segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
sexta-feira, 6 de dezembro de 2019
O VALOR DO PRESÉPIO: PAPA FRANCISCO
Presépio do Vaticano
No primeiro domingo do Advento, na cidade de Greccio, Itália,
onde o primeiro presépio de São Francisco de Assis foi apresentado, o Papa
Francisco assinou a Carta Apóstolica Admirabile
Signum que exorta aos cristãos a manterem a bela tradição de montarem seus
presépios. Leia abaixo:
CARTA APOSTÓLICA
ADMIRABILE SIGNUM
DO SANTO PADRE
FRANCISCO
SOBRE O SIGNIFICADO E VALOR DO PRESÉPIO
FRANCISCO
SOBRE O SIGNIFICADO E VALOR DO PRESÉPIO
1. O SINAL ADMIRÁVEL do
Presépio, muito amado pelo povo cristão, não cessa de suscitar maravilha e
enlevo. Representar o acontecimento da natividade de Jesus equivale a anunciar,
com simplicidade e alegria, o mistério da encarnação do Filho de Deus. De fato,
o Presépio é como um Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada
Escritura. Ao mesmo tempo que contemplamos a representação do Natal, somos
convidados a colocar-nos espiritualmente a caminho, atraídos pela humildade
d’Aquele que Se fez homem a fim de Se encontrar com todo o homem, e a descobrir
que nos ama tanto, que Se uniu a nós para podermos, também nós, unir-nos a Ele.
Com esta Carta, quero apoiar a tradição bonita das nossas famílias prepararem o
Presépio, nos dias que antecedem o Natal, e também o costume de o armarem nos
lugares de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nos estabelecimentos
prisionais, nas praças… Trata-se verdadeiramente de um exercício de imaginação
criativa, que recorre aos mais variados materiais para produzir, em miniatura,
obras-primas de beleza. Aprende-se em criança, quando o pai e a mãe, juntamente
com os avós transmitem este gracioso costume, que encerra uma rica
espiritualidade popular. Almejo que esta prática nunca desapareça; mais, espero
que a mesma, onde porventura tenha caído em desuso, se possa redescobrir e
revitalizar.
2. A origem do Presépio
fica-se a saber antes de mais nada, a alguns pormenores do nascimento de Jesus
em Belém, referidos no Evangelho. O evangelista Lucas limita-se a dizer que,
tendo-se completado os dias de Maria dar à luz, «teve o seu filho primogénito,
que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles
na hospedaria» (2,7). Jesus é colocado numa manjedoura, que, em latim, se diz praesepium, donde vem a nossa palavra
presépio. Ao entrar neste mundo, o Filho de Deus encontra lugar onde os animais
vão comer. A palha torna-se a primeira enxerga para Aquele que Se há de revelar
como «o pão vivo, o que desceu do céu» (Jo6, 51). Uma simbologia, que já Santo
Agostinho, a par de outros Padres da Igreja, tinha entrevisto quando escreveu:
«Deitado numa manjedoura, torna-Se nosso alimento»[1]. Na realidade, o Presépio
inclui vários mistérios da vida de Jesus, fazendo-os aparecer familiares à
nossa vida diária. Passemos agora à origem do Presépio tal como nós o
entendemos. A mente leva-nos a Gréccio, na Valada de Rieti; aqui se deteve São
Francisco, provavelmente quando vinha de Roma onde recebera do Papa Honório
III, a aprovação da sua Regra em 29 de novembro de 1223. Aquelas grutas, depois
da sua viagem à Terra Santa, faziam-lhe lembrar de modo particular a paisagem
de Belém. E é possível que, em Roma, o «Poverello» de Assis tenha ficado
encantado com os mosaicos, na Basílica de Santa Maria Maior, que representam a
natividade de Jesus e se encontram perto do lugar onde, segundo uma antiga
tradição, se conservam precisamente as tábuas da manjedoura. As Fontes
Franciscanas narram, de forma detalhada, o que aconteceu em Gréccio. Quinze
dias antes do Natal, Francisco chamou João, um homem daquela terra, para lhe
pedir que o ajudasse a concretizar um desejo: «Quero representar o Menino
nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo os incomodos que
Ele padeceu pela falta das coisas necessárias a um recém-nascido, tendo sido
reclinado na palha de uma manjedoura, entre o boi e o burro»[2]. Mal acabara de
o ouvir, o fiel amigo foi preparar, no lugar designado, tudo o que era
necessário segundo o desejo do Santo. No dia 25 de dezembro, chegaram a Gréccio
muitos frades, vindos de vários lados, e também homens e mulheres das casas da
região, trazendo flores e tochas para iluminar aquela noite santa. Francisco,
ao chegar, encontrou a manjedoura com palha, o boi e o burro. À vista da
representação do Natal, as pessoas lá reunidas manifestaram uma alegria
indescritível, como nunca tinham sentido antes. Depois o sacerdote celebrou
solenemente a Eucaristia sobre a manjedoura, mostrando também deste modo a
ligação que existe entre a Encarnação do Filho de Deus e a Eucaristia. Em
Gréccio, naquela ocasião, não havia figuras; o Presépio foi formado e vivido
pelos que estavam presentes. [3]
Assim nasce a nossa tradição:
todos à volta da gruta e repletos de alegria, sem qualquer distância entre o
acontecimento que se realiza e as pessoas que participam no mistério. O
primeiro biógrafo de São Francisco, Tomás de Celano, lembra que naquela noite,
a simples e comovente representação se veio juntar o dom de uma visão
maravilhosa: um dos presentes viu que jazia na manjedoura o próprio Menino
Jesus. Daquele Presépio do Natal de 1223, «todos voltaram para suas casas
cheios de inefável alegria» [4].
3. Com a simplicidade daquele
sinal, São Francisco realizou uma grande obra de evangelização. O seu
ensinamento penetrou no coração dos cristãos, permanecendo até aos nossos dias
como uma forma genuína de repropor, com simplicidade, a beleza da nossa fé.
Aliás, o próprio lugar onde se realizou o primeiro Presépio sugere e suscita
estes sentimentos. Gréccio torna-se um refúgio para a alma que se esconde na
rocha, deixando-se envolver pelo silêncio. Por que motivo suscita o Presépio
tanto enlevo e nos comove? Antes de mais nada porque manifesta a ternura de
Deus. Ele, o Criador do universo, abaixa-Se até à nossa pequenez. O dom da
vida, sempre misterioso para nós, fascina-nos ainda mais ao vermos que, Aquele
que nasceu de Maria é a fonte e o sustento de toda a vida. Em Jesus, o Pai
deu-nos um irmão, que vem procurar-nos quando estamos desorientados e perdemos
o rumo, e um amigo fiel, que está sempre ao nosso lado; deu-nos o seu Filho,
que nos perdoa e levanta do pecado. Armar o Presépio em nossas casas ajuda-nos
a reviver a história sucedida em Belém. Naturalmente os Evangelhos continuam a
ser a fonte, que nos permite conhecer e meditar aquele acontecimento; mas, a
sua representação no Presépio ajuda a imaginar as várias cenas, estimula os
afetos, convida a sentir-nos envolvidos na história da salvação, contemporâneos
daquele evento que se torna vivo e atual nos mais variados contextos históricos
e culturais. De modo particular, desde a sua origem franciscana, o Presépio é
um convite a «sentir», a «tocar» a pobreza que escolheu, para Si mesmo, o Filho
de Deus na sua encarnação, tornando-se assim, implicitamente, um apelo para O
seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento, que parte da
manjedoura de Belém e leva até à Cruz, e um apelo ainda a encontra-Lo e
servi-Lo, com misericórdia, nos irmãos e irmãs mais necessitados (cf. Mt 25,
31-46).
4. Gostaria agora de repassar
os vários sinais do Presépio para apreendermos o significado que encerram. Em
primeiro lugar, representamos o céu estrelado na escuridão e no silêncio da
noite. Fazemo-lo não apenas para ser fiéis às narrações do Evangelho, mas
também pelo significado que possui. Pensemos nas vezes sem conta que a noite
envolve a nossa vida. Pois bem, mesmo em tais momentos, Deus não nos deixa
sozinhos, mas faz-Se presente para dar resposta às questões decisivas sobre o
sentido da nossa existência: Quem sou eu? Donde venho? Por que nasci neste
tempo? Por que amo? Por que sofro? Por que hei de morrer? Foi para dar uma
resposta a estas questões que Deus Se fez homem. A sua proximidade traz luz
onde há escuridão, e ilumina a quantos atravessam as trevas do sofrimento (cf.
Lc 1, 79). Merecem também uma referência as paisagens que fazem parte do Presépio;
muitas vezes aparecem representadas as ruínas de casas e palácios antigos que,
nalguns casos, substituem a gruta de Belém tornando-se a habitação da Sagrada
Família. Parece que estas ruínas se inspiram na Legenda Áurea, do dominicano
Jacopo de Varazze (século XIII), onde se refere a crença pagã segundo a qual o
templo da Paz, em Roma, iria desabar quando desse à luz uma Virgem. Aquelas
ruínas são sinais visíveis sobretudo da humanidade decaída, de tudo aquilo que
cai em ruína, que se corrompe e definha. Este cenário diz que Jesus é a
novidade no meio de um mundo velho, e veio para curar e reconstruir, para
reconduzir a nossa vida e o mundo ao seu esplendor originário.
5. Uma grande emoção se
deveria apoderar de nós, ao colocarmos no Presépio: as montanhas, os riachos,
as ovelhas e os pastores! Pois assim lembramos, como preanunciaram os profetas,
que toda a criação participa na festa da vinda do Messias. Os anjos e a estrela-cometa
são o sinal de que também nós somos chamados a pôr-nos a caminho para ir até à
gruta adorar o Senhor. «Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos
deu a conhecer» (Lc 2, 15): assim falam os pastores, depois do anúncio que os
anjos lhes fizeram. É um ensinamento muito belo, que nos é dado na simplicidade
da descrição. Ao contrário de tanta gente ocupada a fazer muitas outras coisas,
os pastores tornam-se as primeiras testemunhas do essencial, isto é, da
salvação que nos é oferecida. São os mais humildes e os mais pobres que sabem
acolher o acontecimento da Encarnação. Deus, que vem ao nosso encontro no Menino
Jesus, os pastores respondem, pondo-se a caminho rumo a Ele, para um encontro
de amor e de grata admiração. É precisamente este encontro entre Deus e os seus
filhos, graças a Jesus, que dá vida à nossa religião e constitui a sua beleza
singular, que transparece de modo particular no Presépio.
6. Nos nossos Presépios,
costumamos colocar muitas figuras simbólicas. Em primeiro lugar, as de mendigos
e pessoas que não conhecem outra abundância a não ser a do coração. Também
estas figuras estão próximas do Menino Jesus de pleno direito, sem que ninguém
possa expulsá-las ou afastá-las de um berço de tal modo improvisado que os
pobres, ao seu redor, não destoam absolutamente. Antes, os pobres são os
privilegiados deste mistério e, muitas vezes, aqueles que melhor conseguem
reconhecer a presença de Deus no meio de nós. No Presépio, os pobres e os
simples lembram-nos que Deus Se faz homem para aqueles que mais sentem a
necessidade do seu amor e pedem a sua proximidade. Jesus, «manso e humilde de
coração» (Mt 11, 29), nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a
identificar e a viver do essencial. Do Presépio surge, clara, a mensagem de que
não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de
felicidade. Como pano de fundo, aparece o palácio de Herodes, fechado, surdo ao
jubiloso anúncio. Nascendo no Presépio, o próprio Deus dá início à única
verdadeira revolução que dá esperança e dignidade aos deserdados, aos
marginalizados: a revolução do amor, a revolução da ternura. Do Presépio, com
meiga força, Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para
um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado.
Muitas vezes, as crianças (mas os adultos também!) gostam de acrescentar, no
Presépio, outras figuras que parecem não ter qualquer relação com as narrações
do Evangelho. Contudo esta imaginação pretende expressar que, neste mundo novo
inaugurado por Jesus, há espaço para tudo o que é humano e para toda a
criatura. Do pastor ao ferreiro, do padeiro aos músicos, das mulheres com a
bilha de água ao ombro às crianças que brincam… tudo isso representa a
santidade do dia a dia, a alegria de realizar de modo extraordinário as coisas
de todos os dias, quando Jesus partilha conosco a sua vida divina.
7. A pouco e pouco, o Presépio
leva-nos à gruta, onde encontramos as figuras de Maria e de José. Maria é uma
mãe que contempla o seu Menino e O mostra a tantos e quantos vêm visitá-Lo. A
sua figura faz pensar no grande mistério que envolveu esta jovem, quando Deus
bateu à porta do seu coração imaculado. Ao anúncio do anjo que Lhe pedia para
Se tornar a mãe de Deus, Maria responde com obediência plena e total. As suas
palavras – «eis a serva do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Lc 1,
38) – são, para todos nós, o testemunho do modo como abandonar-se, na fé, à
vontade de Deus. Com aquele «sim», Maria tornava-Se mãe do Filho de Deus, sem
perder – antes, graças a Ele, consagrando – a sua virgindade. N’Ela, vemos a
Mãe de Deus que não guarda o seu Filho só para Si mesma, mas pede a todos que
obedeçam à palavra d’Ele e a ponham em prática (cf. Jo 2, 5). Ao lado de Maria,
em atitude de quem protege o Menino e sua mãe, está São José. Geralmente, é
representado com o bordão na mão e, por vezes, também segurando um lampião. São
José desempenha um papel muito importante na vida de Jesus e Maria. É o
guardião que nunca se cansa de proteger a sua família. Quando Deus o avisar da
ameaça de Herodes, não hesitará a pôr-se em viagem emigrando para o Egito (cf.
Mt 2, 13-15). E depois, passado o perigo, reconduzirá a família para Nazaré,
onde será o primeiro educador de Jesus, na sua infância e adolescência. José
trazia no coração o grande mistério que envolvia Maria, sua esposa, e Jesus;
homem justo que era, sempre se entregou à vontade de Deus e pô-la em prática.
8. O coração do Presépio
começa a palpitar, quando colocamos lá, no Natal, a figura do Menino Jesus.
Assim Se nos apresenta Deus, num menino, para fazer-Se acolher nos nossos
braços. Naquela fraqueza e fragilidade, esconde o seu poder que tudo cria e
transforma. Parece impossível, mas é assim: em Jesus, Deus foi criança e, nesta
condição, quis revelar a grandeza do seu amor, que se manifesta num sorriso e
nas suas mãos estendidas para quem quer que seja. O nascimento de uma criança
suscita alegria e encanto, porque nos coloca perante o grande mistério da vida.
Quando vemos brilhar os olhos dos jovens esposos diante do seu filho
recém-nascido, compreendemos os sentimentos de Maria e José que, olhando o
Menino Jesus, entreviam a presença de Deus na sua vida. «De fato, a vida
manifestou-se» (1Jo 1,2): assim o apóstolo João resume o mistério da Encarnação.
O Presépio faz-nos ver, faz-nos tocar este acontecimento único e extraordinário
que mudou o curso da história e a partir do qual também se contam os anos,
antes e depois do nascimento de Cristo. O modo de agir de Deus quase cria
vertigens, pois parece impossível que Ele renuncie à sua glória para Se fazer
homem como nós. Que surpresa ver Deus adotar os nossos próprios comportamentos:
dorme, mama ao peito da mãe, chora e brinca, como todas as crianças. Como
sempre, Deus gera perplexidade, é imprevisível, aparece continuamente fora dos
nossos esquemas. Assim o Presépio, ao mesmo tempo que nos mostra Deus tal como
entrou no mundo, desafia-nos a imaginar a nossa vida inserida na de Deus;
convida a tornar-nos seus discípulos, se quisermos alcançar o sentido último da
vida.
9. Quando se aproxima a festa
da Epifania, colocam-se no Presépio as três figuras dos Reis Magos. Tendo
observado a estrela, aqueles sábios e ricos senhores do Oriente puseram-se a
caminho rumo a Belém para conhecer Jesus e oferecer-Lhe de presente ouro,
incenso e mirra. Estes presentes têm também um significado alegórico: o ouro
honra a realeza de Jesus; o incenso, a sua divindade; a mirra, a sua humanidade
sagrada que experimentará a morte e a sepultura. Ao fixarmos esta cena no Presépio,
somos chamados a refletir sobre a responsabilidade que cada cristão tem de ser
evangelizador. Cada um de nós torna-se portador da Boa-Nova para as pessoas que
encontra, testemunhando a alegria de ter conhecido Jesus e o seu amor; e o faz
com ações concretas de misericórdia. Os Magos ensinam que se pode partir de
muito longe para chegar a Cristo: são homens ricos, estrangeiros sábios,
sedentos de infinito, que saem para uma viagem longa e perigosa e que os leva
até Belém (cf. Mt 2,1-12). À vista do Menino Rei, invade-os uma grande alegria.
Não se deixam escandalizar pela pobreza do ambiente; não hesitam em pôr-se de
joelhos e adorá-Lo. Diante d’Ele compreendem que Deus, tal como regula com
soberana sabedoria o curso dos astros, assim também guia o curso da história,
derrubando os poderosos e exaltando os humildes. E de certeza, quando
regressaram ao seu país, falaram deste encontro surpreendente com o Messias,
inaugurando a viagem do Evangelho entre os gentios.
10. Diante do Presépio, a
mente corre de bom grado aos tempos em que se era criança e se esperava, com
impaciência, o tempo para começar a construí-lo. Estas recordações induzem-nos
a tomar consciência sempre de novo do grande dom que nos foi feito,
transmitindo-nos a fé; e ao mesmo tempo, fazem-nos sentir o dever e a alegria
de comunicar a mesma experiência aos filhos e netos. Não é importante a forma
como se arma o Presépio; pode ser sempre igual ou modificá-la cada ano. O que
conta, é que fale à nossa vida. Por todo o lado e na forma que for, o Presépio
narra o amor de Deus, o Deus que Se fez menino para nos dizer quão próximo está
de cada ser humano, independentemente da condição em que este se encontre.
Queridos irmãos e irmãs, o Presépio faz parte do suave e exigente processo de
transmissão da fé. A partir da infância e, depois, em cada idade da vida,
educa-nos para contemplar Jesus, sentir o amor de Deus por nós, sentir e
acreditar que Deus está conosco e nós estamos com Ele, todos filhos e irmãos
graças àquele Menino Filho de Deus e da Virgem Maria. E educa para sentir que
nisto está a felicidade. Na escola de São Francisco, abramos o coração a esta
graça simples, deixemos que do encanto nasça uma prece humilde: o nosso
«obrigado» a Deus, que tudo quis partilhar conosco para nunca nos deixar sozinhos.
Dado
em Gréccio, no Santuário do Presépio, a 1 de dezembro de 2019,
sétimo do meu pontificado.
sétimo do meu pontificado.
Franciscus
[1] Santo Agostinho, Sermão 189, 4.
[2] Tomás de Celano, Vita Prima, 85: Fontes Franciscanas, 468.
[3] Cf. ibid., 85: o. c., 469.
[4] Ibid., 86: o. c., 470.
[2] Tomás de Celano, Vita Prima, 85: Fontes Franciscanas, 468.
[3] Cf. ibid., 85: o. c., 469.
[4] Ibid., 86: o. c., 470.
Afresco do Presépio em Greccio
FONTE: Vaticano.
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
O QUE É A CATEQUESE NARRATIVA?
Então,
em vez de apresentarem um conteúdo orgânico e sistemático, limitaram a
catequese à contação de histórias. Contar histórias é bom, mas a
catequese não deve se limitar a isso.
Alexandre Raimundo de
Souza, sj
A palavra Catequese vem
do termo grego catechesis (κατήχησις)
– ação de instruir oralmente [1], catecheo (κατηχέω) – ressoar; instruir de viva voz [2]. Ensinar mediante a
palavra.
Narrativa – ação,
processo ou efeito de narrar; narração:
2 - Conto, história, caso;
3 - O modo de narrar [3].
Se o termo catequese significa fazer ressoar a palavra do
Cristo, a catequese narrativa quer ser o eco da voz do Cristo neste processo de
iniciação à vida cristã. Ela narra o próprio Jesus que vem ao encontro do ser
humano. Ele que se fez carne e veio morar entre nós. Portanto, a catequese narrativa é a narração dos
mistérios da vida de Cristo, centro da iniciação à vida cristã. Ela é o
anúncio da Boa Nova. Por esse motivo, muitos podem denominá-la como Catequese
Querigmático-narrativa, porque narra a gênese da fé cristã.
Como exemplo temos o Credo,
uma narrativa do símbolo da fé cristã. Ele é narração da criação do mundo e do
homem em Cristo, da sua redenção e da sua transfiguração no Cristo morto e
ressuscitado, pelo poder do Espírito Santo.
Mas, por
que narrativa?
“Vinde e vede. E eles foram e viram onde Jesus estava morando
e permaneceram com ele aquele dia.” (Jo 1,39). Este trecho aponta para o
esforço da catequese narrativa. Colocar a pessoa em contato com as histórias de
Jesus.
Ao narrar, o catequista apresenta Jesus Cristo para o
catequizando. Não explica quem é. Ouvindo as histórias de Jesus Cristo, o
próprio catequizando vai tendo uma compreensão da pessoa de Jesus Cristo.
Como exemplo para facilitar a compreensão do que estou
dizendo, vejamos o que Inácio de Loyola sugere na contemplação. Entrar no
texto, com o olhar da imaginação, ver o que Jesus faz. O que ele diz, como se
relaciona com as pessoas. Depois, ver como você se vê dentro desta história. Se
a pessoa se identifica com alguma personagem do texto. Como se sente. Ao ouvir
a narrativa, o catequizando vai tecendo uma compreensão de quem é a pessoa de
Jesus. Narrar não é explicar, mas apresentar elementos simbólicos, signos,
sinais, para que o outro possa pensar e tirar suas próprias conclusões. Mas não
se trata de um simples narrar, falar o que Jesus faz, mas colocar o
catequizando em contato com o Cristo, para que ele possa ir com ele e
conhecê-lo melhor.
O processo narrativo é muito interessante, pois desencadeia
no catequizando um pensar o simbólico que lhe é apresentado. Quando ele reconta
esta história, ela já é transformada, enriquecida pelo modo de recontar do
catequizando.
E o catequista? Este também aprende coisas novas com os
catequizandos. Pois, quando reconta apresenta coisas do seu modo de ver que
muitas vezes, o catequista não tinha pensado antes.
Santo Inácio, nas anotações dos Exercícios Espirituais [4], diz que quem propõe ao
outro o modo e a ordem de meditar e contemplar deve narrar fielmente a
história. Da mesma forma deve prosseguir o catequista. Pois, assim como nos Exercícios
Espirituais, também na catequese narrativa, “a pessoa que contempla, tomando o verdadeiro fundamento da história,
reflete e raciocina por si mesma. Encontrando alguma coisa que a esclareça ou
faça sentir mais a história, quer pelo seu próprio raciocínio, quer porque seu
entendimento é iluminado pela virtude divina, tem maior gosto e fruto
espiritual do que se quem dá os exercícios (ou a catequese) explicasse e ampliasse
muito o sentido da história”. E
acrescenta Santo Inácio que: “não é o
muito saber que sacia e satisfaz a pessoa (catequizando), mas o sentir e saborear
as coisas internamente” [5].
CATEQUESE
Catequese mistagógica – introdução ao mistério celebrado.
Ajudar o catequizando a compreender os signos do sacramento que ele celebrou
junto à comunidade.
A catequese é parte principal do rito de iniciação cristã.
Ser iniciado na palavra do Cristo que fala por meio da comunidade. Na comunidade
a pessoa iniciada ouve o anúncio do Evangelho. Portanto, a catequese e as
celebrações formam uma unidade no processo de iniciação a vida cristã. A pessoa
é instruída para bem celebrar. E ao celebrar, é motivada a compreender o
mistério celebrado (catequese mistagógica).
NARRAÇÃO
– NARRAR, CONTAR HISTÓRIAS
Base – texto bíblico
Colocar a pessoa em contato com as histórias de Jesus. Que
ela possa ver os mistérios da vida de Cristo.
Para o catequista - não se trata só de aprender a ser
um bom contador de histórias, conhecer as técnicas para se narrar bem um texto
bíblico. Trata-se de entrar dentro do texto. Saber interpretá-lo, buscar
compreender o texto atualizando em sua vida de comunidade. A palavra é narrada
pela e na comunidade.
MÉTODO
1- Narração do texto bíblico;
2- Regaste da narrativa – a narrativa
é recontada pelos catequizandos;
3- Momento de reações – ouvir o que a
narrativa dá a pensar;
5- Oficinas de artes – um meio
criativo de aprofundar as histórias ouvidas. Realizam-se diversas oficinas onde
os catequizandos expressam o que as narrativas provocaram neles;
6- Apresentação dos trabalhos das
oficinas – uma forma de recontar as histórias e de partilhar com a comunidade a
experiência que a catequese tem provocado na vida dos catequizandos.
Elenquei estes seis pontos que apontam para o modo como está
organizada a catequese narrativa. Estes pontos dão uma ideia do método
utilizado.
- Não se trata de apresentar uma catequese doutrinal, mas experiencial.
- Não se trata de explicar o que a narrativa bíblica quer dizer, mas, narrá-las, deixando que o próprio catequizando pense o que a narrativa provoca nele.
- Ele ouve as palavras de Jesus Cristo, ele ouve os feitos que Jesus realizou.
- A narração vai criando no catequizando um imaginário simbólico que o ajuda a pensar a sua própria realidade de fé. Na narrativa, ele se vê.
- E ao recontar para os outros a narrativa que ouviu, ele se conta.
- Ele participa da história, não é um mero ouvinte. O resgate da narrativa é um resgate de sua própria história.
- O catequizando se refaz, narra sua própria identidade como pessoa que se relaciona com os outros no mundo.
Catequista – Ministério
de instruir e introduzir a pessoa iniciada na palavra do Cristo. O Catequista possui o múnus de ensinar. Trata-se de um ministério
exercido na comunidade. A pessoa é escolhida entre os membros da comunidade
para servir os que querem fazer parte da comunidade.
Cito um trecho do texto do Concílio Vaticano II sobre o
Catecumenato e a iniciação cristã. “Mais
do que uma simples exposição dos dogmas e dos preceitos, o catecumenato
(catequese de adulto) deve ser uma iniciação a toda a vida cristã, um
aproximar-se de Cristo, durante o tempo que for necessário. Sejam os
catecúmenos iniciados convenientemente no mistério da salvação, na prática da
vida evangélica, nas celebrações litúrgicas segundo os diversos tempos, na vida
de fé, de culto e de amor, característica do povo de Deus” [6].
FORMAÇÃO
DOS CATEQUISTAS [7]
Ao ser escolhido dentre os da comunidade para exercer o
ministério, a pessoa é motivada a receber formação sobre o ser Igreja e
principalmente, sobre a Bíblia. Ela é motivada a crescer na vida espiritual e
aprofundar os conhecimentos bíblicos, base para uma boa catequese.
A participação nas celebrações litúrgicas da comunidade é
muito importante. Pois para instruir outros na vida cristã, faz-se necessária
uma compreensão da liturgia a partir da participação.
PARTICIPAÇÃO
DOS PAIS
A participação dos pais se dá através da apresentação das
oficinas de catequese narrativa. No dia da apresentação os pais, juntamente com
a comunidade e os amigos, são convidados a assistir a partilha dos
catequizandos em forma de apresentações das diversas oficinas de arte.
COMUNIDADE:
Lugar de relação – conhece o Cristo que se mostra na
comunidade: “Vinde e vede”.
Lugar onde a palavra é
narrada – na
comunidade, a palavra é narrada pelo catequista.
Lugar de celebração – na comunidade, a palavra é
celebrada. O catequizando é acolhido, instruído e iniciado na vida cristã.
Lugar de partilha – na comunidade, o catequizando
partilha a sua experiência que faz com a palavra. Ele se mostra colaborador dos
outros, colabora num processo de construir um mundo melhor... Ele vive a vida
cristã.
BIBLIOGRAFIA:
AMBRÓSIO DE MILÃO. Explicação
do símbolo sobre os sacramentos. São Paulo: Paulus, 1996.
CIRILO DE JERUSALÉM. Catequeses
Mistagógicas. Petrópolis: Vozes, 1977.
FAUSTI, Silvano. Ricorda
e Rocconta il Vangelo: La catechesi narrativa di Marco. Milano: Ancora,
1998.
TERTULIANO DE CARTAGO.
O Sacramento do Batismo. Teologia pastoral do batismo segundo Tertuliano. Petrópolis:
Vozes, 1981.
CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II – Ad Gentes, nº 14; nº 17. “O catecumenato e a iniciação cristã. ”
1965.
[1]
DICIONÁRIO ELETRÔNICO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUQUESA. Catequese.
[2]
DICIONÁRIO DO GREGO DO NOVO TESTAMENTO. São Paulo: Paulus, 2003.
[3]
Ibidem à nota 1.
[6]
CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II – Ad Gentes, nº 14. “O catecumenato e a
iniciação cristã”.
[7] CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Ad Gentes, n. 17.
Sobre a formação dos catequistas.
FONTE:
Disponível em: http://www.anchietanum.com.br/site/xtBaixar.php?intIdDownload=173 Acesso 01 dez 2019.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2019
E COMO É UM ENCONTRO DE CATEQUESE?
Vou
contar falando de um tema interessante.
O
assunto da semana era “Um Rito necessário
para celebrar”, ou seja, a Celebração Eucarística ou “A Missa”. Os recursos
normalmente são um tanto limitados. Em uma das paróquias onde trabalhei,
tínhamos uma missa passo-a-passo montada com desenhos num Flipchart, que é um
tipo de quadro num cavalete, usado geralmente para exposições didáticas ou
apresentações, em que fica preso um bloco de papéis em tamanho grande, assim,
quando o quadro está cheio, o apresentador simplesmente vira a folha (em
inglês, flip). Mas
aqui pude contar só com o folheto da missa mesmo. E, em uma hora de encontro,
cheguei no... tcham, tcham, tcham...
Ato Penitencial!
Lá
encalhamos nós. Estamos no último ano de preparação para a primeira eucaristia.
E o sacramento da reconciliação/confissão causa nas crianças mais receio e
expectativa que a própria comunhão em
si. E quando falei que o ato penitencial na missa é o momento
do exame de consciência, do reconhecimento dos erros e do pedido de perdão;
novamente nos transportamos para o assunto Confissão... “E se a gente esquecer algum pecado?”, “Posso escolher o padre?”, “Se eu
faço ato penitencial não preciso confessar?”, “Quando eu tenho que me confessar
de novo?”. E por aí afora.
Agora,
a pergunta que mais me chocou foi a seguinte: “Tia, posso ser a primeira a confessar?” Aí eu perguntei por que... Não
devia ter perguntado! “Porque tenho aula
de pintura neste dia!”.
Mas
nosso assunto “reconciliação” rendeu
algumas reflexões muito boas. Fomos lembrando do que é pecado, dos dez
mandamentos, do que pode o Ato
penitencial nos libertar e do perdão de Deus. Num determinado momento,
falávamos sobre os erros que as pessoas cometem, como no caso de um ladrão que
entra na casa da gente. Aí eu falei que a gente precisa, antes de julgar essa
pessoa como um “condenado a danação eterna”, ver em que realidade vive essa
pessoa. Ela, provavelmente, não possui em sua vida os valores de um bom
cristão. E quando eu disse que não podemos simplesmente “crucificá-la” como
fizeram com Cristo, uma das minhas menininhas disse: “Porque crucificaram Jesus afinal? Ele não fez nada!”. Esse foi o
gancho para um debate incrível com eles.
Pedi
a cada um que tentasse responder essa pergunta. E vieram as mais diversas
respostas: porque Judas o entregou, para
salvar a humanidade, para que a gente não morresse, para redimir nossos pecados.
Tudo uma “decoreba” sem fim. Só
que pedi a eles que tentassem explicar, com o entendimento “deles”, como Jesus,
com sua morte, redimiu nossos erros. Tá bom! Vocês vão dizer que exigi demais
dos meus anjinhos de 10 anos. Mas não estamos exigindo que eles entendam toda a
mistagogia da Eucaristia?
A
coisa ficou complicada. Como alguém pode simplesmente morrer e salvar todo mundo?
Porque nós continuamos morrendo do mesmo jeito... O que significou
verdadeiramente a morte de Cristo? E que tipo de “morte” foi aquela? E chegamos à chave do processo salvífico: A
Ressurreição! Porque Jesus ressuscitou? Qual o sentido disse para nós,
cristãos? Qual é o mistério envolvido em tudo isso?
Depois
de muitos “micos”, respostas esdrúxulas, conjecturas, “adivinhações”, veio um
comentário que começou a dar uma luz a nossa discussão: “Tia, as pessoas não se importavam umas com as outras, ninguém liga de
salvar alguém...”. Quando eu disse que essa resposta era a ponta do fio que
ia desfazer nossos nós, as crianças começaram então a entender o que aquele “Morreu para nos salvar...” significa.
Aí
elas conseguiram ir ligando a “morte” de Cristo com a “morte” dos nossos
pecados. A Ressurreição de Cristo com a “vida
nova” proposta por Ele. E aí também foram chegando à simbologia da comunhão
eucarística. No que significa verdadeiramente a “fração do pão”, a comunhão
depois do arrependimento, do perdão, da reconciliação verdadeira com Deus. E
isso, claro que não com essas palavras, foram eles mesmos que me disseram.
Durante
a nossa uma hora e meia de encontro, bati a cabeça muitas vezes na parede (de
brincadeirinha claro!). A cada resposta equivocada eu ia lá e dizia que eles
ainda iam me matar. Mesmo falando de um assunto tão sério, eu permiti risadas e
brincadeiras. E a cada resposta que me fazia “bater a cabeça na parede” eles buscavam com afinco a resposta
correta ou o verdadeiro entendimento.
Ao
final senti que aquelas oito cabecinhas pensam agora diferente sobre a
reconciliação e a Eucaristia. Não sou ingênua a ponto de achar que “mudei a
vida” deles. Mas tenho certeza absoluta que a expressão “Jesus, Salvador”, agora vai provocar neles uma reflexão mais
demorada. E outra coisa, não podemos pensar que crianças de 10, 11 anos não tem
maturidade suficiente para refletir sobre um assunto tão complexo. Hoje em dia
elas vivem num mundo repleto de informações. Suas mentes processam essas
informações a uma velocidade espantosa. Acho que nós, catequistas, é que somos
meio “devagar”...
Pensem
só: Eu precisei de um encontro de uma hora só para falar de uma pequena parte
da Missa. Quantas partes tem a missa? Precisaria de todos os 32 encontros do
ano só para conseguir explicar toda a simbologia envolvida numa celebração. Ou
seja, só para ligar um pouco a Liturgia à catequese.
E
tem gente que diz ainda que o tempo de catequese que temos, é suficiente. Isso
porque a nossa, no regional Sul II, é de três anos para a Eucaristia e dois
para a Crisma. E onde é UM ano para cada sacramento? Uma hora de encontro? Ou
nem isso se considerarmos catequese de março a novembro. E é por isso que cada
minuto precisa valer a pena!
Ângela Rocha
Catequistas em Formação
AVALIAÇÃO DE CONTEÚDO NA CATEQUESE: TEM ISSO?
Muitos catequistas se
perguntam se devem fazer - e alguns fazem - “avaliação” de conteúdos na
catequese. Penso que essa é uma ação que não cabe no processo de evangelização.
Claro que usamos alguns recursos pedagógicos para trabalhar os temas, como por
exemplo: dinâmicas, brincadeiras, canto, etc. Na verdade, a “dinâmica” mesmo, é
uma técnica ou método didático para tornar os conteúdos mais atraentes e não
uma "avaliação". Da mesma forma, algumas atividades para fixação de
conteúdos podem se fazer necessárias, mas, nunca pensando em
"corrigir" e apontar erros.
Estou na catequese de crianças
há quase 15 anos. Normalmente fico com a mesma turma até receberem a primeira
Eucaristia, ou seja, três anos, e nunca fiz qualquer tipo de avaliação, mesmo
porque, se fizesse, ia chegar à conclusão de que elas não “aprenderam” nada.
Nosso universo é muito mais de “experiências” do que aprender conteúdos ou
reter “conhecimento”.
E essa é a questão na
catequese: ela não existe para se "aprender” alguma coisa. E isso o
documento Catequese renovada, já apontou em 1983. A Catequese é “iniciação à vida cristã”! E vida, leva
à “vivência” cristã. E essa é uma das características apontadas pelo DNC (2006,
item 13) é: “catequese como processo de iniciação à vida de fé: é o deslocamento
de uma catequese simplesmente doutrinal para uma modelo mais experiencial (...)”
E até quando a gente vai
teimar em conduzir um barco a remo se temos "motores" potentes hoje?
Temos informação! Temos ajuda das
ciências (pedagogia/psicologia). E elas nos ajudam a entender o universo da
criança e como ela “aprende” e incorpora na sua vida as experiências que vai
tendo. É simplesmente fora de propósito avaliar a “experiência” de fé de
alguém, ainda mais de uma criança que está construindo seu mundo e suas
crenças.
Como se avalia a fé de uma
pessoa? Saber, “decor e salteado",
os mandamentos e sacramentos, indica que essa pessoa se converteu? Em que grau
isso vai proporcionar mudanças na vida do nosso catequizando? Não tem como a
gente saber se o que estamos trabalhando na catequese hoje vai ou não mudar a
vida de uma criança no futuro, portanto, vamos nos acalmar e pensar que
catequese é a vida toda e não simplesmente aqueles três ou cinco anos da
infância.
Ao invés de esquentar a cabeça
pensando numa "avaliação", vá lá fora, em algum lugar que tenha uma
grama bem gostosa para deitar, e fique uma meia hora olhando para o céu azul,
brincando de “pintar” figuras nas nuvens. Olhando e se maravilhando com a criação
do Altíssimo. Garanto a você que daqui uns 30 anos suas crianças vão
"voltar ao passado" e pensar: "Como foi bom estar na catequese!".
O que se pode, e deve fazer
sempre, é uma avaliação conjunta, pela equipe de catequese e pelo padre, sobre
a eficácia e o alcance da evangelização que está sendo feita pela paróquia.
Analisando isso, se está pondo a "prova" a catequese feita por todos
nós.
Ângela Rocha – Catequista
Especialista em Catequética pela FAVI – Curitiba
Graduando em Teologia pela PUCPR - Curitiba
domingo, 1 de dezembro de 2019
A FORMAÇÃO DAS CRIANÇAS NA CATEQUESE
O QUE
colocar na catequese de crianças??? Não é uma pergunta muito fácil de
responder em se tratando de um país tão grande como o nosso, com tantas
dioceses e comunidades, com tempos e etapas tão diferentes.
Vamos aqui tentar simplificar um pouco as coisas. Primeiro que nós temos
as orientações do DGC (128 -130) e
também do DNC (130), que estabelecem
em linhas gerais os "pilares" da catequese. Você pode ver isso em
nossas publicações antigas aqui e no blog:
ou ainda:
http://www.catequistasemformacao.com/2015/02/as-sete-pedras-fundamentais-da-catequese.html
http://www.catequistasemformacao.com/2015/02/as-sete-pedras-fundamentais-da-catequese.html
Continuando...
Vejamos ainda, em que as nossas crianças devem ser "educadas"
ou preparadas:
Primeiro a catequese
deve EDUCAR para a ORAÇÃO. E esta oração deve ser PESSOAL, COMUNITÁRIA e LITÚRGICA.
- Como PESSOAL: ela deve ensinar a
falar com Deus, a ver em Deus um Pai, em Jesus um amigo. E aí, além da oração
que cada um pode e deve fazer, vem as orações tradicionais: Santo Anjo, Ave
Maria, Pai Nosso.
- Como COMUNITÁRIA: vem a oração com a
comunidade: Profissão de fé, Via-Sacra, Adoração, Terço, momentos fortes do ano
litúrgico (Quaresma, Natal), novenas, procissões.
- Como LITÚRGICA: vem a
participação na missa, nas celebrações eucarísticas e da Palavra.
Em segundo lugar
temos o ACOLHIMENTO NA COMUNIDADE.
Fazer com que a criança sinta que faz "parte" da comunidade
orientando e incentivando a participação em: corais, grupos de canto,
coroinhas, acólitos, Infância Missionária, etc.
Em terceiro lugar
vem a CONSCIÊNCIA MISSIONÁRIA. Desde
pequenos eles podem ser "discípulos", falar ao outro sobre sua fé,
espalhar a Palavra e a boa nova. Para isso, o catequizando precisa entender a
sua responsabilidade como batizado. Uma excelente catequese sobre o batismo é
prioritária e precisa ser feita sempre, guardando as devidas idades e
capacidade de discernimento.
Em quarto lugar
temos a INICIAÇÃO AO CORRETO USO DA
SAGRADA ESCRITURA. E daí vem o conhecer a Bíblia, manusear a Bíblia e
entender a Palavra. Aqui uma leitura orante da Palavra, adaptada à compreensão das crianças e jovens é muito frutífera.
E tudo isso precisa ser feito cuidando da apresentação dos CONTEÚDOS, com adaptação da linguagem e
simplificação de conceitos. No entanto, esta simplificação precisa de qualidade
teológica. E para entender isso o catequista precisa de boa formação e
criatividade. Uma mera infantilização em nome da "mentalidade
infantil" é um erro teológico grave que pode causar uma crise de fé no
futuro. Assim como o excesso de "regras" e "normas" pode
levar a uma compreensão equivocada da religião.
A catequese, como ação básica da Igreja, estende-se pela vida afora. É
preciso respeitar o "tempo" de cada um, principalmente das crianças,
sem querer "despejar" nelas crianças todo o conteúdo doutrinário da
nossa Igreja, que só um adulto é capaz de entender.
Felizmente temos excelentes publicações de
itinerários e manuais catequéticos que trazem todas as dimensões necessárias à
catequese, contidas em roteiros dinâmicos e bem elaborados. Resta usar com
inteligência e criatividade sem desprezar nenhuma das seis dimensões: Bíblica, Orante,
Litúrgica, Missionária, Comunitária e de conteúdos da fé.
Fiquemos atentos então para o que diz o item 233 do DNC:
"233. A catequese é um ato
essencialmente eclesial. Não é uma ação particular. A Igreja se edifica a
partir da pregação do Evangelho, da catequese e da liturgia, tendo como centro
a celebração da Eucaristia. A catequese é um processo formativo, sistemático,
progressivo e permanente de educação da fé. Promove a iniciação à vida
comunitária, à liturgia e ao compromisso pessoal e com o Evangelho. Mas
prossegue pela vida inteira, aprofundando essa opção e fazendo crescer no
conhecimento, na participação e na ação."
Não queira, portanto, que a criança "aprenda" tudo de uma vez.
Lembre-se que você a está "iniciando" na fé, junto com a iniciação
que a família e a comunidade também proporcionam. Devagar com o andor. O
sacramento nunca é o "fim", ele é um rito de passagem que marca
etapas vencidas e o começo de uma nova vida a cada uma das nossas crianças que,
fortalecidos, se tornarão os discípulos de amanhã.
