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quinta-feira, 8 de agosto de 2024

A CATEQUESE E A INTERNET: NOVOS CAMINHOS


A internet é um ótimo ambiente também para a vivência da fé.  Ela reduz tempo, encurta espaços, enfim, gera um novo ambiente antropológico e também eclesial. O telefone celular já faz parte da vida de mais de 85% da população brasileira. E isso inclui muitas crianças e jovens. Por isso, proibir o uso do celular pode criar um grande abismo entre a catequese e a vida dos catequizandos.

Sem contar que o celular pode se tornar um instrumento muito rico para exposição de algum tema ou conteúdo. A grande maioria dos smartphones atuais, possui inúmeros recursos que podem ser utilizados: câmeras, gravador de voz, mapas, além de, é claro, o acesso à internet. Estar conectado durante um encontro não necessariamente significa distração e perda de foco, pode ser uma maneira de “pesquisar”, coletar dados, conhecer outras fontes e inteirar-se de assuntos atuais em tempo real. O catequizando acaba se tornando o protagonista do próprio aprendizado/conhecimento.

Há diferenças entre virtual e real? Podemos dizer que não há diferenças porque as redes sociais são fruto da interação humana, faz parte do dia a dia das pessoas. O uso do celular nos encontros de catequese, precisa deixar de ser um “vilão” para tornar-se parte das “ferramentas” de comunicação e interação entre catequizandos e catequista.

A catequese precisa rever sua missão para não se tornar uma vivência fora do tempo, da moda ou de uso, em relação à realidade dos catequizandos, tanto no mundo presencial (off-line) quanto no mundo digital (online), constituído e habitado por seres reais, que interagem e crescem a partir de suas próprias experiências. Em ambas as situações o que se busca é a relação com o outro. Quanto mais próximos, fraternos, solidários, caridosos e respeitosos com os outros nós formos, mais perto de Deus estaremos e isso é possível também no ambiente digital.

“Os catequistas podem contar, hoje, com novos recursos para a educação da fé, oferecidos pelos suportes midiáticos tradicionais (Catecismos, livros, folhetos e áudio visuais e digitais). Os materiais audiovisuais, as produções musicais, cinematográficas e televisivas, os sites, blogs e as redes de relacionamentos, com conteúdo culturais e religiosos, apresentam-se dessa forma, como preciosos recursos para os catequistas e catequizandos”. (DC, nº 73)

 

Os catequistas devem conhecer as ferramentas midiáticas e dar testemunho do bom uso dos meios de comunicação para que eles não substituam a relação interpessoal e não sejam contraditórios à mensagem do Evangelho.

Obviamente, o uso de celular em um encontro de catequese sem nenhuma estratégia ou tipo de controle não é, absolutamente, recomendado. O ideal é que o catequista consiga desenvolver práticas catequéticas que insiram o celular de maneira lúdica e voltada para o estímulo da curiosidade da criança ou jovem. Há momentos e momentos para utilizar dispositivos móveis durante os encontros. E é importante que os catequizandos tenham consciência e respeitem esta determinação.

A cultura do encontro não pode ser substituída, mas pode aliar-se as novas tecnologias. Nada substitui o olhar um para o outro, o abraço, um bom dia, mas mais do que isso é preciso levar o catequizando a ter intimidade e comunhão com Jesus, pois Ele é quem nos leva ao Pai por intermédio do Espirito Santo. Também, no ambiente digital, podemos ajudar na propagação a boa nova.

Algumas dicas podem nos ajudar a explorar este mundo digital:

• Não oferecer respostas prontas, mas provocar discussões, interação e troca de experiências, os jovens vão encontrando as respostas. O catequista é um guia para não haver desvios, mas precisa de compreensão para os resultados nem sempre favoráveis.

• Os adolescentes são impacientes e multitarefa. Por isso é preciso propor ações práticas e diversificadas que os próprios catequizandos podem oferecer ao grupo.

•  Valorizar o que eles valorizam! Neste caso a internet.

•  Nas redes sociais eles costumam prolongar as relações que começam no mundo real. Nunca é demais dizer que a catequese tem que criar laços entre catequistas e catequizandos. E a internet pode fomentar isto.

•  Muitas vezes reclamamos do pouco tempo de catequese que temos por semana com os catequizandos. A internet é uma possibilidade de ampliar este espaço. Um erro comum é tentar transpor a linguagem do mundo real para a internet. A internet tem seu jeito próprio de comunicar e devemos explorar isto. Geralmente é uma linguagem objetiva, curta, audiovisual, lúdica e emotiva.

•  Propor vídeos, frases reflexivas, poesias, músicas, imagens, fóruns de discussões nas redes sociais. Sempre com bom gosto. Achar que colocar uma imagem de Jesus ensanguentado na cruz é catequética pode, pelo contrário, trazer aversão.

 •  Ser presença amiga nas redes. Afastar a tentação de ser fiscal, com posições moralistas, mas, dialogar carinhosamente e questionar certas posturas e opiniões.

•  Pode-se marcar encontros na rede para alguma determinada tarefa ou discussão. Mas cuidado! Se algum catequizando não tiver acesso à internet isso poderá causar sentimento de exclusão. Ver com o grupo como incluir todos e tornar participativo este momento.

•  Muitas vezes na catequese não temos tempo de amarrar tudo que surge nos bate papos. Certos pontos podem ser aprofundados com o grupo pela internet. Ou mesmo propor que façam vídeos com conclusões dos encontros e postem para que todos vejam.

•  Criar uma página do grupo. Onde eles postem livremente ou sob orientação do catequista diversas coisas que sintonizem com a motivação do grupo. Pode-se inclusive, através desta página, começar parte do tema do encontro.

•  Ajudar o jovem crismando a ter senso crítico, principalmente em relação aos conteúdos que encontram na rede. Estes conteúdos podem inclusive ser fonte de discussão na catequese se certas coisas que aparecem na rede estão de acordo com a mensagem cristã.

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segunda-feira, 16 de março de 2020

CELULAR: ALIADO OU INIMIGO DA CATEQUESE?



Para começar o assunto, gostaria de lembrar a mensagem de Bento XVI, pelo Dia Mundial das Comunicações Sociais (2009). A mensagem fala sobre as relações na internet e leva a uma reflexão sobre a amizade, esse desejo instintivo do ser humano de relacionar-se uns com os outros em busca de amor e reconhecimento, e de como esse conceito de “AMIGO” tem sido tratado nos meios digitais.

A exortação do Papa faz-nos lembrar as profundas mudanças que vem acontecendo nos modelos de comunicação e nas relações humanas, principalmente nos chamados novos “media” (mídias ou meios de comunicação), essa multiplicidade de vias por meio das quais é possível enviar imagens, sons e textos, instantaneamente, a qualquer lugar do planeta. Esses meios de comunicação “Verdadeiro dom para a humanidade”, lembra o Papa, devem ser postos a serviço de todos, principalmente dos mais necessitados e dos excluídos.

Essa mensagem fala aos jovens que cresceram em contato com esses novos meios de comunicação e que praticamente “vivem” nesse mundo virtual. A eles é atribuída a responsabilidade de utilizar esse enorme potencial tecnológico a serviço da compreensão e da solidariedade humana. A popularidade alcançada por esses novos meios atende ao anseio do ser humano de buscar relações de amizade inerentes aos seres humanos: “Quando sentimos a necessidade de nos aproximar da outras pessoas, quando queremos conhecê-las melhor e dar-nos a conhecer, estamos a responder à vocação de Deus – uma vocação que está gravada na nossa natureza de seres criado á imagem e semelhança de Deus, o deus da comunicação e da comunhão.”, diz Bento XVI.

Claro que é importante lembrar que, apesar dessas novas tecnologias favorecerem os contatos, a criação de novas amizades e o acesso a informação, nada substitui as verdadeiras relações de contato, de presença. Assim, é preciso cuidar para que a amizade, “uma das maiores riquezas de que pode dispor o ser humano”, não seja banalizada pelos meios digitais em seu conceito mais fundamental que é a estreita relação entre dois seres humanos, marcada, antes de tudo, pela afinidade de diálogo e pelo “encorajamento recíproco do desenvolvimento de dons e talentos e sua colocação a serviço da comunidade.”.

É através das amizades e dos diversos relacionamentos que se cresce e se desenvolve como ser humano. No entanto, é preciso verificar se essa necessidade de sustentar essas amizades online não está sendo trocada pelo convívio com a família e com aqueles que fazem parte do nosso dia-a-dia na escola, no trabalho e nos momentos de lazer. A mensagem do Papa emérito alerta que, quando esse desejo de ligação virtual se torna obsessivo, a pessoa se isola, não tem mais interação social, repouso, momentos de silêncio e reflexão, tão necessários ao desenvolvimento humano.

No final, a mensagem pede, dirigindo-se principalmente aos jovens, que levem ao mundo digital seu testemunho de fé e de valores que permeiam a vida de cristão. Pela facilidade e espontaneidade com que os jovens navegam nesse “continente digital”, eles são exortados a levar aos povos que necessitam a Boa Nova de Jesus, “Sede os seus arautos!”, finaliza o Papa.



Sobre essa mensagem cabe a nós, catequistas, uma reflexão: A maioria das crianças e jovens, com as quais trabalhamos a evangelização, cresceram nesse ambiente de evolução das novas tecnologias de comunicação. Encontramos aí duas realidades: a de um mundo urbanizado e elitizado onde todas as crianças possuem, no mínimo, acesso a Internet e muitas vezes o seu próprio computador; e o mundo daqueles que vivem nos meios rurais e nas periferias das cidades em comunidades extremamente pobres, sem qualquer acesso a esses novos meios digitais. Como trabalhar essas duas realidades? Como levar aos excluídos essas novas tecnologias? Como nos prepararmos para falar a mesma linguagem dos nossos catequizandos internautas?

Aos catequistas que fazem parte de comunidades onde crianças e jovens sofrem essa carência, cabe a sensibilização junto às suas lideranças para que se preocupem com essa realidade, sob pena de perder o bonde da história. Não é mais viável nessa grande “comunidade digital” em que vivemos que jovens cresçam alheios a essas novas tecnologias. Ou pior ainda, com conhecimento dela, mas sem possibilidade de desfrutá-la. É bom lembrar também da enorme contribuição que esses novos meios podem trazer ao projeto de evangelização da comunidade.

Àqueles que trabalham a realidade urbana, “digitalizada”, fica a responsabilidade de tratar esses novos meios, como veículo de propagação da Boa Nova. A acessibilidade que essas crianças têm aos novos meios de comunicação tem que ser aproveitada no sentido de que, além das novas amizades virtuais que são conquistadas, se trabalhe também a cultura da propagação da nossa fé e de nossos valores.

O catequista, em qualquer das duas situações, não pode, de maneira nenhuma, estar à parte dessa nova realidade. O cyberspace está aí. Essa nova arena digital é agora nosso espaço de luta. Não dá para tratar o celular como vilão. Ele praticamente é uma parte “acessória” da vida de muitos jovens e cada vez mais, também das crianças, que são “monitoradas” pelos pais, via whatsapp.

E como fica o encontro de catequese com o celular na mão de todos?

Primeiro cada catequista precisa fazer seu juízo de valor, mas, eu não faria "comparação" do tipo "Celular e Bíblia qual é o mais importante?" nos dias de hoje. Nas turmas de crisma, principalmente, o uso do celular é muito produtivo. O celular veio para ficar e não vai ser preterido pelos adolescentes nem agora e nem no futuro. Provavelmente teremos aparelhamentos tecnológicos cada vez mais dinâmicos. A Bíblia em si, como LIVRO, papel escrito, é só um "veículo" para levar a Palavra de Deus, assim como é o CELULAR, o Tablet, etc... Hoje se nossos catequizandos tem celular, eles TÊM A BÍBLIA, basta ensiná-los a utilizar um aplicativo. Acredito que é muito mais produtivo usarmos a Bíblia no celular dos nossos jovens - que vão ver que ele também serve para isso - do que fazer a "crítica" de que ele dá mais atenção ao celular do que a Bíblia. Pensemos: nunca foi tão fácil ler a Bíblia como agora que temos celular!

Nossa Igreja, por meio das mensagens do Papa sobre as comunicações, tem chamado a atenção para as novas mídias e meios de comunicação. É erro nosso achar que as novas mídias são só "ferramentas", elas são na verdade um "mundo" onde vivem muitas pessoas, a maior parcela, jovens. Se não adentrarmos este "mundo" e não nos apropriarmos também destes recursos, corremos o risco de ficar definitivamente de fora da vida das gerações mais jovens. E o celular é usado sobretudo para "comunicação" e acesso à internet, e quem está do outro lado dos "fios", conexões, cabos e fibras óticas, também são "pessoas". É uma nova forma de se encontrar além do meio físico. O celular realmente não substitui o contato humano, físico, mas ele acrescenta muito aos relacionamentos em si.

Penso que é uma das tarefas do catequista, também orientar o uso das novas mídias e a presença amorosa dos cristãos na rede, combatendo, principalmente, tanta violência e mau uso da tecnologia. Obviamente é necessário um certo controle por parte do catequista para saber, realmente, o que o catequizando faz no celular. E a melhor forma de fazer isso é “incorporar” o celular ao encontro em alguns momentos: Leitura da Bíblia quando a criança esqueceu, pesquisa de temas, imagens, lugares. Sem falar na própria comunicação com o catequizado que hoje tem um meio direto de ser “encontrado”. E faça sempre do seu encontro, momentos únicos e interessantes. Vai ver que o interesse no celular vai se tornar bem menor.

Um outro ponto é que as famílias podem ser incluídas na catequese dos filhos, criando-se lista de contatos e grupos para este fim. Já pensou se depois de cada encontro, você enviar uma mensagem ao grupo de Whats dos pais contando o que foi visto no encontro? Incentivá-los a pedir aos filhos que contem como foi o encontro? Fora tantos avisos que são necessários no cotidiano da catequese.

Não trate o celular como inimigo e nem como se fosse só uma “ferramenta” de comunicação. Por meio dele, crianças, jovens e adolescentes e até adultos, adentram a um “mundo” que não se alcança por meio físico. Um mundo repleto de pessoas que buscam contato com as outras, buscam “presença” e “pertença” que muitas vezes não tem na vida comum. Trate como aliado. E saiba fazer da sua presença na vida dos seus catequizandos um diferencial, para que eles valorizem também os relacionamentos que tem no meio físico. Muitas vezes, a procura de contato, de ser visto e valorizado no meio digital é uma carência que se tem nos meios físicos.


Ângela Rocha
Catequistas em formação

Fonte de referências:
Mensagem do Papa Bento XVI para 0 43º Dia Mundial das Comunicações Sociais, CNBB, 2009.