quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Missa com Crianças

Sim ou não? De que modo?

Muitas comunidades cristãs celebram Missa com crianças. Umas fazem-no no contexto da Missa Paroquial; outras o fazem só e especificamente no âmbito da Catequese, para as crianças, catequistas e seus familiares. Qual a melhor solução? Terá sentido celebrar só com crianças? Num caso e/ou noutro, quais são os critérios para se levar em conta para este tipo de celebrações? A partir da leitura atenta do Diretório para a Missa com Crianças ficam aqui algumas reflexões que podem nos ajudar a definir ou clarificar alguns critérios para estas celebrações.


O Diretório para a Missa Com Crianças

Com mais de trinta anos, o Diretório para a Missa com crianças, continua a ser desconhecido e, sobretudo, não suficientemente valorizado. Os seus princípios e perspectivas continuam válidos e atuais.

As grandes novidades do Diretório são: o apresentar de novas e específicas orações Eucarísticas com uma linguagem mais adequada às crianças; a possibilidade de que a homilia seja feita por um leigo (DMC 24); a possibilidade de introdução de música gravada (DMC 32); o convite a uma expressão (mais) corporal e visual (DMC 35-36); a possibilidade concedida às Conferencias Episcopais de elaborarem Novos Lecionários (DMC 43); a faculdade de modificar as orações do Missal de modo a torná-las mais acessíveis e compreensíveis às crianças.


O título escolhido para o Diretório é também significativo: Diretório para a Missa COM crianças; não PARA crianças (como se elas fossem meros espectadores, sem participação ativa); não DE crianças (porque a Missa é sempre a missa, não é de crianças nem de adultos). Missa COM crianças expressa uma concepção fundamental: a Missa celebra-se com as crianças e as crianças também celebram (DMC 28), também são Povo de Deus convocado para celebrar.


O dever da Igreja

Cuidar das crianças batizadas (as que ainda não fizeram a Primeira Comunhão e as que já a celebraram) é um dever da comunidade cristã. Esta tarefa cabe em primeiro lugar aos pais (DMC 10). Todavia, como reconhece o Diretório Geral da Catequese, no n.º 5, “as condições da vida atual em que crescem as crianças são pouco favoráveis ao seu progresso espiritual”. Por isso, a comunidade cristã aparece como protagonista da responsabilidade de educar na fé. Assim, o Diretório para a Missa com Crianças reconhece que o culto cristão, e designadamente a Eucaristia como seu centro, é o melhor ambiente para fazer experimentar à criança a salvação de Deus que chegou em Cristo e que celebramos em comunidade.


A dificuldade reside no fato de que as celebrações cristãs estão pensadas para adultos: a
sua estrutura, os seus sinais, a linguagem dos textos, etc., não são fáceis de serem compreendidos pelas crianças e, por conseguinte não exercem sobre elas a força pedagógica que lhes são próprias. No entanto, isto não pode servir de desculpa, porque
como se refere no DMC 2, a psicologia moderna sustenta que não é a inteligência a chave primordial da aproximação às coisas e aos valores. A experiência religiosa é marcante na infância. A teologia é para os adultos, mas a fé é para todos e também para as crianças (Cf. DGC, n.º 78).


Celebração e Vida

Um dos maiores defeitos da atenção à liturgia é separá-la do resto dos aspectos da vida cristã. O Diretório (N.º 8) fala de educação litúrgica das crianças em conexão com a “vida plenamente cristã”; com o Batismo (raiz de toda a vida de fé e de todos os dons de graça que um cristão recebe); com o amor de comunhão com Cristo e com os irmãos (de que a Eucaristia é sinal e dádiva); com a educação geral, humana e cristã.


São inúmeros os valores humanos subjacentes à celebração eucarística e que importa valorizar, antropológica, pedagógica e liturgicamente: o saber fazer (celebrar) em comum com outros; o fato da saudação; a capacidade de escutar; a atitude de dar e receber o perdão; a atitude de expressar o agradecimento; a linguagem dos símbolos; o comer fraternalmente com os outros; a experiência duma celebração festiva; (Cf. DGC, nº 25). Obviamente que a Eucaristia é mais do que isto, é a Celebração do Mistério de Cristo. Mas a linguagem com que as crianças a hão de celebrar plenamente está sugerida nos valores humanos indicados.


