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segunda-feira, 5 de outubro de 2020

MÍDIAS DIGITAIS: NOVOS SUJEITOS, NOVOS CATEQUISTAS

 

Comunicação significa “ com – múnus”, aquilo que é compartilhado, ou seja, um dom pessoal ofertado a outro ou um dever de todos para com todos. A comunicação, na sua essência, tem o objetivo de criar comunhão, estabelecer vínculos de relações, promover o bem comum, o serviço e o diálogo. Já aprendemos que o “encontro suscita o anúncio”. Santo Agostinho nos disse: “Se quero, porém, falar contigo, procuro o modo de fazer chegar ao teu coração o que já está no meu. ”

Eu pergunto: não tem sido isso, o que estamos fazendo por aqui, através do Grupo de Facebook e através do Blog Catequistas em Formação? Primeiro, teve o encontro, mesmo que virtual. Antes, porém, um objetivo comum, ou seja, a evangelização, porque a Igreja existe para evangelizar. Depois do encontro, o anúncio. Às vezes, pode até parecer que o anúncio não está acontecendo. Mas está, e de forma concreta ele acontece entre nós por aqui. De que forma? Em cada curtida, em cada postagem que é compartilhada, cada comentário, um vídeo que seja visualizado, uma foto, uma frase, um texto, uma provocação, uma reflexão a respeito da nossa missão, a nossa interação uns com os outros, tudo isso transforma o encontro em anúncio. A nossa manifestação, mesmo que tímida, às vezes nem aparece, é, ao mesmo tempo, um recado ao mundo de que nesta imensidão de coisas, de fatos, informações, nesta “loucurada” que se transformou a internet, há também gente disposta a fazer as coisas diferentes.

No marketing se diz: onde existe uma necessidade, existe também uma oportunidade. Mais de cinco milhões de visualizações – quase seis - num blog voltado aos catequistas é a prova da necessidade, de Deus, de uma mensagem mais uma humana, de caminhos diferentes, de palavras que tocam mais o coração, de transformação da sociedade. Mais de cinco milhões de visualizações num blog evangelizador, direcionado para catequistas, organizado por leigos, atualizado por colaboradores? Isso, gente, é raro, impensável, é quase de não acreditar.

A cultura digital que está estabelecida nos dias de hoje, nos desafia a reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé. Isso significa favorecer a comunhão e a cooperação entre as pessoas. Então, estamos no caminho certo, e isso é ótimo. Estamos, também, e isso é louvável, fugindo daquilo que os especialistas em comunicação chamam de “lógica do mercado”, ou seja, tudo aquilo que a gente vê nos veículos de comunicação de massa: monopólio, lucro, modelos distorcidos, busca obsessiva por ouvintes, telespectadores e leitores e com isso, uma despreocupação com a qualidade da programação, com uma comunicação social vulgar e banalizada. Não é isso que temos aqui, não é isso que queremos ao propagar o projeto de Deus através de um blog. Aliás, o que queremos aqui é justamente o contrário da lógica do mercado: formar cristãos capazes de anunciar a palavra e dar voz aos que dela são privados.

Por isso, um número como como esse de cinco milhões de visualizações num blog voltado aos catequistas, é um feito a ser comemorado e, ao mesmo tempo, nos desafia a pensar além.  Existe uma necessidade bem clara, e a oportunidade de evangelizar, de tocar corações e transformar o mundo, é agora, não pode ser amanhã, não podemos postergar. Somos comunicadores por excelência. A catequese hoje não nos pede que sejamos discípulos, missionários, apóstolos, evangelizadores?  Então, o catequista deve ser um facilitador neste processo, um mediador, um facilitador da comunicação e não um dificultador. O dom do discipulado, é ser comunicador. Estamos imersos num mundo digital, isso não tem volta, não adianta lutar contra. Mas é bom que saibamos e lembremos algo: o anuncio de uma mensagem, seja ela em qual plataforma for, está intimamente ligado e vinculado a um testemunho coerente por parte que de quem anuncia.

Os meios de comunicação, devem servir ao humano e isso significa, conhece-lo e principalmente amá-lo. Com isso, sejamos cada vez mais, novos sujeitos através das mídias digitais. Dá sim, para construir amizades autênticas por aqui e transformar este mundo em algo melhor. O nosso grupo, dos Catequistas em Formação, é um pouco, a prova disso.

 Alberto Meneguzzi

Caxias do Sul - RS

domingo, 18 de novembro de 2018

REDES ANTISSOCIAIS


O quanto as redes sociais nos tornaram antissociais uns com os outros 

O surgimento da internet e sua propagação há até alguns anos despertaram sonhos e esperanças diversos: acabariam as fronteiras e divisões; governos autoritários seriam extintos; haveria uma magnífica construção coletiva do conhecimento em que todos participariam; seriam formadas autoestradas da informação, a sociedade da informação e um novo ser humano. Com o advento das chamadas “redes sociais”, o encantamento, que em grande parte continua, tem sido o mesmo. Supunha-se que criariam vínculos entre diferentes de maneira ilimitada, dentre outras expectativas.

Em parte, essas possibilidades se concretizaram. Inclusive, no Brasil, o pouco de vozes diferentes e independentes da grande mídia de direita, que ao longo da história tem encampado os pontos de vista e interesses dos 5% mais ricos da sociedade, tem tido espaço graças à internet. Mas as sociedades e estudiosos estão atônitos de como as redes digitais tem ido em sentido contrário a tantas das expectativas imaginadas.

A tão festejada primavera árabe tornou-se inverno árabe, colocando governos autoritários no poder. E em todos os lugares discursos de ódio, notícias falsas, agressividade, autoritarismo, preconceitos, racismo, machismo, acirramento de divisões de classes sociais encontraram terreno fértil nas redes digitais. Pessoas se agruparam por meio delas com essas afinidades, outros despertaram ou fortaleceram tendências que tinham latentes e outros são intoxicados ao frequentar e usar tais redes.

As expressões de agressividade não se dão em torno de grandes temas e questões políticas ou ideológicas. Mas é comum que temas os mais diversos e até assuntos banais se tornem motivo para comentários maldosos, grosseiros e agressivos. Há uma espécie de pulsão ou prazer por fazer polêmica em tais ambientes. As reações na rede costumam ser impulsivas, rápidas e desregradas. O teclado está à mão e o monitor ligado. Seu discurso não é dialógico, mas, muito mais monológico. Na sua frente não há olhos a serem encarados sob aprovação ou censura, mas só uma tela. Um ambiente que tem favorecido a projeção do que há de pior nas mentes e sentimentos das pessoas.

Temas falsos são propalados ou fortalecidos rapidamente com muitos comentários, “curtidas” ou compartilhamentos. As ondas de comoção virtuais em grande escala com assuntos falsos no todo ou em parte, verdadeiros tsunamis virtuais, ganharam até nome sugestivo na literatura especializada: “shitstorms” ou tempestades de merda (no mundo político, quem primeiro usou essa expressão foi Angela Merkel). Outro aspecto curioso é que, ao invés das infinitas interações com as diferenças, as pessoas estabelecem suas rotas costumeiras e bem conhecidas nas redes, fazem seus guetos, segmentações e levam para a rede as divisões, estereótipos e preconceitos que têm no mundo físico.

Imaginou-se que a internet e as redes digitais seriam uma apoteose da comunicação e se constata que a comunicação como interação e criação de entendimento está muito frágil. Segundo Dominique Wolton, em É preciso salvar a Comunicação (Paulus, 2006), essa frustação ocorre porque não basta apenas técnica e tecnologia para se comunicar, são necessários os valores humanísticos e democráticos, a capacidade de aceitação, respeito e troca com o diferente.

Essas constatações não simplesmente podem ser vistas como fator de pessimismo, mas alertam para que a humanidade não se esqueça que as técnicas, sem formação e orientação ética, sem humanismo e sem organização social, não fazem por si um mundo melhor e mais justo, nem muito menos o paraíso tecnológico e comunicacional.

Por Jakson F. de Alencar*

* Religioso paulino, jornalista, mestre em Comunicação pela PUC-SP, onde também cursa doutorado na mesma área. Editor da revista Vida Pastoral, tem colaborado com a editora Paulus em diversas áreas de suas publicações. Publicou, pela Paulus, o livro A ditadura continuada, no qual trata das ligações entre os meios de comunicação hegemônicos no Brasil e a política na atualidade.

FONTE: