segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

ANO NACIONAL DO LAICATO: POSSIBILIDADES E DESAFIOS?

“O Concílio não olha os leigos como se fossem membros de segunda categoria, a serviço da hierarquia e simples executores de ordens provenientes do alto, mas como discípulos de Cristo que, através do Batismo e sua inserção no mundo, são chamados a animar todo ambiente, atividade e relação humana segundo o espírito do Evangelho.... Ninguém melhor que os leigos pode desempenhar a tarefa essencial de inscrever a lei divina na vida da cidade terrena.”
(Papa Francisco na mensagem aos participantes da Jornada de estudos sobre a "Vocação e missão dos leigos", em 12/11/2015).

CNBB promove de 26 de novembro de 2017 a 25 de novembro de 2018, o Ano Nacional do Laicato, em todas as Dioceses do Brasil, fruto da decisão tomada na Assembleia Geral Ordinária dos Bispos, realizada em abril de 2016.
Ano Nacional do Laicato objetiva valorizar a presença e organização dos Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na sociedade, aprofundando sua identidade e missão, espiritualidade e vocação, estimulando o testemunho de Jesus Cristo e seu reino na sociedade. Tem como tema: “Cristãos Leigos e Leigas, sujeitos na 'Igreja em saída', a serviço do Reino.” E como Lema: “Sal da Terra e Luz do Mundo”.
Segundo dom Severino Clasen, bispo de Caçador (SC), presidente da Comissão Episcopal Especial para o Ano do Laicato, espera-se que este ano traga um legado para a Igreja missionária autêntica, com maior entusiasmo dos cristãos leigos e leigas na vida eclesial e também na busca da transformação da sociedade. “Eu acredito que se conseguirmos estimular a participação e presença efetiva dos cristãos leigos na sociedade provocando que aconteça a justiça e a paz, será um grande legado”, disse o bispo.
Para tanto, vislumbra-se como legados dessa iniciativa, por parte dos cristãos leigos e leigas: a participação efetiva nos conselhos de políticas públicas; criação e fortalecimento de iniciativas de acompanhamento dos poderes legislativos – municipais, estaduais e federal; mobilização para realização da Auditoria da Dívida Pública brasileira, visando aplicação dos recursos do Orçamento Federal em políticas públicas direcionadas aos mais empobrecidos e excluídos da sociedade.
Neste sentido, importa destacar o pronunciamento do Papa Francisco na Assembleia do Pontifício Conselho para os Leigos, em 17/06/2016, quando propôs, como horizonte de referência para o imediato futuro, o seguinte binômio: “Igreja em saída” e “laicato em saída”, lançando o olhar para os que se encontram ‘distantes’ do nosso mundo, às tantas famílias em dificuldade e necessitadas de misericórdia, aos campos de apostolado ainda inexplorados, e aos numerosos leigos, que devem ser envolvidos e valorizados pelas instituições eclesiais. Na ocasião, o Santo Padre concluiu seu discurso dizendo: “precisamos de leigos bem formados, animados pela fé cristã, que “sujem suas mãos” e não tenham medo de errar, mas que prossigam adiante. Precisamos de leigos com visão do futuro e não fechados nas pequenezas da vida, mas experientes e com novas visões apostólicas”.
Essa proposta de enfoque na ação pastoral e social resgata a concepção de uma Igreja Povo de Deus, com inspiração no Concílio Vaticano II e a coloca diante dos desafios da missão atual que Papa Francisco tão bem traduziu de uma 'Igreja em saída' na exortação “Alegria do Evangelho” e na encíclica 'Laudato Si', sobre o cuidado com a Casa Comum.
É um necessário resgate da graça batismal em sua tripla missão: profética, real e sacerdotal. Significa uma relação de maior maturidade e autonomia dos batizados e batizadas não ordenadas frente ao desafio de fermentar o Reinado de Deus numa sociedade que despreza a vida, tanto humana como do conjunto da Natureza, em função do dinheiro e do lucro.
É também um desafio resgatar o protagonismo dos Cristãos Leigos e Leigas numa Igreja paroquial concentrada no poder hierárquico, na maioria dos casos, clerical. É um forte apelo à conversão. O desafio é resgatar o protagonismo das CEBs, com efetiva presença nas periferias das cidades e nas lutas empreendidas nos assentamentos, territórios dos Povos Indígenas e Comunidades tradicionais. Outro campo exigente são as Pastorais Sociais, capazes de responder às demandas, principalmente urbanas.
Dentre as proposições de legado do Ano Nacional do Laicato, a mais desafiadora e que exigirá o engajamento de todas as pessoas de boa vontade, é a realização da Auditoria da Dívida Pública do país. Prevista nas Disposições Transitórias da Constituição Federal de 1988, é tema interditado pela grande mídia brasileira e atinge o cerne da desigualdade social, visto que sangra quase metade do Orçamento Público federal para rolar uma dívida que enriquece os bancos e impõe pesadas restrições ao financiamento das políticas sociais.
Finalmente, os desafios não terminam por aí, o grande chamamento é para que cada diocese no país elabore um Plano de Formação para o Laicato que contemple formação básica para todas as mulheres e homens que exerçam um serviço na Igreja ou na sociedade; formação teológica-pastoral para as lideranças; e formações específicas, como Escolas de Fé e Política para Cristãos Leigos e Leigas que atuem em Conselhos, Grupos de Acompanhamento ao Legislativo, movimentos sociais e partidos políticos.
É uma agenda atraente para atuação desde a base, com a experiência e motivação para realizar novas aprendizagens e sínteses e, assim, provocar o protagonismo dos Cristãos Leigos e Leigas, apoiados pelos ministérios existentes na Igreja e seguir na mobilização da sociedade brasileira para o resgate da democracia rompida em 2016, apontando para uma nova utopia inspirada no Bem viver: é urgente construir unidade na construção de um novo Projeto Popular para o Brasil.
Daniel Seidel
Mestre em Ciência Política pela UnB, membro da CJP-DF e da Comissão Brasileira Justiça e Paz e integra a Comissão Especial da CNBB para o Ano do Laicato.

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