segunda-feira, 26 de junho de 2017

COMO DIZER "NÃO" A UM CHAMADO DESTES?

PARÓQUIA SENHOR BOM JESUS DOS PERDÕES
PRAÇA RUI BARBOSA - CURITIBA PR

Os fardos precisam ser divididos...


Na última terça-feira, a coordenadora de catequese da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Perdões, mandou um recadinho no whatsapp: se eu podia ir até lá, no Centro de Pastoral, falar com ela. Como me dispus a ajudar a catequese da paróquia no que fosse preciso, lá fui eu.

A Paróquia Bom Jesus dos Perdões fica na Praça Rui Barbosa, um dos centros mais movimentados de Curitiba por ser, também, terminal de ônibus urbano. No passado, esta praça se chamava Largo da Misericórdia. Um nome bem apropriado para abrigar a Igreja Franciscana de Bom Jesus dos Perdões e a devoção à Santo Antônio com a distribuição de pão aos pobres.

Quando cheguei, entrei pela porta da Rua 24 de maio. A tarde estava bem fria e havia várias pessoas na porta, no corredor e nas escadas. Pela aparência, pedintes, mendigos, moradores de rua. E eu ali na minha “visão de mundo”, fui ficando com medo, protegendo a bolsa, o celular... Ah! Que atitude preconceituosa a minha!

Subindo as escadas, no topo, me deparei com uma cena inusitada: Um homem deitado no corredor, mal embrulhado num cobertor, enregelado de frio. E junto dele, uma outra pessoa trocando suas roupas, tentando reanimá-lo e aquecê-lo. Uma moça providenciando mais blusas, agasalho, meias, sapatos para que a pessoa se reanimasse.

Depois eu descobri que aquele morador de rua foi trazido pelos outros que encontrei lá embaixo. Estava “congelando” na rua, com pouco agasalho, somente enrolado num cobertor úmido. E as pessoas que o estavam ajudando ali, era um dos freis da paróquia e a assistente social que colabora nas obras sociais. Obras estas que oferecem, de segunda a sexta-feira, todas as semanas, o “café da tarde” para moradores de rua. A paróquia tem um espaço para isso, onde, além do café, eles proporcionam atendimento de assistentes sociais e uma psicóloga para conversar. E, se precisam de médico, remédio, de uma instituição, ajuda para encontrar a família, eles são encaminhados e atendidos. Não se pode fazer tudo, mas, se faz muita coisa.

Confesso que foi uma cena “chocante” para mim. Diferente daquilo que tenho visto nas paróquias por onde andei.

E eu, que vinha subindo as escadas, carregada com o fardo dos meus “preconceitos”, me deparei com a mais pura “misericórdia” que é possível se ter por outro ser humano. Não poderia ser diferente numa paróquia com o carisma franciscano, mas, mesmo assim, foi algo que não se vê todos os dias. E, depois, fiquei pensando que era o que Deus queria que eu visse naquela hora, naquele momento. Que eu sentisse que os fardos que carrego são muito mais de indiferença, do que “peso pelo sofrimento” dos meus irmãos. Nunca me sento tão... inútil, essa é a palavra, como naquele momento!

Na sequência, fui conversar com a coordenadora. E o assunto que ela queria tratar comigo, ia muito além do que uma simples “ajudinha”. Ela precisa cuidar da mãe doente e faz viagens frequentes por isso, então me pediu para assumir a coordenação da catequese na paróquia. E mais espantada ainda fiquei, quando ela me disse que não seria somente pelos dois meses em que estaria viajando: Era “para sempre”! Ou pelo tempo que dura o “mandato” de uma coordenadora. E, enquanto conversávamos, o Frei, que é também o pároco, ligou para ela... “Sim, frei, ela está aqui comigo, já vamos descer para conversar com o senhor...”.

Bom, além de me parecer uma certa “doideira” da parte dos dois, chamando uma pessoa que mal conhecem para assumir tamanha responsabilidade, aquilo me pareceu também um “complô” contra mim (risos) ... Tinham “armado” para mim!

Conversando com o Frei, eu fui pensando: Que loucura, meu Deus! Que desafio! Assumir a coordenação de catequese de uma paróquia que frequento há seis meses só! Enfrentar a coordenação de uma catequese onde me engajei só “para ajudar”, tem menos de 2 meses! A garantia de apoio da coordenadora atual, mesmo estando afastada; a garantia de apoio irrestrito do Frei e da paróquia; liberdade para coordenar e proporcionar mudanças e melhorias; a garantia de que as demais catequistas estão de acordo e apoiam isso... pesou na decisão. Mas, não foi o que me “ganhou” e me fez dizer SIM. Foi outra coisa...

O que “me ganhou” e ganhou meu coração, foi aquele Frei e aquela moça ajudando aquele morador de rua que vi, logo que cheguei ali.

Como dizer não para uma paróquia assim? Como dizer não a um chamado destes?

Então, Frei Alexandre, não foram às suas “propostas” tentadoras e nem o apoio e confiança que a Iandaira demonstrou, que me fizeram dizer sim. Foi um morador de rua. E vocês não sabem o tamanho da “encrenca” que arranjaram me chamando! Rsrsrsrrsrs...

E, pensando no que vi quando cheguei e numa fala sua, ao dizer que a Iandaira até parecia mais “leve” depois que eu aceitei... lembrei de uma música....

ELE NÃO PESA... ELE É MEU IRMÃO!

Ele não pesa, ele é meu irmão! A estrada é longa com muitas voltas sinuosas. Isso nos conduz a quem sabe onde. Quem sabe onde? Mas, eu sou forte, forte o bastante para carregá-lo, ele não pesa, ele é meu irmão. Assim nós vamos.
O bem-estar dele é a minha preocupação. Ele não é nenhum fardo para aguentar.
Nós chegaremos lá, porque eu sei, ele não me atrapalha. Ele não pesa, ele é meu irmão. 
Se eu estou carregando tudo, eu estou carregando tristeza também.
Pois, os corações não estão cheios com a alegria do amor de um para com o outro, como deveria ser. 
É uma estrada longa, longa, da qual não há nenhum retorno.
Enquanto nós estamos a caminho de lá, por que não dividirmos? 
E a carga, não me pesa em nada. Ele não pesa, ele é meu irmão. Ele é meu irmão.
Ele não pesa, ele é meu irmão.


* Esta música foi composta em 1969. Fez sucesso com o Grupo The Hollies, na década de 70. Dizem que o que inspirou essa canção foi o seguinte: certa noite, em uma forte nevasca, na sede de um orfanato em Washington DC, um padre plantonista ouviu alguém bater na porta. Ao abri-la ele deparou-se com um menino coberto de neve, com poucas roupas, trazendo em suas costas, um outro menino mais novo. A fome estampada no rosto, o frio e a miséria dos dois comoveram o padre. O sacerdote mandou-os entrar e exclamou: “Ele deve ser muito pesado”. O que o que carregava disse: “ele não pesa, ele é meu irmão. (He ain’t heavy, he is my brother). Mas, eles não eram irmãos de sangue realmente. Eram irmãos de rua. O autor da música soube do caso e se inspirou para compô-la. E da frase fez-se o refrão. Esses dois meninos, foram adotados pela instituição ”Missão dos Órfãos”, em Washington, DC.

(Fonte: https://pt.aleteia.org/2017/01/11/a-historia-por-tras-da-musica-he-aint-heavy-hes-my-brother/)
 


Ângela Rocha
Catequista em Formação.

Frei Alexandre, escrevi este texto do fundo do meu coração, e sou assim, metade gente racional e outra metade, pura emoção. Mesmo que as coisas não deem certo, saiba que, eu VI, vi mesmo, como Jesus é “Bom” em sua paróquia! Deus os abençoe infinitamente!


Paróquia Senhor Bom Jesus dos Perdões - Praça Rui Barbosa Curitiba PR
Ao fundo: Colégio Bom Jesus e FAE - Centro Universitário  Grupo Educacional Bom Jesus

Velário da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Perdões
Tradicional Bolo de Santo Antonio oferecido durante a Festa de Santo Antonio na Paróquia.


SEGUIDORES DO CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO