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quinta-feira, 11 de junho de 2020

COMO FICA A INICIAÇÃO A VIDA CRISTÃ/CATEQUESE EM 2020?

Desde o início do isolamento social, em meados do mês de março, as atividades da Catequese de Crianças e Adolescentes, Catequese Batismal e Catecumenato de Adultos permaneceram suspensas. Como a situação da pandemia tende a se prolongar, a Arquidiocese de Curitiba emitiu novas orientações com adaptações necessárias a fim de que passos possam ser dados ainda neste ano de 2020.

Estas ORIENTAÇÕES PARA A CATEQUESE, são para a Arquidiocese de Curitiba -PR. Observem, no entanto, que a Região Metropolitana de Curitiba mesmo totalizando 3.260.292 habitantes, sendo a segunda mais populosa do sul do país e a oitava do Brasil, possui um índice de contaminação baixa se comparada a outras capitais. Ao todo, Curitiba já confirmou 1.619 casos de Covid-19, com 67 óbitos, mas ainda está na curva ascendente. 

A Arquidiocese de CURITIBA, NÃO TERÁ ENCONTROS PRESENCIAIS DE CATEQUESE ESTE ANO.

Leia a Carta do Arcebispo D. Jose Antônio Peruzzo e da Comissão de catequese:

ORIENTAÇÕES PASTORAIS SOBRE A INICIAÇÃO À VIDA CRISTà NA PANDEMIA DA COVID-19 EM 2020 – ARQUIDIOCESE DE CURITIBA

Curitiba, 10 de junho de 2020, festa de São José de Anchieta.

Caríssimo Padre,
Caríssimos (as) agentes da Iniciação à Vida Cristã

1. Nunca tínhamos nos deparado com situações como a de uma pandemia. O mundo inteiro precisou fazer uma pausa para reflexão. Parecíamos viver sobre trilhos corrediços. Quase tudo precisou de uma revisão nos processos e movimentos. Também os processos de evangelização estão a requer novas análises, pois a tal da pandemia, que se afigurava efemérica, agora mostra-se mais longeva.

2. Por outro lado, graças a Deus, há um bom número de catecúmenos adultos cuja situação está a pedir reflexão. Eles aguardam uma resposta. E o bom pastoreio se mantém em movimento, não silencia nem nos tempos extraordinários.

3. Como sabe a Iniciação à Vida Cristã não é apenas um caminho de conhecimento intelectivo da fé. Por sua natureza a experiência de fé reclama um processo comunitário, gradual. Requer encontro com a Palavra de Deus, ritos e celebrações e mistagogia. E os encontros virtuais não contemplam tais vivências. Torna-se, pois, difícil considerá-los válidos para o processo iniciático. Contudo, em diálogo com a Comissão de Animação Bíblico Catequética, eis que surgiram algumas propostas:

SOBRE A PASTORAL DO BATISMO

4. A decisão de retomar as ações da Pastoral do Batismo é do pároco. Respeitando-se as normas de distanciamento social e higiene (uso de máscaras e álcool em gel), podem-se retomar os encontros. Por favor, preserve-se e se salvaguarde o caráter personalizado deste processo. O tal do "curso" é muito impessoal. Não responde à natureza comunitária e eclesial do sacramento. Caso considerem arriscada a visita às casas, podem se escolher os espaços amplos e apropriados da Paróquia. Contudo, evite-se expor ao perigo de contágio os agentes, pais e padrinhos que fizerem parte do grupo de risco, conforme orientações sanitárias.

5. Em tempos pandêmicos vale criar novos horários para a celebração do sacramento do Batismo das crianças, a fim de que não haja aglomeração. Para os detalhes acerca dos gestos litúrgicos, sigam-se as "Orientações da CNBB para as Celebrações Comunitárias no Contexto da Pandemia da COVID-19" *, números 33 a 39, que segue anexa a esta carta.

SOBRE A CATEQUESE DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

6. Propomos dois caminhos. Pároco e Coordenadores da Catequese Paroquial podem avaliar o de melhor efetividade. Não são excludentes. Cabem adaptações à realidade paroquial e a situação particular familiar. Porém, cuide-se para que não haja facilitações negligenciadoras. Para crianças e adolescentes a boa Iniciação permanecerá na memória afetiva por toda a vida.

7. PROPOSTA 1: Enquanto durarem as medidas de distanciamento social, realizar encontros catequéticos nas casas conduzidos pelos pais ou responsáveis com validade no processo iniciático.

a. De julho a dezembro inclusive, os pais ou responsáveis deverão conduzir o encontro catequético com seu(s) filho(s) em sua casa, semanalmente, em dia e horário mais apropriado à família.
b. O catequista enviará previamente aos pais ou responsáveis as orientações para a realização do encontro catequético em casa.
c. O catequista acompanhará se houve ou não a realização do encontro catequético na casa da família.
d. O catequista deverá utilizar o esquema com os elementos do encontro catequético organizado pela Comissão Bíblico Catequética (a ser disponibilizado nos próximos dias) para orientar os pais na condução do encontro catequético em casa. O itinerário de temas segue o subsídio Crescer em Comunhão.
e. Sobre o Sacramento da 1ª Eucaristia: planeje-se uma nova data para a celebração, observando as normais sanitárias. A pressa expõe ao risco. Se for conveniente realize-se o sacramento no próximo ano, na 5ã etapa, no tempo pascal.
f. Sobre o Sacramento da Confirmação: os párocos, mediante solicitação junto à Chancelaria na Cúria, podem celebrar a Crisma em suas respectivas paróquias. Melhor será se convidarem algum pároco vizinho. Isso favorece a integração e a reciprocidade entre comunidades. Se possível, que seja ainda neste ano. Todavia, evitem-se aglomerações. Se necessário, pode-se celebrar várias vezes, em pequenos grupos.
g. Não se omita a preparação próxima para os sacramentos da Iniciação à Vida Cristã.
h. Para os detalhes acerca dos gestos litúrgicos da Celebração da Primeira Eucaristia e da Crisma, sigam-se as "Orientações da CNBB para as Celebrações Comunitárias no Contexto da Pandemia da COVID-19", números 52 a 57, anexa a esta carta.

8. PROPOSTA 2: Em 2020, usar dos meios de comunicação virtual para encontros que preservem os vínculos eclesiais com os catequizandos. Embora não substituam os encontros presenciais, eles ajudam muito na preservação do grupo. O processo iniciático será, então, retomado em 2021.

a. Neste caso, mantém-se por agora suspensa a catequese de iniciação, retomando-a no próximo ano. Mas não se esqueçam os encontros virtuais e a proximidade dos agentes com os "Iniciantes".
b. Aos catequistas recomenda-se vivamente que mantenham estreitos os vínculos com os seus catequizandos e suas famílias. Os meios virtuais se tornam um precioso meio. Tudo o que se quer é manter a proximidade com famílias e catequizandos impossibilitados de realizar a "Proposta 1".

SOBRE O CATECUMENATO COM ADULTOS

9. As paróquias que não concluíram o catecumenato de adultos com as suas etapas e celebrações, poderão agora replanejá-las durante os próximos meses. Sugere-se que os sacramentos sejam celebrados individualmente para se evitar aglomerações.

10. Para a celebração dos Sacramentos da Iniciação Cristã de Adultos, sigam-se as "Orientações da CNBB para as Celebrações Comunitárias no Contexto da Pandemia da COVID-19", números 40 a 51, que segue anexa a esta carta.

11. Os novos grupos de catecumenato em 2020 podem ser iniciados normalmente, seguindo-se as normas de distanciamento social e higiene (grupos pequenos, uso de máscaras e álcool em gel).

12. A Comissão da Animação Bíblico-Catequética estará à disposição no Centro Pastoral para os devidos esclarecimentos pelos canais costumeiros:

a. E-mail: catequese@mitradecuritiba.org.br
b. Fone: 2105-6363 / 2105-6318

Que São José de Anchieta, Apóstolo do Brasil e Patrono dos(as) Catequistas, seja nosso intercessor para que continuemos a evangelizar com ardor, na urgência de novos métodos, em inspiração catecumenal.



   DOM JOSÉ ANTÔNIO PERUZZO                       PE. LUCIANO TOKARSKI 
                    Arcebispo                                        Comissão Bíblico-Catequética



* ORIENTAÇÕES LITÚRGICO PASTORAIS - CNBB:  CLIQUE



UM DIA DE CORPUS CHRISTI...



Hoje é o dia de Corpus Christi mas... Não dá para festejarmos e levar Jesus para "tomar sol".

Então vou contar um dia de Corpus Christi, trazer as lembranças deste dia maravilhoso. Não exatamente o dia, mas, a “preparação” para ele. Vou contar como foi meu "Corpus Christi", lá no longínquo ano de 2009...

Flashback... tcham, tcham, tcham!

Manhã de Catequese...
(04/06/2009)

Em algumas manhãs, acordar é brabo! Dá vontade de fechar os olhos e fingir que ainda é de noite. Mas tem dias que acordar é um espetáculo. O sol entrando pela janela, derramando seus raios e espalhando seu calor pelo quarto, faz com que a gente acredite só no bem. Que só existem pessoas boas e que o mundo, de maneira geral, é maravilhoso. Deus existe, em toda sua glória, nesses dias. Nenhum mal-humorado pode estragar um dia assim.
O dia hoje está sendo assim. Acordei assim que o dia amanheceu. E ele prometia. Apesar do frio, um sol, quietinho, já ia se espalhando. Fogo aceso, café quentinho e... Dia de Catequese!

Há muito tempo não tinha um encontro como hoje. Preparei-me para falar de Corpus Christi: como surgiu, sobre Ir. Juliana, Papa Urbano, tradição dos tapetes, dos altares e procissão. Chegando ao encontro falei para as crianças sobre a procissão e que nosso encontro da semana que vêm, apesar de feriado, vai acontecer. Claro que a princípio a ideia não foi das mais bem aceitas, mas...

Antes mesmo que a gente começasse o encontro de verdade, falei que é uma pena que as tradições acabem morrendo e que, antigamente, a procissão de Corpus Christi mobilizava praticamente toda a comunidade. Que as famílias preparavam altares nas calçadas e que as ruas ficavam maravilhosas com os tapetes em serragem e outras sucatas, tipo tampinha de garrafa, papel, papelão, etc. As crianças começaram a se animar.

Comentei que a gráfica que estava imprimindo os panfletos para distribuir na cidade, ainda não havia entregue o material, senão, eu entregaria o folheto para eles levarem para casa e convidar a família. Comentei que os folhetos ainda iam ser distribuímos na cidade.

Imediatamente as crianças sugeriram que fossemos à gráfica buscar e saíssemos para distribuir no centro. A princípio, vetei a ideia. A gráfica fica mais ou menos no fim do percurso da procissão, um quilometro e meio da catedral. Mas as crianças insistiram: “Tia a gente pega na gráfica e volta distribuindo!”. Bom, é preciso avisar os pais, pedir autorização...

Pais avisados, somente duas meninas que não estavam muito bem decidiram ficar. Se as crianças não aguentassem os três quilômetros de ida e volta, ficamos de chamar um pai que possui uma Van para nos trazer de volta. Que voltar que nada! Fizeram o percurso todo sem desanimar!

Saímos, eu e quinze crianças pelas ruas movimentadas do centro da cidade. Antes, claro, uma preleção de como andar na rua, atravessar na faixa e olhar o sinal. Riram de mim: “Tia, quem é que não sabe andar na rua?”. E lá fomos nós, caminhando e cantando (Vítor e Léo e outras mais).

Fomos muito bem recebidos na gráfica. Conhecemos as máquinas e vimos cortar os nossos panfletos. Dali saímos às ruas para fazer a nossa “panfletagem”. O panfleto só informava a data e o horário da concentração para a procissão, mas as crianças fizeram mais: convidaram realmente as pessoas para participar. As meninas chegavam a dizer: “Esperamos vocês lá!”.

Salvo duas exceções, fomos muito bem recebidos. Não perguntamos a religião de ninguém, simplesmente convidamos para participar de uma celebração à Jesus. Uma senhora perguntou às crianças: “Evangélico pode ir?”. E as crianças responderam: “Claro!”.

Num percurso de mais ou menos dois quilômetros, a crianças distribuíram seiscentos panfletos. Foram lojas, casas, estacionamentos, supermercado, farmácia, transeuntes... Ninguém escapou. Encontramos até o nosso pároco! (achei que ia levar um baita "pito"!) Mas, Pe. Acácio é incapaz de ser desmancha-prazeres, chegou a perguntar às crianças o que era aquilo que estavam distribuindo (como se ele não soubesse). E elas explicaram direitinho.

Fiquei orgulhosa dos meus catequizandos! Eles se mostraram católicos de verdade. Não tiveram medo de mostrar a sua fé, de falar e convidar para um evento católico. Fizeram até melhor que eu que, em algumas vezes, fiquei até constrangida em estar na rua distribuindo folhetos.

Alguém pode até pensar se isso é catequese? Alguns pais podem até me questionar sobre o porquê de eu ter feito seus filhos saírem às ruas distribuindo folhetos da igreja. 

Sim. Posso estar errada na opinião de muitos, mas isso É CATEQUESE.

Assim como sair de chinelo e meia na rua, como fizemos outro dia para que as pessoas nos notassem. Catequese é fazer com que as crianças percebam o mundo ao redor. É fazê-las se sentir parte da comunidade. É fazer com que elas “vivam” os eventos, amem as tradições e respeitem a doutrina e os ritos da nossa Igreja.

A catequese não se faz só dentro de uma sala, lendo um livrinho. Na catequese se aprende de fé e também: se brinca, se junta, se come, se é amigo, se caminha. A gente reza junto também, acende uma vela em todo encontro e pede a iluminação do Espírito Santo. Antes de ir para casa a gente pede ao Santo Anjo que nos guarde. E somos amigos.

Angela Rocha
(Catedral de Nossa Senhora de Belém - Guarapuava - PR)

*As fotos são da procissão de 2009, em Guarapuava - Pr.


CORPUS CHRISTI: DEUS SE FAZ CORPO EM NOSSOS CORPOS

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”.
 (Jo 6,56) 

O cristianismo foi muitas vezes compreendido como uma religião do “espírito” contra a “carne”, uma religião do desprezo do corpo e inimiga de tudo o que se refere à dimensão corporal. Se isso é verdade, vai totalmente contra à primeira inspiração de Jesus e da Igreja, que proclamaram e continuam proclamando uma religião do “corpo”, ou seja, do Deus Encarnado na história (na carne) dos homens e mulheres.

É isso que nos revela a festa de Corpus Christi: é a festa que recolhe todas as festas cristãs e as condensa na “carne” do Corpo de Jesus, com sua riqueza de sentidos e significados.

“Tocar a carne de Cristo” implica tocar e acolher nossa própria “carne”, ou seja, o corpo como lugar onde Deus faz sua morada. Assim vamos buscando compreender o que é a Encarnação.

O próprio Deus se fez corpo, no corpo de uma mulher: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

A Encarnação foi o caminho que a Trindade escolheu para se aproximar da humanidade e fazer história conosco. Nosso corpo humano, feito de barro – vaso frágil e quebradiço – tornou-se o lugar privilegiado da chegada e da revelação do amor trinitário.

“Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1Cor, 6,19) . O nosso corpo é o “templo” santo e santificado, onde Deus Trino faz sua morada.

O corpo é presença e linguagem - tudo nele fala: fala o rosto, falam os olhos, falam os movimentos e as posturas, falam os gestos, acompanhando, reforçando e expressando a intenção íntima.

Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” nossos corpos. 

Cresce cada vez mais a consciência de que não “temos um corpo” que nos aprisiona, mas que somos a corporeidade, esse sistema complexo de matéria e energia, fonte de sensações, de expansão, de prazer...

O corpo é a primeira condição de possibilidade de nosso “ser no mundo”, único modo disponível para relacionar-nos com a natureza, com os outros e com o que nos transcende. Em definitiva, único modo de ser, e de sermos humanos.

Somos corpo que vibra e pulsa, que necessita do abraço e do olhar de outros corpos, do calor de outras peles. E ali encontramos Deus, pois Ele quis fazer-se corpo e sangue, para acariciar com nossos braços, para olhar com os nossos olhos, para respirar com os nossos pulmões, para amar com nossos corações, para fazer ardentes nossas entranhas compassivas... Aqui, nas transformações do corpo, Ele se faz presente.

Diante do Corpo de Cristo, nosso corpo se plenifica na comunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Em Jesus, Deus se revelou encarnado na história e, por sua atuação, morte e ressurreição, deixou transparecer que fez do universo seu Corpo. A presença real de Jesus, no pão e vinho da Eucaristia, nos desperta a reconhecê-Lo presente no coração do Cosmos e da História.

Nosso humilde corpo é parte da Criação inteira e nosso bem-estar faz sorrir a natureza. 

O evangelho deste domingo nos revela que a união ativa do(a) discípulo(a) com Jesus expressa-se, agora, mediante a metáfora do “comer” e do “beber”. A adesão a Jesus é adesão de amor.

Jesus quis permanecer entre nós de modo diferente. Não aceitou ser peça de museu, nem fonte de estudos eruditos. Quis permanecer vivo. Escolheu a forma convivial da refeição. É em comunidade que se celebra sua memória. O pão do cotidiano, o vinho da festa; o pão do alimento, o vinho da entrega radical.

O pão e o vinho, comido e bebido, se transformam em nós; o corpo de Cristo e seu sangue nos transformam n’Ele. Pelo pão e vinho, vivemos e nos alegramos. Pelo corpo e sangue de Jesus, Ele vive em nós e nos alegra. Comer do seu corpo e beber do seu sangue significa “ingerir” e fazer nossa, sua mentalidade, suas preferências, suas opções, seu estilo de vida, sua original maneira de viver, de pensar e de atuar...

Alimentar-nos d’Ele é voltar ao mais puro, ao mais simples e mais autêntico de seu Evangelho; interiorizar suas atitudes mais básicas e essenciais; acender em nós o impulso de viver como Ele; despertar nossa consciência de discípulos(as) e seguidores(as) para fazer d’Ele o centro de nossa vida. 

Tradicionalmente, a festa de “Corpus Christi” acontece em meio a grandes pompas e suntuosas procissões. Belos tapetes são confeccionados nas ruas para que o cortejo, carregando o “Corpo de Cristo”, passe por ali. Este ano, por causa da situação pandêmica que estamos vivendo, as manifestações externas certamente não vão ocorrer. Talvez seria uma ocasião privilegiada para repensar e re-descobrir o verdadeiro sentido deste dia: fazer a experiência da “procissão interna”, deixando o “Corpo de Cristo” circular por nossos corpos, para que estes fiquem mais “cristificados”.

Todas as nossas demonstrações de veneração e respeito para com as “espécies consagradas do pão”, estão muito bem. Mas ajoelhar-nos diante do Santíssimo e continuar menosprezando ou ignorando o corpo dos irmãos e irmãs, sobretudo dos mais sofredores e excluídos, é um escárnio.

A última coisa que poderia ter ocorrido a Jesus era pedir que os demais seres humanos se pusessem de joelhos diante d’Ele. Ele, sim, se ajoelhou diante de seus discípulos para lhes lavar os pés; e, ao terminar essa tarefa de escravos, lhes disse: “vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque sou. Se eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,13). Essa lição parece que não despertou tanto impacto em nós. É mais cômodo transformar Jesus em “objeto” de adoração” que imitá-lo no serviço e na disponibilidade para com todas as pessoas. É uma ofensa prostrar-se diante do Corpo Eucarístico e distanciar-se de tantos corpos violentados que gritam: “eu quero respirar”. 

O problema é que, com frequência, transformamos a Eucaristia num rito cultual, tornando-se uma pesada obrigação que, se pudéssemos, tiraríamos de cima de nossos ombros. Ela acabou se convertendo numa cerimônia rotineira, carente de convicção e compromisso, um ritual que tranquiliza as consciências, mas não modifica as atitudes. E, às vezes, se utiliza como ato de ostentação e pompa solene, que fomenta a adoração e a devoção, mas não transforma nem a Igreja, nem a sociedade.

A Eucaristia foi, para as primeiras comunidades cristãs, o ato mais subversivo imaginável. Os cristãos que a celebravam se sentiam comprometidos a viver o que o sacramento significava, conscientes de que recordavam o que Jesus tinha sido e comprometendo-se a viver como Ele viveu.

É preciso sacudir nossa rotina e mediocridade. Não podemos comungar com Cristo na intimidade de nosso coração sem comungar com os irmãos que sofrem. Não podemos compartilhar o pão eucarístico ignorando a fome de milhões de seres humanos, privados de pão e de justiça. É uma ofensa dar-nos a paz uns aos outros, sendo canais propagadores de ódio, de preconceito e intolerância. É um engano manifestar que estamos em comunhão junto à mesa quando, na realidade, somos mediadores da “cultura da indiferença”. 

Corpus Christi é um chamado urgente para que nos prostremos diante do Cristo, humilde e caminhante, que passa continuamente diante de nós; passa vestido de mendigo, desempregado, enfermo, faminto, solitário, abandonado..., que nos convida a viver a Eucaristia, não como milagre nem como mistério, mas como lugar de encontro com os mais necessitados.

Está bem que passem procissões com o Pão Eucarístico por nossas ruas, com toda solenidade e pompa. Mas, que pensará Jesus ao passar diante das casas onde hoje falta o pão? Que pensará Jesus ao passar diante de crianças que tem fome? Que pensará Jesus ao passar diante de homens e mulheres que o acompanham com o estômago vazio, sendo Ele mesmo o “verdadeiro pão”? Quê pensará Jesus ao ser levado nos “andores” e carros alegóricos por pessoas que não conhecem a fome, enquanto à margem aplaudem os famintos?...

Texto bíblico: Jo 6,51-58 

Oremos : 

Nosso corpo é tocado pela encarnação de Jesus. E lembre-se de que Deus conhece nossa estrutura. Ele sabe de que barro somos feitos.

Reze sua humanidade, seu corpo de homem ou mulher. Leve para sua oração os desafios do cotidiano, os imprevistos da vida. Seja humano diante de Deus, deixe seu corpo falar a Deus.

Reze com seu corpo. E agradecido(a) bendiga sempre o Senhor.

Solenidade de Corpus Christi, 11 de junho   
Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana – CEI




domingo, 7 de junho de 2020

COMO ESCREVER UMA EXEGESE BÍBLICA


A palavra exegese vem do grego e significa literalmente ‘tirar fora’ (ex-ago). Concretamente tem o sentido de extrair o significado, interpretar o texto. Na bíblia, a exegese é o estudo da interpretação gramatical e sistemática das Escrituras Sagradas.

Uma exegese é um ensaio focado em determinada passagem bíblica. Uma boa exegese apresenta uma lógica, pensamento crítico, e fontes secundárias que aprofundem a compreensão do texto. Pode ser que você precise escrever uma exegese na disciplina de estudo bíblico ou apenas para aguçar seu entendimento das Sagradas Escrituras. O primeiro passo é ler a passagem e tomar notas, de maneira a preparar um esboço. Depois, agregue sua interpretação às pesquisas feitas. Por último, faça uma revisão e certifique-se de ter dado o seu melhor.

COMEÇANDO...

1. Leia a passagem bíblica em voz alta. 

Leia a passagem em voz alta para si mesmo algumas vezes, prestando atenção em cada palavra. 
Confira diferentes traduções do mesmo texto, a fim de obter um senso geral do texto. Você escolherá uma delas para basear sua exegese, mas ao olhar outras traduções, você só tem a ganhar.

2. Tome notas a partir da leitura. 

Conforme lê a passagem, anote quaisquer palavras que não conheça, e procure-as em dicionários e glossários bíblicos, procurando compreender o uso delas no contexto. 
Leve em conta a gramática e a sintaxe da passagem. Observe a estrutura das frases, os tempos verbais, e a relação de coesão e coerência entre todos os elementos do texto. 
Circule, por exemplo, palavras como "semear", "raiz" e "solo", caso entenda que elas são importantes. 
Talvez você perceba que a passagem termina com a expressão "Quem tem ouvidos, ouça", que costuma aparecer no fim de parábolas bíblicas.


 3. Leia textos externos relacionados à passagem. 

       Informe-se sobre o assunto também com fontes secundárias, tais como artigos teológicos e comentários em jornais e livros. Use como um apoio um dicionário bíblico, vá a uma livraria religiosa e adquira livros, leia periódicos online. Você provavelmente encontrará muito material sobre o assunto. 
        Procure por artigos, ensaios e comentários sobre o gênero literário da passagem, assim como temas e ideias que a permeiem.

4. Faça um esboço de seu ensaio. 

Todo ensaio precisa ter introdução, desenvolvimento e conclusão. Antes de começar a composição, faça um esboço de cinco partes. Um exemplo seria:
Parte 1: Introdução. 
Parte 2: Notas a partir da leitura. 
Parte 3: Interpretação do texto. 
Parte 4: Conclusão. 
Parte 5: Bibliografia.

ESCREVENDO...

5. Faça uma introdução da passagem bíblica. 

Transcreva a passagem inteira e coloque-a em contexto, sem se esquecer de especificar a parte da Bíblia em que ela aparece. 
Mencione o gênero literário. Pode ser que a passagem seja, por exemplo, um hino, como em Cantares de Salomão, ou uma parábola, como as de Jesus.

6. Inclua uma declaração de tese. 

A declaração servirá como um guia para a leitura da exegese, e o objetivo dela é resumir os principais argumentos do ensaio em uma única frase. Coloque-a no final da introdução do texto. 
Eis um exemplo de declaração de tese: “Nessa passagem bíblica, aprendemos sobre o valor das raízes e da tradição para um crescimento saudável interior e exterior.”

7. Comente os versículos da passagem um a um. 

Faça uma leitura atenta da passagem, focando na gramática e na sintaxe, e discorra sobre a linguagem e a estrutura dos componentes do texto. Observe e apresente como o gênero literário da passagem influencia no significado dela. 
Por exemplo, se estiver escrevendo sobre Mateus 13, 1-8, comente a escolha de palavras e a fraseologia da parábola. Mencione como a passagem usa a natureza como uma metáfora para o crescimento pessoal.

8. Interprete a passagem como um todo. 

Reflita sobre os temas sobressalientes no texto, levando em consideração os ensinamentos bíblicos comuns. Discuta o significado teológico da passagem, e pergunte a si mesmo: “Como posso aplicar esse ensinamento em minha vida? Que diz essa passagem sobre minha fé?” 
Se quiser, inclua no ensaio uma reflexão que abarque um contexto maior, incluindo o significado histórico e social do texto. Leia e cite pensadores, teólogos e acadêmicos.

9. Agregue citações à exegese. 

        Use citações diretas para fortalecer seus argumentos. Procure fontes de boa reputação e cite-as para agregar valor ao ensaio. Se estiver escrevendo a análise para uma aula, pergunte ao professor qual estilo de citação deve ser utilizado.

10. Faça as declarações finais e conclua o ensaio. 

Para terminar, teça comentários sobre a passagem como um tudo, faça as considerações finais e repita sua declaração de tese. Agora não é hora de agregar novas ideias – e sim de concluir o que já foi apresentado.

11. Faça uma bibliografia. 

A exegese precisa ter uma bibliografia contendo todas as fontes consultadas. A formatação precisa conter o nome do autor e o título do artigo, periódico ou livro, assim como a data de publicação.
O professor talvez especifique um tipo específico de formatação da bibliografia.

APERFEIÇOANDO...

12. Faça uma revisão do ensaio, conferindo a ortografia, a gramática e a pontuação.

Leia o texto em voz alta para detectar possíveis erros, corrija erros de pontuação e observe atentamente a ortografia e a gramática. Caso contrário, a exegese pode perder pontos de confiança e parecer ter sido feita às pressas.
Leia a exegese de trás para frente a fim de encontrar erros ortográficos. Esse método funciona, pois, você terá que prestar atenção em cada palavra individualmente.

13. Peça a opinião de terceiros. 

Antes de entregar o texto, mostre-o para amigos, colegas de classe e professores. Indague se a exegese está clara, organizada e detalhada o suficiente. Esteja aberto a críticas construtivas.

14. Revise a exegese em relação à clareza e o tamanho. 

Depois de ouvir a opinião de pessoas confiáveis, faça uma revisão final. Observe se as frases estão coesas entre si, e se o raciocínio está fácil de acompanhar. Cubra todos os aspectos, gerais e específicos, da passagem.
A revisão também deve garantir que o artigo não esteja muito longo. Fique atento à contagem de palavras, para não exceder o limite estabelecido pelo professor.


FONTES DE PESQUISA:

STUART, Douglas; FEE, Gordon D. Manual de exegese bíblica: Antigo e Novo Testamentos. São Paulo: Vida Nova, 2008.

GORMAN. Michael. Introdução à exegese bíblica. Trad. Wilson de Almeida. São Paulo: Thomas Nelson Brasil,  2017.

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE



A Solenidade que hoje celebramos não é um convite a decifrar o mistério que se esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família.

A Solenidade da Santíssima Trindade, Deus que é comunidade de amor. Deixemo-nos envolver por este mistério e manifestemos ao Senhor a nossa fé, a qual é alimentada por sua graça eficaz. A Solenidade que hoje celebramos não é um convite a decifrar o mistério que se esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.

Na primeira leitura (Ex 34,4b-6.8-9), o Deus da comunhão e da aliança, apostado em estabelecer laços familiares com o homem, auto-apresenta-Se: Ele é clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia. A primeira leitura revela que Deus é Pai misericordioso, paciente, não age com precipitação, sabe esperar, dá sempre um prazo esperançoso a cada um de nós para nossa conversão, é rico em bondade, nunca se irrita conosco, tolera nossas misérias, dá coragem e força para enfrentarmos os desafios do dia a dia e jamais não abandona, por pior que seja o pecado que tenhamos cometido, está sempre disposto a perdoar diante de um arrependimento sincero. Deus é sempre fiel e trata-nos como filhas e filhos muito amados.

Na segunda leitura (2Cor 13,11-13), São Paulo expressa - através da fórmula litúrgica “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco” - a realidade de um Deus que é comunhão, que é família e que pretende atrair os homens para essa dinâmica de amor. A segunda leitura continua revelando quão amoroso é nosso Deus. Quando o ser humano dispensou Deus de sua vida pensando que poderia subsistir sozinho, distanciou-se dele, fugiu de sua intimidade, rejeitou sua amizade, tornou-se indiferente a Deus e, como consequência, perdeu-se totalmente, vendo-se sem esperança de salvação. Mas Deus mostrou que sempre esteve próximo e, para resgatar o homem, saiu ao seu encontro por Jesus Cristo, seu Filho, para lhe oferecer amizade, amor, comunhão e salvação.

No Evangelho(Jo 3,16-18), João convida-nos a contemplar um Deus cujo amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao mundo o seu Filho único; e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua vida um dom total, até à morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida definitiva. Nesta fantástica história de amor (que vai até ao dom da vida do Filho único e amado), plasma-se a grandeza do coração de Deus.

O Evangelho revela-nos outra verdade inimaginável: o amor de Deus é também uma pessoa, o Espírito Santo que nos restaura e santifica para podermos viver eternamente com Deus. Deus nunca fechou e jamais fechará as portas de seu coração, de sua amizade, mas respeita nossa opção; ele não obriga nenhuma de seus filhos a voltar para casa; viver eternamente com Ele ou, então, desterrados fora da nossa verdadeira e definitiva casa, depende de nós. Sabemos quem é nosso Deus, mas não basta um conhecimento teórico, não basta saber coisas sobre Ele e falar dele; isso ainda não é fé. É necessário entrar em contato com Deus, conversar com Ele pela oração; ter abertura para Deus, escutá-lo, “encharcar-se” com sua Palavra nas Sagradas Escrituras e responder a Ele amando concretamente as pessoas, começando com aquelas com as quais convivemos, porque Deus as ama e somos todos seus filhos e filhas.

Dom Eurico dos Santos Veloso - Arcebispo Emérito de Juiz de Fora, MG.

RACISMO NÃO!


“A catequese tem também a missão de superar o racismo, a discriminação de gênero e de posição econômica e social, colaborando para a promoção da solidariedade”.

(DNC - Diretório Nacional de Catequese, nº 62)