONTE:

https://domtotal.com/noticia/1464178/2020/08/catecismo-da-igreja-catolica-para-que-foi-feito/