terça-feira, 3 de dezembro de 2019

O QUE É A CATEQUESE NARRATIVA?



 Algumas pessoas acham que fazer Catequese Narrativa é contar histórias: a história do povo de Deus, a história de Jesus, a história da salvação. 
Então, em vez de apresentarem um conteúdo orgânico e sistemático, limitaram a catequese à contação de histórias. Contar histórias é bom, mas a catequese não deve se limitar a isso.


Alexandre Raimundo de Souza, sj

A palavra Catequese vem do termo grego catechesis (κατήχησις) – ação de instruir oralmente [1], catecheo (κατηχέω) – ressoar; instruir de viva voz [2]. Ensinar mediante a palavra.

Narrativa – ação, processo ou efeito de narrar; narração:

1 - Exposição de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados, reais ou imaginários, por meio de palavras ou de imagens.
2 - Conto, história, caso;
3 - O modo de narrar [3].

Se o termo catequese significa fazer ressoar a palavra do Cristo, a catequese narrativa quer ser o eco da voz do Cristo neste processo de iniciação à vida cristã. Ela narra o próprio Jesus que vem ao encontro do ser humano. Ele que se fez carne e veio morar entre nós. Portanto, a catequese narrativa é a narração dos mistérios da vida de Cristo, centro da iniciação à vida cristã. Ela é o anúncio da Boa Nova. Por esse motivo, muitos podem denominá-la como Catequese Querigmático-narrativa, porque narra a gênese da fé cristã.

Como exemplo temos o Credo, uma narrativa do símbolo da fé cristã. Ele é narração da criação do mundo e do homem em Cristo, da sua redenção e da sua transfiguração no Cristo morto e ressuscitado, pelo poder do Espírito Santo.

Mas, por que narrativa?

“Vinde e vede. E eles foram e viram onde Jesus estava morando e permaneceram com ele aquele dia.” (Jo 1,39). Este trecho aponta para o esforço da catequese narrativa. Colocar a pessoa em contato com as histórias de Jesus.

Ao narrar, o catequista apresenta Jesus Cristo para o catequizando. Não explica quem é. Ouvindo as histórias de Jesus Cristo, o próprio catequizando vai tendo uma compreensão da pessoa de Jesus Cristo.

Como exemplo para facilitar a compreensão do que estou dizendo, vejamos o que Inácio de Loyola sugere na contemplação. Entrar no texto, com o olhar da imaginação, ver o que Jesus faz. O que ele diz, como se relaciona com as pessoas. Depois, ver como você se vê dentro desta história. Se a pessoa se identifica com alguma personagem do texto. Como se sente. Ao ouvir a narrativa, o catequizando vai tecendo uma compreensão de quem é a pessoa de Jesus. Narrar não é explicar, mas apresentar elementos simbólicos, signos, sinais, para que o outro possa pensar e tirar suas próprias conclusões. Mas não se trata de um simples narrar, falar o que Jesus faz, mas colocar o catequizando em contato com o Cristo, para que ele possa ir com ele e conhecê-lo melhor.

O processo narrativo é muito interessante, pois desencadeia no catequizando um pensar o simbólico que lhe é apresentado. Quando ele reconta esta história, ela já é transformada, enriquecida pelo modo de recontar do catequizando.

E o catequista? Este também aprende coisas novas com os catequizandos. Pois, quando reconta apresenta coisas do seu modo de ver que muitas vezes, o catequista não tinha pensado antes.

Santo Inácio, nas anotações dos Exercícios Espirituais [4], diz que quem propõe ao outro o modo e a ordem de meditar e contemplar deve narrar fielmente a história. Da mesma forma deve prosseguir o catequista. Pois, assim como nos Exercícios Espirituais, também na catequese narrativa, “a pessoa que contempla, tomando o verdadeiro fundamento da história, reflete e raciocina por si mesma. Encontrando alguma coisa que a esclareça ou faça sentir mais a história, quer pelo seu próprio raciocínio, quer porque seu entendimento é iluminado pela virtude divina, tem maior gosto e fruto espiritual do que se quem dá os exercícios (ou a catequese) explicasse e ampliasse muito o sentido da história”.  E acrescenta Santo Inácio que: “não é o muito saber que sacia e satisfaz a pessoa (catequizando), mas o sentir e saborear as coisas internamente” [5].

CATEQUESE

Catequese mistagógica – introdução ao mistério celebrado. Ajudar o catequizando a compreender os signos do sacramento que ele celebrou junto à comunidade.

A catequese é parte principal do rito de iniciação cristã. Ser iniciado na palavra do Cristo que fala por meio da comunidade. Na comunidade a pessoa iniciada ouve o anúncio do Evangelho. Portanto, a catequese e as celebrações formam uma unidade no processo de iniciação a vida cristã. A pessoa é instruída para bem celebrar. E ao celebrar, é motivada a compreender o mistério celebrado (catequese mistagógica).

NARRAÇÃO – NARRAR, CONTAR HISTÓRIAS

Base – texto bíblico

Colocar a pessoa em contato com as histórias de Jesus. Que ela possa ver os mistérios da vida de Cristo.

Para o catequista - não se trata só de aprender a ser um bom contador de histórias, conhecer as técnicas para se narrar bem um texto bíblico. Trata-se de entrar dentro do texto. Saber interpretá-lo, buscar compreender o texto atualizando em sua vida de comunidade. A palavra é narrada pela e na comunidade.

MÉTODO

1- Narração do texto bíblico;
2- Regaste da narrativa – a narrativa é recontada pelos catequizandos;
3- Momento de reações – ouvir o que a narrativa dá a pensar;
5- Oficinas de artes – um meio criativo de aprofundar as histórias ouvidas. Realizam-se diversas oficinas onde os catequizandos expressam o que as narrativas provocaram neles;
6- Apresentação dos trabalhos das oficinas – uma forma de recontar as histórias e de partilhar com a comunidade a experiência que a catequese tem provocado na vida dos catequizandos.

Elenquei estes seis pontos que apontam para o modo como está organizada a catequese narrativa. Estes pontos dão uma ideia do método utilizado.
  • Não se trata de apresentar uma catequese doutrinal, mas experiencial.
  • Não se trata de explicar o que a narrativa bíblica quer dizer, mas, narrá-las, deixando que o próprio catequizando pense o que a narrativa provoca nele.
  • Ele ouve as palavras de Jesus Cristo, ele ouve os feitos que Jesus realizou.
  • A narração vai criando no catequizando um imaginário simbólico que o ajuda a pensar a sua própria realidade de fé. Na narrativa, ele se vê.
  • E ao recontar para os outros a narrativa que ouviu, ele se conta.
  • Ele participa da história, não é um mero ouvinte. O resgate da narrativa é um resgate de sua própria história.
  • O catequizando se refaz, narra sua própria identidade como pessoa que se relaciona com os outros no mundo.

Catequista – Ministério de instruir e introduzir a pessoa iniciada na palavra do Cristo. O Catequista possui o múnus de ensinar. Trata-se de um ministério exercido na comunidade. A pessoa é escolhida entre os membros da comunidade para servir os que querem fazer parte da comunidade.  

Cito um trecho do texto do Concílio Vaticano II sobre o Catecumenato e a iniciação cristã. “Mais do que uma simples exposição dos dogmas e dos preceitos, o catecumenato (catequese de adulto) deve ser uma iniciação a toda a vida cristã, um aproximar-se de Cristo, durante o tempo que for necessário. Sejam os catecúmenos iniciados convenientemente no mistério da salvação, na prática da vida evangélica, nas celebrações litúrgicas segundo os diversos tempos, na vida de fé, de culto e de amor, característica do povo de Deus” [6].

FORMAÇÃO DOS CATEQUISTAS [7]

Ao ser escolhido dentre os da comunidade para exercer o ministério, a pessoa é motivada a receber formação sobre o ser Igreja e principalmente, sobre a Bíblia. Ela é motivada a crescer na vida espiritual e aprofundar os conhecimentos bíblicos, base para uma boa catequese.

A participação nas celebrações litúrgicas da comunidade é muito importante. Pois para instruir outros na vida cristã, faz-se necessária uma compreensão da liturgia a partir da participação.

PARTICIPAÇÃO DOS PAIS

A participação dos pais se dá através da apresentação das oficinas de catequese narrativa. No dia da apresentação os pais, juntamente com a comunidade e os amigos, são convidados a assistir a partilha dos catequizandos em forma de apresentações das diversas oficinas de arte.

COMUNIDADE:

Lugar de relação – conhece o Cristo que se mostra na comunidade: “Vinde e vede”.
Lugar onde a palavra é narrada – na comunidade, a palavra é narrada pelo catequista.
Lugar de celebração – na comunidade, a palavra é celebrada. O catequizando é acolhido, instruído e iniciado na vida cristã.
Lugar de partilha – na comunidade, o catequizando partilha a sua experiência que faz com a palavra. Ele se mostra colaborador dos outros, colabora num processo de construir um mundo melhor... Ele vive a vida cristã.

BIBLIOGRAFIA:

AMBRÓSIO DE MILÃO. Explicação do símbolo sobre os sacramentos. São Paulo: Paulus, 1996.

CIRILO DE JERUSALÉM. Catequeses Mistagógicas. Petrópolis: Vozes, 1977.

FAUSTI, Silvano. Ricorda e Rocconta il Vangelo: La catechesi narrativa di Marco. Milano: Ancora, 1998.

TERTULIANO DE CARTAGO. O Sacramento do Batismo. Teologia pastoral do batismo segundo Tertuliano. Petrópolis: Vozes, 1981.

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II – Ad Gentes, nº 14; nº 17. “O catecumenato e a iniciação cristã. ” 1965.


[1] DICIONÁRIO ELETRÔNICO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUQUESA. Catequese.
[2] DICIONÁRIO DO GREGO DO NOVO TESTAMENTO. São Paulo: Paulus, 2003.
[3] Ibidem à nota 1.
[4] SANTO INÁCIO DE LOYOLA. Exercícios Espirituais. n. 2.
[5] Ibidem à nota 4.
[6] CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II – Ad Gentes, nº 14. “O catecumenato e a iniciação cristã”.
[7] CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Ad Gentes, n. 17. Sobre a formação dos catequistas.


FONTE: