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domingo, 7 de junho de 2020

COMO ESCREVER UMA EXEGESE BÍBLICA


A palavra exegese vem do grego e significa literalmente ‘tirar fora’ (ex-ago). Concretamente tem o sentido de extrair o significado, interpretar o texto. Na bíblia, a exegese é o estudo da interpretação gramatical e sistemática das Escrituras Sagradas.

Uma exegese é um ensaio focado em determinada passagem bíblica. Uma boa exegese apresenta uma lógica, pensamento crítico, e fontes secundárias que aprofundem a compreensão do texto. Pode ser que você precise escrever uma exegese na disciplina de estudo bíblico ou apenas para aguçar seu entendimento das Sagradas Escrituras. O primeiro passo é ler a passagem e tomar notas, de maneira a preparar um esboço. Depois, agregue sua interpretação às pesquisas feitas. Por último, faça uma revisão e certifique-se de ter dado o seu melhor.

COMEÇANDO...

1. Leia a passagem bíblica em voz alta. 

Leia a passagem em voz alta para si mesmo algumas vezes, prestando atenção em cada palavra. 
Confira diferentes traduções do mesmo texto, a fim de obter um senso geral do texto. Você escolherá uma delas para basear sua exegese, mas ao olhar outras traduções, você só tem a ganhar.

2. Tome notas a partir da leitura. 

Conforme lê a passagem, anote quaisquer palavras que não conheça, e procure-as em dicionários e glossários bíblicos, procurando compreender o uso delas no contexto. 
Leve em conta a gramática e a sintaxe da passagem. Observe a estrutura das frases, os tempos verbais, e a relação de coesão e coerência entre todos os elementos do texto. 
Circule, por exemplo, palavras como "semear", "raiz" e "solo", caso entenda que elas são importantes. 
Talvez você perceba que a passagem termina com a expressão "Quem tem ouvidos, ouça", que costuma aparecer no fim de parábolas bíblicas.


 3. Leia textos externos relacionados à passagem. 

       Informe-se sobre o assunto também com fontes secundárias, tais como artigos teológicos e comentários em jornais e livros. Use como um apoio um dicionário bíblico, vá a uma livraria religiosa e adquira livros, leia periódicos online. Você provavelmente encontrará muito material sobre o assunto. 
        Procure por artigos, ensaios e comentários sobre o gênero literário da passagem, assim como temas e ideias que a permeiem.

4. Faça um esboço de seu ensaio. 

Todo ensaio precisa ter introdução, desenvolvimento e conclusão. Antes de começar a composição, faça um esboço de cinco partes. Um exemplo seria:
Parte 1: Introdução. 
Parte 2: Notas a partir da leitura. 
Parte 3: Interpretação do texto. 
Parte 4: Conclusão. 
Parte 5: Bibliografia.

ESCREVENDO...

5. Faça uma introdução da passagem bíblica. 

Transcreva a passagem inteira e coloque-a em contexto, sem se esquecer de especificar a parte da Bíblia em que ela aparece. 
Mencione o gênero literário. Pode ser que a passagem seja, por exemplo, um hino, como em Cantares de Salomão, ou uma parábola, como as de Jesus.

6. Inclua uma declaração de tese. 

A declaração servirá como um guia para a leitura da exegese, e o objetivo dela é resumir os principais argumentos do ensaio em uma única frase. Coloque-a no final da introdução do texto. 
Eis um exemplo de declaração de tese: “Nessa passagem bíblica, aprendemos sobre o valor das raízes e da tradição para um crescimento saudável interior e exterior.”

7. Comente os versículos da passagem um a um. 

Faça uma leitura atenta da passagem, focando na gramática e na sintaxe, e discorra sobre a linguagem e a estrutura dos componentes do texto. Observe e apresente como o gênero literário da passagem influencia no significado dela. 
Por exemplo, se estiver escrevendo sobre Mateus 13, 1-8, comente a escolha de palavras e a fraseologia da parábola. Mencione como a passagem usa a natureza como uma metáfora para o crescimento pessoal.

8. Interprete a passagem como um todo. 

Reflita sobre os temas sobressalientes no texto, levando em consideração os ensinamentos bíblicos comuns. Discuta o significado teológico da passagem, e pergunte a si mesmo: “Como posso aplicar esse ensinamento em minha vida? Que diz essa passagem sobre minha fé?” 
Se quiser, inclua no ensaio uma reflexão que abarque um contexto maior, incluindo o significado histórico e social do texto. Leia e cite pensadores, teólogos e acadêmicos.