Ângela
Rocha
Catequistas
em Formação
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
MANUSCRITOS DE QUMRAN OU DO MAR MORTO
Você já
ouviu falas dos Manuscritos do Mar Morto ou Manuscritos
de Qumran? Os Manuscritos do Mar Morto são uma coleção de
centenas de textos e fragmentos de texto encontrados em cavernas de Qumran, no Mar
Morto, no fim da década de 1940 e durante a década de 1950. Eles foram compilados
e guardados por uma doutrina de judeus conhecida como Essênios, que viveram em
Qumran do século II a.C. até aproximadamente o ano 70. Os Manuscritos do
Mar Morto são de longe a versão mais antiga do texto bíblico, datando de mil
anos antes do que o texto original da Bíblia Hebraica, usado pelos judeus
atualmente.
Conheça
mais sobre eles neste artigo de Frei Ildo Perondi.
MANUSCRITOS DE QUMRAN
OU DO MAR MORTO
Frei
Ildo Perondi (ildo.perondi@pucpr.br)
Na primavera de 1947
foram descobertos os primeiros Manuscritos de Qumran. Esta foi
considerada a maior descoberta de manuscritos da época moderna e a mais
importante na região da Terra Santa. É certo que foi uma riqueza, mas também
provocou muitas polêmicas e certa confusão.
No segundo semestre de
2004, alguns destes manuscritos e objetos estiveram expostos no Rio de Janeiro
e depois em São Paulo. Ultimamente encontramos livros, publicações e
reportagens muito boas em jornais, revistas e sites na Internet, mas também
encontramos algumas publicações sensacionalistas e livros best sellers (como
os de M. Baigent e R. Leigh) ou o recente livro O Código Da Vinci, de
Dan Brown, também sensacionalista. Este tipo de publicação mais confunde que
informa. São obras de amadores, ignorando todo o trabalho feito e esquecendo a contribuição
e o bem que estes Manuscritos nos trouxeram.
Neste artigo
procuraremos apresentar de forma resumida o que são os Manuscritos de Qumran ou
do Mar Morto, a sua história, as polêmicas e a ajuda que trouxeram para a
tradução e interpretação dos livros do Antigo Testamento, e também para uma
melhor compreensão de muitos elementos que ajudaram na formação do Novo Testamento
e do Cristianismo.
1. Qumran
É o nome do lugar onde
foram encontrados os primeiros manuscritos numa gruta. Situa-se perto do Mar
Morto, em Israel. Em seguida foram encontradas novas grutas com outros
manuscritos e objetos, não só em Qumran, mas em toda a região do Mar Morto, e
por isso hoje se fala dos Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto (ou do Deserto
de Judá). Foram localizados também os restos dos edifícios onde se reunia a
comunidade.
No ano 70 os romanos
destruíram o Templo de Jerusalém, destruindo também a cidade e Israel deixou de
existir como estado judaico (até 1948). Em seguida, os romanos conquistaram e
destruíram a comunidade de Qumran e depois tomaram a fortaleza de Massada,
localizada próximo a Qumran. E em 135 dC foi vencida a última resistência judaica.
Na época em que se
descobriram os primeiros Manuscritos a região estava sob dominação inglesa, em
seguida o território passou a fazer parte da Jordânia. Em 1948 Israel tornou-se
um estado independente, porém somente em 1967, com a guerra dos seis dias, é
que a região de Qumran e do Mar Morto passou a fazer parte do território de
Israel.
2. O que são os
Manuscritos?
Os manuscritos são
escritos, em couro ou papiros, em sua maioria na língua hebraica, e alguns
poucos em aramaico e grego, que foram encontrados nas 11 grutas. Alguns estavam
em bom estado e outros estavam bastante deteriorados com o tempo e as condições
onde foram guardados. Ao todo foram encontrados em torno de 800 documentos.
Alguns estudiosos sugerem que alguns manuscritos sejam cópias de livros
sagrados que os judeus do Templo esconderam ali, quando pressentiram que os
romanos destruiriam Jerusalém. Alguns são apenas fragmentos (pedaços) de
textos.
Em geral podemos dizer que
os Manuscritos encontrados se classificam assim:
1) Manuscritos bíblicos: estes textos são cópias fiéis que os habitantes da região de Qumran
(escribas) transcreveram dos livros do Antigo Testamento (cerca de 225
manuscritos). O Livro dos Salmos é que foi encontrado maior número de cópias, o
segundo é o Deuteronômio; o terceiro é Isaías (curiosamente são também estes os
três livros mais citados pelo NT). Somente dos livros de Ester e Neemias não
foi encontrada nenhuma cópia (veja relação no final).
2) Apócrifos:
Foram encontradas cópias de diversos livros que não entraram no cânon da Bíblia
Hebraica, exemplo: apócrifo do Gênesis, de Henoc, de Noé, de Lamec, do Livro
dos Jubileus, etc. É bom lembrar que na época em que foram escritos os
Manuscritos a lista (cânon) dos livros do AT ainda não tinha sido concluída,
embora já houvesse um certo consenso.
3) Comentários bíblicos: Foram encontrados muitos textos que eram comentários e interpretações
que a comunidade escreveu sobre os livros do AT. Estes comentários são
importantes para percebermos como uma comunidade judaica daquele tempo
interpretava os textos sagrados. Além disso encontramos muitas cópias de targums e midraxes rabínicos (estudos e interpretações).
4)
Livros da
Comunidade: A comunidade também
escreveu livros sobre a sua vida. São textos legais sobre a organização da
comunidade, livros e textos litúrgicos, poéticos, apocalípticos, escatológicos,
comerciais, etc. Os mais famosos são a Regra da Comunidade, o Rolo do Templo, o
Documento de Damasco, a Carta Halákica, a Regra da Guerra, etc. Foi encontrado
também um famoso Rolo de Cobre, um livro escrito em cobre. É um enigma, pois
contém o mapa onde estão escondidos cerca de 60 tesouros (mais de 200 toneladas
de ouro e prata), mas parece ser uma fantasia e jamais se encontrou qualquer
coisa.
Além dos Manuscritos
foi encontrada uma grande quantidade de outros materiais, importantes para o conhecimento
da comunidade, como: cerâmicas, moedas, objetos de trabalho, vestuários,
calçados, utensílios de cozinha e de trabalho, etc.
A data em que foram
escritos os Manuscritos gerou muita controvérsia. A hipótese de que sejam uma
farsa hoje está descartada. Os mesmos foram submetidos à análise com os métodos
mais modernos, como o Carbono 14, e hoje cientificamente se pode afirmar que os
mais antigos sejam do século III aC e os mais tardios não sejam depois do ano 68
dC.
3. Como foi a descoberta
dos Manuscritos:
Na primavera de 1947
três beduínos da tribo Ta’amireh, que cuidavam do seu rebanho, na
região de Qumran, se divertiam jogando pedras dentro das grutas. Um deles,
porém, ouviu um som estranho. Voltou sozinho de madrugada e descobriu entre
outras coisas, um vaso contendo manuscritos antigos. Os beduínos tentaram
vendê-los, quase sem sucesso. (Outra versão indica que foi um beduíno que em
busca de uma cabra perdida, que havia se refugiado em uma das grutas, fez as
primeiras descobertas). O certo é que os beduínos chegaram a um senhor chamado
Kando, que se converteu em intermediário para passar adiante os materiais
descobertos. Como pensavam que eram escritos em siríaco, os beduínos foram
encaminhados ao metropolita Mar Athanasius em Jerusalém, da Igreja Siro-jacobita
(interessante que o porteiro vendo aqueles beduínos malvestidos quase colocou
tudo a perder, mandando-os embora!). O metropolita comprou os manuscritos por
cerca de 100 dólares (tempos depois os vendeu nos USA por 250.000 dólares).
O metropolita
consultou Sukenik, um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. A partir
disso, iniciou-se uma longa história em que a descoberta foi levada a sério, os
beduínos conseguiram novos manuscritos, porém devido à situação de conflito na
região, alguns desses manuscritos foram levados aos Estados Unidos.
Iniciaram-se também as escavações e novas buscas na região, coordenadas por G.
L. Harding (jordaniano) e pelo Pe. Roland de Vaux, da Escola Bíblica de
Jerusalém, que escavaram e estudaram o local, fazendo estudo da comunidade e em
várias expedições fizeram novas descobertas. Porém, os beduínos lembrando que
seus avós contavam a história de um caçador que havia seguido uma lebre numa
gruta, foram de novo os protagonistas e descobriam duas grutas (chamadas Gruta
4) onde foi encontrado o maior e melhor número de material (era o resto da
Biblioteca central da comunidade de Qumran).
Foi construído em
Jerusalém um local especial para colocar e proteger todo este material, o
chamado “Santuário do Livro”, em forma da tampa de uma jarra, semelhante àquela
em que foram encontrados os primeiros manuscritos. É onde hoje se encontra todo
o material que está sob a custódia do Museu de Jerusalém, hoje administrado pelo
Estado de Israel. Segundo J. Strugnell, cerca de quatro rolos devem estar
desaparecidos ou se perderam para sempre.
4. A Comunidade de
Qumran:
R. de Vaux e sua
equipe tentaram estudar quem foi esta comunidade que viveu ali e produziu todo
este material. Baseados nas escavações e também em historiadores da época como
Plínio - o Velho, Fílon e Flavio Josefo, chegou-se à conclusão que a comunidade
começou a ser povoada cerca de 700 anos antes de Cristo. Porém, somente uns 200
anos aC é que teve a organização como grupo essênico separado. Esta sofreu uma
forte destruição com o terremoto de 31 aC e depois deve ter ressurgido, até ser
destruída pelos romanos tendo seu fim por volta dos anos 100 dC. Alguns traços
desta comunidade:
a) Tinham uma forte vida comunitária, com normas para a
admissão, formação e vivência interna. Seguiam uma disciplina rígida, rezavam e
faziam penitência, tinham os bens praticamente em comum. Liam, interpretavam e
davam muita importância às Escrituras. Esperavam o fim dos tempos, onde eles,
os “filhos das luzes”, combateriam ao lado de Deus contra os “filhos das
trevas”;
b) A princípio parece que era uma comunidade constituída
somente de homens, porém nos cemitérios foram descobertas ossadas também de
mulheres (que podiam ser de visitantes ou familiares que vivam nas
proximidades);
c) Uma figura importante na comunidade era o Mestre da
Justiça;
d) Tinham uma forte expectativa messiânica, porém eram
dois os Messias esperados: um de linha mais política, seria o descendente de
David e o segundo seria o Messias Sacerdote, descendente de Aarão;
e) Seguiam um calendário de 364 dias.
O mais provável é que
esta comunidade fosse um grupo de essênios, em uma comunidade de mais ou menos 200
pessoas. Alguns poucos sugerem que poderiam ser saduceus, zelotes, etc.
5. O Novo
Testamento e Qumran
Surgiram várias
hipóteses indicando que alguns dos personagens do NT seriam provenientes de
Qumran ou tiveram contatos com esta comunidade. De fato, quem visita hoje
Qumran na recepção vê um filme que informa sobre um personagem que esteve na
comunidade, mas que foi expulso por não se adaptar à comunidade. Este
personagem é identificado como o Profeta João Batista. E se lermos os
evangelhos sinóticos vemos que os traços de João Batista (a radicalidade da sua
proposta) têm muito a ver com a comunidade de Qumran. Outros sugerem que Tiago
“irmão do Senhor” (cf. At 12,17; 15,13; Gl 1,19, etc.) pudesse ter ligações com
a comunidade e Robert Eisenman até chegou a afirmar que este Tiago seria o
Mestre da Justiça da comunidade. Nesses textos, segundo Eisenman, se falaria
dos primeiros cristãos e em particular emergiria na sua plena luz o contraste
que dividia a corrente de Tiago e aquela de Paulo. Encontramos também alguns
que até chegaram a sugerir que o Apóstolo Paulo viesse desta Comunidade (é bom lembrar
que o próprio Apóstolo Paulo várias vezes afirma seu passado como fariseu e
nunca como essênio).
É interessante ver o
paralelismo de certos termos com os escritos do NT. Um dos vocábulos que mais
chamou a atenção é “os muitos” ou “maioria” que encontramos em At 15,12 e em
2Cor 2,5-6 e no relato da Eucaristia de Mt 26,27-28; Mc 14,23-24; Lc 22,20. Em
Qumran encontramos o mesmo termo seja em relatos jurídicos e celebrativos.
Encontramos também
outras expressões como: “justiça de Deus”, “pobres em espírito”, “obras da
lei”, “Igreja /Assembleia de Deus”, “a sorte dos santos”, “o Senhor do céu e da
terra”, etc. que não são encontrados nos textos rabínicos da época.
Textos como 2Ts 2,7 “o
mistério da iniquidade”; o tema paulino da “justificação pela fé” (cf. Rm
3,21-24; Gl 2,16), a figura de Melquisedec lembrada na Carta aos Hebreus, a
expressão “ele será chamado Filho de Deus”
de Lc 1,35-37, entre outros, também são encontrados nos escritos Qumrânicos.
No entanto, se existem
paralelos, encontramos também divergências. E. Stauffer enumera pelo menos oito
pontos diferentes entre a comunidade de Qumran e as primeiras comunidades
cristãs:
1) um clericalismo maior em Qumran;
2) mais ritualismo e cerimônias;
3) o preceito de amar os filhos da luz e odiar os
filhos das trevas;
4) o militarismo e a preparação para a guerra
“apocalíptica”;
5) a supervalorização do calendário;
6) o caráter esotérico;
7) a expectativa dos dois Messias;
8) o relacionamento diverso com o Templo, com os
sacerdotes de Jerusalém e com a Lei.
6. Problemas com a
publicação dos Manuscritos
No início a Equipe
responsável pelo cuidado dos Manuscritos e pela sua divulgação e publicação era
constituída de um pequeno grupo, chefiada pelo Pe. de Vaux, da Escola Bíblica
de Jerusalém. Devemos recordar que muitos fatores atrapalharam o trabalho.
Basta lembrar que o território passou por mudanças políticas importantes:
Inglaterra, Jordânia e depois Israel. Houve dificuldade de recursos econômicos
e mesmo humanos (pessoas capazes de traduzir e interpretar os documentos).
Falta de recursos para a aquisição dos Manuscritos. Tudo isso fez com que,
passados 40
anos das primeiras
descobertas, muitos textos ainda não eram de conhecimento público. Surgiram
suspeitas sobre as descobertas e sobre os seus conteúdos, falou-se até em
conspiração. Mesmo entre os biblistas católicos e protestantes criou-se um mal-estar,
tanto que J. Fitzmyer qualificou como um “escândalo” esta demora. Era
inadmissível que documentos assim importantes ficassem em segredo, mas
praticamente sem razão, e que não fossem de domínio público.
É certo que devido à
falta de recursos, financeiros e humanos, a morte de R. de Vaux (que foi substituído
por J. Strugnell – inglês, presbiteriano e depois católico – já velho), houve
atraso nas traduções e publicações. Além disso, a Equipe queria publicar os
textos com uma interpretação que fosse unânime entre os diversos membros. Tudo
isso deu margem a inúmeras especulações.
Por isso na década de
90 houve uma mudança na Equipe, mais recursos e pessoas foram colocados à disposição
e assim hoje todos os Manuscritos já foram divulgados, pelo menos através de
fotografias. Hoje faltam somente uns poucos textos para serem publicados e
traduzidos. Em português temos a excelente obra publicada pela Vozes: Textos
de Qumran, de Florentino Garcia Martinez (tradução de Valmor da Silva), que
traz praticamente todos os textos já publicados.
7. Questões e polêmicas
com o Cristianismo
É certo que documentos
dessa importância e que têm algo a dizer sobre a própria comunidade de Qumran,
mas também sobre o judaísmo, o cristianismo e a própria cultura mundial, tendem
a causar polêmicas e divergências.
Vejamos as principais:
a) John Allegro:
Entre os membros da equipe havia um pesquisador chamado John Allegro, inglês
agnóstico. Devido a divergências com o grupo, ele se retirou fazendo fortes
acusações dizendo que a equipe estava escondendo documentos da Gruta 4. Segundo
ele, haviam manuscritos que poderiam prejudicar o Cristianismo e que havia uma conspiração
do Vaticano para impedir a divulgação dos mesmos. Ele mesmo se pôs a publicar
manuscritos por conta (e que depois se revelaram de péssima qualidade.
Strugnell fez cem páginas de notas de correções ao seu livro). Allegro atribui
as origens do Cristianismo aos efeitos de um alucinógeno. Quase na mesma
direção, está a interpretação de Bárbara A. Thiering que vê João Batista como o
Mestre da Justiça e Jesus como o Sacerdote Ímpio.
b) Textos do NT em Qumran? J.O’Callaghan, jesuíta espanhol, insistiu nos anos 70
que havia descoberto partes de textos do NT em Qumran na gruta 7 (nesta gruta
foram descobertos também textos escritos em grego). Segundo ele, seriam textos
de Marcos, Atos dos Apóstolos, Romanos, 1Timóteo, Tiago e 2Pedro. Esta hipótese
foi assumida também pelo alemão C. Thiede e fez sucesso, mas também logo foi
contestada. Primeiro, porque a grafia não é tão igual; segundo porque a 2Pedro
é colocada pela maioria dos biblistas como o último escrito do NT (portanto foi
escrita depois da destruição de Qumran); terceiro porque não foi encontrado
nenhum livro do NT, mas somente alguns fragmentos com textos parecidos; quarto
porque o material é muito fragmentado e não permite nenhuma hipótese segura. O
texto encontrado (7Q5) e que O’Callaghan supõe seja de Mc 6,52-53, e pode ser
traduzido assim: “porque [não] haviam compreendido o fato dos pães estando o
seu coração endurecido. Terminada a travessia chegaram ao território de Genesaré
e chegaram à terra. Apenas desceram...” O texto não fala de Jesus e poderia
muito bem se referir a um outro fato, com outro grupo, ainda que se pareça com
o texto de Marcos. Por isso, hoje se exclui a possibilidade que qualquer uma
das 11 grutas contenha algum texto da literatura cristã primitiva.
c) Jesus era de origem essênia? Alguns autores procuram comparar as práticas, os
costumes, as propostas entre Jesus e as primeiras comunidades cristãs com os
essênios e descobrem muitas semelhanças. Por isso, afirmam que o cristianismo
seria de origem essênia. Esta hipótese também é fraca, pois temos todos os
textos do NT que comprovam a origem judaica de Jesus na Galileia. Embora com
isso não se negue que alguns membros do grupo de Jesus possam ter tido ligações
com a comunidade de Qumran (João Batista e outros).
d) O caso do Messias assassinado ou que assassinou: Um dos textos que mais causou polêmicas foi 4Q285. O fragmento
estava em certa parte corrompido e foi passível de várias interpretações, por
isso não foi logo divulgado. Isso ajudou a aumentar as suspeitas. Os estudiosos
sugerem várias traduções: “E esses assassinaram (ou: assassinarão) o príncipe
da comunidade, o reben[to de Davi]”. O texto pode ser interpretado tanto no
passado como no futuro. Outros preferem: “O príncipe da comunidade o matará
(ou: o matou)”. Poderia também ser: “O príncipe da comunidade, o rebento
de Davi, o matará” ou: “matará o ímpio”. Tudo isso traz um certo
paralelo com o NT. Em 1991 R. Eisenman publicou um livro (à revelia do comitê e
desrespeitando até os direitos autorais) onde diz revelar textos inéditos, um
dos quais que falava da execução capital de um Messias e insiste que este
Messias seja Jesus e que por isso o texto não havia sido tornado público.
Poucos são os que aceitam esta hipótese, já que Eisenman optou pela tradução
menos segura. Em 1992, ele publica outro livro juntamente com M. Wise. Porém,
em seguida, Wise se retratou das interpretações feitas (cf. se pode ver na
apresentação da edição italiana feita por E. Jucci). No entanto, estas publicações
tiveram o mérito de tornar públicos muitos dos manuscritos que demoravam para
serem publicados.
Sobre os pontos acima,
é bom lembrar que eminentes estudiosos encarregados da publicação dos manuscritos
sempre afirmaram que, embora se encontrem muitos paralelos, não existe nada nos
textos que tenha ligação direta com o nascimento do Cristianismo na Galileia.
Também em nenhum dos textos se encontra o nome de Jesus. Segundo F. G. Martinez,
as últimas análises dos Manuscritos feitas com carbono 14, comprovam que os
mesmos são anteriores ao cristianismo e, portanto, “excluem definitivamente
as teorias de uma origem zelota ou judeu-cristã dos manuscritos”.
O que percebemos é que
alguns (como O’Callaghan) gostariam de ver em Qumran e no Mar Morto indícios de
Jesus e dos textos do Novo Testamento. Não precisamos disso para a
credibilidade da nossa fé. Outros, em outro extremo, querem fazer “provocações”
e sugerir que Jesus e o cristianismo tenham origens essênias. Nem isso está nos
Manuscritos. Jesus continua sendo de origem judaica e o cristianismo continua
com sua origem na Galileia. Embora seja verdade que o pensamento de Jesus
algumas vezes se aproximasse das ideias dos essênios, porém a prática de Jesus
e das primeiras comunidades se distanciava muito do extremismo deles.
8. A importância
dos Manuscritos
Os manuscritos de
Qumran e do Mar Morto foram, sem dúvida, a maior descoberta do milênio passado
para a crítica literária e para o estudo da Bíblia, pois voltamos a ter acesso
a cópias de textos bíblicos da época de Cristo e alguns até dos séculos II-III
aC. Tanto a religião judaica, como o cristianismo, foram duas religiões muito
perseguidas na história, por isso foi difícil preservar os originais ou cópias
antigas dos textos sagrados. Para se ter uma ideia, antes desta descoberta,
tínhamos a Bíblia Hebraica de Soncino do ano 1477; a Bíblia Rabínica (com
massora, isto é, anotações que os escribas faziam nas margens das
páginas copiadas) de 1518, já impressa com a descoberta de Gutenberg e a obra
de Jacob Ben Chayyion, o famoso textus recceptus de 1524/1525. Em 1929
surgiu a BHS, a Bíblia Hebraica de Kittel e P. Kahle, baseada no
Código de Leningrado de 1008. Então, estes manuscritos de Qumran e do Mar Morto
nos forneceram cópias com cerca de mil anos mais antigas dos livros do AT. Tudo
isso ajudou a corrigir e melhorar as traduções da Bíblia.
Para o mundo judaico,
além da contribuição bíblica, a descoberta abriu o caminho para o acesso a
manuscritos e materiais de dois mil anos, bem como as escavações e o
conhecimento de uma comunidade de um grupo judaico (os essênios), que
contribuem também para entender melhor a história dos últimos anos da
existência do estado de Israel (antes de ser destruído pelos romanos). E
proporcionou um grande conhecimento da literatura hebraica pré-cristã.
Para o cristianismo, a
maior importância está nas descobertas bíblicas, mas também em poder conhecer
melhor o ambiente, as estruturas, ideias do mundo judaico da época de Jesus e
de uma comunidade que tinha pontos em comum e pontos divergentes com o
cristianismo.
Porém, com J. C.
Vanderkam podemos afirmar: “Sustentando que o Jesus histórico era o Messias,
no itinerário que conduziu à época escatológica, os cristãos se colocaram muito
além em comparação com os essênios de Qumran, os quais esperavam que os seus
Messias viriam em um futuro imediato”.
Concluindo, podemos
dizer que tinha razão a afirmação do exegeta bíblico W. F. Albright quando
soube da descoberta dos Manuscritos: “Parabéns pela maior descoberta de
manuscritos dos tempos modernos”. E em outra ocasião: “É fácil de
perceber que esta nova descoberta revolucionará os estudos neotestamentários e
logo renderá superados os manuais que tratam do ambiente do NT e da crítica
textual e da interpretação do AT”.
Relação dos
Manuscritos bíblicos encontrados:
Gênesis 15 Salmos 36
Êxodo 17 Provérbios 2
Levítico 13 Jó 4
Números 8 Cântico dos
Cânticos 4
Deuteronômio 29 Rute 4
Josué 2 Lamentações 4
Juízes 3 Eclesiastes 3
1-2 Samuel 4 Ester 0
1-2 Reis 3 Daniel 8
Isaías 21 Esdras 1
Jeremias 6 Neemias 0
Ezequiel 6 1-2
Crônicas 1
12 Profetas 8
Também foram
encontradas cópias de alguns livros deuterocanônicos que não vieram a fazer
parte da Bíblia Hebraica: Tobias (4 cópias em aramaico e uma em hebraico);
Eclesiástico (alguns fragmentos); Carta de Jeremias = Baruc 6 (foi encontrada
uma cópia em grego); Salmo 151, que se encontra na LXX (uma cópia).
Bibliografia
DONNINI, D. Cristo
e Qumran. La chiave di un rapporto controverso. In: http://www.etanali.it/mar_morto/files/qumran.htm
EISENMAN, R. – WISE,
M. Manoscritti segreti di Qumran. Edizione italiana a cura di Elio Jucci
(Piemme, Asti 21994).
JUCCI, E. I
manoscritti ebraici di Qumran: A che punto siamo? in: http://dobc.unipv.it/SETH/achepunt.htm
JUCCI, E. Qumran. A
cinquant’anni dalla ricorrenza della scoperta dei manoscritti, in: http://dobc.unipv.it/SETH/qumran50.htm
MACKENZIE, J. L. Dicionário
Bíblico. Verbete: “Qumran”. (Paulus, São Paulo 72002).
MARTINEZ, F. G. Textos
de Qumran. Tradução de Valmor da Silva. (Vozes, Petrópolis 1995).
MOLINA, C. As
relíquias que o Mar Morto conservou por mais de 2 mil anos. (O Estado de S.
Paulo, 25/11/2004, Caderno 2, pg. D3).
VANDERKAM, J. C. Manoscritti
del Mar Morto. Il dibattito recente oltre le polemiche. (Città Nuova, Roma 21997).
OBS. Para a elaboração deste texto utilizei muito o livro
de James C. Vanderkam, que é atualmente membro da Equipe responsável pela
tradução e divulgação dos Manuscritos. Além disso, ele mesmo no seu livro –
parodiando Lucas – afirma que fez uma boa pesquisa para poder informar melhor
todos os fatos ocorridos desde a descoberta dos manuscritos até os dias atuais.
Esperamos que o livro seja publicado no Brasil.
Este texto está em: http://www.presbiteros.com.br/B%EDblia/Qumran%201.htm
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