sexta-feira, 5 de outubro de 2018

HOMILIA DO DOMINGO: O QUE DEUS UNIU, O HOMEM NÃO SEPARE



              HOMILIA DO 27. DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B

Seria o divórcio o centro da reflexão de Jesus no Evangelho deste domingo? Poderíamos erroneamente reduzir Jesus ao legalismo, enquanto sabemos muito bem, pelo Evangelho, que Jesus se distancia deste caminho.


A pergunta dirigida a Jesus tem como pano de fundo a injustiça legal dois judeus e a dureza dos seus corações. No tempo de Jesus, o homem podia dispensar a mulher simplesmente por não estar mais satisfeito com ela. A mulher era largada e não podia mais contrair novo matrimônio sem a autorização do homem. Ora, Jesus aproveita a pergunta para condenar o machismo, o autoritarismo amparado pela lei.  Faz o resgate da Palavra de Deus, dizendo que no princípio não era assim, ou seja, os decretos primordiais não são fundados no egoísmo, mas no amor genuíno. 


O livro do Gênesis nos diz que quando um homem e uma mulher se unem, “os dois formarão uma só carne, assim, já não são dois, mas uma só carne” (Gn 2,24). A primeira leitura reforça a pregação do Senhor. Quando Adão estava no paraíso, vivia sozinho, mas o Senhor não deseja a sua solidão. Então da-lhe uma companheira. Não lhe dá alguém para ser oprimido ou para oprimir, não recebe Adão um instrumento de dominação, mas alguém tirado de seu lado, de sua natureza: “Desta vez, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem” (Gn 2,23).


O livro das origens nos ensina que a vocação do homem não é a solidão, mas o amor. É na relação com o outro, na alteridade, ou seja, no confronto com o diferente, que se descobre a si mesmo e se encontra a realização. Isto acontece de um modo especial na relação entre homem e mulher, quando os opostos se confrontam e se unem.


Porém, viver um ao lado do outro não é ainda garantia de partilha, de construção mútua.  Casais podem dormir na mesma cama e não formarem uma comunhão. Também podemos estar cercados de uma multidão e mesmo assim nos sentirmos sozinhos. A solidão só é oportunidade de crescimento, de dar e de oferecer algo.
O amor exige respeito, sabedoria, ternura, empenho. Não somente na relação homem e mulher, mas todas as relações humanas devem ser regidas pelo princípio da relação de alteridade respeitosa, que é fruto do amor.



Jesus é o maior modelo deste amor que está totalmente longe da opressão. Isto porque sua encarnação é o maior gesto que desfigura o poder, colocando no seu lugar a manifestação de um amor que é capaz de se rebaixar, humilhar-se, derramar-se. Na carta aos Hebreus vemos Kenosis (= rebaixamento) de Deus, que mesmo divino, submete-se a ser menor os anjos e a sofrer na cruz. Por que Deus não se manifestou como um poderoso rei? Poderia ser Ele um grande general, um grande homem da corte, um homem de posses. Mas não quis. Se quisesse visibilidade explícita, deveria ter se encarnado no século XXI e ser filho de um dono de emissora de TV e não filho de um carpinteiro nos subúrbios da Palestina do século I.  A revelação de Deus em Jesus Cristo nos desconcerta. Parece que o ser humano está distante de seu exemplo, pois de modo geral o poder e o prestígio nos dominam e pervertem as relações familiares, comunitárias, trabalhistas.


A criança é o modelo da dependência do Pai, do despojamento frente à autossuficiência. Não busquemos modelos de autossuficiência em pessoas cheias de vaidade, mas na singeleza das crianças, que são pequenas, ternas, dependentes e transparente.


Pe. Roberto Nentwig
Arquidiocese de Curitiba- PR

FONTE: 
NENTWIG, Roberto. O Vosso Reino que também é nosso. Reflexões Homiléticas - Ano B. Curitiba; Editora Arquidiocesana, 2015. pg. 79.


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