segunda-feira, 13 de julho de 2020

NOVO DIRETÓRIO CATEQUÉTICO: O QUE MUDOU...


Anúncio e evangelização, catequese e Querigma

Cá estamos nós, ansiosas e ansiosos para ver o novo “Diretório Catequético” da Santa Sé. Com relação ao que vem de “novo”, os catequistas precisam conhecer o “velho” para que se faça uma comparação, pelo que sabemos, algo fora da realidade. Os catequistas não costumam estudar os documentos da Igreja. A maioria dos nossos catequistas nem sequer conhece o Diretório Nacional de Catequese lançado em 2006. Mas, fato é, que a realidade contemporânea, com tamanha velocidade de comunicação e informações, se sobrepõe ao longínquo 2006 e ainda mais a 1997, data da publicação do diretório anterior. Nunca se viu, em minha opinião, tamanho interesse dos catequistas pelo lançamento de um documento.

Penso que, primeiramente, este interesse vem do fato de que é um documento “da catequese”. Poucas vezes a Igreja publica documentos específicos relativos à evangelização e catequese. Claro que existem documentos a respeito, mas, desta vez é um “livro”, com mais de 250 páginas. E são 23 anos da última publicação com orientações específicas para a catequese. Outra coisa é a curiosidade: nossos catequistas são curiosos. Bom que o sejam porque isso favorece a formação. Uma pena é que a grande maioria desconheça que documento é esse e o porquê da sua publicação. Mas, graças a Deus pela internet e comunicação pelas redes sociais! Inúmeras “lives” e cursos já estão aí, disponíveis para quem quer saber do que se trata.

Importante salientar que, de modo algum, se deve desprezar o conhecimento da “história” da nossa catequese e da evangelização pós concílio Vaticano II. E que, antes de conhecer o “novo”, se saiba do que se tratava o “velho”. E nem é preciso se dedicar a leitura do DGC de 1997. Pode-se conhecê-lo por meio do DNC – Diretório Nacional de Catequese, documento 84 da CNBB, que é uma adaptação do DGC à nossa catequese brasileira. Que se encontra em vigor, até que se faça outro.

Mas, devagar vamos nos adaptar ao novo - sem saber muito do velho – e aproveitar a riqueza que este Diretório nos traz. O capítulo II do Diretório nos traz a IDENTIDADE DA CATEQUESE, ou seja, o que é a catequese e a que ela se propõe: 

1. Natureza da catequese (n. 55-65): A catequese é um ato de natureza eclesial, que nasce do mandado missionário do Senhor (Mt 28,19-20) e que está orientada, como seu nome indica, a fazer ressoar continuamente o anúncio de sua Páscoa no coração de cada pessoa, para que sua vida seja transformada. Uma realidade dinâmica e complexa a serviço da Palavra de Deus, a catequese acompanha, educa e forma na fé e para a fé, introduz à celebração do Mistério, ilumina e interpreta a vida e a história humanas. Integrando harmoniosamente essas características, a catequese expressa a riqueza de sua essência e oferece sua contribuição específica para a missão pastoral da Igreja. (DC, 55). (Grifos nossos)

 Novamente temos aqui a definição de que a catequese é de natureza Eclesial e, portanto, uma ação da Igreja, que desde sua origem tem como missão o anúncio da Palavra e do Reino. Como ações verbais, a catequese deve: acompanhar, educar,  formar, introduzir, iluminar e interpretar a vida, e, portanto, o que se vive na Igreja e no mundo, de forma a conduzir o catequizando a uma vida plena.

Logo em seguida o Diretório nos traz uma mudança a respeito das etapas da evangelização. Mudança muito importante, pois trata-se da visão da realidade em que vivemos. Já não temos mais um “anúncio” feito pela família, no caso de crianças e jovens; e muito menos um anúncio por parte dos batizados, na sua vida em sociedade.

 A catequese, etapa privilegiada do processo de evangelização, é geralmente voltada para pessoas que já receberam o primeiro anúncio, e em cujo íntimo ela promove os processos de iniciação, crescimento e amadurecimento na fé. É verdade, porém, que, embora seja útil a distinção conceitual entre pré-evangelização, primeiro anúncio, catequese, formação permanente, no contexto atual não é mais possível marcar tal diferença. De fato, por um lado, aqueles que hoje pedem ou já receberam a graça dos sacramentos muitas vezes não têm uma experiência explícita de fé ou não conhecem intimamente sua força e calor; por outro lado, um anúncio formal que se limita à crua enunciação dos conceitos de fé não permite uma compreensão da própria fé, que é, em vez disso, um novo horizonte de vida que se revela, a partir do encontro com o Senhor Jesus.  (DC 56). (Grifo nosso).

O parágrafo acima marca uma realidade já vista pelos catequistas, que não encontram seus catequizandos “querigmatados” para receber os ensinos da fé. Por “querigmatados” queremos dizer já preparados com a primeira etapa da evangelização, que era o “primeiro anúncio”. Nos próximos parágrafos o documento esclarece a “Íntima relação entre querigma e catequese:

 

Essa exigência, à qual a Igreja deve responder nos tempos atuais, evidencia a necessidade de uma catequese que coerentemente possa ser chamada querigmática, ou seja, uma catequese que é um “aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, [fazendo-se] carne” (EG, n. 165). A catequese, que nem sempre pode ser distinguida do primeiro anúncio, é chamada a ser primeiramente um anúncio da fé, e não deve delegar a outras ações eclesiais a missão de ajudar a descobrir a beleza do Evangelho. É importante que, precisamente através da catequese, cada pessoa descubra que vale a pena crer. Dessa forma, ela não mais se limita a ser um mero momento de crescimento mais harmonioso da fé, mas contribui para gerar a própria fé, permitindo descobrir sua grandeza e credibilidade. O anúncio não pode mais ser considerado simplesmente a primeira etapa da fé, prévia à catequese, mas sim a dimensão constitutiva de cada momento da catequese. (DC 57). (Grifo nosso)

 

Aqui observa-se que uma catequese “querigmática” se faz necessária no mundo de hoje. Mas, o catequista vai se perguntar: Como se faz uma catequese querigmática? O querigma, por mais que a literatura atual tenha se debruçado sobre o conceito, ainda é meio nebuloso para o catequista, que muitas vezes encontra dificuldade para explicitar o seu próprio “primeiro anúncio”.

 

O querigma, “fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita do Pai” (EG, n. 164), é simultaneamente um ato de anúncio e o conteúdo mesmo do anúncio, que revela e faz presente o Evangelho. No querigma, o sujeito que age é o Senhor Jesus que se manifesta no testemunho daqueles que o anunciam; a vida da testemunha que experimentou a salvação torna-se, portanto, o que toca e move o interlocutor. No Novo Testamento estão presentes diversas formulações do querigma que respondem às várias compreensões da salvação, que ressoa com acentos particulares nas diferentes culturas e por diferentes pessoas. Da mesma forma, a Igreja deve ser capaz de encarnar o querigma para as exigências de seus contemporâneos, favorecendo e encorajando que nos lábios dos catequistas (Rm 10,8-10), a partir da plenitude de seu coração (Mt 12,34), em uma recíproca dinâmica de escuta e diálogo (Lc 24,13-35), floresçam anúncios críveis, confissões de fé vitais, novos hinos cristológicos para anunciar a Boa Notícia: “Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar” (EG, n. 164). (DC 58) (Grifo nosso).

Aí está: “para que nossa lábios do catequista (...) floresçam anúncios críveis, confissões de fé vitais, novos hinos a Cristo para anunciar a boa notícia”. Volta-se aqui, ao “ser” do catequista e a sua própria formação como anunciador do Reino.

O Diretório destaca as formulações feitas nos Evangelhos a respeito do “Querigma”: dentre as inúmeras fórmulas do querigma, veja-se, a título de exemplo: “Jesus, Filho de Deus, o Emanuel, o Deus conosco” (Mt 1,23); “está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15); “De tal modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16); “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10); “Por toda a parte, ele [Jesus de Nazaré] andou fazendo o bem, e curando a todos” (At 10,38); “Jesus, nosso Senhor, (...) ressuscitado para nossa justificação” (Rm 4,24-25); “Jesus é Senhor” (1Cor 12,3); “Cristo morreu pelos nossos pecados” (1Cor 15,3); “Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Urge que o catequista tenha recebido o querigma, ou seja, acredite nas expressões aqui selecionadas e crie os seus próprios “hinos cristológicos” para anunciar a fé em Jesus Cristo.

Nos itens subsequentes o Diretório pede que a catequese coloque o anúncio como “conteúdo” daquilo a que se propõe:

 

Dessa centralidade do querigma para o anúncio, derivam alguns esclarecimentos também para a catequese: que “exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a verdade mas faça apelo à liberdade, que seja pautado pela alegria, pelo estímulo, pela vitalidade e por uma integralidade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas” (EG, n. 165). Os elementos que a catequese como eco de querigma é convidada a valorizar são: o caráter da proposta; a qualidade narrativa, afetiva e existencial; a dimensão de testemunho da fé; a atitude relacional; a ênfase salvífica. Com efeito, tudo isso interroga a própria Igreja, chamada primeiramente a redescobrir o Evangelho que anuncia: o novo anúncio do Evangelho pede à Igreja uma renovada escuta do Evangelho, junto com seus interlocutores. (DC 59) (Grifo nosso)

 Derruba-se  aqui, definitivamente, a proposta da catequese como ensino de doutrina, sem que os ecos do querigma levem a uma análise mais profunda da proposta salvífica como expressão de uma realidade social em crise.

 

Uma vez que “o querigma possui um conteúdo inevitavelmente social” (EG, n. 177), é importante que esteja explícita a dimensão social da evangelização de modo que seja possível encontrar a sua abertura em toda a existência. Isso significa que a eficácia da catequese é visível não somente por meio do anúncio direto da Páscoa do Senhor, mas também mostrando como a nova visão da vida, do ser humano, da justiça, da vida social e do universo inteiro emerge da fé, também mediante a realização de sinais concretos. Por essa razão, a apresentação da luz com a qual o Evangelho ilumina a sociedade não é um segundo momento cronologicamente distinto do anúncio da própria fé. A catequese é um anúncio da fé que não pode outra coisa senão se relacionar, mesmo que em semente, com todas as dimensões da vida humana. (DC 60). (Grifo nosso)

O mundo vive uma realidade muito além das propostas que se tem de uma catequese voltada para o interior da Igreja, que não olha a realidade de uma sociedade carente de justiça e igualdade. As propostas de Jesus continuam atuais hoje, por mais que milênios tenham se passado. O ser humano ainda é o foco de anúncio de que, uma nova realidade se faz necessária. E este anúncio só é possível se o coração do catequista for tocado e se ele próprio estiver “convertido” e abraçado a causa.

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FONTE:

Diretório catequético, Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização. Vaticano: 2020. Documentos da Igreja nº 61, CNBB: Brasília, 2020.

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