sexta-feira, 16 de setembro de 2016

HOMILIA DO DOMINGO: TANTO ME SEDUZ ESSA COISA DESONESTA


25º Domingo do Tempo Comum - (Lc 16, 1-13)

Na semana passada escutamos o imenso capítulo 15, a grande Parábola da Misericórdia, naqueles três atos famosos: ovelha perdida, moeda perdida, filhos perdidos. Lembramo-nos do contexto: os malditos e últimos que se aproximavam de Jesus para ouvirem as palavras dele, mais os fariseus e doutores da lei que rondavam por ali para murmurarem contra ele. O final em aberto, com a zanga do filho mais velho, é um espelho a jeito de denunciar o que ainda houver em nós de farisaísmo.

Disse eu, na semana passada: o anúncio da Bondade Infinita de Deus é, para muitos, uma espécie de “má notícia”. Como se fosse uma injustiça que “os outros”, aqueles a quem chamam “maus” ou “pecadores”, sejam amados por Deus com o mesmo carinho e ternura que eles mesmos. Os ouvidos dos fariseus não acham graça nenhuma à Graça de Deus! Por isso não acharam graça a Jesus, e continuam a encrencar a vida de quem lhe repete as deixas.

Mas Jesus não se detém no ponto final de nenhuma “punch-line”… Em seguida, Jesus entrou noutro tema quente, um dos mais delicados: dinheiro. E contou uma parábola estranha, de um feitor desonesto que, depois de desviar dinheiro do patrão, ainda montou um esquema com os devedores dele quando foi apanhado. O objetivo era simples: com esse esquema de dinheiro tirado por baixo da mesa, arranjar amigos que lhe ficassem no favor e, por isso, o recebessem quando ele fosse despedido. Até o patrão elogiou a esperteza do fulano!

Esta é uma parábola que Jesus conta aos discípulos, e onde Jesus os quer levar é a esta conclusão: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”. Não é possível, porque têm Espíritos diferentes. Por outras palavras: a lógica de Deus e a lógica do Dinheiro contradizem-se mutuamente. Negar isto é negar o Reino de Deus como Jesus o anunciou. Jesus, nesta parábola, chama ao dinheiro “essa coisa desonesta”, o que é uma maneira muito desonrosa de falar daquilo que às vezes nos seduz tanto. O convite do Mestre é a mantermos uma relação livre com o Dinheiro, para não crescer dentro de nós a cobiça que nos escraviza. 

Nesta primeira parábola sobre Dinheiro, o feitor utiliza essa ferramenta para criar cumplicidades, proximidades, amigos que o acolham. Depois, Jesus vai contar outra parábola, que fala também de Dinheiro: um homem muito rico e um pobre, chamado Lázaro, que fica à porta (eu sei que é o evangelho para o próximo domingo, mas estas coisas entendem-se melhor assim em narrativa…). Nesta segunda parábola que Jesus conta, como o segundo lado de um díptico, o Dinheiro cria distância, separação, afastamento absoluto. Normalmente, é isso que acontece. Durante a parábola, aparece Abraão dizendo que entre o rico e Lázaro há um abismo intransponível… Esse abismo foi cavado pelo Dinheiro, pelo mau uso dele. Foi o rico que o cavou, e agora não pode atravessá-lo.

O que está em causa, então, entre estas duas parábolas, é isto: De que maneira a relação que estabelecemos com o Dinheiro altera as relações que temos com as pessoas? Levar esta pergunta a sério é fundamental para a nossa conversão à Palavra de Jesus sobre o Reino de Deus.

Usamos aquilo que temos como meio que nos aproxima dos outros, que gera cumplicidades e amizades? Ou, por outro lado, usamos aquilo que temos com ganância e, por isso, nos afastamos e nos protegemos dos outros, como se fossem uma ameaça para os nossos bens?

Usamos o nosso Dinheiro para fazer Mesas nas quais nos sentamos com outros, ou para fazer cofres onde guardamos os nossos bens? Gastamos o que temos a construir pontes que nos unem a outros, ou a levantar muros que nos protejam deles?

As perguntas não são de resposta rápida… Porque as respostas a perguntas destas, não são respostas feitas de palavras. São respostas feitas de gestos concretos, escolhas, corações ao alto, pés no chão e mãos abertas.

Não aconteça entre nós o que aconteceu entre os fariseus, quando Jesus falou destes assuntos, assim com toda a seriedade. Jesus estava a falar só com os seus discípulos, porque a conversa diz respeito a quem anda com Jesus e se quer dedicar ao Reino de Deus. O evangelista conta que os fariseus, que sempre rondavam por ali, ouviram isto, e reagiram quando Jesus disse a tal frase: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”. Então, “os fariseus, porque eram muito avarentos, ouviam tudo aquilo e começaram a fazer troça de Jesus”… (é a frase - terrível! - colocada entre as duas parábolas).

Murmuram contra Jesus, quando o assunto é o carinho de Deus pelos últimos. Troçam dele, quando o assunto é a liberdade em relação ao Dinheiro. Como é que se podem abrir os olhos de quem não sabe que é cego?

FONTE: https://www.facebook.com/homilias.rui.santiago.cssr/posts/663146103835030

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