terça-feira, 2 de abril de 2019

VAMOS COMER PIPOCA NA PÁSCOA?


Sim! E de um jeito bem diferente!


Estourar algumas pipocas, colocar em saquinhos de plástico ou copinhos descartáveis, achar umas carinhas no Google imagens e... está pronta a Lembrancinha de Páscoa para as crianças ou para os amigos.

Claro que um cartãozinho também não seria nada mal:

"Faça da sua páscoa um "estouro": Jesus ressuscitou!"
ou
"Sejamos os cordeiros da Páscoa, como Jesus o foi por nós!"
ou
"Alegre-se! Nesta festa do Cordeiro, tem pipoca!"
ou
“Transforme-se em nova pessoa: Viva a Páscoa de Jesus!”

O resto vai da criatividade do catequista...




* As imagens foram coletadas na internet. Não sabemos o autor da ideia, mas, merece os parabéns! Agradecemos se o autor se manifestar para darmos a ele ou ela, o crédito.

PARA INSPIRAÇÃO:

Rubem Alves tem um texto maravilhoso sobre a Pipoca, que ele descreve como “objeto poético”. Meditando, ele descobriu que o bom pensamento é como a pipoca que estoura, nasce de forma inesperada e imprevisível. E para ele a pipoca tem sentido religioso!


O SENTIDO RELIGIOSO DA PIPOCA
  
“(...) A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, Quebra-Dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa - voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! - E ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. ”

Mas, lembra o poeta, tem o piruá:

“(...) Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á". A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo. Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira... nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".

Rubem Alves

* O texto é um enxerto de uma publicação na coluna que o autor mantinha no jornal "Correio Popular", de Campinas (SP).

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