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sábado, 21 de fevereiro de 2026

O DESERTO DAS ESCOLHAS - 1º DOMINGO DA QUARESMA

 

Primeiro Domingo da Quaresma

Leituras:

Gn 2,7-9.3,1-7
Sl 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)
Rm 5,12-19 ou mais breve 5,12.17-19
Evangelho: Mt 4,1-11

O DESERTO DAS ESCOLHAS

Ao iniciar a Quaresma, a liturgia nos conduz ao deserto com Jesus. O Evangelho de Mateus (Mt 4,1-11) não apresenta um detalhe secundário da vida de Cristo, mas um momento profundamente revelador. É o próprio Espírito quem conduz Jesus ao deserto. Não se trata de fuga, castigo ou isolamento estéril. Na tradição bíblica, o deserto é lugar de silêncio, de verdade e de discernimento. É o espaço onde cessam os ruídos e emergem as perguntas essenciais.

Antes de iniciar sua missão pública, Jesus passa pelo deserto. Ali, confronta-se com tentações que não devem ser entendidas como um episódio folclórico ou distante da experiência humana. Elas revelam escolhas fundamentais, tensões reais, dilemas que atravessam também a nossa vida. O deserto expõe o coração, revela intenções, purifica motivações.

A primeira tentação toca uma dimensão básica da existência: a fome. “Se és Filho de Deus, transforma estas pedras em pão.” Jesus sente fome, e isso é importante. O Evangelho não nos mostra um Jesus imune às necessidades humanas, mas plenamente solidário com elas. A tentação não está em comer, mas em usar o poder em benefício próprio, colocando a própria necessidade acima da missão. A resposta de Jesus aponta para um horizonte mais amplo: “Nem só de pão vive o ser humano, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus.” O pão é necessário, mas a vida não se reduz ao imediato, ao material, ao urgente. Há uma fome mais profunda, uma sede de sentido, direção e esperança.

A segunda tentação assume uma aparência religiosa. O tentador cita a Escritura e propõe um gesto espetacular. Surge aqui a sedução de instrumentalizar Deus, de transformar a fé em espetáculo, de buscar reconhecimento em vez de fidelidade. Jesus recusa esse caminho: “Não tentarás o Senhor teu Deus.” A fé autêntica não nasce de provas extraordinárias, mas da confiança, da escuta e da perseverança cotidiana. Deus não se impõe pelo espetáculo, mas se revela no amor fiel.

A terceira tentação apresenta-se de modo ainda mais direto: poder, glória, domínio. “Tudo isso te darei…” É a proposta de um caminho aparentemente eficaz, mas incompatível com o projeto do Pai. A escolha é clara: dominar ou servir? Buscar glória ou permanecer fiel? Jesus rejeita a lógica do poder fácil: “Ao Senhor teu Deus adorarás.” O Reino que Jesus inaugura não nasce da dominação, mas da entrega, não se sustenta na força, mas no amor.

Esse Evangelho ilumina profundamente o sentido da Quaresma. Somos também nós conduzidos ao deserto. Não necessariamente a um lugar físico, mas a uma atitude interior. A Quaresma é tempo de silenciar, rever escolhas, identificar tentações, purificar intenções. É oportunidade de confrontar o imediatismo, o egoísmo, a busca de reconhecimento e as seduções que nos afastam do essencial. O deserto nos convida a reencontrar o centro.

Para a catequese, este texto é de uma riqueza extraordinária. Ele permite mostrar que Jesus também foi tentado, que as tentações fazem parte da condição humana e que discernir é escolher à luz de Deus. Nem toda proposta atraente conduz à vida plena. Nem todo caminho fácil é caminho de verdade. A experiência de Jesus ajuda o catequizando a compreender que a fé não elimina os conflitos, mas oferece critérios para enfrentá-los.

Também para nós, catequistas, este Evangelho tem um apelo especial. Entre encontros, planejamentos e atividades, corremos o risco de viver apenas na superfície. A Quaresma nos recorda que não somos apenas transmissores de conteúdos, mas testemunhas, peregrinos, discípulos em constante conversão. Antes de falar de mudança de vida, somos convidados a vivê-la. Antes de ensinar o discernimento, somos chamados a exercê-lo.

O deserto quaresmal não é lugar de vazio, mas de encontro. Ali, longe das distrações, redescobrimos o que realmente sustenta nossa vida. A Palavra de Deus torna-se novamente alimento, luz e direção. A Quaresma, assim, revela-se não como um tempo triste ou pesado, mas como um tempo de graça, de realinhamento interior, de retorno ao essencial.

Que este início de Quaresma nos ajude a escutar com mais atenção, a escolher com mais consciência e a caminhar com mais fidelidade.

Oração

Senhor Jesus,
Tu que foste conduzido ao deserto e permaneceste fiel ao projeto do Pai,
ensina-nos a reconhecer nossas tentações
e a escolher sempre o caminho da vida.

Fortalece nossa fé,
purifica nossas intenções
e sustenta nossa caminhada quaresmal.

Amém.


Ângela Rocha
Catequista



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