sexta-feira, 15 de junho de 2018

HOMILIA DO 11° DOMINGO DO TEMPO COMUM



HOMILIA DO DOMINGO: REINO DE DEUS, ACREDITAR É PARTICIPAR DELE

Jesus veio por causa de um mundo novo que começa a ser preparado aqui e está em pleno final dos tempos. Este mundo novo depende de uma maneira nova de ver as coisas e de se relacionar com as pessoas. O nome deste mundo é Reino de Deus. Jesus não só trouxe esta novidade, mas toda a prática e as palavras dEle levaram as pessoas a ter fé no Reino e a se alegrar com a sua chegada. Quem se encontra com Jesus passa a ver o mundo com esperança.


Vivemos entre o mistério da iniquidade e o mistério da presença do Reino. Quando o mistério da iniquidade ganha visibilidade, parece que o Reino é uma utopia (no sentido etimológico = um auge que não se alcança). Vemos o terrorismo, a violência, o crime, a corrupção, o egoísmo, a inveja. Presenciamos a força do pecado, a falta de compreensão, os limites das pessoas que, por sua vez, não correspondes às nossas expectativas. Experimentamos os dramas da vida: a solidão, a carência, a angustia. Às vezes, não parece razoável acreditar que tudo pode dar certo.


As parábolas de Jesus apontam para uma esperança que se contrapõe aos desânimos humanos. O Evangelho nos diz que o Reino começa pequeno, humilde. Depois cresce e se torna uma árvore frondosa. Mesmo que não haja evidências para acreditar Nele, Ele está presente. Para se acolher esta realidade é necessário o olhar da fé.


O Reino de Deus é uma iniciativa divina: é Deus que age no silêncio da noite, no tumulto do dia a dia ou nas adversidades da história para que o Reino aconteça. Não adianta forçar o tempo ou os resultados, pois é Deus que dirige a marcha da história e fará com que o Reino seja pleno. É uma graça, um dom. Ele é o dono da história. Por isso, não nos desesperemos, pois Ele sabe o que faz com ela.


Acreditar no Reino também significa participar dele. Há no Evangelho um convite implícito para se comprometer em torna-lo cada vez mais presente no mundo, deixando-nos guiar pelo impulso do Espírito Santo. Tudo o que podemos realizar de bom neste mundo é uma semente do Reino plantada. Nossas renúncias, nossas atitudes de gratuidade, nosso compromisso com a justiça e com a paz, nossas atitudes de compaixão para com o próximo, nosso anúncio explícito do amor de Deus, nossas atividades pastorais. Tudo isso é uma centelha de vida colhida para a eternidade. Até mesmo as iniciativas que aparentemente são insignificantes carregam dentro de si um mistério de salvação, um pequeno embrião do Reino.


Cada gesto fará sentido no juízo final, quando comparecermos de cara limpa diante do Senhor (segunda leitura). Então, Deus irá nos colocar diante de toda história do mundo, apresentando-nos as consequências dos atos individuais dentro de uma complexa trama de relações na qual se construiu o tempo. “Essa manifestação não torna público, como poderia parecer, o que era privado. Mostra a profunda vinculação que toda pessoa possui como um todo. Ninguém é uma ilha. Uma comunhão profunda e mística nos une a tudo, pela raiz da vida, do átomo material aos seres espirituais. Nosso bem e nosso mal, a partir do núcleo pessoal e responsável, se comunicaram com a globalidade da criação”.


O plano de Deus é o reverso da realidade que se apresenta – está cheia de ambiguidades. Somente no fim da história Deus revelará tudo o que ficou obscuro. Quando pudermos ver Deus face a face (cf. 1Cor 13, 12), Ele mostrará com clareza a maldade do mundo e a bondade infinita do seu plano de amor. O juízo de Deus manifesta que a história tem sentido, pois haverá um desfecho final repleto de gratuidade que enche tudo de beleza. Então surgirá a plenitude do Reino de amor, misericórdia, festa, alegria, shalom.

Pe Roberto Nentwig
Arquidiocese de Curitiba - PR


FONTE: 
NENTWIG, Roberto. O Vosso Reino que também é nosso. Reflexões Homiléticas - Ano B. Curitiba; Editora Arquidiocesana, 2015. pg. 79.


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quarta-feira, 13 de junho de 2018

INTRODUTOR: QUEM EXERCE ESSE PAPEL?

"Anunciar ao mundo, por palavras e atos, a mensagem de Cristo e comunicar  sua graça."

Não é de hoje que venho tentando responder a uma questão:

“Quem é, afinal, a figura do INTRODUTOR, no processo de Iniciação à Vida Cristã”?

E muito se discute e muito se atribui a tão importante figura que, no entanto, ninguém sabe direito quem é. Algumas paróquias “preparam” pessoas para ser esse introdutor, outras até constituem grupos de introdutores. E muitas ainda estão procurando o dito cujo...

Bom, vamos ao conceito mais simples do que seria um “introdutor” em qualquer lugar que seja: É aquele que leva alguém a algum lugar, fazendo com que esta pessoa participe de um clube, instituição, agremiação, grupo, etc. Claro que antes ele precisa fazer com que essa pessoa partilhe dos objetivos e ideais daquele grupo.

Agora vamos aos nossos conceitos na iniciação cristã.

Primeiro vamos pensar que “cabe a todo discípulo de Cristo a missão de difundir a fé” (Conc. Vat, II – Lumien Gentium, 17). A este respeito podemos encontrar no item 41 do RICA, uma explanação mais completa a este respeito. E no item 42 temos que:

O candidato que solicita sua admissão entre os catecúmenos é acompanhado por um introdutor, homem ou mulher que o conhece, ajuda e é testemunha de seus costumes, fé e desejo”.

Ou seja, o introdutor é aquele que dá testemunho a respeito do candidato a ponto de tornar-se seu “padrinho” se assim for a vontade do catecúmeno.

Com certeza é um “papel” sério demais para se exercer na vida de alguém e não uma “designação” que se dê a uma pessoa específica, cuja função seja acompanhar a quem não conhece e não convive na vida cotidiana.

Por isso, e por acreditar que “introdutor” não é um título e nem um ministério que se dê a alguém depois de um curso, penso que é necessário a comunidade se atentar ao que diz o Decreto Ad Gentes (14): “O povo de Deus, representado pela Igreja local, sempre compreenda e manifeste que a iniciação dos adultos é algo de seu, e interessa a todos os batizados”.

Portanto, a nós, todos os batizados, compete o papel de “introdutores” na fé. Não sou só eu, catequista ou agente de pastoral. Somos todos nós que vivemos e participamos da comunidade católica. Que são aqueles que devemos "introduzir"? São todas aquelas pessoas que conosco convivem: nossos vizinhos, nossos amigos e todos aqueles a quem a mensagem do Reino de Deus precisa chegar.

Este é um exemplo que nos relata, Nilva Mazzer, catequista em Maringá. 

Aconteceu dela ser catequista, mas, este é um olhar que cabe a todos os fiéis: “... de que o apostolado da Igreja e de todos os seus membros, procura em primeiro lugar, anunciar ao mundo, por palavras e atos, a mensagem de Cristo e comunicar  sua graça. (Conc. Vat. II, Decreto sobre o Apostolado dos leigos, nº 16 e RICA 42, 1).

Vamos ao testemunho!


“Em nossa caminhada na catequese deparamos com vários casos, várias situações. Mas, uma delas me fez muito bem como catequista esse ano. Foi ajudar a regularizar a situação do Charles, um ser muito especial da nossa comunidade São José Operário. Ele tem 48 anos, mas, mais parece um menino. Ele não tinha os sacramentos da Crisma e nem recebido a catequese de Eucaristia. Na sua ingenuidade, recebia comunhão sem ter feito qualquer preparação a respeito. Eu não sabia disso até uma pessoa me falar a respeito.
Na hora, achei estranho e só. Ficou por isso mesmo e ele continuou entrando na fila da comunhão como sempre fez. Mas um dia algo me tocou forte, porque não preparar esse moço para regularizar sua caminhada na igreja? Afinal sou catequista! Pedi a autorização do nosso Pároco para fazer isso em poucos encontros pois ele não sabe ler nem escrever (descobri depois) mas, tinha muita vontade de receber os sacramentos como me relatou sua mãe.
Fiz isso, em alguns encontros, e ele não faltou em nenhum, era só ouvinte, mas, seu coração de menino com 48 anos entendia tudo. Chegou o dia de receber os sacramentos, depois que foi crismado pelo Padre Emerson no sábado Santo. Ele ficou tão feliz que contagiou o coração de quem sabia da sua situação (o meu principalmente rsrs). Hoje o Charles é um cristão católico iniciado nos sacramentos da iniciação cristã como manda nossa Santa Igreja”.

Nilva Mazzer - Maringá-Pr


terça-feira, 12 de junho de 2018

A GENTE SE ACOSTUMA, MAS NÃO DEVIA...



Dia destes, recebi um pequeno vídeo com o texto “Eu sei, mas não devia”, de Marina Colasanti. E escutando eu pensei, meio sem perceber, no quanto a gente “não devia”, mas, “se acostuma” a algumas coisas, também na catequese.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a não esperar muita coisa das nossas famílias. E entende a tantas e muitas desculpas para que elas não participem da Igreja. E, porque a gente já se acostumou, nem liga mais se é verdade ou apenas desculpa. E, porque já se acostumou a gente esquece o que é evangelização e vai na onda, fazendo só o “social” dos sacramentos.

A gente se acostuma a lembrar do encontro só no dia em que ele acontece e vai pra lá apressado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o conteúdo no ônibus ou no carro porque não teve tempo de ver antes. Pra que caprichar se ninguém presta atenção? E vamos pedindo ao Espírito Santo que faça por nós o que não temos tempo de fazer. E a virar as semanas sempre do mesmo jeito, sem ter pensado de fato, no que é a missão e no porquê do nosso chamado.

A gente se acostuma a ler as estatísticas da religião e a aceitar que cada vez mais as pessoas se afastam dela. Porque simplesmente não tem tempo. E, aceitando que a fé está morrendo, aceita as ausências e que haja cada vez menos crianças e famílias nas missas. E, aceitando os números, deixa de acreditar na evangelização.

A gente se acostuma a esperar o dia do encontro e receber inúmeros recados no whatsapp dizendo: “Hoje meu filho não pode ir”. E aceita que essa impossibilidade nem sequer tenha motivo para acontecer. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. E esquece que o produto mais importante das nossas vidas é o “acreditar”, ter esperança e amarmos uns aos outros.

A gente se acostuma à falta de comprometimento. Às salinhas fechadas, à luz artificial, a falta de espaço, à falta de material.  Se acostuma a não ouvir uma palavra de incentivo, a temer a autoridade das lideranças. E acha tão normal que seja assim!

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.  E no fim de semana não há muito o que fazer, aceita que ir à missa com as crianças, é só mais um transtorno e um incomodo para os pais. E a gente acaba satisfeito, e diz pra si mesmo "fiz a minha parte".

E assim a gente se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

E a gente se acostuma, não devia, mas acaba se acostumando...

Ângela Rocha

Abaixo o texto original:
Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)

Marina Colasanti
 nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com “Eu sei, mas não devia” e também por “Rota de Colisão”. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zoológico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

AS FESTAS DE SANTOS E PADROEIROS(AS)



Quando falamos em "Festa de Santo...", há quem critique a Igreja pelo "reforço" que se dá ao que chamamos "piedade popular". Mas, ao falar de religiosidade popular, não podemos ignorar a força dos santos na vida de nossa gente e o lugar de destaque que eles ganharam na Igreja Católica. O que não podemos negar é que sem a Religiosidade popular, a igreja não se sustenta. A partir dessa compreensão, a afirmação “a igreja é o povo de Deus”, hoje tão controvertida, um dia será aceita como uma evidência. É o povo com suas crenças, a força da sua fé e seus símbolos, que torna na nossa Igreja tão rica e que tem perpetuado o catolicismo na história.

RELIGIOSIDADE POPULAR

Pe. Jakson Ferreira de Alencar, ssp

Com frequência vemos a religiosidade popular ser classificada como algo menor, como “sincretismo”, invencionice, coisas exóticas, obscurantismo ou mero conjunto de curiosidades. Mas na fé do povo há um tesouro inestimável ao qual convém prestar atenção.

Geralmente, credita-se a enorme e rápida expansão do cristianismo nos primeiros séculos às formulações teológicas, ao grande heroísmo de alguns cristãos, à atuação de algumas lideranças proeminentes. Sem dúvida isso foi importante, mas, como nos mostra com muita eloquência em seu artigo o teólogo Eduardo Hoonaert, tal expansão se deu muito mais pela fé popular e pela atuação cristã nas bases da sociedade. Pesquisas arqueológicas demonstram que a religiosidade popular e a capacidade do cristianismo de dialogar com as pessoas das classes mais baixas é que permitiram que Cristo fosse tomando o lugar de divindades reinantes no imaginário daquele tempo, como Asclépio, a quem a população recorria para a solução de seus problemas (doença, marginalização, morte). Da mesma forma, Maria superou a deusa Ísis, cuja imagem a apresentava com o filho nos braços e que era cultuada como mãe de deus, a mãe carinhosa que protege as pessoas. Somente após muita relutância, no século IV, no Concílio de Niceia, aceitou-se oficializar o título de Maria como Mãe de Deus, o qual o povo teimava em atribuir-lhe.

Com isso se percebe o quanto é difícil, senão impossível, dizer o que é sincrético e o que é puro. Mesmo o que hoje é considerado a mais pura ortodoxia está atravessado riqueza da diversidade cultural do povo. Quem estuda a Bíblia um pouco mais a fundo sabe que até nos livros mais antigos há elementos recebidos das culturas e religiões dos povos vizinhos. De igual modo, se as congadas brasileiras são consideradas sincréticas, também o podem ser muitas de nossas formas religiosas oficiais, pois são imbuídas de diálogos e trocas culturais firmadas pelo cristianismo ao longo dos séculos. É inegável, por exemplo, a influência da cultura europeia em muitos aspectos do cristianismo, até mesmo nas vestes litúrgicas. Toda religião, como toda cultura, constitui fenômeno vivo, dinâmico, que não tem como ser isolado numa visão única, separada, cartesiana, intelectualizada e petrificadora. Fazer isso seria empobrecer a realidade.

A Igreja, como está configurada, foi, em grande parte, constituída pela religiosidade popular e se mantém graças a ela. Abrir-nos humildemente a essa enorme contribuição do povo não significa aceitar e endossar toda forma de religiosidade de maneira populista, mas aprender com quem poderíamos achar que não tem nada a ensinar. Trata-se de saber dialogar com o imaginário do povo e com seus sistemas simbólicos, encontrando neles o que há de profundamente evangélico; procurar o sagrado vivo e presente na fé do povo e estar dispostos a aprimorar o que porventura não seja evangélico. Não é nenhum favor fazer isso, ao contrário: é a fé do povo que nos presta favor, ajudando a relativizar cientificismos, intelectualismos, eurocentrismos, teologias e liturgias frias ou tendentes a se distanciar da realidade.

Pe. Jakson Ferreira de Alencar, ssp - Revista Vida Pastoral – Paulus – 2013.

Convidamos você a conhecer mais sobre a "Religiosidade Popular", lendo a edição completa da Revista VIDA PASTORAL de março/abril de 2013:


sexta-feira, 1 de junho de 2018

HOMILIA DO DOMINGO: JESUS ABRE CAMINHO PARA A LIBERDADE



                       HOMILIA DO 9º DOMINGO DO TEMPO COMUM

“Vinho novo, em odres novos” (Mc 2, 22). Este versículo antecede as palavras de Jesus no Evangelho de hoje (que começa no versículo 23). Ele quer, portanto, a renovação do velho, das estruturas, daquilo que não pode suportar a novidade do Evangelho.


Jesus não tem um olhar dirigido ao passado, mas ao futuro. Não suscita memórias para manter a segurança enganadora da religião. Nas palavras do teólogo Jean-Baptist Metz, existe uma “lembrança perigosa”, aquela que não permite que haja prevalecimento de méritos, mas leva a pessoa a implorar pela misericórdia, por pura gratuidade. Jesus está nessa linha, chamada profética, estando em oposição ao uso da religião como favorecimento de quem tem casta ou posição.


Jesus ultrapassa o moralismo e exorta à procura da vontade de Deus, de um modo livre, não se preocupa com uma obediência prescrita. A assiduidade às práticas religiosas não era ressaltado em suas pregações. Se os escribas e fariseus se mantinham presos aos textos, era para que seu povo se mantivesse sob seu jugo. Jesus, por outro lado, tira seu conhecimento de sua familiaridade com Deus. Sua proposta é de uma religião interior, ensina o povo a viver da fé, alimentando-se da Escritura e na alegre celebração em seu Templo, mas não se detém nos textos, em definições formais, ritos. Anuncia uma fé pessoal, deixando em segundo plano as mediações religiosas formais do seu tempo.


Tal liberdade retira o medo do sagrado, aquele que impede se reconhecer o Deus amor. A obediência serviçal às formalidades religiosas mantém o crente como um escravo. Jesus rompe com esta religião, desejando que os discípulos se sintam livres, como filhos e filhas.


São Paulo endossa esta liberdade ao anunciar que a fé nos faz olhar para as coisas invisíveis, não para as coisas visíveis. A fé nos dá a certeza de que crescemos espiritualmente até atingirmos nossa maturidade humana para além deste mundo. A nossa cultura nos força a olhar somente para além desse mundo. A nossa cultura nos força a olhar somente para o exterior, para os corpos jovens, belos e esculpidos. Sabemos que nenhuma beleza exterior é mantida, que os anos passam. Somos seres para a morte e, por isso, devemos conquistar ao longo dos anos uma liberdade interior que nos faça desprender do visível. Nas palavras de Michel de Montaigne: “Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade”.

Pe. Roberto Nentwig
Arquidiocese de Curitiba - PR


FONTE: 
NENTWIG, Roberto. O Vosso Reino que também é nosso. Reflexões Homiléticas - Ano B. Curitiba; Editora Arquidiocesana, 2015. pg. 79.


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