sexta-feira, 14 de agosto de 2020

A SACRAMENTALIDADE DA LITURGIA

 

Foto: Lucas Rocha

Buyst, Ione. Alguém me tocou!  in: Revista de Liturgia, no 176, p. 4-9; (adaptações: Dom Edmar Peron).

 

Podemos nos tocar uns aos outros com a mão, com o olhar, a voz, a aproximação de todo o corpo, ou também através de um instrumento ou objeto... O que é tocado em mim, quando alguém me toca, ou quando eu toco alguém? Tocando a mão de alguém ou ferindo-a, tocamos ou ferimos a pessoa mesma. Sem o toque não há relação; sem o toque o encontro não é possível.

Tocar Deus (!?)

No evangelho, uma mulher, sofrendo de hemorragia havia muitos anos, toca a roupa de Jesus, na esperança de se curar. Ela fica livre de sua doença. Jesus percebe a força que saíra dele e pergunta: Quem me tocou? (Mt 9,20-22). Podemos acrescentar uma outra pergunta: quem a mulher tocou quando tocou em Jesus? Para a tradição cristã, a força que habita Jesus não é apenas uma força psíquica, mas a força do próprio Espírito Santo. Jesus é reconhecido, na fé, como o Emanuel, Filho de Deus, Verbo feito carne. Por isso Jesus diz: Quem me vê, vê o Pai. Eu estou no Pai e o Pai em mim. (Jo 14,9-10) e a primeira carta de João explicita: O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos, e o que nossas mãos apalparam do Verbo da vida – porque a Vida manifestou-se – o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos para que estejais também em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. (1Jo 1,1-4).

A Vida se manifestou, se deu a conhecer, ver, ouvir, apalpar. Ver Jesus, ouvi-lo, tocá-lo..., é ver, ouvir, tocar Deus! Para se comunicar com a pessoa humana, salvá-la e propor-lhe a possibilidade de uma vida de intimidade, de comunhão, Deus teve que se tornar audível, visível, palpável, isto é, ao alcance de nossos ouvidos, de nossos olhos, de nossas mãos! Deus teve que nos tocar e se deixar tocar em Jesus.

Uma nova maneira de se pensar a liturgia.

A imagem do “toque” nos ajuda a compreender a sacramentalidade da liturgia. De fato, antes do Concílio, o termo “sacramento” era usado unicamente para se referir aos sete (batismo, confirmação, eucaristia,...). Mas o Concílio mudou radicalmente esta maneira de ver. Fala da Igreja como sacramento e apresenta toda a liturgia, e não apenas os sete sacramentos, como uma ação sacramental, uma ação de Deus que vem salvar seu povo. Eis o sentido de “sacramentalidade” da liturgia (ainda que este termo não apareça no documento).

Liturgia situada na história da salvação.

Na SC, principalmente nos 5-8, a liturgia, assim como a Igreja, é situada na longa história da salvação, cujo ponto culminante e central é Jesus Cristo: o Verbo se fez carne e habitou entre nós. O tempo antes de Cristo é apresentado como preparação e o tempo depois dele é o tempo da Igreja, que decorre do mistério revelado em Cristo e encaminha-se à plena realização do Reino.

É importante notar também a relação que existe entre as palavras “mistério” e “sacramento”; no texto latino-africano da Bíblia, a palavra grega «mysterion» é quase sempre traduzida por «sacramentum». E nas cartas aos Efésios e aos Colossenses os dois termos são usados indistintamente, ou seja, o sentido originário da palavra “sacramento” é... o mistério de Deus, revelado em Jesus Cristo. Este mistério é celebrado na liturgia, através de sinais sagrados, sensíveis e eficazes, para dele podermos participar.

Hoje usa-se as duas palavras, mistério e sacramento, também para designar a liturgia em seu conjunto e em seus detalhes, como por exemplo, o sal usado no batismo, os funerais, a consagração das igrejas...

A estrutura sacramental na economia da salvação.

O grande estudioso da liturgia, Vagaggini, diz que existente uma “íntima e indissolúvel conexão” na ordem atual da salvação entre Cristo, a Igreja e a Liturgia: Cristo age na Igreja e através dela, a Igreja age principalmente na liturgia e através dela. Esta relação se apresenta como uma «estrutura sacramental», ou seja, uma “realidade visível e sensível que, de algum modo, contém e comunica aos que estão bem dispostos uma realidade invisível, sagrada e divina da ordem da salvação, (...) manifestada a quem tem fé e escondida a quem não a tem. Tal é a estrutura de Cristo, tal a estrutura da Igreja, tal a estrutura da Liturgia”.

Cristo é o sacramento primordial; a Igreja é o sacramento geral; a Liturgia é o sacramento mais restrito, particularmente nos sete sacramentos, que é seu núcleo central, e mais especificamente na eucaristia, que é o sacramento por excelência.

Relacionando com a imagem do toque, podemos dizer que na pessoa de Jesus, Deus “tocou” nossa humanidade para salvá-la, para realizar o encontro, a comunhão. Hoje, o Cristo Ressuscitado continua nos “tocando” em seu Corpo, que é a Igreja, e nos Mistérios celebrados, nas ações simbólico-sacramentais realizadas nela, por Ele: a liturgia.

Assim, a SC lembra a estrutura humano-divina da pessoa de Cristo e de sua obra: “Deus enviou seu Filho, Verbo feito carne, ungido pelo Espírito Santo. (...) Sua humanidade, na unidade da pessoa do Verbo, foi o instrumento de nossa salvação...”.

