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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

UMA CATEQUESE QUERIGMÁTICA E MISTAGÓGICA; ESTUDO


CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO
FORMAÇÃO PARA CATEQUISTAS

Apresentamos neste artigo, texto para estudo e na sequência roteiro para encontro de formação com catequistas (+slides) 


UMA CATEQUESE QUERIGMÁTICA E MISTAGÓGICA

Ângela Rocha

“Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro anúncio: ‘Jesus te ama, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar’.(...) Toda a formação cristã é , primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne*, que nunca deixa de iluminar a tarefa catequética, e permite compreender adequadamente o sentido de qualquer tema que se desenvolve na catequese. ´E o anúncio que dá resposta ao anseio de infinito que existe em todo coração humano” (EG, nº 164-165).


Na missão de evangelizar, nós catequistas sempre nos deparamos com novos desafios. Hoje, a Igreja nos convida a olhar com mais carinho para duas grandes exigências: o querigma, que é o anúncio vivo e apaixonado de Jesus, e a mistagogia, que nos ajuda a conduzir as pessoas a mergulhar no mistério da fé. Pode parecer difícil num primeiro momento, mas é justamente nesse caminho que a nossa catequese ganha mais vida e se torna realmente transformadora.

A Evangelii Gaudium, nos números 163 a 168, apresenta um ensinamento precioso sobre a catequese, destacando sua dimensão Querigmática e Mistagógica. O Papa Francisco recorda que o coração da catequese é o querigma, ou seja, o primeiro anúncio: Jesus Cristo te ama, deu a sua vida por ti, ressuscitou e está vivo, caminhando contigo todos os dias. Esse anúncio é chamado de “primeiro” não porque fica restrito ao início da vida cristã e depois seja substituído, mas porque é o principal, o centro, aquilo que deve sempre ser repetido e aprofundado em todas as etapas do caminho de fé. É ele que dá sentido a todos os outros conteúdos da catequese e que vai, aos poucos, “fazendo-se carne” na vida do cristão, transformando atitudes, escolhas e comportamentos.

Francisco insiste que não existe nada mais sólido ou profundo que esse anúncio. Ele precisa ser comunicado de maneira que manifeste, antes de tudo, o amor de Deus, sem impor a verdade, mas convidando com liberdade e transmitindo alegria, esperança e vitalidade. Por isso, o catequista é chamado a adotar certas atitudes que tornam o anúncio mais fecundo: proximidade, abertura ao diálogo, paciência, acolhimento cordial e ausência de julgamentos.

Além disso, a catequese deve assumir uma dimensão mistagógica, isto é, um processo de iniciação progressiva, no qual toda a comunidade participa. Essa iniciação valoriza os sinais litúrgicos da vida cristã e propõe um caminho de crescimento que integra todas as dimensões da pessoa. O encontro catequético, assim, não se limita a uma explicação racional de conteúdos, mas envolve símbolos, ambientação, motivação atraente e inserção em um processo comunitário de escuta e resposta à Palavra de Deus.

Outro aspecto essencial é a atenção à via da beleza (via pulchritudinis). Seguir Cristo não é apenas uma questão de verdade e justiça, mas também de beleza, capaz de encher a vida de alegria e sentido, mesmo em meio às provações. Por isso, toda expressão de verdadeira beleza: na arte, na música, na liturgia, nas culturas; pode ser um caminho para o encontro com o Senhor. Cristo é a Beleza infinita que atrai e fascina. Cabe à catequese valorizar e incentivar o uso das artes e de novas linguagens, inclusive não convencionais, como meios eficazes para transmitir a fé de modo significativo para as pessoas de hoje.

Por fim, ao tratar da dimensão moral da catequese, o Papa destaca que a proposta não deve se reduzir a denúncias de erros ou a um tom de julgamento. Mais importante é apresentar sempre o bem desejável, o estilo de vida evangélico que leva à maturidade, à realização e à fecundidade. O catequista deve ser reconhecido como mensageiro alegre de propostas elevadas e guardião do bem e da beleza que brilham numa vida fiel ao Evangelho, e não como alguém que apenas aponta falhas ou anuncia desgraças.