Catequese sobre a Eucaristia

Parece óbvia a necessidade de catequese especial sobre a Eucaristia, apesar do reconhecimento de que a própria celebração tem uma força didática (celebrando bem, vamos entrando pouco a pouco na sua dinâmica).

Em suma, esta catequese:
a) não pode ser isolada ou ocasional (por exemplo: só para preparar a primeira comunhão);
b) deve iniciar (não só e simplesmente explicar) à Eucaristia pela descoberta do significado da Missa através dos principais ritos e orações;
c) não pode ser separada da iniciação eclesial (há que iniciar à descoberta do significado... da participação na vida da Igreja);
d) deve incidir particularmente na Oração Eucarística;
e) deve preparar para a participação na Comunhão Eucarística e subsequente celebração do Sacramento da Reconciliação.

O Diretório fala ainda de Celebrações monográficas, que serão celebrações mais informais prevalentemente pedadógico-formativas sobre as atitudes básicas a desenvolver na Eucaristia (o sentido da saudação, o silêncio, o louvor comum, a escuta da Palavra de Deus).


Missas Paroquiais com crianças

O Diretório aborda as duas situações mais comuns em que participam as crianças na Missa. A primeira são as missas com adultos em que participam também as crianças. Esta categoria inscreve-se dentro daquilo que podemos designar de Missas Paroquiais. Nestas há, segundo o Diretório, uma dupla influência benéfica: os adultos, que com a
sua participação ativa são um exemplo vivo para as crianças; as crianças, que com a sua presença ativa, são um motivo de alegria e estimulo para os adultos. A situação ideal é a de uma Eucaristia em que participa a família toda.


Para que estas Missas paroquiais sejam de verdade educativas para a fé das crianças, o Diretório sugere dois aportes:

1) que se lhes preste especial atenção nas monições e homilia e até em alguns serviços;

2) que a primeira parte da celebração — a Mesa da Palavra — possa ser em lugar à parte, com incorporação na segunda parte, a partir do ofertório (sem obscurecer a unidade de todas as partes da Missa). Este aporte requer evidentemente mais trabalho e cuidado e a presença de catequistas responsáveis. Não são momentos para “entreter”, mas, para “celebrar”. Pode haver Missas Paroquiais mais adaptadas a crianças. São aquelas em que toda a comunidade sabe que é particularmente preparada e dirigida às crianças.


Missas com crianças

A segunda é a Missa com Crianças em que participam somente alguns adultos. É especialmente sobre estas celebrações que se debruça o Diretório. E a primeira afirmação fundamental é a de que a Missa com crianças não é a situação ideal (é útil, necessária, mas por pedagogia e provisoriamente). O objetivo é a iniciação à Eucaristia sem mais, a Eucaristia da comunidade cristã, em que são também acolhidas e atendidas as crianças. É bom que desde o princípio as crianças saibam e sintam que a Eucaristia é “coisa de adultos”, que não se identifica com a sua idade infantil ou com o período escolar e catequético, mas que é a celebração central de todos os cristãos. Daqui nasce o critério fundamental: a Missa com crianças não deve ser muito distinta da Missa comunitária. A Missa com crianças é caminho para a Missa da Comunidade.


Sugestões para a Celebração da missa com crianças

O objetivo da Missa com crianças é o de conduzi-las a uma participação ativa, consciente, comunitária, piedosa, interna e externa na celebração. No sentido de atingir este objetivo, o Diretório apresenta algumas sugestões muito concretas, que convém aqui elencar e sujeitar à reflexão.


Os Ministérios: Se na Missa com adultos já se recomenda o desempenho de alguns ministérios pelas crianças, aqui mais claramente aparece como evidente esta participação ministerial. Notem-se alguns destes ministérios:
- preparar o altar;
- cantar;
- tocar instrumentos musicais;
- proclamar as leituras;
- dialogar na homilia (se convocados);
- oferecer os dons no ofertório;
- etc.


