Leituras:
Gn
2,7-9.3,1-7
Sl 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)
Rm 5,12-19 ou mais breve 5,12.17-19
Evangelho: Mt 4,1-11
O DESERTO DAS ESCOLHAS
Ao iniciar a Quaresma, a liturgia nos conduz ao deserto com
Jesus. O Evangelho de Mateus (Mt 4,1-11) não apresenta um detalhe secundário da
vida de Cristo, mas um momento profundamente revelador. É o próprio Espírito
quem conduz Jesus ao deserto. Não se trata de fuga, castigo ou isolamento
estéril. Na tradição bíblica, o deserto é lugar de silêncio, de verdade e de
discernimento. É o espaço onde cessam os ruídos e emergem as perguntas
essenciais.
Antes de iniciar sua missão pública, Jesus passa pelo
deserto. Ali, confronta-se com tentações que não devem ser entendidas como um
episódio folclórico ou distante da experiência humana. Elas revelam escolhas
fundamentais, tensões reais, dilemas que atravessam também a nossa vida. O
deserto expõe o coração, revela intenções, purifica motivações.
A primeira tentação toca uma dimensão básica da existência: a fome. “Se
és Filho de Deus, transforma estas pedras em pão.” Jesus sente fome, e isso
é importante. O Evangelho não nos mostra um Jesus imune às necessidades
humanas, mas plenamente solidário com elas. A tentação não está em comer, mas
em usar o poder em benefício próprio, colocando a própria necessidade acima da
missão. A resposta de Jesus aponta para um horizonte mais amplo: “Nem só de
pão vive o ser humano, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus.” O pão
é necessário, mas a vida não se reduz ao imediato, ao material, ao urgente. Há
uma fome mais profunda, uma sede de sentido, direção e esperança.
A segunda tentação assume uma aparência religiosa. O tentador cita a Escritura
e propõe um gesto espetacular. Surge aqui a sedução de instrumentalizar Deus, de
transformar a fé em espetáculo, de buscar reconhecimento em vez de
fidelidade. Jesus recusa esse caminho: “Não tentarás o Senhor teu Deus.”
A fé autêntica não nasce de provas extraordinárias, mas da confiança, da escuta
e da perseverança cotidiana. Deus não se impõe pelo espetáculo, mas se revela
no amor fiel.
A terceira tentação apresenta-se de modo ainda mais direto: poder, glória,
domínio. “Tudo isso te darei…” É a proposta de um caminho
aparentemente eficaz, mas incompatível com o projeto do Pai. A escolha é clara:
dominar ou servir? Buscar glória ou permanecer fiel? Jesus rejeita a lógica do
poder fácil: “Ao Senhor teu Deus adorarás.” O Reino que Jesus inaugura
não nasce da dominação, mas da entrega, não se sustenta na força, mas no amor.
Esse Evangelho ilumina profundamente o sentido da Quaresma.
Somos também nós conduzidos ao deserto. Não necessariamente a um lugar físico,
mas a uma atitude interior. A Quaresma é tempo de silenciar, rever escolhas,
identificar tentações, purificar intenções. É oportunidade de confrontar o
imediatismo, o egoísmo, a busca de reconhecimento e as seduções que nos afastam
do essencial. O deserto nos convida a reencontrar o centro.
Para a catequese, este texto é de uma riqueza extraordinária.
Ele permite mostrar que Jesus também foi tentado, que as tentações fazem parte
da condição humana e que discernir é escolher à luz de Deus. Nem toda proposta
atraente conduz à vida plena. Nem todo caminho fácil é caminho de verdade. A
experiência de Jesus ajuda o catequizando a compreender que a fé não elimina os
conflitos, mas oferece critérios para enfrentá-los.
Também para nós, catequistas, este Evangelho tem um apelo
especial. Entre encontros, planejamentos e atividades, corremos o risco de
viver apenas na superfície. A Quaresma nos recorda que não somos apenas
transmissores de conteúdos, mas testemunhas, peregrinos, discípulos em
constante conversão. Antes de falar de mudança de vida, somos convidados a
vivê-la. Antes de ensinar o discernimento, somos chamados a exercê-lo.
O deserto quaresmal não é lugar de vazio, mas de encontro.
Ali, longe das distrações, redescobrimos o que realmente sustenta nossa vida. A
Palavra de Deus torna-se novamente alimento, luz e direção. A Quaresma, assim,
revela-se não como um tempo triste ou pesado, mas como um tempo de graça, de
realinhamento interior, de retorno ao essencial.
Que este início de Quaresma nos ajude a escutar com mais
atenção, a escolher com mais consciência e a caminhar com mais fidelidade.
Oração
Senhor Jesus,
Tu que foste conduzido ao deserto e permaneceste fiel ao projeto do Pai,
ensina-nos a reconhecer nossas tentações
e a escolher sempre o caminho da vida.
Fortalece nossa fé,
purifica nossas intenções
e sustenta nossa caminhada quaresmal.
Amém.


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