Assim, a catequese, para ser fiel ao Evangelho e fecunda no mundo atual, deve ser querigmática, mistagógica, aberta à beleza e sempre positiva em sua proposta moral. Esse caminho faz da transmissão da fé uma experiência transformadora, que toca o coração, ilumina a inteligência e desperta para uma vida nova em Cristo.

📌 *Quando “faz carne”, o querigma encarna-se em nós: transforma nossa forma de amar, perdoar, servir, rezar e até de olhar para os outros. Lembra a Palavra que se encarnou: Jesus.

# Quando o Papa fala que o querigma vai “fazendo carne”, ele quer dizer que a fé não pode ficar só na cabeça ou nas palavras. É como quando você ouve algo bonito, mas aquilo começa a mudar sua vida de verdade.

# Se eu escuto que Deus me ama, isso não pode ser só informação. Precisa se tornar atitude: acreditar em mim mesmo, amar os outros, perdoar, ajudar.

É como se a fé “entrasse na pele”, virasse parte do meu jeito de viver.

Em resumo: “Fazer carne” = deixar que Jesus e o seu amor se tornem vida concreta em nós — nas escolhas, nos gestos, no coração.

 

Esse trecho (EG 163-168) é um dos mais ricos da Evangelii Gaudium sobre a Catequese.

Resumo de estudo: Catequese Querigmática e Mistagógica (EG 163-168)

🌟 1. O ponto de partida: o Querigma (EG 164-165)

  • O que é: Primeiro anúncio da fé – Jesus Cristo te ama, deu a vida por ti, ressuscitou e caminha contigo todos os dias.
  • Qualidade: É “primeiro” não porque vem antes e depois se esquece, mas porque é o mais importante e permanente.
  • Função:

-  Centro da evangelização e da catequese.

-  Aprofunda-se continuamente e “faz-se carne” na vida do cristão.

-  Dá sentido a todos os outros temas da catequese.

  • Características do anúncio:

-  Deve falar do amor de Deus antes das exigências morais.

-  Não impõe, mas convida com liberdade.

-  Deve ser alegre, vital, motivador e integral.

  • Atitudes do evangelizador: proximidade, diálogo, paciência, acolhimento cordial e não condenatório.

🌟 2. Mistagogia: iniciação progressiva na fé (EG 166)

  • Mistagogia significa:

1.   Caminho progressivo de iniciação, com toda a comunidade envolvida.

2.   Valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã (Batismo, Eucaristia, Crisma).

  • Prática na catequese:

-         Palavra de Deus no centro.

-         Ambientação, símbolos, motivação atraente.

-  Processo de crescimento comunitário, que integra todas as dimensões da pessoa.

🌟 3. A via da beleza (EG 167)

  • A fé é também bela: Seguir Cristo não é só verdade e justiça, mas algo que enche de esplendor e alegria.
  • Beleza como caminho de encontro com Deus:

-  Todas as expressões autênticas de beleza ajudam a abrir o coração ao Evangelho.

-  Cristo é a Beleza infinita que atrai a todos.

  • Aplicação catequética:

-  Valorizar arte, símbolos, música, expressões culturais e novas linguagens.

-  Coragem de usar sinais novos que falem ao coração das pessoas de hoje.

🌟 4. Proposta moral na catequese (EG 168)

  • Não basta denunciar o mal: é preciso apresentar sempre o bem desejável, o estilo de vida cristão.
  • O catequista deve ser:

-       Mensageiro alegre de propostas altas.

-  Guardião do bem e da beleza que brilham numa vida fiel ao Evangelho.

-  Não juiz sombrio ou profeta de desgraças, mas testemunha que inspira.

Em resumo:

  • O querigma é o coração da catequese.
  • A mistagogia ajuda a viver a fé de forma progressiva, comunitária e litúrgica.
  • A beleza é caminho de evangelização.
  • A proposta moral deve ser positiva, atraente e motivadora.

 

O trecho em estudo (EG 163-168):

Uma catequese querigmática e mistagógica

163. (...) Queria deter-me apenas nalgumas considerações que me parece oportuno evidenciar.

164. Voltamos a descobrir que também na catequese tem um papel fundamental o primeiro anúncio ou querigma, que deve ocupar o centro da atividade evangelizadora e de toda a tentativa de renovação eclesial. O querigma é trinitário. É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita do Pai. Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro anúncio: “Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar”. Ao designar-se como primeiro este anúncio, não significa que o mesmo se situa no início e que, em seguida, se esquece ou substitui por outros conteúdos que o superam; é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou de outra, durante a catequese, em todas as suas etapas e momentos. Por isso, também “o sacerdote, como a Igreja, deve crescer na consciência da sua permanente necessidade de ser evangelizado” (João Paulo II, 1992).

165. Não se deve pensar que, na catequese, o querigma é deixado de lado em favor duma formação supostamente mais “sólida”. Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio. Toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne, que nunca deixa de iluminar a tarefa catequética, e permite compreender adequadamente o sentido de qualquer tema que se desenvolve na catequese. É o anúncio que dá resposta ao anseio de infinito que existe em todo o coração humano. A centralidade do querigma requer certas características do anúncio que hoje são necessárias em toda a parte: que exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a verdade mas faça apelo à liberdade, que seja pautado pela alegria, o estímulo, a vitalidade e uma integralidade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas. Isto exige do evangelizador certas atitudes que ajudam a acolher melhor o anúncio: proximidade, abertura ao diálogo, paciência, acolhimento cordial que não condena.

166. Outra característica da catequese, que se desenvolveu nas últimas décadas, é a iniciação mistagógica, que significa essencialmente duas coisas: a necessária progressividade da experiência formativa na qual intervém toda a comunidade e uma renovada valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã. Muitos manuais e planificações ainda não se deixaram interpelar pela necessidade duma renovação mistagógica, que poderia assumir formas muito diferentes de acordo com o discernimento de cada comunidade educativa. O encontro catequético é um anúncio da Palavra e está centrado nela, mas precisa sempre duma ambientação adequada e duma motivação atraente, do uso de símbolos eloquentes, da sua inserção num amplo processo de crescimento e da integração de todas as dimensões da pessoa num caminho comunitário de escuta e resposta.

167. É bom que toda a catequese preste uma especial atenção à “via da beleza (via pulchritudinis)”. Anunciar Cristo significa mostrar que crer n’Ele e segui-Lo não é algo apenas verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de cumular a vida dum novo esplendor e duma alegria profunda, mesmo no meio das provações. Nesta perspectiva, todas as expressões de verdadeira beleza podem ser reconhecidas como uma senda que ajuda a encontrar-se com o Senhor Jesus. Não se trata de fomentar um relativismo estético (IM, 6), que pode obscurecer o vínculo indivisível entre verdade, bondade e beleza, mas de recuperar a estima da beleza para poder chegar ao coração do homem e fazer resplandecer nele a verdade e a bondade do Ressuscitado. Se nós, como diz Santo Agostinho, não amamos senão o que é belo, o Filho feito homem, revelação da beleza infinita, é sumamente amável e atrai-nos para Si com laços de amor. Por isso, torna-se necessário que a formação na via pulchritudinis esteja inserida na transmissão da fé. É desejável que cada Igreja particular incentive o uso das artes na sua obra evangelizadora, em continuidade com a riqueza do passado, mas também na vastidão das suas múltiplas expressões atuais, a fim de transmitir a fé numa nova “linguagem parabólica” (Bento XVI, 2012). É preciso ter a coragem de encontrar os novos sinais, os novos símbolos, uma nova carne para a transmissão da Palavra, as diversas formas de beleza que se manifestam em diferentes âmbitos culturais, incluindo aquelas modalidades não convencionais de beleza que podem ser pouco significativas para os evangelizadores, mas tornaram-se particularmente atraentes para os outros.

168. Relativamente à proposta moral da catequese, que convida a crescer na fidelidade ao estilo de vida do Evangelho, é oportuno indicar sempre o bem desejável, a proposta de vida, de maturidade, de realização, de fecundidade, sob cuja luz se pode entender a nossa denúncia dos males que a podem obscurecer. Mais do que como peritos em diagnósticos apocalípticos ou juízes sombrios que se comprazem em detectar qualquer perigo ou desvio, é bom que nos possam ver como mensageiros alegres de propostas altas, guardiões do bem e da beleza que resplandecem numa vida fiel ao Evangelho.

(Exortação apostólica Evangelii Gaudium (o anúncio do evangelho no mundo atual), 163-168. Papa Francisco, 24 de novembro de 2013).

 

OBS: O documento na íntegra encontra-se em https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html

  

ROTEIRO DE ENCONTRO DE FORMAÇÃO PARA CATEQUISTAS

 Tema: Catequese querigmática e mistagógica (EG 163-168)

Objetivo: Ajudar os catequistas a compreenderem a centralidade do querigma, a importância da mistagogia, da via da beleza e da proposta moral positiva na catequese.

1. Ambientação

  • Colocar no centro uma Bíblia aberta e uma vela acesa.
  • Ao redor, símbolos de beleza: uma imagem de Cristo, flores, uma música suave de fundo.
  • Cartaz com a frase: “Jesus Cristo te ama, deu a vida por ti e caminha contigo todos os dias” (síntese do querigma).

 2. Acolhida

  • Recepção calorosa aos catequistas.
  • Breve dinâmica: cada participante recebe um papelzinho dobrado com a frase “Jesus te ama” e, sem abrir, troca com outra pessoa. Os dois abrem e mostram ao outro.
  • Comentário: “Jesus te ama e caminha contigo!”, esse é o anúncio central que nunca pode faltar na catequese.

 3. Leitura Bíblica (Lectio Divina)

  • Texto sugerido: Jo 1,14 – “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós”.
  • Breve leitura orante em quatro passos:

1.   Leitura – escutar o texto.

2.   Meditação – o que significa para mim a Palavra se fazer carne?

3.   Oração – responder a Deus.

4.   Contemplação – acolher o convite de deixar a fé transformar a vida.

 4. Reflexão Formativa (conteúdo)

(Arquivo em powerpoint disponível ao final)

 Explicar em linguagem acessível os pontos principais da EG 163-168:

  • Querigma: anúncio fundamental e permanente da catequese.
  • Mistagogia: iniciação progressiva na fé, valorizando liturgia, símbolos e comunidade.
  • Via da beleza: mostrar que a fé é bela, usar arte, música, cultura e criatividade para evangelizar.
  • Proposta moral: não ser apenas denúncia, mas apresentar o bem e a vida plena no Evangelho.

 5. Atividade Prática

  • Dividir os catequistas em 4 grupos. Cada grupo recebe um tema:

1.   Querigma

2.   Mistagogia

3.   Via da beleza

4.   Proposta moral positiva

  • Tarefa: pensar em como aplicar esse aspecto num encontro de catequese com crianças/adolescentes.
  • Depois, cada grupo partilha em plenário.

 6. Compromisso

  • Cada catequista escreve no papel: Como vou tornar o querigma mais presente nos meus encontros?
  • Guardar esse compromisso no caderno ou Bíblia pessoal.

 7. Oração Final

  • Rezar juntos:

“Senhor, faz de nós catequistas querigmáticos, capazes de anunciar com alegria o Teu amor. Que nossa vida seja testemunho vivo, que nossos encontros sejam experiências mistagógicas e belas, e que nossa proposta de fé seja sempre positiva e atraente. Amém.”

  • Cantar um refrão alegre (sugestão: “Onde reina o amor, fraterno amor...” ou outro conhecido na comunidade).

👉 Esse roteiro cabe em 1h30 a 2h de encontro.

 Ângela Rocha - Catequista e Formadora


LINK PARA O ARQUIVO EM SLIDES:

https://docs.google.com/presentation/d/18O4VBg74rgFBzNtbNe17FKTSQ8kf-sx_/edit?usp=sharing&ouid=107383730316165916833&rtpof=true&sd=true

 

✨ “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor.”

(Cl 3,23)

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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

CATEQUESE QUERIGMÁTICA E MISTAGÓGICA


COMO FAZER ESTA TAL "CATEQUESE QUERIGMÁTICA E MISTAGÓGICA" NECESSÁRIA À INICIAÇÃO CRISTÃ?
 

Eu gostaria de ter uma resposta simples a essa pergunta. Mas, por enquanto só tenho ideias a respeito. E também não vamos encontrar a resposta na leitura de nenhum dos subsídios que temos para leitura. Porque o que queremos saber é o “COMO”, a prática e não a teoria da coisa, não é mesmo? E é isso que nos angustia na catequese: a PRÁTICA! 

Por mais que o magistério da Igreja e os estudiosos nos deem as "pistas", cabe a nós vivenciar a prática, sabendo que: cada pessoa faz a experiência do encontro com Jesus de forma diferente. E não dá para colocarmos todos na mesma "forma" usando a mesma "receita" como um "modo de fazer" culinário. 

Em primeiro lugar precisamos estabelecer aqui o que entendemos por catequese "QUERIGMÁTICA" e "MISTAGÓGICA". Em princípio estes "palavrões" (grandes palavras) nos assustam. São vocábulos novos na nossa prática pastoral. Mas, vamos tentar trazer alguma luz sobre este assunto.

Catequese querigmática:

Querigma - é o primeiro anúncio. Palavra originária do grego "kerissein" que quer dizer: proclamar, gritar, anunciar. 

Querigmático é proclamado, gritado, anunciado. O "primeiro anúncio" da fé cristã é, obviamente, a crença em Jesus Cristo, filho de Deus, enviado a nós para anunciar o Reino de Deus na força do Espírito Santo. 

O novo Diretório para Catequese, traz em seu capítulo 2, nº 56 e seguintes, uma grande mudança no sentido da Evangelização como nós conhecemos até agora: Já não se fala em “três etapas distintas”, onde o anúncio ou querigma, se configurava na primeira etapa, seguida da catequese para o aprofundamento da fé. Hoje, todo o processo de iniciação precisa ser querigmático e mistagógico: 

(...) É importante que, precisamente através da catequese, cada pessoa descubra que vale a pena crer. Dessa forma, ela não mais se limita a um mero momento de crescimento mais harmonioso da fé, permitindo descobrir sua grandeza e credibilidade. O anúncio não pode mais ser considerado simplesmente a primeira etapa da fé, prévia à catequese, mas sim a dimensão constitutiva de cada momento da catequese. (DpC 57). 

Assim sendo, o querigma é ao mesmo tempo um ato de  anúncio e o conteúdo mesmo do anúncio, que revela e faz presente o Evangelho. Isso é a “catequese querigmática”, que leva o anúncio por todas as etapas da evangelização, amadurecendo o cristão ao longo de sua caminhada (catequese permanente). 

Tratadas as definições, que podem ter trazido muita luz ou complicado até mais, vamos aos exemplos práticos que temos. 

1.      O "querigma" tal como o entendemos, acontece "antes" de se iniciar o processo de IVC, ou seja, a partir de um "anúncio" sobre Jesus Cristo, a pessoa é despertada a participar de uma comunidade de fé. 

Aí está o "Pré-catecumenato" (1º Tempo da IVC), o saber que existe uma comunidade de fé e ser acolhido por ela. É preciso que "alguém" faça isso, seja pelo testemunho de fé, seja pela experiência familiar. Seria então o papel de um "introdutor", não necessariamente alguém de "fora", como é o caso das crianças, mas, alguém da família. Isso é que se acreditou durante muito tempo: que a família cumpria o papel do querigma trabalhando os primeiros rudimentos da fé com as crianças e encaminhando-as ao 2º Tempo da IVC, que é o "Catecumenato" ou a "catequese", tempo mais longo conforme o RICA. 

Qual é a nossa experiência? 

Frequentemente, ouvimos testemunhos "injuriados" de alguns catequistas reclamando que as crianças chegam à catequese sem saber rezar nenhuma das fórmulas de oração da Igreja, sem ter lido a Bíblia, sem saber o sinal da cruz, sem ter frequentado as celebrações, etc, etc. O que faltou aí? Foi o "anúncio" ou foi a falta de seguimento evangélico por parte da família, catequizada lá atrás? Estas crianças acreditam em Deus? Estas crianças fizeram o "encontro" verdadeiro com Jesus, como a Samaritana no poço? Evidentemente temos que analisar isso do ponto de vista da idade e compreensão de uma criança. 

O fato é que temos que considerar que a maioria das nossas crianças está ali por conta de um "dever" social e cultural. Elas precisam de um "primeiro anúncio" e até de um "segundo primeiro anúncio"! (DOC 107, n.154). 

Então essa é a parte QUERIGMÁTICA da nossa catequese: apresentar Jesus uma segunda vez (ou primeira mesmo!), e apresentar Jesus sempre e a cada vez que se falar dele, de maneira que isso faça "arder os corações". Tendo em mente que essa pessoinha vai continuar, pela vida afora, retornando a este anúncio principal. As experiências de encontro vão amadurecer, conforme amadurece o indivíduo. 

Aí está a razão pela qual nossa catequese precisa ser querigmática: não dá mais para considerar que a família proporcionou testemunho suficiente para que cada um encontrasse "Jesus de Nazaré, Filho único do Pai" (CT, n.5), e viesse à Igreja para a catequese "sedento" daquela "água viva" apresentada por Jesus à Samaritana. 

Como trabalhar este querigma com nossos catequizandos e com adultos não suficientemente evangelizados? Esta é uma resposta ou caminho que temos que buscar ao longo do processo. 

O novo diretório nos dá as pistas: 

Dessa centralidade do querigma para o anúncio, derivam alguns esclarecimentos também para a catequese: que “exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a verdade mas faça apelo à liberdade, que seja pautado pela alegria, pelo estímulo, pela vitalidade e por uma integralidade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas” (EG, n. 165). Os elementos que a catequese como eco de querigma é convidada a valorizar são: o caráter da proposta; a qualidade narrativa, afetiva e existencial; a dimensão de testemunho da fé; a atitude relacional; a ênfase salvífica. Com efeito, tudo isso interroga a própria Igreja, chamada primeiramente a redescobrir o Evangelho que anuncia: o novo anúncio do Evangelho pede à Igreja uma renovada escuta do Evangelho, junto com seus interlocutores. (DpC 59). 

Segundo o documento, não se pode deixar de lado também, que o querigma tem uma dimensão social. Como a pregação de Jesus tinha. A catequese precisa mostrar esta visão de mundo, da justiça, da vida social com a realização de sinais concretos. Por esta razão, a catequese não é só o segundo momento onde se traz luz ao conhecimento da fé e sim um anúncio de fé que não é outra coisa senão se relacionar com todas as dimensões da vida humana (DpC 60). 

Catequese mistagógica: 

Vamos primeiro às definições clássicas: Mistagogia é o que diz respeito aos mistérios do sagrado.  Aquilo que traz o significado, uma introdução. Mist+agogia = mistério + introdução. 

Em um certo sentido é o amadurecimento que envolve todo o ser na experiência com o que é santo, objeto de fé e suas relações com o outro. O ser humano traz uma natural necessidade em si mesmo que aponta para o sentido de si mesmo fora dele, e para percorrer este espaço é necessária esta compreensão mistagógica, ou seja, ele precisa ser "conduzido" por um agente mistagogo. Nisso temos que, é na liturgia e nas celebrações que nos “conduzimos” ao mistério. 

A catequese de iniciação à vida cristã está orientada para a celebração litúrgica. Por isso, são necessárias tanto uma catequese que prepara para os sacramentos, quanto uma catequese mistagógica que favoreça uma compreensão e uma experiência mais profunda da liturgia. (DpC 74).

 O novo Diretório para a catequese (2020), relembra o documento Sacramentum Caritatis (64) que cita três elementos essenciais de um itinerário mistagógico, que tem por base a estrutura fundamental da experiência cristã: 

a) A interpretação dos ritos à luz dos eventos da salvação, em conformidade com a Tradição da Igreja, relendo os mistérios da vida de Jesus, particularmente seu mistério pascal, em relação a todo o percurso do Antigo Testamento; 

b) A introdução ao sentido dos sinais litúrgicos, de modo que a catequese mistagógica desperte e eduque a sensibilidade dos fiéis à linguagem dos sinais e dos gestos que, unidos à palavra, constituem o rito; 

c) a apresentação do significado dos ritos para a vida cristã em todas as suas dimensões, para evidenciar o elo entre a liturgia e a responsabilidade missionária dos fiéis, além de fazer crescer a consciência de que a existência dos fiéis é gradualmente transformada pelos mistérios celebrados. (SCa 64). 

E o DpC (2020, 98) alerta neste mesmo parágrafo,  que a dimensão mistagógica da catequese não se reduz somente ao aprofundamento da iniciação cristã após ter recebido os sacramentos, (4ª Etapa do processo catecumenal) mas, envolve também sua inserção na liturgia dominical e nas festas do ano litúrgico, com as quais a Igreja já nutre os catecúmenos e as crianças batizadas bem antes de poderem receber a Eucaristia ou antes que tenham acesso a uma catequese orgânica e estruturada. 

Vistas as definições, vamos pensar nas práticas que temos! 

Quem é aqui o agente "mistagogo" que conduz a pessoa ao "mistério" da fé? Ideal que tivesse sido a família e nós só tivéssemos que aprofundar este mistério com conhecimentos bíblicos e doutrinários. 

Para no Diretório para a Catequese (2020, nº 97), o caminho formativo do cristão, começou nas Catequeses mistagógicas dos Padres da Igreja, com um caráter experiencial, sem  negligenciar a inteligência da fé. O encontro vivo e persuasivo com Cristo era anunciado por testemunhas autênticas, e era determinante. Portanto, aquele que introduz aos mistérios é, antes de tudo, uma testemunha. Esse encontro tem sua fonte e seu ápice na celebração da Eucaristia e se aprofunda na catequese. Quem conduz ao “mistério” é alguém que já teve sem encontro pessoal com Cristo e é profundamente envolvido nos mistérios da fé, a  ponto do seu testemunho contagiar o outro. 

Mas, nós nos deparamos aqui com uma experiência prática: 

Qual é a nossa experiência? 

A enorme e quase insuperável dificuldade em levar nossos catequizandos às celebrações litúrgicas, que nada mais são, do que o próprio "mistério da fé". Toda a celebração da missa é inteiramente mistagógica, simbólica, orante. E as famílias passam longe dela. Assim, que experiência de "mistério" se passa aos filhos? NENHUMA!

E o fato é que crianças não vão a lugar algum sem os pais ou o consentimento destes. Aí, entende-se que a "mistagogia" da nossa catequese, PRECISA ser estendida aos adultos com quem as crianças convivem. Mesmo porque o aprofundamento espiritual, a abertura ao transcendente, carece de uma maturidade que as crianças ainda não têm. Mas, elas aprendem por testemunho de experiências, elas se contagiam pela beleza do mistério e estão mais do que abertas a aprender coisas novas. 

Como trabalhar esta mistagogia com nossos catequizandos e com adultos não suficientemente evangelizados? Esta, também, é uma resposta ou caminho que vamos buscar ao longo do processo. Sem esquecer que a Mistagogia é antes de tudo, vivencial e testemunhal. 

Ângela Rocha

Catequista – Graduada em Teologia pela PUCPR


FONTES DE REFERÊNCIA:

CNBB. DIRETÓRIO NACIONAL DE CATEQUESE – DNC. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Brasília: CNBB, 2006.

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO. Diretório catequético. Vaticano: 2020. Documentos da Igreja nº 61, CNBB: Brasília, 2020. 

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Ritual da Iniciação Cristã de Adultos - RICA. São Paulo: Paulinas 2003.