segunda-feira, 3 de abril de 2017

APONTAMENTO BÍBLICO Nº 01: ESTAI ATENTOS E VIGILANTES!


"Os Apontamentos Bíblicos são uma nova prateleira aqui da página. A partir de palavras ou frases da bíblia que me encantam, ou me provocam, ou as duas coisas ao mesmo tempo! Para não ficar maçante, não colocarei as citações bíblicas ao longo das meditações. Quem quiser adicione esta bíblia on-line aos favoritos, que tem um sistema fácil de pesquisa. Um abraço!"
(Pe. Rui Santiago)

Não deixa de me desconcertar este apelo que os evangelistas assiduamente colocam na boca do Mestre…

Estai vigilantes…. Vivei atentos…. Não vos deixeis adormecer na modorra dos dias sempre iguais…. Não permitais que o vosso Coração se deixe domesticar…. Não amanseis até perderdes a noção do novo, do belo, do valioso, do verdadeiro, do profundo, do simples, do invisível…. Estai vigilantes…

Procuro em Jesus esta virtude da atenção, da vigilância de um Coração que não se deixa vergar pela "preguiça de ver" que tantas vezes nos afeta…

E vejo-o sentado com os discípulos num canto qualquer do templo de Jerusalém, junto à Arca do Tesouro. Os seus estão pasmados com tanta riqueza! Encantam-se com a grandiosidade das pedras do templo, a suntuosidade dos dourados, a imponência dos muros, a musicalidade das moedas em abundância a cair no tesouro, a exuberância dos gestos rituais dos sacerdotes… E, no meio disto tudo, Jesus diz-lhes: “Vejam aquela viúva ali! Só deitou duas moedinhas. No entanto, digo-vos que deu muito mais que todos os outros, porque deu do que precisava para si, não do que lhe sobrava! ”

Entre os discípulos, certamente se fez silêncio… Jesus tem sempre o olhar voltado noutra direção.

Lembro-me daquela vez em que, no meio de uma multidão que o apertava por todos os lados, uma mulher o tocou e ele parou para perguntar quem lhe tinha tocado. Os discípulos, empolgados pela recepção aparatosa da multidão, disseram-lhe: “Ó Mestre, quase te sufocam de todos os lados e ainda perguntas ‘quem me tocou’? ”

Até que o olhar daquela mulher e o de Jesus se encontraram…

À medida que Jesus ia fazendo a experiência de que no Templo de Jerusalém se prestava culto a um ídolo em nome do qual se impunham cargas pesadas às pessoas simples que lhes roubavam liberdade, alegria e dignidade, disse corajosamente: “Não ficará dele pedra sobre pedra! ”, como quem compreende que não há nenhum poder opressor em toda a história que não venha a cair sob o peso das suas próprias culpas!

Jesus disse-o no momento em que os discípulos partilhavam com ele “Mestre, é espantoso o Templo do nosso Povo, não é?!” Certamente não esperavam aquela resposta…

A leitura que Jesus faz da sua própria morte, injusta e violenta, revela uma capacidade extraordinária de dar sentido a todas as situações, mesmo as que estão marcadas pelo pecado, pela maldade ou pelo absurdo. Converteu o acontecimento da sua morte em apelo e possibilidade definitiva e radical de autodoação!

Retirou-lhe toda a carga de fatalidade e, mergulhado na imensidão da Confiança na Fidelidade do ABBA que o Espírito animava no seu íntimo, abriu esse acontecimento à Esperança naquela Última Ceia com os seus…

Vemos sempre Jesus a ler a realidade que o rodeia com uma Sabedoria e uma Profundidade que nos encantam e desconcertam ao mesmo tempo! Essa é uma das dimensões da Vigilância que hoje me toca. A necessidade de estarmos atentos para que os acontecimentos não passem por nós em vão!

Às vezes parece que passamos pela Vida como estranhos, não reconhecendo apelos nem sinais! Às vezes perdemo-nos a olhar para muita “casca dourada”, como os primeiros em Jerusalém, e não treinamos a descoberta da profundidade. É por estas e por outras que nós complicamos tanto! Porque não estamos atentos, verdadeiramente vigilantes com a Sabedoria e a Profundidade de Jesus, e então perdemo-nos num mar de coisas que nos dispersam e entopem os sentidos.

Jesus diz permanentemente àqueles que o querem seguir: “Sede simples como as pombas, e astutos como as serpentes! ”

A “simplicidade” mal-entendida, gera ingenuidade; a “astúcia” mal orientada é um instrumento da malícia. A “astúcia dos simples” é esta Vigilância de quem consegue ter um “olhar evangélico” sobre todas as coisas e situações.

Criamos os meios suficientes para estarmos cada vez melhor informados sobre tudo, de maneira mais rápida e eficaz! Sabemos tudo num segundo nesta “aldeia global”. Mas, tão informados que estamos, não sinto que nos deixemos provocar assim tanto! Estamos muito informados, mas talvez raramente nos sintamos convocados… A enxurrada de informação provoca muitas vezes em nós nada mais além de resignação e pena! E de tanto que vemos e ouvimos, parece que até vamos embrutecendo o Coração, vamos nos tornando imunes à dor, à opressão e à morte violenta de seres humanos que vemos em direto enquanto comemos o jantar!

Esta atitude de Vigilância Evangélica não gera revolta. Mas é como que uma "insubordinação do espírito" que não nos permite a resignação. Assumimos a missão de Testemunhar e Anunciar a Vida com critérios de Evangelho, e fazemo-lo até às últimas consequências, até à Renúncia da própria Vida se a isso formos obrigados! Essa é a Denúncia digna dos discípulos de um Crucificado-Ressuscitado!

A Vigilância Evangélica aponta-nos também a urgência de estarmos atentos a nós próprios… De não perdermos oportunidades de nos encontramos com Jesus no mais íntimo da nossa Casa… Sinto que perdemos muitas oportunidades para estarmos quietos e calados. E isso faz-nos mal! Porque o nosso Coração tem uma dimensão parecida com os bebés: precisam dormir sossegados, porque é enquanto dormem que crescem. Nós também precisamos de parar mais vezes…

Precisamos perder o medo de estarmos a sós conosco próprios! Precisamos perder o medo aos “monstrinhos” que às vezes nos aparecem durante esses silêncios e nos fazem fugir para o barulho atarefado de coisas inúteis. Há “monstrinhos” que só se matam olhando para eles fixamente nos olhos, sem baixar o olhar para o chão nem virar as costas… E temos Jesus conosco, fortalecendo-nos com o Espírito Santo! Com Ele podemos dizer-lhes serenamente: “Já não tenho medo de ti! Deixaste de assustar-me! Brevemente desaparecerás, porque é o meu medo que te alimenta, mas Jesus faz desaparecer todos os medos de dentro de mim! ”

Não há crescimento humano sem capacidade de silêncio. Não há amadurecimento interior sem este treino pessoal de libertação em que o Espírito Santo é o nosso mais fiel aliado! Jesus bem dizia que “Para quem tem Fé deixa de haver impossíveis! ”
Ele próprio, na véspera de acontecimentos importantes, como por exemplo a escolha dos Doze Apóstolos, retirava-se para a solidão e passava noites inteiras no cimo de uma colina qualquer a dialogar intimamente com o Pai, a descobrir a Sua Vontade e a descobrir-se nela.

É preciso estarmos atentos às oportunidades que temos para nos encontrarmos com Jesus no silêncio do nosso Coração. Quem aprender a calar-se assiduamente, verá como ganham qualidade as suas palavras! Quem ganhar o gosto por passar alguns momentos a sós, verá como é capaz de otimizar as suas relações! Quem se habituar a contar com a presença de Jesus e a força do Espírito Santo, verá onde residem os segredos da Liberdade e da Alegria que Derrotam Montanhas…

E depois há o critério de Vigilância Evangélica que o próprio Jesus disse de maneira tão crua e tão provocadora… que esmorece em mim a ousadia de interpretar ou explicar seja o que for!

Segundo diz o evangelista Mateus, foi assim: “Tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, era peregrino e acolheste-me, estava nu e deste-me que vestir, adoeci e visitaste-me, estive na prisão e foste ter comigo. Sempre que fizeste isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizeste! ”

E calam-se em mim quase todas as palavras. Fico cá por dentro a magicar que esta é uma daquelas linguagens tramadas que Jesus às vezes usa, cuja característica principal é que não dá para “espiritualizar” por lado nenhum!


Pe. Rui Santiago, cssr.


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Agradecemos ao Pe. Rui Santiago por nos presentear com tão belas reflexões!
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