sábado, 13 de setembro de 2014

EVANGELIZAÇÃO E CATEQUESE




Temos confundido, e muito, o evangelizar com o catequizar. Há quem acredite - e não está longe da verdade - que ambos os verbos levam a mesma coisa: anunciar a Boa Nova. No entanto, evangelizar é um processo bem mais amplo que o simples catequizar (como se catequizar fosse simples!).
Então o que pode ser conceituado como evangelização, se complementa na junção de duas palavras:
Evangelizar + ação, o que leva ao EVANGELISMO.


“E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.”
Mc 16, 15.

Este é o “mandato” de Jesus Cristo aos seus discípulos... que se convertem também em missionários ao “sair”, “ir” por “todo mundo”, levando a Boa Nova a todos os povos..
Então podemos resumir a EVANGELIZAÇÃO como o processo pelo qual a Igreja, o povo de Deus, movido pelo Espírito Santo, empreende as seguintes ações:
- Anuncia ao mundo o Evangelho do Reino (Querigma);
- Dá testemunho de uma nova maneira de ser e de viver que o Evangelho inaugura (Testemunho); 
- Educa na fé os que se convertem a ele (catequese);
- Celebra na comunidade dos que creem, a presença de Jesus e o dom do Espírito Santo (Liturgia); 
- Impregna e transforma com força total toda a vida do crente (Seguimento, discipulado, missionariedade).
Creio eu que, da maneira como se dá a nossa catequese hoje, seria muita pretensão nossa, nos dizermos “evangelizadores”, por tudo que essa concepção acarreta.
Pode-se pensar que o evangelizador não precisa, necessariamente, promover todas as ações que fazem parte do "evangelizar". No entanto, ele precisa ser capaz do anúncio, ser catequista e, consequentemente, ser um "fazedor" de discípulos missionários. Mas, uma pessoa só não tem que necessariamente ser "o" evangelizador. A Igreja como um todo é que precisa se evangelizadora.
Segundo nosso Diretório Nacional de Catequese (item 33), a dinâmica do processo de evangelização é definida por momentos, três fases ou etapas sucessivas:
1 - a ação missionária com aqueles que ainda não creem (Anúncio da Boa Nova da Salvação);
2 - ação catequizadora, com os recém-convertidos (Catequese);
3 - e ação pastoral (Seguimento), com os fiéis na comunidade cristã.

Mas, o que temos observado na ação pastoral catequética?

Primeiro que há muito tempo o querigma ou primeiro anúncio, não está mais fundamentado na família que, considerada “cristã” na sua essência, tem sido “descuidada” dessa cristandade. Crianças são levadas à Igreja para receber os primeiros ensinamentos da fé: doutrina, fundamentos da Igreja; sem que tenham, em família, as noções do que esta “adesão” a Cristo acarreta.
Depois que a catequese é vista mais como um “cursinho” de doutrina ou introdução ao Catecismo da Igreja Católica, na verdade, um meio de se receber os sacramentos de iniciação complementares ao batismo. Por aí se vê que a terceira fase da evangelização fica totalmente comprometida, já que não há uma adesão cristã madura e nem o necessário entendimento dos preceitos da Igreja Católica que, entre muitos, tem a celebração da LITURGIA como condição/ação inerente ao “evangelizado”. Afinal, é a celebração da fé, o encontro do “povo”.
E por todos estes motivos: falta de um querigma realmente de “encontro” com Jesus; uma catequese excessivamente doutrinária e sacramental; falta de vivência litúrgica/celebrativa; falta de vivência comunitária e, assim, um comprometimento superficial com o discipulado...  Não vemos a terceira fase da evangelização acontecer, ou seja, um seguimento ao Evangelho e uma adesão à Igreja, de acordo com o objetivo da Evangelização... “ide e anunciai”.

E, evangelizar, é dever de todo cristão, não só do catequista. Aliás, ao catequista cabe a educação depois da conversão - ou dos fiéis engajados em alguma pastoral – pastoral esse que muitas vezes é apenas de “serviço” e não de anúncio. Todo cristão, sempre e em qualquer lugar, é chamado para ser testemunha da fé e transmissor do Evangelho que lhe foi confiado a fim de que o viva e o anuncie. Infelizmente ainda temos a mentalidade de que vivemos na era da cristandade e todos nascem cristãos. É preciso lembrar sempre que o cristão “se forma” e não “nasce” assim. E lembrar também que, muitos, estão se formando em outras denominações religiosas que não a católica.
Resumindo a Evangelização, como esta DEVERIA SER, temos que:
O catequista deve receber em seu grupo, para seus encontros, pessoas devidamente “encantadas” com a Boa Nova, ávidas a conhecer mais de Cristo, da Palavra e da Igreja por Ele fundada. Na sequencia, esse catequista deve “entregar” essa mesma pessoa à comunidade, como um novo discípulo missionário de Cristo, disposto ao seguimento e ao anúncio, sempre e em todo lugar, da Boa Nova que recebeu. Os sacramentos, neste processo, são apenas ritos de passagem e sinais da graça, não “objetivo/fim” da catequese. E a liturgia (ofício para o povo), a celebração comunitária da “presença” de Cristo e do Espírito Santo em suas vidas, não uma obrigatoriedade, mas uma necessidade em suas vidas.
E COMO ELA É: uma série de normas e obrigações para receber sacramento, que no final das contas, ninguém cumpre, recebe o sacramento do mesmo jeito, sem nem saber para que serve! Pensa-se que é pra poder casar na Igreja depois... Mal sabem que, em muitas paróquias, pode casar, crismar, fazer primeira comunhão e batizado tudo no mesmo dia ou no máximo em seis meses, sem muitas exigências, exceto, uma catequese mínima, fundamentada na leitura do CIC e olha lá.
Vocês já viram alguém "reprovar" na catequese e não receber os sacramentos porque faltou a mais que cinco encontros e não foi a missa todos os domingos? Só se for um completo ausente...
Feitas todas essas reflexões, gostaria que nos perguntássemos se...
Em algum momento de tudo isso, em qualquer ato que nos empenhemos para fazer com que a evangelização aconteça, é preciso qualquer OBRIGAÇÃO por parte das pessoas que estamos tentando trazer para uma vida de fé? Não, ninguém é obrigado a nada. E ninguém sabe, também, o “custo” da Evangelização.
E vem outras perguntas:
- A catequese em seus encontros, precisa de “chamada”, folha de presença e “número máximo de faltas”?
- Posso fazer catequese sem anúncio, sem conversão anterior, em 32 encontros anuais?
- Podemos ter um grupo de 20, 30, 40 pessoas para conduzir, num encontro de 90 minutos semanais, num calendário civil semelhante ao escolar, com o objetivo de catequizá-las?
- Posso “obrigar” um adulto (no caso os pais) a frequentar qualquer reunião, encontro, curso para que seu filho receba um sacramento?
- Que diferença fará esse “sinal” (sacramento é sinal) na vida de quem não pretende aderir (seguimento) a nossa fé?
- Até que ponto as crianças e jovens de hoje tem “maturidade” para entender o processo de evangelização? Como um adolescente de 13/14 anos pode ter maturidade para seguir o que quer que seja? Não deveríamos estar dando mais atenção aos adultos?
- A catequese “familiar”, ou seja, aquela que chama os pais para receber instrução e depois repassar aos filhos, está fugindo do “sacramental” ou continua tendo como “finalidade” receber os sacramentos? Estes pais se disponibilizam a ser “catequistas” de outras crianças que não os seus filhos?
- Os projetos de “nova evangelização”, que as paróquias estão se empenhando em proporcionar à comunidade, são precedidos de "anúncio"? Será que não estão tendo o caráter de “curso” ou “palestra” sobre este ou aquele tema? As pessoas vão porque se sentem chamadas ou vão porque senão não recebem esse ou aquele sacramento?
- Posso “obrigar” qualquer pessoa a frequentar a missa quando a vivência dessa celebração não faz parte da sua vida e não lhe diz nada?
- Eu realmente “evangelizei” uma pessoa que frequenta a Igreja por “hábito”? Aquele que frequenta a missa todo domingo, ajoelha, reza, comunga, levanta, vai embora... e pratica a fé e a esperança só para si mesmo e a caridade para ninguém, está mesmo evangelizado?
É preciso cuidado, muito cuidado mesmo, ao se planejar Evangelização que beira a "obrigação" de se frequentar uma catequese, qualquer que seja o nome dado a ela: reunião, encontro, formação...

Ângela Rocha
Fontes consultadas: DNC-Diretório Nacional de Catequese e Documento de Aparecida.

COMENTÁRIOS E DISCUSSÕES

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Nilva Mazzer Uma aula, das boas!

Glícia Souto Pimenta Se através da minha catequese eu conseguir levar a criança, o jovem ou o adulto, a vivenciar tudo aquilo que pregamos sobre Jesus Cristo, aí sim, esta pessoa está evangelizada... É por aí.

Teresinha Dos Santos Muito bom, excelente reflexão que exige de todos uma reposta convincente e com compromissos.

Marilena Schiefer Ângela, após ler toda a reflexão fiquei pensando como estamos longe da "evangelização". O certo realmente seria iniciarmos os pais na vida cristã. Mas, como mudarmos esta mentalidade tão arraigada de que nós devemos preparar crianças, adolescentes e adultos para receber os sacramentos sem ao menos saber o que significam em suas vidas? Como em tão pouco tempo conseguiremos evangelizar e levar ao encantamento por Jesus se, às vezes, até nós catequistas não tivemos este encontro pessoal.

Nilva Mazzer Por isso Marilena Schiefer, em uma das nossas formações pedimos ao padre para fazer todo o processo de IVC conosco, para “sentir”. E não só saber como é! Ficou de arrumar um horário na sua agenda...

Marilena Schiefer Que bom que o padre de sua comunidade cuida da formação dos catequistas. Estamos precisando de padres formadores e que entendam todo o processo de IVC.

Maria Dores Meneses Adorei essa reflexão, nos faz pensar realmente no que estamos fazendo, como estamos fazendo a nossa catequese. Você é maravilhosa ,que Deus continue te usando para nos ajudar nessa caminhada..

Ângela Rocha Marilena Schiefer, muitas vezes me angustia também esse pensamento: "Como vamos fazer isso?" Mas, penso que podemos começar a mudar as coisas se começarmos a dar, sempre mais, atenção aos pais das nossas crianças. Não pensemos neles como ausentes e omissos, mas, como pessoas que também, estão procurando o caminho. Fazer encontros, eventos, reuniões, o que quer que seja... Chamar pra conversar, e mais importante, IR AO ENCONTRO deles. Devagar a gente vai tocando corações.

Ana Cantanhede Que reflexão profunda!!! Sem mais palavras...

Idelvania Antunes Coutinho  Suas palavras são fortes para uma realidade tão fragilizada (no momento), como a nossa. Dá uma vontade de sair imprimindo e pregar lá Centro Pastoral, para que este chamado, seja levado mais a sério!

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