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domingo, 13 de junho de 2021

QUEM FOI SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA: O SANTO MAIS AMADO DO BRASIL

Imagem: CRÉDITO,ARC-TEAM/ CENTRO STUDI

* A reconstituição facial revelou um Santo Antônio mais rechonchudo do que normalmente se imagina e com sintomas da hidropisia

 Santo Antônio: há 790 anos, morria o frade português que se tornou o santo mais popular do Brasil

Para muitos, é santo casamenteiro — folclore e tradições populares são pródigos em reservar a ele toda sorte de simpatias para trazer, para sempre enquanto dure, aquele amor perfeito. Para os devotos católicos, é um santo milagroso, daqueles mais eficientes na intercessão junto a Deus. Para a Igreja, é a figura que detém o recorde da canonização mais rápida da história. Para a historiografia, foi um homem notável do seu tempo: intelectual, o frade circulou por parte considerável da Europa do século 13 e ajudou a consolidar o papel dos franciscanos, cuja ordem havia acabado de ser fundada.


Este personagem é Santo Antônio de Pádua — assim chamado por aqueles que preferem enfatizar o auge de sua vida. Ou Santo Antônio de Lisboa — como preferem sobretudo os portugueses, enaltecendo suas raízes.

Se muito de sua vida, oito séculos mais tarde, se mistura com lendas, relatos extraordinários e fé religiosa, fato certo e comprovado é que o frade franciscano morreu há exatos 790 anos, em uma sexta-feira, 13 de junho de 1231.

"Ele era um homem bastante erudito mas, mesmo assim, mesmo muito ortodoxo em sua postura de combate às heresias, ele foi acometido dessa aura de um taumaturgo, alguém que tinha habilidade de manipular os poderes da natureza", contextualiza à BBC News Brasil o historiador, filósofo e teólogo Gerson Leite de Moraes, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Com o passar do tempo, várias camadas narrativas foram sendo colocadas neste homem. A história dos santos é muito recheada dessas narrativas que vão sendo acrescentadas, somadas, transformando aquilo num ícone."

Em terras brasileiras, a devoção antoniana ganhou seu próprio sotaque. O sincretismo fez dele uma figura simpática a outras religiões fora do catolicismo. E o folclore garantiu ao santo lugar de honra, seja na hora de pendurar sua imagem de cabeça para baixo até que um namorado dos sonhos apareça, seja em formatos de orações característicos, como a trezena — treze dias de rezas dedicadas a ele ou no considerado infalível "responso", cujo texto original é atribuído a um frade italiano chamado Giuliano da Spira, que viveu no século 13 e teria escrito a oração dois anos após a morte do santo.

Imagem: Papa Gregório 9º foi responsável pelas canonizações de Santo Antônio e de São Francisco de Assis

No 'Dicionário do Folclore Brasileiro', o sociólogo, antropólogo e historiador Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) registrou uma das tantas versões da oração, originalmente em latim, no português coloquial. "Quem milhares quer achar/ Contra os males e o demônio/ Busque logo a Santo Antônio/ Que só o há de encontrar", dizem os primeiros versos.

"Seu nome batiza igrejas, ruas e continua sendo um dos mais escolhidos para menino, em Portugal e Brasil", aponta Cascudo. "Rara será a cidade, vila ou povoado sem uma rua de Santo Antônio ou uma igreja de Santo Antônio, em todas as terras do idioma português."

Em 2019, um sacerdote italiano que atuava na cidade de Pádua comentou informalmente com este repórter que a fama de Antônio junto aos fiéis, em especial os brasileiros, advém desta maneira simples e brejeira como se desenvolveu a relação de fé com ele — entre simpatias que mais parecem travessuras. "Essas coisas, para quem vê de fora, podem parecer heresia ou falta de respeito. Mas, na verdade, aproximam o santo do povo. É como se ele não estivesse no altar, inacessível e distante, mas preferisse se sentar no banco da igreja, ao lado do fiel, como um amigo, um companheiro, alguém de confiança", filosofou o religioso.

"No Brasil, a religião nunca foi austera, sempre foi uma religiosidade com características populares", completa Moraes. "A religião no Brasil se desenvolveu muito nessa coisa da proximidade, da relação quase desrespeitosa com o sagrado, mas ao mesmo tempo muito íntima."

Autor do livro 'Santo Antônio: Por Onde Passa, entusiasma', o vaticanista italiano Domenico Agasso Jr. concorda que chama a atenção o fato de a figura de Santo Antônio, ainda no século 21, conservar grande relevância. "A primeira razão reside sobretudo no fato de ele não ter sido um menino 'santo', mas sim ter passado por uma transformação interior e exterior na juventude — e isso o coloca como uma mostra de que Deus é acessível a todos os homens e mulheres de todos os tempos e lugares", comenta ele, à BBC News Brasil.

"São muitos os que contam que graças a Antônio compreenderam uma coisa fundamental: só por meio da caridade podemos viver verdadeiramente na alegria", prossegue ele. "É por isso que Antônio ainda é muito amado. É uma presença que continua a gerar alegria. As pessoas sentem que ele é um pai, uma referência acolhedora e encorajadora, uma fonte inesgotável de esperança contra a resignação, o desespero, os medos."

A seguir, cinco curiosidades sobre este religioso cuja fama transcende o catolicismo.

1. Ele não morreu em Pádua, mas em Capo di Ponte

Imagem: Mariana Veiga - Basílica de Santo Antônio em Pádua


De acordo com relatos de seus contemporâneos, Antônio sofria de um quadro de hidropisia, ou seja, acúmulo de fluidos corporais. Na antiguidade, costumavam serem diagnosticados assim muitos distúrbios de circulação sanguínea — e o quadro, sabe-se hoje, é causa de edemas generalizados e pode acarretar insuficiência cardíaca congestiva.

Antônio era um homem na faixa dos 40 anos — há dúvidas sobre sua data de nascimento —, mas a condição de saúde associada à rotina de peregrinações, jejuns e penitência faziam-no parecer mais velho. Cansado depois de uma intensa quaresma naquele ano, ele havia solicitado, em maio, um período de descanso a seus superiores.

Em 19 de maio de 1231, recolheu-se então na propriedade de um nobre da região, conde Tiso VI (?-1234), em Camposampiero, a 20 quilômetros de Pádua, no norte da Itália, onde vivia.

Conforme conta a primeira crônica biográfica sobre o santo, publicada pela Ordem dos Frades Menores em 1232, 'Beati Antonii Vita Prima', ele parecia muito fraco naquela manhã de 13 de junho e desmaiou. Foi acomodado em uma cama rudimentar, de palha. Quando recobrou a consciência, pediu que o levassem de volta a Pádua, onde teria a assistência de irmãos religiosos.

Foi colocado então sobre um carro de boi. No caminho, contudo, com o frade visivelmente agonizando, os que o acompanhavam no traslado decidiram parar em um convento localizado em um pequeno burgo, na época chamado de Capo di Ponte — hoje, bairro de Arcella, no subúrbio de Pádua.

E foi ali, numa cela da pequena casa religiosa, que o santo morreu. Só depois foi levado para a Pádua que se tornaria famosa por conta dele.

Depois de atuar em diversas cidades — há registros comprovados de sua passagem por 37 localidades, hoje pertencentes a nações como Portugal, Espanha, Marrocos, Itália e França, mas é altamente provável que suas andanças como pregador tenham chegado a locais nas atuais Alemanha, Suíça, Eslovênia e Áustria —, foi no ano anterior à sua morte que Antônio decidiu resignar-se ao posto de provincial dos franciscanos em Milão e escolheu Pádua para viver.

Mesmo a cidade italiana, hoje com 211 mil habitantes, tendo sido endereço em algum momento inúmeros personalidades de vulto, como Nicolau Copérnico (1473-1543), Cristóvão Colombo (1451-1506) e Galileu Galilei (1564-1506), é inegável que a maior parte dos turistas que a visitam atualmente estão em busca de Santo Antônio — ou, como se diz por lá, simplesmente Il Santo, "O Santo".

2. Ele não nasceu em 1195, como a tradição acabou consagrando

 

Imagem: "Santinho de Santo Antônio

A canonização de Santo Antônio foi a mais rápida da história da Igreja Católica


Não há um consenso sobre a data exata de nascimento de Santo Antônio. A tradição católica havia consagrado o dia 15 de agosto de 1195. Hoje, especialistas concordam que o dia tenha sido inventando em algum momento, intencionalmente no mesmo 15 de agosto que a Igreja celebra a festa da Assunção de Nossa Senhora.

No seu livro 'Santo Antônio: Vida, Milagres, Culto', Frei Basílio — cujo nome civil era Hugo Röwer (1877-1958) — escreveu que "a circunstância de ter nascido no dia festivo da Assunção de Nossa Senhora foi o presságio de sua terna devoção à Maria Santíssima, cuja Assunção gloriosa ao céu iria mais tarde pregar nos seus sermões e com cujo hino nos lábios iria transportar o limiar da eternidade". Já o frade português Fernando Félix Lopes, em seu 'Santo António de Lisboa: Doutor Evangélico', adota o ceticismo mais compatível com o que se entende como verdade atualmente: "eu diria que foi o povo quem imaginou a data de modo tão preciso", pontuou, consciente da precária documentação existente.

Em 1981, durante as celebrações pelos 750 anos de sua morte, o Vaticano autorizou que seus restos mortais, sepultados na basílica a ele dedicada em Pádua, fossem exumados para análise científica. Exames antropométricos foram então realizados, por uma junta de pesquisadores, alguns ligados à Santa Sé, outros vinculados à Universidade de Pádua. A principal conclusão: o material era compatível com um homem de mais de 40 anos.

Seus biógrafos passaram então a situar seu nascimento como tendo sido provavelmente em 1188. Isto tornaria compatíveis com a realidade diversas datas sobre as quais há registros em sua vida, como seus ingressos às ordens religiosas — primeiro, ele foi agostiniano; depois, franciscano — e sua ordenação sacerdotal. Se for admitido o nascimento em 1195, é preciso crer nele um prodígio capaz de ter abreviado etapas de estudo, galgando degraus em idade inferior ao usual para a época.

As incertezas, contudo, persistem até em locais onde essas informações poderiam dirimir dúvidas. Inaugurado em 2014 no centro de Lisboa, o Museu de Lisboa: Santo Antônio, afirma no site, que o religioso nasceu em 1195, embora admita que o 15 de agosto tenha sido uma tradição, possivelmente criada no século 17. Em letreiro afixado no memorial, por outro lado, a instituição diz que Antônio veio ao mundo em 1191.

Em 2014, novos estudos científicos foram realizados nos restos mortais de Antônio, por pesquisadores do Museu de Antropologia da Universidade de Pádua, em parceria com o Centro de Estudos Antonianos e com o grupo Arc-Team Open Research. O designer brasileiro Cícero Moraes foi encarregado de fazer, por computação gráfica, a reconstituição facial tridimensional fidedigna do santo. Mais uma vez, a confirmação: tratava-se de um homem de mais de 40 anos.

O que não há dúvidas, contudo, é que seu nome de batismo era Fernando, e não Antônio. Muito provavelmente, a julgar inclusive por ter tido acesso a estudos básicos em uma época de parcos escolarizados, filho de uma família importante da sociedade lisboeta da época. Diversos pesquisadores concordam que seu nome completo era Fernando Martins de Bulhões e Taveira de Azevedo.

Quando decidiu ingressar para a vida religiosa, Fernando buscou o Mosteiro de São Vicente de Fora, mantido pelos cônegos regrantes de Santo Agostinho. Sua entrada para o convento está nos registros históricos da instituição devidamente preservados pelo Arquivo Nacional da Torre do Tombo. "Em 1210, professou em São Vicente aquele que viria a ser Santo Antônio de Lisboa", afirma o verbete.

A vida junto aos agostinianos foi o que conferiu erudição ao jovem religioso. Teve acessos a livros e ensino não só de teologia e doutrina católica, mas também de história, astronomia, medicina, matemática, retórica e letras jurídicas.

Insatisfeito com as limitações do convento, Fernando solicitou transferência para o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra — o que aconteceu entre o fim de 1211 e início de 1212. Trata-se da mais antiga casa agostiniana de Portugal, fundada em 1131. E ficava na cidade que era então a capital de Portugal.

"Ele era de origem nobre, e [tornou-se] um intelectual bem preparado. Era professor de teologia. Vivia como Fernando em um mosteiro […] onde o estudo e a ciência eram prioridades. Mas ficou impressionado com a vida dos seguidores de Francisco de Assis, e ao se tornar franciscano, atraído pela simplicidade, revelou-se em uma tal humildade que, no começo, nem os confrades desconfiaram do grande intelectual que estava no meio deles", conta à BBC News Brasil o teólogo Luiz Carlos Susin, professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana.

Esta mudança para a Ordem dos Frades Menores, ou seja, a transformação de agostiniano em franciscano, ocorreu em algum momento entre junho e agosto de 1220. Em um sinal de que deixava a vida pregressa para trás, Fernando assumiu nova identidade. Escolheu Antônio.

O nome tinha motivos, é claro. O eremitério franciscano em Coimbra, local hoje ocupado pela Igreja de Santo Antônio dos Olivais, era chamado de Santo Antão — em sua forma latina, Antonius. Santo Antão do Deserto (251-356), conhecido como "pai de todos os monges", foi um religioso considerado pela Igreja como o precursor da vida monástica. Assim, Antônio homenageava também, de certa forma, os agostinianos que deixava para trás, já que Santo Agostinho bebeu na fonte de Antão ao criar sua regra monástica.

O relato 'Beati Antonii Vita Prima' explica de forma poética esse momento. "Assim foi o próprio Antônio em pessoa, que, substituído o vocábulo, se impôs o nome e com ele, por um feliz presságio, designou qual havia de ser o arauto da palavra de Deus", afirma o texto. "Antônio, pois significa por assim dizer aquele que atroa os ares. E na realidade a sua voz, qual trombeta portentosa, quando expressava entre os doutos a Sabedoria oculta no mistério de Deus, proclamava com ênfase tais e tão profundas verdades das Escrituras, que mesmo, e nem sempre, o exegeta poderia compreender a eloquência da sua pregação."

3. Nenhum dos 53 milagres de sua canonização tem a ver com casamento

Afresco atribuído ao pintor Filippo da Verona e provavelmente feita em 1510 mostra Santo Antônio em aparição a seu confrade e seguidor Luca Belludi.

Nem bem foi sepultado em Pádua, no dia 17 de junho de 1231, começaram a pipocar pela região relatos de milagres atribuídos à intercessão daquele que já era chamado de santo ainda em vida. Seu túmulo começou a atrair devotos e pagadores de promessa.

Menos de um mês após sua morte, o bispo Jacopo Corrado (?-1239) solicitou ao papa Gregório IX (1170-1241) que abrisse um processo para canonizar o frade. Admirador dos franciscanos, o sumo pontífice, que havia conhecido Antônio em vida, aceitou. Mas houve uma resistência na cúpula da Igreja.

O maior problema seria canonizar, quase que sequencialmente, dois frades franciscanos — além de tudo, uma ordem fundada há tão pouco tempo, em 1209. Francisco de Assis (1181 ou 1182-1226) havia sido oficializado santo, pelo mesmo papa Gregório IX, em 1228.

A celeuma político-clerical foi contornada com um apelo popular materializado em enxurrada de histórias de milagres. Em uma época em que os processos de canonização careciam das padronizações metodológicas hoje existentes, o papa mandou criar duas comissões: em Pádua, conferiu poderes ao bispo Corrado e aos superiores dos beneditinos e dos dominicanos para que reunissem casos milagrosos e examinassem as pessoas que se diziam curadas; em Roma, designou dois cardeais para analisarem os relatórios.

A esses esforços foram juntados documentos produzidos por dois cardeais que, em visita à região de Milão, também coletaram narrativas de prodígios ocorridos, de acordo com a fé popular, graças a Antônio.

O documento que serviu para justificar sua canonização acabou reunindo, depois desses crivos, 53 milagres atribuídos a sua intercessão. A grande maioria dizia respeito a problemas de saúde, de paralisias a surdez, passando pela fantástica história de uma menina que teria morrido afogada e voltado a viver. Alguns dos casos listados, contudo, são mais prosaicos — como o de uma taça de vidro atirada contra a parede — apenas para testar o poder do santo — que não teria se quebrado e de tripulantes de um barco à deriva que, em meio a uma tempestade, fiaram-se em Santo Antônio para reencontrar o caminho de volta.

Em 30 de maio de 1232, menos de um ano após a morte do franciscano, papa Gregório IX anunciou que Antônio já podia ser eternizado no rol dos santos da Igreja. "Em honra e louvor à Santíssima Trindade e para exaltação da santa Igreja, inscrevemos o servo de Deus, Frei Antônio, confessor da Ordem dos Frades Menores, no catálogo dos santos, e ordenamos que a sua festa seja celebrada todos os anos em 13 de junho", declarou o pontífice.

Em 13 de junho daquele ano, a missa do primeiro aniversário da morte dele foi especial para a cidade de Pádua: não só ele podia ser chamado de santo, como foi lançada ali a pedra fundamental da construção do santuário a ele dedicado: é a base da mesma construção atual, oficialmente Pontifícia Basílica Menor de Santo Antônio de Pádua — que seria concluída apenas em 1310 e, com o passar dos séculos, passou por várias reformas e modificações.

Mas se nenhum dos milagres compilados pelo Vaticano tratava de casamento, de onde veio essa fama? Para hagiógrafos, há algumas explicações. A primeira é que, ainda em vida, ele teria sido um grande opositor dos casamentos combinados por interesse entre famílias, o que ele chamava de mercantilização do sacramento — defendia que os casais fossem formados por amor.

Há ainda uma versão, com contornos de lenda, de que ele teria desviado, certa vez, donativos recebidos pela Igreja, para ajudar uma moça a conseguir dinheiro suficiente para o dote que era necessário ao seu casamento.

"Ele é arranjador de bons casamentos somente em alguns países. Na maior parte dos países europeus e nos Estados Unidos, o santo dos namorados é São Valentim", lembra o teólogo Susin. "Na biografia de Santo Antônio e nas lendas medievais não há nada que sugira esse título. Mais tarde, porém, o santo de Lisboa e Pádua substituiu, nas lendas populares, o deus romano Mercúrio como o mensageiro de boas notícias, o portador e o intérprete de boas encomendas."

"Na Itália e em alguns países latinos, esta permanece sua qualidade especial", prossegue. "Talvez o fato de Antônio levar a Palavra de Deus para o povo como boa notícia, e o povo procurar sua palavra, seja a origem do santo que acha o que foi perdido, que acha o que é difícil, e acerta no amor."

4. Embora fosse contra as armas, acabou virando militar — postumamente

Santo Antônio militar, em ilustração de autor desconhecido

Desde as mais antigas biografias, há ênfase no fato de que Antônio era contrário às armas e qualquer postura bélica. Quando jovem, seu pai teria tentado demovê-lo da ideia de se tornar padre — e a alternativa era que o filho se tornasse militar.

Aos 15 anos, por ordens paternas, o então menino Fernando teria estudado cavalaria e esgrima, mas nunca demonstrou muita aptidão para isso. Já como sacerdote, em diversos sermões defendeu que as Cruzadas ocorrem pelo diálogo, que o convencimento e a conversão fossem resultantes da argumentação, nunca das armas.

Contudo, como em casos de guerra é o santo de casa que faz milagre, é o santo de casa que luta do lado nacional, nos séculos seguintes à sua morte, Antônio passou a ser requisitado por soldados portugueses. As primeiras referências do santo sendo considerado militar no exército português datam de 1623. Durante o reinado de Afonso VI (1643-1683), em batalhas contra o domínio de Castela, ficou determinado que Antônio fosse "alistado no exército, como seu patrono" e "assentasse praça como soldado".

A ideia era dar ânimo aos soldados de carne e osso. E, ao mesmo tempo, esses salários funcionavam como verba oficial para algum convento — que ficava com o dinheiro. A partir de então, Antônio passou a galgar posições dentro das forças portuguesas, com direito a novos postos e sucessivos aumentos de salário.

Em 1777, o então comandante do Regimento de Lagos escreveu à rainha Maria I (1734-1816) uma carta bastante curiosa pedindo melhor patente ao santo. "Durante todo o tempo em que tem sido capitão, vai para quase cem anos, constantemente cumpriu seu dever com maior prazer à frente de sua companhia, em todas as ocasiões, em paz e em guerra, e tal que tem sido visto por seus soldados vezes sem-número, como eles todos estão pontos para testemunhar: e em tudo o mais tem-se comportado sempre como fidalgo e oficial", argumentou ele, dizendo que o capitão Antônio era "muito digno e merecedor do posto de major", ressaltando que não havia nos registros nada relativo a "mau comportamento ou irregularidade praticada por ele".

No Brasil, o santo teve cargos em diversas corporações desde os tempos coloniais. Em 1595, seu primeiro posto foi como soldado, na Bahia. A explicação é contada pelo historiador José Carlos de Macedo Soares, no livro 'Santo Antônio de Lisboa, Militar no Brasil': uma imagem do santo teria protegido portugueses em um episódio envolvendo uma frota holandesa que pretendia invadir a costa brasileira. A partir de então, o santo passou a ganhar salário de soldado naquela região.

Histórias do tipo foram se somando. Há indícios de que só na Bahia tenham sido quatro salários simultâneos. Quando assumiu a capitania de Pernambuco, em 1685, João da Cunha Souto Maior também determinou que Santo Antônio se tornasse soldado — o convento de Olinda tornou-se beneficiário dos vencimentos.

Há relatos de Santo Antônio militar na Paraíba, no Rio e no Espírito Santo. Em São Paulo chegou a coronel, maior patente de sua carreira no país, conforme está manuscrito na página 154 o livro 17 do Arquivo do Estado. O texto, assinado pelo então governador Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão (1722-1798) em 5 de janeiro de 1767 justifica que o gesto é "para aumento da devoção do mesmo santo e à imitação do que se tem praticado nas mais capitanias deste Brasil".

Com a transferência da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, essas nomeações passaram a se tornar mais abrangentes. Em 1810, o então príncipe-regente João VI (1767-1826) fez do religioso sargento-mor de todo o exército luso-brasileiro. Em 1813, o santo foi promovido para tenente-coronel de infantaria — os salários eram repassados aos franciscanos do convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro.

A Proclamação da República, em 1889, com a oficial separação entre Igreja e Estado, seria o ponto final na bem-sucedida carreira antoniana no exército nacional. Mas o processo não foi imediato. Conforme jornais da época, a legitimidade do holerite de Santo Antônio foi discutida ainda na primeira gestão. Em outubro de 1890, o então ministro da Guerra, Floriano Peixoto (1839-1895), determinou que não fosse anulado o decreto de 1814. "Deferindo a reclamação pelo provincial dos franciscanos, […], vos declaro, enquanto por ato especial não for anulado, o decreto de 26 de julho de 1814, que conferiu a patente de tenente-coronel de infantaria à imagem de Santo Antônio do Rio de Janeiro, deve continuar a pagar-se o soldo a que tem direito", diz trecho do documento.

Em 1907, o delegado fiscal do Tesouro Nacional, que por um capricho do destino se chamava Antônio de Pádua Mamede, finalmente retirou Santo Antônio das folhas de pagamento. "Não é lícito que a nação continue a pagar aquele soldo […] concorrendo-se, assim, para conservar a crendice que teve o príncipe regente ao expedir aquelas patentes", justificou.

Mesmo assim, foram cinco anos de idas e vindas até que essa decisão fosse aprovada pelo ministério da Fazenda. A identidade do ministro, aliás, também guardava irônica coincidência: coube a Francisco Antônio de Sales (1863-1933) registrar, na folha 21 do livro 486 da então Diretoria de Contabilidade da Guerra a extinção dos holerites antonianos.

Só que suas patentes não foram revogadas, mesmo sem salário. Em 1924, o presidente Artur Bernardes (1875-1955) cobrou providências ao ministro da Guerra. "O coronel Antônio de Pádua vai quase em três séculos de serviço. Nomeio-o general e ponha-o na reserva", escreveu, em carta. A partir de então, Santo Antônio passou para a reserva.

5. Ele foi 'adotado' pelos brasileiros, por causa dos franciscanos portugueses

Muitos apontam Santo Antônio como o mais populares entre os altares brasileiros. Em 1995, a instituição Associação do Senhor Jesus realizou pesquisa entre católicos praticantes para saber quais são os de maior predileção. Antônio apareceu no topo do ranking, com 20% das respostas — 4 mil pessoas foram ouvidas.

Entre pesquisadores, é unânime a explicação de que a devoção ao santo ganhou popularidade no Brasil por conta da colonização portuguesa. E é altamente provável que a primeira imagem de Antônio tenha sido trazida já pela frota de Pedro Álvares Cabral (1467-1520), em 22 de abril de 1500. Na esquadra, estavam oito frades franciscanos, entre eles Henrique Soares de Coimbra (1465-1532), celebrante da primeira missa em solo brasileiro.

Eram franciscanos como Santo Antônio. Eram portugueses como Santo Antônio. Eram devotos de Santo Antônio. Nas décadas seguintes, conventos franciscanos começaram a se espalhar pela colônia. "De certo modo, todo este histórico contribuiu para a difusão do Santo. Independentemente dos religiosos que nos catequizaram, tem o fato de Santo Antônio ser português e isto era muito motivo de orgulho ao colonizador", diz à BBC News Brasil o pesquisador José Luís Lira, presidente da Academia Brasileira de Hagiologia.

E sua fama acabou se difundindo pelo Brasil. "A figura do santo casamenteiro, do santo das coisas perdidas, suas pregações", prossegue Lira. "Somando-se a tudo isso, vieram as festas juninas que, embora trazidas pelo colonizador, aqui assumiram conotação própria. Todos esses fatores, mais a presença ininterrupta dos franciscanos no Brasil, contribuíram, em muito, para que Santo Antônio se tornasse um dos santos mais amados e populares."

"Os franciscanos sempre foram muito importantes no Brasil. Depois da expulsão dos jesuítas, no século 18, se tornaram a ordem religiosa mais influente no país. Era natural que difundissem a devoção a um dos seus maiores santos, que além de tudo era português", acrescenta à BBC News Brasil o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "Por outro lado, Antônio, mesmo entre os franciscanos, é um santo particularmente próximo a São Francisco de Assis. Ambos se voltam para os pobres e desvalidos, falam com animais, são modelos de vida na pobreza."

"O povo procura santos que sejam próximos às pessoas e a humildade e o apego à pobreza são considerados sinais inconfundíveis dessa proximidade. Sua fama de casamenteiro ilumina essa devoção. A jovem aflita pede ao santo aquilo que é a definição mais importante de sua vida", diz o sociólogo. "Para os adultos pragmáticos, trata-se de um pedido e de uma insegurança até pueril. A jovem casamenteira é até ridicularizada na tradição popular. Santo Antônio é, portanto, o santo suficientemente poderoso para interceder pelo desejo mais importante da vida, e suficientemente humilde e atencioso para receber aquele pedido que pode parecer pueril e até envergonhado."

"No Brasil, tornou-se um santo muito popular, muito amado, muito aclamado. Veja a quantidade de pessoas no Brasil que se chamam Antônio e a quantidade de cidades que têm o nome de Santo Antônio", atenta Moraes.

Trinta e oito municípios brasileiros têm seus nomes em alusão ao santo. Há a cidade de Santo Antônio, no Rio Grande do Norte, ou variações como Santo Antônio do Içá, no Amazonas, ou Santo Antônio do Pinhal, em São Paulo. E duas Novo Santo Antônio, uma no Mato Grosso, outra no Piauí.

Para o frade franciscano Diogo Luís Fuitem, diretor da revista Mensageiro de S. Antônio e autor do livro "Antônio: O Santo do Povo", o santo caiu no "gosto popular" do Brasil porque sua mensagem conseguiu "cativar a todos". "'Santo casamenteiro', 'santo milagreiro', 'restituidor de coisas perdidas'…", elenca ele, à BBC News Brasil. "Esses títulos mostram que ele conseguiu se identificar com o povo necessitado de orientação e de amparo. [Antônio,] em sua breve vida, foi um reflexo da presença de Deus."

Edison Veiga – jornalista, autor do livro-reportagem 'Santo Antônio: A história do intelectual português que se chamava Fernando, quase morreu na África, pregou por toda a Itália, ganhou fama de casamenteiro e se tornou o santo mais querido do Brasil' (Editora Planeta, 2021).

FONTE: BBC NEWS BRASIL - https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57447342. 12 junho 2021.

sábado, 12 de junho de 2021

REFLEXÃO DO EVANGELHO DO DOMINGO: “QUEM TEM OUVIDO PRA OUVIR, OUÇA”

 

11º DOMINGO DO TEMPO COMUM: Mc 4,26-34

A SEMENTE QUE CRESCE SOZINHA

É bonito ver como Jesus, cada vez de novo, buscava na vida e nos acontecimentos elementos e imagens que pudessem ajudar o povo a perceber e experimentar a presença do Reino. No evangelho de hoje, ele novamente conta duas pequenas histórias que acontecem todos os dias na vida de todos nós: “A história da semente que cresce sozinha” e “A história da pequena semente de mostarda que cresce e se torna grande”.

A história da semente que cresce sozinha (Marcos 4,26-29): O agricultor que planta conhece o processo: semente, fiozinho verde, folha, espiga, grão. Ele não mete a foice antes do tempo. Sabe esperar. Mas não sabe como a terra, a chuva, o sol e a semente têm esta força de fazer crescer uma planta do nada até a fruta. Assim é o Reino de Deus. Tem processo, tem etapas e prazos, tem crescimento. Vai acontecendo. Produz fruto no tempo marcado. Mas ninguém sabe explicar a sua força misteriosa. Ninguém é dono. Só Deus!

A história da pequena semente de mostarda que cresce e se torna grande (Marcos 4,30-32): A semente de mostarda é pequena, mas ela cresce e, no fim, os passarinhos vêm para fazer seu ninho nos ramos. Assim é o Reino. Começa bem pequeno, cresce e estende seus ramos para os passarinhos fazerem seus ninhos. Começou com Jesus e uns poucos discípulos e discípulas. Foi perseguido e caluniado, preso e crucificado. Mas cresceu e foi estendendo seus ramos. A parábola deixa uma pergunta no ar que vai ter resposta mais adiante no evangelho: Quem são os passarinhos? O texto sugere que se trata dos pagãos que vão poder entrar na comunidade e ter parte no Reino.

O motivo que levava Jesus a ensinar por meio de parábolas (Marcos 4,33-34): Jesus contava muitas parábolas. Tudo tirado da vida do povo! Assim ele ajudava as pessoas a descobrir as coisas de Deus no quotidiano. Tornava o quotidiano transparente. Pois o extraordinário de Deus se esconde nas coisas ordinárias e comuns da vida de cada dia. O povo entendia da vida. Nas parábolas recebia a chave para abri-la e encontrar dentro dela os sinais de Deus.

Texto de Mesters e Lopes

Fonte: cebi.com.br

 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

REFLEXÃO DA PALAVRA DE DEUS: A SEMENTE E O GRÃO DE MOSTARDA (Mc 4, 26-34)

 

HOMENS E DEUS TRABALHAM JUNTOS

Neste Domingo, Jesus nos explica a grandeza do Reino de Deus que acontece a partir de coisas simples e em nosso cotidiano. Deus age sempre, mesmo quando erramos, mas nos convida a sermos parceiros em sua obra de transformar este mundo.

O profeta Ezequiel foi chamado por Deus para semear a esperança de Deus em um tempo muito difícil para Israel. O país tinha sido destruído por um povo estrangeiro e muitos tinham morrido. Deus, no entanto, procurou falar através do profeta deixando uma promessa ao seu povo: de transformar sua gente em um cedro grandioso. Israel, um pequeno galho que se transformará em um grande arvoredo no alto da montanha.

Jesus, no Evangelho, esclarece com dois exemplos como é o Reino de Deus. Os exemplos nos dão a ideia da simplicidade e da pequenez das coisas e ao mesmo tempo da força grandiosa que elas escondem e do maravilhoso efeito que produzem.

 

O Reino possui sua própria força, acontece a partir do nosso dia a dia, dentro de nossas casas, no nosso campo e em nossas famílias. No entanto, Deus precisa de nossa ajuda.

Na primeira parábola, Jesus afirma que “um homem” do campo se põe a semear. O agricultor sabe bem o que toca a ele fazer e procura fazer da melhor forma possível, mas também tem consciência que certas coisas ele não possui nenhum poder e nem sabe explicar como acontecem. Ação conjunta e harmoniosa onde o semeador inicia e termina o processo, mas toda parte principal, ele não possui nenhuma influência.

 

O Reino de Deus, assim, é algo que se constrói no cotidiano da vida das pessoas. Se o semeador não semeia, nada acontece; se tudo está pronto, mas ele não recolhe, tudo está comprometido. Jesus chama atenção daquilo que o agricultor não tem poder, aquilo que ele não pode influenciar de nenhum modo: todo o processo logo depois do plantio até o grão das espigas. A ação de Deus de implantar seu Reino neste mundo necessita de “agricultores” de sua palavra, que semeiem e saibam esperar; que façam sua parte, mas deem espaço para ação de Deus; que sejam aliados e companheiros, e não opositores e destruidores da Palavra.

