quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Tiro no pé...

Com certeza vocês já ouviram a expressão “tiro no pé”. Pois bem, “atirar no próprio pé” tem algo a ver com tentar acertar a caça e acertar em si mesmo. Ou seja, ter uma boa intenção, no caso prover alimento a sua mesa, e acabar tendo que correr fazer um curativo para sanar uma ferida.

E o que tenho feito em minhas navegações pela net (nem sempre atirando no pé...): busco alimento para o conhecimento, tanto na minha vida pessoal quanto nas minhas atividades na Igreja, incluindo aí, a formação dos catequistas que acessam meu blog e o dos Catequistas em Formação. Claro que às vezes me deparo com um “orlando fedeli” da vida que, ainda bem, não pode mais continuar falando besteira. Aliás, se fosse possível botar fogo em arquivos da internet eu botava na Associação Monfort. A TFP para mim, é uma grande fonte de equívocos. Mas sobre isso falo numa outra hora...

E fico muito triste, de verdade, quando me deparo com coisas (a princípio) tão boas, tão legais, renovadoras mesmo, como alguns blogs que trazem novos conceitos de linguagem mas, lá no meio, publicam textos tendenciosos, descendo a lenha naquilo que não conhecem e não tem autoridade para falar. Vivi isso lendo um post sobre a Teologia da Libertação – TL num blog pretensamente “moderno”. Pior ainda foi ler um comentário onde a CNBB é descrita como “cátedra de comunas”. Isso depois que o próprio Blog da CNBB elogiou o trabalho deles. Nem sei bem se a pessoa que disse isso sabe bem onde mora. Estamos no Brasil, meu filho! América latina, terceiro mundo! Que não é só a praia de Copacabana e conversas em boteco. Basta olhar um pouco mais pra cima, para o morro que é o cartão postal da cidade...

Concordo que a Teologia da Libertação, de certo modo, deturpa a doutrina católica - não da cristã, veja bem - e a Santa Sé tem seus motivos pra criticá-la. João Paulo II fez boas críticas a ela, até apoiou no princípio. Só que as coisas tomaram rumos prejudiciais quando ela se tornou uma teologia quase de “fanatismo” para alguns religiosos. Sem contar que o papa veio de um país dominado pelo comunismo que foi uma coisa nefasta para o povo da Europa oriental. O marxismo foi utilizado desvirtuadamente como base para as doutrinas oficiais utilizadas nos países socialistas. As sociedades pós-revolucionárias, meio perdidas e com poder na mão, acabaram cometendo os mesmos erros do passado. E acredito que a maior parte das críticas à TL vem das bases pretensamente marxistas. O marxismo é ateu e prega a religião como alienação das massas, então, nada mais natural que condenar um movimento que vai contra a fé da igreja. 

Outra coisa é a palavra “comunismo” que se associa a TL. 

Só para elucidar a afirmação que fiz acima de que a TL não deturpa a doutrina cristã em sua visão “comunista”, gostaria de explicar com um trecho dos Atos dos Apóstolos, 2, 44-47: Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação. 

Bem, por aí então a gente pode até dizer que o “comunismo” nasceu na Bíblia... Jesus pregava o “comunismo”? Não, Ele não era político. Ele pregava a fraternidade e a justiça. Veio para libertar os excluídos, para tirar as pessoas do pecado, da doença e da alienação.

Muita gente – leia-se católicos - pregam a fraternidade passando por cima do mendigo dormindo nas calçadas. E não estou falando de ricos não. Estou falando do pobre emergente, classe média e afins; a quem não ia doer repartir um pão e um copo de café. É fácil falar com barriguinha cheia, emprego, roupinha confortável, um carrinho na garagem (pode até ser financiado), teto sobre a cabeça (mesmo de aluguel); e ficar arrotando catolicismo até pelas orelhas. Aí, todo mendigo é vagabundo e bêbado, senão drogado; e todo sem-terra é marginal; sem contar que as CEBs são “reunião de sindicato”. Esquece-se que elas são responsáveis pela liturgia e pela difusão do evangelho em muitos lugares onde não tem padre e muito menos igreja. E como as CEBs são fruto da teologia da Libertação, vamos malhar! São todos comunistas!

Só que, querer voltar no tempo e manter um discurso retrógrado é nocivo para a religião como um todo. Falar de uma "fé pura" é dar lado para a alienação social e querer que os católicos voltem a ser como os camponeses da idade média. Tem gente que senta a mesa e come carne, tem gente que fica debaixo da mesa e come os ossos... E conforme-se. Reze que o céu é teu.

Não podemos mais viver esta realidade. 

O que acontece hoje em dia é que ficou praticamente insustentável ser dogmático, religiosamente falando, sem ser ignorante. Eu penso que os avanços científicos, tecnológicos e sociais, somente provam a perfeição e a pureza da criação divina. E aqui eu lembro uma frase do CIC: “o homem é capaz de Deus”, e eu complemento... mas, não é Deus para julgar tudo...

Eu penso que as várias correntes de pensamento, ideologias e doutrinas que vieram ao longo da nossa história colaboraram para que o mundo fosse o que é hoje (E aí, dependendo da sua cabeça, ele pode ser uma porcaria ou um paraíso). Mas falando de correntes teológicas, acredito que a TL mais contribuiu do que prejudicou a Igreja. Assim como o marxismo ou comunismo que, sem o saber e até renegando a Deus, tenta colocar em prática a máxima da igualdade para todos. 

Mas este pensamento só acontece com quem se abre a uma reformulação de idéias - que são aquelas pessoas que acreditam que a Igreja, por mais sagrada que seja, é uma instituição humana e administrada por humanos. Portanto, não é Deus, nem fala por ele. Essas pessoas acreditam na reforma, mesmo que moderada, na adaptação, na modernização do discurso, enfim - é quem pensa racionalmente além de religiosamente.

Não podemos confundir a atemporalidade da fé em Deus e no Cristianismo com uma Igreja que é, portanto, temporal, inscrita no seu tempo e na sua realidade social. Se não fosse assim estaríamos ainda, vendendo indulgências, sendo queimados em fogueiras e rezando em latim. 

E eu só faço um pedido, principalmente a quem está lendo isso e, de alguma forma, é responsável pela evangelização em nossa Igreja. Não vá acreditando, assim sem crítica, em tudo que lê por aí (até mesmo em mim). Pratique a liberdade de escolha e julgamento. Leia a opinião contrária, informe-se. Nossa Igreja tem uma história linda e rica, mas feia e pobre em algumas ocasiões, assim como nossa sociedade, nossa política... 

Discernimento é a palavra.

Então vamos tirando o que de bom se pode tirar de cada coisa. Vamos aprender com os erros e aproveitar da internet aquilo que ACRESCENTA a nossa catolicidade e religiosidade. Visões retrógradas e preconceituosas só nos fazem ficar cada vez mais longe da realidade do nosso tempo.

Ângela Rocha
Catequista Amadora

SEGUIDORES DO CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO