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quarta-feira, 7 de junho de 2023

QUERO MISERICÓRDIA E NÃO SACRIFÍCIO: REFLEXÃO

Imagem: cebi.org

Amados e amadas em Cristo, vamos juntas refletir o texto do Evangelho de Mt 9,9-13,18-26. Estamos no Tempo Comum, que se estende do fim do ciclo pascal (terminado no domingo de Pentecostes) até o início do Advento, somando 28 a 30 semanas. Esse tempo após Pentecostes, os textos bíblicos lembram a continuação das obras salvíficas de Deus e chamam as pessoas a ser seguidoras de Jesus Cristo por meio de suas palavras e ações. Os textos chamam a atenção para a prática correta da vontade de Deus. O simples cumprimento da lei não implica “fazer” a vontade de Deus. A ortopraxias é uma chamada para que as pessoas se relacionem com Deus em fé e serviço, em que as ações sejam realizadas por amor a Deus e ao próximo que sofre.

A primeira parte, nos revela o amor do Pai através de Jesus, com suas atitudes de misericórdia e bondade, não somente perdoa os pecados, mas transforma o pecador em discípulo. Chamado de Mateus, que em Marcos é denominado Levi (Mc 2.14), o texto fala que ele é um homem que trabalhava na coleta de impostos. Havia naquela época tributos diretos e indiretos. A cobrança dos impostos na Palestina era feita pelo sistema de arrendamento. O Império Romano e os governos locais terceirizavam essa atividade, arrendando-a por um ou mais anos a pessoas que pagassem antecipadamente o valor mais alto pelo conjunto de tributos e taxas que seriam cobrados em determinada região ou cidade. São pessoas ricas, que firmavam contratos arriscados e que tentavam tirar, durante o período da coleta, além do capital investido, também o seu lucro, usando, muitas vezes, artimanhas e trapaças, não muito diferente de hoje. Onde os poderosos pisam nos mais fracos, impossibilitando-os muitas vezes de lutar por sua dignidade. 

Se a primeira parte fala do chamado a conversão, da prepotência dos poderosos e nos revela a misericórdia de Deus, que todos somos seus filhos e filhas, que por mais que erramos Deus não nos abandona, a segunda parte revela a força da fé, a cura dos nossos males, que basta pedir e esperar com paciência o tempo do Pai. A ressurreição é o pano de fundo da segunda metade, quando um funcionário pede que Jesus toque sua filha, acredita que ela vai acordar. A fé e o toque de Jesus cura. E como estamos hoje? Temos essa fé madura, que nos fortalece ou continuamos sendo imediatistas?

Estamos nos preparando para sermos irmãos, irmãs que acolhem, que amam, que perdoam, que se reconhecem pecadoras. O Senhor está nos dizendo hoje: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Não adianta caminharmos senão converter o nosso coração, que saibamos acolher aqueles que o mundo despreza, aqueles a quem não olhamos com um bom olhar, que consideramos como “pessoas que não servem”. Mas são elas que servem para Deus, a elas que devemos buscar.

Maristela Bonim
CEBI-RO




sábado, 16 de julho de 2022

REFLEXÃO DO EVANGELHO: O MESTRE INTERIOR

 


EVANGELHO: LUCAS 10, 38-42

Enquanto a hierarquia católica insiste na necessidade do magistério eclesiástico para instruir e guiar os fiéis, importantes setores de cristãos orientam hoje em dia suas vidas sem ter em conta as suas diretrizes. Onde é que este fenômeno nos pode conduzir? A questão inquieta cada vez mais.

Alguns teólogos acreditam ser necessário recuperar a consciência do «magistério interior», tão esquecido entre os cristãos. Diz-se isto: de pouco serve insistir no magistério hierárquico se os crentes – hierarquia e fiéis – não ouvirmos a voz de Cristo, o Mestre interior que continua a instruir através do seu Espírito aqueles que realmente o querem seguir.

A ideia de Cristo «Mestre interior» começa do próprio Jesus: «Não chameis a ninguém mestre, pois um é o vosso Mestre: Cristo» (Mateus 23,10). Mas foi sobretudo Santo Agostinho que o introduziu na teologia, reivindicando fortemente a sua importância: «Temos um só Mestre. E sob ele somos todos condiscípulos. Não nos tornamos professores pelo fato de vos falar a partir de um púlpito. O verdadeiro Mestre fala de dentro».

A teologia contemporânea insiste nesta verdade demasiado esquecida por todos, hierarquia e fiéis: as palavras que se pronunciam na Igreja servem apenas como um convite para que cada crente escute dentro de si a voz de Cristo. Isto é o decisivo. Só quando se aprende com o próprio Cristo se produz algo novo na vida de crente.

Isto traz consigo várias exigências. Em primeiro lugar para aqueles que falam com autoridade dentro da Igreja. Não são os donos da fé ou da moral cristã. A sua missão não é processar e condenar pessoas. Ainda menos atirar fardos pesados e insuportáveis aos outros. Não são mestres de ninguém. São discípulos que devem viver aprendendo de Cristo. Só então poderão ajudar outros a «deixarem-se ensinar» por ele.

É assim que Santo Agostinho interpela os pregadores: «Por que gostas tanto de falar e tão pouco de ouvir? O que verdadeiramente ensina está dentro; por outro lado, quando tentas ensinar sais de ti mesmo e andas por fora. Ouve primeiro o que fala por dentro e desde dentro fala depois aos de fora».

Por outro lado, todos devemos lembrar que o importante, ao ouvir a palavra do magistério, é sentirmo-nos convidados a voltar-nos para dentro para ouvir a voz do único Mestre. Santo Agostinho também nos lembra: «Não andes por fora. Não te espalhes. Mergulha na tua intimidade. A verdade reside no homem interior». É instrutiva a cena em que Jesus elogia a atitude de Maria, que, «sentada aos pés do Senhor, escuta a sua palavra». As palavras de Jesus são claras: «Só uma coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte».

José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

Fonte: cebi.org.br

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

POR UMA SANTIDADE VIGILANTE E LIBERTADORA

 


REFLEXÃO DO EVANGELHO  Marcos 13,24-32

No Evangelho de Hoje, iremos refletir sobre um trecho do capítulo treze do Evangelho de Marcos. O ensino de Jesus nessa passagem é sobre serviço e a vida de santidade, e já podemos começar com uma pergunta: o que temos aprendido sobre santidade em nossa caminhada como discípulas e discípulos de Jesus? Qual a definição que temos sobre santidade? O que significa viver em santidade em um mundo cheio de desafios, sobretudo nos dias de hoje?

Por várias décadas, nos foi ensinado que, para viver uma vida de santidade, é preciso se afastar das coisas mundanas, onde o legalismo se ocupou em elaborar uma lista de práticas pecaminosas e abomináveis aos olhos de Deus. O que é proibido e o que é lícito é o que define a vida de santidade. Nessa esfera de “santidade”, os que pretendem seguir a Jesus passam a viver em uma realidade distante, isolados do tempo e da história, sem envolvimento com as mazelas no mundo de hoje.

Mas o ensino de Jesus caminha para outra direção. Viver em santidade não é um chamado para o isolamento da sociedade, ao contrário, a vigilância acontece em uma vida de serviço, amor e fraternidade. Jesus entrega aos discípulos e discípulas a missão do serviço, em vigilância, assim, deslizada a missão, entregar ao seu Mestre bons frutos, frutos de esperança e partilha.

A santificação não é a prática dos velhos religiosos, pautada nos ritos do templo e no cumprimento das leis, a santificação brota do coração dos apaixonados pelo Evangelho libertador de Jesus de Nazaré, que se misturam com o povo, que escuta o seu sofrimento e luta, que age diante dos múltiplos desafios da vida, a santificação deve abrir nossos olhos para o tempo de hoje, nos libertando das velhas práticas religiosas do passado, vida abundante, na esperança e na fé.

Uma leitura a partir do contexto, nos Evangelhos, o ensino de Jesus aponta para um caminho de libertação, por isso, urge uma atenção e reação a tudo que oprime, sobretudo os pobres. No trecho do Evangelho de Marcos, Jesus usa a figura do Senhor que entrega aos servos uma missão, e adverte sobre a importância da vigilância até a sua vinda. Essa missão está profundamente ligada ao cuidado e serviço às pessoas, às lutas libertárias nos diversos lugares, ao contrário das velhas práticas do legalismo, nossa missão hoje é o amor e a partilha.

No texto do Evangelista Marcos, Jesus também fala de tribulação (sofrimento), e, certamente é uma palavra para nossos dias. Quantos dos nossos irmãos e irmãs vivem em tribulação? Desemprego, fome, violência e etc. São milhões de oprimidos. Portanto, urge a missão vigilante da luta libertadora aqui e agora.

Marcos Aurélio dos Santos, teólogo popular e membro do CEBI RN.

Fonte: cebi.org.br

 

domingo, 31 de janeiro de 2021

JESUS: O DESAFIO DA LIBERDADE - REFLEXÃO MARCOS 1, 21-28

Imagem: CEBI. ORG

Reflexão sobre Marcos 1,21-28

Hoje o Evangelho de Marcos continua apresentando-nos Jesus no primeiro dia da proclamação da Boa Nova. Ele se encontra na sinagoga em Cafarnaum e nesse dia prega a Palavra de Deus que foi lida e escutada. Mas sua pregação é diferente: desmascara a malignidade de tudo o que desumaniza a vida das pessoas e impede-lhes de ser feliz. Ensina e atua com autoridade fundamentada no poder liberador de Deus.

A missão de Jesus é libertar os oprimidos e escravizados pelo poder do mal. Baseado na Palavra, Jesus ensina com autoridade e realiza aquilo que ele está proclamando: liberar as pessoas de qualquer forma de escravidão, abrir suas consciências para que não se deixem oprimir.

Marcos não diz qual era o ensinamento de Jesus. Ele menciona-o junto com uma cura e sugere assim que o ensinamento com autoridade repouse numa prática concreta de libertação. Os próprios fatos que Jesus realizava eram seu ensinamento. O povo simples e geralmente marginalizado pela sua condição de impureza é quem primeiro o reconhece e busca seu ensino.

“Mais daquilo que ele falava o que impactava era esse poder de suas ações em favor da vida e contra o mal que esmaga o homem. A presença de Jesus privava o homem de toda força. Essa era a clave de sua autoridade: ele não tinha estudos, nem credenciais ou graduações que o autorizavam, mas quando ele falava alguma coisa acontecia em favor dos que sofrem”.

Jesus está na sinagoga em dia de sábado, data sagrada para um judeu realizar seu ensinamento expulsando os espíritos imundos que o reconhecem como representante de Deus.

Agora, bem, esta proposta de Jesus provoca admiração naqueles que ficam maravilhados de sua autoridade de liberar e curar as pessoas e, por outro lado, encontra-se com uma forte oposição. Esta oposição está representada pelos escribas, colocados no mesmo caráter que os escribas: ambos são inimigos de Jesus.

“A primeira ação publicada de Jesus é também uma ação programática de purificar a Casa de Deus e libertar as pessoas de tudo que as aliena e desumaniza”. (Wenzel, João Inácio)

Os escribas e fariseus são incomodados pelas suas palavras e autoridade de Jesus que é reconhecida pelo povo simples que sente nascer em Jesus uma nova esperança de vida e liberdade.

Jesus nos convida a sermos, junto com ele, pessoas que gerem vida, sem permitir que os diferentes tipos de escravidão continuem oprimindo as pessoas que caminham ao nosso lado. Participar de sua convicção de ter uma missão e ser responsável de uma causa que é a causa do Pai.

*Texto de Ana Maria Casarotti.

Fonte: IHU

https://cebi.org.br/reflexao-do-evangelho/jesus-o-desafio-da-liberdade/

link do estudo: https://cebi.org.br/reflexao-do-evangelho/jesus-liberta-de-todos-os-males-2/




domingo, 8 de novembro de 2020

HOMILIA DO DOMINGO - 32º DOMINGO DO TEMPO COMUM: "VEM SENHOR!"

Imagem: Pinterest

Comentário de Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 32º Domingo do Tempo Comum, 8 de novembro de 2020 (Mateus 25,1-13).

EIS O TEXTO:

Nestes últimos domingos do ano litúrgico, a nossa contemplação se dirige à parusia, à vinda gloriosa do Senhor, mediante a leitura das três parábolas que concluem o discurso escatológico de Jesus no Evangelho segundo Mateus (cf. Mt 25). Hoje, ouvimos a parábola do Noivo que tarda a vir e das dez virgens chamadas a esperá-lo.

