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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

O VALOR DO PRESÉPIO: PAPA FRANCISCO


Presépio do Vaticano
No primeiro domingo do Advento, na cidade de Greccio, Itália, onde o primeiro presépio de São Francisco de Assis foi apresentado, o Papa Francisco assinou a Carta Apóstolica Admirabile Signum que exorta aos cristãos a manterem a bela tradição de montarem seus presépios. Leia abaixo:

CARTA APOSTÓLICA
ADMIRABILE SIGNUM
DO SANTO PADRE
FRANCISCO
SOBRE O SIGNIFICADO E VALOR DO PRESÉPIO

1. O SINAL ADMIRÁVEL do Presépio, muito amado pelo povo cristão, não cessa de suscitar maravilha e enlevo. Representar o acontecimento da natividade de Jesus equivale a anunciar, com simplicidade e alegria, o mistério da encarnação do Filho de Deus. De fato, o Presépio é como um Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura. Ao mesmo tempo que contemplamos a representação do Natal, somos convidados a colocar-nos espiritualmente a caminho, atraídos pela humildade d’Aquele que Se fez homem a fim de Se encontrar com todo o homem, e a descobrir que nos ama tanto, que Se uniu a nós para podermos, também nós, unir-nos a Ele. Com esta Carta, quero apoiar a tradição bonita das nossas famílias prepararem o Presépio, nos dias que antecedem o Natal, e também o costume de o armarem nos lugares de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nos estabelecimentos prisionais, nas praças… Trata-se verdadeiramente de um exercício de imaginação criativa, que recorre aos mais variados materiais para produzir, em miniatura, obras-primas de beleza. Aprende-se em criança, quando o pai e a mãe, juntamente com os avós transmitem este gracioso costume, que encerra uma rica espiritualidade popular. Almejo que esta prática nunca desapareça; mais, espero que a mesma, onde porventura tenha caído em desuso, se possa redescobrir e revitalizar.

2. A origem do Presépio fica-se a saber antes de mais nada, a alguns pormenores do nascimento de Jesus em Belém, referidos no Evangelho. O evangelista Lucas limita-se a dizer que, tendo-se completado os dias de Maria dar à luz, «teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (2,7). Jesus é colocado numa manjedoura, que, em latim, se diz praesepium, donde vem a nossa palavra presépio. Ao entrar neste mundo, o Filho de Deus encontra lugar onde os animais vão comer. A palha torna-se a primeira enxerga para Aquele que Se há de revelar como «o pão vivo, o que desceu do céu» (Jo6, 51). Uma simbologia, que já Santo Agostinho, a par de outros Padres da Igreja, tinha entrevisto quando escreveu: «Deitado numa manjedoura, torna-Se nosso alimento»[1]. Na realidade, o Presépio inclui vários mistérios da vida de Jesus, fazendo-os aparecer familiares à nossa vida diária. Passemos agora à origem do Presépio tal como nós o entendemos. A mente leva-nos a Gréccio, na Valada de Rieti; aqui se deteve São Francisco, provavelmente quando vinha de Roma onde recebera do Papa Honório III, a aprovação da sua Regra em 29 de novembro de 1223. Aquelas grutas, depois da sua viagem à Terra Santa, faziam-lhe lembrar de modo particular a paisagem de Belém. E é possível que, em Roma, o «Poverello» de Assis tenha ficado encantado com os mosaicos, na Basílica de Santa Maria Maior, que representam a natividade de Jesus e se encontram perto do lugar onde, segundo uma antiga tradição, se conservam precisamente as tábuas da manjedoura. As Fontes Franciscanas narram, de forma detalhada, o que aconteceu em Gréccio. Quinze dias antes do Natal, Francisco chamou João, um homem daquela terra, para lhe pedir que o ajudasse a concretizar um desejo: «Quero representar o Menino nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo os incomodos que Ele padeceu pela falta das coisas necessárias a um recém-nascido, tendo sido reclinado na palha de uma manjedoura, entre o boi e o burro»[2]. Mal acabara de o ouvir, o fiel amigo foi preparar, no lugar designado, tudo o que era necessário segundo o desejo do Santo. No dia 25 de dezembro, chegaram a Gréccio muitos frades, vindos de vários lados, e também homens e mulheres das casas da região, trazendo flores e tochas para iluminar aquela noite santa. Francisco, ao chegar, encontrou a manjedoura com palha, o boi e o burro. À vista da representação do Natal, as pessoas lá reunidas manifestaram uma alegria indescritível, como nunca tinham sentido antes. Depois o sacerdote celebrou solenemente a Eucaristia sobre a manjedoura, mostrando também deste modo a ligação que existe entre a Encarnação do Filho de Deus e a Eucaristia. Em Gréccio, naquela ocasião, não havia figuras; o Presépio foi formado e vivido pelos que estavam presentes. [3]

Assim nasce a nossa tradição: todos à volta da gruta e repletos de alegria, sem qualquer distância entre o acontecimento que se realiza e as pessoas que participam no mistério. O primeiro biógrafo de São Francisco, Tomás de Celano, lembra que naquela noite, a simples e comovente representação se veio juntar o dom de uma visão maravilhosa: um dos presentes viu que jazia na manjedoura o próprio Menino Jesus. Daquele Presépio do Natal de 1223, «todos voltaram para suas casas cheios de inefável alegria» [4].

3. Com a simplicidade daquele sinal, São Francisco realizou uma grande obra de evangelização. O seu ensinamento penetrou no coração dos cristãos, permanecendo até aos nossos dias como uma forma genuína de repropor, com simplicidade, a beleza da nossa fé. Aliás, o próprio lugar onde se realizou o primeiro Presépio sugere e suscita estes sentimentos. Gréccio torna-se um refúgio para a alma que se esconde na rocha, deixando-se envolver pelo silêncio. Por que motivo suscita o Presépio tanto enlevo e nos comove? Antes de mais nada porque manifesta a ternura de Deus. Ele, o Criador do universo, abaixa-Se até à nossa pequenez. O dom da vida, sempre misterioso para nós, fascina-nos ainda mais ao vermos que, Aquele que nasceu de Maria é a fonte e o sustento de toda a vida. Em Jesus, o Pai deu-nos um irmão, que vem procurar-nos quando estamos desorientados e perdemos o rumo, e um amigo fiel, que está sempre ao nosso lado; deu-nos o seu Filho, que nos perdoa e levanta do pecado. Armar o Presépio em nossas casas ajuda-nos a reviver a história sucedida em Belém. Naturalmente os Evangelhos continuam a ser a fonte, que nos permite conhecer e meditar aquele acontecimento; mas, a sua representação no Presépio ajuda a imaginar as várias cenas, estimula os afetos, convida a sentir-nos envolvidos na história da salvação, contemporâneos daquele evento que se torna vivo e atual nos mais variados contextos históricos e culturais. De modo particular, desde a sua origem franciscana, o Presépio é um convite a «sentir», a «tocar» a pobreza que escolheu, para Si mesmo, o Filho de Deus na sua encarnação, tornando-se assim, implicitamente, um apelo para O seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento, que parte da manjedoura de Belém e leva até à Cruz, e um apelo ainda a encontra-Lo e servi-Lo, com misericórdia, nos irmãos e irmãs mais necessitados (cf. Mt 25, 31-46).

4. Gostaria agora de repassar os vários sinais do Presépio para apreendermos o significado que encerram. Em primeiro lugar, representamos o céu estrelado na escuridão e no silêncio da noite. Fazemo-lo não apenas para ser fiéis às narrações do Evangelho, mas também pelo significado que possui. Pensemos nas vezes sem conta que a noite envolve a nossa vida. Pois bem, mesmo em tais momentos, Deus não nos deixa sozinhos, mas faz-Se presente para dar resposta às questões decisivas sobre o sentido da nossa existência: Quem sou eu? Donde venho? Por que nasci neste tempo? Por que amo? Por que sofro? Por que hei de morrer? Foi para dar uma resposta a estas questões que Deus Se fez homem. A sua proximidade traz luz onde há escuridão, e ilumina a quantos atravessam as trevas do sofrimento (cf. Lc 1, 79). Merecem também uma referência as paisagens que fazem parte do Presépio; muitas vezes aparecem representadas as ruínas de casas e palácios antigos que, nalguns casos, substituem a gruta de Belém tornando-se a habitação da Sagrada Família. Parece que estas ruínas se inspiram na Legenda Áurea, do dominicano Jacopo de Varazze (século XIII), onde se refere a crença pagã segundo a qual o templo da Paz, em Roma, iria desabar quando desse à luz uma Virgem. Aquelas ruínas são sinais visíveis sobretudo da humanidade decaída, de tudo aquilo que cai em ruína, que se corrompe e definha. Este cenário diz que Jesus é a novidade no meio de um mundo velho, e veio para curar e reconstruir, para reconduzir a nossa vida e o mundo ao seu esplendor originário.

5. Uma grande emoção se deveria apoderar de nós, ao colocarmos no Presépio: as montanhas, os riachos, as ovelhas e os pastores! Pois assim lembramos, como preanunciaram os profetas, que toda a criação participa na festa da vinda do Messias. Os anjos e a estrela-cometa são o sinal de que também nós somos chamados a pôr-nos a caminho para ir até à gruta adorar o Senhor. «Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer» (Lc 2, 15): assim falam os pastores, depois do anúncio que os anjos lhes fizeram. É um ensinamento muito belo, que nos é dado na simplicidade da descrição. Ao contrário de tanta gente ocupada a fazer muitas outras coisas, os pastores tornam-se as primeiras testemunhas do essencial, isto é, da salvação que nos é oferecida. São os mais humildes e os mais pobres que sabem acolher o acontecimento da Encarnação.  Deus, que vem ao nosso encontro no Menino Jesus, os pastores respondem, pondo-se a caminho rumo a Ele, para um encontro de amor e de grata admiração. É precisamente este encontro entre Deus e os seus filhos, graças a Jesus, que dá vida à nossa religião e constitui a sua beleza singular, que transparece de modo particular no Presépio.

6. Nos nossos Presépios, costumamos colocar muitas figuras simbólicas. Em primeiro lugar, as de mendigos e pessoas que não conhecem outra abundância a não ser a do coração. Também estas figuras estão próximas do Menino Jesus de pleno direito, sem que ninguém possa expulsá-las ou afastá-las de um berço de tal modo improvisado que os pobres, ao seu redor, não destoam absolutamente. Antes, os pobres são os privilegiados deste mistério e, muitas vezes, aqueles que melhor conseguem reconhecer a presença de Deus no meio de nós. No Presépio, os pobres e os simples lembram-nos que Deus Se faz homem para aqueles que mais sentem a necessidade do seu amor e pedem a sua proximidade. Jesus, «manso e humilde de coração» (Mt 11, 29), nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial. Do Presépio surge, clara, a mensagem de que não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade. Como pano de fundo, aparece o palácio de Herodes, fechado, surdo ao jubiloso anúncio. Nascendo no Presépio, o próprio Deus dá início à única verdadeira revolução que dá esperança e dignidade aos deserdados, aos marginalizados: a revolução do amor, a revolução da ternura. Do Presépio, com meiga força, Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado. Muitas vezes, as crianças (mas os adultos também!) gostam de acrescentar, no Presépio, outras figuras que parecem não ter qualquer relação com as narrações do Evangelho. Contudo esta imaginação pretende expressar que, neste mundo novo inaugurado por Jesus, há espaço para tudo o que é humano e para toda a criatura. Do pastor ao ferreiro, do padeiro aos músicos, das mulheres com a bilha de água ao ombro às crianças que brincam… tudo isso representa a santidade do dia a dia, a alegria de realizar de modo extraordinário as coisas de todos os dias, quando Jesus partilha conosco a sua vida divina. 

7. A pouco e pouco, o Presépio leva-nos à gruta, onde encontramos as figuras de Maria e de José. Maria é uma mãe que contempla o seu Menino e O mostra a tantos e quantos vêm visitá-Lo. A sua figura faz pensar no grande mistério que envolveu esta jovem, quando Deus bateu à porta do seu coração imaculado. Ao anúncio do anjo que Lhe pedia para Se tornar a mãe de Deus, Maria responde com obediência plena e total. As suas palavras – «eis a serva do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38) – são, para todos nós, o testemunho do modo como abandonar-se, na fé, à vontade de Deus. Com aquele «sim», Maria tornava-Se mãe do Filho de Deus, sem perder – antes, graças a Ele, consagrando – a sua virgindade. N’Ela, vemos a Mãe de Deus que não guarda o seu Filho só para Si mesma, mas pede a todos que obedeçam à palavra d’Ele e a ponham em prática (cf. Jo 2, 5). Ao lado de Maria, em atitude de quem protege o Menino e sua mãe, está São José. Geralmente, é representado com o bordão na mão e, por vezes, também segurando um lampião. São José desempenha um papel muito importante na vida de Jesus e Maria. É o guardião que nunca se cansa de proteger a sua família. Quando Deus o avisar da ameaça de Herodes, não hesitará a pôr-se em viagem emigrando para o Egito (cf. Mt 2, 13-15). E depois, passado o perigo, reconduzirá a família para Nazaré, onde será o primeiro educador de Jesus, na sua infância e adolescência. José trazia no coração o grande mistério que envolvia Maria, sua esposa, e Jesus; homem justo que era, sempre se entregou à vontade de Deus e pô-la em prática.

8. O coração do Presépio começa a palpitar, quando colocamos lá, no Natal, a figura do Menino Jesus. Assim Se nos apresenta Deus, num menino, para fazer-Se acolher nos nossos braços. Naquela fraqueza e fragilidade, esconde o seu poder que tudo cria e transforma. Parece impossível, mas é assim: em Jesus, Deus foi criança e, nesta condição, quis revelar a grandeza do seu amor, que se manifesta num sorriso e nas suas mãos estendidas para quem quer que seja. O nascimento de uma criança suscita alegria e encanto, porque nos coloca perante o grande mistério da vida. Quando vemos brilhar os olhos dos jovens esposos diante do seu filho recém-nascido, compreendemos os sentimentos de Maria e José que, olhando o Menino Jesus, entreviam a presença de Deus na sua vida. «De fato, a vida manifestou-se» (1Jo 1,2): assim o apóstolo João resume o mistério da Encarnação. O Presépio faz-nos ver, faz-nos tocar este acontecimento único e extraordinário que mudou o curso da história e a partir do qual também se contam os anos, antes e depois do nascimento de Cristo. O modo de agir de Deus quase cria vertigens, pois parece impossível que Ele renuncie à sua glória para Se fazer homem como nós. Que surpresa ver Deus adotar os nossos próprios comportamentos: dorme, mama ao peito da mãe, chora e brinca, como todas as crianças. Como sempre, Deus gera perplexidade, é imprevisível, aparece continuamente fora dos nossos esquemas. Assim o Presépio, ao mesmo tempo que nos mostra Deus tal como entrou no mundo, desafia-nos a imaginar a nossa vida inserida na de Deus; convida a tornar-nos seus discípulos, se quisermos alcançar o sentido último da vida.

9. Quando se aproxima a festa da Epifania, colocam-se no Presépio as três figuras dos Reis Magos. Tendo observado a estrela, aqueles sábios e ricos senhores do Oriente puseram-se a caminho rumo a Belém para conhecer Jesus e oferecer-Lhe de presente ouro, incenso e mirra. Estes presentes têm também um significado alegórico: o ouro honra a realeza de Jesus; o incenso, a sua divindade; a mirra, a sua humanidade sagrada que experimentará a morte e a sepultura. Ao fixarmos esta cena no Presépio, somos chamados a refletir sobre a responsabilidade que cada cristão tem de ser evangelizador. Cada um de nós torna-se portador da Boa-Nova para as pessoas que encontra, testemunhando a alegria de ter conhecido Jesus e o seu amor; e o faz com ações concretas de misericórdia. Os Magos ensinam que se pode partir de muito longe para chegar a Cristo: são homens ricos, estrangeiros sábios, sedentos de infinito, que saem para uma viagem longa e perigosa e que os leva até Belém (cf. Mt 2,1-12). À vista do Menino Rei, invade-os uma grande alegria. Não se deixam escandalizar pela pobreza do ambiente; não hesitam em pôr-se de joelhos e adorá-Lo. Diante d’Ele compreendem que Deus, tal como regula com soberana sabedoria o curso dos astros, assim também guia o curso da história, derrubando os poderosos e exaltando os humildes. E de certeza, quando regressaram ao seu país, falaram deste encontro surpreendente com o Messias, inaugurando a viagem do Evangelho entre os gentios.

10. Diante do Presépio, a mente corre de bom grado aos tempos em que se era criança e se esperava, com impaciência, o tempo para começar a construí-lo. Estas recordações induzem-nos a tomar consciência sempre de novo do grande dom que nos foi feito, transmitindo-nos a fé; e ao mesmo tempo, fazem-nos sentir o dever e a alegria de comunicar a mesma experiência aos filhos e netos. Não é importante a forma como se arma o Presépio; pode ser sempre igual ou modificá-la cada ano. O que conta, é que fale à nossa vida. Por todo o lado e na forma que for, o Presépio narra o amor de Deus, o Deus que Se fez menino para nos dizer quão próximo está de cada ser humano, independentemente da condição em que este se encontre. Queridos irmãos e irmãs, o Presépio faz parte do suave e exigente processo de transmissão da fé. A partir da infância e, depois, em cada idade da vida, educa-nos para contemplar Jesus, sentir o amor de Deus por nós, sentir e acreditar que Deus está conosco e nós estamos com Ele, todos filhos e irmãos graças àquele Menino Filho de Deus e da Virgem Maria. E educa para sentir que nisto está a felicidade. Na escola de São Francisco, abramos o coração a esta graça simples, deixemos que do encanto nasça uma prece humilde: o nosso «obrigado» a Deus, que tudo quis partilhar conosco para nunca nos deixar sozinhos.
                                                                                      
Dado em Gréccio, no Santuário do Presépio, a 1 de dezembro de 2019, 
sétimo do meu pontificado
. 

Franciscus

[1] Santo Agostinho, Sermão 189, 4.
[2] Tomás de Celano, Vita Prima, 85: Fontes Franciscanas, 468.
[3] Cf. ibid., 85: o. c., 469.
[4] Ibid., 86: o. c., 470.

Afresco do Presépio em Greccio

FONTE: Vaticano.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

O QUE É A CATEQUESE NARRATIVA?



 Algumas pessoas acham que fazer Catequese Narrativa é contar histórias: a história do povo de Deus, a história de Jesus, a história da salvação. 
Então, em vez de apresentarem um conteúdo orgânico e sistemático, limitaram a catequese à contação de histórias. Contar histórias é bom, mas a catequese não deve se limitar a isso.


Alexandre Raimundo de Souza, sj

A palavra Catequese vem do termo grego catechesis (κατήχησις) – ação de instruir oralmente [1], catecheo (κατηχέω) – ressoar; instruir de viva voz [2]. Ensinar mediante a palavra.

Narrativa – ação, processo ou efeito de narrar; narração:

1 - Exposição de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados, reais ou imaginários, por meio de palavras ou de imagens.
2 - Conto, história, caso;
3 - O modo de narrar [3].

Se o termo catequese significa fazer ressoar a palavra do Cristo, a catequese narrativa quer ser o eco da voz do Cristo neste processo de iniciação à vida cristã. Ela narra o próprio Jesus que vem ao encontro do ser humano. Ele que se fez carne e veio morar entre nós. Portanto, a catequese narrativa é a narração dos mistérios da vida de Cristo, centro da iniciação à vida cristã. Ela é o anúncio da Boa Nova. Por esse motivo, muitos podem denominá-la como Catequese Querigmático-narrativa, porque narra a gênese da fé cristã.

Como exemplo temos o Credo, uma narrativa do símbolo da fé cristã. Ele é narração da criação do mundo e do homem em Cristo, da sua redenção e da sua transfiguração no Cristo morto e ressuscitado, pelo poder do Espírito Santo.

Mas, por que narrativa?

“Vinde e vede. E eles foram e viram onde Jesus estava morando e permaneceram com ele aquele dia.” (Jo 1,39). Este trecho aponta para o esforço da catequese narrativa. Colocar a pessoa em contato com as histórias de Jesus.

Ao narrar, o catequista apresenta Jesus Cristo para o catequizando. Não explica quem é. Ouvindo as histórias de Jesus Cristo, o próprio catequizando vai tendo uma compreensão da pessoa de Jesus Cristo.

Como exemplo para facilitar a compreensão do que estou dizendo, vejamos o que Inácio de Loyola sugere na contemplação. Entrar no texto, com o olhar da imaginação, ver o que Jesus faz. O que ele diz, como se relaciona com as pessoas. Depois, ver como você se vê dentro desta história. Se a pessoa se identifica com alguma personagem do texto. Como se sente. Ao ouvir a narrativa, o catequizando vai tecendo uma compreensão de quem é a pessoa de Jesus. Narrar não é explicar, mas apresentar elementos simbólicos, signos, sinais, para que o outro possa pensar e tirar suas próprias conclusões. Mas não se trata de um simples narrar, falar o que Jesus faz, mas colocar o catequizando em contato com o Cristo, para que ele possa ir com ele e conhecê-lo melhor.

O processo narrativo é muito interessante, pois desencadeia no catequizando um pensar o simbólico que lhe é apresentado. Quando ele reconta esta história, ela já é transformada, enriquecida pelo modo de recontar do catequizando.

E o catequista? Este também aprende coisas novas com os catequizandos. Pois, quando reconta apresenta coisas do seu modo de ver que muitas vezes, o catequista não tinha pensado antes.

Santo Inácio, nas anotações dos Exercícios Espirituais [4], diz que quem propõe ao outro o modo e a ordem de meditar e contemplar deve narrar fielmente a história. Da mesma forma deve prosseguir o catequista. Pois, assim como nos Exercícios Espirituais, também na catequese narrativa, “a pessoa que contempla, tomando o verdadeiro fundamento da história, reflete e raciocina por si mesma. Encontrando alguma coisa que a esclareça ou faça sentir mais a história, quer pelo seu próprio raciocínio, quer porque seu entendimento é iluminado pela virtude divina, tem maior gosto e fruto espiritual do que se quem dá os exercícios (ou a catequese) explicasse e ampliasse muito o sentido da história”.  E acrescenta Santo Inácio que: “não é o muito saber que sacia e satisfaz a pessoa (catequizando), mas o sentir e saborear as coisas internamente” [5].

CATEQUESE

Catequese mistagógica – introdução ao mistério celebrado. Ajudar o catequizando a compreender os signos do sacramento que ele celebrou junto à comunidade.

A catequese é parte principal do rito de iniciação cristã. Ser iniciado na palavra do Cristo que fala por meio da comunidade. Na comunidade a pessoa iniciada ouve o anúncio do Evangelho. Portanto, a catequese e as celebrações formam uma unidade no processo de iniciação a vida cristã. A pessoa é instruída para bem celebrar. E ao celebrar, é motivada a compreender o mistério celebrado (catequese mistagógica).

NARRAÇÃO – NARRAR, CONTAR HISTÓRIAS

Base – texto bíblico

Colocar a pessoa em contato com as histórias de Jesus. Que ela possa ver os mistérios da vida de Cristo.

Para o catequista - não se trata só de aprender a ser um bom contador de histórias, conhecer as técnicas para se narrar bem um texto bíblico. Trata-se de entrar dentro do texto. Saber interpretá-lo, buscar compreender o texto atualizando em sua vida de comunidade. A palavra é narrada pela e na comunidade.

MÉTODO

1- Narração do texto bíblico;
2- Regaste da narrativa – a narrativa é recontada pelos catequizandos;
3- Momento de reações – ouvir o que a narrativa dá a pensar;
5- Oficinas de artes – um meio criativo de aprofundar as histórias ouvidas. Realizam-se diversas oficinas onde os catequizandos expressam o que as narrativas provocaram neles;
6- Apresentação dos trabalhos das oficinas – uma forma de recontar as histórias e de partilhar com a comunidade a experiência que a catequese tem provocado na vida dos catequizandos.

Elenquei estes seis pontos que apontam para o modo como está organizada a catequese narrativa. Estes pontos dão uma ideia do método utilizado.
  • Não se trata de apresentar uma catequese doutrinal, mas experiencial.
  • Não se trata de explicar o que a narrativa bíblica quer dizer, mas, narrá-las, deixando que o próprio catequizando pense o que a narrativa provoca nele.
  • Ele ouve as palavras de Jesus Cristo, ele ouve os feitos que Jesus realizou.
  • A narração vai criando no catequizando um imaginário simbólico que o ajuda a pensar a sua própria realidade de fé. Na narrativa, ele se vê.
  • E ao recontar para os outros a narrativa que ouviu, ele se conta.
  • Ele participa da história, não é um mero ouvinte. O resgate da narrativa é um resgate de sua própria história.
  • O catequizando se refaz, narra sua própria identidade como pessoa que se relaciona com os outros no mundo.

Catequista – Ministério de instruir e introduzir a pessoa iniciada na palavra do Cristo. O Catequista possui o múnus de ensinar. Trata-se de um ministério exercido na comunidade. A pessoa é escolhida entre os membros da comunidade para servir os que querem fazer parte da comunidade.  

Cito um trecho do texto do Concílio Vaticano II sobre o Catecumenato e a iniciação cristã. “Mais do que uma simples exposição dos dogmas e dos preceitos, o catecumenato (catequese de adulto) deve ser uma iniciação a toda a vida cristã, um aproximar-se de Cristo, durante o tempo que for necessário. Sejam os catecúmenos iniciados convenientemente no mistério da salvação, na prática da vida evangélica, nas celebrações litúrgicas segundo os diversos tempos, na vida de fé, de culto e de amor, característica do povo de Deus” [6].

FORMAÇÃO DOS CATEQUISTAS [7]

Ao ser escolhido dentre os da comunidade para exercer o ministério, a pessoa é motivada a receber formação sobre o ser Igreja e principalmente, sobre a Bíblia. Ela é motivada a crescer na vida espiritual e aprofundar os conhecimentos bíblicos, base para uma boa catequese.

A participação nas celebrações litúrgicas da comunidade é muito importante. Pois para instruir outros na vida cristã, faz-se necessária uma compreensão da liturgia a partir da participação.

PARTICIPAÇÃO DOS PAIS

A participação dos pais se dá através da apresentação das oficinas de catequese narrativa. No dia da apresentação os pais, juntamente com a comunidade e os amigos, são convidados a assistir a partilha dos catequizandos em forma de apresentações das diversas oficinas de arte.

COMUNIDADE:

Lugar de relação – conhece o Cristo que se mostra na comunidade: “Vinde e vede”.
Lugar onde a palavra é narrada – na comunidade, a palavra é narrada pelo catequista.
Lugar de celebração – na comunidade, a palavra é celebrada. O catequizando é acolhido, instruído e iniciado na vida cristã.
Lugar de partilha – na comunidade, o catequizando partilha a sua experiência que faz com a palavra. Ele se mostra colaborador dos outros, colabora num processo de construir um mundo melhor... Ele vive a vida cristã.

BIBLIOGRAFIA:

AMBRÓSIO DE MILÃO. Explicação do símbolo sobre os sacramentos. São Paulo: Paulus, 1996.

CIRILO DE JERUSALÉM. Catequeses Mistagógicas. Petrópolis: Vozes, 1977.

FAUSTI, Silvano. Ricorda e Rocconta il Vangelo: La catechesi narrativa di Marco. Milano: Ancora, 1998.

TERTULIANO DE CARTAGO. O Sacramento do Batismo. Teologia pastoral do batismo segundo Tertuliano. Petrópolis: Vozes, 1981.

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II – Ad Gentes, nº 14; nº 17. “O catecumenato e a iniciação cristã. ” 1965.


[1] DICIONÁRIO ELETRÔNICO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUQUESA. Catequese.
[2] DICIONÁRIO DO GREGO DO NOVO TESTAMENTO. São Paulo: Paulus, 2003.
[3] Ibidem à nota 1.
[4] SANTO INÁCIO DE LOYOLA. Exercícios Espirituais. n. 2.
[5] Ibidem à nota 4.
[6] CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II – Ad Gentes, nº 14. “O catecumenato e a iniciação cristã”.
[7] CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Ad Gentes, n. 17. Sobre a formação dos catequistas.


FONTE:


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

E COMO É UM ENCONTRO DE CATEQUESE?


Vou contar falando de um tema interessante.

O assunto da semana era “Um Rito necessário para celebrar”, ou seja, a Celebração Eucarística ou “A Missa”. Os recursos normalmente são um tanto limitados. Em uma das paróquias onde trabalhei, tínhamos uma missa passo-a-passo montada com desenhos num Flipchart, que é um tipo de quadro num cavalete, usado geralmente para exposições didáticas ou apresentações, em que fica preso um bloco de papéis em tamanho grande, assim, quando o quadro está cheio, o apresentador simplesmente vira a folha (em inglês, flip). Mas aqui pude contar só com o folheto da missa mesmo. E, em uma hora de encontro, cheguei no... tcham, tcham, tcham... Ato Penitencial!

Lá encalhamos nós. Estamos no último ano de preparação para a primeira eucaristia. E o sacramento da reconciliação/confissão causa nas crianças mais receio e expectativa que a própria comunhão em si. E quando falei que o ato penitencial na missa é o momento do exame de consciência, do reconhecimento dos erros e do pedido de perdão; novamente nos transportamos para o assunto Confissão... “E se a gente esquecer algum pecado?”, “Posso escolher o padre?”, “Se eu faço ato penitencial não preciso confessar?”, “Quando eu tenho que me confessar de novo?”. E por aí afora.

Agora, a pergunta que mais me chocou foi a seguinte: “Tia, posso ser a primeira a confessar?” Aí eu perguntei por que... Não devia ter perguntado! “Porque tenho aula de pintura neste dia!”.

Mas nosso assunto “reconciliação” rendeu algumas reflexões muito boas. Fomos lembrando do que é pecado, dos dez mandamentos, do que pode o Ato penitencial nos libertar e do perdão de Deus. Num determinado momento, falávamos sobre os erros que as pessoas cometem, como no caso de um ladrão que entra na casa da gente. Aí eu falei que a gente precisa, antes de julgar essa pessoa como um “condenado a danação eterna”, ver em que realidade vive essa pessoa. Ela, provavelmente, não possui em sua vida os valores de um bom cristão. E quando eu disse que não podemos simplesmente “crucificá-la” como fizeram com Cristo, uma das minhas menininhas disse: “Porque crucificaram Jesus afinal? Ele não fez nada!”. Esse foi o gancho para um debate incrível com eles.

Pedi a cada um que tentasse responder essa pergunta. E vieram as mais diversas respostas: porque Judas o entregou, para salvar a humanidade, para que a gente não morresse, para redimir nossos pecados. Tudo uma “decoreba” sem fim. Só que pedi a eles que tentassem explicar, com o entendimento “deles”, como Jesus, com sua morte, redimiu nossos erros. Tá bom! Vocês vão dizer que exigi demais dos meus anjinhos de 10 anos. Mas não estamos exigindo que eles entendam toda a mistagogia da Eucaristia?

A coisa ficou complicada. Como alguém pode simplesmente morrer e salvar todo mundo? Porque nós continuamos morrendo do mesmo jeito... O que significou verdadeiramente a morte de Cristo? E que tipo de “morte” foi aquela?  E chegamos à chave do processo salvífico: A Ressurreição! Porque Jesus ressuscitou? Qual o sentido disse para nós, cristãos? Qual é o mistério envolvido em tudo isso?

Depois de muitos “micos”, respostas esdrúxulas, conjecturas, “adivinhações”, veio um comentário que começou a dar uma luz a nossa discussão: “Tia, as pessoas não se importavam umas com as outras, ninguém liga de salvar alguém...”. Quando eu disse que essa resposta era a ponta do fio que ia desfazer nossos nós, as crianças começaram então a entender o que aquele “Morreu para nos salvar...” significa.

Aí elas conseguiram ir ligando a “morte” de Cristo com a “morte” dos nossos pecados. A Ressurreição de Cristo com a “vida nova” proposta por Ele. E aí também foram chegando à simbologia da comunhão eucarística. No que significa verdadeiramente a “fração do pão”, a comunhão depois do arrependimento, do perdão, da reconciliação verdadeira com Deus. E isso, claro que não com essas palavras, foram eles mesmos que me disseram.

Durante a nossa uma hora e meia de encontro, bati a cabeça muitas vezes na parede (de brincadeirinha claro!). A cada resposta equivocada eu ia lá e dizia que eles ainda iam me matar. Mesmo falando de um assunto tão sério, eu permiti risadas e brincadeiras. E a cada resposta que me fazia “bater a cabeça na parede” eles buscavam com afinco a resposta correta ou o verdadeiro entendimento.

Ao final senti que aquelas oito cabecinhas pensam agora diferente sobre a reconciliação e a Eucaristia. Não sou ingênua a ponto de achar que “mudei a vida” deles. Mas tenho certeza absoluta que a expressão “Jesus, Salvador”, agora vai provocar neles uma reflexão mais demorada. E outra coisa, não podemos pensar que crianças de 10, 11 anos não tem maturidade suficiente para refletir sobre um assunto tão complexo. Hoje em dia elas vivem num mundo repleto de informações. Suas mentes processam essas informações a uma velocidade espantosa. Acho que nós, catequistas, é que somos meio “devagar”...

Pensem só: Eu precisei de um encontro de uma hora só para falar de uma pequena parte da Missa. Quantas partes tem a missa? Precisaria de todos os 32 encontros do ano só para conseguir explicar toda a simbologia envolvida numa celebração. Ou seja, só para ligar um pouco a Liturgia à catequese.

E tem gente que diz ainda que o tempo de catequese que temos, é suficiente. Isso porque a nossa, no regional Sul II, é de três anos para a Eucaristia e dois para a Crisma. E onde é UM ano para cada sacramento? Uma hora de encontro? Ou nem isso se considerarmos catequese de março a novembro. E é por isso que cada minuto precisa valer a pena!

Ângela Rocha
Catequistas em Formação


De CATEQUISTA para CATEQUISTA...


AVALIAÇÃO DE CONTEÚDO NA CATEQUESE: TEM ISSO?


Muitos catequistas se perguntam se devem fazer - e alguns fazem - “avaliação” de conteúdos na catequese. Penso que essa é uma ação que não cabe no processo de evangelização. Claro que usamos alguns recursos pedagógicos para trabalhar os temas, como por exemplo: dinâmicas, brincadeiras, canto, etc. Na verdade, a “dinâmica” mesmo, é uma técnica ou método didático para tornar os conteúdos mais atraentes e não uma "avaliação". Da mesma forma, algumas atividades para fixação de conteúdos podem se fazer necessárias, mas, nunca pensando em "corrigir" e apontar erros.

Estou na catequese de crianças há quase 15 anos. Normalmente fico com a mesma turma até receberem a primeira Eucaristia, ou seja, três anos, e nunca fiz qualquer tipo de avaliação, mesmo porque, se fizesse, ia chegar à conclusão de que elas não “aprenderam” nada. Nosso universo é muito mais de “experiências” do que aprender conteúdos ou reter “conhecimento”.

E essa é a questão na catequese: ela não existe para se "aprender” alguma coisa. E isso o documento Catequese renovada, já apontou em 1983. A Catequese é “iniciação à vida cristã”! E vida, leva à “vivência” cristã. E essa é uma das características apontadas pelo DNC (2006, item 13) é: “catequese como processo de iniciação à vida de fé: é o deslocamento de uma catequese simplesmente doutrinal para uma modelo mais experiencial (...)”

E até quando a gente vai teimar em conduzir um barco a remo se temos "motores" potentes hoje? Temos informação! Temos ajuda das ciências (pedagogia/psicologia). E elas nos ajudam a entender o universo da criança e como ela “aprende” e incorpora na sua vida as experiências que vai tendo. É simplesmente fora de propósito avaliar a “experiência” de fé de alguém, ainda mais de uma criança que está construindo seu mundo e suas crenças.

Como se avalia a fé de uma pessoa? Saber, “decor e salteado", os mandamentos e sacramentos, indica que essa pessoa se converteu? Em que grau isso vai proporcionar mudanças na vida do nosso catequizando? Não tem como a gente saber se o que estamos trabalhando na catequese hoje vai ou não mudar a vida de uma criança no futuro, portanto, vamos nos acalmar e pensar que catequese é a vida toda e não simplesmente aqueles três ou cinco anos da infância.

Ao invés de esquentar a cabeça pensando numa "avaliação", vá lá fora, em algum lugar que tenha uma grama bem gostosa para deitar, e fique uma meia hora olhando para o céu azul, brincando de “pintar” figuras nas nuvens. Olhando e se maravilhando com a criação do Altíssimo. Garanto a você que daqui uns 30 anos suas crianças vão "voltar ao passado" e pensar: "Como foi bom estar na catequese!".

O que se pode, e deve fazer sempre, é uma avaliação conjunta, pela equipe de catequese e pelo padre, sobre a eficácia e o alcance da evangelização que está sendo feita pela paróquia. Analisando isso, se está pondo a "prova" a catequese feita por todos nós.

Ângela Rocha – Catequista
Especialista em Catequética pela FAVI – Curitiba
Graduando em Teologia pela PUCPR - Curitiba

domingo, 1 de dezembro de 2019

A FORMAÇÃO DAS CRIANÇAS NA CATEQUESE


O QUE colocar na catequese de crianças???  Não é uma pergunta muito fácil de responder em se tratando de um país tão grande como o nosso, com tantas dioceses e comunidades, com tempos e etapas tão diferentes.

Vamos aqui tentar simplificar um pouco as coisas. Primeiro que nós temos as orientações do DGC (128 -130) e também do DNC (130), que estabelecem em linhas gerais os "pilares" da catequese. Você pode ver isso em nossas publicações antigas aqui e no blog:


Continuando...

Vejamos ainda, em que as nossas crianças devem ser "educadas" ou preparadas:

Primeiro a catequese deve EDUCAR para a ORAÇÃO. E esta oração deve ser PESSOAL, COMUNITÁRIA e LITÚRGICA.

Como PESSOAL: ela deve ensinar a falar com Deus, a ver em Deus um Pai, em Jesus um amigo. E aí, além da oração que cada um pode e deve fazer, vem as orações tradicionais: Santo Anjo, Ave Maria, Pai Nosso.

- Como COMUNITÁRIA: vem a oração com a comunidade: Profissão de fé, Via-Sacra, Adoração, Terço, momentos fortes do ano litúrgico (Quaresma, Natal), novenas, procissões.

Como LITÚRGICA: vem a participação na missa, nas celebrações eucarísticas e da Palavra.

Em segundo lugar temos o ACOLHIMENTO NA COMUNIDADE. Fazer com que a criança sinta que faz "parte" da comunidade orientando e incentivando a participação em: corais, grupos de canto, coroinhas, acólitos, Infância Missionária, etc.

Em terceiro lugar vem a CONSCIÊNCIA MISSIONÁRIA. Desde pequenos eles podem ser "discípulos", falar ao outro sobre sua fé, espalhar a Palavra e a boa nova. Para isso, o catequizando precisa entender a sua responsabilidade como batizado. Uma excelente catequese sobre o batismo é prioritária e precisa ser feita sempre, guardando as devidas idades e capacidade de discernimento.

Em quarto lugar temos a INICIAÇÃO AO CORRETO USO DA SAGRADA ESCRITURA. E daí vem o conhecer a Bíblia, manusear a Bíblia e entender a Palavra. Aqui uma leitura orante da Palavra, adaptada à compreensão das crianças e jovens é muito frutífera.

E tudo isso precisa ser feito cuidando da apresentação dos CONTEÚDOS, com adaptação da linguagem e simplificação de conceitos. No entanto, esta simplificação precisa de qualidade teológica. E para entender isso o catequista precisa de boa formação e criatividade. Uma mera infantilização em nome da "mentalidade infantil" é um erro teológico grave que pode causar uma crise de fé no futuro. Assim como o excesso de "regras" e "normas" pode levar a uma compreensão equivocada da religião.

A catequese, como ação básica da Igreja, estende-se pela vida afora. É preciso respeitar o "tempo" de cada um, principalmente das crianças, sem querer "despejar" nelas crianças todo o conteúdo doutrinário da nossa Igreja, que só um adulto é capaz de entender.

Felizmente temos excelentes publicações de itinerários e manuais catequéticos que trazem todas as dimensões necessárias à catequese, contidas em roteiros dinâmicos e bem elaborados. Resta usar com inteligência e criatividade sem desprezar nenhuma das seis dimensões: Bíblica, Orante, Litúrgica, Missionária, Comunitária e de conteúdos da fé.

Fiquemos atentos então para o que diz o item 233 do DNC:

"233. A catequese é um ato essencialmente eclesial. Não é uma ação particular. A Igreja se edifica a partir da pregação do Evangelho, da catequese e da liturgia, tendo como centro a celebração da Eucaristia. A catequese é um processo formativo, sistemático, progressivo e permanente de educação da fé. Promove a iniciação à vida comunitária, à liturgia e ao compromisso pessoal e com o Evangelho. Mas prossegue pela vida inteira, aprofundando essa opção e fazendo crescer no conhecimento, na participação e na ação."

Não queira, portanto, que a criança "aprenda" tudo de uma vez. Lembre-se que você a está "iniciando" na fé, junto com a iniciação que a família e a comunidade também proporcionam. Devagar com o andor. O sacramento nunca é o "fim", ele é um rito de passagem que marca etapas vencidas e o começo de uma nova vida a cada uma das nossas crianças que, fortalecidos, se tornarão os discípulos de amanhã.

Ângela Rocha
Catequistas em Formação


quinta-feira, 28 de novembro de 2019

MANUSCRITOS DE QUMRAN OU DO MAR MORTO


Você já ouviu falas dos Manuscritos do Mar Morto ou Manuscritos de Qumran?  Os Manuscritos do Mar Morto são uma coleção de centenas de textos e fragmentos de texto encontrados em cavernas de Qumran, no Mar Morto, no fim da década de 1940 e durante a década de 1950. Eles foram compilados e guardados por uma doutrina de judeus conhecida como Essênios, que viveram em Qumran do século II a.C. até aproximadamente o ano 70. Os Manuscritos do Mar Morto são de longe a versão mais antiga do texto bíblico, datando de mil anos antes do que o texto original da Bíblia Hebraica, usado pelos judeus atualmente.

Conheça mais sobre eles neste artigo de Frei Ildo Perondi.

MANUSCRITOS DE QUMRAN OU DO MAR MORTO

Frei Ildo Perondi (ildo.perondi@pucpr.br)

Na primavera de 1947 foram descobertos os primeiros Manuscritos de Qumran. Esta foi considerada a maior descoberta de manuscritos da época moderna e a mais importante na região da Terra Santa. É certo que foi uma riqueza, mas também provocou muitas polêmicas e certa confusão.

No segundo semestre de 2004, alguns destes manuscritos e objetos estiveram expostos no Rio de Janeiro e depois em São Paulo. Ultimamente encontramos livros, publicações e reportagens muito boas em jornais, revistas e sites na Internet, mas também encontramos algumas publicações sensacionalistas e livros best sellers (como os de M. Baigent e R. Leigh) ou o recente livro O Código Da Vinci, de Dan Brown, também sensacionalista. Este tipo de publicação mais confunde que informa. São obras de amadores, ignorando todo o trabalho feito e esquecendo a contribuição e o bem que estes Manuscritos nos trouxeram.

Neste artigo procuraremos apresentar de forma resumida o que são os Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto, a sua história, as polêmicas e a ajuda que trouxeram para a tradução e interpretação dos livros do Antigo Testamento, e também para uma melhor compreensão de muitos elementos que ajudaram na formação do Novo Testamento e do Cristianismo.


1. Qumran

É o nome do lugar onde foram encontrados os primeiros manuscritos numa gruta. Situa-se perto do Mar Morto, em Israel. Em seguida foram encontradas novas grutas com outros manuscritos e objetos, não só em Qumran, mas em toda a região do Mar Morto, e por isso hoje se fala dos Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto (ou do Deserto de Judá). Foram localizados também os restos dos edifícios onde se reunia a comunidade.

No ano 70 os romanos destruíram o Templo de Jerusalém, destruindo também a cidade e Israel deixou de existir como estado judaico (até 1948). Em seguida, os romanos conquistaram e destruíram a comunidade de Qumran e depois tomaram a fortaleza de Massada, localizada próximo a Qumran. E em 135 dC foi vencida a última resistência judaica.

Na época em que se descobriram os primeiros Manuscritos a região estava sob dominação inglesa, em seguida o território passou a fazer parte da Jordânia. Em 1948 Israel tornou-se um estado independente, porém somente em 1967, com a guerra dos seis dias, é que a região de Qumran e do Mar Morto passou a fazer parte do território de Israel.


2. O que são os Manuscritos?

Os manuscritos são escritos, em couro ou papiros, em sua maioria na língua hebraica, e alguns poucos em aramaico e grego, que foram encontrados nas 11 grutas. Alguns estavam em bom estado e outros estavam bastante deteriorados com o tempo e as condições onde foram guardados. Ao todo foram encontrados em torno de 800 documentos. Alguns estudiosos sugerem que alguns manuscritos sejam cópias de livros sagrados que os judeus do Templo esconderam ali, quando pressentiram que os romanos destruiriam Jerusalém. Alguns são apenas fragmentos (pedaços) de textos.

Em geral podemos dizer que os Manuscritos encontrados se classificam assim:

1)    Manuscritos bíblicos: estes textos são cópias fiéis que os habitantes da região de Qumran (escribas) transcreveram dos livros do Antigo Testamento (cerca de 225 manuscritos). O Livro dos Salmos é que foi encontrado maior número de cópias, o segundo é o Deuteronômio; o terceiro é Isaías (curiosamente são também estes os três livros mais citados pelo NT). Somente dos livros de Ester e Neemias não foi encontrada nenhuma cópia (veja relação no final).

2)    Apócrifos: Foram encontradas cópias de diversos livros que não entraram no cânon da Bíblia Hebraica, exemplo: apócrifo do Gênesis, de Henoc, de Noé, de Lamec, do Livro dos Jubileus, etc. É bom lembrar que na época em que foram escritos os Manuscritos a lista (cânon) dos livros do AT ainda não tinha sido concluída, embora já houvesse um certo consenso.

3)    Comentários bíblicos: Foram encontrados muitos textos que eram comentários e interpretações que a comunidade escreveu sobre os livros do AT. Estes comentários são importantes para percebermos como uma comunidade judaica daquele tempo interpretava os textos sagrados. Além disso encontramos muitas cópias de targums e midraxes rabínicos (estudos e interpretações).

4)    Livros da Comunidade: A comunidade também escreveu livros sobre a sua vida. São textos legais sobre a organização da comunidade, livros e textos litúrgicos, poéticos, apocalípticos, escatológicos, comerciais, etc. Os mais famosos são a Regra da Comunidade, o Rolo do Templo, o Documento de Damasco, a Carta Halákica, a Regra da Guerra, etc. Foi encontrado também um famoso Rolo de Cobre, um livro escrito em cobre. É um enigma, pois contém o mapa onde estão escondidos cerca de 60 tesouros (mais de 200 toneladas de ouro e prata), mas parece ser uma fantasia e jamais se encontrou qualquer coisa.

Além dos Manuscritos foi encontrada uma grande quantidade de outros materiais, importantes para o conhecimento da comunidade, como: cerâmicas, moedas, objetos de trabalho, vestuários, calçados, utensílios de cozinha e de trabalho, etc.

A data em que foram escritos os Manuscritos gerou muita controvérsia. A hipótese de que sejam uma farsa hoje está descartada. Os mesmos foram submetidos à análise com os métodos mais modernos, como o Carbono 14, e hoje cientificamente se pode afirmar que os mais antigos sejam do século III aC e os mais tardios não sejam depois do ano 68 dC.

3. Como foi a descoberta dos Manuscritos:

Na primavera de 1947 três beduínos da tribo Ta’amireh, que cuidavam do seu rebanho, na região de Qumran, se divertiam jogando pedras dentro das grutas. Um deles, porém, ouviu um som estranho. Voltou sozinho de madrugada e descobriu entre outras coisas, um vaso contendo manuscritos antigos. Os beduínos tentaram vendê-los, quase sem sucesso. (Outra versão indica que foi um beduíno que em busca de uma cabra perdida, que havia se refugiado em uma das grutas, fez as primeiras descobertas). O certo é que os beduínos chegaram a um senhor chamado Kando, que se converteu em intermediário para passar adiante os materiais descobertos. Como pensavam que eram escritos em siríaco, os beduínos foram encaminhados ao metropolita Mar Athanasius em Jerusalém, da Igreja Siro-jacobita (interessante que o porteiro vendo aqueles beduínos malvestidos quase colocou tudo a perder, mandando-os embora!). O metropolita comprou os manuscritos por cerca de 100 dólares (tempos depois os vendeu nos USA por 250.000 dólares).

O metropolita consultou Sukenik, um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. A partir disso, iniciou-se uma longa história em que a descoberta foi levada a sério, os beduínos conseguiram novos manuscritos, porém devido à situação de conflito na região, alguns desses manuscritos foram levados aos Estados Unidos. Iniciaram-se também as escavações e novas buscas na região, coordenadas por G. L. Harding (jordaniano) e pelo Pe. Roland de Vaux, da Escola Bíblica de Jerusalém, que escavaram e estudaram o local, fazendo estudo da comunidade e em várias expedições fizeram novas descobertas. Porém, os beduínos lembrando que seus avós contavam a história de um caçador que havia seguido uma lebre numa gruta, foram de novo os protagonistas e descobriam duas grutas (chamadas Gruta 4) onde foi encontrado o maior e melhor número de material (era o resto da Biblioteca central da comunidade de Qumran).


Foi construído em Jerusalém um local especial para colocar e proteger todo este material, o chamado “Santuário do Livro”, em forma da tampa de uma jarra, semelhante àquela em que foram encontrados os primeiros manuscritos. É onde hoje se encontra todo o material que está sob a custódia do Museu de Jerusalém, hoje administrado pelo Estado de Israel. Segundo J. Strugnell, cerca de quatro rolos devem estar desaparecidos ou se perderam para sempre.

4. A Comunidade de Qumran:

R. de Vaux e sua equipe tentaram estudar quem foi esta comunidade que viveu ali e produziu todo este material. Baseados nas escavações e também em historiadores da época como Plínio - o Velho, Fílon e Flavio Josefo, chegou-se à conclusão que a comunidade começou a ser povoada cerca de 700 anos antes de Cristo. Porém, somente uns 200 anos aC é que teve a organização como grupo essênico separado. Esta sofreu uma forte destruição com o terremoto de 31 aC e depois deve ter ressurgido, até ser destruída pelos romanos tendo seu fim por volta dos anos 100 dC. Alguns traços desta comunidade:

a)    Tinham uma forte vida comunitária, com normas para a admissão, formação e vivência interna. Seguiam uma disciplina rígida, rezavam e faziam penitência, tinham os bens praticamente em comum. Liam, interpretavam e davam muita importância às Escrituras. Esperavam o fim dos tempos, onde eles, os “filhos das luzes”, combateriam ao lado de Deus contra os “filhos das trevas”;

b)  A princípio parece que era uma comunidade constituída somente de homens, porém nos cemitérios foram descobertas ossadas também de mulheres (que podiam ser de visitantes ou familiares que vivam nas proximidades);
c)    Uma figura importante na comunidade era o Mestre da Justiça;
d) Tinham uma forte expectativa messiânica, porém eram dois os Messias esperados: um de linha mais política, seria o descendente de David e o segundo seria o Messias Sacerdote, descendente de Aarão;
e)    Seguiam um calendário de 364 dias.

O mais provável é que esta comunidade fosse um grupo de essênios, em uma comunidade de mais ou menos 200 pessoas. Alguns poucos sugerem que poderiam ser saduceus, zelotes, etc.

5. O Novo Testamento e Qumran

Surgiram várias hipóteses indicando que alguns dos personagens do NT seriam provenientes de Qumran ou tiveram contatos com esta comunidade. De fato, quem visita hoje Qumran na recepção vê um filme que informa sobre um personagem que esteve na comunidade, mas que foi expulso por não se adaptar à comunidade. Este personagem é identificado como o Profeta João Batista. E se lermos os evangelhos sinóticos vemos que os traços de João Batista (a radicalidade da sua proposta) têm muito a ver com a comunidade de Qumran. Outros sugerem que Tiago “irmão do Senhor” (cf. At 12,17; 15,13; Gl 1,19, etc.) pudesse ter ligações com a comunidade e Robert Eisenman até chegou a afirmar que este Tiago seria o Mestre da Justiça da comunidade. Nesses textos, segundo Eisenman, se falaria dos primeiros cristãos e em particular emergiria na sua plena luz o contraste que dividia a corrente de Tiago e aquela de Paulo. Encontramos também alguns que até chegaram a sugerir que o Apóstolo Paulo viesse desta Comunidade (é bom lembrar que o próprio Apóstolo Paulo várias vezes afirma seu passado como fariseu e nunca como essênio).

É interessante ver o paralelismo de certos termos com os escritos do NT. Um dos vocábulos que mais chamou a atenção é “os muitos” ou “maioria” que encontramos em At 15,12 e em 2Cor 2,5-6 e no relato da Eucaristia de Mt 26,27-28; Mc 14,23-24; Lc 22,20. Em Qumran encontramos o mesmo termo seja em relatos jurídicos e celebrativos.

Encontramos também outras expressões como: “justiça de Deus”, “pobres em espírito”, “obras da lei”, “Igreja /Assembleia de Deus”, “a sorte dos santos”, “o Senhor do céu e da terra”, etc. que não são encontrados nos textos rabínicos da época.

Textos como 2Ts 2,7 “o mistério da iniquidade”; o tema paulino da “justificação pela fé” (cf. Rm 3,21-24; Gl 2,16), a figura de Melquisedec lembrada na Carta aos Hebreus, a expressão “ele será chamado Filho de Deus” de Lc 1,35-37, entre outros, também são encontrados nos escritos Qumrânicos.

No entanto, se existem paralelos, encontramos também divergências. E. Stauffer enumera pelo menos oito pontos diferentes entre a comunidade de Qumran e as primeiras comunidades cristãs:
1) um clericalismo maior em Qumran;
2) mais ritualismo e cerimônias;
3) o preceito de amar os filhos da luz e odiar os filhos das trevas;
4) o militarismo e a preparação para a guerra “apocalíptica”;
5) a supervalorização do calendário;
6) o caráter esotérico;
7) a expectativa dos dois Messias;
8) o relacionamento diverso com o Templo, com os sacerdotes de Jerusalém e com a Lei.

6. Problemas com a publicação dos Manuscritos

No início a Equipe responsável pelo cuidado dos Manuscritos e pela sua divulgação e publicação era constituída de um pequeno grupo, chefiada pelo Pe. de Vaux, da Escola Bíblica de Jerusalém. Devemos recordar que muitos fatores atrapalharam o trabalho. Basta lembrar que o território passou por mudanças políticas importantes: Inglaterra, Jordânia e depois Israel. Houve dificuldade de recursos econômicos e mesmo humanos (pessoas capazes de traduzir e interpretar os documentos). Falta de recursos para a aquisição dos Manuscritos. Tudo isso fez com que, passados 40
anos das primeiras descobertas, muitos textos ainda não eram de conhecimento público. Surgiram suspeitas sobre as descobertas e sobre os seus conteúdos, falou-se até em conspiração. Mesmo entre os biblistas católicos e protestantes criou-se um mal-estar, tanto que J. Fitzmyer qualificou como um “escândalo” esta demora. Era inadmissível que documentos assim importantes ficassem em segredo, mas praticamente sem razão, e que não fossem de domínio público.

É certo que devido à falta de recursos, financeiros e humanos, a morte de R. de Vaux (que foi substituído por J. Strugnell – inglês, presbiteriano e depois católico – já velho), houve atraso nas traduções e publicações. Além disso, a Equipe queria publicar os textos com uma interpretação que fosse unânime entre os diversos membros. Tudo isso deu margem a inúmeras especulações.

Por isso na década de 90 houve uma mudança na Equipe, mais recursos e pessoas foram colocados à disposição e assim hoje todos os Manuscritos já foram divulgados, pelo menos através de fotografias. Hoje faltam somente uns poucos textos para serem publicados e traduzidos. Em português temos a excelente obra publicada pela Vozes: Textos de Qumran, de Florentino Garcia Martinez (tradução de Valmor da Silva), que traz praticamente todos os textos já publicados.

7. Questões e polêmicas com o Cristianismo

É certo que documentos dessa importância e que têm algo a dizer sobre a própria comunidade de Qumran, mas também sobre o judaísmo, o cristianismo e a própria cultura mundial, tendem a causar polêmicas e divergências.

Vejamos as principais:

a)    John Allegro: Entre os membros da equipe havia um pesquisador chamado John Allegro, inglês agnóstico. Devido a divergências com o grupo, ele se retirou fazendo fortes acusações dizendo que a equipe estava escondendo documentos da Gruta 4. Segundo ele, haviam manuscritos que poderiam prejudicar o Cristianismo e que havia uma conspiração do Vaticano para impedir a divulgação dos mesmos. Ele mesmo se pôs a publicar manuscritos por conta (e que depois se revelaram de péssima qualidade. Strugnell fez cem páginas de notas de correções ao seu livro). Allegro atribui as origens do Cristianismo aos efeitos de um alucinógeno. Quase na mesma direção, está a interpretação de Bárbara A. Thiering que vê João Batista como o Mestre da Justiça e Jesus como o Sacerdote Ímpio.

b)   Textos do NT em Qumran? J.O’Callaghan, jesuíta espanhol, insistiu nos anos 70 que havia descoberto partes de textos do NT em Qumran na gruta 7 (nesta gruta foram descobertos também textos escritos em grego). Segundo ele, seriam textos de Marcos, Atos dos Apóstolos, Romanos, 1Timóteo, Tiago e 2Pedro. Esta hipótese foi assumida também pelo alemão C. Thiede e fez sucesso, mas também logo foi contestada. Primeiro, porque a grafia não é tão igual; segundo porque a 2Pedro é colocada pela maioria dos biblistas como o último escrito do NT (portanto foi escrita depois da destruição de Qumran); terceiro porque não foi encontrado nenhum livro do NT, mas somente alguns fragmentos com textos parecidos; quarto porque o material é muito fragmentado e não permite nenhuma hipótese segura. O texto encontrado (7Q5) e que O’Callaghan supõe seja de Mc 6,52-53, e pode ser traduzido assim: “porque [não] haviam compreendido o fato dos pães estando o seu coração endurecido. Terminada a travessia chegaram ao território de Genesaré e chegaram à terra. Apenas desceram...” O texto não fala de Jesus e poderia muito bem se referir a um outro fato, com outro grupo, ainda que se pareça com o texto de Marcos. Por isso, hoje se exclui a possibilidade que qualquer uma das 11 grutas contenha algum texto da literatura cristã primitiva.

c)    Jesus era de origem essênia? Alguns autores procuram comparar as práticas, os costumes, as propostas entre Jesus e as primeiras comunidades cristãs com os essênios e descobrem muitas semelhanças. Por isso, afirmam que o cristianismo seria de origem essênia. Esta hipótese também é fraca, pois temos todos os textos do NT que comprovam a origem judaica de Jesus na Galileia. Embora com isso não se negue que alguns membros do grupo de Jesus possam ter tido ligações com a comunidade de Qumran (João Batista e outros).

d)    O caso do Messias assassinado ou que assassinou: Um dos textos que mais causou polêmicas foi 4Q285. O fragmento estava em certa parte corrompido e foi passível de várias interpretações, por isso não foi logo divulgado. Isso ajudou a aumentar as suspeitas. Os estudiosos sugerem várias traduções: “E esses assassinaram (ou: assassinarão) o príncipe da comunidade, o reben[to de Davi]”. O texto pode ser interpretado tanto no passado como no futuro. Outros preferem: “O príncipe da comunidade o matará (ou: o matou)”. Poderia também ser: “O príncipe da comunidade, o rebento de Davi, o matará” ou: “matará o ímpio”. Tudo isso traz um certo paralelo com o NT. Em 1991 R. Eisenman publicou um livro (à revelia do comitê e desrespeitando até os direitos autorais) onde diz revelar textos inéditos, um dos quais que falava da execução capital de um Messias e insiste que este Messias seja Jesus e que por isso o texto não havia sido tornado público. Poucos são os que aceitam esta hipótese, já que Eisenman optou pela tradução menos segura. Em 1992, ele publica outro livro juntamente com M. Wise. Porém, em seguida, Wise se retratou das interpretações feitas (cf. se pode ver na apresentação da edição italiana feita por E. Jucci). No entanto, estas publicações tiveram o mérito de tornar públicos muitos dos manuscritos que demoravam para serem publicados.

Sobre os pontos acima, é bom lembrar que eminentes estudiosos encarregados da publicação dos manuscritos sempre afirmaram que, embora se encontrem muitos paralelos, não existe nada nos textos que tenha ligação direta com o nascimento do Cristianismo na Galileia. Também em nenhum dos textos se encontra o nome de Jesus. Segundo F. G. Martinez, as últimas análises dos Manuscritos feitas com carbono 14, comprovam que os mesmos são anteriores ao cristianismo e, portanto, “excluem definitivamente as teorias de uma origem zelota ou judeu-cristã dos manuscritos”.

O que percebemos é que alguns (como O’Callaghan) gostariam de ver em Qumran e no Mar Morto indícios de Jesus e dos textos do Novo Testamento. Não precisamos disso para a credibilidade da nossa fé. Outros, em outro extremo, querem fazer “provocações” e sugerir que Jesus e o cristianismo tenham origens essênias. Nem isso está nos Manuscritos. Jesus continua sendo de origem judaica e o cristianismo continua com sua origem na Galileia. Embora seja verdade que o pensamento de Jesus algumas vezes se aproximasse das ideias dos essênios, porém a prática de Jesus e das primeiras comunidades se distanciava muito do extremismo deles.

8. A importância dos Manuscritos

Os manuscritos de Qumran e do Mar Morto foram, sem dúvida, a maior descoberta do milênio passado para a crítica literária e para o estudo da Bíblia, pois voltamos a ter acesso a cópias de textos bíblicos da época de Cristo e alguns até dos séculos II-III aC. Tanto a religião judaica, como o cristianismo, foram duas religiões muito perseguidas na história, por isso foi difícil preservar os originais ou cópias antigas dos textos sagrados. Para se ter uma ideia, antes desta descoberta, tínhamos a Bíblia Hebraica de Soncino do ano 1477; a Bíblia Rabínica (com massora, isto é, anotações que os escribas faziam nas margens das páginas copiadas) de 1518, já impressa com a descoberta de Gutenberg e a obra de Jacob Ben Chayyion, o famoso textus recceptus de 1524/1525. Em 1929 surgiu a BHS, a Bíblia Hebraica de Kittel e P. Kahle, baseada no Código de Leningrado de 1008. Então, estes manuscritos de Qumran e do Mar Morto nos forneceram cópias com cerca de mil anos mais antigas dos livros do AT. Tudo isso ajudou a corrigir e melhorar as traduções da Bíblia.

Para o mundo judaico, além da contribuição bíblica, a descoberta abriu o caminho para o acesso a manuscritos e materiais de dois mil anos, bem como as escavações e o conhecimento de uma comunidade de um grupo judaico (os essênios), que contribuem também para entender melhor a história dos últimos anos da existência do estado de Israel (antes de ser destruído pelos romanos). E proporcionou um grande conhecimento da literatura hebraica pré-cristã.

Para o cristianismo, a maior importância está nas descobertas bíblicas, mas também em poder conhecer melhor o ambiente, as estruturas, ideias do mundo judaico da época de Jesus e de uma comunidade que tinha pontos em comum e pontos divergentes com o cristianismo.

Porém, com J. C. Vanderkam podemos afirmar: “Sustentando que o Jesus histórico era o Messias, no itinerário que conduziu à época escatológica, os cristãos se colocaram muito além em comparação com os essênios de Qumran, os quais esperavam que os seus Messias viriam em um futuro imediato”.

Concluindo, podemos dizer que tinha razão a afirmação do exegeta bíblico W. F. Albright quando soube da descoberta dos Manuscritos: “Parabéns pela maior descoberta de manuscritos dos tempos modernos”. E em outra ocasião: “É fácil de perceber que esta nova descoberta revolucionará os estudos neotestamentários e logo renderá superados os manuais que tratam do ambiente do NT e da crítica textual e da interpretação do AT”.


Relação dos Manuscritos bíblicos encontrados:

Gênesis 15 Salmos 36
Êxodo 17 Provérbios 2
Levítico 13 Jó 4
Números 8 Cântico dos Cânticos 4
Deuteronômio 29 Rute 4
Josué 2 Lamentações 4
Juízes 3 Eclesiastes 3
1-2 Samuel 4 Ester 0
1-2 Reis 3 Daniel 8
Isaías 21 Esdras 1
Jeremias 6 Neemias 0
Ezequiel 6 1-2 Crônicas 1
12 Profetas 8

Também foram encontradas cópias de alguns livros deuterocanônicos que não vieram a fazer parte da Bíblia Hebraica: Tobias (4 cópias em aramaico e uma em hebraico); Eclesiástico (alguns fragmentos); Carta de Jeremias = Baruc 6 (foi encontrada uma cópia em grego); Salmo 151, que se encontra na LXX (uma cópia).

Bibliografia

DONNINI, D. Cristo e Qumran. La chiave di un rapporto controverso. In: http://www.etanali.it/mar_morto/files/qumran.htm

EISENMAN, R. – WISE, M. Manoscritti segreti di Qumran. Edizione italiana a cura di Elio Jucci (Piemme, Asti 21994).

JUCCI, E. I manoscritti ebraici di Qumran: A che punto siamo? in: http://dobc.unipv.it/SETH/achepunt.htm

JUCCI, E. Qumran. A cinquant’anni dalla ricorrenza della scoperta dei manoscritti, in: http://dobc.unipv.it/SETH/qumran50.htm

MACKENZIE, J. L. Dicionário Bíblico. Verbete: “Qumran”. (Paulus, São Paulo 72002).

MARTINEZ, F. G. Textos de Qumran. Tradução de Valmor da Silva. (Vozes, Petrópolis 1995).

MOLINA, C. As relíquias que o Mar Morto conservou por mais de 2 mil anos. (O Estado de S. Paulo, 25/11/2004, Caderno 2, pg. D3).

VANDERKAM, J. C. Manoscritti del Mar Morto. Il dibattito recente oltre le polemiche.  (Città Nuova, Roma 21997).

OBS. Para a elaboração deste texto utilizei muito o livro de James C. Vanderkam, que é atualmente membro da Equipe responsável pela tradução e divulgação dos Manuscritos. Além disso, ele mesmo no seu livro – parodiando Lucas – afirma que fez uma boa pesquisa para poder informar melhor todos os fatos ocorridos desde a descoberta dos manuscritos até os dias atuais. Esperamos que o livro seja publicado no Brasil.