domingo, 27 de março de 2016

A MUDANÇA DOS DISCÍPULOS DE JESUS, DIZ BEM A SUA RESSURREIÇÃO

Mudemos nós também, deixemos-nos transformar pela Ressurreição, como discípulos missionários que pretendemos ser...


Cheios de esperança messiânica, os Apóstolos seguiam Jesus convencidos de que muito em breve o Senhor iria subir ao trono (Mc 10, 35-40). A morte de Jesus, portanto, estava longe de passar pela cabeça dos discípulos do Senhor. Isto quer dizer que a morte de Jesus foi vivida como um fracasso.

A mudança operada nos Apóstolos após a Páscoa é certamente o maior sinal que confirma a verdade da ressurreição de Jesus. A força transformadora do Jesus ressuscitado teve efeitos não apenas ao nível espiritual mas implicou também mudanças de tipo social e histórico: formação de comunidades cristãs, anúncio do Evangelho, a partilha fraterna dos bens, novas exigências em relação à justiça social e um novo modo de respeitar a dignidade da pessoa humana.

Ao ressuscitar, o Senhor Jesus difundiu a força transformadora do Espírito Santo, iniciando assim um processo de humanização, tanto a nível das pessoas como da História. Na noite de quinta-feira santa os discípulos deram provas de ser homens frágeis e cobardes. Quando viram o perigo, cada qual fugiu para seu lado, deixando Jesus nas mãos dos judeus.

Mas eis que três dias depois, isto é, no Domingo de Páscoa, aparecem a gritar nas praças públicas, dizendo que Jesus é o Messias anunciado pelos profetas. E com grande espanto dos judeus, estes homens iletrados dizem coisas coerentes e estão dispostos a dar a vida pelo que anunciam.

Mas o sinal mais espantoso é a mudança operada no teólogo judeu, Saulo de Tarso, que veio dar o grande Apóstolo São Paulo: era um inimigo acirrado dos cristãos, perseguia uns e prendia outros. E tudo isto apoiado na sua teologia elaborada a partir dos escritos da Lei e dos Profetas.

Agora a ressurreição de Cristo é o centro da sua nova teologia e o acontecimento que lhe dá força para ir pelos quatro cantos do Império Romano anunciar Jesus Cristo Ressuscitado. De tal modo foi marcante a sua experiência de Cristo ressuscitado que ele se dispôs a dar o melhor de si, incluindo a própria vida, para anunciar esta notícia por todo o mundo.

A força com que anunciava o mistério de Cristo morto e ressuscitado não deixam dúvidas de que a sua experiência do Senhor ressuscitado é o fundamento da sua fé. Eis o que ele diz aos Coríntios: “Se Cristo não ressuscitou a nossa pregação é inútil e falsa, como também inútil e sem fundamento é a vossa fé” (1Cor 15, 14). Se Cristo não ressuscitou a pregação do Evangelho é palavreado oco e sem qualquer interesse. Se Jesus não está vivo, a pregação do Evangelho seria uma fraude ignominiosa. Na verdade, é a ressurreição de Cristo que capacita e autoriza os Apóstolos a anunciar a Boa Nova da salvação.

Após a Páscoa, os discípulos pregam a ressurreição de Jesus com a força e a alegria próprias de quem acaba de descobrir algo de maravilhoso que altera de modo total o sentido da vida. Estão dispostos a perder tudo, inclusive a vida, para defender esta verdade. Eis o testemunho deles no Livro dos Atos dos Apóstolos: “Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou. Como Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo maligno, pois Deus estava com ele. E nós somos testemunhas do que ele fez no país dos judeus e em Jerusalém. Os judeus mataram-no, mas Deus ressuscitou-o ao terceiro dia e permitiu que ele se manifestasse, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com ele, depois da sua ressurreição de entre os mortos. Foi ele que nos mandou pregar ao povo e confirmar que ele é o Messias constituído por Deus como juiz dos vivos e dos mortos” (At 10, 37-42).

Estas passagens demonstram bem a dinâmica da pregação dos Apóstolos após a Páscoa. Quanto a São Paulo, o teólogo que odiava Jesus e perseguia os cristãos, os Atos dos Apóstolos dizem dele que se viu subitamente envolvido por uma luz intensa quando viajava para Damasco: “Caindo por terra, ouviu uma voz vinda do Céu que lhe dizia: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” Ele perguntou: “Quem és tu, Senhor?” A voz respondeu: “Eu sou Jesus a quem tu persegues. Ergue-te, entra na cidade e dir-te-ão o que tens de fazer” (At 9, 3-6). 

E os olhos de São Paulo abrem-se para a verdade da salvação que nos vem por Cristo. O fariseu enredado e dependente da Lei, da letra e dos preceitos vê-se de um momento para o outro liberto das amarras que impedem o homem de se humanizar e comungar com Deus. Esta mudança foi tão radical, diz ele na Carta aos Gálatas, que a sua vida se transformou de modo radical: “É que eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Eu estou crucificado com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim (…). Eu não rejeitei a graça de Deus. Se a justiça viesse pela Lei, então a morte de Cristo teria sido inútil” (Gl 2, 19-21).

Na Carta aos Romanos repete esta ideia, contrapondo Cristo ressuscitado à Lei de Moisés: nós devemos entregar-nos a Deus como ressuscitados de entre os mortos com Cristo. Na verdade é de Cristo e não da Lei que recebemos a filiação divina e a graça da Salvação: “Entregai-vos a Deus como ressuscitados de entre os mortos. O pecado não terá mais poder sobre vós uma vez que não estais sob o domínio da Lei, mas sob o domínio da graça” (Rm 6, 13-14).

São Paulo não foi discípulo do Jesus histórico. Por isso não teve parte nas primeiras aparições do ressuscitado. É por esta razão que na Primeira Carta aos Coríntios ele inicia o seu discurso sobre a ressurreição de Cristo, repetindo o que os Apóstolos lhe comunicaram: “Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi: “Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras. Foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas (Pedro) e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez. A maior parte ainda vive, embora alguns já tenham morrido. Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos (missionários itinerantes). Em último lugar apareceu-me também a mim como a um aborto. De facto, eu sou o menor dos Apóstolos e nem sequer mereço ser chamado Apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou. Com efeito, a graça que me foi concedida não foi estéril. Na verdade, eu tenho trabalhado mais que todos eles. Não eu, mas a graça de Deus que está comigo. De facto, tanto eu como os outros apóstolos temos pregado assim. E foi também assim que vós acreditastes!” (1 Cor 15, 3- 11).

Para São Paulo, Jesus ressuscitado é o Messias que, após a sua ressurreição, ficou sentado à Direita de Deus no Céu. Eis o modo como ele começa a Carta aos Romanos: “Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado a ser apóstolo. Fui escolhido para anunciar o Evangelho que Deus antecipadamente prometera por meio dos profetas nas Escrituras, acerca do seu Filho, Jesus Cristo. Nascido da descendência de David segundo a carne, constituído filho de Deus em poder, segundo o Espírito Santo, através da ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo, Senhor Nosso” (Rm 1, 1- 4).

Para esclarecer o jeito messiânico com que Jesus viveu a sua vida terrena, os Atos dos Apóstolos afirmam que Jesus foi ungido pelo Espírito Santo como Messias no momento do seu batismo. São Paulo considera a ressurreição de Jesus como o acontecimento unção fundamental de Jesus aconteceu pela ressurreição, pois ele não viveu com Jesus antes da Páscoa. Eis algumas passagens significativas dos seus escritos: “Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e acreditares no teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” (Rm 10, 9).

O simbolismo da água do batismo, apesar de ser anterior a Cristo, começa a ser lido e interpretado à luz da morte e ressurreição de Jesus: “Pelo batismo fomos sepultados com Cristo na morte, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos para glória de Deus Pai, assim também nós possamos caminhar numa vida nova. De facto, se estamos integrados em Cristo por uma morte idêntica à sua, também o estaremos pela sua ressurreição. O homem velho que havia em nós foi crucificado com Cristo, a fim de ser destruído o corpo do pecado. Deste modo, já não somos escravos do pecado (…). Se morremos com Cristo, acreditamos que também com ele viveremos.

Sabemos que Cristo, ressuscitado de entre os mortos, já não morre mais. A morte não tem mais domínio sobre ele. Do mesmo modo considerai-vos, vós também, mortos para o pecado, mas vivos para Deus, por Cristo Jesus” (Rm 6, 4-11).

Graças à ressurreição de Cristo também nós seremos ressuscitados, pois fazemos uma união orgânica com ele: “O Deus que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar a nós pelo seu poder. Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo?” (1Cor 6, 14-15).

Graças a Cristo ressuscitado, a Humanidade deu um salto de qualidade, tornando-se a Nova Humanidade reconciliada com Deus: “Se alguém está em Cristo é uma nova criação. Passou o que era velho. Eis que tudo se fez novo. Tudo isto vem de Deus que nos reconciliou consigo em Jesus Cristo, não levando mais em conta os pecados dos homens” (2Cor 5, 17-19).

O maior sinal da ressurreição de Cristo foi realmente a transformação dos Apóstolos operada pelas aparições do Senhor ressuscitado.


Pe. Santos Calmeiro Matias - Redentorista.
(1942-2010)

SEGUIDORES DO CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO