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sábado, 3 de junho de 2023

REFLEXÃO DO EVANGELHO: IDE E FAZEI DISCÍPULOS

Imagem: CEBI.ORG

Estamos no segundo domingo após Pentecostes quando a promessa do Pai se cumpre sobre todas que estavam reunidas. Isto significa que estamos vivendo a experiência do Ressuscitado, agora iluminadas pela Força da Ruah Divina. Sob esta força vamos refletir o capítulo 28.16-20 de Mateus. 

Duas palavras de início me chamam bastante a atenção. A primeira delas é a Galileia e segundo o Monte ou montanha, v 16. A pergunta que nos cabe é: porque a Galileia e não Jerusalém terra “Santa”?  Lembremo-nos que foi na Galileia onde Jesus inicia sua missão. A Galileia era a cidade dos gentios e lá residia pessoas vindas de muitos lugares com suas crenças e costumes e por isso mal vista pelos que guardavam a Lei a Torá, os assim chamados religiosos. O Ressuscitado convida a igreja a iniciar sua missão de onde tudo começou. Entre aquelas criticadas e excluídas pela Religião. Ainda nessa mesma linha de reflexão podemos lembrar o domingo da ascensão quando Jesus convida seus irmãos a irem à Betânia fc Lc 24,50, cidade dos pobres.  Nitidamente Jesus aponta para onde deve ser a missão de sua igreja.  Cabe a nós hoje olharmos para onde Jesus aponta nossa missão.

O monte me faz lembrar a grande figura de Moisés. Parece que a comunidade de Mateus quer apontar para Jesus como o novo Moisés. Moisés desce do monte com as Leis e apresenta ao povo como caminho para viver na vontade de Deus. Jesus no monte ressignifica a Lei de Moises pois, agora a lei é: amem uns aos outros como eu vos amei (cf Jo 13.34). O monte também faz lembrar um lugar de recolhimento, de oração, de iluminação onde Jesus transfigurou. Creio que os versículos 16 e 17 nos ajudam também a entendermos que somos desafiados a conviver com aqueles que duvidam do ressuscitado. Ir a Igreja não é ser igreja.

Nos últimos versículos a comunidade de Mateus apresenta Jesus com plena autoridade no céu e na terra pois não é apenas como uma referência, mas alguém que deve ser seguido. Com esta autoridade Jesus diz: “Ide e fazei discípulos entre todos os povos…” Deus não é exclusividade de um povo, mas de todos os povos. Na minha compreensão, Jesus devolve a Deus a humanidade e liberta Deus da Religião, por isso a Galileia e não Jerusalém.  

No entanto, nossas Igrejas escravizaram-se pela instituição do Batismo, entendendo como requisito para sua pertença. Muitas das nossas denominações religiosas só batizam filhos de membros da Igreja e se for pagante, contribuinte. O Ide foi convertido em Vinde para minha Igreja, pois aqui tens a salvação, de novo aprisionamos Deus. 

Domingo de Pentecostes, encerramos a semana de Oração pela Unidade Cristã. Orando para que nos tornemos um.  Mas contraditoriamente é o batismo que nos separa, nos torna exclusivos. O que deveria ser o contrário, o batismo deveria nos inserir como grande família de Deus e assim o é no seu sentido teológico.  A tradução da Bíblia do Peregrino nos trás a seguinte expressão: “Portanto, ide fazer discípulos entre todos os povos, batizai-os consagrando ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, ensinai-lhe a cumpri tudo o que vos mandei”. V.19 e 20.  E o que Jesus nos mandou cumprir? Cf Jo 15. 17 “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros”.

Finalizo dizendo: precisamos olhar para onde Jesus aponta. E de novo resgatar o ser humano pelo batismo de consagração e não de pertença religiosa, institucional. Aqui estou me referindo a nova Galileia a comunidade das pessoas empobrecidas, marginalizadas por sua condição social, por sua orientação sexual, por sua cor da pele, por sua etnia. Fazei discípulos pelo testemunho do amor. Com este testemunho temos a certeza de que Jesus está conosco até o fim do mundo.

Antonio Terto, tssf
Revdo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
Diocese Anglicana de Pelotas.

sábado, 27 de maio de 2023

A RESSURREIÇÃO E O SEGMENTO - REFLEXÃO DO EVANGELHO

 João: 20: 19-23

Nesse trecho do Evangelho de João, o apóstolo do amor nos conta sobre os primeiros acontecimentos logo após a crucificação e ressurreição de Jesus. Um período de muita tensão e perigo para os seguidores do caminho, a ordem era para prender todos que seguiam o Jesus subversivo da Galileia. Por isso, muitos estavam escondidos e com medo, certamente por serem testemunhas oculares dos horrores da tortura seguida de morte ao qual Jesus sofreu, também sobre a ameaça de prisão, pois havia muitos judeus fundamentalistas, que por ódio, estavam dispostos a entregar os discípulos e discípulas aos poderes dominadores e opressores que estavam centrados em Roma e Jerusalém.

Havia também um certo desânimo e muitas incertezas. Jesus não estava mais entre eles, estevam inseguros, os discípulos e discípulas ainda permaneciam, de certa maneira incrédulos quanto à ressurreição de Jesus, não acreditaram de fato nas palavras de Jesus que disse anteriormente que haveria de ressuscitar ao terceiro dia. Por isso estavam escondidos e com medo dos judeus, como nos conta esse trecho do Evangelho.

De forma inesperada Jesus entra no esconderijo e todas e todos se alegram. Extraordinário! Ora, em meio a uma forte tensão, dúvidas, insegurança, perseguição e medo, em um contexto totalmente desfavorável aos seguidores e seguidoras de Jesus, que estavam sob ameaça de prisão, tortura e morte, assim como ocorreu com seu mestre, Jesus trás uma saudação de paz. Disse: “a paz esteja com vocês! Essa paz anunciada por Jesus trouxe acalento, coragem e esperança para o grupo.

Em seguida, para confirmar e fortalecer suas palavras sobre a ressurreição, mostrou-lhes as mãos e os lados do seu corpo, onde estavam as marcas dos pregos e perfurações de lança, ferimentos no processo de tortura em sua crucificação e morte. Essa aparição de Jesus aos discípulos e discípulas lhes deu muito ânimo e força para prosseguir na missão libertadora, estes, deveriam seguir o caminho, no seguimento do Jesus de Nazaré. Jesus reforça a importância da missão. “Assim como o Pai me enviou, eu os envio “. Daquele dia em diante com a ajuda do Espírito Santo.

Hoje, urge dar continuidade ao seguimento de Jesus de Nazaré. Sua ressurreição é motivo de ânimo, é tempo de esperançar. Nos múltiplos desafios da vida, o Espírito Santo nos orienta e ajuda a prosseguir, muitas são as trincheiras nas lutas libertadoras, são grandes os desafios, escutar Deus e agir se faz necessário. Em nosso país, o tempo em que vivemos é de reconstrução e de luta pelos direitos e liberdade, não devemos nos esquecer do espírito profético na missão, pois os que se calam são colaboradores da injustiça. O Espírito de Jesus continua soprando, fortalecendo e iluminando os discípulos e discípulas de hoje. Amém, Axé, aleluia, oxente!

(Marcos Aurélio dos Santos, teólogo popular. CEBI-RN)


domingo, 5 de março de 2023

É TEMPO DE NOS TRANSFIGURAR E TRANSFIGURAR O MUNDO

cebi.org

Vivemos tempos desafiadores. E muitas vezes a tendência nossa é querer perpetuar os momentos felizes que nos acontecem, como forma de garantir a felicidade agora entre nós. Mas será que isso é possível? A constatação natural nos diz que não. Entretanto, muitas vezes vivemos correndo atrás de mais e mais momentos que prometam felicidade constante. Para isso o ser humano inventa, cria subterfúgios que supostamente vão garantir isso.

O tempo da Quaresma que estamos vivendo quer nos ajudar a perceber que a vida pode e deve ser diferente, especialmente para aquelas pessoas que possuem uma fé e desejam ser fiéis a ela, procurando crescer cada vez mais no seguimento do autor da nossa Fé.

Somos então convidados e convidadas a nos deixar iluminar pela realidade das Comunidades cristãs do primeiro século da era comum, apresentada pelo Evangelho da Comunidade de Mateus. Seguir Jesus, viver a justiça, significava, naquele momento em que este Evangelho foi escrito, enfrentar dificuldades, perseguições e sofrimentos impostos, tanto pelos julgamentos civis, nos tribunais, quanto pelos julgamentos religiosos nas sinagogas.

O QUE PODEMOS APRENDER NO TEXTO BÍBLICO DESTE FINAL DE SEMANA

O texto bíblico desta 2ª Semana da Quaresma está no capítulo 17 do Evangelho da Comunidade de Mateus. Os versículos são do primeiro até o nono, a chamada Transfiguração do Senhor. Ali, a Comunidade cristã recorda o episódio em que Jesus leva três dos seus discípulos até o alto de uma montanha e se transfigura diante deles. Quais as lições a Comunidade de Mateus podem tirar meditando o episódio descrito nessa perícope?

Comecemos pelo fim, quando Jesus chama os discípulos para descerem a montanha, após acordarem do susto que tiveram. A palavra de ordem é: “Levantem-se, e não tenham medo.” (Mt 17,7). O susto dos discípulos, o sofrimento vivido pelas comunidades cristãs, e os desafios vividos pelas pessoas que acreditaram e acreditam no Jesus, o Filho de Deus, recebem a mesma ordem, ou seja, não fiquem parado, deitados, presos nos seus medos por causa dos acontecimentos do tempo presente.

A razão para a superação do medo é a presença d’Ele, ou seja “Eu estou convosco”. A certeza dessa presença se deu na voz vinda do céu onde o Pai dá testemunho do Filho “Escutem o que ele diz”. É preciso ouvir o que Jesus diz, porque Ele “é seu Filho querido, este lhe dá muita alegria” (Mt 17,5). Todos puderam ouvir essa afirmação. As comunidades cristãs puderam também recordar essa certeza. Para os tempos atuais, como é importante recordar isso e não ficarmos presos aos nossos desejos de buscar criar motivos “de felicidade a todo custo”, como se a “felicidade” aqui pudesse ser eterna. A felicidade eterna está na glória que os discípulos contemplaram. É para ela que a comunidade cristã deve insistir no testemunho da pessoa de Jesus Cristo, mesmo correndo o risco da perseguição e da morte. As pequenas ilhas de felicidade agora, assim como aquela que os discípulos contemplaram no topo da montanha, devem ser de motivação, inspiração para superarmos as cruzes cotidianas, pois devemos ser testemunhas do Crucificado-Ressuscitado. Não nos deixemos abalar pelas cruzes cotidianas.

Seguir Jesus não significa ficar só correndo atrás dele e batendo palmas, enquanto buscamos ver apenas seus milagres ou curas extraordinárias. “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, vai ser rejeitado, crucificado e morto, mas vai ressuscitar ao terceiro dia.” (Mt 16,21-23). Os discípulos já haviam escutado esse anúncio; as comunidades já sabiam desse acontecimento e agora experimentavam as cruzes; nós já conhecemos como isso se deu e como as Comunidades Cristã venceram esses desafios.

É verdade que todos nós precisamos de felicidade, de esperança. As primeiras comunidades também buscavam viver essas experiências para não desanimarem do caminho. Os discípulos que estavam com Jesus, antes, assustados com o anúncio de sua paixão, viam agora que era bom ficar no alto da montanha. Pedro disse isso a Jesus: “Senhor como é bom ficarmos aqui” Mt 17,4). Viam também que eles não eram os únicos que estavam na montanha com Jesus. Tinham a companhia de Moisés e Elias. Os personagens do primeiro testamento lembram aos discípulos e às comunidades vindouras que Deus havia prometido, desde o princípio, revelar a sua Palavra. E ali estava, a Palavra viva do Pai, Jesus humano, como eles conheciam, mas agora transfigurado, como nunca podiam imaginar, conversando com Moisés e Elias.

Diante desta contemplação a tentação não poderia ser outra; mas sim querer perpetuar aquela sensação de gozo, de felicidade quase inacabável. “Vamos construir três tendas, uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias!” (Mt 17,4). Mas ainda não era a hora da plenitude. A felicidade completa ainda virá e por isso mesmo, eles se assustam, quando a nuvem luminosa se manifesta e dormem. O sono parece dizer “esqueçam a ideia de querer prender Jesus” em apenas um momento de felicidade. A contemplação plena da glória está reservada para quem permanecer fiel, apesar das perseguições e sacrifícios. Não podemos querer viver uma fé descomprometida com a cruz, do Cristo, que ainda permanece presente na vida das pessoas da comunidade e, principalmente, daquelas pessoas crucificadas pela exclusão e, que vivem fora da Comunidade, longe do topo da montanha.

Assim, ao acordarem porém do susto, as duas testemunhas – Moisés e Elias – já tinham ido, e só restava aqu’Ele que fora revelado pelo Pai, Jesus, o próprio Filho de Deus. E com Ele, era hora de descer a montanha, voltar à planície e continuar a caminhada, sem fazer barulhos ou alardes, mas testemunhar o que contemplaram no alto da montanha. Assim fizeram as comunidades cristãs, e o testemunho delas chegou até os nossos dias.

Vivendo esse tempo quaresmal, busquemos nos abastecer da Palavra proclamada, nesse retiro espiritual em preparação para a Páscoa da Ressurreição. Nossas Celebrações Litúrgicas devem nos ajudar a fazer também uma experiência de transfiguração, como forma de abastecer a nossa esperança e a certeza de que acreditamos no Filho amado do Pai. Mas não esqueçamos, as diversas situações de fome, de injustiça, de violência doméstica e outras, continuam nos interpelando e pedindo de nós um testemunho real e verdadeiro do Ressuscitado.

Não podemos querer agora armar as tendas do nosso comodismo. Precisamos vivenciar a experiência da glória do Senhor e do testemunho do Pai. Mas não podemos cair na tentação reproduzir “pseudos felicidades”, a qualquer custo, que nos afastem da Cruz dos irmãos e irmãs. Associadas ao Cristo elas se tornam sinal do Ressuscitado entre nós.

Afinal de contas, é tempo de nos deixar transfigurar e transfigurar o mundo com o nosso testemunho de cristãos e cristãs, especialmente lutando contra todas as formas de fome que ainda existem entre nós.

Pe. Manoel David Neto
CEBI-ES

FONTE: https://cebi.org.br/reflexao-do-evangelho/e-tempo-de-nos-transfigurar-e-transfigurar-o-mundo/

 

sábado, 18 de fevereiro de 2023

REFLEXÃO DO EVANGELHO DO DOMINGO: Que tal o texto em poesia

 



7º DOMINGO DO TEMPO COMUM

1.Que tal o texto em poesia!  (Louraini Christmann)

Para iniciar, quero propor a leitura desse texto “em versos populares”, escritos por Severino Batista (A Palavra na Vida, 146, CEBI). Que tal iniciar a pregação lendo esses versos? Ou melhor ainda: Você mesmo(a) pode compor seus versos, que dirão criativamente o que o texto diz.

1 – Ali seu rosto em clarão
Igual ao sol brilhava
Sua veste reluzente
Em brancura se tornava
Eis que Moisés e Elias
Muita atenção lhe prestavam.

2 – Pedro pediu a palavra
Dizendo: Senhor, atenção
É bom estarmos aqui
Se queres na ocasião
Três tendas para os três
Eu farei com perfeição.

3 – Uma será para ti
Outra pra Moisés eu dou
Outra pra Elias faço
Eis que uma nuvem baixou
Mais luminosa que tudo
E tudo ali rodeou.

4 – Daquela nuvem se fez
Ouvir com toda atenção
Uma voz que lhe dizia
Meu filho do coração
Amado em quem pus
Toda minha perfeição.

5 – Ouvindo estas palavras
Os três discípulos caíram
Com a face sobre a terra
Muito medo eles sentiram
Mas Jesus os levantou
Rápido que eles não viram.

6 – Quando eles desciam
Jesus começou a falar
Não conteis para ninguém
Proibiu-lhes de contar
Que viram o filho do homem
Só quando ressuscitar.

2. Mateus pergunta: Quem somos nós? E qual é a nossa missão?

O Evangelho de Mateus quer dar essa resposta em uma época em que o judaísmo tenta se adaptar ao novo em Jesus. Ele é, sim, o Messias (Mt 17.5). Para sempre Jesus estará com a gente (Mt 28.20), mesmo que no presente passemos pelas mais diversas crises.

Carlos Mesters, Mercedes Lopes e Francisco Orofino definem a função do Evangelho de Mateus assim: “Neste Evangelho, as comunidades de judeu-cristãos encontravam uma fonte de consolo para o momento presente, uma nova maneira de entender o passado e uma prática que abria o caminho para o futuro com Deus” (na introdução ao livro “Travessia – Quero Misericórdia e não Sacrifícios” – Palavra da Vida – 135/136 – CEBI).

Em nosso texto me parece que aparecem justamente estes elementos: consolo para o presente: a visão; nova maneira de entender o passado: agora a mensagem de Moisés e Elias é radicalizada ou completada por Jesus; prática que abre o caminho para um futuro com Deus: as palavras de Deus para os discípulos – “Ouçam o que ele diz” – e a palavra de Jesus – “Não tenham medo”.

Bom pensar que esse texto poderia ser um pouco o resumo do evangelho todo.

Paralelos

Mateus, Marcos e Lucas narram a mesma passagem. Antecede sempre o anúncio da cruz e vem logo após o anúncio da boa-nova da cura de um menino. E nos três também aparecem claramente os discípulos de Jesus negando a cura ao menino, os mesmos discípulos dentre os quais Pedro, Tiago e João, que de imediato queriam construir tendas para este Jesus brilhante e glorioso. É! Temem o Jesus da cruz, que desafia a cura, inclusive do menino ao qual negam a cura, e querem prender a si o Jesus da glória, do brilho.

É claro que a cruz angustia. É claro que ela preocupa. Mas Jesus não pode voltar atrás e isto Pedro não entende e não aceita. “Arreda, Satanás” para Pedro (Mt 16.23). Mas parece que o tal de Satanás continua firme nos discípulos, agora na vontade de perpetuar uma paz gloriosa, uma paz fictícia, uma paz sem paz. E para Jesus poder iniciar a construção da paz verdadeira é preciso que ele passe pela cruz. Não tem outro jeito.

3. “Senhor, como é bom estarmos aqui”

Sim, é bom ver Jesus daquele jeito, com o rosto brilhante como o sol, com as roupas brancas como a luz. É um momento forte.

Sim, é bom estar aí. Também para Jesus. Por isso sobe para um alto monte, onde sempre acontecem momentos importantes. Pois ele precisa também se alimentar de um momento importante, especial, sublime, como também nós precisamos.

O momento no alto do monte, da reza, da busca por energia para enfrentar a vida, é um momento do coração, não da razão. E o coração precisa desses momentos. Ah, como precisa!

Também é importante saber adorar esse Deus com toda a intensidade por um outro motivo: isso faz a gente se desprender da gente mesmo. Isso nos impede de adorar a nós mesmos.

Armar barraca para a glória

Mas Pedro, Tiago e João querem perpetuar esse momento, querem ficar só nele, querem esquecer a cruz. Por isso propõem a construção de uma barraca. A barraca seria a maneira de segurá-lo desse jeito, de garantir que ele não viesse de novo com aquela conversa da cruz. Ali, brilhando, reluzindo ao lado de Elias e Moisés, seria muito mais fácil assumi-lo.

Nós, muitas vezes, sentimos também essa tentação. Desenvolver uma fé descomprometida, apenas contemplativa, é também hoje armar barraca para a glória, é também hoje ignorar a passagem pela cruz. Imaginar Jesus eternamente ao lado de Elias e Moisés, conversando com eles, é não querer seguir o rumo da cruz.

É preciso saber levantar-se depois dos momentos de glória, depois dos momentos de se ajoelhar. Jesus faz isto também. Busca momentos de se reabastecer e vai à luta. Este ir à luta começa aí não aceitando a proposta de Pedro.

4. “Escutem o que ele diz!” (Mt 17.5c)

Aí o próprio Deus coloca a sua proposta. Deus leva a visão para a audição: “Escutem o que ele diz”. É preciso ouvir o que Jesus diz, porque “este é seu Filho querido, este lhe dá muita alegria” (Mt 17.5).

Ao ouvirem essa voz, os discípulos tremem na base. Sabem já o que isso significa. Já ouviram tanto ele dizendo, desafiando, convocando…

“Levantem-se e não tenham medo” (Mt 17.6b). É preciso levantar-se e viver o que ele diz. Para isso necessita-se de coragem, de energia, de fibra. Não é fácil ser seguidor de alguém que assume o sofrimento. Bem mais fácil seria seguir um Jesus que aceitasse a instalação de uma confortável barraca ao lado de Elias e Moisés, personagens gloriosos da história de Israel.

5. Jesus é mais brilhante do que Elias e Moisés

Jesus é o filho amado de Deus. Não Elias, nem Moisés. Só Jesus. Isto o deixa em destaque. Elias e Moisés lembram Deus revelando sua palavra. Mas Jesus é mais do que isso. Jesus é o verbo que se fez carne. Eles são importantes, sim. Estão aí, no alto do monte, conversando com Jesus. Mas Jesus é o filho amado que a gente precisa ouvir e seguir.

Depois da visão, Moisés e Elias desaparecem. Fica bem claro quem é que interessa dali para frente. A mensagem do evangelho passa a valer mais do que a lei e os profetas. Mas o importante é que Jesus faz essa ponte entre essas mensagens, todas com o seu devido valor, devidamente explicadas, vividas no decorrer do evangelho de Jesus.

Somem tradições e costumes. Fica Jesus.

Jesus aparecendo com o rosto brilhante e as roupas brancas como a luz quer ser a prova de que é o Messias tão esperado. Ele tem a ver com os anjos, ele tem a ver com Deus. É o seu filho amado, que lhe dá tanta alegria.

6. O momento do brilho entre as cruzes hoje

Como necessitamos de momentos de brilho também entre as nossas cruzes hoje! E é a vida comunitária, vivida com responsabilidade e intensidade, que dá isso para a gente. Precisamos poder também transfigurar comunitariamente, na base da história que a gente já viveu, na base de tudo o que a gente já aprendeu, na base da vida.

As nossas celebrações comunitárias deveriam ser esses momentos fortes de brilho e glória.

Deveriam iniciar com canções marcantes, que possam nos emocionar. Os nossos cultos precisam ser um preparo para a vida, um fortalecimento para a vida, porque a vida não é uma beleza o tempo todo. Penso que, no geral, a gente, como igreja de origem luterana e alemã, dá muita ênfase à razão em detrimento da emoção. Não é necessário explicar tudo em nossas celebrações. Não é preciso entender tudo. Mas é preciso sentir tudo, é preciso conseguir juntar as coisas que a gente sente com a vida do dia a dia, onde a gente sente muito.

7. “Não tenham medo! Levantem-se” (Mt 17.6b)

Mas não dá para ficar no momento do brilho. Isto é muito pouco. Não dá para perpetuar o momento da glória. Este Jesus glorioso também anuncia a cruz. Pois não dá para negar a cruz. Ela precisa ser assumida em todas as suas dimensões. É preciso que nos levantemos do êxtase e que não tenhamos medo.

Pedro quer se apoderar de Jesus, quer construir uma barraca para prendê-lo a esse momento de glória; ele merece uma indireta bonita de Deus: Ouçam o que Jesus diz! Isto é o que importa. Será que a gente não merece também uma indireta dessas? Eu penso que não, simplesmente porque em muitas de nossas comunidades nem há esse momento de brilho. Há celebrações frias, racionais, estáticas. Há muitas celebrações sem celebração alguma. Lastimável, mas é.

8. A celebração como um todo, liturgia e pregação

A celebração precisa ser bonita, precisa mexer com a emoção, como todas, aliás. Mas esta em especial deve lembrar-nos de que temos a necessidade também dos nossos momentos de brilho. Precisamos sentir a glória de Jesus inundando aquele momento todo especial na companhia da comunidade reunida. Penso que deveria ser pensado especialmente em detalhes brilhantes, talvez inclusive lembrando coisas do passado (Moisés e Elias), importantes para nós. Uma pessoa poderia ser vestida de uma maneira chamativa, talvez uma menina vestida de anjo com muito brilho. Assim, em época fora do Natal, chamaria bastante a atenção. Esse anjo poderia ser despido do brilho durante a pregação, restando nele roupas rústicas, que lembram trabalho, sofrimento, cruz, que lembram o trabalho do dia a dia. Ele poderia estar prostrado e ser convidado a se levantar e seguir o caminho. Poderia ser convidada uma pessoa da comunidade para estender a mão ao anjo agora despido de brilho. Essa poderia ser convidada a dirigir-lhe uma palavra de Jesus, já que Deus fala que é preciso ouvir o que este nos diz.

Quanto aos passos da pregação, penso que poderiam ser seguidos os mesmos desta minha meditação. Organizei esta de tal maneira que isso fosse possível.

Aclamação do evangelho

Penso que ficaria bem simplesmente repetir a leitura de 1 Pe 1.19b: “Vocês fazem bem em prestar atenção nesta mensagem, porque ela é como uma luz que brilha em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a luz da estrela da manhã brilhe no coração de vocês”.

Bibliografia

BATISTA, Severino. O Evangelho de Mateus em Versos Populares – A Palavra na Vida 146. CEBI, 2000.
MALSCHITZKY, Harald. Auxílio sobre Mt 17.1-9 – Proclamar Libertação Vol. XVIII, São Leopoldo: Sinodal, 1992.
MESTERS, Carlos; LOPES, Mercedes; OROFINO, Francisco. Travessia – Quero misericórdia e não sacrifícios – A Palavra na Vida 135/136, CEBI, 1999.
VASCONCELOS, Pedro Lima; RODRIGUES da Silva, Rafael. Feliz quem tem fome e sede de justiça, a Boa Notícia segundo a comunidade de Mateus – A Palavra na Vida 134, CEBI, 1999.

 

Louraini Christmann é autora do livro A vida em poesia, publicado pelo CEBI.

Fonte: www.luteranos.com.br

 

sábado, 11 de fevereiro de 2023

REFLEXÃO DO EVANGELHO DO DOMINGO: A LEI DE JESUS


 

6º DOMINGO DO TEMPO COMUM: Mt 5, 17-37

1. Leitura (Eclesiástico 15,16-21).

Iniciemos com um breve comentário sobre o Livro do Eclesiástico. Este livro faz parte dos 7 livros da Bíblia Grega que não constam na Bíblia Hebraica. Ele também era o livro da liturgia nas Sinagogas da diáspora. Quanto as reflexões para o domingo do dia 12/02. Algumas pessoas estudiosas de liturgia nos orientam a ligar a primeira leitura com o Evangelho e assim irei fazer.

Qual é o fundamento da primeira leitura? São os mandamentos ou as Leis de Moisés. A autoria está preocupada com as pessoas da religião Judaica que estão esquecendo a importância das Leis judaicas na diáspora e seguindo outras crenças. Para a maioria das praticantes do judaísmo, tudo começa e termina com as Leis mosaicas.

Evangelho: Mt 5,17-37.

A comunidade de Mateus, chamada na escritura de: “Reino dos Céus”, também está numa diáspora. Ela se encontra com o mesmo problema da primeira leitura. A comunidade era de maioria de Judeus convertidos. A catequese da comunidade de Mateus a partir de Jesus diz aos judeus que aderiam à fé em Jesus: “Não penseis que vim abolir a Lei e os profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento”.

Sempre é bom buscarmos outras fontes para enriquecermos a catequese de Mateus. Vou trazer para nós a carta aos Romanos: Rm 3,31, “Então eliminamos a Lei através da fé? De modo algum! Pelo contrário, a consolidamos”. Este termo “consolidamos”, Paulo vai ligar lá em Rm 10,4. “Porque a finalidade da Lei é Cristo para justificar toda a pessoa que crê”.

Agora, eu entendo melhor Jesus, quando diz: “Em verdade, eu vos digo, antes que o Céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra”. O que?! Mateus e Paulo desejam nos catequizar. Porque, agora, a Lei não é mais de Moisés, foi justificada em Cristo e com ele, desde a Criação, foi tudo cumprido. A consolidação da lei se plenifica quando aprendemos a amar nossas irmãs e irmãos, nisto está toda a lei (Gálatas 5:14)

Para finalizar, a comunidade de Mateus cita várias passagens da Lei a fim de mostrar como Jesus foi coerente com ela. A comunidade nos deixa um pedido de Jesus para os povos: “Eu vos digo, se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus”. Sigamos a lei revelada em Cristo, do amor a Deus manifestado em nossas irmãs e irmãos, e não da lei que excluí e maltrata.

Texto: Francisco Rodrigues da Silva

Fonte: CEBI.ORG.BR

 

domingo, 22 de janeiro de 2023

REFLEXÃO DO EVANGELHO DO DOMINGO: AS GALILEIAS JUVENIS


 

3º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mateus 4, 12-23

Neste 3º domingo do tempo comum, nos colocamos a caminho com Jesus, segundo o relato da comunidade de Mateus, que, após experimentar as tentações no deserto, ouvindo que João, o Batista, havia sido preso, volta para a Galileia, na região beira-mar de Zabulon e Neftali. Os territórios de Zabulon e Neftali, a Galileia periférica, onde residiam os povos não judeus, que viviam na região sombria da morte (Is 9,1), segundo a profecia de Isaías, lugar de exclusão pelo povo “escolhido” de Israel. Neste local, com este povo, Jesus reconhece a proximidade do Reino dos Céus. Região de tantas pessoas adoecidas pela marginalização, Jesus cura aproximando-se e anunciando a Boa-Nova. 

A Pastoral da Juventude do Brasil vem refletindo há alguns anos sobre as Galileias juvenis, recorte das realidades periféricas da nossa sociedade, algumas delas: população negra e indígena, mulheres, comunidade lgbtqiap+, pessoas com deficiência e tantas outras que podemos reconhecer em nossos territórios. Estas Galileias sociais se apresentam como lugares teológicos de encontro com o Deus de Jesus. Nesse caminho com Jesus nas periferias, encontramos experiências de trabalhos comunitários como a dos irmãos Simão Pedro, André, Tiago e João. Trabalhadores que deixam-se tocar pelo convite de Jesus, para ampliar o trabalho de subsistência pessoal para a construção coletiva do Reino dos Céus no meio do povo, a partir dos seus saberes comunitários. Dessa forma, a conversão que Jesus nos pede é para que nos abramos às necessidades além de nós, aos gritos de nossos irmãos e irmãs, e da nossa Mãe Terra, pois tudo está interligado (LS, 16). 

Vivemos, hoje, um tempo de reconstrução e retomada histórica, caminhamos com mais esperança, mas é preciso vigiar. Assim como os primeiros discípulos, somos chamadas e chamados a anunciar a Boa-Nova da Paz, que é fruto da justiça, do acolhimento, da saúde integral, preferencialmente às pessoas das quais os direitos lhes são negados, nas periferias geográficas e existenciais. Para tanto, na defesa por democracia e vida digna, nossa reflexão e ações coletivas precisam chegar a todas as pessoas. Ao iniciarmos este novo ano, que a Ruah, sopro de Deus, nos desperte para a coletividade, a convivialidade que aproxima o Reino dos Céus (Mt 4, 17) da história. 

Texto: Ir. Glenda Sábio Garcia 

(Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã)

Fonte: CEBI.ORG.BR

 

domingo, 15 de janeiro de 2023

REFLEXÃO DO EVANGELHO DO DOMINGO: É PRECISO ATRAVESSAR AS ÁGUAS


 

SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM: João 1, 29-34

O Evangelho deste segundo domingo da Epifania nos fala sobre o anúncio de João e a confiança. Ao ver Jesus, João Batista exultou “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Acompanha esta leitura o texto de Isaías 49,1-7, em que Deus fala a seu povo, pessoas pobres e escravizadas, que ainda havia esperança. Vamos dividir nossa reflexão em duas partes, a primeira para pensarmos sobre o texto de Isaías e a segunda para refletirmos sobre o Evangelho.

Temos uma visão bastante equivocada sobre o termo “hebreu”. Não é raro pensarmos que se trata de um povo ou uma raça, mas, na verdade, é bem mais que isso. Na idade antiga os povos construíam suas cidades próximas às águas, é essa característica que marcou a formação das populações da Mesopotâmia, que significa justamente isso, terra entre rios. Nesta região se desenvolveram babilônicos, assírios, sumérios e muitas outras civilizações. Como esta porção de terra em que se formaram estava cercada de rios, aquelas mais empobrecidas, que não tinham terras dentro deste espaço, precisavam cruzar os rios, se afastar das cidades e buscar algo além, em terras desertas. Toda a pessoa que precisava ir tentar a vida em outro lugar, independente de qual povo pertencesse, era chamada de hebreia, ou seja, aquela que atravessa o rio. Longe de suas casas, não raramente, eram escravizadas e exploradas, sofrendo todo tipo de violência.  São estas pessoas as  quais Isaías se refere como “almas desprezadas, abominadas pelas nações, servas dos que dominam” (Is 49,7) que Deus promete “cobrir com sua sombra (…) guardar como flecha em sua caixa (Is 49,2).

O Evangelho retorna ao lugar das águas, é preciso cruzar o rio, agora o Jordão, para encontrar o povo de Deus. Por meio da travessia pelas águas a pessoa batizada se propõe a ir de encontro das miseráveis, que sem alimento e lugar para viver, perderam seus nomes, chamadas apenas de “hebreias”, mas Deus não esqueceu delas, e na pessoa de Jesus, cruzou também o rio para encontrá-las. Certamente as pessoas que optaram por seguir João Batista, que não tinha casa nem alimento, eram aquelas que nesta vida não tinham mais esperança, largaram tudo para esperar em Deus. Ao verem o Messias, diferente dos sacerdotes e poderosos que o ignoraram, estas pessoas o seguiram, e Ele l as  levou para a sua morada (Jo 1,37-39).

Para concluir, podemos pensar que Deus não está nos lugares seguros, como Mãe Amorosa, a Divindade está onde seus filhos precisam d’Ela, e para encontrá-la é preciso atravessar esta faixa que nos separa das mais necessitadas. O pecado do mundo, que o Cordeiro veio para tirar, pode ser entendido como a exclusão. Nós nos obrigamos a olhar para as pessoas necessitadas porque Deus, que andou entre nós, não ficou no Palácio de Herodes, mas desceu até a multidão de pessoas empobrecidas que acompanhavam João Batista. Deus está conosco nos momentos mais difíceis, é preciso confiar e segui-lo, para encontrarmos também aquelas que carecem de nós.

Texto: Ruan Isnardi

Fonte: cebi.org.br

 

domingo, 20 de novembro de 2022

JESUS, O MÁRTIR FIEL

Imagem: CEBI.org
REFLEXÃO DO EVANGELHO

20/11/2022

Nós cristãos atribuímos vários nomes ao Crucificado: “redentor”, “salvador”, “rei”, “libertador”. Podemos aproximar-nos dele agradecidos: ele resgatou-nos da perdição. Podemos contemplá-lo comovidos: ninguém nos amou assim. Podemos abraçar-nos a ele para encontrar forças em meio dos nossos sofrimentos e tristezas.

Entre os primeiros cristãos ele também era chamado “mártir”, isto é, “testemunha”. Um escrito chamado Apocalipse, redigido por volta do ano 95, vê no Crucificado o “fiel mártir”, a “fiel testemunha”. Desde a cruz, Jesus se apresenta a nós como testemunha fiel do amor de Deus e também de uma existência identificada com os últimos da sociedade. Não podemos esquecer disso.

Jesus identificou-se tanto com as vítimas inocentes que acabou como elas. A sua palavra incomodava. Tinha ido demasiado longe ao falar de Deus e da sua justiça. Nem o Império, nem o templo podiam consentir. Tinha que ser eliminado. Talvez, antes de Paulo começar a elaborar sua teologia da cruz, entre os pobres da Galileia, já se vivesse essa convicção: “Morreu por nós”, “por nos defender até o fim”, “por ousar falar de Deus como defensor dos últimos”.

Ao olhar para o Crucificado deveríamos recordar instintivamente a dor e a humilhação de tantas vítimas desconhecidas que, ao longo da história, sofreram, sofrem e sofrerão esquecidas por quase todos. Seria uma zombaria beijar o Crucificado, invocá-lo ou adorá-lo enquanto vivemos indiferentes a todo sofrimento que não é nosso.

O crucifixo está desaparecendo das nossas casas e instituições, mas os crucificados continuam aí. Podemos vê-los todos os dias em qualquer noticiário de televisão. Devemos aprender a venerar o Crucificado não num pequeno crucifixo, mas nas vítimas inocentes da fome e da guerra, nas mulheres assassinadas por seus companheiros, nos que se afogam quando os seus barcos afundam.

Confessar o Crucificado não é apenas fazer grandes profissões de fé. A melhor maneira de o aceitar como Senhor e Redentor é imitá-lo vivendo identificado com aqueles que sofrem injustamente.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Fonte: https://cebi.org.br/reflexao-do-evangelho/jesus-o-martir-fiel/

sábado, 19 de novembro de 2022

SOLENIDADE DE CRISTO REI DO UNIVERSO: REFLEXÃO DO EVANGELHO

Imagem: CEBI

SOLENIDADE DE CRISTO REI DO UNIVERSO – Lc 23,35-43

21 de novembro de 2022

JESUS CRISTO É REI PORQUE DEFENDE OS MAIS VULNERÁVEIS

As imagens de brilho e poder continuam exercendo uma irresistível sedução sobre muita gente, inclusive cristãos. Muitos entram em êxtase quando se aproximam de um chefe de Estado, de um rei ou príncipe, de um ídolo do esporte, de um cardeal ou do Papa. Mas os Evangelhos nos previnem severamente contra os riscos de uma identificação apressada e ingênua de Jesus Cristo com um rei ou um destes ídolos famosos. Quem identifica Deus com os reis, príncipes e sacerdotes acaba olhando o Cristo crucificado e os excluídos sem entender nada.

É verdade que Jesus anunciou algo como um reino ou reinado de Deus. Ele mesmo foi aclamado como descendente do rei Davi, como o Messias e o Rei esperado. Mas isso nada tem a ver com a figura dos reis e chefes que a história nos deu a conhecer, pois vários deles assassinaram os próprios familiares para alcançar o trono. A referência de Jesus a Davi expressa a esperança de um líder humilde e corajoso na defesa dos injustiçados, nos moldes do frágil e rejeitado filho de Jessé, excluído pelo próprio pai da festa dos filhos e herdeiros (cf. 1Sm 16,1-13).

Jesus anunciou e inaugurou o reinado de Deus, pois Deus reina quando os coxos andam, os cegos veem, os mudos falam, os presos conquistam a liberdade, os oprimidos adquirem a cidadania, os mortos ressuscitam e os pobres recebem boas notícias. Deus reina na medida em que homens e mulheres superam as relações de dominação e exercitam a solidariedade. Jesus realiza o reinado de Deus fazendo-se irmão e servidor de todos, prioritariamente dos mais vulneráveis. Ele renuncia à igualdade com Deus, despoja-se de tudo e assume a vida humana e a posição social dos escravos.

A cena descrita por Lucas no evangelho de hoje nos apresenta Jesus crucificado, entre dois condenados à morte. Toda a sua vida foi uma proclamação viva de um Deus que acolhe os últimos e faz justiça aos oprimidos. Pregado na cruz entre dois condenados, ele proclama de forma inequívoca a solidariedade de Deus com os excluídos. Enquanto os reis e príncipes se afastam dos homens e mulheres e os consideram desprezíveis, Jesus compartilha a sorte dos condenados e os acolhe no seu reinado. Certamente, ele não é um rei muito convencional!

Por isso, o Cristo pendente da cruz permanece como uma espécie de espada que penetra nossa fé até à medula, e incomoda a Igreja e seus chefes. Não passam de fuga e de traição as tentativas de substituir os espinhos por uma coroa de ouro, e a cruz por um trono glorioso. É na condição de condenado, de quem compartilha a condição dos desclassificados, que Jesus nos livra das trevas do poder impostor e é o primogênito da humanidade regenerada, o príncipe das mulheres e homens libertos. A ele podemos pedir: “Lembra-te de mim quando entrares no teu reinado!”

Enquanto expressão da proximidade e da solidariedade de Deus com a humanidade, Jesus é eloquente sacramento da humanidade renovada. É entregando-nos a vida como dinamismo e força de uma compaixão que regenera que ele nos salva. É compartilhando a humana carência que ele conquista a plenitude pela qual todos anelamos. E é fazendo-se em tudo irmão e servo que ele resgata a dignidade da verdadeira autoridade. Na boca de um dos companheiros proscritos e condenados ressoa a proclamação da inocência e da realeza de Jesus: “Ele não fez nada de mal”.

Celebremos a solenidade eclesial de Cristo Rei confirmando nossa resposta ao chamado para seguir seus passos, carregando a cruz da insignificância, testemunhando a fraternidade solidária acima das divisões, vivendo a missão de derrubar muros e construir pontes entre pessoas e povos. É isso que está acima de tudo, e não uma ideologia, um projeto de poder e de governo. É nisso que repousa a plenitude da vida e a maturidade da fé. É assim que somos recebidos no Reino de Deus.

Diante de ti, Jesus de Nazaré, e dos irmãos que estão contigo no calvário, reconhecemos a insensatez dos nossos desejos de poder e de glória, e te pedimos: elimina dos nossos corações estas pretensões descabidas. Reveste-nos da tua compaixão e guia-nos no caminho da solidariedade, a fim de que sejamos apenas Servidores/as dos mais pobres, multiplicadores dos sinais luminosos e efetivos do teu reinado ativamente presente na compaixão. Só assim contribuiremos para que reines, e seremos realmente teus irmãos e irmãs. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf

Fonte: CEBI.org.br
https://cebi.org.br/reflexao-do-evangelho/jesus-cristo-e-rei-porque-defende-os-mais-vulneraveis/ 

sábado, 24 de setembro de 2022

REFLEXÃO DO EVANGELHO DO DOMINGO: UMA NOVA DIVISÃO DE CLASSES

 

26º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 16, 19- 31

Conhecemos a parábola. Um rico despreocupado que festeja esplendidamente, alheio ao sofrimento dos outros, e um pobre mendigo a quem ninguém dá nada. Dois homens separados por um abismo de egoísmo e pela falta de solidariedade que, segundo Jesus, pode se tornar definitivo, por toda a eternidade.

Vamos mergulhar um pouco no pensamento de Jesus. O rico da parábola não é apresentado como um explorador que oprime sem escrúpulos seus servos. Esse não é o seu pecado. O rico é condenado simplesmente porque desfruta descuidadamente de sua riqueza, sem se interessar ou aproximar do pobre Lázaro.

Esta é a profunda convicção de Jesus. Quando a riqueza é exclusivo gozo da abundância, não ajuda a pessoa no seu processo de crescimento, mas a desumaniza, pois a torna indiferente diante da desgraça alheia.

A grave crise econômica está dando origem a uma nova divisão de classes: a classe dos que têm trabalho e a classe dos que não o têm; aqueles dentre nós que podem continuar a aumentar seu bem-estar e aqueles que estão ficando mais pobres; aqueles que exigem uma remuneração cada vez maior e acordos cada vez mais vantajosos e aqueles que não podem mais exigir nada.

A parábola do rico e do pobre Lázaro é um desafio à nossa vida satisfeita. Podemos ainda organizar os nossos jantares de fim de semana e continuar a desfrutar com alegria do nosso bem-estar quando o espectro da pobreza já ameaça muitos lares?

Nosso grande pecado é a indiferença. O desemprego tornou-se algo tão normal e cotidiano que já não nos escandaliza nem nos fere tanto. Fechamo-nos cada qual em nossa vida e permanecemos cegos e insensíveis perante a frustração, a crise familiar, a insegurança e o desespero desses homens e mulheres.

O desemprego não é apenas um fenômeno que reflete o fracasso de um sistema socioeconômico radicalmente injusto. Os desempregados são pessoas concretas que agora mesmo necessitam da ajuda daquelas de nós que desfrutam da segurança de um emprego. Daremos passos concretos de solidariedade se nos atrevermos a responder a estas perguntas: necessitamos realmente de tudo o que compramos? Quando termina a nossa necessidade e quando começam nossos caprichos? Como podemos ajudar os desempregados?

Texto: José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

Fonte: CEBI.ORG.BR

 

sábado, 27 de agosto de 2022

REFLEXÃO DO EVANGELHO DO DOMINGO: PRIORIDADE ABSOLUTA PARA OS PEQUENOS, POBRES E VULNERÁVEIS!


 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lucas 14, 1. 7-14

Jesus não desperdiça nenhuma ocasião para ensinar. Como Palavra viva e atuante de Deus, ele propõe uma inversão radical na escala dos valores da sociedade e da religião, e não se cala nem mesmo na casa de uma autoridade, em pleno jantar para o qual havia sido convidado. Ele desenvolve a corajosa lição de hoje num sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus, logo depois de afirmar que as necessidades de qualquer pessoa estão acima das leis. No dia dedicado à vocação dos leigos, fixemos os olhos em Jesus, a Palavra que ressoa como Boa Notícia.

Jesus evita ficar na periferia ou na superfície das questões essenciais. Seu ensino não é sobre as regras de boas maneiras numa refeição solene, mas sobre uma questão fundamental da vida cristã: quem é o maior ou o primeiro, o mais importante ou notável na vida cristã? Jesus começa pela crítica ao orgulho e aos privilégios e passa à questão dos beneficiários da nossa atenção. Ele conhece o costume de privilegiar, tanto nas festas quanto nas decisões e projetos políticos, os familiares, parentes, amigos e vizinhos. Para Jesus, este é um círculo muito estreito.

Inicialmente, Jesus fala aos hóspedes que estão com ele à mesa, afirmando que “todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”. Depois, dirige-se ao próprio anfitrião que o acolhe, questionando sua expectativa de retribuição. E deixa muito claro que orgulho e a busca de retribuição são posturas anti-evangélicas. Os cristãos e as igrejas não podem ceder a honras e vaidades, mas buscar decididamente o lugar reservado aos servidores, superar a velha prática de servir, apoiar e defender prioritariamente as pessoas e instituições que a favorecem.

Jesus propõe a inversão da ordem dos grupos e pessoas que costumam aparecer no topo das nossas listas de honoráveis, presenças infalíveis entre os convidados das nossas festas e solenidades: os pobres, aleijados, coxos e cegos devem ser os primeiros! É claro que aqui Jesus não quer estragar nossa festa, mas questionar a estreiteza das fronteiras que traçamos entre ‘nós’ e ‘eles’, entre os ‘nossos’ e os ‘outros’. Jesus coloca em questão a busca de compensações que rege nossas pequenas e grandes ações. A verdadeira felicidade consiste em dar generosamente.

Dom Helder Câmara nos ensinava que o maior perigo que ameaça os cristãos e a hierarquia é o desejo de sempre vencer e jamais fracassar, de sentir-se sempre querido/a e nunca sobrar. E chegou a advertir um colega bispo: “Mais grave do que ser apanhado pela engrenagem do dinheiro, é ser apanhado pela engrenagem do prestígio”. Na verdade, a busca de privilégios e compensações é tão desgastante quanto infantilizadora: o caminho que dá acesso a eles costuma passar pela subserviência, e é acompanhado pelo medo do anonimato e pelo apego doentio aos bens e títulos.

Para quem segue o caminho de Jesus, a recompensa é prometida para ressurreição dos justos. A felicidade que ninguém pode roubar é aquela que conquistamos entrando pela estreita porta da humildade, da generosidade e da solidariedade. É a alegria profunda que experimentamos quando ouvimos da boca dos porta-vozes da vida o convite: “Amigo, vem para um lugar melhor!” E, enquanto caminhamos nesta direção, não há honra e alegria maiores que servir, compartilhar sonhos e lutas com aqueles que normalmente são ejetados para os últimos lugares.

A Carta aos Hebreus nos diz que, em Jesus e na comunidade que o segue, torna-se visível a assembleia dos primogênitos, o verdadeiro povo de Deus, constituído de homens e mulheres que descobriram a grande honra de amar e servir. Esta é a verdadeira cidade de Deus, a manifestação e a morada de Deus no mundo. Fogo, tempestade, trevas, sons de trovões e trombetas são nada diante do sinal grandioso de homens e mulheres mansos e corajosos, humildes e generosos.

Jesus de Nazaré, servidor humilde e generoso, queremos acolher teu o chamado e seguir o teu caminho de estar entre os ‘últimos’ e a serviço deles. Que nesta semana, dedicada às vocações leigas, tua Palavra ocupe um lugar importante em nossa vida, ilumine nossa percepção e guie nossas decisões. Hoje tu nos pedes que reservemos os primeiros lugares aos que são vistos e tratados como ‘últimos’. Envia-nos teu Espírito, para que ele nos ajude a assimilar este mandamento e escutar teu convite: “Vem para um lugar melhor!”  Assim seja! Amém!

Texto: Itacir Brassiani msf

Fonte: CEBI.ORG.BR