O Noivo estava demorando…”Senhor Jesus é o Noivo messiânico (cf. Mt 9,15; Ef 5,31-32), que veio para estreitar a nova e eterna aliança de Deus com toda a humanidade, no amor e na fidelidade (cf. Os 2,21-22). Depois de narrar Deus com toda a sua existência, Jesus “foi tirado” (cf. Mt 9,15) dos seus de forma violenta, conheceu a injusta e vergonhosa morte de cruz: o Pai, porém, o chamou de volta dos mortos, selando com a ressurreição o amor por ele vivido.

Pois bem, na sua inabalável esperança na ressurreição, Jesus tinha previsto e prometido aos discípulos a sua própria vinda como Noivo definitivo no fim dos tempos, afirmando, no entanto, que a hora precisa desse evento não é conhecida pelos anjos nem pelo Filho, mas apenas pelo Pai. (cf. Mt 24,36).

O problema sério, sentido com urgência pelos autores do Novo Testamento, consiste em fazer as contas com a demora da parusia. Diante desse grande mistério, não devemos desanimar nem cair no cinismo, mas obedecer a um mandamento preciso de Jesus: “Despertem, fiquem prontos, porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor de vocês” (Mt 24,42,44).

É precisamente nesse rastro que se situa a nossa parábola. Dez virgens, figura da Igreja chamada a se apresentar a Cristo como virgem casta (cf. 2Cor 11,2), pegam as lâmpadas para sair ao encontro do Noivo, que vem celebrar as núpcias eternas com a humanidade inteira. Jesus logo especifica que cinco delas são imprevidentes, e cinco, previdentes: as primeiras levaram consigo o óleo para reacender o fogo nas lâmpadas, prevendo um longo tempo de espera, as outros não o fizeram.

O noivo estava demorando e todas elas acabaram cochilando e dormindo.” É difícil permanecer vigilante, manter-se constantemente voltados ao encontro com o Senhor. Por isso, Jesus insiste no fato de que o sono une todas as virgens: e quem de nós pode dizer que não passou por horas e dias de obliteração, de esquecimento da vinda do Senhor? Realmente ninguém está isento desse risco. A diferença está em outro lugar...

De fato, quando a noite é trespassada pelo grito: “O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!”, todas as virgens, assim como haviam adormecido, acordam e preparam as lâmpadas. Então, as imprevidentes, vendo que as suas lâmpadas se apagam, começam a pedir óleo às previdentes, mas ouvem uma rejeição: “De modo nenhum, porque o óleo pode ser insuficiente para nós e para vós”.

Egoísmo? Falta de caridade? Não, simplesmente esse óleo ou se tem em si mesmo, ou ninguém pode esperá-lo dos outros: é o óleo do desejo do encontro com o Senhor. Cada um de nós conhece (ou deveria!) a sua própria verdade mais profunda, sabe aquilo que no próprio coração se mantém acordada ou, pelo contrário, apaga a espera do Senhor: nos dias bons como nos maus, na vigília como no sono – “Eu durmo, mas o meu coração vigia” (Ct 5,2), afirma a noiva do Cântico – é nossa responsabilidade renovar os estoques desse azeite, para que o nosso coração arda do desejo do encontro com o Noivo...

É na capacidade de manter vivo esse desejo hoje que está em jogo o juízo final, isto é, o fato de ser ou não reconhecido pelo Senhor quando Ele vier no fim dos tempos.

Neste tempo que vai da ressurreição do Senhor Jesus à sua vinda na glória, o grito da Igreja é o da noiva que, junto com o Espírito, invoca: “Vem, Senhor Jesus! Maranà tha!” (cf. Ap 22,17.20; 1Cor 16,22). E cada cristão, ao ouvir esse grito, deveria responder, por sua vez, com todo o coração, a mente e as forças: “Vem!”, sabendo que o desejo ardente da vinda do Senhor já é, aqui e agora, primícias da comunhão com Ele.

 

Tradução: Moisés Sbardelotto.

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/604426-ainda-ha-alguem-que-espera-o-senhor