Chama-nos atenção nas palavras de Jesus, os detalhes sobre o processo da produção da espiga. Tudo tem o seu tempo e o seu ritmo para acontecer. Se o semeador não confiar e se também não tiver paciência tudo pode se comprometer. A natureza nos ensina isto: tudo tem o seu momento justo para acontecer!

Vivemos em tempo da agitação, dos grandes acontecimentos, do tempo “sem tempo” pra nada. As pessoas estão cada vez mais iludidas que o bom é aquilo que ainda não se tem: o celular novo, carro novo, a roupa nova… Não se tem paciência mais para ninguém (família, amigos, parentes…), nem para as coisas do dia a dia (trânsito, TV, internet….) e nem pra Deus. 

Hoje em dia, tudo tem sua parcela de tempo e espaço, menos tempo pra Deus. A vida é feita de parcerias e de relações onde cada um tem sua missão. Deus precisa de nós como semeadores; a semente é a sua palavra; o terreno é o mundo e as pessoas.

A segunda parábola completa a anterior. O Reino de Deus, em confronto a muitas coisas neste mundo, é comparado a um grão de mostarda: minúsculo e quase imperceptível, mas quando é semeado e tem oportunidade de crescer, se transforma em uma árvore que acolhe a todos. A força não está na aparência e nem no tamanho, mas na generosidade daquele que se imola como semente e se transforma.

 

A semente de mostarda como de qualquer outra semente, enquanto permanece um grão jamais se transformará em árvore. O grão de mostarda possui uma imensa força e futuro que vai além da aparência e do seu tamanho. Como na primeira parábola, a semente de mostarda precisa ser semeada com zelo e atenção por parte do semeador e tudo o mais acontecerá. Não existe semente pequena ou grande; não existem gestos e palavras de Deus insignificantes.

No mundo de hoje é crescente a ideia do Deus que tem que fazer tudo: Deus dos grandes prodígios e milagres. Jesus nos convida a sermos parceiros neste seu Reino, pois a força e a grandeza da semente (Palavra de Deus) Ele mesmo nos fornece para transformar este mundo em uma “grande plantação” de Deus onde todos se transformem em espigas cheias de vida. O mundo precisa ser transformador dentro de nós e através de nós como o agricultor da parábola que semeia, mas precisa ter paciência e confiança, pois Deus precisa transformar tudo de dentro pra fora, como a semente que se transforma em um broto, depois espiga e por fim, os frutos.

Para Jesus, o Reino de Deus não é uma realidade superior e longe da realidade humana, mas sim encarnada no chão da nossa vida e no alcance de qualquer pessoa. Saber encontrar o infinito de Deus nas coisas pequenas e simples. Na natureza tudo acontece por simples generosidade; para a terra, produzir fruto não há esforço, o mesmo para a luz iluminar. Nós também devemos aprender a doar o que temos e somos gratuitamente, pois esta é a felicidade que Jesus viveu e nos ensinou.

Tudo pode acontecer se soubermos realizar tudo em parceria com Deus, enquanto caminhamos neste mundo procurando fazer o melhor possível, pois um dia, nós estaremos diante Dele para compartilhar aquilo que construímos de bom no Reino de Jesus. Para muitos, aquele dia será de alegria em descobrir que foi um bom semeador, para outros, será de tristeza em descobrir se só foram obstáculo no Reino de Deus.

Sejamos nós, Senhor, chão que acolhe a Palavra e produz frutos de amor e presença de Deus para alegrar a vida das pessoas que encontrarmos em nossa vida!

 

Pe. Dirlei Abércio da Rosa 

Arquidiocese de Pouso Alegre

 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

A DEVOÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JEUS

A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus é comemorada sempre na sexta-feira da semana seguinte ao Corpus Christi. O Dia do Sagrado Coração de Jesus em 2021 será em 12 de junho

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus tem a sua origem na Sagrada Escritura em dois acontecimentos: o gesto de São João, ao encostar a sua cabeça em Jesus durante a Última Ceia (cf. Jo 13,23); e na cruz, quando o soldado abriu o lado de Jesus com uma lança (cf. Jo 19,34). No primeiro, é possível destacar o consolo pela dor da véspera da morte; no outro, o sofrimento causado pelos pecados da humanidade. 

Após um apelo de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque, em 1675, a devoção tornou-se ainda mais popular e alcançou o status de solenidade:

 Eis este coração que tanto tem amado os homens…não recebo da maior parte senão ingratidões, desprezos, ultrajes, sacrilégios, indiferenças… Eis que te peço que a primeira sexta-feira depois da oitava do Santíssimo Sacramento (Corpo de Deus) seja dedicada a uma festa especial para honrar o meu coração, comungando, neste dia, e dando-lhe a devida reparação por meio de um ato de desagravo, para reparar as indignidades que recebeu durante o tempo em que esteve exposto sobre os altares”.

Santa Margarida Maria Alacoque compôs uma belíssima oração de Consagração ao Sagrado Coração de Jesus que se chama “Pequena Consagração”. Reze-a com um santinho nas mãos, ou diante de uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. 


Pequena Consagração ao Sagrado Coração de Jesus

Eu (o seu nome), Vos dou e consagro, oh Sagrado Coração de Jesus Cristo, a minha vida, as minhas ações, penas e sofrimentos, para não querer mais servir-me de nenhuma parte do meu ser, senão para Vos honrar, amar e glorificar. É esta a minha vontade irrevogável: ser todo Vosso e tudo fazer por Vosso amor, renunciando de todo o meu coração a tudo quanto Vos possa desagradar.

Sagrado Coração de Jesus é uma das três solenidades do Tempo Comum, dentro da Liturgia da Igreja Católica, comemorada na segunda Sexta-feira, após a solenidade de Corpus Christi. Além disso, essa devoção também é cultivada pela Igreja Católica ao longo de todas as primeiras Sextas-feiras de cada mês. Consiste na veneração do Coração de Jesus, do mais íntimo de Seu Amor.

A origem desta devoção se deve a Santa Margarida Maria de Alacoque, religiosa da Congregação da Ordem da Visitação. Santa Margarida Maria  teve extraordinárias revelações por parte de Jesus Cristo, que a incumbiu de divulgar e propagar no mundo esta piedosa devoção. Jesus deixou grandes promessas às pessoas que participassem das comunhões reparadoras das primeiras sextas-feiras. As promessas que trazem grandes benefícios espirituais para a vida daqueles que têm essa devoção são muitas, mas, foram sintetizadas nestas doze:

AS DOZE PROMESSAS DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

1ª Promessa: “Eu darei aos devotos de meu Coração todas as graças necessárias a seu estado”.

2ª Promessa: “Estabelecerei e conservarei a paz em suas famílias ”.

3ª Promessa: “Eu os consolarei em todas as suas aflições”.

4ª Promessa: Serei refúgio seguro na vida e principalmente na hora da morte”.

5ª Promessa: Lançarei bênçãos abundantes sobre os seus trabalhos e empreendimentos”.

6ª Promessa: Os pecadores encontrarão em meu Coração fonte inesgotável de misericórdias”.

7ª Promessa: As almas tíbias tornar-se-ão fervorosas pela prática dessa devoção”.

8ª Promessa: “As almas fervorosas subirão em pouco tempo a uma alta perfeição”.

9ª Promessa: “A minha bênção permanecerá sobre as casas em que se achar exposta e venerada a imagem de meu Sagrado Coração”.

10ª Promessa: “Darei aos sacerdotes que praticarem especialmente essa devoção o poder de tocar os corações mais endurecidos”.

11ª Promessa: “As pessoas que propagarem esta devoção terão o seu nome inscrito para sempre no meu Coração”.

12ª Promessa: “A todos os que comunguem nas primeiras sextas-feiras de nove meses consecutivos, darei a graça da perseverança final e da salvação eterna”.

Para se obter essas graças prometidas pelo Sagrado Coração de Jesus os devotos devem: comungar durante nove primeiras sextas-feiras consecutivas; ter a intenção de honrar o Sagrado Coração de Jesus e alcançar a perseverança final; e oferecer cada Comunhão como um ato de expiação pelas ofensas cometidas contra o Santíssimo Sacramento.

 Oração ao Sagrado Coração de Jesus

Meu Sagrado Coração de Jesus, corro e venho a Vós, porque sois o meu único refúgio, o meu único consolo, a minha única certeza, a minha única e firme esperança. Vós sois o remédio infalível e seguro para todos os meus males, a esperança para as minhas misérias, o reparo das minhas faltas, a luz nas minhas dúvidas e agonias, o consolo do meu desamparo. Vós preencheis as minhas lacunas e sois a certeza nos meus pedidos. Vós sois a infalível e infinita Fonte de luz e força, de benção e de paz. Estou seguro de que nunca, nunca vos cansareis de mim, de que nunca me abandonareis, de que nunca deixareis de me amar, ajudando-me e protegendo-me sempre, porque o amor de Vosso Coração por mim é infinito e absoluto. Tende piedade de mim, Senhor, pela vossa grande misericórdia, e fazei comigo, de mim e para mim, tudo o quanto quiserdes, mantendo-me sempre e para sempre dentro de Vosso Coração de Amor. Abandono-me em Vós, Coração do meu Amor, com toda e a inteira confiança de que nunca me abandonareis, de que nunca estarei só. Amém.

Hoje, o movimento do Apostolado da Oração ao Sagrado Coração de Jesus zela por essa devoção e a propaga pelo mundo todo. Dessa forma, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus difundiu-se por todo o mundo e foi recomendada por muitos Papas da Igreja. Muitos Santos, como São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loyola, Santa Tereza D’Avila e outros, dedicaram terna devoção, admiração e adoração ao Sagrado Coração de Jesus. 

O Senhor olha sempre para nós com misericórdia. Não tenhamos medo de nos aproximarmos d’Ele! Tem um coração misericordioso! Se lhe mostrarmos as nossas feridas interiores, os nossos pecados, Ele perdoar-nos-á sempre. É misericórdia pura! Vamos ao encontro de Jesus!”.

(Papa Francisco, 2020).


FONTE: Diversas da Internet: Wikipedia.

CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

SÃO JOSE DE ANCHIETA: PADROEIRO DOS CATEQUISTAS DO BRASIL

Em 2015, a Congregação para o Culto Divino e Sacramentos aceitou o pedido da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e declarou São José de Anchieta o padroeiro dos catequistas do Brasil.

O Papa Francisco acaba de publicar o Motu próprio “Antiquum Ministerium” (Antigo Ministério) no qual institui o Ministério dos Catequistas. Trata-se de um reconhecimento oficial e ministerial de um dos mais significativos serviços à Igreja. No Brasil, milhares de mulheres e homens que em cada canto do País desenvolvem este belíssimo trabalho, têm em quem se inspirar: São José de Anchieta.

Em 2015, a Congregação para o Culto Divino e Sacramentos aceitou o pedido da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e declarou São José de Anchieta o padroeiro dos catequistas do Brasil. Mas por que o escolhido foi José de Anchieta?

O primeiro catequista do Brasil

O jovem jesuíta, nascido nas ilhas canárias, chegou ao Brasil aos 19 anos. Cheio de entusiasmo apostólico, logo escreveu uma gramática para poder transmitir a fé católica aos nativos indígenas na língua mais falada do Brasil: o Tupi. Nomeado pelo padre Manuel da Nóbrega professor da escola de Piratininga – que daria origem à cidade de São Paulo – o jovem consagrou-se ao ensinamento e à evangelização dos indígenas. Escreveu também manuais de catequese na língua indígena para facilitar o anúncio dos novos missionários.

Paixão e criatividade

Para transmitir a fé com ainda mais eficácia, utilizou dos seus dotes artísticos escrevendo e apresentando peças de teatro por todo o Brasil até então conhecido. Seu entusiasmo no anúncio do Evangelho o impulsionou, como o próprio Papa Francisco afirmou na homilia da Missa em Ação de Graças pela sua canonização: “a lançar os fundamentos culturais de uma Nação em Jesus Cristo”. Neste sentido, seria significativo que em nossos centros pastorais e salas de catequese, houvesse ao menos uma imagem sacra ou mesmo um quadro com a figura de São José de Anchieta. É um modo de agradecer a Deus por patrono tão inspirador e pedir o mesmo fervor apostólico daquele que consagrou toda a sua vida à catequese do Brasil.

Sem dúvida, o primeiro catequista do Brasil ainda tem muito a inspirar os catequistas de hoje que, com a mesma criatividade e paixão, dedicam suas vidas para transmitir Jesus e os valores do Evangelho aos habitantes da Terra de Santa Cruz.

Temos então mais uma festa "junina" na catequese: dia 09 DE JUNHO é dia do nosso padroeiro!

Oração à São José de Anchieta

São José de Anchieta,
Apóstolo do Brasil,
Poeta da Virgem Maria,
Intercede por nós hoje e sempre.
Dá-nos a disponibilidade de servir a Jesus
Como tu O serviste nos mais pobres e necessitados.
Protege-nos de todos os males
Do corpo e da alma.
E, se for vontade de Deus,
Alcança-nos a graça que agora te pedimos
(pede-se a graça)
São José de Anchieta, rogai por nós!


FONTE: Bruno Franguelli, SJ - Vatican News

domingo, 6 de junho de 2021

EVANGELIZAÇÃO EM TEMPOS “REMOTOS”

Imagem: Infoescola - adaptado

Vamos parar para pensar...

Evangelização por meios remotos? Catequese pode ser "online"?

Eis um assunto que tem “incomodado” aos catequistas: a evangelização por meios remotos. Várias pessoas estão me perguntando sobre "catequese online". Em princípio parece a contramão da evangelização, um anúncio sem contato, sem liturgia e sem a comunidade presente. Pelo que se percebe dos conceitos de evangelização e catequese, isso não existe. O que pode até existir, neste tempo de pandemia e isolamento social, é o contato natural, que sempre deve existir, com as famílias e catequizandos, via meios digitais, que pode até ser um "encontro", mas, jamais uma "catequese".

Catequese é vivência e convivência. Nós evangelizamos para que as pessoas façam parte da comunidade, e a catequese não é só "encontro", ela é liturgia, oração, missão, participação, etc. Ela é Iniciação à Vida Cristã. Ela precisa da Igreja, da Comunidade. Onde os fiéis se alimentam da Comunhão, tanto fraterna, quanto de alimento ao Espírito.

O que deve ser feito agora na pandemia é o “contato” com os catequizandos e com as famílias para que elas não percam o vínculo com a Igreja. E contato se faz com conversa, bate papo, momentos de oração, atividades lúdicas, filmes, leitura bíblicas, avisos sobre as transmissões da paróquia, etc.

A catequese não é “escola”, os catequistas não devem enviar atividades para serem feitas no modelo EaD. Novamente: a Igreja não é uma “escola”. Se tanto, é uma escola de fé. Catequese não se faz virtualmente. Ela é encontro pessoal. Os meios digitais são apoios à comunicação e a internet jamais é um substituto ao encontro pessoal.

A catequese é um ato de natureza eclesial, que nasce do mandado missionário do Senhor (Mt 28,19-20) e que está orientada, como seu nome indica, a fazer ressoar continuamente o anúncio de sua Páscoa no coração de cada pessoa, para que sua vida seja transformada. Uma realidade dinâmica e complexa a serviço da Palavra de Deus, a catequese acompanha, educa e forma na fé e para a fé, introduz à celebração do Mistério, ilumina e interpreta a vida e a história humanas. Integrando harmoniosamente essas características, a catequese expressa a riqueza de sua essência e oferece sua contribuição específica para a missão pastoral da Igreja. (DIRETÓRIO PARA A CATEQUESE, Nº 55, 2020).

Nesta definição, recentemente confirmada pelo novo Diretório para a Catequese (2020), observa-se a natureza “eclesial” da catequese. Portanto, ela é uma ação da Igreja, que se faz em comunidade. E não é, com certeza, uma comunidade digital.

A Arquidiocese de Curitiba, com orientação do Arcebispo, D. Antonio Peruzzo, também responsável pela Comissão Bíblica catequética da CNBB, orienta aos catequistas a não fazerem “encontros online”. E aos pais que querem catequese, para fazê-la em casa, com a orientação de um catequista, que dará "validade" aos encontros, usando-se o subsídio (manual) adotado pela arquidiocese. Os pais recebem orientação do catequista, fazem o encontro em casa e retornam as atividades para o catequista validar.  Isso porque a catequese é um ação presencial, de encontro entre as pessoas, aqui entre pais e filhos. Na arquidiocese, a catequese feita "online" não tem validade, assim que a catequese retornar, continua-se de onde parou. Claro que o arcebispo de Curitiba não pode "mandar" nas demais dioceses, mas, esta é uma sugestão muito coerente, que deve ser levada às demais lideranças das Igreja particulares.

O que o catequista precisa fazer, é manter contato com as famílias para não perder os vínculos. E, se preciso, enviar até "cartas" pelo correio, para não perdê-los. Mais do que nunca, o catequista precisa de criatividade e buscar formas de se aproximar das famílias e catequizandos.

O que os catequistas podem fazer, sempre que possível, enviar mensagens para os catequizandos e catequizandas, um cumprimento, um "alô como vai", uma dica de livro, de filme, uma poesia, uma oração, uma atividade lúdica, uma leitura bíblica, um vídeo... Usando o dom da criatividade e seus carismas, isso é perfeitamente possível.

Não faz muito sentido a catequese online, já que se estará contemplando uma das muitas dimensões da catequese, que é o conhecimento. Continuar seguindo um cronograma de temas vai distanciar mais ainda, o contato com a liturgia e a comunidade. E se o isolamento social durar? E se a vacina demorar? Vamos ter “primeira comunhão online" também? Não! O objetivo da catequese é INICIAÇÃO CRISTÃ. E a iniciação não pode ser “a distância”.

A ideia principal é o catequistas torne realmente um amigo da família, converse com os pais, partilhe a sua vida com eles e eles partilharão a deles. Reze com eles, leia o evangelho, partilhe a homilia do seu padre ou outra que quiser. E as crianças vão gostar, se for prazeroso, os pais vão gostar se responder ao que eles precisam. Mas, por ser via meios digitais, NÃO É CATEQUESE, é convivência, é partilha, é união. Catequese é mais, muito mais, e só se faz com PRESENÇA física.

Outra coisa, a maioria dos catequistas não conseguem se reunir nem com 30% dos catequizandos nas plataformas digitais. Poucos tem celular, e ainda assim com conexão limitada. Muitos usam dos pais para mandar recado. Nas comunidades mais carentes é impossível. Desta forma, eventuais encontros, estarão fazendo o que se chama "exclusão digital". As crianças que podem amam, quem não pode “chupa o dedo”?

Alguns catequistas, manifestam sua opinião, tanto concordando, quanto discordando nesta questão.

Uma colocação feita é que, normalmente, há uma aceitação tácita de que os pais não enviem as crianças à catequese, e que agora estamos pondo obstáculos à “Catequese virtual”, uma forma de “entrar” nos lares e na vida das famílias.

Lembro então que a catequese sempre será da vontade dos pais. São eles os responsáveis pela educação na fé das crianças. Nós somos uma "ferramenta" nas mãos de Deus, um meio pelo qual a Igreja faz a iniciação cristã acontecer. Não podemos obrigar os pais a levar seus filhos à Igreja. Ninguém pode ser obrigado a frequentar a catequese, é necessário anúncio/querigma, vontade de conhecer mais, de fazer o encontro pessoal com Cristo. Quantas crianças vão à catequese e depois somem e nunca mais voltam?

A internet é um "meio", um lugar onde muita gente se encontra, mas, não podemos "mudar" a Igreja para lá. Pelo menos não agora no século XXI, quem sabe no futuro (?!) Não sabemos o destino da religiosidade com o passar do tempo. Só confiamos que Deus não nos abandonará nunca.

É impossível fazer evangelização só pelo “virtual”, as pessoas precisam de contato, olhar nos olhos, sentir o amor. E essa é uma observação de uma outra catequista. De fato, a presença física é quase indispensável, mesmo sabendo que o termo “Virtual” já não se aplica mais aos contatos via internet. As pessoas são “reais” e não virtuais. São pessoas que estão separadas pelo espaço geográfico e que existem de fato por “detrás de cabos e conexões” (Expressão usada pelo padre Antonio Spadaro em sua “Ciberteologia”).

A internet é uma "ferramenta" de evangelização e de catequese permanente, mas, a Iniciação Cristã não pode ser feita por meio dela, é preciso "presença". Os meios digitais são complementos na comunicação, nos relacionamentos, não podem ser exclusivamente “os” relacionamentos.

Alguns catequistas discordam e dizem fazer catequese on-line, fazendo o encontro semanal no mesmo dia e horário da catequese de antes do isolamento social. Usando aplicativos como o Zoom ou Google Meet, afirmam que tem o contato direto, leem a bíblia, fazem dinâmica, fazem os trabalhinhos sobre o tema da semana, etc. E que este contato é com a família também.

Mas, é preciso cuidado: A catequese pode estar se transformando num "curso online” de conteúdos. Porque catequese é encontro presencial, etapa da iniciação cristã, que se faz em grupo e na comunidade. Onde ficam as outras dimensões da catequese? Principalmente a liturgia? E se nem todos participam? Como será quando voltar? Metade da turma participou, e a outra metade? Algumas crianças têm conexão online, outras não. É impossível fazer um encontro onde todos participem em igualdade de condições. Alguns contextos sociais, são diferentes, algumas famílias já estão com o conteúdo escolar por meio de aulas remotas, onde pais e filhos dividem o celular e a conexão. Não é porque uma catequista com uma turma 100% participativa que toda a catequese da paroquia com todas as turmas, vai ser! Como fica isso?

Os "encontros" online devem ser feitos sim. Mas, devem ser informais, e sem contar “tempo” (fase, período, ano, etc.) de catequese. Aqui se está cumprindo uma das tarefas/atividades da catequese. Conforme o DpC (2020), nº  79-89: Fazem parte da catequese, além do Conhecimento da fé, a iniciação litúrgica, que se faz na Igreja, é celebração do mistério, nas celebrações e ritos; também formar vida em Cristo, que se faz na convivência com o outro; vida de oração, que não é só individual, mas, em grupo; vida comunitária, testemunho, que se faz na comunidade.

Corre-se o risco, ao se passar “conteúdo” num encontro por meios digitais, em se estar dando "aula". A evangelização e a iniciação cristã precisam da comunidade como vínculo. As crianças não vão ficar sem a “Palavra de Deus” se o catequista souber conduzir os contatos com eles. Mesmo porque, catequese não é só a Palavra de Deus e Doutrinas católicas, ela é inspirada pela Palavra de Deus, que leva às demais dimensões.

O que “toca” aqui é que uma grande parte dos nossos catequistas ainda não entendeu o que é a catequese. Sim, os meios digitais são uma forma de evangelizar. Mas, fazer uma catequese mistagógica e celebrativa por meio remoto, não significa que todos os conectados estão, de fato, participando.

A afirmação de que a catequese precisa ir até eles, já que eles não podem ir à Igreja, não é uma afirmação que reflita o que é a catequese. Não é a "catequese" que precisa ir até eles, é a Igreja, por meio do catequista, que vai. Aliás, deveria ir sempre, mas, de pezinho no chão, e não de fone e microfone no ouvido. Quantos catequistas visitam as famílias dos seu catequizandos em tempos “normais”?

E feliz de quem tem uma turma inteira com conexão com a internet, com crianças que podem acessar o Zoom, Teams, Google Meet, etc. Esta não é uma realidade global dos catequistas, que dirá das crianças. Muitos dos nossos catequistas mal sabem usar o celular.

E não estamos declinando dos meios digitais, mas sim, para usá-los como complemento da realidade física. Evangelizar não é só fazer um “encontro” de catequese, tem muito de testemunho e exemplo também.

Observa-se nestes 12 meses que quem está fazendo “catequese online”, não é a regra, é exceção.

Não se pode afirmar que todos os catequizandos e todos(as) as(os) catequistas da paróquia estão tendo os mesmos resultados que vocês. E se acontecer de ficarmos sem catequese na paróquia por 2 anos? Isso vai valer como tempo de iniciação cristã? E o tempo de iluminação? O tempo da mistagogia? E os catequistas que não conseguem fazer encontros pelo Zoom, pelo Facebook, pelo Whats, pelo Teams? E como se sentem as crianças que não podem participar dos encontros "virtuais"? Existem muitas crianças que tem um só celular em casa, usados pelos irmãos, pelo pai e pela mãe, que depende de conexão paga, famílias que mal tem dinheiro para as despesas normais da casa.

Temos em Atos 2, 42, o exemplo de como viviam as primeiras comunidades cristãs: “Eles eram perseverantes no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações”. Isso porque Jesus formou os seus discípulos fazendo-os conhecer os mistérios do Reino, ensinando a rezar, propondo atividades evangélicas, iniciando-os a vida em comunhão com Ele e à missão. (DpC nº 79). E isso é um fato inquestionável e o diretório continua:

A fé exige ser conhecida, celebrada, vivida e rezada: para formar a uma vida cristã integral, a catequese persegue, portanto, as seguintes atividades: conduz á consciência da fé; inicia a celebração do mistério; forma a vida em Cristo, ensina a rezar e introduz a vida comunitária. (DpC nº 79)

Para o DNC (37): A catequese é um processo exigente, um itinerário prolongado de preparação e compreensão vital, de acolhimento dos grandes segredos da Fé (mistérios) da vida nova revelada em Cristo Jesus e celebrada na Liturgia. Além do mais, a catequese possui finalidades, características e tarefas incorporadas dentro do processo de evangelização na Igreja como forma de evangelizar o mundo atual.

O Diretório Nacional (2006, 41)de catequese traz ainda um conceito mais abrangente de catequese e a descrever como: “Educação orgânica e sistemática da fé, educa para a vida em comunidade, celebra e testemunha o compromisso com Jesus. Ela exerce (...) as tarefas de iniciação, educação e instrução. É um processo de educação gradual e progressivo, respeitando os ritmos de crescimento de cada um”.

Que bom que alguns catequistas conseguem fazer encontros online. Mas,  estão erradas(os) em considerar como "catequese". Vale sim, todo empenho para manter a união no grupo. O meio presencial é o ideal, mas, não é possível neste momento. O contato por qualquer plataforma é válido. Mas, sem fazer "encontros formais" levando os temas do itinerário para a  internet.

Tem tanta coisa para se fazer com eles pela internet, mas sempre com a preocupação de atingir a todos do grupo. Não excluir nenhuma criança por falta de “inclusão digital”. Pensemos que uma boa parte dos catequistas que nem sabem o que é o Zoom, Meet, etc. A pandemia é que trouxe estes conceitos e plataformas à vida das pessoas. É necessário trabalhar com a nossa realidade, mas, não levar a Igreja pra internet, porque ela ainda não é a realidade de todos. E se fizermos todos os encontros pela internet, não seremos Igreja, comunidade reunida do povo de Deus.

E, no meio disso tudo, pode-se perguntar: Por que então temos missas online? As missas são “online”, mas, a comunhão nunca vai ser, o encontro com a comunidade nunca vai ser, o "mistério da fé" nunca vai ser. E as missas online, são para aqueles que já estão evangelizados e já fizeram a iniciação. Nossas crianças ainda estão aprendendo o mistério litúrgico.

A Internet é uma ferramenta de evangelização, mas, jamais pode ser o local dos encontros catequéticos. Você pode se encontrar toda semana com as crianças, fazer o que quiser, mas, depois que voltar, os catequizandos precisam deste tempo "online" transformado em presencial. Porque tem o “sacramento” depois. Este não pode ser “online”!

Outro problema que podemos encontrar lá na frente, se usarmos os temas ou subsídios ou cronograma, é que eles esperam que isso vá "valer" para o tempo necessário de catequese. Então se ficarmos dois anos sem encontros presencias - e normalmente a Eucaristia se realiza com dois anos de catequese - eles receberão a Eucaristia sem nunca ter ido à Igreja? Sem nunca ter se encontrado com a comunidade?

O "conteúdo" é só uma parte da catequese. Eles podem, por exemplo, ter terminado a 1ª etapa em 2019; fazem a 2ª etapa online em 2020, aí voltam em 2021 na 3ª etapa.  É isso que estou querendo dizer com "fazer catequese", ela é mais que dar “conteúdo” pela internet.

O que precisa ser observado é que não devemos perder o contato com os catequizandos, devemos manter  as famílias informadas de tudo que acontece na paróquia. Propor atividades em família, uma leitura orante, ou uma leitura simples de um trecho da Bíblia, o Evangelho do Domingo, por exemplo. Estas são atividades normais aliás, que deveriam estar sendo feitas bem antes deste isolamento.

Como isso nunca foi feito antes, é bom cuidar para que os pais não pensem que se ficarmos três anos em isolamento, o sacramento será recebido "online" também. As atividades que porventura o catequista acha que deve fazer, faça! Mas, este tempo não pode contar como catequese presencial.

Esta é a minha preocupação, que se use a internet para "cumprir" cronograma de tempo! Quando voltarmos do isolamento social, temos que recomeçar a catequese sistemática, de conhecimento da fé, porque ela só é válida se tiver o outro lado que é a convivência e a vivência litúrgica da numa comunidade cristã.

Neste tempo de isolamento, não é para esquecer os catequizandos! Não é nada disso! Só não é para vivenciar os encontros como se estivéssemos na paróquia! Use a internet para se comunicar com elas, para rezar com elas, para ler a bíblia com elas, mas, não faça os "encontros" formais do itinerário, que deve presencial sempre.

A Igreja nos diz que a catequese e a evangelização não são a mesma coisa, não são excludentes, se complementam. E também nos diz o que, como e onde fazer. Como catequista da Igreja Católica, não vale a "minha opinião". vale o que a Igreja de Jesus Cristo deixou como catequese desde os primeiros séculos da Igreja. A comunidade evangeliza. "A catequese é um ato de natureza eclesial (da Igreja), que nasce do mandato missionário do Senhor" (DpC, 55). "Catequese, etapa privilegiada do processo de evangelização... (DpC 56).

A Iniciação cristã é feita com a Igreja e na Igreja. Lembram que ela é uma atividade eclesial. Podemos e devemos manter todo contato possível por meios digitais com os nossos catequizandos e suas famílias, mas, não fazer da catequese "aulas", conteúdos de EaD! E se quando voltarmos, tiverem que rever os conteúdos? As crianças vão fazer tudo outra vez?

Façamos coisas diferentes! Vamos atingir as pessoas de outra forma, vamos aproveitar e fazer uma catequese com a família, com os pais, façamos deles nosso alvo nesse momento. E o Evangelho do domingo é e deve ser compartilhado com as famílias, afinal, estamos praticamente sem missas. Uma excelente oportunidade para a dinamização da leitura em família. É um tempo de convivência por meios digitais, que vai fortalecer os vínculos com os catequizando e com a família.

No mais, cada um deve fazer o que acredita que deve, o que não significa que é o certo. Sempre é bom saber o que a Igreja orienta por meio dos documentos. Que, infelizmente, nem sempre é o que orientam as lideranças paroquiais. Acaba de sair há menos de ano, o DIRETÓRIO PARA A CATEQUESE, organizado pelo Pontifício Conselho para a Evangelização. O pároco já leu? Estudou? Vocês estão lendo? Conhecem o DNC, o diretório Nacional?

 

Abaixo, reproduzimos parte da discussão feita no nosso Grupo de Catequistas no Facebook, com opinião de vários catequistas a respeito:

 

Rúbia Meurer - Estou realizando a leitura e estudo do mesmo! Em nossa Paróquia estamos levando o Evangelho todo final de semana para nossas crianças e adolescentes da Catequese, através de whatsapp, cada Catequista tem seu grupo. A Catequese é Vivência, e isso estamos tentando fazer! Pedimos aos pais que nos enviem vídeos ou fotos de como está sendo essa vivência em seus lares, está saindo um trabalho muito bonito e significativo! Sabemos que não estamos atingindo 100%, porém nossa missão estamos fazendo, pois quando retornar a Catequese voltará mais fortificada!

Fatima Nunes de Lima - Algo positivo, é que os pais agora estão interagindo com os filhos nas leituras dos evangelhos dominicais e passando para nós catequistas essa experiência nova, nunca vivida por eles. As missas em minha cidade voltaram com 30 por cento da capacidade. Os pais dos catequizandos estão se inscrevendo para levarem os filhos nas missas. E vamos rezar para que possamos voltar as nossas catequeses presenciais com segurança, no momento vamos interagindo com as famílias até que tudo se resolva.

Tania Fortes - Acho que nesse período seria muito bom mais formação catequetica, pois achar que encontros de catequese pode ser on-line, é falta de informação, principalmente de alguns padres.

Andréia Da Silva Padilha - Lembrando que foi terminantemente proibido dar catequese on-line, pois isso não existe! E sim que a catequista prepare o encontro para os pais ministrarem! Ao meu ver, é um tiro no pé, pois a grande maioria dos pais não está fazendo os encontros, como foi relatado por vários catequizandos. Estão procurando a resposta no Google e mandando! Simples assim, os pais enganam as catequistas, que fingem que acreditam!
Sinto mais pelos adolescentes da V etapa, pois na maioria não tem uma boa relação com os pais, e isso é normal nessa fase! Infelizmente esse ano vai voltar o sacramento do tchau, no qual lutamos tanto para deixar de existir!

Ângela Rocha - Olha Andreia, presencial ou remoto, o sacramento da crisma ainda será do tchau, se a evangelização não for completa: anúncio/querigma, catequese e seguimento. Os pais que escolherem dar a catequese para os filhos terão que ter apoio e validação pelo catequista da catequese dada. Claro que isso pode não dar certo. A maioria dos pais foi catequizada, mas, não evangelizada. Por isso é necessário que sejam mantidos contatos pelos meios digitais, mas, sem a catequese sistemática. Algo precisa ser bem observado é que, normalmente, há uma orientação da comissão diocesana! Aqui na nossa arquidiocese, este tempo de isolamento social deve ser voltado a não perder o contato com os catequizandos, sabendo que continuaremos o itinerário de conteúdos quando voltarmos. Agora, falamos do Evangelho do domingo, brincamos, cantamos, assistimos vídeo juntos, fazemos brincadeiras (caça-palavras, jogo dos erros, gincanas bíblicas, etc.). Quem ia receber o sacramento no próximo tempo pascal (2021), sabe que agora será em 2022. Simples assim. Este tempo de contato via internet não substitui a catequese paroquial.

Tábata Pimenta - Eu tentei um "encontro" online, mas não deu certo. Então, hoje o que faço é exatamente isso, mantenho contato, e vou mostrando que sou um apoio, mando algum vídeo ou roteiro de dinâmica para os pais conduzirem com os membros da família e assim o retorno tem sido possível. Eles mandam fotos das dinâmicas, comentam os vídeos e sempre, sempre dizem que isso tem sido importante, pois sentem muita falta da igreja.

Ana Viana  - Aqui no Rio de Janeiro estamos sendo estimuladas a manter esse contato e é o que faço. Encontros de amizades sobre a semana, os estudos, a continuidade da pastoral após pandemia e uma pequena explanação de um texto bíblico. Não faço mais de 35min. Eles já estão inseridos e aparentemente querem até que eu prolongue, o que não faço. Mas, veja bem, são trinta perseverantes inscritos. Menos da metade assistem as lives. Minha realidade é que todos eles têm celular e computadores. Mas somente os que têm os pais engajados na paróquia, é que estão participando.

Ângela Rocha - Isso é a realidade de muitas e muitas turmas. 30 ou 10, importa que você mantém contato. Eles sabem que você está ali e que podem vir quando quiserem te encontrar. Isso acontece presencialmente. Por que na internet seria diferente? Os catequistas devem procurar envolver a família, trabalham o evangelho dominical, conversam com as famílias, falam da realidade que estamos vivendo, conflitos, esperanças, etc. A homilia da paróquia é transmitida pelo Youtube, o padre faz lives e tudo isso é compartilhado. Mas, isso não é "catequese". Quando acabar a pandemia, aí sim, teremos catequese novamente, com a presença das crianças e dos pais na catequese familiar que a paróquia oferece. Agora nós "convivemos" e partilhamos a razão da nossa esperança, sempre com o foco na família, não no catequizando. Ele terá a catequese sistemática (temas/conteúdos) quando voltarmos.

Letícia Aparecida Dias da Silva - Eu acredito que seja possível fazer encontro online com o catequizando. Eu fiz  seguindo as leituras do domingo, nós tínhamos um horário para isso. No encontro tinha um momento para colocar intenção, fazer oração, ler a Palavra, depois eu explicava, e terminávamos com umas quatro perguntas que eles respondiam, escrevendo no caderno ou por áudio. Foi muito bom porque não perdi o contato com a turma, todos participaram. Eu concordo fazer em encontro online para manter contato e continuar levando Jesus a estas crianças e a essas famílias. Através destes encontros, descobri que tinha criança que não tinha terço, imagem de nossa senhora. Neste meio tempo, eu providencie para eles, para nosso momento de oração. Deu para perceber que os pais precisam ser catequizados novamente. Porém para fazer sacramento, não vejo a catequese online como suficiente, creio que quando voltar deve-se fazer o ano novamente com os conteúdos programadso e a vivência da catequese que não tiveram no remoto.

Maria da Penha -  O foco da discussão é se os encontros remotos podem ser validados como se fossem presenciais.  Não é errado o contato com os catequizandos, seja diário, semanal ou o que for, desde que não se esteja fazendo "catequese", na origem do que a Igreja pede!

Suelly Borges Borges - Concordo que haja uma interação com as famílias para não se perder o contato, mas não concordo que seja feitos encontros online para aplicar o planejamento feito. Também penso que CATEQUESE é vivência, presença na comunidade e na igreja. Vejo que muitos catequistas ainda tem muito o que aprender sobre Iniciação à vida cristã.

Eliziane Pelegrini  - Tem cinco semanas que tenho feito a experiência de chamada de vídeo com algumas crianças da minha turma, com o objetivo de manter vivo os nossos laços de amizade e matar um pouco da saudade. Disse algumas crianças, pois não é uma obrigação participar. Quando pensei em fazer a chamada de vídeo, eu primeiro apresentei a proposta para os pais e perguntei o que eles achavam, e a resposta foi bem aceita por todos os pais. Deixei claro que seriam momentos de conversa e que não alteraria em nada o processo catequético. Só que a realidade é muito diferente de uma criança para outra, daí tenho que usar outros meios para fazer contato com aquelas crianças que não conseguem, ou não podem participar da chamada de vídeo. Nos momentos de oração procuro refletir o evangelho do domingo, e confesso que tem sido uma experiência muito boa.

Socorro Oliveira - Concordo plenamente, sem vivência e sem experenciar o contato com a comunidade e com os irmãos, é impossível ter evangelização. Fazer o contato para não perder o vínculo com os catequizandos e familiares, é uma necessidade até para que se sintam queridos, lembrados e ajudar no incentivo à Igreja Doméstica em oração e sintonia com a vida da comunidade.

Fatima Burak  - Socorro, a vivência do conteúdo precisa acontecer principalmente na família, na igreja doméstica. Se quando temos a catequese normal uma hora semanal de contato com a criança e talvez um contato apenas na missa, se isso não estiver acontecendo agora, esse conteúdo na família a nossa catequese é em vão. Agora é a hora do catequista participar com a família, agora é a hora da vivência da catequese

Tatiana Ferreira de Jesus  - Ótimo e concordo, uma coisa é você manter o vínculo para que eles não se percam no meio do caminho, outra coisa é você mandar conteúdo. Mesmo porque nem todos tem condições. Aqui mando algo, mas, não fico cobrando o retorno. Estamos passando por um momento tão delicado, falo por experiência em ser mãe de um coroinha. Outro dia foi mandado alguma coisa na turma dele de catequese que ele respondeu com os olhos cheio de lágrimas, que não poderia comungar mais porque estava preso dentro de casa e que esse era o “novo normal” naquele momento eu senti uma tristeza tão grande e vi que não podíamos ficar cobrando devolutiva de conteúdo, pois, se meu filho estava daquele jeito imagina as outras crianças. Essa semana enviamos um conteúdo sobre as vocações, simples e claro.

Carmen Rios Defante  - Para manter o vínculo, regando o que já foi iniciado na vida cristã dos catequizandos, sou a favor de ter encontros online para alimentar a espiritualidade, na linguagem da criança, a partir da força do Espírito Santo para com criatividade, preparar esses encontros. Sou a favor do diálogo, partilha das experiências em tempo de pandemia, sendo que é bem rico esse tempo, pois exige mais de nós viver a palavra radicalmente, uma oportunidade maior de amar aos nossos, oportunidades de esforçar para viver os sacramentos mesmo de longe. Novo modo de viver o evangelho e as criancinhas também precisam aprender isso. As crianças que não tem condução também ser incluída na criatividade de manter esse diálogo. As escolas entregam material impresso, já é uma ideia.

Aline Lorensoni - Estamos cheio de coisas novas, o novo de Deus é novo e ninguém sabe o que é, portanto, se Deus permitiu nesse tempo a comunhão espiritual, por que não permitir encontros virtuais, se hoje nos encontramos por meio de encontros virtuais, que são viáveis sim. O que está em questão é continuar ou não os ensinamentos do livro, como separar os ensinamentos do conteúdo do livro com sua própria vida. Seguir o livro é dizer: Não podemos estacionar nos ensinamentos e formação dos discípulos de Cristo. Agora sejamos obedientes ao que o Padre e a Diocese determina. Mas repito, é o novo de Deus, IDE, IDE, IDE...

Fatima Burak - Não podemos esquecer que a" iniciação cristã" acontece principalmente, com ajuda do catequista, mas, a família, Igreja doméstica, é essencial para que ela aconteça. O catequista tem apenas o encontro da semana, uma hora de contato com a criança é pouco. A não ser aqueles catequistas que realmente investem na evangelização, procurando criar mais momentos durante a semana com a criança, mas a maioria é contato semanal e no dia! Porém é sonho da igreja que a família seja participativa na construção dessa iniciação cristã. Estamos com a faca e o queijo na mão para investir agora! A catequese familiar faz que a igreja doméstica aconteça. Isso é verdadeira catequese, não somos escola com sala de aula. Não tenham medo de aproveitar a oportunidade de fazer as famílias conhecerem a catequese e o catequista, de estar mais presente, mesmo online, na vida das famílias. Através de simples conversas com as crianças, os conteúdos que são recebidos! Na catequese a criança não estuda apenas, mas ela reza o dia o dia o que aprende. Quem melhor para ajudar? A família! Essa sempre foi a proposta da catequese: que a catequese desenvolva os conteúdos como encontros não como aulas! Pela primeira vez, vejo a utopia que a Igreja e muitos que escreveram documentos da evangelização catequética, acontecer. Vejo nas paróquias onde o catequista quer, a Palavra de Deus acontecer nas casas e muitas famílias acolhendo essa catequese viva. Nunca tinha visto catequistas com tanto amor em querer levar a palavra de Deus, pois, sabem que não estão podendo fazer isso no presencial. Por isso estão procuram seus catequizandos e novas formas! Antes as coordenações de catequese só viam seus catequistas no sábado e muitos a criança não via nem na missa. Então repensarmos e aproveitemos o momento que Deus está nos dando. Não estou falando como catequista aqui, estou falando como uma mãe que está vendo a catequese na nossa Paróquia acontecer e vendo o testemunho já em relação a catequese. Aqui não está tendo catequese online (encontros), apenas contato por WhatsApp. As catequistas entram em contato com a família, prepararam os conteúdos para o mês em uma pasta com as folhas para que a família reze e converse. Pelo WhatsApp eles vão orientando os pais e os pais vão orientando as crianças. Essa semana as famílias começaram a montar altares para oração, estão enviando fotos. Nunca imaginaria os pais tão participativos perguntando! Nos sábados os freis aqui rezam o terço na igreja às 6 horas e os pais tem vindo participar para rezar por sua família e alguns trazem as crianças. Estamos vendo a catequese familiar acontecer.

Rosinéa Monteiro Do Nascimento - A catequese online, é uma realidade hoje em muitas comunidades. Infelizmente, não funcionou aqui na minha comunidade, porque nem todas as crianças possuem celular ou acesso a Internet. Mas, a proposta foi aceita por alguns pais e responsáveis. Outros foram para o interior e não puderam acompanhar. Alguns pais conseguiram acompanhar as atividades com seus filhos.

Sandra Duraes  - Com certeza catequese é convivência, mas, nos tempos em que estamos vivendo, precisamos criar vínculo e usar a criatividade para continuar a evangelizar nossas crianças. Claro que vai depender do método a ser utilizado. Se o catequista tem didática e sabe dar uma boa catequese, a catequese online é muito válida sim. Repito se o catequista tiver didática, senão tiver não adianta inventar moda. Outra coisa penso que precisamos ter mais respeito diante de cada realidade e não julgar algo que não conhece.

Ângela Rocha - é bom que cada um coloque sua posição para juntos descobrimos as verdades necessárias, o que pode ser melhor para todos e para cada comunidade. Precisamos pensar que a catequese não é só método e didática, ela vai muito além. Por isso o "online" é complicado, ele pode virar só "técnica". Vivemos num contexto muito diferente uns dos outros, e a partilha das realidades, acaba sendo um aprendizado para todos.

Roberta Monteiro - Em partes eu concordo e em partes eu discordo, as pessoas precisam mudar o conceito de que catequese é para receber um "diploma". Catequese é você conhecer seu Criador e seu Salvador, é buscar o Espirito Santo para te guiar aí sim receber realmente o sacramento. Acho que é possível evangelizar online sim, acho que até demorou para começarmos evangelizar online, vemos na internet tanto conteúdo que não agrega nada em nossa vida. Por que não começar a criar conteúdo de evangelização? Queira ou não os catequizados estão em casa assistindo o que eles gostam e o que eles têm disponível, e nós podemos começarmos a criar um conteúdo que aos poucos eles vão começar a ter interesse. Acho importante manter uma rotina com os catequizados, no dia e horário que seria o encontro presencial marcar uma reunião online, fazer uma espiritualidade, colocar um tema a ser trabalhado. Sempre trabalhar algo que tenha a ver com o dia a dia deles e também com a vivência de um Cristão. Acredito que assim, quando voltarmos, eles estarão mais preparados. Eu acredito que não importa o tempo de catequese e sim a qualidade, precisamos apresentar o amor de Deus por nós, claro que presencialmente é melhor, mas os catequizando estão super antenados na internet, nós não podemos ficar fora dela. Precisamos recuperar o cristianismo, hoje em dia temos pouquíssimos cristãos, precisamos Evangelizar como Jesus evangelizou aquela samaritana no poço, utilizando os recursos de hoje em dia.

Gorete Aquino - Pertenço à Paróquia de São Judas Tadeu em Lavras - MG. Aqui não fazemos catequese online. No começo algumas catequistas começaram a enviar material para as crianças. O Padre mandou parar porque aproximadamente 65% das famílias não possuem acesso à internet e não era justo deixá-las de fora. As catequistas tiveram a ideia de entrar em contato com as famílias dos catequizandos e incentivar as mesmas à assistirem às missas pela TV, o que fosse mais acessível, uma vez que a grande maioria não consegue acompanhar as transmissões da própria paróquia devido à ausência de sinal de internet. Num desses contatos tivemos a oportunidade de descobrir que algumas famílias passam por necessidade devido à pandemia. Com a ajuda da comunidade conseguimos arrecadar alimentos e se tiver necessidade até o padre propôs ajuda através do dízimo da catequese. Mas encontro de catequese através da internet não pode. A catequese é presencial. Fazemos que a nossa Igreja cumpra também seu papel social. Tem muitas famílias em dificuldades, sem emprego, precisando de ajuda.

Wagner Campos Galeto - Neste tempo a catequese é ter consciência social, ajudar a comunidade e o próximo, pode ter tudo, encontro online, atividade, ligação, um oi, filme, etc., mas se não tiver Caridade ( ajudar o próximo) nada adianta. A melhor catequese agora é incentivar os pais na oração em família e motivar a partilhar alimentos, roupas, remédios, com quem precisa.

 Adriana Bragion - Eu até tentei no começo dessa pandemia, mas, não deu certo. Então, conversando, estudando e analisando, cheguei a conclusão que não dá! Os catequizandos estão "cansados" e querem sim saber de Deus mas de uma forma "diferente". Com os seus pais tem dado mais certo. Tiro foto do círculo bíblico que a diocese disponibiliza com as leituras dos finais de semana e peço que rezem em casa. Também indiquei filmes.Não deixo de dar um "oi". E as vezes vou no particular para conversar um pouco e saber deles. Assim vamos sem Encontros, mas sem perder a conexão entre nós!

Valéria Freitas Lopes - Aqui comecei a fazer os nossos encontros a pouco tempo via Google Meet. Faço nossa meditação da Palavra e explico um pouco o evangelho. Rezamos o terço e assim tem sido. Nenhuma outra catequista se atreveu a fazer. Aí o Padre resolveu fazer uma reunião conosco, isso depois de cinco meses que os catequizandos estavam sem ver nossa cara, e resolve que vai ter a primeira eucaristia sem ao menos ter um encontro presencial, sem a presença dos pais e durante a semana com filmagem para os pais acompanharem de casa. Estou muito decepcionada.

Suzana Lossurdo -  Eu até tentei fazer encontros online, criei grupo, tudo lindo. Mas, virou um vucovuco! Mandavam tanta coisa no grupo, desde correntes que não podem quebrar até vídeos que não tinham nada com nada. E olha que fui bem clara sobre o conteúdo do grupo. Algumas mães pediram para não passar nada, pois sabiam que não dariam conta, pois algumas crianças não tinham celular, teria que usar o do responsável. Outras, me disseram que tinham mais filhos, pessoas de idade para cuidar, além das atividades da escola. Mas, o que mais levei em consideração sobre não fazer os encontros online, não está escrito em nenhum lugar e sim no que vivi nesses anos todos: é a companhia, a alegria, o sorriso, as brincadeiras; caras emburradas, até o desânimo deles em acordar cedo no sábado; um ensinar o outro a procurar o versículo, até briga pra saber quem vai ler. Sinto falta até de não contar com a comunidade na hora de uma confraternização pra fazer uma pipoca ou doar um bolo. Então, se não tiver tudo isso, não é encontro. O online é só isso, uma forma de não perder o contato e não deixá-los esquecer que precisamos continuar em oração.

Andrea Bastos -  Eu estou desanimada. Preparo algo bem legal e apenas um participa. Me sinto enxugando gelo. Os pais só sabem falar que as escolas já estão dando muito trabalho e a catequese fica para depois. Comecei no maior pique, mas, confesso que não me sinto confortável fazendo um encontro que seria para dez, só com três. E nem fazem as tarefas e nem dão satisfação. Muito difícil a catequese online.

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Por isso, que os contatos precisam também fugir de "encontros", da rotina. Precisam ser "diferentes", causar "vontade" de se reunir, conversar! Vale destacar aqui alguns trechos do novo DIRETÓRIO PARA A CATEQUESE, publicado em julho/2020:

213. A linguagem da catequese inevitavelmente permeia todas as dimensões da comunicação e suas ferramentas. As profundas mudanças na comunicação, evidentes no âmbito técnico, produzem mudanças no âmbito cultural. (...) No espaço virtual, que muitos consideram não menos importante que o mundo real, as pessoas obtêm notícias e informações, desenvolvem e exprimem opiniões, se envolvem em debates, dialogam e buscam respostas para suas perguntas. Não valorizar adequadamente esses fenômenos leva ao risco de se tornar insignificantes para muitas pessoas.

214. (... ) o texto escrito encontra resistência para falar com os mais jovens, acostumados a uma linguagem que consiste na convergência de palavras escritas, sons e imagens. As formas de comunicação digital, por sua vez, oferecem maiores possibilidades, pois estão abertas à interação. Portanto, além do conhecimento tecnológico, é necessário aprender modalidades de comunicação eficazes, bem como garantir uma presença na rede que testemunhe os valores evangélicos.

215. As tecnologias de informação e comunicação, as mídias sociais e os dispositivos digitais favorecem os esforços colaborativos, de trabalho em comum, de troca de experiências e conhecimento mútuo. (...)

216. Convém que as comunidades estejam comprometidas não só a enfrentar esse novo desafio cultural, mas também a corresponder às novas gerações com as ferramentas já hoje de uso comum na didática. Também é prioritário para a catequese educar ao bom uso dessas ferramentas e a uma compreensão mais profunda da cultura digital, ajudando a discernir os aspectos positivos dos ambíguos. O catequista de hoje deve estar consciente de quanto o mundo virtual pode deixar marcas profundas, especialmente nas pessoas mais jovens ou mais frágeis, e quanta influência podem ter na gestão das emoções ou no processo de construção da identidade.

217. A realidade virtual, porém, não pode substituir a realidade espiritual, sacramental e eclesial vivida no encontro direto entre as pessoas: “somos meios e o problema fundamental não é a aquisição de tecnologias sofisticadas, embora necessárias para uma presença atual e válida. Esteja sempre bem claro em nós que o Deus em quem acreditamos, um Deus apaixonado pelo homem, quer manifestar-se por meio dos nossos meios, ainda que pobres, porque é Ele que opera, é Ele que transforma, é Ele que salva a vida do homem”. (Papa Francisco) Para testemunhar o Evangelho, é necessária uma comunicação autêntica, fruto da interação real entre as pessoas.


Sugiro que seja feita uma leitura mais completa do Diretório. O Diretório ainda trata do tema “O Grupo” e o quanto é importante que o catequista saiba que “a comunidade eclesial é o principal sujeito da catequese”, portanto, é preciso constituir grupos ou comunidades pequenas de pessoas imbuídas dos mesmos propósitos. E, também na sequência, fala-se da importância do “Espaço” destinado à catequese, com seus símbolos e arquitetura. A comunicação “virtual” é necessária e quase imprescindível nestes novos tempo, mas, não pode substituir o “meio” real que, como disse o Papa Francisco, somos nós.

Ao falarmos sobre "catequese online", não podemos contemplar somente uma parte dela: “da educação orgânica e sistemática da fé”. Esquecemos que ela educa para a vida comunitária, celebra e testemunha o compromisso com Jesus por meio da Liturgia. Ela exerce, portanto, ao mesmo tempo, as tarefas de iniciação, educação e instrução. É sempre um processo gradual e progressivo, respeitando os ritmos de crescimento de cada um. Ou seja, inicia a pessoa na vida de fé, considerando todos os seus aspectos.

 

ÂNGELA ROCHA

Catequista - Formadora

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

CNBB. Diretório Nacional de Catequese. Documento 84. Brasília: CNBB, 2006.

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO. Diretório para a Catequese. Documento 61. Brasília: CNBB, 2020.