Depois apresenta a Igreja como sacramento nascido de Cristo: “do lado do Cristo, dormindo na cruz, nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja” (SC 5). Também ela é humana e divina, sendo que “o humano se ordena ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação e o presente à cidade futura” (SC 2); é a ação invisível do Espírito, servindo-se de meios humanos e visíveis.

Em seguida, fala da liturgia: é um conjunto de sinais sensíveis através dos quais Cristo continua sua obra de salvação de toda a humanidade e de glorificação de Deus, unindo a si a sua Igreja para levar avante esta obra. “Disto se segue que toda a celebração litúrgica (...) é uma obra sagrada por excelência, cuja eficácia nenhuma outra ação da Igreja iguala...” (SC 7).

Assim, na SC “a ‘sacramentalidade’ de toda a liturgia é salientada com grande ênfase”, e o complexo de sinais sensíveis – através dos quais Cristo age na liturgia – não se refere somente ao culto prestado por nós a Deus (glorificação), mas também à santificação que Deus realiza em nós (santificação).

Sinais sensíveis, significativos e eficazes no encontro do Ressuscitado com o seu povo.

São três as afirmações da SC 7 a respeito dos sinais com os quais se realiza a liturgia.

1) São sinais sensíveis, ou seja, atingem nossa sensibilidade a partir da corporeidade. São coisas que podemos ver ou ouvir, apalpar, cheirar, degustar...: pão e vinho, água, óleo, incenso, velas acesas..., espaço para celebrar, altar, estante da Palavra..., mãos se tocando, ungindo, pessoas reunidas, se cumprimentando, abraçando, cantando, atuando em conjunto... Daí a necessidade de se cuidar da maneira de celebrar, de cultivar a a das ações litúrgicas (Cf. SC 47), e também da verdade destes sinais: pão de verdade, comunhão do pão consagrado naquela missa e não do pão de missa anterior, guardado no sacrário (SC 55), vinho para todos (SC 55), água para o batismo em abundância... A música é parte integrante e necessária, intimamente ligada à ação litúrgica (SC 112-121). Da arte sacra, das vestes litúrgicas e dos objetos pertencentes ao culto divino se pede que sejam “dignos, decentes e belos, sinais e símbolos das coisas do alto” (SC 122).

2) Os sinais sensíveis foram escolhidos por Cristo e pela Igreja para significar as coisas divinas invisíveis (SC 33). São sinais simbólicos, sacramentais: sinais sensíveis que remetem à realidade invisível, ao mistério de nossa fé, ao «Mistério Pascal» de Jesus Cristo. São “sacramentos da fé”; não somente a supõem, mas também a alimentam, fortalecem e exprimem (SC 59). Para que possam ser reconhecidos como tais, requerem conhecimento das coisas da fé, aprofundados através de mais abundante leitura das sagradas Escrituras, da restauração da homilia que anuncia o mistério de Cristo, da catequese litúrgica... (SC 24;35;51-52). É necessário que os participantes “acompanhem com a mente as palavras, participem consciente, ativa e frutuosamente” (SC 11).

Daí ao menos três exigências pastorais:

a) as ações sagradas devem “resplandecer de nobre simplicidade, sejam transparentes por sua brevidade... acomodadas à compreensão dos fiéis e, em geral, não careçam de muitas explicações” (SC 34; 59);

b) o povo e o clero precisam de formação litúrgica (SC 15-19);

c) as ações litúrgicas “exprimam mais claramente as coisas santas que elas significam” (SC 21). Também as exigências da adaptação à cultura de cada povo celebrante entram nesta mesma perspectiva (SC 36 a 40; 54; 63).

3) Esses sinais sensíveis, escolhidos para significar as coisas da fé, são eficazes, pois realizam o que significam. “Assim, pelo batismo as pessoas são inseridas no mistério pascal de Cristo; com ele, mortas; com ele, sepultadas; com ele, ressuscitadas... Da mesma forma, toda vez que comem a ceia do Senhor, anunciam-lhe a morte até que venha...” (SC 6).

A eficácia dos sinais sensíveis na liturgia vem do fato de se tratar de ações do Cristo com seu Espírito, presente, não somente no pão e no vinho eucarísticos, mas igualmente no ministro que preside, na palavra anunciada, nos sacramentos, na assembleia reunida que ora e canta... (SC 7): “Eu te encontro nos teus mistérios” (S. Ambrósio); “O que era visível em nosso Redentor passou para os mistérios” (S. Leão Magno). Assim: é nas ações litúrgicas que vemos, ouvimos, percebemos Cristo Crucificado/Ressuscitado vindo ao nosso encontro, atuando, salvando, instaurando o Reino de Deus.

No entanto, não basta celebrar. Espera-se que aquilo que é vivido sacramentalmente, ritualmente, na celebração, tenha continuidade na vida diária, no testemunho no meio do mundo: “saciados pelos sacramentos pascais, sejam concordes na piedade, conservem em suas vidas o que receberam pela fé, sejam estimulados para a Caridade imperiosa de Cristo” (SC 10). Mais: “devemos sempre trazer em nosso corpo a morte de Jesus para que também a sua vida se manifeste em nossa carne mortal” (SC 11), ou seja, a memória da morte-ressurreição de Jesus celebrada na liturgia deve se ‘encarnar’ em nossa vida; a oferta de nossa vida, juntamente com a de Jesus na celebração eucarística, se prolongue em nosso cotidiano a tal ponto que sejamos feitos “eterna dádiva sua” (SC 12). Celebração litúrgica, vida espiritual e comportamento ético não são coisas estanques, separadas.

 



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