quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

QUAL É A DELES? (Adolescentes)



Sabemos realmente quem são os nossos catequizandos? Os que eles pensam da vida e do mundo? Por que as meninas se maquiam, pintam as unhas de vermelho? Por que os meninos usam brincos? Por que crianças tem tatuagens? Por que se vestem assim ou assado? Pintam os cabelos de azul? Nós sabemos como são suas famílias, a vida que levam e o que os leva a se auto afirmar tão precocemente? A amadurecer (ou querer isso...) tão cedo?

Podemos afirmar com certeza que cada pessoa é um ser único e que cada pessoa assume a identidade que melhor a representa. Mas, em se tratando da infância e adolescência ainda é um pouco cedo para “assumir” algo que modifica seu corpo, no caso das tatuagens e piercings. Mas, os pais acabam cedendo aos pedidos dos filhos...

Tive um catequizando que fez a primeira eucaristia aos 14 anos - diferente das outras crianças que tinham 11, 12 anos - usava boné, usava brinco e claramente estava "em outra". E faltava bastante aos encontros ou chegava quando eles já iam pelo meio.

Quando perguntei a ele o porquê, ele me disse que estudava de manhã e na sexta dormia tarde e não conseguia acordar cedo no sábado. O que ele fazia na sexta à noite? Jogava os jogos tão amados pelos adolescentes. Hum... perguntei quais jogos ele gostava e fiz de conta que entendia do negócio falando um "Que legal!", na maior animação. E perguntei se podia ligar para ele no sábado de manhã pra acordá-lo. E tive um Sim relutante. E combinamos assim: Às 8hs eu ligava e avisava da catequese, ele chegava atrasado, mas, vinha. Os pais saiam para trabalhar e penso que o chamavam para levantar..., mas, tanto fazia se ele fosse ou não ao encontro. Foi uma conquista lenta.

E aos poucos eu fui “descobrindo” as coisas. Ele usava boné porque o cabelo era "desajeitado"... e se ressentia quando alguém pedia e ele para tirar. Eu não pedia, mas, quando as turmas se reuniam, sempre tinha uma catequista "espirito de porco" (desculpe o termo... rsrsrsr) que acabava pedindo. Eu via o quanto aquilo o "machucava", mostrar cabelo "ruim" pra todo mundo? Que "mico"!

No dia da primeira eucaristia, lá estavam elas, as "beatas de plantão", "fiscais de porta de Igreja" como diz o Papa Francisco, a se incomodar com o brinco do meu menino. Vieram falar comigo e eu respondi: "Vai lá e fala você com ele". E foram!

Ele, educado, olhou pra mim a se perguntar se tirava ou não o brinco. Senti no olhar dele o quão "violentado" em sua identidade ele se sentiu. Que "banquete da comunhão" era aquele que não permite a uma pessoa ser o que ela é? Mostrar-se a Deus do jeito que se sente bem. Senti tudo isso quando ele me perguntou com o olhar.

Fui até ele e cochichei no seu ouvido: "Tire o brinco aqui agora na entrada, mas, quando estiver sentado no seu lugar, coloque de novo. Senão Jesus vai se perguntar onde anda você." Ele sorriu, tirou o brinco, pôs no bolso e foi pra fila de novo.

Tenho certeza que ele, hoje no grupo de jovens, nunca se sentiu mal na presença de Jesus. A gente aqui pode não aceitar as crianças como elas são e gostam de ser, mas, Jesus está sempre dizendo: "venham a mim os pequeninos... do jeito que eles são". Que diferença faz para Deus, a cor da unha? O corte de cabelo? O brinco? São perguntas que me faço sempre.

O caminho ou a receita para lidar com os adolescentes, eu não sei qual é e nem tenho. Mas, acredito que, se os aceitarmos como são e buscarmos entender o porque deles estarem "fora do padrão" já é um começo. A orientação pelo "melhor" e pelo "certo" vem com o tempo e depende muito daquilo que vivemos hoje, no contexto da comunidade e no que a sociedade prega. Discernimento é a palavra.


*Este texto originou-se de uma pergunta de uma catequista a respeito de brincos e tatuagens. Achei que a resposta merecia uma publicação a parte.

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