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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

OS DEZ MANDAMENTOS DO PERDÃO

Imagem criada por IA
PERDÃO E RECONCILIAÇÃO: UM CAMINHO PARA A PAZ

 Falar de perdão é falar de uma das experiências mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais libertadoras da vida cristã. Perdoar não significa fingir que nada aconteceu, apagar a dor ou dizer que aquilo que nos feriu não teve importância. O perdão é uma decisão que nos ajuda a não permanecer presos à mágoa, ao ressentimento e ao desejo de retribuir o mal que recebemos.

Às vezes pensamos que perdoar é simplesmente dizer: “Eu perdoo”. Mas o verdadeiro perdão é um caminho. Ele pode começar com uma decisão e precisar de tempo para alcançar o coração.

Também precisamos compreender que perdoar não significa necessariamente voltar a ter a mesma relação de antes. Há situações em que é necessário estabelecer limites, manter distância ou reconstruir a confiança aos poucos. Perdoar é abrir mão do desejo de vingança e entregar a Deus aquilo que não conseguimos resolver sozinhos.

O perdão faz parte da vida cristã

Jesus coloca o perdão no centro da vida de seus discípulos. Isso aparece de maneira muito clara na oração do Pai-Nosso: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.”

Não estamos apenas pedindo que Deus nos perdoe. Estamos também assumindo o compromisso de aprender a perdoar.

Jesus nos ensina ainda que a reconciliação com o irmão não pode ser tratada como algo secundário. No Evangelho de Mateus, ele apresenta uma imagem muito forte: antes de apresentar a oferta no altar, é preciso procurar a reconciliação com aquele que foi ferido ou com quem existe um conflito (Mt 5,23-24).

Isso nos mostra que não existe uma verdadeira vida cristã baseada apenas em rezar, participar das celebrações e falar de amor, enquanto alimentamos rancor dentro do coração. O perdão é exigente porque mexe justamente com aquilo que mais queremos proteger: nosso orgulho, nossa razão e nossas feridas.

Perdoar não é esquecer

Existe uma ideia muito comum de que, para perdoar de verdade, precisamos esquecer completamente o que aconteceu. Nem sempre é assim.

Podemos nos lembrar de uma situação dolorosa sem continuar vivendo presos a ela. A memória pode permanecer, mas a ferida pode deixar de controlar nossas escolhas. Perdoar é permitir que aquela história deixe de ocupar o lugar central em nossa vida.

Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes seja:

“O que ainda estou carregando dentro de mim que preciso entregar a Deus?”

Às vezes não conseguimos perdoar porque continuamos alimentando mentalmente a ofensa, repetindo a conversa, imaginando o que deveríamos ter dito ou esperando que o outro reconheça nosso sofrimento.

O caminho da reconciliação começa quando deixamos de viver somente olhando para aquilo que nos feriu e começamos a procurar um caminho de paz.

Reconciliação exige coragem

Nem sempre somos nós que precisamos dar o primeiro passo porque fomos os responsáveis pelo conflito. Às vezes fomos feridos injustamente. Ainda assim, podemos escolher não alimentar o ódio.

Quando for possível e seguro, conversar pode ser um caminho. Pedir desculpas também. Reconhecer nosso próprio erro, ouvir o outro e procurar uma solução são atitudes que podem reconstruir relacionamentos.

Mas reconciliação não significa aceitar abusos ou permanecer em situações que nos fazem mal. Perdoar e colocar limites podem caminhar juntos. O importante é não permitir que a mágoa transforme nosso coração.

Um caminho de reconciliação

A reconciliação não acontece de uma hora para outra. Ela começa dentro de nós e vai alcançando nossas relações.

Por isso, podemos pensar em algumas atitudes que ajudam a construir esse caminho. 

Uma inspiração para este caminho

A proposta dos “Dez mandamentos da reconciliação” que inspirou esta reflexão foi encontrada em um material publicado pelos Saletinos do Brasil, dentro de uma reflexão sobre solidariedade e reconciliação.

Como a redação original não trazia uma autoria individual claramente identificada, os dez pontos apresentados abaixo foram reelaborados e ampliados em linguagem própria, preservando a ideia central da proposta original, mas sem reproduzi-la literalmente.

 10 ATITUDES PARA CONSTRUIR A RECONCILIAÇÃO

1. Reconheça e acolha quem você é -A reconciliação começa quando aprendemos a olhar para nós mesmos com verdade, aceitando nossa história, nossos limites e nossas possibilidades.

2. Valorize os dons que recebeu - Reconheça aquilo que Deus colocou em você e coloque seus talentos a serviço, sem precisar ser igual a outra pessoa.

3. Cultive a gratidão - Um coração agradecido aprende a perceber o bem que existe na própria vida e se torna menos preso àquilo que gostaria de ter.

4. Aprenda a enxergar o bem no outro - Em vez de procurar somente defeitos e falhas, procure reconhecer também as qualidades, os esforços e os dons das pessoas.

5. Não transforme sua vida em uma comparação - Cada pessoa possui uma história, um ritmo e dons diferentes. Comparar-se constantemente pode alimentar frustração, inveja e ressentimento.

6. Seja verdadeiro nas suas relações - A sinceridade, quando acompanhada de respeito e caridade, ajuda a evitar mal-entendidos e fortalece os relacionamentos.

7. Procure caminhos para resolver os conflitos - Nem todo conflito desaparece sozinho. É preciso disposição para conversar, compreender o que aconteceu e buscar uma saída possível.

8. Converse para aproximar, não para vencer - Um diálogo de reconciliação não deve ser uma disputa para descobrir quem tem razão. É uma oportunidade de procurar aquilo que pode reconstruir a relação.

9. Dê o primeiro passo - Esperar sempre que o outro tome a iniciativa pode prolongar uma distância desnecessária. Às vezes, a reconciliação começa com uma mensagem, uma conversa ou um pedido de desculpas.

10. Escolha a reconciliação em vez da necessidade de ter razão - Perdoar não significa dizer que o que aconteceu foi certo. Significa escolher não permanecer prisioneiro da mágoa e abrir espaço para a paz.

PARA REFLETIR

Existe alguém que eu preciso perdoar?

Existe alguém a quem preciso pedir perdão?

Existe alguma mágoa que ainda estou carregando e preciso entregar a Deus?

Talvez a reconciliação que estamos esperando comece com um pequeno passo: uma oração, uma conversa, um pedido de desculpas ou simplesmente a decisão de deixar de alimentar aquilo que nos machuca.

Porque perdoar não muda o passado. Mas pode transformar o modo como continuamos nossa caminhada.

 

Ângela Rocha

Catequista e Formadora – Graduada em Teologia pela PUCPR.

quarta-feira, 22 de março de 2017

CATEQUESE DO PAPA: O PERDÃO NA CRUZ


As palavras que Jesus pronuncia durante a sua paixão encontram o seu ápice no perdão. Jesus perdoa: “Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Não são apenas palavras, porque se tornam um ato concreto no perdão oferecido ao “bom ladrão”, que estava próximo a Ele. São Lucas fala de dois malfeitores crucificados com Jesus, que se dirigem a Ele com atitudes opostas.
O primeiro o insulta, como o insultava todo o povo, como fazem os chefes do povo, mas este pobre homem, movido pelo desespero, diz: “Não és tu o Cristo? Salva a ti mesmo e a nós!” (Lc 23, 39). Este grito testemunha a angústia do homem diante do mistério da morte e a trágica consciência de que somente Deus pode ser a resposta libertadora: por isso é impensável que o Messias, o enviado de Deus, possa estar na cruz sem nada fazer para salvar-se. E não entendiam isso. Não entendiam o mistério do sacrifício de Jesus. E em vez disso Jesus nos salvou permanecendo na cruz. Todos nós sabemos que não é fácil “permanecer na cruz”, nas nossas pequenas cruzes de cada dia. Ele, nessa grande cruz, nesse grande sofrimento, permaneceu assim e ali nos salvou; ali nos mostrou a sua onipotência e ali nos perdoou.
Ali se cumpre a sua doação de amor e surge para sempre a nossa salvação. Morrendo na cruz, inocente entre dois criminosos, Ele atesta que a salvação de Deus pode alcançar qualquer homem em qualquer condição, mesmo na mais negativa e dolorosa. A salvação de Deus é para todos, ninguém excluído. É oferecida a todos. Por isso o Jubileu é tempo de graça e de misericórdia para todos, bons e maus, aqueles que estão com saúde e aqueles que sofrem.
Recordem-se daquela parábola que Jesus conta na festa do casamento de um filho de um poderoso da terra: quando os convidados não quiseram ir, diz a seus servos: “Ide às encruzilhadas e convidai para as bodas todos quantos achardes” (Mt 22, 9). Todos somos chamados: bons e maus. A Igreja não é somente para os bons ou para aqueles que parecem bons ou acreditam ser bons; a Igreja é para todos, também preferivelmente para os maus, porque a Igreja é misericórdia. E este tempo de graça e de misericórdia nos faz recordar que nada pode nos separar do amor de Cristo! (cfr Rm 8, 39). A quem está acamado em um leito de hospital, a quem vive fechado em uma prisão, a quantos estão presos pelas guerras, eu digo: olhem para o Crucifixo; Deus está convosco, permanece com vocês na cruz e a todos se oferece como Salvador a todos nós.
A vocês que sofrem tanto digo, Jesus foi crucificado por vocês, por nós, por todos. Deixem que a força do Evangelho penetre no vosso coração e vos console, vos dê esperança e a íntima certeza de que ninguém está excluído do seu perdão. Mas vocês podem me perguntar: “Mas, me diga, padre, aquele que fez as coisas mais terríveis na vida, tem possibilidade de ser perdoado?” – “Sim! Sim: ninguém está excluído do perdão de Deus. Somente deve se aproximar arrependido de Jesus e com a vontade de ser por Ele abraçado”.
Este era o primeiro malfeitor. O outro é considerado o “bom ladrão”. As suas palavras são um maravilhoso modelo de arrependimento, uma catequese concentrada para aprender a pedir perdão a Jesus. Primeiro, ele se dirige ao seu companheiro: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?”( Lc 23, 40). Assim coloca em destaque o ponto de partida do arrependimento: o temor de Deus. Mas não o medo de Deus, não: o temor filial de Deus. Não é o medo, mas aquele respeito que se deve a Deus porque Ele é Deus. É um respeito filial porque Ele é Pai. O bom ladrão recorda a atitude fundamental que abre à confiança em Deus: a consciência da sua onipotência e da sua infinita bondade. E este respeito confiante que ajuda a dar espaço a Deus e a confiar em sua misericórdia.
Depois, o bom ladrão declara a inocência de Jesus e confessa abertamente a própria culpa: “Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum” (Lc 23, 41). Portanto, Jesus está ali na cruz para estar com os culpados: através desta proximidade, Ele oferece a eles a salvação. Isso que é escândalo para os chefes e para o primeiro ladrão, para aqueles que estavam ali e zombavam de Jesus, em vez disso, é fundamento da sua fé. E assim o bom ladrão se torna testemunho da Graça; o impensável aconteceu: Deus me amou a tal ponto que morreu na cruz por mim. A própria fé desse homem é fruto da graça de Cristo: os seus olhos contemplam no Crucificado o amor de Deus por ele, pobre pecador. É verdade, era ladrão, tinha roubado toda a vida. Mas no fim, arrependido do que tinha feito, olhando para Jesus tão bom e misericordioso, conseguiu roubar para si o céu: este é um bravo ladrão!
O bom ladrão se dirige enfim diretamente a Jesus, invocando a sua ajuda: “Jesus, lembra-te de mim quando tiverdes entrado no teu Reino!” (Lc 23, 42). Chama-o pelo nome, “Jesus”, com confiança, e assim confessa aquilo que no nome indica: “o Senhor salva”: isso significa o nome “Jesus”. Aquele homem pede a Jesus para se lembrar dele. Quanta ternura nesta expressão, quanta humanidade! É a necessidade do ser humano de não ser abandonado, que Deus lhe seja sempre próximo. Deste modo, um condenado à morte se torna modelo de cristão que se confia a Jesus. Um condenado à morte é um modelo para nós, um modelo para um homem, para um cristão que se confia a Jesus; e também modelo da Igreja que na liturgia tantas vezes invoca o Senhor dizendo: “Recorda-te…recorda-te do teu amor…”.
Enquanto o bom ladrão fala ao futuro: “quando entrares no teu reino”, a resposta de Jesus não se faz esperar; fala no presente: “hoje estarás comigo no paraíso” (v. 43). Na hora da cruz, a salvação de Cristo alcança o seu ápice; e a sua promessa ao bom ladrão revela o cumprimento da sua missão: isso é salvar os pecadores. No início do seu ministério, na sinagoga de Nazaré, Jesus tinha proclamado: “a libertação aos prisioneiros” (Lc 4, 18); em Jericó, na casa do público pecador Zaqueu, tinha declarado que “o Filho do homem – isso é, Ele – veio procurar e salvar quem estava perdido” (Lc 19, 9). Na cruz, o último ato confirma o realizar-se deste desígnio salvífico. Do início ao fim Ele se revelou Misericórdia, se revelou encarnação definitiva e irrepetível do amor do Pai. Jesus é realmente a face da misericórdia do Pai. E o bom ladrão chamou-o pelo nome: “Jesus”. É uma invocação breve e todos podemos fazê-la durante o dia tantas vezes: “Jesus”. “Jesus”, simplesmente. E assim fazê-lo todo o dia.


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