9. Agregue citações à exegese. 

        Use citações diretas para fortalecer seus argumentos. Procure fontes de boa reputação e cite-as para agregar valor ao ensaio. Se estiver escrevendo a análise para uma aula, pergunte ao professor qual estilo de citação deve ser utilizado.

10. Faça as declarações finais e conclua o ensaio. 

Para terminar, teça comentários sobre a passagem como um tudo, faça as considerações finais e repita sua declaração de tese. Agora não é hora de agregar novas ideias – e sim de concluir o que já foi apresentado.

11. Faça uma bibliografia. 

A exegese precisa ter uma bibliografia contendo todas as fontes consultadas. A formatação precisa conter o nome do autor e o título do artigo, periódico ou livro, assim como a data de publicação.
O professor talvez especifique um tipo específico de formatação da bibliografia.

APERFEIÇOANDO...

12. Faça uma revisão do ensaio, conferindo a ortografia, a gramática e a pontuação.

Leia o texto em voz alta para detectar possíveis erros, corrija erros de pontuação e observe atentamente a ortografia e a gramática. Caso contrário, a exegese pode perder pontos de confiança e parecer ter sido feita às pressas.
Leia a exegese de trás para frente a fim de encontrar erros ortográficos. Esse método funciona, pois, você terá que prestar atenção em cada palavra individualmente.

13. Peça a opinião de terceiros. 

Antes de entregar o texto, mostre-o para amigos, colegas de classe e professores. Indague se a exegese está clara, organizada e detalhada o suficiente. Esteja aberto a críticas construtivas.

14. Revise a exegese em relação à clareza e o tamanho. 

Depois de ouvir a opinião de pessoas confiáveis, faça uma revisão final. Observe se as frases estão coesas entre si, e se o raciocínio está fácil de acompanhar. Cubra todos os aspectos, gerais e específicos, da passagem.
A revisão também deve garantir que o artigo não esteja muito longo. Fique atento à contagem de palavras, para não exceder o limite estabelecido pelo professor.


FONTES DE PESQUISA:

STUART, Douglas; FEE, Gordon D. Manual de exegese bíblica: Antigo e Novo Testamentos. São Paulo: Vida Nova, 2008.

GORMAN. Michael. Introdução à exegese bíblica. Trad. Wilson de Almeida. São Paulo: Thomas Nelson Brasil,  2017.

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE



A Solenidade que hoje celebramos não é um convite a decifrar o mistério que se esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família.

A Solenidade da Santíssima Trindade, Deus que é comunidade de amor. Deixemo-nos envolver por este mistério e manifestemos ao Senhor a nossa fé, a qual é alimentada por sua graça eficaz. A Solenidade que hoje celebramos não é um convite a decifrar o mistério que se esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.

Na primeira leitura (Ex 34,4b-6.8-9), o Deus da comunhão e da aliança, apostado em estabelecer laços familiares com o homem, auto-apresenta-Se: Ele é clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia. A primeira leitura revela que Deus é Pai misericordioso, paciente, não age com precipitação, sabe esperar, dá sempre um prazo esperançoso a cada um de nós para nossa conversão, é rico em bondade, nunca se irrita conosco, tolera nossas misérias, dá coragem e força para enfrentarmos os desafios do dia a dia e jamais não abandona, por pior que seja o pecado que tenhamos cometido, está sempre disposto a perdoar diante de um arrependimento sincero. Deus é sempre fiel e trata-nos como filhas e filhos muito amados.

Na segunda leitura (2Cor 13,11-13), São Paulo expressa - através da fórmula litúrgica “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco” - a realidade de um Deus que é comunhão, que é família e que pretende atrair os homens para essa dinâmica de amor. A segunda leitura continua revelando quão amoroso é nosso Deus. Quando o ser humano dispensou Deus de sua vida pensando que poderia subsistir sozinho, distanciou-se dele, fugiu de sua intimidade, rejeitou sua amizade, tornou-se indiferente a Deus e, como consequência, perdeu-se totalmente, vendo-se sem esperança de salvação. Mas Deus mostrou que sempre esteve próximo e, para resgatar o homem, saiu ao seu encontro por Jesus Cristo, seu Filho, para lhe oferecer amizade, amor, comunhão e salvação.

No Evangelho(Jo 3,16-18), João convida-nos a contemplar um Deus cujo amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao mundo o seu Filho único; e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua vida um dom total, até à morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida definitiva. Nesta fantástica história de amor (que vai até ao dom da vida do Filho único e amado), plasma-se a grandeza do coração de Deus.

O Evangelho revela-nos outra verdade inimaginável: o amor de Deus é também uma pessoa, o Espírito Santo que nos restaura e santifica para podermos viver eternamente com Deus. Deus nunca fechou e jamais fechará as portas de seu coração, de sua amizade, mas respeita nossa opção; ele não obriga nenhuma de seus filhos a voltar para casa; viver eternamente com Ele ou, então, desterrados fora da nossa verdadeira e definitiva casa, depende de nós. Sabemos quem é nosso Deus, mas não basta um conhecimento teórico, não basta saber coisas sobre Ele e falar dele; isso ainda não é fé. É necessário entrar em contato com Deus, conversar com Ele pela oração; ter abertura para Deus, escutá-lo, “encharcar-se” com sua Palavra nas Sagradas Escrituras e responder a Ele amando concretamente as pessoas, começando com aquelas com as quais convivemos, porque Deus as ama e somos todos seus filhos e filhas.

Dom Eurico dos Santos Veloso - Arcebispo Emérito de Juiz de Fora, MG.

RACISMO NÃO!


“A catequese tem também a missão de superar o racismo, a discriminação de gênero e de posição econômica e social, colaborando para a promoção da solidariedade”.

(DNC - Diretório Nacional de Catequese, nº 62)



sábado, 6 de junho de 2020

QUE DESAFIO É ESSE? INCULTURAÇÃO? O QUE É ISSO?

D. Wilmar Santin - Itaituba PA.

“Formar catequistas como comunicadores de experiências de fé comprometidos com o Senhor e sua Igreja com uma linguagem inculturada que seja fiel à mensagem do Evangelho e compreensível, mobilizadora e relevante para as pessoas do mundo de hoje, na realidade pós-moderna, urbana e plural”.

(DNC 14b).

Essa foi uma pergunta que uma das minhas “alunas” do curso “online” que estamos fazendo sobre o DNC me perguntou: “O que é inculturação?”.

Pensei: “Vou responder, perguntando!”

Na sequência lancei o desafio para o grupo todo, e, mais uma vez, outra catequista me fez a mesma pergunta: “O que é linguagem inculturada?”.

Quando pedi a ela que olhasse no Glossário no final do documento, o que significa inculturação, senti pela resposta: “Obrigada, bjs.”, que ela não gostou nada! Mas, vamos lá, vamos a definição que no final do texto eu explico por que fui tão “rabugenta” ....

Inculturaçãoé a passagem de valores do Evangelho para dentro de uma cultura, enriquecendo-a ou purificando-a, se necessário, e sem opressão. (DNC, pg. 194).

Isso explica “linguagem inculturada”? Um pouco, talvez bem pouco...

Vamos a outra definição, desta vez, do Sínodo de 1985, que celebrava o vigésimo aniversário do encerramento do concílio Vaticano II, que assim definiu a inculturação:

Uma íntima transformação dos autênticos valores culturais mediante a sua integração no cristianismo e a encarnação do cristianismo nas várias culturas humanas”. (Vaticano, 1985).

Vamos a outra definição, desta vez do nosso Santo Papa João Paulo II:

 “A inculturação é a encarnação do Evangelho nas culturas autóctones e, simultaneamente, a introdução destas culturas na vida da Igreja”. (JOÃO PAULO II, 1985).

Ainda mais completa é a definição do documento Fé e inculturação (1988), preparado pela Comissão Teológica Internacional e aprovado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI):

O processo de inculturação pode ser definido como o esforço da Igreja para fazer penetrar da mensagem de Cristo um determinado meio sociocultural, convidando-o a crescer segundo os seus próprios valores, desde que estes sejam conciliáveis com o Evangelho. O termo inculturação inclui a ideia de crescimento e de enriquecimento mútuo das pessoas e dos grupos, pelo fato do encontro do Evangelho com um meio social.


Agora chega de “definições” acadêmicas! Vamos conhecer o que nossos catequistas do curso: DNC – Diretório Nacional de Catequese: Conheça mais! sabem de inculturação:

Adriana Bragion: Linguagem inculturada seria uma linguagem de acordo coma realidade vivida. Ou seja, uma linguagem voltada de igual características do catequista com seus Catequizando. Um entendendo o outro de maneira simples. É o que entendo, não sei se fui clara. Um e outro falando a mesma língua. Seria como fez Jesus usando de parábolas para explicar sua Palavra. Usar daquilo que está no dia-a-dia do catequizando e fazê-lo assim entender do Amor.

Andreia Duarte ️:  Acredito que para que a experiência da fé seja algo marcante na vida das pessoas é necessário que ela esteja de acordo com a cultura desse povo, falando na sua linguagem, participando dos costumes, assim ela será aceita com maiores chances de se "enraizar" no dia a dia deles. Como os padres Palotinos da minha paróquia que tem uma missão em Moçambique. Nas fotos, os vemos nas festas, as celebrações possuem traços da cultura deles e até mesmo as roupas fazem parte da evangelização. As roupas que os moçambicanos usam. Me parece que a Fé inculturada é a fé "misturada" na cultura e no dia a dia do povo.

Clarice Amorim Garcia: Inculturação é a obtenção gradativa dos preceitos, dos hábitos, das normas e das características de uma cultura ou de um grupo por outra (cultura ou pessoa). Este processo necessita de um estudo meticuloso da área (comunidade) em que vou realizar minha missão de evangelização. Não basta saber os Evangelhos, preciso saber quase tudo, senão tudo, sobre a comunidade local. Não posso chegar “me achando”, preciso primeiro conhecê-los.

Vanessa AndradeAdaptar a linguagem da Igreja para a cultura vivida em determinada comunidade, região, povo. Facilitando sua absorção pelos ouvintes (catequizandos) de uma forma mais simples, mas sempre no contexto da fé cristã.

Valéria Freitas Lopes: Inculturação é inserir-se dentro de um grupo, já com seus hábitos e costumes, algo que faça crescer ainda mais em conhecimentos. No nosso caso a utilização de meios que prenda a atenção dos catequizandos.

Gisiele Simão: É viver a catequese conforme a vida da comunidade, de acordo como aprendemos no Evangelho. De maneira simples, sólida e eficaz.

Andrea Saggioro Barbosa: Inculturar é passar os valores do Evangelho para os dias de hoje, mostrar que desde sempre, o Evangelho nos ensina, nos mostra o caminho a seguir e como deveríamos agir, mesmo em outros tempos. Os tempos são novos, mas os princípios são os mesmos! O que podemos fazer é encaixar, trazer a palavra do Evangelho para os tempos atuais!

Suzana Lossurdo: Vou fazer uma colocação meio estranha: Seria fazer o contrário do que os jesuítas fizeram com os índios na tentativa de catequizá-los? Conforme diz no DNC 222: "(...) para isso é preciso conhecer melhor a cultura e entender os costumes do povo brasileiro, a fim de apresentar o Evangelho de modo mais familiar e eficiente".

Clarice Amorim Garcia: Uau, Suzana! Você puxou um fio de um novelo que vai longe! Depois do 222, vem o DNC 223: “Jesus, um judeu, viveu numa determinada :cultura e pregou a Boa-Nova de dentro daquela cultura. De fato, a verdadeira Inculturação não é acomodação ou apenas inserção; é levar o Evangelho como fermento. Essa é a "inculturação" original da Palavra de Deus e modelo de referência para a ação catequética”.

Suzana Lossurdo: Clarice, por isso precisamos entender onde estamos, com quem estamos, para que haja comunicação, pois é através dela que passamos as informações. Em um encontro, para explicar que os Sacramentos são sinais de Deus, aprendi algumas saudações em libra para ensinar e para explicar o assunto, ao mesmo tempo, ensinei a eles uma forma de saudar alguém com essa deficiência. Não é esse o assunto, mas se houvesse alguém assim, para ajudá-lo a entender, teríamos que ou encontrar alguém que fale em libras ou aprender alguma coisa para não se sentir sozinho.

Wagner Campos Galeto: Usar o esporte de várias maneiras, usar a Prática, trazer o princípio cristão dentro da regra do esporte, ou quem é expectador do esporte, levar o catequizando a ter a mesma atitude na igreja e na plateia do jogo.

Nisia Angelini: Se eu estiver errada me corrijam, um exemplo disso seria o Sínodo da Amazônia, causou muita controvérsia justamente porque sabemos pouco dos documentos de nossa Igreja e sobre o que é catequese e inculturação.

Silvana Domingos da Silva: Seria primeiro conhecer a realidade em que se vive, onde mora a pessoa a ser evangelizada (primeiro o catequista), para então ser inserido no ambiente, evangelizar.

Clarice Amorim Garcia: Bingo Silvana! O Observador precisa conhecer o observado, para se fazer entender. Em vez de dar exemplo Ser o Exemplo.

Maria Inês Seridorio: A catequese, assim como Deus nos dá o livre arbítrio, deve ser sempre um testemunho de fé, nada imposto, mas sim proposto. Assim como Jesus nos apresenta o Reino de Deus como a possibilidade de um mundo melhor, nosso desafio é levar a Palavra, respeitando e principalmente conhecendo a realidade do catequizando, como algo que irá transformar, modificar a sua vida e seu modo de ser. Não acho que a Palavra deva ser adaptada, devemos ser fiéis ao que Jesus falou e ensinou, mas sempre numa linguagem acessível e presente.

Anette Alberti: Aprender a falar como Jesus. Ele falava com mestres, doutores da lei. Mas também falava com pescadores, com o povo sofrido. Falava aos ricos e pobres. Falava aos pecadores e aos conservadores. Mas sua Palavra era sempre fonte de sabedoria. Falava a todos, em todos os lugares e em qualquer situação. Esse é nosso grande desafio.

Vivi Martins: É a passagem de valores do Evangelho para dentro de uma cultura, enriquecendo, purificando se necessário, mas sem opressão.

Fabiana Vendrusculo: Inculturação eu acredito que seja que cada catequistas tem que adequar a cultura, hábitos da sua região sem perder o foco do Evangelho na sua evangelização.

Juci Dias: Comunicar aquilo que viveu é um passo muitíssimo importante e a partir daí, pregar o evangelho na língua da comunidade, vivenciando o Evangelho na realidade da comunidade.

Florismar Roque Silva:  É uma adaptação, transformação da evangelização da igreja de acordo com a realidade de sua região, comunidade.

Gorete Aquino: Formar catequistas como comunicadores de experiências de fé comprometidos com o Senhor e sua Igreja, mesmo sendo tarefa nada fácil, temos que tentar. Não digo mudar, mas conscientizar nossos catequistas da importância do comprometimento, não só com seus encontros, mas, sobretudo, com a catequese como um todo, interagindo nas atividades propostas, buscando melhorias e se fazendo presente na vida da comunidade eclesial.

Ana Claudia: Hum... seria o que ocorre nas comunidades. Cada uma tem sua maneira de agir, de viver, de se relacionar, de aceitar o Evangelho e o catequista deve se atentar aos sinais e, com amor, paciência, zelo, carinho, realizar a evangelização, fazendo parte do todo.

Adriana Pereira: Entendo que a linguagem inculturada deve harmonizar com a mensagem do Evangelho. Anunciar de forma fiel ao Evangelho e levando em conta todos os aspectos da realidade das comunidades locais. É um grande desafio, uma vez que não podemos nos desviar diante de tantas mensagens mundanas.


Miracy Mota QueirozPassagem dos valores do evangelho para o meio cultural enriquecendo se necessário na vida da Igreja, ou seja, de acordo com a realidade e vivências.

Viram que riqueza nessas respostas? Pois é. Essa é uma metodologia que uso bastante nos grupos de estudos: a busca pelo conhecimento já interiorizado, sem respostas prontas, pré-definidas. Não fui “rabugenta” não! Sabia que ia sair muita coisa boa!

* * * *

A partir daqui, fazemos um apanhado geral do que a Igreja conceitua e pensa sobre a Inculturação, usando citações de documentos do Concílio Vaticano II e também de João Paulo II, que muito contribuiu em seu pontificado para uma visão eclesial da cultura dos povos, além de outros documentos. É uma leitura longa, mas, vale a pena!



IGREJA E INCULTURAÇÃO

Nossa Igreja, ao pensar na inculturação do Evangelho junto aos diversos povos e culturas, tem uma enorme riqueza de conteúdo. Desde o Concílio Vaticano II, essa palavra faz parte do nosso cotidiano catequético. Isso porque, diz respeito ao mais primário do ser humano: crescer. E é pela cultura que o ser humano se desenvolve.

É próprio da pessoa humana não ter acesso verdadeiro e pleno à humanidade, senão pela cultura, isto é, cultivando os bens e valores da natureza... A palavra cultura, no sentido lato, designa tudo aquilo com que o homem apura e desenvolve os inúmeros dotes do corpo e do espírito”. (GS, 53)

Como diz o documento de 1985: “(...) o homem cultiva-se — aqui reside a finalidade primeira da cultura —, mas vai fazê-lo graças às obras da cultura e graças a uma memória cultural. A cultura designa ainda o meio no qual, e graças ao qual, as pessoas podem crescer”.

E é natural que nesse crescimento se busque o transcendente, o homem é um ser naturalmente religioso, a orientação para a busca de Deus está inscrita no mais profundo do seu ser. A religião é parte integrante da cultura, onde nasce, se radica e desenvolve.

O próprio Jesus Cristo aceitou, pela sua encarnação, as condições sociais e culturais dos homens com quem conviveu:

O Filho de Deus quis ser um judeu de Nazaré, na Galileia, falando aramaico, obedecendo a pais piedosos de Israel, acompanhando-os ao Templo de Jerusalém, onde o encontraram «sentado no meio dos doutores, escutando-os e interrogando-os. Jesus cresceu entre os costumes e instituições da Palestina do primeiro século e iniciou-se nos ofícios próprios da sua época, observando o comportamento dos pescadores, dos camponeses e dos comerciantes. As cenas e as paisagens que alimentaram a imaginação do futuro rabi são as de um determinado país e de uma determinada época.

Jesus se fez homem e assumiu, de certa maneira, uma raça, um país, uma época:

Porque n'Ele a natureza humana foi assumida, não absorvida, por isso mesmo esta natureza foi elevada, também em nós, a uma dignidade sem par. Com efeito, pela Sua Encarnação, o Filho de Deus uniu-se de algum modo a todo o homem. (Vat. II, 1965).

Jesus Cristo não viria ao nosso encontro se não assumisse a cultura de um tempo:

(...) a verdade da nossa humanidade concreta, se não nos atingisse na diversidade e na complementaridade das nossas culturas. Porque são as culturas: língua, história, atitude perante a vida, instituições diversas, que, para o melhor ou para o pior, nos acolhem na vida, nos formam, nos acompanham e nos prolongam. Se a totalidade do cosmos é, misteriosamente, o lugar da graça e do pecado, como o não serão também as nossas culturas que são os frutos e os germes da atividade propriamente humana?

Vemos em Atos dos Apóstolos, que para que a Boa Nova seja anunciada às nações, o Espírito Santo suscita um novo discernimento em Pedro e na Comunidade de Jerusalém: a fé em Cristo não exige dos novos crentes o abandono da sua cultura para adotar a Lei do povo judeu; todos os povos são chamados a beneficiar da Promessa e a partilhar da herança confiada para eles ao Povo da Aliança. Portanto, «nada para além do necessário», segundo a decisão da assembleia apostólica. (Ver At 15, 28ss). Em uma de suas catequeses sobre Atos dos Apóstolos, Papa Francisco o usa a missão de Paulo como exemplo para falar de inculturação:


Paulo escolhe o olhar que o leva a abrir um caminho entre o evangelho e o mundo pagão. No coração de uma das instituições mais famosas do mundo antigo, o Areópago, ele realiza um extraordinário exemplo de inculturação da mensagem de fé: ele anuncia Jesus Cristo aos adoradores de ídolos, e não o faz atacando-os, mas se tornando “pontífice, construtor de pontes. (Homilia em Santa Marta, 8 de maio de 2013).


Já no nosso tempo vemos que a inculturação do Evangelho nas sociedades modernas, exige um esforço nosso no sentido de termos uma atitude de acolhimento e de discernimento crítico, a capacidade de captar os anseios espirituais e as aspirações humanas das novas culturas e aptidão para a análise cultural em vista de um encontro efetivo com o mundo moderno.

Nossa Igreja, por meios de seus agentes precisa mobilizar-se para esta tarefa tão complexa que é a inculturação do Evangelho num mundo tão plural. Nesta linha, João Paulo II considerava que o diálogo da Igreja com as culturas modernas é um domínio vital onde se joga o destino do mundo no terceiro milênio (1982).

Paulo VI pediu na sua encíclica em 1975 que se observasse os documentos conciliares:

Para se evangelizar — não de forma decorativa, como verniz superficial, mas de modo vital, em profundidade, e até às raízes — a cultura e as culturas do homem, no sentido rico e amplo que estes termos possuem na  Gaudium et spes: O Reino que o Evangelho anuncia é vivido por homens profundamente ligados a uma cultura; a construção do Reino não pode dispensar os elementos da cultura e das culturas humanas. (EN 19-20)

Dizia João Paulo II, quase como uma previsão do quanto a cultura digital influiria no mundo do século XXI:

No final do século XX. a Igreja deve fazer-se tudo para todos, acolhendo com simpatia as culturas hodiernas. Existem ainda meios e mentalidades, assim como países e regiões inteiras por evangelizar, o que supõe um longo e corajoso processo de inculturação, a fim de que o Evangelho penetre a alma das culturas vivas, respondendo aos seus mais elevados anseios, e as faça crescer até à própria dimensão da fé, da esperança e da caridade cristãs... Por vezes, as culturas só foram atingidas superficialmente; e, de qualquer modo, como se encontram em incessante transformação, exigem uma aproximação renovada... E sempre aparecem novos setores de cultura, com objetivos, métodos e linguagens diversos.

Já na segunda década do século XXI, vemos que a “inculturação” que se pede hoje, é adentrar a um mundo onde vivem grande parte das pessoas, em sua maioria jovens: a internet. Um grande desafio para o catequista que não pode prescindir de “conquistar” este “novo mundo”, se quiser evangelizar na cultura hodierna.

Ângela Rocha

Catequistas em Formação – Curso Online “DNC – Diretório Nacional de catequese: conheça mais

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL. Fé e inculturação. 1988. Disponível em http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_1988_fede-inculturazione_po.html#* . Acesso maio 2020.

JOÃO PAULO II. Carta autografa de fundação do Conselho Pontifício para a Cultura, 20 de Maio de 1982, em la Documentation catholique, 79, p. 604.

JOÃO PAULO II. Discurso aos membros do Conselho Pontifício para a Cultura. 18 de Janeiro de 1983, em La Documentation Catholique 80, p. 147.

JOÃO PAULO II. Encíclica  Slavorum Apostoli. Nº 21. Vaticano, 1985.

PAULO VI.  Evangeli nuntiandi: sobre a evangelização no mundo moderno. Exortação apostólica, 1975.

VATICANO II. Gaudium Spes. Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Nº. 53, 22. 1965.

VATICANO II.  Ad Gentes, Decreto sobre a atividade missionária da Igreja, n. 10. 1965.

VATICANO. Sínodo Extraordinário por ocasião do 20° aniversário do encerramento do Concílio Vaticano II, Relatório final votado pelos Padres, 7 de Dezembro de 1985.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

FALANDO SOBRE O DNC: DIRETÓRIO NACIONAL DE CATEQUESE E OUTROS DOCUMENTOS...


Um resumo sobre os principais documentos da catequese: origem do diretório nacional de catequese.

Talvez, para alguns de vocês, essa conversa seja um tanto "velha", mas, acredito que é bom para reforçar algumas coisas para quem já ouviu falar e esclarecer aqueles que ainda não o conhecem (o DNC - Diretório Nacional de catequese).

Do Concílio Vaticano II - 1961 a 1965 - todo catequista já ouviu falar (Acredito...). Mas, o que foi afinal esse concílio para nossa Igreja? Em linhas gerais este concílio trouxe para a Igreja aquilo que se pode chamar de uma "grande renovação". Muita coisa vinha sendo feita ainda nos moldes do século dezenove. Renovou-se a Liturgia, a organização do clero, a visão da Palavra e muito mais.

Alguns acham que as mudanças foram boas, como por exemplo a Missa ser rezada na língua vernácula e não em latim, com o padre de costas para o povo. Outros já acham que essas mudanças desfiguraram a Igreja, que foi depois dessas mudanças que a Igreja começou a perder muitos de seus fiéis (apesar de que, se fossem "fiéis" mesmo não se perderiam). Uma coisa a se pensar: não se perde o que não se tem, não é verdade?

E há ainda os que acham que as mudanças trouxeram coisas estranhas à Igreja, como a RCC, com seu jeito meio pentecostal, a forte presença do leigo, o "desrespeito a algumas doutrinas, etc.

Mas, é preciso ler os documentos do Concílio para saber exatamente onde os bispos queriam chegar. As suas decisões estão expressas nas 4 CONSTITUIÇÕES, 9 DECRETOS e 3 DECLARAÇÕES elaboradas e aprovadas pelo Concílio. E só lendo e estudando os documentos podemos entender um pouco mais disso. Sugiro começar pelas Constituições Dogmáticas: a Lumen Gentium (sobre a Igreja) a Dei verbum (sobre a Palavra de Deus) , a Sacrossantum Concílium (sobre a liturgia), e a Gaudium et Spes (sobre a relação da Igreja com o mundo e a pastoral), aí descobrimos um tesouro de renovação e de atualização da Igreja católica em relação aos anos de atraso na História.

A estes documentos é preciso acrescentar vários outros, mas, sobretudo, os Decretos Conciliares Ad Gentes (sobre a atividade missionária Igreja) e Apostolicam Actuosittem (Sobre o Apostolado dos leigos). Estes documentos são essenciais para se compreender o impulso conciliar para a renovação da Igreja e de sua missão no mundo contemporâneo e, consequentemente, a renovação de todas as suas mediações evangelizadoras e formadoras, entra as quais a catequese é uma das mais importantes e privilegiadas.

E é interessante observar que o Concílio não produziu um documento específico sobre a catequese. O Concílio, apesar de algumas solicitações para tratar do assunto, preferiu solicitar a elaboração de um Diretório de Catequese, que foi feito pela Congregação para o Clero e publicado em 1971 com o título “Diretório Catequético Geral – DGC”, que infelizmente ficou desconhecido no Brasil. Este documento foi renovado em 1997 e daí surgiu o Diretório Geral para a Catequese (DGC). Que, em 2006, a CNBB atualizou e adequou as nossas realidades com o nome de "DNC - Diretório Nacional de Catequese". Inclusive, o DNC faz inúmeras referências ao DGC, que é o documento que o norteia.

Para entender a necessidade de renovação da catequese é importante conhecer alguns documentos emitidos pela Santa Sé depois do Concílio:

a) Paulo VI: Evangelii Nuntiandi (A Evangelização no mundo contemporâneo – 1965);
b) João Paulo II: Catechesi Tradendae (A catequese no mundo de hoje) - 1979;
c) Bento XVI – Verbum Domini (A Palavra de Deus na vida e missão da Igreja) – 2010.

Aqui no Brasil, publicados pela Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) destaca-se ainda os seguintes documentos:

a) Catequese Renovada, Orientações e Conteúdo – Documento 26, de 1983;
b) Com Adultos, Catequese Adulta – Estudos CNBB 80, de 2002.
c) Iniciação à Vida Cristã: itinerário para formar discípulos missionários – Documento 107, de 2017;
d) Terceira Semana Brasileira de catequese - Iniciação à Vida Cristã - 2010.

É muito documento para se conhecer? Sim. Com certeza é. Aliás, nossa Igreja é especialista em produzir documentos que pouca gente lê e menos ainda põe em prática. Mas, vamos focar aqui o DNC - Diretório Nacional de Catequese, que hoje está com 14 anos, e poucos catequistas (e padres) o conhecem ou, se conhecem, tem noção da importância dele para nosso FAZER catequese.

Nenhum catequista deveria se atrever a ser catequista, sem ter esse livrinho na mão. Tão importante assim? Muito. A Bíblia é o nosso livro por excelência, é a Palavra que fundamenta nossa catequese; e o DNC é nosso "guia" de COMO fazer isso.

Por isso, faço esse apelo aos catequistas aqui comigo neste grupo: corram atrás do prejuízo! Mesmo que se tenha uma crítica geral de que: a catequese "dos documentos" não é a catequese da salinha, da paróquia; é bom ter em mente que, se é ruim conhecendo-se o que pede nossa Igreja; pior é fazer sem saber o que e como. Corremos sempre o risco de estar, constantemente, na contramão.

E não vão entrar em parafuso achando que tem que ler todos os documentos que citei acima. Não. Por enquanto, quero apenas que vocês leiam o DNC, mais que ler, aliás, é consultar sempre que precisar. E, coordenadoras(es) e padres, ATENÇÃO! Impensável não conhecer o DNC! Se possível, adquiram o livro e dê de presente ao catequista. proporcionem um estudo sobre ele. Como este que estamos oferecendo no grupo neste período de quarentena.

E para que vocês não desanimem, deixo aqui uma fala do Ir. Israel Nery, um dos religiosos que mais se dedicou à catequese no Brasil e que participou ativamente da construção de vários documentos (brasileiros) que citei.

"Percebo que ser catequista no Brasil é um milagre, pois é uma questão de puro Sim ao chamado do Espírito Santo, pura dedicação, puro heroísmo…
Ao longo de meus muitos anos dedicados à catequese, tenho visto que ser catequista é algo inexplicável em nossa Igreja, portanto, é ação direta do Espírito Santo. A maioria dos catequistas (das catequistas, devido à quantidade de mulheres na Catequese), não tem um razoável apoio das famílias, dos párocos e das Comunidades Eclesiais. Atuam com dedicação, mas sem os subsídios necessários (Bíblias, manuais, acesso às mídias digitais etc.). E não contam com ajuda financeira para participação em encontros, cursos e assembleias e nem para assinatura de revista ou compra de livros básicos.
Há uma impressionante profetismo e gratuidade no serviço à catequese. A boa vontade e a dedicação suprem muitas carências. É evidente a falta de investimento das Comunidades na formação inicial e permanente dos catequistas."

Mas, de nada adianta escrever belos textos que não são acessíveis aos catequistas, não é mesmo? Assim como não adianta os catequistas terem os documentos guardados na gaveta sem nem ter lido.

Vamos lá! Fé e coragem para buscar formação, é a formação que nos fará ter sucesso na evangelização ... E adquirir o DNC quem ainda não o fez.

Abraços
Ângela Rocha