sábado, 3 de maio de 2014

DESENVOLVENDO A AUTO ESTIMA

Outro dia, uma amiga me pediu conselhos para melhorar a auto estima do grupo de catequistas dela ou se eu teria sugestão de dinâmicas de grupo para isso. A dúvida era se a dinâmica do “Tirar o chapéu” (aquele negócio da pessoa olhar o fundo do chapéu e ver a sua imagem refletida num espelho e dizer se tiraria o chapéu ou não), que também é feita com um espelho numa caixa de presentes também; seria adequada.

Não acredito que "dinâmicas" façam milagres, mas tentei fazer uns aconselhamentos sobre relacionamento, motivação. Na verdade, a catequese precisaria de um psicólogo no grupo. Jesus nos ajuda, mas tem hora que a coisa é tão complexa que parece que não encontramos resposta nas palavras de um simples Rapaz da Galiléia.

Vamos primeiro aos “Conselhos”:

É preocupante quando se aplica técnicas para um grupo e não se tem, depois, a habilidade para fazer o processamento do que aparecer. Porque, o mais interessante da técnica de dinâmica de grupo, é o processamento, e não a técnica em si. Uma sugestão para se desenvolver a auto estima, é pontuar as qualidades, ou seja, propor que as pessoas listem cinco defeitos e cinco qualidades. Elas até ficarão, num primeiro momento, com dificuldade de se reconhecer em suas qualidades, até mais que em seus defeitos, mas vão encontrar, sim! Para muitos não é muito fácil falar de coisas boas sobre si mesmo, mesmo que saibam que elas existem. O que se deve fazer é incentivar as pessoas a assumirem suas qualidades, se apoderando delas a ponto dos seus defeitos deixarem de ser tão mais importantes.

Não é um trabalho fácil, não. Por isso temos que ter o cuidado quando estamos num grupo. O nosso papel é facilitar para que as coisas boas apareçam e ajudar as pessoas a acreditar nelas. Porque se abrirmos demais para os problemas, corremos o risco de tornar o encontro muito angustiante. E não vamos conseguir resolver os problemas dos outros em questão de trinta minutos!

Portanto, minha proposta seria: fazer com que as pessoas citem suas qualidades, reconhecendo-as! E ver que seus defeitos fazem parte, mas que não serão eles, que vão impedir de se ver a grandiosidade do que podemos encontrar dentro de nós mesmos, “apesar de...”. E o interessante é que elas saiam bem do encontro, podendo se dar conta do que possuem de bom dentro de si. Podemos ajudar nessa construção, sendo amigos e incentivando esse potencial.

É aquilo que sempre pontuamos na catequese: Não existem fórmulas prontas para resolver os problemas. Não existem dinâmicas que a gente invente que, milagrosamente, faça com que todos saiam "se amando mais". Outra coisa, pode ser que nem seja bem o caso de falta de auto-estima e sim de "preservação da intimidade" ou ainda inibição, nervosismo ou vergonha de se expor. Apesar de que quem tem auto-estima desenvolvida não teria vergonha de falar... Ou teria? Enfim... Que coisa complicada!

Ao invés de dinâmicas de grupo num encontro, ou além delas, quem sabe, a gente deveria tratar a coisa de forma diferente. Primeiro que, se você sabe quem é que precisa de estímulo, pode começar ressaltando as qualidades da pessoa. E isso não precisa ser num encontro, pode ser no dia a dia... "Querida como você está bonita hoje!"... "Nossa que legal isso!"... Agora, e se essa criatura não tem nada de bonito nem de legal pra gente ressaltar? De repente a gente pode delegar tarefas para que as pessoas sintam-se valorizadas, parte do grupo, para que se descubram. Cada um tem um dom: cozinhar, escrever, pintar, fazer cartaz, sei lá... Às vezes esses dons estão escondidos ou a pessoa nem sabe que é útil para a catequese e para a própria vida dela!

Mas não se assustem se fizerem a dinâmica do chapéu e perceberem que as pessoas tem vergonha de falar de si mesmas, se enaltecer... Essa coisa de ficar de frente para os outros falando de si mesmo é uma coisa que inibe as pessoas! Até os mais despachados. A não ser que seja um político...

Lendo o poema "Identidade" de Pedro Bandeira, podemos ver o quão insatisfeitos somos com a nossa própria personalidade... O poema reflete isso e pode ser trabalhado com o grupo num encontro. E eu confesso uma coisa... às vezes nem eu mesma sei quem sou!
E, em qualquer dinâmica de grupo, até mesmo com as crianças na catequese... técnica por técnica não resolve nada. É preciso saber aonde se quer chegar. Existem muitos livros que podem nos orientar, mas aí a gente precisaria também conhecer um pouco de psicologia. E passar técnicas é um tanto perigoso quando não se conhece o grupo. Como realmente saber o que eles precisam?

E dinâmicas não precisam ser aplicadas num encontro apenas, a gente pode estar desenvolvendo pessoas ao longo do tempo, ou seja, estimulando-as com palavras de coragem, elogiando-as com palavras de carinho, dando uma reprimenda com amor. E de novo lembro, não precisa ser num encontro, pode ser nos momentos mais inusitados, no dia-a-dia, no nosso corre-corre da catequese. E não é interessante mexer com a auto-estima das pessoas quando não se tem o preparo adequado. Pode não ser interessante, pois as coisas que poderão sair, quem está dirigindo o encontro pode não ser capaz de direcionar... E o ser humano é tão complexo que as coisas nem sempre saem exatamente como a gente quer!

Agora vamos a Dinâmica:

A dinâmica do “Pessoas são dons”, é interessante, e o texto expressa o que cada um pode pensar! É um texto que pode dirigir o pensamento e talvez fechar com o poema “Identidade” de Pedro Bandeira. Mas sempre pontuando o que há de melhor em cada um. Nunca a gente deve se estender em cima de problemas mais sérios. Quando a pessoa tem problemas de ajustamento, não seremos nós que podemos consertar. Para isso tem pessoas capacitadas, psicólogos, terapeutas. Para se entender realmente dinâmica de grupo, além das técnicas é preciso entender os processos e os entendimentos que gerou aquela técnica. É preciso ajuda de pessoas que realmente estudaram sobre isso, para que as pessoas saiam de lá mais fortalecidas, independente da “sujeira” que surja. E isso exige um preparo sério, de anos.

Então o que leva uma pessoa a procurar o melhor para as outras, melhorando sua auto estima, talvez nem seja uma coisa assim tão simples. Na verdade ao aplicar uma dinâmica como a do chapéu, a gente pode se surpreender. É o que já disse: às vezes não estamos preparados para fazer os ajustes. Temos que cuidar para não trazer mais problemas ainda à pessoa. Mas se você quiser experimentar melhorar a auto estima do grupo, então uma boa sugestão é a técnica do “Pessoas são dons”, ressaltando sempre o que há de melhor em cada um.

Não estudei psicologia, exceto as 20 horas do curso de pós em catequética, mas, penso que não se deve mexer naquilo que não se sabe. Ou abrir uma caixa de pandora e não conseguir fechar de novo. Acho até, que é uma questão de bom senso. Primeiro que as pessoas para estarem na Igreja, ajudando outras pessoas, deveriam já, ser bem resolvidas. A gente não pode ir para um trabalho pastoral de evangelização cheio de problemas!? Ou pode? Ou vai?... rsrsrsrrs... Agora caímos naquele chavão: "Quem não tem pecados, atire a primeira pedra!”.

Reforçar a auto estima de uma pessoa é, antes de tudo, amá-la! Por isso faço essas considerações. Nem é preciso muita técnica ou ser psicólogo. É mesmo por aí a coisa...

Mas preciso ressaltar algo aqui. A atitude dessa minha amiga de procurar o melhor para o seu grupo, é uma atitude maravilhosa, muita gente nem se incomodaria, deixaria pra lá. Isso mostra que ela tem o “dom”... O “dom” maravilhoso de ser catequista.


*Angela Rocha


ANEXOS:

01 – TEXTO DE PEDRO BANDEIRA

Identidade

Às vezes nem eu mesmo sei quem sou.
Às vezes sou “o meu queridinho”.
Às vezes sou moleque malcriado.
Para mim tem vezes que eu sou rei, herói voador, caubói lutador, jogador campeão.
Às vezes sou pulga, sou mosca também, que voa e se esconde de medo e vergonha.
Às vezes eu sou Hércules, Sansão vencedor, peito de aço, goleador.
Mas que importa o que pensam de mim?
Eu sou eu, sou assim, sou menino.

(Pedro Bandeira. Cavalgando o arco-íris. São Paulo, Moderna, 1985)


02 - DINÂMICA – PESSOAS SÃO DONS

Objetivo: Identificar-se como pessoa importante no meio em que vive. Para reforçar a auto estima.

Materiais: uma caixa com tampa, decorada como para presente, com espelho dentro.
Duração: 50 minutos.
Procedimentos: O coordenador do grupo apresenta aos participantes uma caixa bem decorada e diz a eles que a catequese recebeu um presente muito especial de alguém. E orienta que cada um pegue a caixa, abra, observe o presente que está dentro dela, feche bem a caixa e entregue ao colega mais próximo, sem comentar absolutamente nada. Desse modo, a caixa passa de mão em mão por todos na sala. Terminada essa etapa, questiona-se os participantes sobre como se sentiram ao se olharem ao espelho e
perceberem que eles próprios eram o presente que a catequese havia recebido. Após os comentários, sugere-se a leitura e a análise da mensagem expressa no texto Pessoas são dons.

Texto para reflexão (pode ser lido ou declamado):

PESSOAS SÃO DONS

Pessoas são dons. Pessoas são presentes, que o Pai manda para mim embrulhadas.
Umas são presentes que vêm em embrulho bem bonito: atraentes logo que as vejo.
Outras vêm com um papel bastante comum.
Outras ficaram machucadas no correio.
De vez em quando, vem uma registrada.
Umas são presentes em invólucros fáceis.
Outras, é bem difícil para tirar a embalagem. Porém, a embalagem não é o presente.
É fácil fazer este erro. Às vezes, o presente não é muito fácil de abrir.
Precisa-se da ajuda de outras pessoas.
Será que a razão é o medo? Será que é o ódio?
Talvez já tenha sido desembrulhado e o presente jogado fora.
Pode ser que este presente não seja para mim!
Eu também sou uma pessoa. Sou também um presente.
Um presente a mim mesmo.
O Pai deu-me a mim mesmo.
Já olhei para dentro da minha própria embalagem?
Talvez nunca tenha aceito o presente que sou...
Pode ser que dentro da embalagem tenha algo diferente do que penso!
Talvez nunca tenha compreendido o presente maravilhoso que sou!
Será que o Pai faz pessoas que não são maravilhosas?
Eu adoro os presentes que aqueles que me amam dão a mim!
Por que não amo o presente, este presente, a pessoa que sou?
Sou um presente às outras pessoas?
Será que nunca chegarão a gozar do presente?
Cada encontro com pessoas é uma troca de presentes.
Mas o dom sem doador não é mais dom!
É somente uma coisa vazia sem relacionamento entre doador e recebedor.
A amizade é um relacionamento entre pessoas que vêem as pessoas como realmente são: DONS DO PAI UM AO OUTRO...
O amigo é um dom, não somente para mim, mas para outros através de mim.
Quando eu guardo um amigo, possuindo-o, eu destruo sua capacidade de ser dádiva.
Se eu guardo a sua vida para mim, eu a perco para outros, então eu a guardo.
PESSOAS SÃO DONS RECEBIDOS E DONS DOADOS...

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