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segunda-feira, 29 de julho de 2024

A FELICIDADE COMO DOM E TAREFA



"Ninguém é feliz "sem querer", porque a felicidade não é daquelas experiências que nos acontece por acaso. É do Céu, porque é um Dom, mas não cai do céu, porque é Tarefa!"



A nossa existência é um dom. De fato, fomos chamados à existência sem sermos consultados e sem nos ter sido dada a possibilidade de escolher nada: nem raça, nem língua, nem cultura ou nacionalidade. O conjunto destes dons primordiais constitui o leque básico dos nossos talentos, o qual varia de pessoa para pessoa. Na verdade, começamos por ser o que os outros fizeram de nós. Mas o mais importante é o que fazemos com o que recebemos dos demais.

A felicidade tem como alicerce uma vida edificada sobre as propostas do amor. Ninguém é capaz de amar antes de ser amado e o mal amado fica a amar mal, isto é, com bloqueios e cabeçadas, apesar de não ser culpado, mesmo quando dá o melhor de si.

Os seres humanos têm a tendência de pensar que a base da felicidade está no exterior, isto é, naquilo que nos acontece, no tipo de pessoas que encontramos, nos acasos do dia-a-dia ou no dinheiro que temos. Para a fé cristã, pelo contrário, a felicidade é algo que acontece no interior da pessoa, sobretudo quando esta se abre à presença do Espírito Santo que habita no seu íntimo. São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). Por outro lado, a Primeira Carta de São João diz que Deus é Amor (1 Jo 4, 7).

Para a bíblia, a felicidade acontece de modo especial no coração da pessoa que se empenha em ser fiel à Aliança de Deus. Podemos dizer que a felicidade não é uma simples ausência de sofrimentos, dificuldades ou problemas. Na verdade, a felicidade é uma experiência de plenitude que se vai reforçando de modo gradual e progressivo a partir de dentro.

No ensinamento das Bem-Aventuranças, Jesus diz que as contrariedades e obstáculos da vida, não anulam a felicidade quando esta é alicerçada no amor e na fraternidade (Mt 5, 1-12).

Se olharmos para os textos bíblicos nos quais Deus foi indicando caminhos e propostas de realização humana, facilmente descobrimos as sugestões de felicidade que Deus nos propõe. Jesus disse que as pessoas que tomam a sério os critérios e as propostas de Deus têm todas as condições para serem pessoas felizes. Foi o que aconteceu com São Paulo, o qual foi perseguido e maltratado por causa de Cristo e do Evangelho e apesar de tudo isso ele sentia-se feliz no meio das suas tribulações: “Sinto-me profundamente alegre no meio de todas as minhas tribulações” (2 Cor 7, 4).

Viver de modo consciente os dons de Deus é uma razão profunda para o crente viver feliz: “Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus. E somo-lo de verdade (1 Jo 3, 1-2).

A felicidade é um dom de Deus mas é também uma tarefa nossa, pois Deus não nos substitui. Está conosco, mas não está no nosso lugar. Isto quer dizer que há uma série de atitudes e opções que não podemos deixar de realizar no dia-a-dia da nossa vida, a fim de edificarmos a felicidade.

Eis algumas atitudes importantes que devemos cultivar, a fim de atingirmos esse estado de paz interior e alegria próprio das pessoas felizes:

- Aprender a viver com aquilo que não podemos mudar.

- É muito importante aprendermos a aceitar-nos, apesar das nossas limitações.

- Cultivar pensamentos construtivos e partilhar com os outros uma visão positiva da vida.

- É fundamental cultivar a honestidade consigo e os outros.

- Felizes dos que enfrentam as dificuldades da vida com confiança, procurando viver unidos a Deus.

- É muito importante não andarmos sempre a comparar-nos com os demais.

- Não nos devemos deixar esmagar por situações cuja solução não está nas nossas mãos.

- Não será feliz quem não aprende a partilhar com os outros o seu tempo, os seus bens e o seu saber.

- É importante cultivar o sentido de humor, impedindo que os pensamentos negativos nos dominem.

- Não nos devemos esquecer de cuidar de nós. Quem não gosta de si não conseguirá gostar dos outros.

- Ajudemos os outros sempre que se nos ofereçam ocasiões de o fazer.

- Mantenhamo-nos o mais possível calmos, evitando situações de stress.

- Procuremos ser moderados na comida e na bebida.

- Nas relações com os outros procuremos adoptar atitudes de humildade e discrição.

- É muito importante aprender a escutar as mensagens que os outros nos querem transmitir.

- Procuremos estar sempre actualizados nos assuntos que fazem parte do nosso trabalho ou missão.

- Cultivemos a capacidade de partir de uma situação para outra.

- As mudanças trazem com frequência novas possibilidades de crescimento e realização pessoal.

- Procuremos viver a vida com paixão.

- Mantenhamo-nos ocupados com coisas das quais gostamos verdadeiramente.

- Respeitemos os outros como gostaríamos de ser respeitados por eles.

- Não ponhamos como objectivo da nossa vida o simples amontoar de riquezas.

- Lembremo-nos sempre de que a fonte da felicidade é o amor e não o dinheiro. Isto quer dizer que as pessoas que têm muito dinheiro, se quiserem ser felizes, têm de pôr o dinheiro ao serviço do amor.

- Procuremos ser gratos para com os outros, aceitando os seus dons e as oportunidades de realização que eles nos oferecem.

- Elaboremos objetivos de vida e procuremos realizá-los, numa linha de fidelidade a nós mesmos.

- Não percamos de vista as metas e objetivos que pretendemos alcançar.

- Dentro do possível evitemos endividar-nos, procurando gerir os nossos bens de modo a bastar-nos.

- Não corramos riscos incontrolados, sobretudo não nos comprometamos em campos que não conhecemos e não controlamos.

Porque ninguém é feliz "sem querer", porque a felicidade não é daquelas experiências que nos acontece por acaso. É do Céu, porque é um Dom, mas não cai do céu, porque é Tarefa!

Pe. Santos Calmeiro Matias, cssr.



domingo, 5 de novembro de 2023

ABRIR MÃO... VOLTAR ATRÁS

Texto tão lindo, feito um buquê de flores...

Custa muito abrir mão… voltar atrás… Custa muito! MUITO mesmo! Lágrimas. Noites de insónia. Enjoos. Psiquiatra. Tribunal… ou, decidir percorrer um Caminho de MUDANÇA!!!

É que são tantas as coisas a que “tenho direito e tantos os “trastes” que não cansamos de chamar MEU! MEU! MEU!

E as pessoas? De quantas pessoas eu já me senti dona, com direito a guardá-las na minha mão fechada sem perceber que, quanto mais as agarro. mais elas vão escorregar da minha mão? Acaba sempre vindo um belo dia em que vão perceber que eu estou lhes roubando a possibilidade de SER e, lá vão elasas “mal-agradecidas”! E “eu que lhes dei tanto”, e “eu que tanto as ajudei” (S[o falta falar como quem compra! Quantas? Nem os dedos das mãos dão conta. E a você? Amigos… Irmãos… Filhos … Amados?

Mas, algumas vezes já, também me senti apanhada, presa em nome do "amor", da "amizade", da "comunhão", da "paz" (nós temos o vício de abusar das palavras!). Quando dei por mim, quando descobri que estava a ser sugada, zarpei para outras águas.

Penso que uma das grandes (A)venturas da nossa Vida é nos educarmos para deixar que as pessoas pousem nas nossas mãos bem abertas. E todos os dias olhar para elas para ver se a tentação de fechá-las foi mais forte que a consciência dela.

AMAR BEM é amar com leveza. AMAR BEM é deixar que o outro possa pousar e repousar,  já que é esse o jeito do Espírito do Amor, do Espírito Santo do nosso Deus.

Só esse jeito de Amar nos pode vestir e assentar como uma luva, para que aqueles que amamos se FAÇAM BEM, se FAÇAM segundo a Liberdade! Que é uma fonte inesgotável de delicadeza, de criatividade, um horizonte imenso de possibilidades e descobertas, um Mistério no qual se nos vai desvelando o Amor Todo-poderoso do nosso Deus, que tudo faz para que cada um de nós SEJA o que É, aquilo que está chamado a SER: Inteiro! SALVO!

É em Liberdade que vamos nos fazendo, uns aos outros, artesãos de Comunhão. Construtores do Novo. Naturalmente. De tal modo que o Silêncio, as Palavras e os Gestos acabam por falar sempre de Humanidade, aconteçam eles no meio das nossas fragilidades, das mais dolorosas experiências de impotência ou das maiores alegrias. Também na doença. Também na Morte.

Porque, sempre que tocamos o mais fundo e o mais definitivo da Vida é TEMPO de SER. Porque é lá, onde a Vida grita, geme ou ri, lá onde estamos nus, que percebemos o quê e quem guardámos na nossa mão fechada. E, também é lá que percebemos que guardar coisas empobrece-nos e, guardar pessoas deixa-nos sozinhos.

Sinto que hoje pode ser um primeiro dia, dia de empurrar para bem longe de nós todos os amores que prendem, porque fazem de nós anões porque se tornam empecilho ao Crescimento. Amor que prende, pede ou espera retribuição, cria culpas sem sentido e está condenado a azedar. Não tem futuro. A Gratidão chega quando não se espera nem se procura. Vem SEMPRE por acréscimo, a regurgitar de Graça.

Sinto que ainda vou aprender a AMAR largando, voltando atrás… a tempo de poder ser participante na FELICIDADE de um Deus que Cria mas diferencia para unir, na pluralidade e na riqueza dos Dons que o Seu Espírito suscita em nós.

O Amor que diferencia, aprende a dar um passo atrás para VER MELHOR o outro e poder dizer, encantado: Tão ELE! Tão ELA! Tão BOM! Tão BELO!


Glória Marques - CER - Braga, Portugal



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