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sexta-feira, 30 de junho de 2023

REFLEXÃO DO EVANGELHO: DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS


Imagem: cebi.org

O texto de Mt 10,40-42 é o fecho do conjunto de textos da parte discursiva do segundo livrinho do Evangelho, intitulado de diversas formas: Sermão da missão; Envio dos missionários do Reino; Chamado para a missão; Discurso apostólico, entre outros. Nesses textos, segundo as autoras, Jesus dá diversas orientações e instruções às discípulas que aceitarem exercer a missão; ensina-as como devem exercê-la em meio às comunidades; exige compromisso radical com ele e com seu projeto; adverte-os quanto aos cuidados que devem ter diante da realidade violenta e de perseguição daquele contexto em que vivem e, também, ordena-os a resistir, sempre com confiança, esperança e fé na superação dos inúmeros desafios do momento de tensão que vivem os cristãos, os chefes judeus e os violentos romanos.

O Evangelho da comunidade de Mateus provavelmente teve sua construção e edição por volta dos anos 80 e.C., obra de fiéis de raízes judaicas bastante ligados à sua tradição e doutrina. Tem uma construção muito bem elaborada e traz uma interessante característica, que são as subdivisões. Encontramos nele cinco livrinhos, compostos, cada um deles, de uma parte narrativa e outra discursiva, sendo emoldurados por uma introdução e uma conclusão, que o torna, de certa maneira, um livro familiar aos convertidos vindos do judaísmo, por se assemelhar, em sua forma, à Torá. Em suas linhas, dentre as diversas abordagens, destaca-se a questão do discipulado missionário, de como ser verdadeiro seguidor de Jesus, o Messias prometido das Escrituras Sagradas. Evoca-se fortemente a questão da justiça e a figura do justo, bem como a figura dos profetas, fazendo releitura das profecias apontando para a vinda de Jesus e a realização do seu Reino em meio à humanidade.

No Evangelho de hoje, essas duas figuras conhecidas dos judeus são destacadas: o profeta e o justo. Aquele que se entrega verdadeiramente ao projeto de Jesus e o realiza em seu meio é equiparado aos profetas e aos notáveis justos do Primeiro Testamento. Da mesma forma serão recompensados quem acolhe e assiste os missionários, provendo o que lhes ajude em suas necessidades da missão. O texto é um chamado à missão, ao mesmo tempo que também é um convite à colaboração fraterna e compromissada na construção contínua do Reino de Deus.

Esse texto está situado no contexto da dispersão do pós-guerra judaica, com os judeus cristãos expulsos das sinagogas e consequentemente do convívio social, sofrendo forte perseguição. Os discípulos de Jesus passam por um momento determinante: continuarem firmes, implantando o projeto do Reino, mesmo diante dos perigos e de possíveis rupturas com os seus e suas casas, ou ceder e voltar atrás diante da pressão da religião oficial e do Império. A escolha feita pelos discípulos de Jesus foi fundamental para que o projeto do Reino e sua Boa Nova fossem conhecidos por nós hoje.

Os dias atuais são tão desafiadores e complexos como a realidade vivida pela comunidade de Mateus. A mercantilização do cristianismo, a poderosa força da religião mercado e seu império insaciável em forte oposição ao projeto de Jesus, o desvelamento da perversidade humana disfarçada de zelo religioso, a inversão dos valores com exaltação de opressores e culpabilização dos oprimidos, são alguns dos complexos problemas que nos interpelam em nossos dias. Diante dessas situações, somos provocados e questionados: como agir, qual atitude? Ser discípulos missionários, profetas na luta por justiça e dignidade para todas as pessoas, ou se amoldar e acomodar diante desta estrutura de injustiça, desigualdade, opressão e morte? Precisamos fazer nossas escolhas.

Que a força do projeto de Jesus nos encante e nos impulsione. Que o Espírito Santo nos mova sempre na dinâmica do agir profético e missionário, tornando-nos animadores, continuadores, construtores deste Reino de amor, justiça, igualdade e dignidade, sonhado e inaugurado por Jesus para toda a humanidade. Amém!

Cristiano A. Santos - CEBI SP




sábado, 27 de maio de 2023

A RESSURREIÇÃO E O SEGMENTO - REFLEXÃO DO EVANGELHO

 João: 20: 19-23

Nesse trecho do Evangelho de João, o apóstolo do amor nos conta sobre os primeiros acontecimentos logo após a crucificação e ressurreição de Jesus. Um período de muita tensão e perigo para os seguidores do caminho, a ordem era para prender todos que seguiam o Jesus subversivo da Galileia. Por isso, muitos estavam escondidos e com medo, certamente por serem testemunhas oculares dos horrores da tortura seguida de morte ao qual Jesus sofreu, também sobre a ameaça de prisão, pois havia muitos judeus fundamentalistas, que por ódio, estavam dispostos a entregar os discípulos e discípulas aos poderes dominadores e opressores que estavam centrados em Roma e Jerusalém.

Havia também um certo desânimo e muitas incertezas. Jesus não estava mais entre eles, estevam inseguros, os discípulos e discípulas ainda permaneciam, de certa maneira incrédulos quanto à ressurreição de Jesus, não acreditaram de fato nas palavras de Jesus que disse anteriormente que haveria de ressuscitar ao terceiro dia. Por isso estavam escondidos e com medo dos judeus, como nos conta esse trecho do Evangelho.

De forma inesperada Jesus entra no esconderijo e todas e todos se alegram. Extraordinário! Ora, em meio a uma forte tensão, dúvidas, insegurança, perseguição e medo, em um contexto totalmente desfavorável aos seguidores e seguidoras de Jesus, que estavam sob ameaça de prisão, tortura e morte, assim como ocorreu com seu mestre, Jesus trás uma saudação de paz. Disse: “a paz esteja com vocês! Essa paz anunciada por Jesus trouxe acalento, coragem e esperança para o grupo.

Em seguida, para confirmar e fortalecer suas palavras sobre a ressurreição, mostrou-lhes as mãos e os lados do seu corpo, onde estavam as marcas dos pregos e perfurações de lança, ferimentos no processo de tortura em sua crucificação e morte. Essa aparição de Jesus aos discípulos e discípulas lhes deu muito ânimo e força para prosseguir na missão libertadora, estes, deveriam seguir o caminho, no seguimento do Jesus de Nazaré. Jesus reforça a importância da missão. “Assim como o Pai me enviou, eu os envio “. Daquele dia em diante com a ajuda do Espírito Santo.

Hoje, urge dar continuidade ao seguimento de Jesus de Nazaré. Sua ressurreição é motivo de ânimo, é tempo de esperançar. Nos múltiplos desafios da vida, o Espírito Santo nos orienta e ajuda a prosseguir, muitas são as trincheiras nas lutas libertadoras, são grandes os desafios, escutar Deus e agir se faz necessário. Em nosso país, o tempo em que vivemos é de reconstrução e de luta pelos direitos e liberdade, não devemos nos esquecer do espírito profético na missão, pois os que se calam são colaboradores da injustiça. O Espírito de Jesus continua soprando, fortalecendo e iluminando os discípulos e discípulas de hoje. Amém, Axé, aleluia, oxente!

(Marcos Aurélio dos Santos, teólogo popular. CEBI-RN)


sexta-feira, 12 de maio de 2023

REFLEXÃO DO EVANGELHO: Permaneçamos no Amor (Jo14,15-21)

Imagem: CEBI.ORG

Vejamos as seguintes palavras do Evangelho deste domingo: “Se me amais, observareis os meus mandamentos” (Jo 14,15). Qual o maior mandamento de Jesus?Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis umas as outras. Como eu vos amei, amai-vos também umas as outras. Nisso reconhecerão todas que sois minhas discípulas, se tiverdes amor umas pelas outras” (Jo 13,34-35).

Jesus é o defensor, mas indo para o Pai, ele enviará outro defensor, o Paráclito, o Espírito Santo, a Ruah Divina, que revelará a verdade, para que a comunidade joanina não se sinta órfã, (14,18) como ficoaram os judeus depois da guerra do ano 70. É uma resposta contra Jâmnia.

Para Jesus, amar não é somente um sentimento, mas passa pelas atitudes de testemunhar o verdadeiro amor. Ele é a aliança entre o Pai e a sua comunidade (14,21).

Os mandamentos estão desacreditados para alguns cristãos, devido a uma educação religiosa traumatizante. “Isto é pecado, isso pode ser feito, isso não pode ser feito…” Mas Jesus diz que a lei que resume todos os mandamentos, a todos contendo, é a seguinte: “Ama a Deus e ama ao teu irmão”. Esse enfoque da lei é um enfoque libertador.

Falemos do amor, mas não como sempre se fala dele. Devemos procurar encontrar uma definição de amor que seja nova e que valha a pena. Por exemplo: amar uma pessoa não é usá-la. Naturalmente, nós podemos usar Deus: quando queremos que Ele faça aquilo que nos agrade, quando queremos que Ele esteja a nosso serviço e não pensamos que nós devemos estar a serviço d’Ele. Isso não é amar a Deus, mas sim usá-lo. Mas qual seria então a verdadeira atitude? Seria colocar-se à disposição de Deus, como Jesus ensinou os apóstolos e apóstolas, discípulos e discipulas.

Tudo isso nos ajuda a revisar todas aquelas formas em que a pessoa é usada, no plano político, nas relações de trabalho, na amizade. Mas o amor é exatamente o contrário disso: amar uma pessoa é respeitar sua identidade, ouvi-la, desejar que ela cresça e fazer todo o possível para que ela cresça. É praticar a comunhão e a participação (Puebla 215).

Que o Espírito Santo nos ilumine para vivermos segundo o Evangelho, segundo a verdade, livres da mentira, das “fake News”. Permaneçamos testemunhando nosso amor a Jesus (14,21).

José Airton Otávio
Terapeuta naturalista
Educador social

sexta-feira, 1 de abril de 2022

NÃO JOGAR PEDRAS

Imagem: CEBI.ORG

Reflexão sobre João 8, 1-11 - texto de José Antônio Pagola

Em todas as sociedades há modelos de conduta que, explícita ou implicitamente, moldam o comportamento das pessoas. São modelos que determinam, em grande parte, a nossa forma de pensar, atuar e viver.

Pensemos na ordem jurídica da nossa sociedade. A convivência social está regulada por uma estrutura legal que depende de uma determinada concepção do ser humano. Por isso, ainda que a lei seja justa, a sua aplicação pode ser injusta se não se considerar a cada homem e mulher na sua situação pessoal única a e irrepetível.

Mesmo na nossa sociedade pluralista é necessário chegar a um consenso que torne possível a convivência. Por isso configurou-se um ideal jurídico de cidadão, portador de direitos e sujeito a obrigações. E é este ideal jurídico que se vai impondo com a força de lei na sociedade.

Mas esta ordem jurídica, sem dúvida necessária para a convivência social, não pode chegar a compreender de forma adequada a vida concreta de cada pessoa em toda a sua complexidade, a sua fragilidade e o seu mistério.

A lei tratará de medir com justiça cada pessoa, mas dificilmente pode tratá-la em cada situação como um ser concreto que vive e padece a sua própria existência de uma forma única e original.

É cômodo julgar as pessoas a partir de critérios seguros. É fácil mas também injusto apelar ao peso da lei para condenar tantas pessoas marginalizadas, incapacitadas para viver integradas na nossa sociedade, de acordo com a «lei do cidadão ideal»: filhos sem verdadeiro lar, jovens delinquentes, vagabundos analfabetos, toxicodependentes sem remédio, ladrões sem possibilidade de trabalho, prostitutas sem amor algum, maridos fracassados no seu amor conjugal, e assim por diante.

Frente a tantas condenações fáceis, Jesus convida-nos a não condenar friamente os outros pela pura objetividade de uma lei, mas sim a compreendê-los a partir da nossa própria conduta pessoal. Antes de atirar pedras contra alguém, temos que saber julgar o nosso próprio pecado. Talvez descubramos então que o que muitas pessoas precisam não é da condenação da lei, mas sim que alguém as ajude e lhes ofereça uma possibilidade de reabilitação. O que a mulher adúltera necessitava não eram pedras, mas uma mão amiga que a ajudasse a levantar. Jesus entendeu-o.


FONTE: https://cebi.org.br/reflexao-do-evangelho/nao-jogar-pedras/