quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Antropologia Teológica e Catequese

Um texto excelente, divulgado na 3ª Semana Brasileira de Catequese de 2009, a respeito de Antropologia e Catequese. Vale a pena uma leitura atenta, principalmente para esclarecer algumas dúvidas a respeito das teorias Creacionista e Evolucionista.







ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA E CATEQUESE


Irmão Nery fsc *

1. Origem e evolução da Antropologia

A Antropologia (anthropos = homem, ser humano; Logos = estudo, tratado) surgiu com o filósofo grego Heródoto, no século V a.C. Por ser o primeiro, pelo que se sabe, a tratar sistematicamente do tema é considerado o pai da Antropologia. Ao longo da história, porém, esta ciência passou por grandes mudanças, gerando várias correntes. Destacamos três delas:
a) A Antropologia Filosófica pagã, mas aberta ao transcendente. Os filósofos antigos buscavam a autonomia da razão, mas não desprezavam ou negavam a possibilidade da existência de divindades e até as levavam em conta, chegando até mesmo à divinização do cosmos. 
b) A Antropologia Teológica (de índole judaico-cristã). É a que estuda o ser humano (Anthropos) tendo como referência fundamental Deus (Theos). Passou-se da centralização no cosmo divinizado (fase pagã) para Deus, quando o cristianismo suplantou a visão grega da realidade e colocou tudo o que existe na relação com o Deus revelado (fase cristã). A Antropologia teológica trabalha sobre a profundidade do ser: origem e fim, riquezas e limites, aspirações e linguagem, comportamentos, mas à luz da revelação divina. Visa-se chegar a algo fundamental: o ser humano é capaz de Deus, de acolhê-lo, conviver com ele, em comunhão e parceria com ele (cf. Catecismo da Igreja Católica – nºs 27-73).
Há um pressuposto para esta vertente da Antropologia: Deus não é uma fantasia ou um agregado mental na vida humana. Ele integra a própria estrutura humana e lhe confere a vocação transcendente, que impulsiona o ser humano a ir além de si, a aspirar ao infinito, a reconhecer suas limitações (fraqueza, enfermidade, erros, morte, pecado), que o desafiam a respeito do sentido da vida, do sofrimento, da morte e da pós-morte. Deus lhe dá ao ser humano a capacidade de reconhecer o valor de tudo o que existe e de transcender à realidade do aqui-agora, por um valor maior e mais plenificador. É exatamente esta busca do transcendente que ele humaniza de modo maravilhoso a si mesmo como ser humano (o humanum), isto é, quanto mais ele se insere em Deus e no Projeto dele, mais encontra a felicidade. E é esta extraordinária capacidade que o faz, também, humanizar tudo no cosmos, estudá-lo, manipulá-lo e canalizar todas as suas riquezas em vista da felicidade, um desejo insaciável que faz parte de seu ser como gente.
Aos poucos apareceram dois princípios estruturais na antropologia teológica: o arquitetônico e o hermenêutico. O arquitetônico como eixo do ordenamento de todos os eventos da história da salvação em função de um Plano que Deus tem para a história do cosmos, da terra e da humanidade: é o Plano Salvífico. O hermenêutico como portador da verdade primária sob cuja luz a teologia procura compreender e interpretar e interligar os aspectos da história da salvação. Todos os grandes pensadores do cristianismo colaboraram com o desenvolvimento da antropologia teológica, vista no seu todo.
c) A Antropologia Filosófica Secularista realiza a mudança da centralização em Deus para a centralização no homem, mas sem Deus. Este passo ocorreu na época moderna em conseqüência da secularização e do ateísmo, este último desenvolvido no seio da filosofia européia e, especialmente, pelo comunismo. Para os filósofos secularistas, mas este vertente tem seus inícios já no Renascimento (século XVI), Deus desaparece de cena e cede lugar ao homem. O espírito humano abre-se a um novo modo de ver e agir. Dá-se um violento contraste com o modo precedente de entender todas as coisas e acontecimentos, que tinha Deus como centro de tudo e de todo interesse humano, e passa a assumir o homem como centro de tudo. Acontece, portanto, a passagem do teocentrismo para o antropocentrismo. Os mais importantes filósofos dessa virada histórica do modo de pensar o sentido e a razão de ser do ser humanos são Descartes, Hume, Spinosa, Hobbes, Kant. Mas é Immanuel Kant, sem dúvida, quem atinge o ápice do pensamento independente da referência a Deus, à religião, ao afirmar que o homem não é mais simplesmente o ponto de partida, mas também o ponto de chegada da reflexão filosófica e de toda a história. É ele que abre as possibilidades para que dali em diante muitos filósofos dêem continuidade, aprofundem e motivem levar à prática o secularismo ateu.

2. A Antropologia teológica hoje
2.1 – Sempre em busca. Não há dúvida – e o dia-a-dia o comprova – a humanidade continua sua busca do sentido da vida e da história, do sentido da existência do cosmos e de tudo o que nele existe, especialmente do próprio ser humano na complexidade da história do cosmos. Multiplicam-se sem cessar artigos, livros, filmes, canções, obras de arte, que alimentam o debate levando-se em conta a existência de Deus nesta trama misteriosa do mundo e da vida humana ou negando-a, ridicularizando-a e considerando toda e qualquer religião como uma invenção prejudicial ao ser humano.
A Igreja cristã, porém, continua firme em sua fé e em sua missão, afirmando que o mistério do ser humano só encontra sua verdadeira explicação e compreensão no mistério do Verbo encarnado, isto é, no Filho de Deus que assumiu a condição humana na história com o nome de Jesus de Nazaré (cf. GS 22). Para a Igreja o referencial “Adama” (homem e mulher), portanto, é o ser humano [1] criado à imagem e semelhança do próprio Deus (mistério da criação). Este ser humano, no uso de sua liberdade, assim o ensina a Igreja, rompeu com o seu Criador (pecado original), Deus, porém, não somente não o abandonou, mas deixou plasmado na natureza própria do ser humano a necessidade de Deus e o impulso natural para buscá-lo. E ele concedeu à liberdade humana a graça do chamado incessante para restabelecer a união homem-Deus, Deus-homem. Depois de manifestar-se de muitos modos ao longo da história, quando chegou à plenitude do tempo, na linguagem bíblica, Deus deu-lhe a maior prova de amor, o seu próprio Filho divino em forma humana (cf. Hb 1, 1; 1Jo 4, 9-10), que viveu entre nós com plenitude humana, como o ser humano perfeito, por ser ao mesmo tempo  “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”.
Portanto, assim crê a Igreja, é pelo Cristo que o ser humano é “justificado” (recupera a justiça perdida pelo pecado). E é a partir dele, nele, com ele e por ele, que o ser humano vive da graça do Pai, do Filho e do Espírito Santo: filiação (ao Pai), fraternidade-amizade (do, no e pelo Filho), inabitação (no Espírito Santo). É em direção a Cristo, o referencial humano-divino que, na liberdade, o ser humano procura alcançar progressivamente e com o impulso da graça que ele nos alcançou, “o estado adulto, a estatura de Cristo em sua plenitude” (Ef. 4,13). É este o cerne da Antropologia teológica cristã.
É a partir do olhar antropológico-teológico que detectamos o que a Revelação diz sobre o ser humano no contexto da obra da criação: uma criatura feita no tempo e que não teve existência espiritual antes da corpórea para usufruir da felicidade neste mundo e da glória de Deus na vida eterna feliz. Os textos bíblicos não pretendem apresentar dados científicos, mas mostrar o propósito de Deus, no relacionamento dele com os homens e, mais ainda, a sua experiência no mundo como ser humano em Jesus Cristo e, consequentemente, a identidade profunda e única do especificamente humano assim enriquecido com a comunhão com Deus e que abre o ser humano definitivamente e de modo privilegiado para a comunhão consigo mesmo, com os outros, com a natureza.
Este mesmo olhar de comunhão, assim plena, considera o homem como “imagem e semelhança de Deus” e tem a Jesus como a imagem verdadeira do Pai, e nós, como seu reflexo. E o ser humano como “imagem de Deus” (imago Dei), carrega em si mesmo as marcas do Criador, do Filho Redentor e do Espírito Santificador, principalmente em sua a capacidade de conhecer e amar o Pai, por meio de Filho, no amor do Espírito Santo e como co-criador e cooperado em seu Plano de Amor sobre o mundo e a humanidade.

2.2 A estrutura básica do ser humano segndo a fé. Um dos diferenciais da antropologia teológica judaico-cristã, em relação às outras antropologias, é constiuído por seu modo de entender e explicar o ser humano como um organismo psicofísico resultado da estreitíssima união entre corpo, alma e espírito, em constante tensão aperfeiçoamento, complementaridade e busca de transcedência. São Paulo, formado para ser rabino, em sua carta aos Tessalonicenses fala do ser humano como corpo-alma-espírito: “Que o espírito, a alma e corpo de vocês sejam conservados de modo irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5, 23). É evidente que para ele a Antropologia não existia como discurso reflexivo e nem no decorrer do logo tempo da elaboração e finalização dos textos que hoje constituem a Sagrada Escritura dos judeus e a dos cristãos. Só posteriormente e muito lentamente, com a influência da cultura grega, é que se chegou ao seu início e no ocidente ao seu desenvolvimento.
Expliquemos um pouco, mas com os termos em hebraico, grego, letim e português, esta visão trinitária da pessoa humana, segundo a visão hebraica e que Paulo utiliza na carta aos Tessalonicenses: a) Corpo (bâsar, sarx, caro = corpo de carne) é a nossa realidade fisica, biológica); b) Alma (nephesh, psychè, anima = dimensão psíquica, afetiva, intelectiva, colitiva, relacional) é a dimensão vital similar a de todos os demais seres vivos, mas que possui em si, a diferença da dimensão da auto-consciência, do afeto-relacionamento, da liberdade, da vontade, do senso ético, da busca do bem, do belo, da verdade e da felicidade; c) Espírito (ruach, pneuma, spiritus = dimensão transcentente espiritual), é a dimensão exclusiva do ser humano, fruto da criação direta de Deus (sopro-ruach, ser vivente em Deus e para Deus [2]), que assegura a possibilidade de comunicação e comunhão dom Deus.
Esta reflexão é importante porque houve, na história do cristianismo, confusão entre os intérpretes e estudiosos, alguns afirmando que Paulo tinha uma visão tricotômica do ser humano, isto é, um composto de três partes separáveis, enquanto outros defendiam a concepção dualista de corpo e alma. Na concepção hebraica as três realidades se apresentam como dimensões autônomas, porém, formando uma unidade, um todo. O refinamento da reflexão concluiu que a alma e o espírito são imortais, ao passo que o corpo é corruptível, mas destinado à ressurreição, mesmo que de forma espiritualizada, segundo a convicção cristã.
E como surgiu a visão do dualismo corpo e alma? Na reflexão tradicional e oficial da Igreja cristã, o predomínio da cultura greco latina na teologia fez acontecer uma fusão entre “alma e espírito”, por mais que muitas vezes apareçam distintas. Com isso, quando, portanto, em teologia se fala em “alma”, entende-se por (ruach, pneuma, spiritus-espírito). É, porém, preciso deixar sempre esclarecido, que no dualismo cristão do ser humano como corpo e alma, obviamente está subentendida a visão trinitária, pois se faz uma clara distinção entre nephesh-psychè-anima (alma) e ruach-pneuma-spíritus, isto é, o sopro de Deus (espírito), que, porém, só é aceitável em nivel de fé revelada. É exatamente aqui que se destaca ainda mais a unidade na dualidade entre corpo, alma (incluindo o espírito), ao contrário da concepção maniqueísta que ensina a docotomia estraguladora do ser humano, ao colocar, como na filosofia de Platão, o corpo como uma prisão da alma, e que, portanto, o espírito (ruach-pneuma-spiritus) está, também ele, encarcerado no corpo humano e dele precisa se libertar e, mais ainda, diz o maniqueísmo, porque o corpo é obra do deus demônio, e por isso, deve ser desprezado e massacrado, sobretudo, em sua realidade sexual.
A discurso filosófico e teológico sobre a estrutura antropológica cristã tradicional do ser humano se plasmou nos escritos de são Tomás de Aquino. Ele, a partir do dualismo clássico, não se fecha na cultura grega e diz que a alma (no sentido de nephesh-psychè-ánima e, também, de ruach-pneuma-spiritus) é a “forma” do corpo, podendo subsistir sem a matéria corporal, pois mantém sua operação intelectiva apreendida mediante a operação sensorial, portanto do corpo vivo. Para ele, porém, o ser humano é um todo unificado, prejudicado, porém, em sua harmonia pelo pecado.
Os documentos do Magistério da Igreja afirmam que a alma é espiritual e dotado de imortalidade. Ora, se a alma é espiritual, não pode ser corrompida, pois sendo espírito, dotado de existência própria, autônoma e independente da matéria, não se extingue com a corrupção do corpo. Aqui, mas sem a explicitação que deveria existir, está se falando da ruach, portanto, do espírito humano no sentido espiritual, mas que só é aceitável, como já aludimos acima, para quem tem o dom da fé revelada. E este é um dos importantes diferenciais da fé cristã, qaunto à antropologia, em relação a todas as demais religiões e filosofias.

2.3 Homem e a Mulher. Segundo o dogma da criação, Deus criou o homem e a mulher à sua “imagem e semelhança”, com aptidão para a vida na graça e com dons, talentos, tendências e capacidades para cooperar no desenvolvimento deles mesmos até alcançar a plenitude deste crescimento pessoal e social e, também, para trabalharem no desenvolvimento e aperfeiçoamento do cosmos, primeiramente garantindo a continuidade de novos seres humanos na história. Deus, segundo a fé cristã, ao fazer o mundo com tudo o que ele encerra, deu a todos os seres a capacidade de se prepetuarem na história e se aperfeiçoarem. Ao homem e à mulher, também ele deu a missão de perpetuar a espécie, usando para isso, como os demais seres, a sexualidade e a genitalidade. A diferença, porém, é que eles não usam apenas na força do instinto, mas de um dom especial, denominado amor, que abrange, como natural e sagrado, o plano carnal, mas que, ao mesmo tempo o ultrapassa, de modo a expressar uma vinculação e complementação profunda dos dois, numa dimensão espiritual radical de amor, que lhes dá força para enfrentar tudo o que vier a acontecer com eles e os filhos. Homem e mulher, no plano da criação, são seres iguais e complementares: iguais e dênticos quanto à natureza, e complementares quanto às particularidades físicas e psicológicas. Realizam-se humanamente e santificam-se mutuamente dentro dos princíopios da ética e das leis da moral. A ambos foi confiada a responsaabilidade pela realização do Plano de Deus na história.
A fé revelada diz que ambos têm igual dignidade, embora no Antigo Testamento, dentro das limitações da evolução da consciência e da praxis humana naquela época, a mulher tenha tido sua participação restringida na família, sociedade e na religião, o que imcompreensivelmente ainda perdura em muitas partes do mundo e nas religões todas, inclusiva na cristã. No Novo Testamento, essa situação tem tudo para ser mudada a partir do fato de Jesus ter aberto espaço para a mulher e, também por Deus ter dado um destaque todo especial a Maria de Nazaré, Mãe do Senhor Jesus, na história da salvação. A Igreja cristã, porém, deixou-se dominar pela ideologia machista do judaísmo do qual brotou e, também, da cultura greco-romana na qual se inseriu, e isso perdura até hoje. Ela não assumiu realmente a “igualdade da dignidade humana entre homem e mulher”, restando-lhe, portanto, uma dívida história, que ainda está longe de ser solucionada.
A Igreja cristã ensina que a sexualidade-genitalidade humana encontra sua perfeita orientação e canalização no matrimônio monogâmico indissolúvel, destinado à complementação mútua no amor conjugal e familiar e à procriação da espécie para perpetuá-la no mundo. E ela colocou o matrimônio como um Sacramento, isto é, como minifestação visível da indissolúvel união de amor, isto é, da berith-diatheke = aliança esponsal de Deus com a humanidade, que alcança a sua manisfestão plena na “Nova e Eterna Aliança”, estabelecida e selada por Jesus Cristo, com seu próprio sangue derramado na cruz e sua vida dada em resgate por nós.

2.4  O mistério do mal: Pecado e Justiça Original. A Antropologia teológica estuda, também, a historicidade, fragilidade, finitude humana com base em dados bíblicos. Ela explicita que o ser humano perdeu a justiça original (sua harmonia plena), quando cometeu o pecado convencionalmente denominado de original. Para reconquistar esse estado foi necessária a redenção, oferecida gratuitamente por Deus e selada no mistério pascal de Jesus Cristo. Embora o ser humano recupere esse estado original no Batismo, a teologia ensina que as conseqüências do pecado original continuam a existir enquanto permanecemos neste mundo. Disso decorre que todo ser humano não apenas deve ser constantemente vigilante para não errar, mas, que ao pecar - pois isso acontece e sempre acontecerá -, ele tome consciência e se levante, confiante na misericórida de Deus e no seu próprio esforço, para continuar crescendo na fidelidade ao seu infinito amor de Pai e Mãe.
A doutrina do pecado original é essencial para a fé cristã, mesmo que a teologia não consiga dar-lhe uma explicação que satisfaça nossos questionamentos, já que se trata de um mistério. Entretanto, deve-se distinguir entre o pecado das origens e o estado de pecado no qual nasce cada ser humano. A Igreja cristã analisando a história concluiu que a humanidade vive mergulhada num caos tão grande, que deve ter havido algum acontecimento que o tenha causado, mesmo que alguns escritores digam que o relato do pecado original seja apenas simbólico. De qualquer modo, o relato não foi inventado e traz em si uma mensagem revelada de grande importância. Ele foi apresentado e continua sendo apresentado como “o tipo” do pecado, pelo qual teria o ser humano começado a utilizar a liberdade para se tornar autônomo e independente em relação a Deus, fazendo-se a si mesmo um absoluto. Deste modo, com o pecado de um ou de alguns, todos pecaram e estão na condição de pecadores. A participação dos descendentes no “pecado de Adão e Eva” se dá, portanto, pela “solidariedade” universal dos próprios seres humanos como corresponsáveis pela instalação do mal no mundo e por sua continuidade ao longo da história.

2.5 Creacionismo, evolucionismo... O Magistério da Igreja não nega o evolucionismo ou a evolução do ser humano - homem e mulher - ao longo da histórica dos cosmos, especialmente da terra. Ele o admite, porém, desde que a partir do criacionismo, isto é, da ação direta de Deus, na criação do ser humano. Não há aqui contradição alguma com a ciência, mas uma complementação por meio da fé revelada. A Igreja se fundamenta na Sagrada Escritura e acena para essa possibilidade, na parábola que explica para o povo daquele época a necessária intervenção de Deus na criação explícita e diferenciada do homem e da mulher em comparação com todas as demais criaturas (cf. Gn 1, 26-31; 2, 18-25). Deus, na linguagem literária utilizada pelos escritores sagrados, modelou o homem e a mulher, à semelhança do que faz um oleiro, a partir de materiais pré-existentes na natureza que fora criada pelo próprio Deus e que o texto bíblico sintetiza no termo “barro”, “limo”, “humus”. E há no relato o pormenor do “soprar de Deus” (a ruach que sai de Deus) nas narinas do futuro do ser, que passaria, por causa disso, a existir como ser humano, como esta ruach, como o diferencial mais importante, conforme a o próprio dizer da Sagrada Escritura. Deus-Criador é quem de imediato faz do nada, cria (bará) a alma espiritual e imortal (ruach) em cada homem, em cada mulher.
A criação do ser humano, segundo a narrativa bíblica, é diferente dos outros seres porque ele é“imagem de Deus” por motivo, entre outros, da “ruach” que recebe diretamente de Deus. Os demais seres se reproduzem sozinhos, de maneira natural, mas o homem e a mulher necessitam que Deus crie a alma-espírito e a infunda na corporeidade humana. Este ato criador - assim a Igreja crê e ensina, acontece no instante da concepção (da fusão espermatozóide-óvulo), já que a vida do ser humano se inicia, segundo ensinamento da Igreja, neste preciso momento.
Há um outro campo muito polêmico quanto à origem do ser humano. É a hipótese do poligenismo, isto é, do aparecimento de diversos casais de um mesmo tronco originário e não de um único (revelado na Bíblia como Ish (homem) e Ishaa (Mulher), do mesmo tronco Adama (ser humano) [3]. O poligenismo é totalmente rejeitado pela Igreja por ser contrário à doutrina do pecado original universal e, também, contrário à unidade da História da Salvação. Mesmo assim, apesar de não aceito, há uma brecha de tolerância se se considerar Adama, “ser humano”, como gênero humano, que depois evoluíu. E, para a Igreja, em sua Antropologa teológica, essa hipótese não contraria nem o criacionismo e nem o evolucionismo, desde que haja um tronco único no começo da criação do gênero humano na história, do qual o restante da humanidade partiu em sua saga na história.

3. A Catequese e a Antropologia Teológica judaico-cristã

3.1 Agraça supoõe e aperfeiçoa a natureza humana. Escreve Santo Tomás de Aquino que “a graça supõe a natureza” (Suma Th in I , 2,2 ad 1; IV, Lec 6) e que ela não suprime a natureza humana, mas a aperfeiçoa (Suma Th I, 1, 8 C). Ora, nossa fé tem por dogma que o Filho de Deus assumiu a natureza humana, demonstrando, portanto, a extrema valorização que dá a Santíssima Trindade ao ser humano, por ela mesma criada. E, isso, apesar da ruptura com Deus que a liberdade humana fez acontecer e continua fazendo acontecer. Sabemos que, no Plano amoroso de Deus para redenção da humanidade o mistério da encarnação do Filho de Deus, tem exatamente, como objetivo maior, ajudar o ser humano a optar pelo caminho da salvação, isto é, da sanação da ruptura efetuada. A maravilha da redenção realizada pelo mistério pascal de Jesus Cristo, e por todas as graças daí decorrentes, atuam para aperfeiçoar a realidade frágil, histórica, limitada e pecadora da natureza humana, que Deus quer participante de sua felicidade infinita, por puro amor, gratuidade absoluta em querer partilhar seu ser e sua felicidade conosco.
Ora, como consequência dessa verdade e dessa convicção, para quem tem o dom da fé revelada nem poderia haver o mínimo de menospreza pela natureza humana, tal qual é, ainda mais depois da encarnação do Filho de Deus, por meio de Maria e da missão redentora que ele realizou como gesto maior do amor de Deus para conosco. Por pior que alguém se comporte, acumulando em si e fazendo acontecer a maldade, nada justifica um mínimo de descaso, de desprezo por ele. Ao contrário, para quem tem o dom da fé, tudo deve ser feito para colocar à disposição dele todos os meios possíveis para que se recupere, se redima, se converta e passe a viver em coerência com sua dignidade humana, enriquecida com a grade de ser filho ou filha de Deus.

a) A importância de dar a necessária atenção à natureza humana. A Palavra de Deus encarnada, Jesus Cristo, não apenas assumiu a natureza humana, em tudo, menos o pecado, mas deu a máxima atenção à concreticidade do ser humano em seu todo físico, psíquico, relacional, espiritual. E sua experiência junto aos excluídos sociais o direcionou, mais e mais, ao logo da vida a fazer por eles uma opção preferencial, radical, pois a situação em que viviam em nada correspondia ao Plano divino de felicidade já aqui na terra para cada pessoa humana.
Fica difícil ou até mesmo impossível explicar, melhor ainda, justificar como no decorrer dos dois mil anos do cristianismo tenha acontecido e crescido entre os cristãos uma tão alienante visão da pessoa, mensagem e missão de Jesus Cristo, retirando-lhe a corporeidade e inserção na história e, sobretudo, a opção preferencial pelos pobres que ele viveu, de maneira tão concreta, e que se tornou uma das suas marcas mais fortes. Os textos dos evangelhos são abundantes nos relatos a respeito da atenção eficaz do Filho de Deus para com as pessoas enfermas, famintas, prejudicadas por distúrbios psíquicas, por dramas pessoais, pessoas excluídas da sociedade, consideradas publicamente como pecadoras, vistas e rejeitadas como amaldiçoadas por Deus... É impressionante a sensibilidade de Jesus tanto com as pequenas coisas em favor do ser humano, como dar um copo de água, acolher e abençoar crianças, quanto também, com relação a situações mais complicadas como a dos leprosos, epilépticos, enlouquecidos, endemoniados. Mas ele não apenas fica no dado pessoal, pois há situações sociais, religiosas e políticas que ele não aceita e, nisso, citamos como exemplo, a sua atitude no Templo, profanado pelo negociantes, o tipo de vida e de governo de Herodes que, numa demonstração de frouxidão extrema, manda matar João Batista, este Herodes que avisa Jesus para sair do território dele, mas a quem Jesus responde chamando-o por uma palavra terrivelmente ofensiva ao governo e, portanto, passivel de duros castigos, por ser um desrespeito frontal à autoridade civil: “ide dizer a esta raposa!”. Jesus não foi uma alienado político nem religioso, já que seu objetivo neste mundo era lutar para fazer acontecer a salvação plena do ser humano, isto é, para que pudesse viver feliz aqui terra e na eternidade.
Um dos mais impressionantes ensinamentos de Jesus, segundo a narrativa de Mateus é a plena identificação que ele faz dos mais pobres com ele mesmo. É um ensinamento difícil de se aceitar até hoje e um dos que menos os cristãos colocam em prática: Vem, querido de meu Pai. Estive com fome e me deste de comer, estive com sede e me deste de beber, estava doente e cuidadeste de mim, estava no cárcere e me visistaste, não tinha onde morar e me acolheste. Cada vez que fizeste isso a um dos mais sofridos seres humanos foi a mim que o fizeste (cf. Mt 25. 31-46). Identificar Jesus e atendê-lo na pequenez dos mais sofridos, pobres e excluídos é, sem dúvida, um sinal claro da verdade da conversão do discípulado missionário. E, afinal de contas, isso é, em verdade e realmente “fazer a vontade do Pai!” como Jesus viveu e como ele quer que vivamos.

3. Catequese e realidade humana. Partir de realidade humana (ver) é óbvio no modo de Jesus ser, ensinar, fazer. O episódio dos Discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35) evidencia isso, logo no começo, quando Jesus se soma aos dois caminhantes. Ele observa, escuta atentamente, interroga sobre o sofrimento deles, sobre o que de tão grave acoteceu para deixá-los assim tão abatidos e fazê-los desistir de tudo e fugir... Só depois de cuidar da realidade humana dos dois discípulos, da situação social, política e religiosa deles é que Jesus ousa dar sua opinião, iluminando tudo a partir das Escrituras Sagradas, desde Moisés. Mas ele o faz com tal pedagogia que chega a atingir a natureza humana integral dos dois, fazendo seus corações arderem, mobilizando-os para a oração, para a eucaristia e para a missão. Durante sua missão de ensinar ele está atento às pessoas e se sensibiliza com os sofrimentos, de modo especial a fome e as doenças e as injustiças sociais. De acordo com este olhar atento sobre as manifestações da natureza humana Jesus adapta e incultura seu modo de ser e viver, sua mensagem e sua missão. Como judeu não se enquadra na racionalidade dos argumentos, mas se interessa por afeto, sensibilidade, relações humanas, sentimentos, amor, fraternidade, serviço, cura, justiça.
Ora, é impossível conseguir ajudar alguém a experimentar o alcance profundo e transformador do encontro pessoal com Jesus Cristo vivo sem levar em conta a densidade e fragilidade, a riqueza e pobreza da natureza humana, com tudo o que ela é, reage, tem e faz, a exemplo de como Jesus fez. Ver a partir do olhar da fé e com ajuda de todas as ciências a realidade humana, especialmente do dia-a-dia de cada pessoa e do que a envolve não é apenas questão de pedagogia, método; é parte integrante do processo de evangelização e catequese, liturgia e pastoral. Antes mesmo de falar de Deus e dos ensinamentos da Igreja é preciso cuidar do ser humano. E, hoje, isso se torna obrigatórico face à crise em que se encontra a família, a responsabilidade dos pais, à crise educacional da escola e ao desprezo tanto da ética e da moral,. Como da religião, de Deus e do valor e sentido da vida em si, mormente da vida humana, fomentado em troca de dinheiro por fortes grupos sociais, culturais e políticos. A catequese que não dedica uma boa parte do começo do processo de Iniciação à Vida Cristã e de todo o processo, à dimensão humana do catequizando, corre o sério risco de construir a educação do discípulo missionário sobre areia, portanto, certamente fadado ao desmoronamento. O mesmo ocorrerá se ela não preparar bem os catequizandos para serem construtores de uma sociedade na qual se priorize a vida, a dignidade humana, a justiça social, a fraternidade e a paz.

Concluindo
A antropologia bíblica e teológica cristã, em sua complexa e maravilhosa união entre básâr, nephesh e ruach, integra obrigatoriamente nossa vida e missão de discípulos missionários de Jesus Cristo. O Concílio Vaticano II, especialmente mediante a Gaudim et Spes revoluciona a Igreja Católica quanto ao modo de lidar com a concreticidade do ser humano como pessoa e como cultura, construtor da mundo justo e solidário e como história. Mais que teoria, que tem em si seu valor, o que interessa para nós cristãos é a questão da praxis, com o objetivo de superar o fosso entre fé-vida, fé-cultura que predominou por tanto tempo em nosso modo de ver, interpretar e viver a fé cristã, fosso que também acontece em relação ao nosso modo de vivê-la pessoal, comunitária e socialmente.
A segunda Conferência Episcopal dos Bispos de América Latina, em Medellín, deu um passo gigantesco ao aplicar em nosso continente os ensinamentos da Bíblia e da Gaudium et Spes, mormente, pela ousada eclesiologia inspirada na Comunidade Eclesial de Base, pela profetica maneira de fazer e operacionalizar teologia a partir da incipiente mas esperançosa Teologia da Libertação, pela encarnação e inculturação da fé na situação real do povo e pela opção preferencial pelos pobres. Medellín, no capítulo sobre catequese, diz que as situações verdadeiramente humanas fazem parte do conteúdo da catequese (cf. Medellin, 8). E o Documento da CNBB Catequese Renovada, Oreintações e Conteúdo assume esta orientação de Medellín e propõe a prática libertadora a partir do princípio metodológico da interação fé-vida (CR 112-113; 116-117)
A catequese dispõe, neste momento da história, das melhores orientaçoes da Igreja e da experiência da base para realmente se renovar. E tanto o Diretório Geral da Catequese, o Diretório Nacional de Catequese como o Documento de Aparecida e o Estudo da CNBB Inciação à Vida Crsitã estão aí à disposição para que demos continuidade ao processo renovador e libertador que vem marcando a história da nossa Igreja em nosso continente, mormente no Brasil. Os desafios hoje de um mundo cada vez mais plural e de verdadeira e ampla mudança civilizacional estão a exigir de nós esta coerência profética e martirial da conversão, da fundamentação e da práxis em vista da salvação plena do ser humano, tanto em sua realidade humana aqui na terra como para a vida eterna feliz no seio da Santíssima Trindade

QUESTÕES PARA O PROCESSO PARTICIPATIVO:

a) Fase 1- Diálogo a partir do conteúdo aqui exposto para destacar alguns dados fundamentais;
b) Fase 2 – Pedidos de esclarecimentos de algum aspecto do texto
c) Fase 3 - Apresentar sugestões para enriquecer o texto
d) Fase 4 – Sugestões quanto à aplicação da Antropologia Teológica à catequese.


* Irmão Israel José Nery fsc, de Machado, MG, membro do Instituto dos Irmãos das Escolas Cristãs (La Salle), é graduado na Universidade Lateranense, em Roma, escritor (54 livros), conferencista e professor. Foi Assessor da CNBB para Catequese, Ensino Religioso e Campanha da Fraternidade (1983-1987) e para Educação (1997-1999), Provincial Lassalista (1988-2003), Vice-Diretor da Conferência dos Religiosos da América Latina (CLAR) de 1988 a 1991. É Secretário Provincial, integrante do Grupo de Reflexão de Catequese da CNBB (GRECAT) e presidente da Sociedade de Catequetas Latinoamericanos (SCALA). E-mail: irnery@yahoo.com.br




[1]              “Adam” (originado do húmus, do barro) denominação usada em Gênesis é um termo ambíguo já que pode ser traduzido para se referir a um indivíduo como para o gênero humano, o ser humano. O mais comum, tanto no uso hebraico como cristão, foi aplicá-lo a um indivíduo que passou a ser denominado de “Adão”. Isso ocasionou, portanto, a limitação de a “imagem e semelhança de Deus” ao homem, fundamentando, em grande parte, o machismo judeu e cristão. Aconteceu que não se prestou suficientemente atenção ao fato de que na tradução dos 70 para o grego a distinção é realizada corretamente. A tradução de Adam é Anthropos, portanto, gênero humano e não um indivíduo. Ora, a partir dessa compreensão, fica claro que a mulher, integrante do gênero humano, é antropos, portanto, imagem e semelhança de Deus igual ao homem.

[3] Adama-adão (originário do húmus ou barro), em hebraico, é um termo ambíguo, pois serve para denominar o ser humano como espécie, isto é, o gênero humano, como para designar um determinado indivíduo. É preciso muito conhecimento para poder distinguir no texto bíblico uma coisa de outra.

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