O presbítero que preside à Missa com crianças (não para as crianças): dever ter qualidades especiais e dominar alguns princípios de psicologia pastoral:
- o seu modo de atuar e de falar deve ser digno, claro e simples,
- criando um clima de festa, fraternidade e meditação,
- tornando inteligível a sua linguagem,
- e adaptando as orações e monições (sem infantilismos).


Canto e Música: O Diretório dedica um largo espaço e grande importância ao canto, exatamente por se tratar de celebrações com crianças (DMC 19). De entre os diversos cantos dê-se prioridade às aclamações, sobretudo as da Oração Eucarística. Os cânticos de outros momentos da celebração sejam igualmente breves, com qualidade (em letra e música). Os cantos do Glória, Credo, Santo e Cordeiro podem ter uma letra adaptada e adequada. Entre nós, o repertório para a Missa com Crianças não é abundante, mas já é significativo.


Pode ainda utilizar-se a música instrumental e o uso de instrumentos, sobretudo se tocados pelas próprias crianças (em ordem à participação ativa e interna). O Diretório não especifica quais os instrumentos a utilizar; fala apenas de “os instrumentos musicais” (DMC 32).

Gestos, movimentos e imagens: O Diretório afirma que devem fomentar-se os gestos, o movimento e a criatividade visual nas Missas com crianças, a partir de duas razões fundamentais: 1) a natureza própria da liturgia, que é “ação do homem todo” e não só da inteligência e da vontade: a liturgia usa por natureza que lhe é própria os sinais e os gestos simbólicos; 2) a psicologia das crianças que, mais que os adultos, sabem e necessitam de expressar-se com gestos, movimentos e imagens.


Haverá que fazer uma Catequese sobre os gestos e sinais clássicos da celebração eucarística, como a fração do pão, a utilização do pão e do vinho, os gestos das mãos, etc. No que toca ao movimento, o Diretório assinala a importância da participação das crianças na procissão de entrada, na procissão do evangelho, na procissão do ofertório e na procissão para a comunhão (DMC 34).


A liturgia não deverá nunca aparecer como algo árido e puramente conceptual. Assim, e porque a liturgia afeta todos os sentidos e ainda que prevaleça a Palavra ouvida e proclamada, o Diretório escancara a porta da criatividade visual. Ao longo do Ano Litúrgico, podem e devem valorizar-se os símbolos, sinais, ornamentos e cores próprias de cada tempo (DMC 35).


O Diretório reconhece ainda a utilidade do uso de imagens preparadas para ilustrar a homilia, a mensagem central das leituras, ou as intenções da Oração dos Fiéis. Neste âmbito parecem legitimar-se também o uso de diapositivos e imagens de vídeo, desde que devidamente contextualizadas e integradoras na celebração e não substituam ou diminuam a importância da Palavra (DMC 36).


A Palavra de Deus: O Diretório dedica 9 números à Palavra de Deus. Na verdade, a Palavra de Deus não se proclama para entreter, ou como relato piedoso ou como catequese sistemática. É “celebrada”, com atitude de fé, com canto, com meditação, com a consciência de que Deus nos fala hoje e aqui. Não se trata de nos colocarmos diante da Palavra como diante duma lição ou tema de estudo, mas diante duma Pessoa que nos fala, que tem tempo para nós, que nos interpela e nos anuncia o seu amor e o seu plano de salvação.


É com este objetivo final que o Diretório permite e sugere algumas adaptações:
- a redução do número de leituras: podem suprimir-se uma ou duas leituras, mas nunca o Evangelho (e nunca suprimir as duas primeiras por hábito ou sistema);
- a substituição das leituras do “dia” respectivo por outras que pareçam mais convenientes num momento determinado;
- a recusa da tentação de adaptar sempre leituras breves (um texto breve nem sempre é o mais inteligível). O princípio seria: “todo depende do proveito espiritual que a leitura possa proporcionar-lhes" (DMC 44);
- a recusa da tentação de paralela e simultaneamente ir explicando o texto bíblico (há o perigo da confusão entre o que diz a Palavra e o que dizemos nós; para superar esta dificuldade usem-se traduções pedagogicamente preparadas e adaptadas). (DMC 45).


No canto entre as leituras, permitem-se também algumas adaptações:
- no caso do salmo, escolha-se salmo e melodia simples, mas que seja de verdade um salmo e não um canto qualquer; que se cante pelo menos o refrão e que seja ressonância do tema central da primeira leitura escolhida; no caso de ser deveras impossível encontrar nenhum salmo ou refrão, pode cantar-se outro canto a modo de salmo, mas com intenção (melódica e textual) de aprofundar o tema da leitura anterior;
- sugere-se o canto do “Aleluia com versículo” (embora nos pareça legítimo suprimir o versículo já que o Aleluia é canto de aclamação e não de meditação);
- sugere-se que, uma vez por outra, depois da primeira leitura se siga somente um momento;
- sugere-se ainda que se prepare um canto adequado para depois da homilia. (DMC 46).


A Palavra de Deus não atua sempre automaticamente. É preciso “ajudar” a Palavra (como se pode inferir da parábola do semeador). O Missal oferece alguns recursos (pedagógicos) para a Missa com crianças:
- a monição antes da proclamação da leitura (a modo de apresentação e ambientação);
- a leitura “dialogada”.


Outras ajudas pedagógicas podem ser:
- o cuidar do lugar da proclamação (o ambão e o livro);
- a procissão para o Evangelho;
- uma boa proclamação: preparada, serena, expressiva;
- uma encenação: sóbria, que não necessite demasiada preparação nem aparato;
- a meditação (e/ou homilia) com imagens que ajudem à compreensão da leitura; (DMC
47).

A Homilia não deve faltar nunca na Missa com crianças. Duas notas apenas: a homilia, na Missa com crianças, pode ser feita por um leigo (devidamente preparado e autorizado pelo presidente da celebração); pode ser dialogada. (DMC 48).


As grandes atitudes da eucaristia

A iniciação eucarística supõe a introdução às grandes atitudes que constituem o conteúdo da Eucaristia (e que se enumeram no Diretório, nº 9 e 13) e que são:

a) REUNIMO-NOS com outros para celebrar;
b) ESCUTAMOS A PALAVRA que Deus nos dirige;
c) DAMOS GRAÇAS e bendizemos a Deus (a atitude básica da Oração eucarística);
d) RECORDAMOS E OFERECEMOS o sacrifício de Cristo na cruz (a atitude básica da Oração eucarística);
d) RECORDAMOS E OFERECEMOS o sacrifício de Cristo na cruz (a Eucaristia é memorial da Morte Pascal de Cristo. As crianças sabem o que é oferecer, e podem passar, com a oportuna orientação, do terreno familiar e social ao eucarístico);
e) COMEMOS E BEBEMOS juntos a Eucaristia;
f) DESPEDIMO-NOS mais comprometidos com Cristo e com os outros.

Em síntese, a meta da educação eucarística não é para a sua Missa, mas para a Missa da
Comunidade e a pertença à Igreja. Esta educação será progressiva e abarcará o ambiente
(mais amável, mais acolhedor, próximo, festivo), a pessoa do presidente, a linguagem as
orações, a valorização do audiovisual. Esta adaptação psicológica suporá uma simplificação de alguns elementos (reduzir leituras, omitir algum rito de entrada, etc.); e sobretudo buscará uma participação mais ativa (na homilia, nas aclamações, no canto e nos ministérios...).


Adaptado do Texto do Secretariado da Educação Cristã da Infância e Adolescência, Porto – Portugal, por Ângela Rocha.

Para saber mais:

LLIGADAS, Josep. La Eucaristia com los niños. CPL, Barcelona 1993.
LOZANO, Isidro e ANDIÓN, Juan. Celebraciones com niños. Editorial CCS, Madrid,
1996.
ALDAZÁBAL, José. Celebrar la Eucaristía con niños. Dossier CPL 20, Barcelona,
1997.

Adaptado do Texto do Secretariado da Educação Cristã da Infância e Adolescência, Porto – Portugal.

Ângela Rocha

SEGUIDORES DO CATEQUISTAS EM FORMAÇÃO