segunda-feira, 29 de maio de 2017

ADOTAR LIVRO PARA O CATEQUIZANDO OU NÃO?

Muitas comunidades paroquiais, usam um livro ou manual como subsídio para a catequese. E as coleções mais conhecidas tem o “Livro do catequista” e o “Livro do Catequizando”. Mais recentemente algumas coleções apresentam o “Livro da Família, ainda não tão conhecido e utilizado. Há quem adote os livros “Do Catequista” e “Do Catequizando”, há quem só adote o do catequista, há quem não adote nenhum, há quem use os livros somente como subsídio pessoal, enfim...

Vamos falar um pouco sobre o Manual de Catequese!

Quem dera a resposta fosse tão simples quanto a pergunta! "Adotar livro para o catequizando ou não?" é uma coisa difícil de responder sem examinar o contexto e a realidade catequética paroquial.

Adotar um manual como subsídio para os encontros, depende de inúmeros fatores: A começar pela realidade da paróquia/comunidade e pela formação do catequista; depois vem as fases ou etapas em que os catequizandos estão, suas idades, sua capacidade cognitiva. Depois vem o "Qual livro usar?"; em seguida: “A paróquia tem um Itinerário? ” e ainda "O catequista consegue trabalhar sem o livro?"... E por aí vai.

Só não concordo com uma colocação que já li em várias posições que defendem o não uso de um manual: "Que no processo de catequese catecumenal o livro não tem razão de ser". GENTE! Cuidado. Será que vocês sabem mesmo como é o processo de catequese catecumenal? Será que IVC está sendo implantada em sua comunidade? Vocês já ouviram falar no “Didaqué”? É um LIVRO de CATEQUESE dos primeiros séculos da Igreja onde se vivia a catequese catecumenal em sua plenitude. Não é porque a catequese é vivencial, experiencial e bíblica que ela deixa de ter conteúdo doutrinal e conteúdo da Tradição de fé da nossa Igreja.

Assim como a Bíblia e a mensagem Cristã, o conteúdo doutrinal também é base da nossa catequese, os dois juntos formam a base do Cristão. Um bom itinerário também envolve:  liturgia, orações, atividades educativas, comunitárias e missionárias. O que não pode acontecer é o catequista se fixar exclusivamente no conteúdo de um livrinho, sem expandir a catequese para seu aspecto vivencial, sem dar “vida” aos ensinamentos bíblicos.

E também é bom lembrar que as crianças que estão na faixa etária dos 7 aos 11 anos, têm um aprendizado mais visual. Esta crianças precisam de imagens para aprender (figuras, pintura, colagem), exercícios de repetição (orações); o ensino é mais didático, mais lúdico. É bom ter material de apoio. Nas primeiras etapas da catequese é complicado não utilizar algum material didático/pedagógico devido às características cognitivas da idade.

Alguns catequistas podem entender que o livro sugere uma "catequese escolar”. Não concordo com este posicionamento. De forma alguma o livro sugere uma catequese escolar ... a não ser que o catequista faça uma "catequese escolar"! Os livros proporcionam atividades complementares ao encontro, além de gerarem uma "economia" tanto ao catequista, que muitas vezes acaba reproduzindo material impresso com seus próprios recursos; quanto para a paróquia, que não terá que fotocopiar material para os catequistas. A questão é SABER USAR o livro. Ele não engessa se o catequista não se “imobilizar”, buscar complementos para enriquecer os temas, criar novas possibilidades de “ensinar” o conteúdo de fé.

É muito mais preocupante quando me dizem que estão "fazendo" material por si mesmos do que quando usam algum subsídio. Os subsídios, por mais que às vezes não contemplem a realidade da comunidade, são feitos por profissionais com conhecimento de catequética, pedagogia, psicologia, didática, etc.; que utilizam o apoio das ciências para elaborar os livros. O livro não é uma "amarra", muito pelo contrário, traz os conteúdos a serem trabalhados de forma esquematizada, contínua, e é uma grande ajuda ao catequista. Além de trazer os temas, ele dá pistas do que trabalhar e sugere formas de abordagem. Quase todos os catequistas que usam os manuais, procuram enriquecer seus encontros com atividades lúdicas, além daquelas descritas, assim como podem ter o discernimento de usar ou não determinada atividade.

E me preocupa também, quando leio que o método usado é o da "IVC" ou o da "Leitura Orante". A IVC é um "processo" muito mais amplo do que um método.

Da mesma forma, a “Leitura Orante” é um método de LEITURA DA BÍBLIA, considerando-a nos seus aspectos de oração e meditação, e não um método “catequético”. Mesmo porque, há que se considerar o fato de que a leitura orante com as crianças precisa ser trabalhada de forma diversa da qual se trabalha com adultos. Você pode e deve usar a leitura orante, mas, dentro da compreensão dos seus interlocutores, dentro dos “momentos orantes” do seu encontro. Não se pode extinguir a doutrina da catequese. O CIC é o "depósito da nossa fé", a interpretação e a compreensão da doutrina católica. Que não deve ser considerada foco principal, mas, necessária. Então, além da Bíblia, da leitura orante, a catequese precisa estar integrada com a doutrina e a tradição da Igreja Católica.

Só lembrando uma passagem do DNC:

"A catequese não é uma supérflua introdução na fé, um verniz ou um cursinho de admissão à Igreja. É um processo exigente, um itinerário prolongado de preparação e compreensão vital, de acolhimento dos grandes segredos da fé (mistérios), da vida nova revelada em Cristo Jesus e celebrada na liturgia (...); implica um longo processo vital de introdução dos cristãos ainda não plenamente iniciados, seja qual for a sua idade, nos diversos aspectos essenciais da fé cristã. Trata, de forma sistemática, de um todo elementar e coerente, que forneça base sólida para a caminhada ‘rumo à maturidade em Cristo’. (CNBB, Diretório Nacional de Catequese, nº. 37 e 38).

Será que um "livro" de catequese não é necessário para que possamos dar esta dimensão à catequese? O manual ou livro pode trazer esta dimensão, sem comprometimento do conhecimento necessário ao catequista e do tempo do encontro.

Mas, tem o livro do catequista! Não precisa do Livro do Catequizando. Só que estão abolindo este e substituindo-o por cadernos, anotações, diários, portfólios, ou seja lá qual for o nome. Qual a diferença? Aliás, que tempo precioso do nosso encontro semanal se perde se as crianças precisam "copiar" alguma coisa!

Mesmo o portfólio, que é um recurso didático para o catequizando registrar suas experiências fora da catequese, fazendo a interação fé e vida, lembra as "aulas" da escola. Trabalho há mais de 10 anos com as 3 primeiras fases da catequese (8 a 12 anos), e acredito que a prática do portfólio pode ser usada, dependendo das características da turma. Tive mais resultados indiferentes do que positivos. A maioria das crianças não "replica" o encontro com a família e não faz as atividades. Isso porque, na maioria dos casos, a prática religiosa não faz parte de suas vidas cotidianas. Uma prática mais eficaz para estabelecer a conexão fé e vida é a "contação de histórias". Tanto da parte do catequista, que trará seu exemplo de vida, quanto da parte dos catequizandos. Eles sempre vêm ao encontro com a "bagagem" do que viveram ao longo da semana. As crianças amam "contar" suas histórias de vida: o que fizeram, o que aconteceu de diferente. Isso nos dá "gancho" para muita interação com a fé.

Sobre a IVC e sua interação com o manual

A catequese de Iniciação à Vida Cristã, vital hoje para a Igreja, visa uma formação integral do cristão. É um processo onde está presente a dimensão celebrativa e litúrgica da fé; a conversão para atitudes e comportamentos cristãos; e o ensino da doutrina. 

A inspiração catecumenal remonta ao início da Igreja e leva a uma catequese em quatro tempos: o pré-catecumenato (anúncio e adesão), o catecumenato (catequese - ensino sistematizado dos conteúdos), o tempo da purificação e iluminação (preparação aos sacramentos), a celebração dos sacramentos da iniciação (Batismo, Confirmação e Eucaristia), o tempo da mistagogia (inserção na comunidade). São tempos pré-definidos que, se não acontecem nas comunidades, não está se fazendo ainda a IVC catecumenal. Inserir ritos e celebrações de entrega de símbolos na catequese, NÃO É PRATICAR A IVC. A comunidade e todo processo catequético precisa estar permeado pelas práticas de iniciação catecumenal. Precisamos ir mais a fundo neste assunto numa outra hora.

Como adaptar o manual à realidade da sua comunidade

Pessoalmente, por ter experiência e formação catequética, sou capaz de trabalhar a catequese sem um livro, mas, da 1ª a 3ª Etapa, utilizo os subsídios sugeridos pela Arquidiocese, tanto do catequista quanto do catequizando. Nem sempre utilizo as atividades do livrinho na quando na 3ª Etapa. Nesta, construo o roteiro baseado no tema do livro, enriqueço o encontro com outras atividades e outras abordagens, mas, os catequizandos o tem para saber "por onde andamos". O fato de haver um livro economiza bastante meu tempo e o tempo do encontro, pois preciso de atividades pedagógicas com as crianças. 

Já na catequese crismal, considero dispensável o livro do catequizando, utilizo somente do catequista. Isso porque o adolescente pode chegar ao encontro só com o celular da mão e deve ser sempre bem-vindo. Nesta fase, na catequese de crisma, a psicopedagogia é outra e os conteúdos são "reforço" da catequese de eucaristia. O livro é opcional e muitas vezes os crismandos nem o querem.

Uma coisa que se faz URGENTE, é a CRIAÇÃO DE ITINERÁRIOS para a catequese da comunidade/paróquia. E ITINERÁRIO não é só PLANEJAMENTO com datas e temas de encontros a serem trabalhados durante o ano. É muito mais complexo que isso. LEMBRANDO: Um itinerário PAROQUIAL, precisa de orientações DIOCESANA para ser construído. Os temas a serem trabalhados na catequese não são assuntos a ser "inventados" pelos catequistas, precisam obedecer às instruções do Bispo e sua equipe.

Assim, quando a equipe de catequese senta para fazer um itinerário, o apoio de um subsídio/ manual é fundamental. No livrinho estão os encontros com os temas sugeridos e atividades pedagógicas. A equipe pode analisar quais são os encontros necessários, adaptar ao tempo litúrgico, inserir as celebrações, a dimensão orante, comunitária e missionária.

Com o itinerário, o catequista terá um "mapa" do caminho a percorrer. E o livrinho/manual, será somente uma "garrafinha de água" que ele vai beber quando tiver sede, e não o "carro que ele vai subir" quando não quer caminhar. Só entregar os livros do Catequista e do Catequizando nas mãos do catequista não resolve. Vamos sempre continuar discutindo aqui se a gente "usa ou não usa", se o catequista consegue ou não fazer o encontro sem ele. Então, pelo lado "formativo" que o catequista costuma ter na nossa Igreja antes de assumir uma turma (quase nenhum!); pela carência de recursos materiais disponibilizados pela paróquia (o catequista paga muita coisa do próprio bolso); pela falta de planejamento e discussão de um itinerário; pelo "disfarce" de IVC que se está dando à catequese... Eu sou a favor de se usar livro para o catequista e para o catequizando.

Este meu “sou favorável” ao uso de livro/manual de catequese, se prende, sobretudo, à realidade da comunidade/paróquia onde o catequista está inserido. Hoje há uma confusão miserável em tudo: leitura orante na catequese, IVC, itinerário, planejamento, uso de dinâmicas, tempo litúrgico... E o catequista se pergunta aí no meio: como usar tudo isso, quando, onde? O que faço? O que coloco no encontro? Qual método é adequado?

Aí vem outra questão fundamental da nossa catequese:

Qual a formação de nossos catequistas? Como se organizam as dioceses e paróquias a nível de formação?

O grupo de catequistas de uma paróquia/comunidade é continuamente renovado. Além da rotatividade de pessoas, há um percentual muito grande de jovens, o que é muito bom, mas falta um pouco de “experiência” e prática. De outro lado, há catequistas de longa caminhada, alguns aceitam se renovar constantemente, já outros permanecem na catequese do passado e rejeitam as formações. A carência de formação é sempre constante, repete-se os princípios básicos e os temas de formação quase sempre voltam. Avança-se muito pouco numa formação continuada.

Uma amiga formadora me disse que é uma tarefa árdua formar o grande contingente de catequistas, arejar cabeças, ler documentos, estimular aprendizado novo... E eu concordo com ela. Não é nada fácil, começar sempre da base: voltar sempre ao “Ser, saber, saber fazer”, e ter olhos renovados para cada coisa. A maioria dos nossos catequistas sequer chega ao conhecimento básico para criar um roteiro de encontro sozinhos. Como então, nos vemos nesta questão de não usar um manual?

Para não usar um livro ou manual, o próprio catequista precisa "ser" um livro. Precisa de uma bagagem e de conhecimentos que muitas vezes não possui. Então,  a pergunta que fica é: Estamos proporcionando formação para isso?

Ângela Rocha

Equipe Catequistas em Formação


Obs.: Que fique claro que as opiniões deste artigo são pessoais, da autora. Não tenho o objetivo de privilegiar ou criticar este ou aquele livro/manual. Cabe às comissões paroquiais e aos catequistas analisar se o uso deste ou daquele material, está de acordo com o contexto em que sua comunidade está inserida, sempre seguindo as orientações de sua diocese. Por mais que se tenha "adotado" um manual específico, o uso e a consulta a vários manuais, longe de prejudicar à catequese, ajuda muito a prática do catequista.


SEGUIDORES DO CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO